quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As pinturas da Catedral

José Rodrigues Gomes Neto, colaborador do Diário Popular, relata ter visitado a Catedral de São Francisco de Paula há alguns dias (leia o artigo completo), o que lhe suscitou uma série de lembranças. 

Entre 1948 e 1950, o templo católico passou por importantes reformas de estrutura, ganhando nova cúpula, altar e pinturas. Os vitrais foram colocados em anos posteriores, na década de 1950.



Não sei se os leitores sabem (os mais jovens, talvez não), a Catedral somente tinha as torres da frente, as dos sinos.

Aquela maior, no fundo, sob a qual está o belíssimo altar confeccionado em mármore, na Itália, e coberta de ladrilhos azuis, foi agregada ao prédio nessa época [anos quarenta].

Pelo esforço notável e incansável do bispo dom Antônio Zattera [1899-1987, veja nota biográfica], a reforma deu, à igreja maior pelotense, um padrão de elevado valor arquitetônico e pictórico, digno mesmo de um templo.

O que acabou por ter grande expressão foi a pintura afresco, pela mão do grande pintor italiano Aldo Locatelli [1915-1962]. Ele veio da Itália, acompanhado de um auxiliar e começou o trabalho que resultou na beleza que agora contemplamos.

Conheci pessoalmente Aldo Locatelli por uma circunstância especial: ele residia, como inquilino, em uma casa situada na rua Benjamin Constant, entre Félix da Cunha e Gonçalves Chaves, de propriedade de um grande, querido e saudoso amigo meu - Joaquim José de Assumpção Osório - e nós, adolescentes, mais de uma vez fomos até a Catedral vê-lo pintar. Ele usava, não é fantasia, um típico gorro de veludo, como é comum vermos em filmes que retratam pintores célebres.

Não tenho certeza de quanto tempo duraram as reformas, mas datam daí os belíssimos vitreaux, que ainda lá estão e que foram doados por pessoas de destaque na cidade.

Não sei ao certo: dizem que ele pintou anjos com rostos de meninas daqui. Mas sei, com certeza, que ele pintou, na cúpula, o rosto de uma jovem que eu conheci. Neste dia em que estive lá, de visita, ainda procurei e encontrei a pintura.

A Catedral, por sua arquitetura e por suas pinturas, disso não há dúvida, é um monumento de raro valor que encanta os turistas. Acho mesmo que carece de cuidados para que se não danifiquem mais as pinturas. Por isso, penso que a cidade tem um compromisso sério com a recuperação da Catedral.

Em algum momento, antes da reforma, ela foi pintada, por fora, de cor-de-rosa, se não estou enganado. Eu adoraria, perdoem-me os arquitetos pela indevida intromissão, de vê-la, quem sabe voltar ao rosa ou com aquela cor característica dos prédios históricos de Roma. Ainda mais agora que ela foi elevada à categoria de Catedral Metropolitana da novel Arquidiocese de Pelotas.
José Rodrigues Gomes Neto


Catedral antiga: Facebook
Locatelli: Prof Círio Simon
Cúpula: Ricardo Gruppeli
Porta e vitrais: F. A. Vidal

2 comentários:

Anônimo disse...

Também gostaria de ver a nossa Catedral pintada na cor branca, rosada ou amarela, que, certamente faria jus, ainda que acrescido de elementos ecléticos, ao seu estilo original, entre o barroco tardio e o colonial brasileiro. Infelizmente, entre a década de 30/40, houve o surto do revestimento "cimento-penteado", com a promessa de nunca mais existir a necessidade de pintura. Porém com o passar dos anos, esse "cimento-penteado" vai ganhando essa cor indefinida, pelo acúmulo de sujeira,mofo, umidade etc. E, ainda, anos atrás, houve uma lei/decreto proposto por uma arquiteta que "PROÍBE" a pintura sobre o "cimento-penteado", defendendo que este material (horrendo, no meu ponto de vista, pois nem tudo que se produz no passado é necessariamente BELO)seria um elemento típico da arquitetura de Pelotas. Então, resta olhar para a Catedral tal como ela é... cinza e triste! Contrariamente, em Porto Alegre, vemos diversos prédios, anteriormente revestidos do "cimento-penteado", hoje, pintados, devolvendo a beleza e ressaltando alguns detalhes arquitetônicos que se perdiam no tom cinza-negro do revestimento.

Anônimo disse...

Caro Vidal:Não vou falar de cores para a nossa Catedral, até porque é preciso disso entender.Queria evocar as recordações do grande pintor Aldo Locatelli. Lembro-me que todos os dias quando passava para meu trabalho as 7,30 hs., quando vi Aldo, pintando São João Batista, ali no Batistério, l*., esboçando com carvão preto o afresco que lá está.A cada dia eu notava o progresso daquela pintura.Vi esboçá-la e pintá-la.Locaelli era um tipo afável. Depois o vi pintando as pinturas mais altas, sempre naquela minha bendita rota para o trabalho.Quando ele terminava, saia em uma lambreta para casa. As vezes carregava na garupa a sua senhora, que tinha um porte avantajado. Também levava, às vezes, sua cunhada, uma italiana bonita de seus l8/20 anos.Lembro-me de Sasso, um italiano baixinho, da equipe que D.Antonio trouxe da Itália,. Ele era o dourador. Vi-o várias vezes pondo ouro em lâminas nas colunas, na parte cima. Lá estão.Este teu trabalho, Vidal, me evocou essas lembranças lindas de um passado - como todo- que jamais vai voltar.Senti um pouco de nostalgia.Abrs. Rubens Amador.