sábado, 29 de novembro de 2014

Pergunte pelos sonhos (poema)


Onde perdi meus sonhos de menino?

John Fante perguntou ao pó
Eu pergunto às estrelas
Aos mares
Aos córregos
Às árvores
– Onde perdi meus sonhos?
Meus sonhos de menino...
Incrédulo diante do invisível?

Onde perdi a luz primeira?
Chama que acendeu minha alma
Onde perdi as asas?
Onde perdi as guelras?
Onde enterrei a vontade...
O impulso de chegar à aurora do mundo?
     Em que nuvem jaz o segredo desvendado
     Que deveria ter pingado na terra
     E regado a magia da existência?

John Fante perguntou ao pó
Eu pergunto às estradas
Às pedras
Às ervas daninhas
Às pegadas
– Onde perdi meus sonhos?
Meus sonhos de menino...
Pasmo diante do universo?

Preciso perguntar ao
Novo homem que nasceu em mim...
Manoel Soares Magalhães
Foto: Nauro Jr.
Texto: Facebook
Leia sobre  "Pergunte ao Pó".

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A música e a cidade

Colunista de ZH Juarez Fonseca assina o artigo "Pelotas Jazz Festival, uma surpresa!", elogiando músicos, organizadores e especialmente o público pelotense, que com sua vocação e sensibilidade apoia as melhores iniciativas culturais.

Palco geodésico centralizou o festival na rua e unificou os músicos com o público.
Voltei de Pelotas ontem (23-11) impressionado com o impacto do Pelotas Jazz Festival, já em terceira edição. Impressionado com tudo: os shows, a organização, os locais e - talvez principalmente - o comportamento do público. Quê público! Tem tudo para se tornar um dos principais festivais de jazz do Brasil, para não dizer do Cone Sul. [...]

Último dia do Festival

O show de Naná Vasconcellos num Theatro Guarany lotado foi emocionante, histórico. Ele transformou o público em um instrumento, entre seus berimbau, tambores e chocalhos, recebeu aplausos de pé no meio da apresentação, deixou pessoas com um nó na garganta e saiu chorando do palco, profundamente tocado pela sinergia. Que grande brasileiro! Que grande músico! Que grande homem! Ele remeteu com delicadeza à triste memória dos negros das charqueadas, que ocupavam suas horas livres com música e inventaram instrumentos de percussão como o sopapo, que só existe no RS (v. crítica de Cristiano Castilho para a Gazeta do Povo, de Londrina: Naná faz show sobrenatural].

No palco externo, o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo, ao lado da flautista Léa Freire e do bandolinista Fábio Peron, um trio de altas esferas, mandou seu recado mesmo fazendo uma música menos afeita aos grandes espaços ao ar livre, cheia de improvisos e requintes [v. comentário de Roger Lerina: Pelotas é a cidade do jazz].

Mas o público pelotense aprovou e teve toda a paciência, à espera do mais famoso grupo de Hermeto Pascoal, que viria a seguir. Confesso que eu estava meio preocupado com o Bruxo, escaldado pelo show ruim feito por ele em outubro no POA Jazz Festival. Mas ele (a meus olhos) se redimiu, fazendo em hora e meia um show sem sobressaltos, na medida para satisfazer o enorme público e fechar o festival em alto astral [abaixo, cenas da oficina com Hermeto; aqui imagens da oficina com Naná].

Naná Vasconcelos sozinho encheu de música o Teatro Guarani.
A cidade é protagonista

Parece que a encantadora Pelotas de uma longa história humana e arquitetônica se recupera de também longos períodos de descaso político. A memória do passado, preservada com cada vez mais cuidado em prédios belíssimos, muitos deles abertos à população, parece estar enfatizando nos últimos tempos (uns 20 anos para cá, por aí) um orgulho de ser pelotense. Trazendo a ideia de que a insubstituível arquitetura dos anos de fausto econômico nos hotéis, nos prédios públicos, nos bancos, nas mansões, não deve dar lugar a caixas de concreto sem alma e sem arte como os edifícios modernos - que já roubaram boa parte dessa história.

Palco geodésico e a Rua do Jazz vistos de cima
Pelotas é uma cidade única no RGS. Sua vocação era ser a capital do estado. E, como o Rio de Janeiro em relação a Brasília, tem várias evidências disso. Um de seus filhos mais ilustres, Vitor Ramil, tem se ocupado em demonstrar isso em seu trabalho musical e literário; em sua filosofia, posso dizer.

Em meio ao passado, a modernidade de Satolep encanta os visitantes, como se percebe ao conversar com os artistas do festival. Como se percebe ao ver o cuidado com que a TIM, patrocinador master do festival, o está considerando, ao trazer jornalistas de outros estados para assisti-lo, por exemplo.

Graças aos idealizadores do festival e à sua realizadora, Gaia Cultura e Arte, eu e todos os visitantes, sem falar dos pelotenses que durante três dias lotaram o fantástico Theatro Guarany e as ruas do centro da cidade, pudemos comprovar o bom uso da Lei de Incentivo à Cultura do Estado e como ela é importante para levar adiante projetos que ajudam uma cidade da importância de Pelotas a crescer artística, turística e economicamente.

Sem citar nomes, dou os parabéns a todos os responsáveis por fazer do Pelotas Jazz Festival um verdadeiro evento. E aos felizardos pelotenses, por entenderem e apoiarem a ideia com sua participação. Em 2015 quero voltar.
Juarez Fonseca
Colunista de Zero Hora



Fotos: F. Campal (1-2), L. P. Carapeto (3)
Texto: Facebook

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Joaquim Luís Duval


O Tempo

Cai o tempo
pela tarde mansa
e lento escorre
por entre as velhas mãos.

Cai assim:
como chuva em antigos sítios,
e se dispõe
por entre heras
e cabeças anciãs.

Pára, por instantes,
hesitante...

Mas, sempre incapaz de se deter,
anima-se
e retoma, súbito,
sua marcha sem fim
em busca do esquecimento.


Joaquim Luís Duval é poeta pelotense, nascido em 1945, autor de "Minha gente" (1976), "Tempo provisório" (1979), "A palavra no espelho", com fotografias de Anabela Barbosa (1980), "Exercício de multidão", com poemas de 1980-82 (2002) e "Diálogos do silêncio" (2005). 

Sem lançar livros durante duas décadas, o poeta seguia produzindo e às vezes publicava no Diário Popular. Seu pai, Joaquim Duval, havia sido prefeito de Pelotas (1948-51), deputado estadual (1947-48) e federal (1956-64).

Em 1986, Joaquim Luís escreveu e produziu para a Rádio Cosmos, da UFPel, a série de programas "O artesanato doceiro em Pelotas", que reuniu pesquisas sociológicas e entrevistas com doceiras locais ("Xarque com assucar/Pelotas com Nordeste: contraponto de extremos no paladar cultural brasileiro", de Leonil Martinez, UFSC, 2000, p. 12, disponível na internet). 

Para o quinto livro de Duval ("Diálogos do silêncio"), o seu editor, Mário Osório Magalhães (1955-2012), assinou o prefácio, o qual publicou com leves modificações no Diário Popular (13-11-2005), e reeditamos a seguir.



Joaquim Luís Duval publicou três livros de poemas no espaço de cinco anos: entre 1976 e 1980. Depois houve um longo intervalo e o seu nome só voltou a ocupar as prateleiras das livrarias, com obra nova, em 2002. Mas sei, porque acompanhei a sua trajetória, que há mais de 20 anos ele já havia aprontado o seu livro mais recente. Não só aprontado, no que diz respeito à feitura dos poemas: desde o início da década de 1980, "Exercício de Multidão" estava diagramado, composto e ilustrado, com as belas imagens elaboradas pelo irmão, o artista plástico Fernando Duval.

Por que escrevo isso? Em parte, por cacoete de ofício: para estabelecer, na condição de historiador, uma ordem cronológica na produção do poeta; em parte, para dizer que, quando foi impresso e posto em circulação o seu último livro, os pelotenses e eu estávamos habituados com outros poemas de sua autoria, além daqueles que figuravam, na sua rica bibliografia, até o dia de ontem.

5º livro de J. L. Duval (2005)
Que poemas eram esses? Os que foram editados sob o título de "Diálogos do Silêncio". São 78 poesias, muitas das quais Joaquim Duval divulgou, durante as últimas duas décadas, na página literária do Diário Popular.

Lembro que há três anos, quando saiu "Exercício de Multidão", anunciei a Nara, sua mulher, que escreveria um texto, se não sobre a obra, sobre o amigo Joaquim Luís, no Diário. O artigo não saiu: teria que falar, necessariamente, sobre a obra. Embora diga e repita que Joaquim Duval é para mim o maior poeta pelotense da atualidade (e não um dos maiores, veja bem o leitor), não tive fôlego para me aventurar nesta outra espécie de exercício, talvez tão temerário quanto o de multidão: o exercício da crítica.

Mas é preciso que diga, ainda que com humildade e com escassas palavras: considero este versejador um poeta maior porque a sua produção, cheia de ritmo, ocupa-se de coisas concretas, como árvores, ventos, chuvas, remédios, viagens, bagagens. Não trata de puras abstrações do espírito e da alma (que, para mim, só cabem em livros de filosofia ou de autoajuda, estes infelizmente tão em voga hoje em dia).

"Diálogos do Silêncio" fala de sentimentos, mas quase sempre tomando objetos como pontos de referência. Indaga verdades de coisas palpáveis, que não se comunicam, que não falam com a quase generalidade das pessoas, mas com as quais o poeta, inteligentemente, silenciosamente dialoga.

Mario Osorio Magalhães
Pelotas, outubro de 2005

J. L. Duval (foto de L. Bunselmeyer)
Confira outros poemas de J. L. Duval:
  • "Cassino", citado por Mario O. Magalhães no Diário Popular (2005),
  • "Ser jovem", poema citado por L. R. Lourenço (2008),
  • "Primeiro exercício de multidão", citado por Asdruba (2010),
  • "Mensagem", citado no blogue In Loco, de Janaína Chiaradia (2012),
  • "Poema de amor a uma cidade que é minha", transcrito em postagem neste blogue (2014).
Imagens: Mr. Wallpaper, blogue In LocoTraça,

domingo, 23 de novembro de 2014

Pelotas Doce Natal 2014

Em 2013, a Fonte das Nereidas se transfigurou com as cores e os sons das Águas Dançantes.
Há um ano, o projeto Pelotas Doce Natal trouxe ao centro da Princesa do Sul uma nova e impressionante decoração do ambiente urbano, iluminando a Praça Coronel Pedro Osório e prédios de sua volta. Namorados, famílias, jovens, noivos recém saídos da igreja, turistas, o povo e a cidade ocuparam a praça e o calçadão, impregnando-se com sensações de magia e romantismo.

A descrição parece exagerada, mas para quem presenciou toda palavra parece insuficiente. Diário da Manhã publicou em 2013 a reportagem O encanto da população pela praça.

O lançamento do 2º Doce Natal será no próximo sábado (29-11) às 21h, com Águas Dançantes, luzes e música, em torno à Fonte das Nereidas. O megaevento é possível graças a uma parceria entre a Prefeitura de Pelotas e a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL)

O primeiro grande show será no final do dia seguinte (domingo 30-11), na praça: o espetáculo musical Doce Natal, da Sociedade Música pela Música. A série de eventos continuará por 30 dias, até o último domingo de 2014 (28-12).

Na quinta 4 de dezembro, é a vez do Concerto de Natal do Conservatório de Música, na Biblioteca Pública, às 19h30. Esta casa da UFPel propõe um novo projeto de extensão: apresentar músicas natalinas, de autores eruditos e populares, no propício clima de paz e esperança que se vive em dezembro.

Na mesma noite (4-12) às 21h, estreia no Largo do Mercado o espetáculo de teatro e dança Doce Natal, encenando uma história natalina de forma divertida e fantasiosa, com uma linguagem metafórica e atual. O espetáculo será reapresentado no sábado 6, quinta 11, sábado 13, sábado 20, domingo 21 e segunda 22 de dezembro, em mesmo horário e lugar.

Sexta 5 de dezembro, haverá dois espetáculos simultâneos às 21h:
Há dias, foi montada no Largo Edmar Fetter
uma árvore mais alta que as torres do Mercado. 
  • Kleiton e Kledir trazem ao Teatro Guarani suas canções em versão acústica (ingressos antecipados),
  • por outro lado, o Papai Noel inicia sua chegada com um passeio desde o Asilo de Mendigos até o Mercado Público, onde o prefeito Eduardo Leite lhe entregará as chaves da cidade.
    Cada anoitecer, do sábado 6 ao domingo 21 de dezembro, o Bom Velhinho e sua comitiva receberão crianças e adultos, ante uma árvore iluminada de 15 metros, no largo do Mercado (dir.).
Domingo 7 de dezembro, a Companhia da Dança apresenta seu show anual de professores e alunos, no Teatro Guarani, às 21h (ingressos na escola, rua Quinze 755). No mesmo dia e hora, na Catedral católica, outro espetáculo da Sociedade Música pela Música, fazendo parte do ciclo de música sinfônica SESI Catedrais. Por serem em recintos fechados, este dois eventos podem não estar inseridos no programa do "Pelotas Doce Natal", mas estão no mesmo espírito de animar a doçura natalina.

O lago da praça foi um espelho para um presépio iluminado, com o fundo de edifícios (foto de 2013).
Fotos: Divulgação CDL, Prefeitura (3)

sábado, 22 de novembro de 2014

Show da Paz (2003): Gilberto Gil na ONU

Em 19 de setembro de 2003, o então Ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, mundialmente famoso como cantor e compositor popular, apresentou-se no Salão da Assembleia Geral da ONU, em show de homenagem à memória de 22 funcionários mortos 30 dias antes (em 19 de agosto em ataque à unidade da ONU em Bagdá, Iraque) e para assinalar o Dia Internacional da Paz (21 de setembro). Um dos mortos fora o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello (1948-2003). 

Esta foi a resposta pacifista do Brasil ao terrorismo. Que os músicos ajudem a humanidade a dialogar, neste 22 de novembro, Dia da Música.

Assista à música final, "Toda menina baiana", em que o Secretário-Geral da ONU Kofi Annan acompanha Gilberto Gil (vídeo abaixo, 5 min), leia o artigo que nosso cronista Rubens Amador publicou na época, e veja o show completo no vídeo seguinte (58 min).




Samba na ONU

O brasileiro Gilberto Gil, nosso ministro da Cultura, de repente transformou o plenário da austera ONU (Organização das Nações Unidas) em uma roda de samba de alto gabarito. Fiquei de queixo caído vendo o senhor Khoffi Annan, presidente da casa, agarrado a um atabaque, marcando o ritmo com maestria. Aliás, em matéria de ritmo corporal, outro notável é o bispo Desmond Tutu, da África do Sul, quando de suas aparições públicas.

Então lembramos o belo exemplo da música americana que foi enriquecida pelo gospel, gênero de canção nostálgica, que só os negros americanos sabem cantar com emoção - os blues - durante seus cultos religiosos no Harlem. Dali saíram grandes nomes como Ella Fitzgerald, Ray Charles, Stevie Wonder, Paul Robson, Billie Holliday e muitos outros que ainda hoje encantam com seu modo peculiar de interpretar. Gil, herdeiro direto desse sangue africano, também acabou chegando a todos nós em porções de farmácia, mas chegou, dando-nos a melancolia, a alegria, a tristeza, o estoicismo e uma certa nostalgia.

A música é linguagem transcultural.
A violência é um ato psicótico.
Ainda estou admirado com a inusitada cena apresentada no egrégio recinto das Nações Unidas: de repente; como num filme musical norte-americano, o Gil ministro inova, naquele templo mundial dos destinos do mundo, criando um espetáculo pop. O Brasil, naquele momento assumia a sua identidade e deixava abestalhados aos demais representantes, árabes, anglo-saxões, orientais, sérvios, judaicos, eslavos entre outros.

Embora a diversidade de sangue, eles não deixaram de acompanhar os compassos incrementados da música brasileira naquele palco maior, marcando o ritmo com o pé ou com os dedos, a tamborilar discretamente, mas de forma insopitável. Quem sabe não estaríamos, naquele momento, ensinando o caminho da roça a todos os povos do mundo.

Com um pouco de balanço é possível descontrair, desestressar e até baixar um pouco a tensão gerada pelos problemas internacionais. A magia daqueles sons cheios de ginga mostrou que todas as etnias podem balançar juntas, solidárias, em uma dança única, aproximando-as com descontração de forma saudável e alegre.

Por que não darem as mãos e erguerem os pés à moda eslava, sob a regência de Terpsícore? Já hoje parece não pairar dúvidas que nossos recuados ancestrais negros, segundo estudos antropológicos, têm origem no mais antigo continente: a África Negra, dona desse balanço que predomina, sobretudo, nas Américas do Sul e do Norte.

Oxalá se consiga contaminar também, com nosso ritmo, o sisudo "coro" do FMI, para se poder aspirar coisas positivas para um futuro próximo em favor do Brasil e outras nações.

Rubens Amador


Programa Filhos de Gandhi (G. Gil), Aquarela do Brasil (Ary Barroso), Não chore mais (No woman no cry) (G. Gil, Vincent Ford), Touche pas à mon pote (G. Gil), Imagine (J. Lennon), La lune de gorée (G. Gil, Capinan), Maracatu atômico (Nelson Jacobina, Jorge Mautner), Asa Branca (Humberto Teixeira, Luiz Gonzaga), Soy loco por ti América (G. Gil, Capinan), Toda menina baiana (G. Gil).

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"Castanha": filme, pessoa e personagem



O longa-metragem gaúcho “Castanha”, dirigido por Davi Pretto, entra em cartaz no cinema do Shopping Pelotas esta quarta (19-11), com sessões diárias às 14h05 e 19h20. Trata-se de pré-estreia nacional, exclusivamente em nossa cidade, considerando-se que a estreia no circuito seria na quinta-feira.

Atração do Projeto Belas Artes da rede Cineflix a partir desta semana, o filme já foi exibido em 28 festivais, e premiado em 4 deles: Paulínia (Melhor Som), Rio (Melhor Filme), Buenos Aires (Menção Especial) e Las Palmas (Melhor Ator). Sua estreia mundial foi em fevereiro passado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, chegando agora ao circuito comercial, no Brasil e em outros países (v. ficha no Facebook, fotografias da 64ª Berlinale e lista de exibições no IMDB).

João Castanha faz a si mesmo.
Nascido em 1988, Pretto é porto-alegrense, graduado em Cinema pela PUC-RS em 2008. É considerado um diretor estreante, por ser este seu primeiro longa (95 min) e seu primeiro trabalho no circuito nacional e internacional (v. filmografia no IMDB).

Em tom de documentário, “Castanha” acompanha os transtornos de João Carlos Castanha, ator de 52 anos que vive com a mãe septuagenária e trabalha de noite como transformista em baladas gays. A história, que é real, aborda temas como a loucura, o teatro, o transformismo, a homossexualidade, a relação mãe-filho, a morte, a dependência química, a marginalidade.

O filme mistura ficção e realidade para narrar o cotidiano do personagem-título, que também é uma pessoal real, o ator João Carlos Castanha, que mora na periferia de Porto Alegre. Conforme o relato, ele vive de modo confuso, misturando a sua realidade com os papéis fictícios que interpreta.

Castanha, o filme, enreda o espectador na vida do ator-personagem, podendo ser visto como ficção ou documento de realidade. Segundo o diretor, algumas cenas são documentais, outras são criações (v. entrevista com Pretto e Castanha no programa do Roger Lerina, 13 min). Celina Castanha é a mãe de João, na realidade e no filme.

Como se fosse pouco, o ator também participa como roteirista, junto a Davi Pretto (leia crítica de Pablo Gonçalo na Revista Cinética e 8 resenhas no sítio argentino Todas las Críticas). Em agosto passado, Ivette Brandalise falou com o ator durante uma hora em seu programa Primeira Pessoa, da TVE gaúcha (parte 1 no vídeo abaixo, parte 2 aqui).


Foto: Cau Guebo

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Programação maratônica do 3º Festival de Jazz


"Gonzagueando", com o grupo Cama de Gato: Jota Moraes (teclados), Mauro Senise (sax e flauta),  Pascoal Meirelles (bateria), André Neiva (baixo) e Mingo Araújo (percussão)‬. 

Quinta-feira (20-11)

9h – WORKSHOP (percussão) com Naná Vasconcelos  – Biblioteca Pública Pelotense.
10h – WORKSHOP (composição em grupo) com o grupo instrumental brasileiro Cama de Gato  – Museu do Doce (Praça Coronel Pedro Osório nº 8).
10h – Concentração de tambores – Largo do Mercado.
10:30  Cortejo de abertura: Tambores com Naná.

18h – Richard Galliano – Rua do Jazz.

"Lili", com Richard Galliano (acordeão), Tamir Hendelman (piano), Anthony Wilson (guitarra),
Carlitos Del Puerto (baixo) e Mauricio Zottarelli (bateria), em Beverly Hills, abril de 2013.

20h – Cama de Gato – Rua do Jazz.

22h – João Bosco Quarteto – Teatro Guarani. TVE RS transmite este show ao vivo.
Entrada com senhas de acesso, ou mediante fila formada na porta do teatro. Veja show completo de João Bosco Obrigado, Gente! (1h52), no Auditório Ibirapuera, com participações de Djavan, Hamilton de Holanda, Yamandú Costa e Guinga.

Sexta-feira (21-11)

9h – WORKSHOP com Egberto Gismonti (conversa com jovens músicos) – Centro de Artes da UFPel (Álvaro Chaves 65).
10h – WORKSHOP com Hermeto Pascoal – Mercosul Multicultural (antiga Brahma)
15h – WORKSHOP (percussão) com Naná Vasconcelos e Anjos e Querubins – Teatro Guarani.

14h – André Togni e Quarteto – Rua do Jazz.

16h – Organic Groove – Rua do Jazz.


18h – Clube do Jazz (músicos de Pelotas) – Rua do Jazz.

20h – Trio Corrente – Rua do Jazz. Desde 2003, Fábio Torres, Paulo Paulelli e Edu Ribeiro vêm criando um som próprio para os clássicos do choro e da MPB, além de um crescente repertório autoral.

22h – Egberto Gismonti – Teatro Guarani. TVE RS transmite este show ao vivo.
Entrada com senhas de acesso, ou mediante fila formada na porta do teatro.

Sábado (22)

11h – WORKSHOP com Arismar do Espírito Santo – Rua do Jazz.

14h – Aluísio Rockembach e Lyber Bermúdez (músicos locais) – Rua do Jazz

16h – Claudio Sander Sexteto – Rua do Jazz.
O saxofonista Claudio Sander se apresenta com Luiz Mauro Filho (piano), Lucas Esvael (baixo), Ronie Martinez (bateria) e Giovani Berti (percussão)‬, com repertório de seus três CDs autorais, Jazz do Balacobaco (2001), Gato & Sapato (2005) e Samba Influenciado (2010).

18h – Naná Vasconcelos – Teatro Guarani.
Entrada com senhas de acesso, ou mediante fila formada na porta do teatro.

20h – Arismar do Espírito Santo – Rua do Jazz.

22h – Hermeto Pascoal e Grupo – Rua do Jazz.
TVE RS transmite este show ao vivo.


Documentário do programa Som do Vinil (Canal Brasil, 2012) sobre Hermeto Pascoal

3º Pelotas Jazz Festival

A distribuição de senhas para a primeira noite do Festival durou uns 40 minutos, ontem (17-11).
As entregas seguem hoje terça (18) e quarta (19), a partir das 9h na SECULT.

Esta semana realiza-se o 3° Pelotas Jazz Festival, nos dias 20, 21 e 22 de novembro (v. página no Facebook). O evento segue o esquema do ano passado, que duplicou o número de shows em relação ao primeiro festival, e amplia também a quantidade de workshops: oficinas de improvisação e criatividade dirigidas a músicos, conduzidas por grandes figuras nacionais do jazz.

Hermeto Pascoal esteve no
Porto Alegre Jazz Festival (outubro 2014).
A primeira edição chamou-se "Festival de Jazz de Pelotas", em julho de 2010, e trouxe Hermeto Pascoal como atração maior (v. nota 1º Festival de Jazz de Pelotas: 2010), num megaevento de três dias. Cada um dos espetáculos reunia um artista local e um convidado, no esquema "show de abertura/show principal".

O segundo Festival realizou-se em maio de 2013, com diversas figuras nacionais e internacionais (v. nota Festival de Jazz 2013), apresentações ao ar livre e no Teatro Guarani, em maratona ao longo da tarde e da noite.

Os organizadores agora buscavam colocar o nome de Pelotas numa rota nacional de turismo musical, especificamente na área do jazz, prometendo para 2014 megaeventos paralelos em Porto Alegre e Rio Grande.

Na terceira versão, Hermeto volta a Pelotas junto a outros grandes nomes da fusão musical brasileira e dos ritmos sincopados (v. programação 2014 em nota UFPel).

O 3º Festival foi precedido, cerca de um mês antes, pelo 1º Porto Alegre Jazz Festival e por um show especial de João Donato em seus 80 anos de idade (v. postagem Donato 80 em Pelotas). Um ano antes, o grupo de Donato havia feito o encerramento do 2º Festival.

Acesso ao Teatro Guarani
  • As senhas de entrada estão sendo trocadas por doações, na SECULT (Praça Coronel Pedro Osório nº 2). 
  • Para o show do dia 20 às 22h (João Bosco Quarteto), a entrada foi um quilo de alimento não perecível.
    Para ver o show do dia 21 às 22h (Egberto Gismonti), troque a entrada, no dia 18 de manhã, por um litro de leite (caixa longa vida).
    Para o dia 22 às 18h (Naná Vasconcelos), dê no dia 19 um brinquedo em ótimo estado.
  • As senhas (somente duas por pessoa) têm validade até 10 minutos antes das apresentações (21h50min ou 17h50min). Os lugares vagos a partir desse momento serão ocupados mediante fila de espera na porta do teatro.
Acesso à Rua do Jazz (palco ao ar livre, defronte ao Teatro Guarani)
  • Os espetáculos na Rua Lobo da Costa são gratuitos, sem senhas de acesso.
Duo Finlandia na "Rua do Jazz", 10 de maio de 2013

Fotos: Lopes Jr. (1), Facebook (2)

POST DATA
19-11 Veja a postagem Programação maratônica do 3º Festival de Jazz.
21-11 Veja a nota da RBS Começa o Pelotas Jazz Festival.
22-11 Diário Popular registrou em vídeo momentos da apresentação de Richard Galliano.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Amor e ódio", poema para uma cidade pelotense

Pelotas, do Café onde velhos morrem de ânsia
Cidade dos sobrenomes que não existem mais
Cidade de teatros em ruínas lembranças
Cidade pilhada por oligarquias rurais

Cidade dos rios que umedecem os ossos
Pelotas rosa de horizontes longos
Cidade onde castelos são jogados ao acaso
Cidade onde vampiros não passam de pernilongos

Cidade rota, de história antiga
Cidade onde o nada é maior que tudo
Pelotas quer Ser, mas o ser é nada
Cidade do rebelde de protestos mudos

Pelotas grande, é maior que o mundo
Se vou embora, peço pra voltar
Lugar que odeio quando me encontro dentro
Lugar que vivo pra amar e odiar

Se já existias antes dos poetas
Quando eu partir tu vais ficar aqui
Catedrais de gritos e de fé suspeita
Quando morrer quero morrer em ti

Tuas pedras úmidas de sofrer silêncio
De loucos gritos e de boêmios loucos
Se tua existência cheira a orquídeas
Teu submundo cheira a esgoto

Tuas mulheres talvez sejam homens
Teus escritores pensam ser imortais
Tua carne negra sofre a dor do tempo
Teu rio de sangue já não corre mais.
Nauro Machado Júnior


Fonte: "Andanças Imaginárias" (2014), p. 77.
Sobre o livro, v. a nota Nauro poetiza a vida.

sábado, 15 de novembro de 2014

"Noite gaúcha"

O naïf de Carmen Garrez, para um espectador brasileiro, tem traços europeus, como o geometrismo, a nitidez, a minúcia. Aos olhos europeus, no entanto, as cores tão vivas da natureza e a simplicidade colonial das construções evocam o modo de vida latino-americano. Essa fusão de características se faz possível porque nós, como pessoas, somos uma mescla de origens culturais e porque nossos campos e cidades são misturas de recortes do Velho Mundo dentro do Novo.

De fato, é no Morro Redondo, município gaúcho da Serra dos Tapes, que Carmen vem observar essas colagens visuais e humanas, para esboçar um tratado de antropologia sensível, ao modo da arte. O próprio nome do quadro, "Noite Gaúcha", vem reiterar que esta visão é brasileira, e mesmo tropicalista, pois só nos trópicos uma Noite pode ser tão brilhante e cheia de vida. O calor ambiental está sugerido pelo azul claro no céu, e a umidade, pelo halo lunar.

Carmen Garrez
Mas sabemos que o quadro é de Carmen, e não qualquer naïf, por algumas de suas marcas nestas paisagens: o pontilhismo que contrasta com a ingenuidade, a profusão de flores das árvores (como querendo combinar com as estrelas), a perspectiva na distância e a grande variedade cromática dos verdes.

Percebe-se também uma anotação que faz com bom humor: duas pessoas escondidas no declive da estradinha. É inevitável pensar que elas vão conversando e caminham lentamente.

Sobre as fases da artista gaúcha, veja as notas Carmen Garrez, artista plástica em evolução e Carmen Garrez vê Frida Kahlo
Imagem: C. Garrez

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OSPA na Catedral, novembro de 2014

Federico García Vigil
A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre apresenta um programa dirigido ao grande público esta segunda (17-11), na Catedral de São Francisco de Paula, com entrada franca. O concerto está incluído na temporada "OSPA pelos Caminhos do Rio Grande", com financiamento estadual.

Se bem o programa busca homenagear os 190 anos da Imigração Alemã no Brasil, o único autor alemão nesta lista é Beethoven; entre os outros há três austríacos, um francês e um italiano. O tempo histórico das obras musicais (século XIX) acompanha a época da chegada dos imigrantes da colônia alemã de São Leopoldo, criada pelo governo imperial em julho de 1824 (v. histórico).

Com regência do maestro uruguaio Federico Garcia Vigil, a agrupação instrumental gaúcha traz as seguintes obras, todas de agrado popular e muito difundidas pelo cinema e a televisão: Abertura de “Die Fledermauss” (Strauss), Sinfonia N° 7 (Beethoven), Abertura de “Carmen” (Bizet), Abertura de “Guilherme Tell” (Rossini), Abertura de “As Bodas de Figaro” (Mozart) e Marcha Radetzky (Strauss). Leia alguns detalhes destas obras, com sugestões para ouvir os trechos com orquestras estrangeiras.
  • A opereta “Die Fledermauss” (O Morcego), de Johann Strauss II (1825-1899), estreou em 1874, e se tornou a mais aclamada do compositor. Confira gravação da Abertura (8 min) com a Orquestra do Estado da Bavária, dirigida por Carlos Kleiber em 1986.
  • A Sinfonia N° 7, de Ludwig van Beethoven (1771-1827), concluída em 1812, é uma das pérolas do seu legado no que diz respeito à engenhosidade rítmica. Acompanhe o famoso 4º movimento (8 min), na execução da orquestra japonesa NHK, regida por Wolfgang Sawallisch em 1988.
  • A ópera “Carmen” é a obra-prima de Georges Bizet (1838-1875), um dos principais nomes da música lírica francesa da segunda metade do século XIX. Ouça parte da Abertura (4 min), gravada pela orquestra da Royal Opera House, com o regente Zubin Mehta (Londres, 1-1-91). 
  • A Abertura de “Guilherme Tell”, de Gioacchino Rossini (1792-1868) – ópera que narra o conto do lendário herói do século XIV que lutou pela independência da Suíça –, é uma das mais ambiciosas aberturas de Rossini, e mantém sua popularidade ao longo dos anos. Veja e ouça a segunda parte (7 min), com a orquestra inglesa Hallé, sob regência de Mark Elder, em 2004.
  • A Abertura de “As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), sugere não só a rapidez com que a trama da ópera de 1786 se desenvolve, mas também o humor do trabalho. Aqui interpretação (5 min) da Filarmônica de Berlim, com o regente Claudio Abbado.
  • Este concerto finaliza com a Marcha Radetzky, opus 228 de J. Strauss I (1804-1849). Composta em 1848, é o principal testemunho da simpatia do compositor pelo imperialismo durante as Revoluções daquele ano na Europa. Aprecie aqui (4 min) Georges Prêtre dirigindo a Filarmônica de Viena em 1-1-2008.
Confira abaixo um trecho da apresentação da OSPA em 23 de novembro de 2010, no Salão de Atos da UFRGS, executando o 2º movimento (Molto Vivace) da Nona Sinfonia de Beethoven, sob a regência de Isaac Karabtchevsky.


Fonte: OSPA
Imagem: Taringa

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cadeiras aquarianas

A crônica "O silêncio das cadeiras" faz parte do livro "Rastros num Caminho: jogos de ficção e realidade", de José Luís Marasco Cavalheiro Leite, publicado em Pelotas pela Satolep Press (2013), com ilustrações de Pedro Luís Marasco da Cunha.

A assembleia de ouvintes desaparece sob o ruído das tertúlias.
Ali estão elas em repouso.

Cumpriram, mais um dia, o papel que lhes incumbia (a causa final de suas existências): sustentar corpos, que sustentam cabeças, que sustentam ideias.

Ficam, de regra, reunidas em torno de mesas, onde se formam grupos de pessoas que falam dos mais variados assuntos.

Suportam pesados corpos que, às vezes, carregam pesadas consciências. Ouvem tudo o que ali se diz; sabem de paixões, de traições, de amores espúrios, são testemunhas de mirabolantes teses científicas, também das mais chulas impressões (geralmente pronunciadas acerca de mulheres que desfilam nas calçadas, vistas através das amplas vitrines que circundam o espaço onde se espraiam).

Veem, com frequência, manifestarem-se infidelidades a acertos políticos trabalhosamente costurados. Conhecem inúmeras declarações de compromisso que, no dia seguinte, já estarão esquecidas. Flagram insinuações de interesse amoroso, de onde jamais se poderia esperar que brotassem. Já viram inusitadas aproximações e mais de um comprometedor roçar de pernas.

Ante a infinita paciência das cadeiras,
todas as opiniões são relativas.
Praticamente, sabem de tudo o que se passa na cidade e mesmo no mundo. Afinal, ali, onde elas habitam, se faz, diariamente, em um grupo ou outro, o resumo dos acontecimentos locais, nacionais e internacionais.

Já conheceram planos de paz para o Oriente Médio. Ouviram veementes acusações às interferências americanas no Afeganistão. Houve quem infundisse nelas sentimentos de ódio a ditadores árabes, e, já, em outro momento, assumiram um ânimo de revolta, em face de exortações veementes, contra as sempre tendenciosas resoluções das Nações Unidas.

Perceberam também a relativização de julgamentos sobre fatos. No geral – sabem elas bem –, o aficionado por um time ou por uma grei partidária sempre desculpa nos seus o que não perdoa nos outros.

São, seguidamente, arrastadas de uma mesa a outra, o que lhes rouba, em tais ocasiões, a possibilidade de formar um juízo melhor sobre o assunto que, antes, estavam apreciando. Pior, em alguns casos, no novo grupo formado, ocorre de virem a tomar conhecimento de argumentos inteiramente dissonantes aos que, no anterior, ouviam.

Refletem sobre a relatividade de tudo e chegam a admitir que, afinal, ninguém tenha razão sobre nada.

Confundem-se. Têm sobradas razões para pensar que as teses que ouvem, notadamente quando se prendem a questões locais, estão profundamente vinculadas a interesses que, vez e outra, acabam sendo mencionados às claras.

Sem cadeiras que suportem debatedores,
não há contraditório nem especulações.
Algumas, menos contidas, imaginam quão interessante seria interferir nos assuntos que ouvem. Criariam – parece-lhes certo – a maior confusão: desmentiriam fatos, provocariam desacertos e inimizades, revelariam segredos, anunciariam paixões insuspeitadas...

Talvez, porém, se assim fizessem, desmanchariam a atração que aquele lugar exerce sobre tantos: um centro de prosa descomprometida, um parlatório democrático, uma tribuna aberta à palavra de qualquer pessoa, um lugar do contraditório, da discussão, um espaço tanto para a divergência como para a convergência, um recanto próprio para expressar paixões.

Para tantos, também, um refúgio em face da dureza da vida doméstica, com suas desavenças, desencontros e malquerenças. Para outros, bem ao contrário, o preenchimento do amargor da falta de  uma vida doméstica. Um lugar para deixar o tempo passar...

Ao fim do expediente, já noite alta, aguardam, em providencial e indispensável silêncio, a limpeza do lugar para a rotina de outro dia, no qual tudo se repetirá, como ocorre há décadas naquele tão essencial recanto pelotense, o institucional Café Aquário.
José Luís Marasco Cavalheiro Leite

Dentro, a instituição. Fora, a curiosidade.
Imagens: M. Soares (Facebook) e reprodução da obra citada

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Desenho de humor, 4ª mostra

De 20 a 30 de novembro, será realizada a 4ª Mostra de Desenho de Humor da UFPel, no prédio da antiga Laneira (av. Duque de Caxias 114). Conforme o Regulamento (v. Edital da 4ª Mostra Anual de Desenho de Humor da UFPel), a participação nesta mostra está aberta a toda a comunidade da Zona Sul. Cada pessoa pode inscrever até 3 trabalhos impressos, em uma ou mais categorias (Alberto Rosa 62, sala 106, 3284 5514), até esta sexta (14-11), das 9h às 17h.

Inscrições foram prorrogadas até 14 de novembro.
Foram definidas 7 categorias de Desenho de Humor:
  • Cartum: temática universal e atemporal.
  • Charge: atualidade.
  • Caricatura: sátira de traços físicos ou de personalidade.
  • Tira: sequência em poucos quadros.
  • História em Quadrinhos: sequência em uma, duas ou três páginas.
  • Desenho de Personagem.
  • Ilustração.
Mostras anteriores

O início das Mostras de Desenho de Humor foi em janeiro de 2010, no prédio ainda abandonado da antiga Cotada, defronte ao Porto de Pelotas. O espaço e a própria definição da mostra foram pioneiros naquele ano.

A segunda versão ocorreu em outubro de 2011 na Laneira, iniciando o esquema de destacar nomes especiais de artistas do humor. O quadrinista André Macedo foi o convidado especial; Renato Canini, então residindo em Pelotas, foi o homenageado.

Em 2013, o evento retornou, com um bom número de participantes. As inscrições foram estendidas para além do universo acadêmico, com cinco modalidades. Quanto ao "humor" do título, o professor Pellegrin disse que todos os trabalhos foram aceitos, sem qualificar a comicidade dos conteúdos.

O convidado foi o quadrinista e artista gráfico pelotense Odyr Bernardi, autor do painel de entrada, no qual revelava parte de seu processo criativo, com auxílio de desenhos e quadros. Como homenageado, foi escolhido o ilustrador e cartunista Edgar Vasques (v. reportagem no Diário Popular).

A quarta mostra

Uma das novidades de 2014 são sete desenhos em grande tamanho, a serem reproduzidos nas paredes da antiga Laneira, prédio agora em reformas. A intenção é provocar o distanciamento do público – para conferir esses trabalhos maiores – e a aproximação – para perceber os detalhes dos menores. Um dos trabalhos gigantes é uma pintura em grafitagem, em homenagem póstuma ao gaúcho Renato Canini, que morreu recentemente em Pelotas.

O artista convidado deste ano é o desenhista pelotense Rafael Sica, 35 anos (v. apresentação), que em agosto passado teve a primeira exposição na cidade (v. reportagem). Ele desenha desde os 15 anos, já publicou em jornais e livros, e atualmente publica seus trabalhos na internet (v. seu sítio Rafael Sica e Friquinique).

O homenageado da 4ª Mostra é o cartunista gaúcho Santiago, apelidado por sua cidade natal, famoso por suas charges desde a década de 1970 e cujo nome de batismo ficou praticamente desconhecido: Neltair Rebés Abreu (v. Wikipédia).
Imagens: Facebook (1), Idea Fixa

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Cachoeira do Arco-Íris

A produtora de turismo rural Andréa Chies apresenta a Cachoeira do Arco-Íris, sítio aberto aos turistas desde 1973, um dos pontos turísticos mais antigos da zona colonial de Pelotas, situada na Serra dos Tapes. O espaço administrado por Luciano Weege da Cruz permite desfrutar de uma cachoeira e duas piscinas naturais, dentro do Arroio Bonito, além de visitação a um antigo moinho, desativado em 1959, área para camping e uso de churrasqueiras, por uma taxa de entrada (v. informações da Rota Colonial de Pelotas). A ideia é tomar contato com a natureza pura, especialmente no verão. Proíbe-se o uso de aparelhos de som.

Os proprietários que abriram o sítio ao turismo há 40 anos foram Leopoldo Weege e Hilda Einhardt Weege. A localização é no 8º Distrito de Pelotas (Rincão da Cruz), na área conhecida como Colônia Maciel, e o acesso é pela BR-392 (leia comentário no blogue da turismóloga pelotense Lika Weymar).

Brechó do Hospital da UFPel

Aceitam-se doações até quarta (12-11),
na Ouvidoria do Hospital e na Vila Vicentina.
O Grupo de Humanização do Hospital Escola UFPel realiza mais um Brechó Solidário, esta quinta e sexta (13 e 14-11), das 9 às 17h.

Por preços acessíveis, o público pode comprar roupas, sapatos, acessórios, utensílios domésticos, de decoração e outros. A novidade desta vez é o local: o salão de festas da Sociedade São Vicente de Paulo (Senador Mendonça 269, esquina Professor Araújo).

A atividade se destina a investir a arrecadação em melhorias dos serviços do Hospital. Com os recursos obtidos no Brechó de julho de 2014, foram adquiridos 243 jogos de lençóis, 3 poltronas para pacientes do serviço de endoscopia e foram reformadas 82 cadeiras de diversos setores do hospital.

A realização do brechó traz benefícios para todos os envolvidos: quem doa, quem adquire e principalmente a população, que é a principal beneficiada com as melhorias feitas no único hospital 100% SUS de Pelotas.

As doações são recebidas até quarta (12-11) na Ouvidoria do HE (Professor Araújo 538) ou no local do evento (Senador Mendonça 269). Os organizadores também aceitam leite de caixinha para o asilo vicentino de mulheres, situado no mesmo endereço da Sociedade SVP.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

3ª Semana da Psicologia na UFPel

Michel Foucault protesta, em 1968, junto a Jean-Paul Sartre.
O curso de Psicologia da UFPel está organizando a 3ª Semana Acadêmica, a realizar-se de 17 a 21 de novembro de 2014, com o tema Psicologia em movimento: clínica, política e movimentos sociais. Em cada noite, dois temas serão tratados, dentro de um eixo de discussão. Antes das palestras, haverá oficinas (v. lista). Inscrições (R$ 15) na cantina da Leiga (Duque de Caxias 250) e informações na página da Semana Acadêmica.

A primeira edição foi feita quando a ainda única turma recém começara a funcionar. O anúncio saiu aqui no blogue, em outubro de 2011 (UFPel tem sua primeira turma de Psicologia). A 2ª Semana veio em 2013, com o tema "Saúde mental e diversidade" (v. programação).

O curso de Psicologia da UFPel ainda é bem novo, e está inserido na Faculdade de Medicina, Psicologia e Terapia Ocupacional. Desde o atual semestre de 2014, está em seu quarto ano de criação, devendo completar o currículo e o quadro de professores em 2016, quando a turma mais antiga entrar no último estágio profissional.
Fonte: Facebook

Eixos temáticos: Clínica  (segunda), Política (terça), Movimentos sociais (quarta-quinta).
POST DATA
13-11-14
  • As 4 oficinas serão realizadas no Ambulatório da Faculdade de Medicina, na sala de Intervenções do Núcleo de Neurodesenvolvimento da UFPel (atrás do campus da Leiga, em frente à rodoviária).
  • As oficinas serão nos 3 primeiros dias, antes das palestras: PSICODRAMA (segunda, 17-19h), SOMATERAPIA (terça, 16:30-17:30), APLICAÇÃO DE REIKI (terça, 18-19h) e MINDFULNESS (quarta, 17:30-19h). Esta última não aceitará pessoas atrasadas, para não prejudicar os exercícios de meditação, que requerem silêncio.

"Flor do sal", canção afro para a história de Pelotas

No ritmo africano Ijexá, Amaro Radox (letra) e Sulimar Rass (música) compuseram a canção "Flor do Sal" para o 29º Reponte da Canção Nativa. O festival realizou-se em maio de 2013, em São Lourenço do Sul.

tema foi selecionado, representando Pelotas, na linha Manifestação Regional (v. anúncio no blogue BAHstidores). No entanto, não obteve prêmios (v. resultados no blogue Ronda dos Festivais). 



Nas terras do grande quintal
Vi nascer a flor do sal,
Despertando o amor primeiro
Na estância do saladeiro.

Boi barroso, bumbá e canário
Unidos na celebração,
Boitatá espalhando brasas,
Criando asas da imaginação.
Tambor de sopapo, tambor que batuca,
Levada nas mãos da negrada,
Dançou o quilombo, dançou a senzala,
Dançou toda a charqueada.
Sinhazinha, mucamas e moços cirandavam num grande luzal,
Ciranda virou cortejo até as areias do Laranjal,
Flor do sal virou princesa no Rio Grande do Sul,
Adornada com riquezas, cascatas, céu azul.

Flor do sal manchou-se de sangue no dia da grande matança,
Nas águas do arroio Pelotas lavou-se de esperança,
Vestiu-se de arte, também de doçura, cultura e simpatia,
Formosa em verso e prosa, teor do poeta e da poesia.

Fonte: YouTube

domingo, 9 de novembro de 2014

1º Festival de Jazz de Pelotas (2010)

Moviola Filmes documentou momentos do 1º Festival de Jazz de Pelotas

A versão pioneira do Festival de Jazz de Pelotas realizou-se em julho de 2010 no Teatro Guarani, em três noites dentro da Semana de Pelotas (v. programação). O documentário de 15 minutos da Moviola Filmes (acima), dirigido por Cíntia Langie e Rafael Andreazza, mostra os momentos mais emocionantes desses dias, junto a declarações dos principais envolvidos, entre organizadores e artistas.

Participaram nomes da música local, como Gilberto Oliveira, Celso Krause e o grupo Quebraceira, e convidados especiais: o uruguaio Hugo Fattoruso (com seu grupo Rey Tambor), Geraldo Flach e seu quinteto, e o legendário Hermeto Pascoal. Nesta ocasião destacado como patrono do evento por sua trajetória, o gaúcho Geraldo Flach veio a morrer meses depois, em janeiro de 2011 (v. Wikipédia).

A ideia nasceu no Clube de Jazz de Pelotas, como a realização de um sonho antigo, e, posteriormente, o evento denominou-se Pelotas Jazz Festival (com pronúncia à inglesa, jazz féstival). Não se trata propriamente de um festival por não existirem concorrentes nem premiações, mas sim com a grandiosidade de um evento de vários dias e com figuras de importância internacional.

Grande entusiasta do Festival desde o início, Hermeto Pascoal disse que este "veio para ficar" e que esperava "voltar o mais rápido possível", segundo registrado neste documentário. A ocasião demorou 4 anos, mas chegou. Visitando a orla do Laranjal, o alagoano exaltou a beleza do Balneário dos Prazeres:
Isto aqui é um Céu na Terra!

Imagem: Festival de Jazz

sábado, 8 de novembro de 2014

"Nas ruas da Princesa", de Sulimar Rass


Eu andei nas ruas da Princesa,
Eu vivi as ruas da Princesa,

Inventando fortalezas, e muralhas e asfaltos
bem no alto da escuridão, bem no alto da escuridão.

Eu vivi [meu bem] nas ruas da Princesa,
Eu andei [meu bem, meu bem, meu bem, bem bem] nos becos fortalezas.

Úmida aragem que nas ruas da Princesa dá
bem nos vales do Barão, bem nas barbas do Barão,
bem nos vales do Barão [meu bem], bem nas barbas do Barão.

Eu molhei os meus pés na correnteza,
Nos becos, em sossegos de mendigos,
reis nos açudes, em virtudes de ser eu.

Eu andei nas ruas da Princesa,
Eu andei nos becos fortalezas.

Úmida aragem que nas ruas da Princesa dá
bem nos vales do Barão, bem nas barbas do Barão,
bem nos vales do Barão (meu bem), bem nas garras do Barão.

Assista a Papo e Canja com Sulimar Rass.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A vida só existe porque o beijo tem gosto de morango


Amo como quem anda de carrocel
Como quem come algodão doce
Esquadrinhando desejos
Latitudes e longitudes
Na intimidade de corpos
A vida só existe 
porque o beijo
tem gosto de morango

Amo como quem navega
em mar sereno
como quem sonha acordado
observando navios no cais do sonho
as cismas não são cismas
mas toque de nervos
na sedosa pele da mente
roçar de beijos 
no tear de sonhos

Amo como quem descobre
sobre calcinadas pedras rastros
de antigos verões que aqueciam
desejos na desordem de amar
mercê de um silêncio que ouvia
pastorais de mistério e dor
asas insufladas por Eros 
cuja boca entreaberta canta versos
para mim, para ti, para o vácuo
carregado de mistérios e desvãos

Amo
Manoel Soares Magalhães
Imagem: Facebook

Canto de amor a uma cidade que é minha


Decerto,
ó vós que vindes das sombras
e densa neblina,
não compreendereis de pronto
a cidade que aqui vedes:
ela vos parecerá cinzenta e fria.

Decerto,
ó vós que tudo quereis de imediato,
não sabereis encontrar
alma alguma no que enxergais,
pois tudo vos é dado antecipado
nos cadernos de turismo que folheais.

Decerto,
ó vós que tudo sabeis,
é urgente seguir o caminho
pois aqui nada achareis.

Mas, se tiverdes sensibilidade, parai:
porque a noite é imensa
e mais imensa
a mensagem emanada dela:

Uma cidade
não é tão-somente
apenas o que os meros olhos enxergam;
há que haver disposição para descobri-la.

Uma cidade
é infância, adolescência, maturidade,
vozes distantes, primeiros amores,
amarguras diversas, descobertas fugidias.

Uma cidade é ainda
dor na noite.
É incompreensão, é rejeição.

Uma cidade
é mulher em seus caprichos,
é entendimento instintivo
até o ponto nulo da compreensão.

Se tiverdes sensibilidade, parai:

Há um mundo que pulsa
por trás das pedras molhadas,
há histórias infindas
escondidas nas noites frias.

Há crepúsculos
que se renovam cada dia estranhos,
há vida latente
por trás do que é apenas evidente.

Assim, ó vós que pouco sabeis, escutai:

Há saudade que justifica
vosso parar indagado.
Há vivência guardada
por trás da gente encolhida.
Há essência de mundo
em universo tão pequeno.

Se tiverdes mistério, parai:

Não é apenas pequenez o que aqui vedes:
é gente que vem do fundo, das coisas vividas.

É existência que se formou
dia após dia,
noite seguida à noite.

Uma cidade é sempre
acúmulo de vida
que adivinhada existiu.
É sempre gesto
que se esboça mesmo inútil.

Uma cidade
há que ser lentamente descoberta
como mulher
que se despe com graça e mistério.

Uma cidade
não é apenas o que vedes, quando despertais
ao passar insone
dos ônibus nas madrugadas desertas.

Uma cidade exige tempo,
exige paciência,
para se encontrá-la
no percorrer dos ritmos da noite exausta.

Uma cidade é ato de amor que se faz
ou não se faz,
depende apenas das raízes
que formaram o princípio.

Uma cidade é companhia
de almas semelhantes
na descoberta da mútua solidão.
J. L. Duval em 1980
É pessoa sucedendo pessoa
em pensar parecido.

É música, dança, amor,
É terra, unidade, herança.
É lugar definido
pra se aguardar o incerto morrer.

É sítio pra se lançar a semente,
é vida possível e única
na tentativa e esforço
de continuar a ser gente.

Joaquim Luís Duval
A palavra no espelho, 1980


Fotos: Facebook (1), M. Soares (2), G.Mansur (3), Diário Popular (5)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mateada cultural para o Romualdo


O Instituto João Simões Lopes Neto informa que a “Mateada do Romualdo" será realizada no próximo domingo (9-11), no Parque da Baronesa, em palco montado pela SECULT. A atividade cultural, com fins de diversão e de divulgação da criação literária de Simões, faz parte das comemorações do centenário dos Casos do Romualdo.

Das 14h30 às 17h30, apresentam-se o conjunto musical de Alex Moreira; a Invernada Artística do CTG Sinuelo do Sul, cuja integrante, Camila Rosales Fernandes interpretará a história d’O Cobertorzinho de Mostardas (leia aqui o livro completo); o Teatro do Chico Meirelles e o artista e estudioso simoneano Mário Mattos, autor do desenho acima. Só é preciso levar cuia, bomba e térmica; a erva e a água quente serão fornecidas pela marca Barão.

A obra conhecida como "Casos do Romualdo" começou a ser publicada há 100 anos e 5 meses, precisamente a partir do dia 1 de junho de 1914, em vinte e poucos capítulos semanais, na imprensa pelotense. Muitos anos depois, já falecido o autor, os casos apareceram em forma de livro (v. post Centenário dos Casos do Romualdo).
Fonte: Facebook

A história do maestro Sérgio Sisto


Natural de Porto Alegre, o maestro Sérgio Sisto começou sua formação musical aos 15 anos na Escola de Música da OSPA, sob a orientação da professora Lory Keller. Desde criança, já participava no coro da Igreja Mórmon, e passou a estudar também viola. Venceu por cinco vezes o concurso Jovens Solistas. Participou da série Concertos para a Juventude e em diversas temporadas da OSPA, sob a regência de maestros como Tulio Belardi, Arlindo Teixeira, Diogo Pacheco e Eleazar de Carvalho, nas principais salas e casas de óperas e concertos do Brasil.

Em 1988, foi selecionado pela United States Information Agency (USIS), junto a outros jovens latino-americanos, para representar o Brasil como Jovem Adido Cultural nos Estados Unidos, apresentando-se no New World School of Music em Miami, além de receber bolsa de estudos na Manhatan School of Music em Nova Iorque. No Coro Ópera Brasil, trabalhou com assistente do maestro Silvio Barbato. Deste trabalho em parceria com a Orquestra Sinfônica Brasileira seguiram-se diversas apresentações.

Como cantor lírico e regente auxiliar, atuou no Teatro Municipal de São Paulo, Teatro Municipal do Rio de Janeiro e Teatro Amazonas, em óperas como Andrea Chenier, Manon Lescaut, Un Ballo in Maschera e Samson et Dalilah. No Rio de Janeiro, por três anos, foi preparador e co-repetidor de óperas e oratórios em produções com Isaac Karabtchevsky e Eugene Kohn. Contracenou com figuras como: Plácido Domingo, Giuseppe Giacomini, Justino Diaz. De 1991 a 1993, atuou em óperas no Teatro Municipal de São Paulo sob a regência de John Neschling, Alessandro Angiorgio e Tulio Colaccioppo, em produções como Aida, Il Campanello e Turandot, entre outras.

Em 1995 realizou a primeira apresentação com alunos de canto em Pelotas, e não parou mais nos anos seguintes, gerando o Coro da Sociedade Pelotense Música pela Música.

Em 2004, iniciou a formação da Orquestra com apenas seis músicos. Com os anos foi equilibrando a formação de naipes no conjunto, até chegar à configuração de uma Orquestra Filarmônica. Agora conta com cerca de sessenta integrantes de Pelotas e região. É o atual diretor artístico e regente do Coro e da Orquestra Filarmônica Música pela Música, que se apresentam regularmente em Pelotas e em cidades próximas.

Na quinta-feira 13 de novembro será a Gala Lírica 2014 da Sociedade Música pela Música no Teatro Guarani, às 21h. Coro e orquestra acompanharão os solistas líricos Elisa Machado, João Ferreira Filho e Fernando Montini.

Ingressos na Fábrica Cultural, Félix da Cunha 952 (9-18h, sem fechar ao meio-dia) ao valor de R$ 40 ou doação de material de higiene (3227 6601).

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Novo projeto do Capitólio, o cine finado

Os organizadores do primeiro Noitão no Capitólio (2011) levaram 3 anos para retomar o projeto, e descobriram que não seria mais possível fazê-lo no antigo cinema, pois o dono daria, em novembro de 2014, uma nova finalidade à estrutura (a antiga Sala 2), sucata abandonada do mais longevo cinema de Pelotas, inaugurado em 1928, reformado em 1967 e fechado em 2007.

Quais seriam os "outros planos para a estrutura"? A expressão foi usada na reportagem de sexta (31-10) no Diário Popular que anunciou o segundo e último Noitão, exatamente no amanhecer de Finados (2-11).
O clima será de despedida. Após as sete horas de exibição, a sala não estará mais apta para o uso. Os organizadores adiantam que o aluguel do prédio retornará para o proprietário, que possui outros planos para a estrutura.
Se a antiga Sala 1, com 900 poltronas, virou estacionamento de carros, o mezanino teria vocação de estacionamento de motos? Uma lan house, talvez? Locadora de celulares ou de pen drives?

Teria que ser algo lucrativo, pois o prédio é imenso. Mas nada de livros ou filmes, pois a cultura somente traz prejuízo e desequilibra as finanças. Tampouco sonhos idealistas, por muito elevado que seja o 2º andar.

De um lado, a entrada de carros; de outro, o acesso à fantasia. No meio, o velho guichê desativado.
A resposta está à vista de quem passa pelo "Estacionamento Capitólio" (a ex-sala para 900 pessoas). Esta semana devem começar as obras para instalar o tal projeto (na ex-sala 2), que é precisamente financeiro, destinado a não dar prejuízo.

A expressão "Lotérica Capitólio" esconde duplo eufemismo metafórico. Dois enganos ao consumidor desavisado: uma loteria sem ganhadores e um cinema sem filmes.

Na Agência Lotérica, não haverá muitas apostas ou esperanças de uma vida melhor (a loteria da vida); o nome Capitólio não despertará aventuras ou fantasias de luxo (evocação do finado cinemão). Simplesmente, um guichê bancário recolherá o pagamento de dívidas, disfarçado com cores e, ainda por cima, em desajuste com as normas de acesso para idosos e cadeirantes. Quem quiser estacionar o carro terá a oportunidade de pôr em dia as contas, e quem precisar ir ao banco também poderá estacionar.

A mesma escada que antigamente despertava a imaginação agora servirá para expiar culpas. Ronnie Von poderá cantar sua letra dos anos 60, em paródia: o mesmo cine, a mesma sala, a mesma escada, o mesmo mezanino, tudo é igual, mas estou triste, porque não tenho você perto de mim...

Humilde sugestão: para não descaracterizar o projeto, o eufemismo poderá ser adornado com a venda de pipocas, cartazes de filmes e ar condicionado. O público saberá da falsa promessa, mas não haverá quem resista a uma pitada de fantasia.
Fotos: F. A. Vidal