domingo, 1 de junho de 2014

Atrás da vidraça do sábado, artista recria o mundo


Olhei pela janela e vi um sábado vestido de luto.

Nesses dias, quando guri, passeava pelo quintal sentindo falta do sol desenhando sobre as folhas mortas. Deixava-me levar por aquele grafismo colorido, tentando descobrir algo inusitado.

Eu não sabia precisar o que estava procurando. Não tinha cabeça para isso, pois a idade era tenra demais. Ainda assim procurava...

Acaso encontrasse o que estava buscando, punha-me a desconstruir.

Sim, quando pequenos, ao contrário do que imaginamos, somos seres da desconstrução. Desconstruímos o mundo para criar o nosso, muito particular, com seu colorido próprio, com seus vãos e desvãos, com seus mistérios e horrores.

Bem, acaso o dia fosse sombrio e não havia sol para criar e eu para descriar, voltava para dentro de casa. Melancólico, experimentando sensações de abandono, punha-me à janela e ficava divisando o quintal através da vidraça. Embaçava-a e com o dedo indicador elaborava desenhos, com intuito evidente de materializá-los no quintal, arranjando brincadeira.

Os desenhos, entretanto, logo se desfaziam. Eu tratava de embaçar outra vez a vidraça, tornando a riscá-la. Quando cansava da brincadeira, jogava o olhar ao léu, imaginando coisas.

Coisas, portanto, se materializavam no quintal, logo se decompondo, pois são frágeis demais. (Como a vida). Mais frágeis que as teias e aranha que qualquer vento, divertindo-se, desfaz.

Pois a manhã sombria deste sábado levou-me ao passado. De súbito me enxerguei guri, dedo indicador percorrendo o vidro, fazendo desenhos.

Afinal, pensei, já que não havia sol para desenhar, resolvi transformar-me no artista, deixando na vidraça a frágil arte de um guri que não sabe o que fazer do seu tempo, já que vive não vivendo.

Manoel Soares Magalhães


Texto: Cultive Ler
Imagens: TecnoarkA.F. Balbi

4 comentários:

Anônimo disse...

Linda crônica. Manoel é realmente muito talentoso. Gê.

Manoel Magalhães disse...

Grato amigo... Valeu... Estou pensando em reunir minhas melhores crônicas e editá-las em livro... Penso em ti para prefaciar...Que tal? Abraço!

Francisco Antônio Vidal disse...

Boa ideia! Pensa em algum tipo de ilustração, ainda que sejam desenhos a lápis.

Anônimo disse...

Opa, excelente noticia. Amo as crônicas de Manoel desde sua fase amigos de pelotas. Agora acompanho seu trabalho no excelente blog cultive ler. Um grande talento pelotense. Virginia