A artista plástica Adriane Hernandez, professora de Artes Visuais da UFPel, preparou uma exposição de seus alunos, em parceria com o Instituto João Simões Lopes Neto. Os estudantes deviam elaborar criações não tradicionais em torno ao livro - como conceito e como objeto - e à casa do escritor.Em visita ao Instituto, as ideias apareceram e foram feitos os projetos de acordo aos lugares da casa. Assim, a exposição "A casa, as estantes e os livros", com pouco mais de uma dúzia de surpreendentes trabalhos, foi aberta na quinta 22 de julho, e se prolongou até 30 de julho. Aqui vou me referir a metade deles.
O "Chocolivro" de Etiene Rosa foi devorado pelos visitantes da inauguração, aos pedacinhos, pois tinha páginas de chocolate. Nos dias restantes, só ficou a capa para contar a sua história.Dê Duarte pensou "O livro como um corpo sedutor" (dir.), transpondo o texto a uma forma humanoide. A sedução estaria nas curvas, ou em certas zonas erógenas, ou na sugestão indireta de uma alma feminina. A palavra corpo foi aqui literal demais, pela eliminação de cabeça e membros.
Duas bíblias de bolso, cravadas com pregos de 20 cm, pareciam gritar que a Palavra de Deus fora crucificada ("Rompendo paradigmas", de Douglas Veiga). Os livros ficaram inutilizados, como uma pessoa condenada à morte por imobilidade. Seria possível uma ressuscitação, uma reutilização após a pena ser levantada?
Um livro-espelho, intitulado "Leia Você" (esq.), ficou aberto na altura dos olhos, em posição de refletir mutuamente suas páginas e de enviar reflexos ao espectador de si mesmo. Alessandra BB nos recordava, sem sutilezas, que a leitura tem a função do autoconhecimento.O nome da obra também jogava - como um espelho - com a regência do verbo (sinônimo de "palavra"). Se lido como intransitivo, "você" seria sujeito. Sendo "ler" transitivo, "você" seria objeto direto. Em ambos casos, fosse sujeito ou objeto, o leitor leria a si mesmo. O livro também poderia chamar-se "Reflita você".
"Luz e sombra" (dir.), o impressionante livro-janela de Karen Campos, foi construído com papel paraná, craft, celofane e lâminas de retroprojetor. O tamanho da obra, adaptado à realidade física da casa, também dizia que ser escritor (ou encadernador) envolve bastante trabalho, na concepção e na confecção. Pequenos nos sentimos ante certos livros.O livro com forma e funções de janela, além de ser parte da casa de um escritor, permite olhar o mundo lá fora, iluminar o interior, trocar de ar e escrever nos vidros.
As várias folhas podiam ser folheadas e lidas sem dificuldade, e em cada uma havia mensagens epigramáticas como esta (do poeta português Arlindo Mota):
Quem controla o desejo: a emoção ou a ternura?
- A paleta, responde o pintor.
- A palavra, atalha o poeta. Juntos, distribuem a luz que inunda de cor o planeta.
Fotos de F. A. Vidal
Vidal
ResponderExcluirMuito boa essa matéria. Conforme Baudelaire: "Para ser justa, para ter razão de ser, a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, isto é, feita de um ponto de vista que abra mais horizontes." Creio que vc teve sensibilidade para isso. Parabéns!
Adriane Hernandez