EPIGRAMA DE DOMINGO

No declive, é preciso caminhar lento e cuidadoso com o piso, até que Alguém apague a luz!

Rubens Amador

terça-feira, 6 de março de 2012

Sereias da Lagoa

Na segunda-feira de Carnaval (20-02), já entrada a noite, a reportagem da Prefeitura fez uma nota interessante e ousada: sobre a saída anual do bloco Sereias da Lagoa (dir.), no balneário Santo Antônio (leia a matéria).

Apesar do elemento óbvio (carnaval em Pelotas), a matéria foi oportuna, pois esse bloco se reúne uma só vez por ano, não entra na programação oficial, fica longe das passarelas urbanas e marca uma distância, também no tempo, dos carnavais populares e multitudinários de nossa cidade.

O original dessa informação é que um veículo oficial estivesse noticiando sobre baixos costumes do povo (em vez de divulgar os serviços municipais) e, ainda mais, fora do horário normal de trabalho. Ousadias atribuíveis à irreverência dos tempos de Momo.

Sem chegar a ser um verdadeiro bloco, as Sereias da Lagoa têm a missão de seguir a tradição carnavalesca dos homens vestidos de mulher. O costume sempre foi mais forte em Pelotas que em outras cidades do sul do Brasil, e começou a decair na década de 1980, até restar este único foco de conservação (nascido na praia do Laranjal na década de 1990).

Este travestismo carnavalesco não equivale a um desfile gay nem a uma amostragem de drag queens, mas a uma antiga sátira do lado feminino (de mulheres e de homens) e da própria masculinidade. A julgar pela evolução dos carnavais, a brincadeira pública provavelmente surgiu no início do século XX ou fins do XIX, ou seja, em tempos vitorianos e tridentinos, bem moralistas e solenes. Hoje, a sátira ao homossexualismo é politicamente incorreta.

A espontaneidade semiclandestina deste grupo burlesco pelotense dificulta obter boas imagens do seu desfile, tanto pelo horário como pelo lugar. Após concentração no centro comercial Mar de Dentro, as Sereias têm o costume fixo (alusão sutil à prostituição) de sair no sábado ao entardecer, somente na praia, mas também brinca com o fator surpresa e com as emoções secretas do exibicionismo (veja uma nota pobre em texto e pobre em imagem, sobre este bloco no carnaval de 2011).

Em 2010, o jornalista Miguel Martins redigiu uma nota para o blogue Satolep na Rede, com excelentes imagens de Cláudia Pureza Duarte Boéssio. Entre os foliões, a fotógrafa captou o músico Sady Homrich, de branco na foto acima à esquerda. Leia sua confissão de amor pelo Laranjal (e por sua mulher) na Zero Hora de 1-2-12.

A maioria dos participantes - se não a totalidade - são homens masculinos e heterossexuais. Somente no carnaval eles ousam desfilar como algo que nunca foram nem serão, arremedando os traços mais histéricos do sexo oposto, com as melhores ou piores roupas de suas irmãs e namoradas. A intenção não é, portanto, a de tirar do armário lados ocultos e assumi-los seriamente. No vídeo abaixo, de 2008, uma gravação fora do desfile, que mostra bem o espírito da coisa.
Fotos: G. Xavier (1), C. P. D. Boéssio (2-3)


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