terça-feira, 30 de março de 2010

Cotada, uma viagem no tempo

― Vou pra Cotada ― falei ao taxista. Seu silêncio e olhar fixo me disseram que eu devia esclarecer algo. ― Aquele que era o antigo prédio da Cotada, sabe?

― Ah bom, agora o senhor me deu um susto! Cheguei a pensar por um momento que...

― Pois é, a Cotada não reabriu, não.

Enquanto guiava, o moço, de uns quarenta e tantos, me perguntou o que tinha sido daquele prédio, mostrando não saber das mudanças. Expliquei que a UFPel tinha comprado esse e outros prédios. Ele tinha ouvido falar nisso, mas parecia morar em outra cidade.
Pelotas é imensa, mesmo. O bairro do Porto, por exemplo, fica a uns 50 anos do centro histórico. A corrida sai uns dez reais, mas o trajeto é espaço-temporal.
Ao chegar lá, o impacto emocional de estar diante da velha Cotada transportou o transportista a sua infância e ele revelou em parte o que tinha pensado com aquela minha primeira frase.

― Fazia muito tempo que eu não vinha aqui... Sabe, é que meu pai trabalhou na Cotada, quando eu era criança. Mal me lembro, disso já faz uns 35 anos. Parece que o dono era um chinês.

Muitos pelotenses realmente não se informam, mas este taxista, que trabalha nas ruas, nem tinha sabido da primeira ocupação simbólica da Cotada, em novembro passado (Arte no Porto III). Já era janeiro de 2010 e estava realizando-se a segunda grande exposição ali, com desenhos de humor e artes relacionadas com o desenho gráfico (Ecletipofaces). Mal sabíamos que os artistas da UFPel estavam pensando numa terceira, para os últimos dias de março, a Recotada.

Aos poucos a cidade vai sendo remexida, mesmo que simbolicamente, e enriquecendo seu capital cultural.
Foto de F. A. Vidal

Um comentário:

Lauro Dieckmann disse...

eu também sou do tempo em que o cotada, de vida breve, funcionava.