sexta-feira, 1 de maio de 2009

101 anos de Adail Bento Costa

O Casarão 2 assim é denominado pelos técnicos municipais por ficar na praça Coronel Pedro Osório nº 2, mas seu nome formal é Casa de Cultura Adail Bento Costa. Funciona como sede da Secretaria de Cultura, que o utiliza também para exposições e eventos esporádicos; o mais notório foi o lançamento do livro "Satolep", de Vítor Ramil, em 2008.

A denominação homenageia o pintor e restaurador pelotense, nascido em 10 de maio de 1908, que iniciou a restauração deste prédio, residência no século XVIII de José Antônio Moreira, o Barão de Butuí.
Num dos quartos do casarão habilitou-se parte da mobília de Adail, sugerindo que ele tivesse morado ali (não foi o caso). Na verdade, ele lutou pela recuperação do prédio, que na década de 1970 estava em total abandono. Liderou o início dos trabalhos, mas veio a falecer meses depois, em 15 de junho de 1980. A inauguração só veio ocorrer em 2005... sim, 25 anos depois.
O desejo de Adail era que a casa fosse um Museu de Arte, o que não se realizou completamente, até hoje. O mais próximo disso que existe na casa é este quarto com objetos que pertenceram a ele, um esboço de memorial de sua pessoa, o que parece acanhado em relação à altura e merecimentos do artista.
A mobília inclui uma cama estilo Dona Maria I, em jacarandá (acima à dir.), dois pequenos consolos, dois móveis com gavetas e uma mesinha de jogo com abas em jacarandá e pau-marfim. Nas paredes, um autorretrato (abaixo) e uma paisagem do Monte Bonito, assinada por ele.
Sobre um dos móveis (esq.), uma escultura da cabeça do artista e uma folha plastificada contendo uma pequena biografia. Mesmo com os dados à mão, ninguém lembrou em maio de 2008 que se cumpria o centenário de Adail. Transcrevo alguns trechos:

Filho de Manuel da Luz Costa e Hermídia Hortência Bento Costa. Formou-se em Pintura no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, sendo discípulo de Theco Francis Pelichek. Viajou pela Europa para aperfeiçoar seus estudos.
Fez inúmeras exposições em Pelotas, desde 1933. Em 1935, inaugura exposição em Montevidéu com 25 telas. Em 1940, no intuito de conquistar mais mercado para sua arte, vai para o Rio de Janeiro e em Cabo Frio busca inspiração, nascendo daí uma vertente para a restauração de prédios históricos.
Restaurou as capelas da Beneficência Portuguesa, do Asilo de Mendigos e da Estância dos Prazeres, além da Matriz de Canguçu, o que lhe rendeu o título de Cidadão Canguçuense. Também trabalhou no projeto e decoração do Clube Comercial, do Clube Brilhante, do Oásis Praia Clube e da sede da União Gaúcha João Simões Lopes.
Entre imagens, objetos litúrgicos, quadros e diversas objetos de arte, Adail restaurou 2043 peças. Deixou para o município de Pelotas sua coleção de antiguidades, para ser exposta no que sonhava constituir como Museu, o Casarão 2 restaurado. Parte dessa coleção se encontra hoje exposta no Museu da Baronesa, cuja restauração ele mesmo projetou e executou, há exatamente trinta anos.
Fotos de F. A. Vidal.

6 comentários:

Anônimo disse...

Excelente matéria lembrando os 101 anos de Adail Bento Costa, um de nossos mais ilustres e competentes artistas. Parabéns!

Manoel Soares Magalhães

Anônimo disse...

É difícil definir o que é mais escandaloso em Pelotas: a (aparente)amnésia coletiva, ou o ridículo e covarde pudor de denunciar que esse indivíduo, ora homenageado dando seu nome ao Centro Cultural, cometeu um rosário de crimes de lesa-arte na cidade. Menciono apenas os três principais.

Teatro Guarany: encobrimento da abóbada da sala, que possuía cenas da ópera-título pintadas, com o atual horrendo forro, de onde emerge apenas a extremidade do grande lustre. Além de essa "obra" ter diminuído em muito o número de lugares da "geral", liquidou com a acústica do Teatro. Para completar, a pintura mural do saguão, com motivos florais, como se pode ver em fotos antigas, foi coberta de vermelho de vermelho. É preciso ressaltar que tais atrocidades artísticas foram cometidas com anuência da família proprietária do Teatro.

Capela de S. Pedro da Beneficência: essa igreja, entre a década de 1920 e 1960 sofrera acréscimos de pinturas murais - a bem da verdade, sem valor artístico - e um grande dossel sobre o altar-mor. Adail removeu o dossel e, após ter coberto de branco as ditas pinturas, decorou a meia-abóbada da ábside da capela-mor com anjinhos (melhor diria, "cupidos") de gosto duvidoso. O ponto central desse caso, porém, é que, provavelmente, em pagamento do "serviço", a capela foi saqueada de grande número de preciosas imagens, que o "artista", ao que se sabe, costumava vender no mercado de antiguidades do Rio e São Paulo, aproveitando a fúria modernizadora e demolidora que dominou a Igreja Católica no Brasil após o Concílio Vaticano II, sem nenhum respeito ao sentimento religioso popular (vejam-se, em Pelotas, a demolição da velha Igreja da Luz, e dos altares, imagens e pintura mural da Igreja do Porto, por obra, à época, dos Padres José Schramm e Florêncio Lunelli, respectivamente, ambos vivos e que não terão coragem de nega-lo). A Beneficência possui fotografias do "antes" e do "depois" da reforma.

O maior crime artístico de Adail Bento Costa, porém, foi cobrir de tinta branca os magníficos painéis e arabescos em folha de ouro que adornavam as paredes da capela de N. Sra. da Conceição do Asilo de Órfãs, executadas na primeira década do século XX por um artista franciscano alemão - provavelmente o mesmo que executou as pinturas da Igreja do Senhor Bom Jesus, em Curitiba, pertencente a essa mesma Ordem, infelizmente muito mal restauradas, melhor dizendo, retocadas. No famoso Álbum de Pelotas de 1922, e no "Almanach de Pelotas" do mesmo ano, editado por Florentino Paradeda, encontram-se fotos do interior da capela, posteriormente reproduzidas em um dos primeiros números do "Pelotas Memória" de Nelson Nobre. Infelizmente não há nitidez suficiente para se identificarem detalhes nesses velhos clichês; a instituição certamente terá fotografias originais. O caso da Capela da Conceição, cujas pinturas estavam sofrendo deterioração pela umidade, só mostram que o "ilustre e competente artista" só tinha como regra destruir ou deformar o que não tinha real capacidade para restaurar, além de aproveitar-se da ignorância alheia para beneficiar-se finaceiramente, como no caso citado da Beneficência, onde o valor das obras dadas em pagamento certamente superava em dezenas de vezes os honorários relativos ao serviço "artístico".

Francisco Antônio Vidal disse...

Dada a importância e precisão das denúncias, irei pesquisando sobre essa deterioração do patrimônio. Creio que quando há anuência do poder público e dos proprietários privados, fica mais difícil tipificar um crime contra o patrimônio, mas a verdade terá que impor-se, com o tempo.

Anônimo disse...

Devo justificar algumas afirmações talvez "passionais" no comentário acima, onde o termo "crime" não foi, obviamente, empregado em sentido jurídico. A destruição do patrimônio citado, pela consciência que se tem hoje do valor cultural, mais que artístico, desses bens, causa horror e revolta. Há, porém, aqui, três questões em jogo que, como se costuma dizer, explicam, ainda que não justifiquem o caso.

A primeira foi a euforia "modernizadora" generalizada e oriunda, em parte, das teorias dos intelectuais em arte e arquitetura do momento, e, por outro lado, da inconsciente necessidade de negar um universo de valores sociais, morais, religiosos, representados simbolicamente nesses bens.

A segunda, o critério da época acerca do que fosse valor patrimonial histórico e artístico, assim como os de restauração. Veja-se o caso do Teatro Guarany. Não obstante a sua imponência, as pinturas murais estavam, de fato, longe de ser obras-primas, como se pode constatar pelas que restam. Tampouco poderiam se considerar uma antiguidade, em um teatro que, então, tinha pouco mais de quarenta anos. Eram vistas, talvez, como uma mera cafonice ingênua. Diga-se o mesmo da capela da Beneficência. No "Álbum" de 1922, ela aparece totalmente branca, tendo, por trás do belíssimo Calvário do altar-mor, um painel pintado, como um cenário, à guisa de retábulo. A dar uma interpretação benévola à atuação de Bento Costa, ele talvez tivesse a intenção de devolver-lhe o aspecto original, prática incentivada pelo IPHAN desde os anos 40, quando foram removidos acréscimos realizados ao longo da História em várias igrejas barrocas - critério hoje qustionado por alguns. Tanto mais que, a bem da verdade, as pinturas eram bastante grosseiras, destoando da beleza da imaginária sacra da capela, talvez a melhor de Pelotas enquanto conjunto. Não obstante, Adail alterou totalmente as janelas da igreja, removeu altares originais, e deu sumiço em pelo menos oito imagens. Presumo que esse desaparecimento tenha acontecido em pagamento de serviço porque já ouvi testemunhos de que era prática sua, como aconteceu no Clube Comercial, também reformado por ele, de onde desapareceu um gigantesco vitral representando a alegoria da "Sagração da Primavera". O clube possuía, ao menos até alguns anos atrás, todas as intervenções documentadas em arquivo. Essa questão de ponto de vista acerca de valor em patrimônio histórico foi a mesma que levou, com a melhor das intenções, o bispo D. Joaquim Ferreira de Mello, no início da década de 30 mandar destruir o interior rococó-neoclássico da antiga Catedral, para ampliação do espaço, substituido os altares laterais, de belíssima talha dourada, pelos atuais, de mármore e quase todos de péssimo gosto - mas que eram "novidade" e representavam um certo "luxo", assim como os vitrais, da mesma época. O projeto, entretanto, não pôde ser acabado, resultando num horrendo "galpão branco", que só teve solução, por iniciativa de D. Antonio Zattera, com a construção da cúpula, a importação do atual altar-mor e a intervenção de Locatelli, cujas pinturas agora só se podem apreciar, ou na penumbra, ou tonalizadas de amarelo pelo "genial" último projeto luminotécnico - o que prova que a raça dos "Adaís" não morre... D. Joaquim e os padres seus principais assessores, homens cultíssimos, eram oriundos do Ceará, Pernambuco, Bahia, ou seja, de um Brasil barroco de 400 anos. Ao se depararem com uma igreja eclética, então com apenas 60 anos, e pequena para as necessidades dos fiéis, não hesitaram em demoli-la. Quem quiser conferir as duas "fases" anteriores da Catedral, busque fotos da primeira no "Pelotas Memória" e, da segunda, no livro "Memorial do Colégio Gonzaga", publicado por ocasião do centenário do mesmo que, diga-se de passagem, também teve sua bela fachada e capela destruídas pela "modernização".

Chega-se, assim, ao terceiro ponto, que é a inegável e totalmente compreensível "espertalhonice" de Adail Bento Costa. Diante dos critérios de conservação e restauro vigentes à época; do afã reformador dos próprios proprietários e responsáveis pelo patrimônio em questão e, sobretudo, diante da própria necessidade de sobreviver financeiramente e "manter a pose" perante uma sociedade contra a qual talvez tivesse vários rancores ocultos, o "artista" não teve o menor pudor em agir como agiu. Se, a partir de seus critérios, lutou pela preservação do casarão que leva seu nome e do conjunto arquitetônico daquele quarteirão, honra ao mérito. O que não se pode é mascarar a História e deixar cair no esquecimento um patrimônio de inegável valor e perfeitamente restaurável, como é a capela do Asilo de Órfãs, por exemplo.

Francisco Antônio Vidal disse...

Se Adail tinha seus ressentimentos, também a sociedade teria seus arrependimentos e queria fazer-lhe "concessões" (hoje inaceitáveis).
Creio que o restaurador agiu dentro do que o contexto da época lhe permitiu, sendo um instrumento da sociedade para "restaurar" o patrimônio (na verdade, reconstituir à sua maneira, destruindo em parte). Menos mal que não se destruiu todo, como o sobradão Duarte na Av.Brasil, do qual tenho fotos que logo postarei aqui.
Ainda um detalhe, para honrar a verdade: o brilho que se vê do lado esquerdo no autorretrato de Adail (provavelmente da década de 40) é um efeito involuntário por reflexo do flash, e não faz parte da obra.

Anônimo disse...

NOTA;
ADAIL BENTO COSTA ERA NETO DO CASAL ANTONIO JOAQUIM BENTO, HOJE NOME DO TEATRO MUNICIPAL DE CANGUÇU E DE IZABEL VAZ BENTO .FOI O PROJETISTA E ARQUITETO QUE DIRIGIU A CONSTRUÇÃO ESTILO COLONIAL DA RESIDENCIA DE SEU PRIMO JOSE MOREIRA BENTO, FILHO DE SEU PRIMO IRMÃO CONRADO ERNANI BENTO..PESQUISEI E REGISTREI OBJETOS DE SEU MUSEU PARTICULAR E QUE CONSTAM DE VOLUMES CONTENTO BOLETINS DE PESQUISA EM 1972 PARA A COMISSÃO DE HISTÓRIA DO EXERCITO