quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Poemas de Mario Osorio Magalhães

Mario Osorio Magalhães amou tanto sua cidade que quase toda sua produção literária versa sobre História de Pelotas. Sem esconder o orgulho pelas virtudes desta terra nem negar as manchas e feridas históricas, em seus escritos o resultado é otimista e amoroso, desde "História e Tradições da Cidade de Pelotas" (1979) até "Pelotas Princesa" (2012).

Seus conhecimentos e suas opiniões sobre a Princesa do Sul são referência para quem estuda Pelotas, mas sobretudo seu amor pela comunidade-família, como mãe, como irmã ou como filha, são uma luz orientadora também para o trabalho deste blogue (veja os posts em que escreve).

No entanto, bem antes de escrever sobre História, Mario compunha versos que revelavam de modo puro esse mesmo amor pela vida e pelos seus. Veja alguns significativos poemas de sua coletânea "Um resto de sonho ainda" (1993).



Velho Guasca
Agosto 1963
Guasca tão velho,
tristonho, enrugado,
pensando, sentado
num pobre ranchinho;
sem paz nem carinho
tão velho, coitado!
lembrando o passado,
chorando baixinho.

Guasca: me conta
o que tens na memória;
me conta a história
aqui, meu velhinho;
não chora sozinho,
relembra comigo
o que passou, velho amigo
sem paz nem carinho.

Guasca tão velho,
tristonho, enrugado,
que lembra o passado
num pobre ranchinho:
não chores baixinho
que o tempo que choras
ninguém vive agora
mas jamais morrerá,
pois este piá,
este guasca largado,
que te vê despilchado,
tão triste, nervoso,
sem paz nem repouso,
num rancho chorando,
morrerá peleando
pra lembrar teu passado!


Poema de Ninar
Agosto 1977
O ovo que era branco
amarela quando cai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Só mama quem chora,
só volta quem vai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Estranho não entra,
fiado não sai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Pelotas ataca,
Brasil se retrai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Anos se completa,
núpcias se contrai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Entrada se esgota,
tempo é que se esvai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Se alguém nos protege,
Calabar nos trai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Em terra de cego,
caolho sobressai.
Dorme, Diogo, querido do pai.

Quem vence na vida,
nunca se distrai.
Acorda, Diogo, querido do pai.


Felicidade
Janeiro 1985
Eles achavam que era só namoro
e foi amor.
Exigiram de nós o máximo decoro
(Filhinha, te comporta,
fica perto da porta
e não passa da calçada...)
Mas mesmo assim eu te roubei um beijo.
Tu foste mais que ladra:
sequestraste um coração,
pedindo de resgate
algum carinho, uma dedicação...

Não só te paguei nota por nota
como passei da conta
— e nem pedi de volta o coração.
Puseste tudo no banco
e não consegues gastar este talão de cheques...

Em compensação
um dia eu me vinguei e fiz em ti dois filhos
lindos e moleques.
Te pus alguns cabelos brancos
— alguns poucos fios...
Hoje não digo que estejamos velhos:
estamos mais maduros
— estamos mais pra Tancredo Neves
que pra Rock in Rio....

Só nosso amor não se deu conta disso
(ainda pensa que é o começo)
e a cada dia está mais vivo e mais travesso...
Não vou dizer, categórico e definitivo
(seria pretensão, e eu não tenho esse vício),
que a felicidade se comporte assim
...mas ela é quase isso.

POST DATA
20-09-12
TrezeHoras tem a última entrevista de Mario Magalhães.
Clayton Rocha recordou o poema Um Rastro.
21-09-12
Veja a homenagem de Márcio Ezequiel: Mario Osorio Magalhães.
Editorial do Diário Popular: O homem que amou Pelotas.
22-09-12
A jornalista Raquel Bierhals escreveu Sua história continua.
Mário Gayer do Amaral agradece a seu professor em O adeus de um mestre.
23-09-12
O ex-aluno Egídio Pizarro dedica Ao Mestre, com Carinho.

Um comentário:

Prof.ª Loiva Hartmann disse...

Retornando à cidade, soube da perda irreparável: partiu Mário Osorio Magalhães. Ficaremos sem sua presença física, sua participação certa e irretocável em momentos culturais que orgulhariam qualquer sociedade. Foi parceiro em todas as Jornadas Culturais de Pelotas. Nesses momentos difíceis, lembro das perdas e ganhos de Lya luft e de todos nós!
A gula do Senhor levou vários talentos insubstituíveis. Ele, certamente, está formando uma Academia inigualável num plano mais perfeito, mais feliz e pleno do que este, em que nós, simples mortais, ficamos.
Te asseguramos, prezadíssimo amigo, que, nestas águas crocodilas em que vivemos, continuaremos a lutar pela cultura, por uma sociedade mais justa e fraterna. Reserve um bom lugar para os amigos, uma vez que a única certeza da vida, é que um dia iremos desta para melhor!
Farás muita falta, mas tua obra e teus exemplos ficaram, e que quiser conhecer melhor esta terra, berço de cultura, terá necessariamente teus livros em mãos. Um abraço dos que aqui ficaram e tiveram o privilégio de privar de tua amizade e conhecimentos. Prof.ª Loiva Hartmann