segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

"Uma corte nos pampas", a burguesia monarquista

O Mercado Central de Pelotas era assim
no século XIX. Foi mandado construir
logo após a visita do Imperador em 1866.
Em seu mais recente livro, a pesquisadora Zênia de León relata o lado humano dos titulados da nobreza pelotense do século XIX. De acordo ao blogue da Academia Pelotense de Letras, a escritora apresentou em outubro passado "Uma Corte nos Pampas", em primeira mão, no Museu Imperial no Rio de Janeiro, e em Petrópolis, onde se encontrou com descendentes do Imperador.

Posteriormente a obra foi apresentada, na Feira do Livro de Pelotas, pela Livraria Mundial, que está reeditando alguns livros de Zênia. Leia abaixo trechos do Prefácio, escrito pela pelotense Arita Cheuiche Godoy.

O governo de Dom Pedro II designou como barões e viscondes alguns de seus fiéis seguidores no extremo sul, homens que atuaram como empresários e políticos, benfeitores do Império, especialmente entre 1845 e 1888. Por seu baixo número e por sua proximidade com o poder, esse grupo de milionários, muitos deles sem linhagem nobre, constituía uma verdadeira "corte real". A ausência de um rei ou rainha nesse ambiente de opulência permitiria denominar esse grupo como "corte irreal". Em linguagem de hoje, os chamaríamos jet set ou "classe A".


Prefácio

A autora Zênia de León já nos apresentou inúmeros trabalhos em algumas linhas de produção escrita. Entretanto, é na área da pesquisa histórica que reside todo um potencial importante. É o gosto que tem por descobrir novidades históricas, episódios. Como este que agora nos brinda: saber um pouco mais sobre a nobreza em Pelotas.

Porque a cidade teve tantos titulados do Império e que atuaram como economistas, industriais, guerreiros, beneméritos, políticos, que representaram uma parcela influente na comunidade, aqui está sua presença. O que mais destaca neste trabalho é a ideia de uma corte quase autêntica. Só não autêntica por não ser real no sentido de existir. Mas real pelos aspectos comuns a uma corte. Vejamos:

A formação social no sul da antiga província era diferenciada. Corria paralela à “grande corte”, no Rio. Era absurda, antagônica, servil. Pensava-se na liberdade escrava, mas tinham-se escravos. Dessa ambiguidade nasceu o apogeu financeiro, o progresso, o refinamento, e nasceu também o próprio desejo de liberdade do gentio. Se “o rei de Portugal se estabeleceu no país em 1808 para criar um poderoso império no Brasil”, poucos anos depois se estabeleceria uma “corte fictícia” em Pelotas.

A corte em Pelotas, embora fictícia, é reveladora, merece ser contada por ter feito parte de um ciclo importante, o das charqueadas, da opulência e da cultura, e seu legado está aqui para se ver. A opulência arquitetônica como um bem inigualável da monarquia, a fundação de liceus, fábricas de azulejos, vidros coloridos, chapéus, carruagens...

Aspecto interior do Solar do Barão de Três Serros,
hoje restaurado e conhecido como Museu da Baronesa.
Homens pardos e mucamas iam ao mercado fazer compras, mas sinhazinhas acompanhadas lá compareciam para dar um toque da presença de cortesãos ao local. No mais, a “corte dos Pampas vivia esquecida, tranqüila, escondendo nas senzalas por mais de setenta anos uma mercadoria encalhada a trabalhar sob a chibata.

E era no subsolo dos casarões que se escondiam os obreiros da cidade. Em cima, uma biblioteca de causar inveja. Na economia, o apogeu das charqueadas; nas senzalas, o cansaço do escravo; nos salões, as luzes dos lustres acesos e nos porões, a escuridão dos catres.

A escritora está sendo corajosa ao tratar de um sistema extinto e sumariamente desprezado. Mas a História precisa de um registro. Este registro está sendo marcante. Abrem-se novos horizontes e novos olhares depois da leitura deste livro, temos certeza.

Na verdade, o livro que a escritora e pesquisadora Zênia de León nos apresenta é um retrospecto de informações, com fatos históricos vistos por olhos perspicazes que analisam o lado humano de uma geração extinta, os monarquistas. Foram quase dois anos de investigação sobre o tema para resgatar de forma acessível o que se passou há duzentos anos, no papel de seus figurões, protagonistas de uma história ainda não de todo explorada.

A verdade é que dificilmente se poderá encontrar um escritor, sobretudo no século XXI, que não reflita sobre tudo no século XX, de maneira a julgar com justiça e parcimônia os prós e os contra de um sistema.
Arita Cheuiche Godoy

Casa 2: Barão de Butuí. - Casa 6: Barão de São Luís. - Casa 8:  2º Barão de Cacequi
Imagens: APEL (1), ASCOM (2), 19&20, fig.01 (3)

2 comentários:

Maribel Dias kroth disse...

E unde era o casarão da família Francisco de sousa Coelho, fundador da Sousa cruz em Pelotas com seu irmão, e porque colocaram fogo no principal cartório da cidade na época que tinha toda a documentação sobre essa empresa e seus herdeiros?

Francisco Antônio Vidal disse...

Desconheço como informar a leitora sobre esses fatos históricos, seria preciso pesquisar. A escritora Zênia se encontra em tratamento médico, mas agradeceu a pergunta e promete buscar informações quando lhe for possível. A própria leitora poderia ajudar, dizendo que outros dados tem sobre os Coelho e sua casa.