terça-feira, 29 de junho de 2010

Nova igreja em velha sala

O espaço que durante 35 anos serviu como sala de espetáculos para o Cine Rádio Pelotense (leia nota), e em 2007 foi ocupado pelo supermercado Radtke, há alguns meses já não vende carne, açúcar e bebidas. A empresa comercial pelotense precisou fechar todos os locais de sua rede, apesar de seus preços convenientes e deste imaginativo local que, durante três anos, pôde chamar-se "cine Radtke Pelotense".

O anúncio ao lado encontrava-se na mesma porta onde hoje se lê: "Jesus Cristo é o Leão da Tribo de Judá". Nem pipocas nem sorvete; no prédio da Rádio Pelotense, somente se oferecem orações da Igreja Apostólica da Paz, em cultos que ainda não são diários.

Pesquisas na internet mostram que se trata de uma denominação brasileira ligada à Assembleia de Deus. O Google não dá referência alguma para "Igreja Internacional Apostólica da Paz".
Fotos de F. A. Vidal

POST DATA 
Dezembro de 2012
O Google informa de um show com Elaine Martins realizado nesta sala (v. anúncio).
Em maio de 2012, o vereador José Sizenando propôs declarar esta igreja como sendo "de utilidade pública" (protocolo 2440-2012). O plenário aprovou por unanimidade em 1 de agosto (veja nota da Câmara e o texto da lei 5942).
Janeiro de 2013
O velho cinema está fechado de novo. Este ano a igreja citada passou a funcionar na rua Daniel Capdebosco nº 120, bairro Três Vendas. 
Novembro de 2014
Por alguns meses, o prédio funcionou como estacionamento. Este ano, com a implantação da Zona Azul (pagamento por horas de estacionamento rotativo na área central), o lugar fechou novamente. No mesmo ano, a Rádio Pelotense mudou-se e o prédio se encontra totalmente abandonado. 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Enchente de 1941 em Pelotas

No outono de 1941, três semanas de chuvas no Rio Grande do Sul causaram enchentes que até hoje a população lembra como um desastre, em várias cidades do Estado. Em Porto Alegre, o Guaíba subiu, inundando todo o centro até a Avenida Farrapos (leia relato). Os meteorologistas dizem que essa foi a maior manifestação, no século XX, do fenômeno El Niño (leia análise). Em 2009, Rafael Guimaraens escreveu um livro que relata a tragédia, em que um quarto da população ficou desabrigada (leia reportagem).

O único documento - acessível pelo Google - que menciona esta enchente em nossa cidade é a tese "De fontes e aguadeiros a penas d'água: reflexões sobre o sistema de abastecimento de água e as transformações da arquitetura residencial do final do século XIX em Pelotas", de Aline Montagna da Silveira, doutora em Arquitetura pela USP (2009). Neste estudo, três fotos mostram a Praça Domingos Rodrigues e a Rua Benjamin Constant totalmente cobertas pelas águas do canal São Gonçalo, isolando a Alfândega e o Porto.

Por sua baixa altitude e grande umidade, Pelotas está muito exposta a inundações, que (talvez por ser cíclicas?) não geram muitos estudos ou reportagens. Fotos compiladas por Nelson Nobre Magalhães mostram que as águas chegaram até a Rua Almirante Barroso e a parte mais baixa da Gonçalves Chaves. Não há menção de outras zonas alagadas, além da Várzea. As imagens digitalizadas foram vertidas pela TV UCPel a um minivídeo que informa deste acontecimento.

video

domingo, 27 de junho de 2010

Ruínas urbanas

Numa cidade em progressivo empobrecimento, são mais as casas em ruínas do que as bem conservadas ou as recém construídas. Em Pelotas, a falta de recursos para construir e preservar deixa alguns terrenos abandonados por seus donos, expostos ao vandalismo e à intempérie.
A casa acima, no bairro do Porto, só manteve parte da fachada, sem telhado, com o espaço das janelas introspectivamente preenchido com tijolos.
A imagem abaixo, de uma zona mais nobre, mostra abertamente o vazio total, sem mais obstáculos que um elegante portão transparente.

O expressionismo visual e a composição da "pintura sonora"

Em fevereiro passado, o compositor Jorge Meletti ensinou um conceito utilizado na criação de trilhas sonoras: o mickeymousing (veja o post).

Trata-se de uma técnica de composição para cinema - não somente de desenhos animados - em que a música imita a cena: às vezes detalhadamente, de forma sincronizada com ações dos personagens, outras vezes imitando a cena de forma geral, no seu caráter como um todo. Começou a ser usada nos primeiros curtas de animação de Disney, e com o tempo foi incorporada pelos compositores nos mais variados gêneros de filmes.

Um dos exemplos - do filme Pollock (2000) - foi gentilmente disponibilizado pelo professor e se transformou em minha primeira postagem no portal YouTube. Nesse trecho, o pintor expressionista norte-americano Paul Jackson Pollock (1912-1956) - representado no filme pelo ator-diretor Ed Harris - faz um mural abstrato, após algumas semanas de refletir e olhar para uma parede vazia.

Veja como a música ilustra as imagens, com precisão formal e abundância de significados. O compositor Jeff Beal cria conexões entre os timbres instrumentais e as cores de tinta. Textura, orquestração e gestos musicais aparecem em estreita relação com as ações físicas do artista. Um sofisticado exemplo de mickeymousing.


    • O ataque gentil e brilhante da percussão em 0:09, facilmente associável à faísca criativa na mente do artista, ao olhar a tela em branco.
    • As arcadas rápidas e enérgicas nas cordas agudas acompanham as primeiras pinceladas do artista em 0:14;
    • O oboé introduz a cor cinza em 0:50.
    • Os sons de percussão são associados ao amarelo em 1:12.
    • As melodias paralelas ilustram as onduladas linhas descendentes em preto e cinza em 0:57.
    • Os ataques instrumentais graves ilustram a tinta vermelha sendo atirada sobre a tela em 1:37.
    • Quando a pintura revela melhor sua exuberância de linhas, formas e cores, a música assume uma nova postura, com várias melodias simultâneas que dialogam em diversos timbres instrumentais: 1:55.
    • O momento em que a obra está mais acabada, e o artista pinta os últimos retoques, é sublinhado por uma mudança textural e pelo caráter musical menos improvisatório: 2:10.

    Assista e ouça atentamente, buscando outras relações música/imagem. Há muito mais.

    sexta-feira, 25 de junho de 2010

    Série Isla Negra

    Durante o mês de maio esteve exposta, na Sociedade Sigmund Freud, a série "Isla Negra", obras de artistas locais que haviam participado de uma exposição no Chile. A mostra marcou a chegada do médico Eduardo Devens à função de coordenador cultural, que na Sociedade organiza as exposições e uma palestra por mês.
    No Museu Pablo Neruda de Isla Negra - balneário na região de Valparaíso - apresentou-se em novembro de 2009 a 14ª edição do Circuito Internacional de Arte Brasileira, uma iniciativa do Colege Arte, entidade de Belo Horizonte que promove a arte brasileira. A curadora para nosso Estado é Norma Alves, artista plástica que também se fez presente como autora e na viagem ao Chile com o grupo de artistas.
    Isla Negra é uma pequena localidade às margens do Oceano Pacífico. Não é uma ilha, mas Pablo Neruda (1904-1973) assim batizou o lugar ao ver a paisagem solitária, cheia de recifes escuros. O nome sentimental se fez popular, e foi oficializado anos depois de o poeta haver ali construído uma nova casa, a última de suas habitações no Chile.

    Outro dado pouco conhecido é sobre o nome pelo qual se fez famoso mundialmente o professor de francês Ricardo Reyes Basoalto, nome de batismo do poeta. Há duas hipóteses (segundo a Wikipedia em espanhol): ainda adolescente, ele teria tomado o sobrenome do poeta tcheco Jan Neruda e acrescentou-lhe o prenome de sua preferência; ou teria visto uma partitura do compositor Pablo de Sarasate com dedicatória à violinista Wilme Norman-Neruda. Seja como for, o resultado foi tão sonoro como os versos que o mesmo poeta geraria. Neste caso, o pseudônimo poético também virou realidade (como a Isla Negra), pois foi legalizado como o nome do poeta em 1946 .

    Das 17 obras que ficaram expostas, nove são os autores: Maria Medeiros, Zé Darci (acima), Geovani Aldrighi, Liziane Fonseca (esq.), Edilaine Dutra, Rute Grillo, Norma Alves, Eduardo Devens e Maria Cristina Leonardo. Não se observou uma temática comum, nem sequer pelo lugar aonde elas se destinavam, exceto talvez por dois quadros: um que se referia a Pablo Neruda, de Aldrighi, e "Araucárias" de Cristina Leonardo, que alude às árvores mais comuns no Chile.
    Outros trabalhos à primeira vista não muito chamativos eram as fotografias de Norma Alves e de Eduardo Devens. Um olhar mais cuidadoso, com explicações adequadas, revelaria que não se tratava de imagens totalmente abstratas, mas de olhares minuciosos e inesperados sobre objetos cotidianos, registros somente possíveis para uma máquina de qualidade e uma visão humana atenta e bem-humorada.
    Em "Cores Primárias II" (dir.), Norma Alves mostra o fundo de uma taça de champanhe, com leves intervenções digitais. Se o copo já é objeto funcional, a fotógrafa mostrou o lado artístico do mesmo, escondido aos olhos de quem deseja beber algo espirituoso e o vê somente pelo lado de cima.
    Em "Ordem e Progresso" (esq.), Devens amplia uma simples bolinha de gude, desfazendo nossa ideia de pequenez, sem a menor alteração digital no resultado. A sutil alusão à infância nos remete à percepção de vivências pessoais talvez minúsculas, mas que na mente podem ter proporções gigantescas, alterando a ordem e o progresso psicológico.
    Imagens: E. Devens (1) e F. A. Vidal (2-5)

    quinta-feira, 24 de junho de 2010

    Operação Viagra (conto)

    Domingo (20), ficou autorizado comercializar o medicamento genérico do Viagra (leia notícia), e hoje (24) soube-se de um projeto que permitiria aos farmacêuticos receitar remédios (leia).
    Com esses motes, o cronista pelotense Rubens Amador nos traz um conto seu que foi escrito quando o Viagra havia saído à venda por primeira vez, em 2007.
    O grupo se reunia todos os dias na praça da cidade para jogar damas, em mesas de cimento que a municipalidade mandara fazer. Eram oito companheiros que durante os jogos conversavam sobre tudo. O último tema que andava em pauta era o Viagra.

    Reginato dizia maravilhas do produto, desde a vez que ganhara duas amostras de um médico para quem trabalhara de pedreiro. Apesar de seus 79 anos, teve oportunidade de testar o remédio, e, segundo ele, “com excelentes resultados”. Só falavam em Viagra e no seu preço. “Tem, e não temos!”, filosofava Xisto. Juca, carteiro aposentado, “broto” de 81, era o mais entusiasmado. Dizia que, quando recebesse o 13º, iria “lavar a égua”.

    – Estamos em janeiro – ironizava Ciríaco.

    O Guedes perguntava, ansioso, se em operado da próstata o Viagra dava ponto. Havia desencontradas opiniões. Jacó, 85, de muito boa saúde, era comunista e discursava:

    – Capitalismo é isto: a ciência fica ao serviço do lucro, e não oferece felicidade aos “cidadões” pelados como nós. O Estado deveria bancar a panaceia para os seus velhos. Rouba-se tanto! Cada ladrão do colarinho branco é causador da recessão sexual do velho!

    O mais soturno daqueles amigos só ouvia e observava. Perguntou para os demais:

    – Que tal a gente fazer um assalto a uma drogaria e roubar todo o Viagra do estoque?

    Todos riram. Ele repetiu:

    – Estou falando sério. Cada um de nós tem uma profissão. Por exemplo, caberia ao Juca, que era chaveiro, a micha. O Limeira, ex-eletricista, tomaria conta da energia. Que acham?

    Houve uma pausa entre todos e passaram a pensar sério. O Guedes disse:

    – Acho uma boa. Já pensaram: mil Viagras para cada um?

    Jonas atalhou:

    – A gente ia remoçar.

    Duas da manhã. Os oito amigos já estavam com a porta da drogaria aberta. O eletricista desligou os alarmes. O Xisto espreitava na esquina. Cada um tinha uma tarefa. Ao Pompílio, 82, ex-guarda-livros, e o mais escolarizado de todos (1ª série ginasial) caberia a tarefa de, uma vez tudo pronto, entrar no depósito da drogaria e roubar todas as caixas de Viagra, que iria alcançando aos demais.

    Uma velha Brasília, com o imposto vencido e má de chapa, transportaria a carga preciosa. O segredo todo estava no tempo. Como em “Rififi”, o famoso filme francês. Não havia tempo a perder.

    Acendida a lanterna que avisava Pompílio do momento de ele entrar em cena, este dirigiu-se, quase correndo, entrando na drogaria com o dedo nos lábios: Silêncio! Foi indo pé ante pé, até que chegou ao interior do depósito.

    Ali ele ficou maravilhado vendo aqueles milhares de remédios em prateleiras muito bem arrumadas. O assaltante calouro ficou extasiado ante tanto medicamento. Lembrou-se dos parentes doentes; da asma da mulher do Xisto; dos enfermos lá da vila; da sua Digoxina.

    Os companheiros tremiam ante a demora do Pompílio. Pega e vem! – ouviu alguém balbuciar. Aí como que acordou, ante aquela fartura toda, e lembrou-se do assalto. O assalto! Olhou para uma pilha de caixas. Ao lado tinha outra, e outra... confundiu-se... olhava para a porta da frente e voltava a olhar às pilhas de medicamentos, suando. Fazia um tremendo esforço e não lembrava do nome do remédio que tinha ido buscar. Desistiu. Retornou meio envergonhado, e disse entre dentes:

    – Esqueci o nome...

    Limeira olhou o relógio e gritou:

    – Prá Brasília!

    Deu um negócio neles, e cada um queria entrar primeiro. Fugiram. No outro dia, fingiam que jogavam damas, na praça, para não despertar suspeitas. Ninguém falava. Ninguém se olhava. Os jornais mancheteavam:

    Drogaria arrombada, mas intacta

    Pompílio, em casa, arrasado, de duas em duas horas tomava uma colherinha de Memoriol, que o namorado de uma neta sua – empregado de farmácia – lhe “receitara”, a pedido seu.

    Imagens da web (2-5) e Corredor Arte (1)

    Fachada da Confeitaria Nogueira

    No período da Fenadoce, o Quiosque de Nelson Nobre esteve mostrando anúncios comerciais e fotos de confeitarias e padarias de Pelotas.

    Uma das imagens é da antiga Padaria e Confeitaria Nogueira, cujo prédio ainda existe, modificado, exatamente defronte ao quiosque (abaixo à esq.).

    Na foto (esq.), sem data, seu dono supervisiona a colocação do toldo, possivelmente no dia da abertura.
    Por um lado, essa cobertura verde protegia da chuva ou sol, facilitando que os clientes olhassem as vitrines; por outro, dificultava a visão dos traços arquitetônicos.

    Com o tempo, a Nogueira abriu uma lancheria no seu interior (dir.), como se a venda de pão não estivesse sendo suficiente para manter o negócio. O pão da Nogueira era um produto da melhor qualidade, sem o famoso bromato, que baixava os custos mas deixava os pães farinhentos, sem gosto e sem consistência.

    Finalmente, a padaria fechou e o local físico ficou em mãos da cooperativa de doceiras de Pelotas, também por uns anos. O nome antigo, sem dono legal, foi reutilizado pelo Restaurante e Confeitaria Nogueira (Osório 1151), que oferece almoço na balança e jantar com música ao vivo.
    Imagens: F. A. Vidal

    quarta-feira, 23 de junho de 2010

    Pinturas sobre vidro, de Renato Pâncaro

    Renato Badoglio Pâncaro era mais um apreciador de museus e galerias de arte em Pelotas, Bagé e Rio Grande, como milhares de pessoas, mas foi só aos 63 anos que escolheu iniciar sua própria produção.

    Em 2002, Renato se preparava para uma cirurgia simples, e descobriu um câncer no pulmão. Operado no Hospital Escola, ficou curado e se motivou para o que sempre havia querido: estudar arte, tudo por conta própria. Experimentou com diferentes materiais, e obteve um resultado que o deixou contente, utilizando verniz vitral e esmalte vitral, tintas especiais para pintura em vidro. Algumas das obras são releituras de outros autores, sendo algumas de sua própria criação.
    As pinturas são sobrepostas em um, ou dois vidros e ainda recebem um outro vidro antirreflexo. Tudo em grandes dimensões e finalizado com molduras que estruturam e harmonizam o conjunto. O resultado é visualmente complexo: a transparência e a luminosidade dos vidros se misturam com a cor da parede, além de proporcionar um efeito de três dimensões.

    Finalmente, ele vem expor suas obras justamente no Corredor Arte, o projeto de saúde mental do mesmo hospital que o acolheu na doença. Sua satisfação parece maior com o retorno ao lugar de cura, do que com as próprias obras. “Não há como separar minha gratidão à FAU do meu trabalho, pois ele é uma consequência. Minhas telas são como pequenas fatias de felicidade que se desprendem da minha alegria de viver”, comenta. As obras ficaram até ontem no Corredor.
    Imagens: Corredor Arte

    terça-feira, 22 de junho de 2010

    Sinal aberto para o futuro

    Vi hoje a lua cheia fazendo jogo com um semáforo (aqui chamado "sinaleira"), na esquina da Félix da Cunha com Princesa Isabel.

    Nada mais cotidiano que ver sinalizações urbanas ou o céu noturno, mas neste caso a graça foi dada pelos conteúdos semânticos em conjunção com a lua: o da luz verde e o da flecha reta.

    Em cruzamentos, esta flecha significa que os veículos somente podem seguir em diante, sem dobrar. A lua interpondo-se sugeria que o destino seria o infinito (ou, pelo menos, o satélite a 300 mil km). O trio dizia: Licença para subir, sem limites nem desviações.

    O simbolismo me remeteu à história de Fernão Capelo Gaivota (veja post).
    Foto de F. A. Vidal

    Cubismo urbano, pinturas com spray

    Até sexta passada (18), André Winn expôs na Galeria de Arte da UCPel uma série de pinturas intitulada "Cubismo Urbano", conceito que mistura técnicas e ideias artísticas bem diversas.

    Do fovismo francês, o artista toma as cores puras, vibrantes, instintivas, exaltadas por si mesmas. Do cubismo sintético de Picasso, vemos o modelamento das linhas, num geometrismo mais livre.

    Em depoimento à reportagem da UCPel (leia nota), André também informa influência do expressionismo. Todos esses movimentos artísticos se desenvolveram entre fins do século XIX e início do século XX. Por outro lado, a predominância de formas femininas nas telas evoca uma inspiração na antiga arte egípcia.

    Quanto às técnicas, o artista usa basicamente o spray, material à base de óleo, típico das artes de rua, como o graffiti (às vezes aportuguesado para "grafite"). Ao agredir o suporte e permitir o escorrer da tinta, o jato do spray imprime dramaticidade e movimento à composição. Outro material aqui usado é o pincel atômico, também contemporâneo.

    A fusão entre estilos modernistas elaborados - especialmente o cubismo de Picasso, de inícios do século XX - e a técnica contemporânea do spray, de sentido primitivo, resultou no "cubismo urbano" de André Winn.

    É um ecletismo que, reunindo o não acadêmico da arte, pretende resgatar o seu sentido revolucionário ou, pelo menos, expressar ingredientes humanos tão extremos como o intelectualismo e a rebeldia. A atitude oposicionista se revela aqui ao escolher elementos que se contradizem.

    As 23 obras aqui espostas são fruto da inspiração ocorrida nas primeiras horas de 2010. Com o impulso da virada do ano e a esperança de um novo caminho aberto, André criou todos estes desenhos, num bom exercício prático e teórico.

    Natural de São Lourenço do Sul, André formou-se em Programação Visual pelo CEFET e atualmente estuda no 3º semestre da Licenciatura em Artes da UFPel. Outra proposta sua esteve em exposição numa sala da SeCult, há uns dias (veja nota).

    A expressão "cubismo urbano" não havia sido usada na pintura até agora, pois ela remete à arquitetura por ambos lados: diretamente, pela palavra "urbano" e indiretamente pelas artes plásticas (pois não há cubismo rural). Uma denominação mais própria para esta expressão pictórica seria "neocubismo" ou "pós-cubismo".

    A própria Galeria de Arte da UCPel (esq.) tem um aspecto geométrico, com um longo biombo metálico. Somente a visão conjunta de pessoas e obras de arte alivia a aparência asfixiante das vigas verticais. Neste caso, ao representar pessoas de modo semiabstrato as obras de André Winn (dir.) fazem uma boa ponte entre a rigidez da cenografia e a humanidade biológica dos espectadores.
    Imagens: F. A. Vidal (1-3) e UCPel (4)

    segunda-feira, 21 de junho de 2010

    Início de um longo inverno em Pelotas

    Ao alcançarmos a ponte de ferro sobre o Canal de São Gonçalo, o passageiro que viajava ao meu lado apontou para a paisagem das cercanias – clara em toda a sua extensão, ainda que uma névoa rasteira começasse a se formar em alguns pontos –, a superfície espelhada que íamos transpor, o verde regular da pastagem na margem direita, o pontilhismo de uma pequena manada, a face e o perfil dos prédios destacados contra o céu oriental, e disse:

    — O frio geometriza as coisas.
    Satolep, de Vítor Ramil
    Cosac Naify, 2008, p. 20
    Foto de Rafael Amaral (sítio da Prefeitura)

    Tudo pára quando eu vejo futebol

    Como tem sido costume em cada Copa do Mundo após o tetracampeonato em 1994, o povo brasileiro detém todas suas atividades – comerciais, profissionais, educacionais, familiares, religiosas, turísticas – e o pensamento da nação pretende ser uma só torcida para obter o hexa.

    Lojas, bancos, escolas, cinemas, museus, consultórios, universidades, tudo pára. Por duas horas se realiza aquele narcisismo absoluto - próprio de um ato amoroso - enaltecido pela música de Roberto Carlos: pára o bairro e a cidade, nessa hora tão feliz, e é tanto o amor que pára até o país (ouça a música).

    Em Pelotas, a Fenadoce adiantou seu período para não perder visitantes, sinalizando sua função lucrativa e o perigo econômico da Copa. Há quatro anos, a Feira do Doce havia coincidido com os jogos na Alemanha, mas terminou impondo-se a loucura mundial: o povo preferia torcer em casa, não nos telões da Feira.

    O primeiro jogo da seleção brasileira na África do Sul foi nesta terça (15), às 15h30min. Como se esperava, o comércio fechou e as ruas esvaziaram. Antigamente se dizia de algo arrasador, que era "de fechar o comércio", como aqueles bandidos arruaceiros de faroeste. Mas aqui nada havia de sensacional ou extraordinário; somente mais um jogo da seleção. A vítima desse perigo arrasador seria o próprio comércio.

    Fui ver como as lojas anunciavam seu forçoso ócio, a negação do negócio. A mais expressiva foi uma livraria da Marechal Floriano (acima), que tapou sua porta com uma grande bandeira brasileira. A razão do fechamento comercial foi patriótica, algo assim como a defesa da pátria. Mas se no Brasil houvesse respeito pelo símbolo nacional, pela ordem e pelo progresso, o futebol não seria tão poderoso.

    No Calçadão, a maioria das lojas fechou pelo resto do dia, enquanto a Renner e a Pompeia ficaram abertas e sem clientes. O museu mais importante de Pelotas, pertencente à UFPel, informou turno único das 8h às 14h (esq.), apesar de que o horário do Sistema Nacional de Museus inclui atendimento até em domingos.
    O Banco do Brasil também planejou e informou abertamente seu horário especial, das 9h às 14h. Nos Correios, o atendimento foi anunciado até as 15h, e as agências fecharam.
    Era um dia normal de semana, não havia motivo fúnebre, nem sequer de celebração alguma - somente havia que torcer.
    Talvez respeitando o valor supremo da saúde, várias farmácias não fecharam e, cheias de funcionários verde-amarelos, colocaram televisores perto da calçada, para que os transeuntes também pudessem torcer. A maioria dos ambulantes da Floriano sumiu do mapa, restando dois com uma TV ligada. Nesta imagem, um grupo da farmácia (comércio estabelecido) vê o jogo num televisor, enquanto camelôs veem o futebol em outro (dir.). Tolerância e indiferença mútua, como ocorre no dia-a-dia.
    Alguns locais e serviços reabriram após ver a partida dentro de seus locais de trabalho, como uma lotérica da Quinze de Novembro que afixou o cartaz que orientava possíveis (?) interessados: "reabriremos às 17:30" (esq.).
    A livraria defronte (dir.) simplesmente fechou, deixando à vista o cartaz de seus horários habituais, agora descumpridos (ninguém o leria e por isso mesmo ninguém se veria desorientado).
    A obsessão tem servido para fins diversos, como fugir do trabalho, faltar ao dentista, passear o cachorro (abaixo, a senhora com a camisa do Romário) e outras atividades igualmente solitárias. Cada um realiza seus fins pessoais, encoberto pelo egoísmo coletivo: aí está uma pequena definição de nossa tendência à corrupção. Um psicólogo diria: desaparição do superego construtivo, predomínio do prazer amoral.
    Nem o Brasil tinha este delírio coletivo, nem se sabe de países que parem todas suas atividades produtivas para não perder um jogo. Mas também nunca houve um país pentacampeão desejando ser hexa... como se precisasse do infantil sonho de ser "o melhor do mundo".
    Certo, é preferível enlouquecer pelo circo esportivo do que pela guerra contra o terrorismo (EUA), e por isso seguimos sendo o paraíso da festa, da gazeta e do oportunismo.
    Devo acrescentar que neste texto acentuei o verbo "pára" - ao contrário do que manda o novo acordo ortográfico - justamente para evitar as confusões geradas pela falta do signo.
    Fotos de F. A. Vidal

    Peixes e pescados

    A peixaria Estrela do Mar funciona no Mercado Público há muitos anos, pelo lado da Andrade Neves, e chama a atenção pela presença de um aquário com peixes vivos (dir.).

    Em geral, um aquário serve para atrair e manter a atenção dos clientes, do mesmo modo que o mico dos realejos e, modernamente, os televisores na fila do banco. Costuma haver aquários em lojas de mascotes e animais em geral, como a Fauna&Flora (veja post).

    Mas numa peixaria o mesmo elemento evoca outras associações, pois o aquário contém animais parecidos aos que se vendem (mortos) para consumo. Seria como instalar um açougue dentro de uma feira pecuária. Em certos portos onde há pescadores, os "frutos do mar" são escolhidos para consumo ali mesmo.

    O contraste traz à consciência que somos comedores de animais, e isso não nos parece muito chocante. Uma parte nossa gosta de ver e tocar os bichos se movendo, vivos, e outra gosta de abocanhá-los (amor e morte; espírito e instinto).

    A presença de peixes vivos numa peixaria fica como um chamariz duplo ao inconsciente humano, que - além de ver filmes sobre bichos - gostaria de ir caçá-los para alimentar-se deles. A força do mesmo fator se encontra na peixaria Aquarius (esq.), hoje fechada, defronte à Estrela do Mar.

    Questões linguísticas

    O caso também faz lembrar que em nosso idioma usamos a palavra "peixe" (do latim piscis) indiferentemente para o animal vivo em seu meio, e o mesmo que foi caçado para consumo. Em espanhol (pez e pescado, respectivamente), o mesmo bicho muda de nome, segundo o momento de observação. Mas em português é peixe antes e peixe depois.

    Ainda em português, temos o exemplo de "touro" e "boi": é o mesmo indivíduo, antes e depois da castração.

    Como contei em outra nota, piscina e aquário apresentam uma curiosa troca histórica (leia o post)
    • uma piscina era um viveiro de peixes que ficou como simples depósito de água (para humanos);
    • um aquário era um provedor ou depósito de água (para humanos) e ficou como viveiro de peixes.

    Nesta mistureba verbal, podemos acrescentar a peixaria: depósito de ex-peixes. Seu nome mais exato seria pescadaria (consta no Aurélio), venda de pescados.
    Fotos de F. A. Vidal

    domingo, 20 de junho de 2010

    Rua Yolanda Pereira

    A rua Sete, do Loteamento Simões Lopes (Jardim das Tradições), no bairro Três Vendas, passou a chamar-se rua Yolanda Pereira, numa homenagem à memória da pelotense que se consagrou pela beleza, chegando à conquista dos títulos de Miss Pelotas, Brasil e Universo.

    A iniciativa foi da vereadora progressista Diosma Nunes, através de projeto-de-lei, aprovado por unanimidade, que deu origem ao Decreto de denominação, de nº 455/08, da Câmara de Vereadores.

    O texto acima foi publicado no sítio da Câmara de Vereadores em 30 de junho de 2008, pela assessoria de imprensa de Diosma Nunes.
    Com a homenagem, a vereadora pretendia "atestar o reconhecimento dos pelotenses em relação a um de seus grandes patrimônios: a beleza feminina, que conferiu à miss as projeções nacional e internacional".
    A notícia anunciava as homenagens a Yolanda Pereira:
    • 2 de julho, 20:30: no Teatro Sete de Abril, entrega de placa a Homero Souto (filho da homenageada) e Antônio Carlos Niemczewski, proprietário do imóvel onde ela nasceu (dir.).
    • 4 de julho, 11h: fixação de placa na antiga residência de Yolanda Pereira, à praça José Bonifácio, nº 1.
    • 4 de julho, 14h: inauguração de placa na rua Sete, Loteamento Simões Lopes.
    No recorte de jornal (acima), vêem-se três fotos da Yolanda miss, aos 20 anos, e uma aos 82 anos.
    Fotos do sítio de Sérgio Souto

    Yolanda Pereira, 100 anos de nossa eterna Miss Universo

    Em 8 de setembro de 1930, o Jornal do Brasil noticiou sobre o Concurso Internacional de Beleza (leia nota), realizado pela primeira vez no Brasil - desde seu início em 1926 - país que também participava por primeira vez no concurso.

    A ganhadora foi uma brasileira, Yolanda Pereira, pelotense de 19 anos. No Rio de Janeiro, desfiles e glórias para a nação. Em Pelotas, bandas de música, foguetes e hasteamento da bandeira nacional para a filha emérita. A Princesa do Sul estava no início de sua decadência econômica mas não poupou festas e homenagens por esta vitória incrível.

    Segundo a Wikipédia (verbetes Yolanda Pereira e Miss Universo), o evento - que dava o título de Miss Universo - chamava-se Concurso (ou Desfile) Internacional de Beleza. O atual "Miss Universo" (com esse nome desde 1952) é ainda o maior no gênero e se inspira naquela versão antiga, iniciada em 1926 e interrompida em 1935, em função da depressão nos EUA e pela Segunda Guerra Mundial.
    A Miss Pelotas Yolanda Pereira também foi a primeira Miss Brasil, e a única brasileira a ganhar o título de Miss Universo naquela primeira fase do concurso. Nascida em 16 de outubro de 1910, Yolanda se definia como uma pessoa modesta, de hábitos e sentimentos religiosos arraigados. Estudou no Colégio São Francisco e estudou piano no Conservatório de Música de Pelotas.
    Após cumprir os deveres impostos pelo concurso, Yolanda voltou a Pelotas, e continuou a viver, como ela declarou, "com tanta modéstia quanto permitiu a evidência em que a colocou o concurso".
    A casa paterna, em que ela morou enquanto solteira, ainda existe e foi restaurada há alguns meses pelo novo dono, Antônio Carlos Niemczewski. Pai de Yolanda foi o leiloeiro Lydio Pereira, segundo informação do cronista Rubens Amador.
    Poucos anos depois do concurso, em 1936, Yolanda casou-se com o brigadeiro da Aeronáutica Homero Souto de Oliveira. Radicando-se no Rio de Janeiro, o casal teve quatro filhos: Homero, Vânia, Jane e Sérgio Souto de Oliveira. Na foto da Revista Manchete, em março de 1964 (abaixo), ela aparece aos 53 anos, com a recém-casada Vânia e com Jane, de 17 anos.
    Yolanda faleceu em setembro de 2001, aos 90 anos, no Rio. Cidadã Emérita de Pelotas, um monumento na praça Osório, em forma de coluna grega (esq.), recorda seu nome e sua "beleza grega" (foto tomada hoje, 20 de junho).
    Em outubro de 2010, ela faria 100 anos, mas não se preveem novas homenagens. Em 2008, a vereadora Diosma Nunes propôs a denominação de uma rua para Yolanda Pereira (veja nota).
    A Bibliotheca Pública Pelotense guarda, como símbolo da história da cidade, as faixas usadas por Yolanda Pereira - a primeira Miss Pelotas, a primeira Miss Rio Grande do Sul, a primeira Miss Brasil e a primeira brasileira a conquistar o título de Miss Universo.
    Em honra às mulheres pelotenses, o Quiosque de Nelson Nobre apresentou, em março de 2010, algumas reproduções de fotos de Yolanda Pereira, uma das quais é a imagem acima à direita. Homenagem parecida foi feita pelo próprio Nelson, anos antes (veja nota antiga do Diário Popular, 27-08-2003).
    O Ponto de Cultura da UCPel, que preserva e digitaliza o acervo de Nelson Nobre e administra o Quiosque, também gera material audiovisual em associação com a TV UCPel. Um dos curta-metragens criados é sobre a primeira Miss Universo brasileira, e nossa eterna Miss Universo (abaixo).
    Fotos: F. A. Vidal (3-4) e sítio de Sérgio Souto

    video

    Menino à beira das Nereidas

    Foto de Cristina Carriconde

    quinta-feira, 17 de junho de 2010

    Pintando o sete no Sete de Abril

    O cronista Rubens Amador recorda um episódio da infância, de uma época em que Pelotas tinha vários cinemas e eles ficavam lotados de crianças nas matinês.
    O Sete de Abril é o teatro mais antigo do Estado, e foi o maior da cidade (uns 500 lugares) até 1921, quando aberto o Guarani; na época deste relato, já era centenário, e hoje se encontra fechado, sem data de reabertura.
    A foto maior, de 2008, mostra o lado esquerdo dos camarotes.

    O cinema da minha infância e juventude, bem como da maioria dos que foram guris em minha época, sem dúvida, foi o simpático Cine Teatro Sete de Abril, da Empresa XIS (Xavier & Santos).

    As primeiras namoradas de “pegar na mão” (quando se pegava na mão da guria - depois que apagava a luz - é porque o namoro era “para valer”); as brigas na “saída”; as molecagens; os truques para entrar de graça; mas sobretudo os filmes inesquecíveis, não tanto por sua qualidade, mas pelo impacto que nos causavam naqueles momentos de nossas vidas, quase sempre aconteciam no velho Sete de Abril.

    Ali vimos o “Máscara de Ferro” (1939), com Louis Hayward ; “Maria Antonieta” (1938), com Norma Shearer (dir.) e Tyrone Power; os seriados “O Aranha Negra”, “Flash Gordon” e vários filmes de “mocinho” e “mocinha”, como os de Gene Autry.

    Eu tinha um amigo que residia no Hotel Brasil, pegado ao Sete de Abril, onde hoje está o Edifício Del Grande. O cinema, ao lado do hotel, tinha umas aberturas circulares enormes, que chamavam de “óculos”, nos camarotes, e que permitiam à ventilação ambiente, e ainda estão lá. Pois eu, o Célio Arruda, o amigo que referi, e mais outros que também moravam no hotel, e que descobriram a “mina”, subíamos próximo ao teto do hotel, e uma vez lá, alcançávamos os tais óculos. E dali, no “peito” e à socapa, assistíamos muitos filmes, de pescoço esticado, o qual, depois, doía um bocado.

    São inúmeras as lembranças do velho Sete de Abril, e hoje vou pinçar uma muito engraçada (deverá haver muito coroa como eu para confirmar).

    Era uma matinê dominical quentíssima. O Laranjal não atraía ninguém ainda, e assim as matinês ficavam lotadas. Naquele domingo, lá dentro, era uma sauna gigante. A maioria da gurizada, no verão, trajava roupas de cor branca, principalmente as meninas.

    Pois não é que um moleque levou um pacotinho de anilina preta em pó e, lá da terceira frisa, com a cumplicidade do escuro, durante a sessão, calmamente foi esvaziando o conteúdo do pacotinho em cima da turma.

    A “chuva” de anilina, caía sobre o lado direito do cinema, lá na área da frente. Os guris assoviavam entre os dedos, e as gurias saracoteavam na maior zorra naquele calor senegalesco; todo mundo suando em bicas; e, sem o saberem (dado a escuridão) boa parte estava toda tingida nas faces e mãos, sem falar nas roupas e vestidos brancos e claros, tudo manchado por aquela anilina preta que escorria, diluída no suor abundante do pessoal. As vestes ficaram na miséria; os daquele lado fatídico, por onde o pó foi se espalhando, ninguém escapou.

    Em determinado momento, a irmã de outro grande amigo meu, o Jamar Coimbra, que era gordinha e tinha cabelos cor de fogo, vestida toda de organdi branco, foi “lá fora”, e o pessoal do cinema viu o estado em que estava a menina (parecia uma mineira de carvão), mandaram acender as luzes, interrompendo a sessão, e aí explodiam gargalhadas por parte dos que estavam nos camarotes ou longe da zona conflagrada, como eu. Os meninos riam, e as meninas se desmanchavam em choros convulsos; apontando-se uns para os outros e entremeando risos também. Eram todos só manchas negras! Nas faces, os riscos pretos eram como estalactites formadas pelo suor que escorria.

    Aquela matinê foi inesquecível. Nunca, como naquele domingo, os “carros de praça” (táxis de hoje) faturaram tanto na saída de uma matinê, como aquela, que só poderia ter acontecido no Cine Teatro Sete de Abril, da nossa meninice naquele ano de 1937.
    Imagens da web

    terça-feira, 15 de junho de 2010

    Telhas pintadas, de Marlete Araújo

    O Corredor Arte apresentou até 2 de junho o trabalho de Marlete Araújo, assistente social e artesã de pintura em telhas.

    Atualmente ela coordena o Grupo de oficinas de criação coletiva da Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Municipal, do bairro Santos Dumont, em Pelotas.

    Marlete diz que a ideia de trabalhar em telhas é bem antiga, a partir de uma reportagem que viu numa revista, há muitos anos. Tem usado diferentes modelos de telhas e diferentes materiais. “Minha vontade era mostrar um olhar sobre tetos, trabalhando com telhas de uma outra perspectiva”, explicou.

    Aqui no blogue já havíamos visto telhas pintadas de Neli Rodeghiero, com imagens de Pelotas (leia aqui), e da professora Maria Laura Brenner de Moraes (veja o post).
    Imagens: Corredor Arte

    Estômago, um filme sobre a necessidade de tê-lo


    O primeiro ciclo de debates sobre comida e cinema, que transcorre em nossa cidade, vai analisar mais um filme nesta quarta-feira (16), às 15:45, no auditório da Faculdade de Arquitetura da UFPel (Benjamin Constant 1359).

    Desta vez, será o filme "Estômago", uma história à brasileira, sem correções políticas, sobre nossas incorreções de todo tipo - políticas, sexuais e gastronômicas. Veja, no vídeo abaixo, a parte em que o cozinheiro explica os aromas de um vinho italiano.

    Comentário do crítico uruguaio Jorge Jellinek:
    Numa sociedade onde uns devoram e outros são devorados, o cozinheiro joga um papel decisivo, e pode decidir qual é o melhor bocado. Este é o ponto de partida de Marcos Jorge para lançar um olhar nada complacente sobre a realidade brasileira contemporânea. Sob a aparência de uma comédia satírica, o filme nos oferece uma aguda reflexão social, que atravessa os diferentes estratos sociais.
    Mais informações sobre este ciclo no blog Comida no Cinema.


    POST DATA
    Junho 2013
    Veja o filme completo aqui.