Mostrando postagens com marcador Bicentenário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bicentenário. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de julho de 2013

O chão que pisamos em Pelotas


O artista pelotense Manoel Soares Magalhães descreve sua cidade em suas obras, sejam literárias, visuais ou audiovisuais. Em 2012, quando se comemorava o bicentenário de Pelotas, ele elaborou fotografias como a da imagem acima – onde sintetiza conceitos como arte, tempo e vida, numa composição mista de formas geométricas e naturais – e batizou a série como "o chão que nós pisamos" (veja outras fotos no blogue Cultive Ler).

Nós pisamos os desenhos de nossas calçadas e, mais ainda, não os olhamos. Caminhamos de nariz para cima, como se fosse natural passar por ladrilhos hidráulicos de cem anos de existência. Turistas, pesquisadores, fotógrafos às vezes conseguem abrir-nos os olhos a nossa própria cidade. Veja como a cada ano um artista retoma este conceito tão presente no dia-a-dia dos pelotenses.
  • Em 2013, Rafa Marin fotografou uma calçada central em união com a arquitetura circundante (v. o post  Arte embaixo, arte acima). 
  • Em 2011, a fotógrafa rio-grandina Cristiane Neves destacou um ângulo especial de nossas calçadas, mostrando o ser humano como protagonista (v. O passo do transeunte). 
  • Em 2010, Gracia Casaretto valorizou os ladrilhos pelotenses no desenho de uma exclusiva linha de roupas (v. Estampas Hidráulicas). 
  • Em 2009, André Barbachan criou serigrafias baseadas neste conceito (v. A estética das tijoletas). 
  • Na canção "Pelotas", apresentada aqui em 2007 e 2008, Kleiton e Kledir mencionam de início os famosos ladrilhos hidráulicos (veja post com a letra).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pelota fará nova travessia dia 7 de julho


Uma pelota de couro confeccionada pelo Parque Gaúcho de Gramado encontra-se exposta no interior do Mercado Central até sexta 5 de julho, junto a um banner informativo (dir.). O sítio da Prefeitura divulgou fotos.

No domingo 7 de julho, às 15h, será promovida a segunda travessia da pelota, na Charqueada Boa Vista. A primeira foi há exatamente um ano, no dia do Bicentenário de Pelotas.

Em 2012, o objeto foi confeccionado no Parque Gaúcho, trazido a Pelotas, mostrado ao público na 20ª FENADOCE, logo no Calçadão da Sete de Setembro e, no dia dos 200 anos (sábado 7 de julho), cruzou o Arroio Pelotas. Sobre a pelota em exposição defronte ao Café Aquários, a reportagem do Diário Popular escreveu:
Muitos que passam pelo local não resistem à curiosidade e param para tocar ou apenas observar a peça. Ela chama a atenção principalmente pelo tamanho, pelos materiais utilizados e pelo cheiro do couro. A autêntica pelota vai ficar no Calçadão até 6 de julho, véspera do aniversário de 200 anos. No dia da grande comemoração, será utilizada em uma travessia sobre as águas do arroio Pelotas, o que deu origem ao nome da cidade (v. a matéria completa).
Aqui no blogue saíram as notas Pelotenses verão por primeira uma pelota em uso (dia 6) e Equipe reconstituiu aquarela de Debret (dia 9). A travessia de 2013 promete suscitar novas reportagens.
Fotos: Prefeitura de Pelotas

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Um pórtico polêmico

Foto de Carlos Queiroz sugere união entre a casa e sua "entrada".
Um pórtico é o espaço de entrada de uma grande construção (como um templo ou um palácio) que soleniza o conjunto e o ingresso a ele. É um elemento arquitetônico da Grécia Antiga que se disseminou pelas demais culturas.

Modernamente se aplica também a cidades; temos, por exemplo, o impressionante portão de Gramado, o pórtico com farol em Santa Vitória do Palmar, o pórtico de entrada a Rio Grande.

Ainda hoje Pelotas é uma das tantas cidades que não têm um pórtico especial que assinale a entrada a seu perímetro urbano.

Com sede própria há uma década, a Academia Pelotense de Letras sentia a falta de uma entrada digna. A antiga construção, que já foi escola, não conta com vestíbulo nem com cercas de proteção: quem chega de fora já entra ao salão, sem preâmbulos (veja nota com imagens da casa).

Presidente reeleita mais de uma vez nestes anos, a escritora Zênia de León propôs há uns cinco anos um pórtico grego para esta casa. O projeto foi questionado (notícia de julho passado) — e ainda é — mas obteve as licenças formais e foi inaugurado este sábado (10), sem que a polêmica diminua. Tem relação com o parque? Tem relação com a Academia? Tem relação com os 200 anos de Pelotas? Deveria ficar na entrada da cidade ou em outro logradouro público?

Prefeito e acadêmico Fetter Jr. inaugura o monumento.
O prefeito Fetter Júnior, que como escritor é também integrante da Academia, recebeu simbolicamente o pórtico como um monumento dedicado à tradição pelotense e o descreveu como um novo ponto turístico da cidade (notícia do Diário Popular, no mesmo sábado). Mais exato seria dizer que o ponto turístico é o parque Dom Antônio Zattera e este pórtico, um de seus tantos monumentos.

O portal da Prefeitura na internet também não esperou a segunda-feira e emitiu a notícia este domingo, com fotografias (veja a nota).

A estrutura superior contém o lema Per aspera ad astra (literalmente, "pelas asperezas às estrelas"), em letras análogas ao nome que está na fachada, "Academia Pelotense de Letras".

Crase com acento agudo usava-se até os anos 40.
Abaixo de cada par de colunas que sustenta essa estrutura, há uma placa:
  • a da esquerda diz "Á Tradição Cultural de Pelotas em seu Bicentenário" (com acento agudo no A), como se vê na foto (dir.);
  • no da direita se lê "Academia Pelotense de Letras, Zênia de León, 2012".
Alguns veem o pórtico como um monumento bonito e significativo, enquanto outros o consideram irrelevante e até sem sentido estético, histórico ou urbanístico — opiniões que eram emitidas e publicadas antes que fosse construído. Agora que a ideia saiu do papel e ocupa o espaço público, pode e deve ser avaliada pela população.

O novo apêndice arquitetônico tem a virtude de chamar a atenção visual e de suscitar discussão na comunidade, mas ainda uma quantidade de falhas entorpece os seus bem-intencionados objetivos:
  • o pórtico foi pensado para a sede da Academia, mas não serve de abrigo nem facilita a entrada ao visitante, deixando a casa com o mesmo problema estrutural,
  • os encontros que se realizavam na sombra das árvores passarão a ser feitos sob o rigor do sol,
  • a estrutura destaca muito mais a Academia como entidade (com inspiração na Grécia Antiga) do que a tradição da cidade (identificada com a Europa renascentista e ainda com elementos africanos), ambas fortemente ancoradas no passado,
  • o destaque à Academia fica ainda mais evidenciado pela "assinatura" da presidente como autora do pórtico (na placa da direita) e pelo uso do lema em latim (sem clara relação com Pelotas),
  • Pelotas tem vários prédios com colunas gregas, mas construí-las em 2012 é extemporâneo, e ainda mais em desacordo com o estilo da casa para o qual foi feito,
  • uma cidade com consciência turística poderia sim ter um pórtico de entrada, e o debate sobre sua construção, desenho e lema deveria ser feito por todos os segmentos sociais,
  • a gafe da crase com acento agudo (foto acima) não fala bem da função linguística da Academia; fica talvez como anacronismo, lembrando que era nesse formato (Á) que se escrevia há cem anos (veja notícia de 1912 no Correio do Povo).
Restará à comunidade pelotense incorporar este novo elemento em seus costumes e sua vida cultural, relacionando-se mais intensamente com esta associação literária que pretende conscientizar nosso passado e acompanhar-nos, mesmo com asperezas no caminho, às altas estrelas do futuro.

Monumento em forma de pórtico, dedicado à tradição cultural de Pelotas

POST DATA
3 fevereiro 2013

Em agosto de 2012, o arquiteto Pedro Marasco da Cunha emitiu uma opinião profissional sobre a localização do monumento, que ilustrei com imagens de outros pórticos na arquitetura pelotense (veja o post).


Após a publicação da presente nota, ainda no mês de novembro de 2012, a Academia fez a correção no acento do "A" que contrai preposição e artigo. 


Fotos: C. Queiroz (1), R. Marin (2-3), F. A. Vidal (4-6)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Palavras de presente para uma cidade balbuciante

A Professora Loiva Hartmann abriu com sucesso, na sexta 6 de julho, a exposição de poemas ilustrados "Somos a chave de tudo, ou não?". As palavras da poetisa, que mora na Princesa do Sul há muitos anos, são expressamente dedicadas aos 200 anos da cidade. Mostram que quem ama vê o coração mais profundo, e pode com razão criticar o defeito do ser amado, para vê-lo mais feliz e mais próximo de sua essência.

Na foto acima, tomada no Bistrô da SECULT, o poema "Caos" (clique nas imagens para ampliar), com o pátio do Casarão ao fundo. No desenho de Élbio Porcellis (1996), uma mulher nua se desfaz ante um relógio derretido: o tempo inclemente decepcionou as expectativas de um amor eterno. Mas a vida continua, com sua dureza e impiedade.

Os dois textos seguintes parecem contradizer-se, mas se referem a dois sentidos de uma palavra. O jogo verbal é válido para esclarecer falhas de nosso desenvolvimento como pessoas e como cidade (seja o crescimento ocorrido no passado ou o possível no futuro).

Ora somos cegos ante o próprio Eu espiritual (chave de tudo e caminho para a divindade), ora enxergamos nada mais que o Eu narcísico (por contraste com os demais seres humanos à nossa volta).

Somos a chave de tudo... ou não?

Este, chora o amor que perdeu.
Esse, o amor que não viveu...
Aquele, lamenta tudo o que não creu...


Estamos sempre a mendigar de Deus,
a pedir a Deus,
a esperar de Deus...

Só não olhamos o próprio eu.
Chave.


Dos Pronomes Pessoais

Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Eles

Tão simples e completo.
No entanto, ainda não passou de analfabeto
o ser humano: está ainda no "eu".


Vê pouco? Ouve mal?
Tem atrofiado o cérebro?

Ou está desregulado?

O que realmente aconteceu
para que o Homem, até hoje,
não conseguisse enxergar nada além do eu?

Desta atrofia é direta consequência
o mundo e sua violência.


Os poemas ficam expostos até 30 de julho. A inauguração foi comentada por outro escritor gaúcho, também radicado em Pelotas, o Professor Jandir Zanotelli. Leia abaixo um extrato de seu artigo, publicado no Diário da Manhã de segunda-feira (16).

Palavras Gagas

Noite fria. Chuva fina. Minuano. Inclemente. Mas lá estavam os amigos de Loiva, colegas, familiares e a Academia Sul-Brasileira de Letras: a presidente Maria Beatriz Mecking, a secretária Wilma Mello Cavalheiro, a tesoureira Marísia de Jesus Vieira e a presença marcante de Lígia Antunes. Dentro da briga por sua saúde, esta lutadora incansável e querida deu àquela festa o tom da profundidade literária e de amizade bem merecidas por Loiva.

De parabéns Loiva. De parabéns Pelotas. De parabéns a literatura costurada com nossas palavras gagas. A palavra do homem, a poesia do homem é sempre gaga, recordando a bela imagem de Moisés. Nunca sai limpa, pronta, acabada, nunca definitiva, absoluta, total. É sempre insuficiente para dar conta do sentido da vida e das coisas. Apenas prenúncio. Sempre ensaio, tentativa e tentação.

A narração da história de Pelotas, em seus duzentos anos, também é gaga. Que bom! Há espaços para múltiplas vozes, múltiplas escutas que nascem do silêncio de nosso deserto e da sarça que arde em seu seio sem jamais se confundir. Convocação, apelo, promessa, esperança para construir um novo mundo.

Jandir Zanotelli

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Equipe reconstituiu aquarela de Debret

Uma parceria entre Parque Gaúcho de Gramado, Sinduscon, Ato Produções e a Comissão UFPel/200 permitiu reconstruir a travessia de uma pelota pelo arroio Pelotas, na manhã de sábado (7), quando o município comemorou 200 anos da criação da Freguesia de São Francisco de Paula.

Em 1812, já existiam várias charqueadas com mão-de-obra escrava, em torno ao então chamado Rio das Pelotas e do Rio de São Gonçalo. As pequenas embarcações, feitas de couro -segundo o uso indígena- para transportar objetos, passaram a servir aos novos interesses, com escravos transportando senhores e seus materiais.

As pelotas (palavra espanhola) pareciam bolas flutuantes, mas também se diz que os portugueses as denominaram assim por suposta associação com a seminudez de quem as usava (pelote seria o antigo nome de uns trajes menores). A expressão espanhola andar en pelotas se confundiu aqui com o uso das pelotas de navegação (consulte pelota2 no dicionário da Real Academia Española). Com o tempo, o singular nome ficou caracterízando o arroio, a região e a futura cidade. Mas pelotas em uso não foram mais vistas, até este sábado 7 de julho de 2012.

O pintor francês Jean-Baptiste Debret representou em duas aquarelas o uso das pelotas para transportar pessoas, uma de cada vez. Mas não há registro exato de quando ele teria estado na Freguesia de São Francisco de Paula, se é que esteve por aqui. As fotografias mostram a reconstituição de uma dessas duas aquarelas de Debret (abaixo); veja a outra no post Pelotenses verão por 1ª vez uma pelota em uso.


A partir de 1816, Debret lecionou pintura no Rio de Janeiro, dirigiu a Academia Imperial de Belas Artes, organizou em 1829 a primeira mostra pública de arte no Brasil, voltando à França em 1831. Lá publicou os 3 tomos de "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", com 153 pinturas de seus 15 anos de viagens. Debret é um artista com influências do neoclassicismo e do romantismo, o que significa seu interesse pelo exotismo e pelo heroísmo dos personagens, com cuidado técnico mas não necessariamente científico. Por isso é preciso dizer que a reconstrução histórica feita em Pelotas à base desse "registro" compartilha essas influências artísticas.

Veja mais imagens e relatos dessa reconstrução sentimental-histórica, que ficará na memória dos pelotenses por muito tempo, no blog de Nauro Júnior Retratos da Vida, no sítio jornalístico Treze Horas, no blog de Luíz Carlos Vaz e no Diário Popular.


Imagens: C. Queiroz (1), Nauro Jr (2)

domingo, 8 de julho de 2012

O tempo é a vida que não tem fim


Travessia é um curta-metragem dirigido por Rogério Peres, com roteiro de Manoel Soares Magalhães, filmado (no Trapiche do Valverde, em julho de 2011) para fazer parte da série "O Espírito das Ruas", idealizada por Magalhães para homenagear o bicentenário de Pelotas. O projeto está em andamento e já lançou dois segmentos, mas foi reformulado em 2012 e arquivou as filmagens do ano passado.

Devido a seu interesse, "Travessia" fica hoje aqui para reflexão sobre a vida das pessoas dentro da humanidade e para um embrião de filosofia sobre a existência das cidades no contexto da história. Nós passamos pela vida ou é a vida que passa por nós? Se nosso tempo na terra é passageiro, o que resta depois de nossa passagem? Como podemos identificar o nascimento e a morte de uma comunidade formada de várias vidas?

sábado, 7 de julho de 2012

"A Flor do Sal", poema para Pelotas

"A Flor do Sal", de Mario Osorio Magalhães, é um poema-relato que resume o desenvolvimento da cidade de Pelotas, desde sua pré-história (antes da fundação como freguesia em 1812) até o século XX. A flor do sal é o coalho que cristaliza na produção de sal marinho, mas neste texto a expressão é uma metáfora do florescimento da cidade em torno à fabricação de charque (carne seca e salgada).

Desde 1780 até 1910 Pelotas teve seu "ciclo salgado", do qual derivou sua riqueza econômica e cultural, ainda não igualada pelo "ciclo doce", nascido nos bastidores das charqueadas, e hoje exaltado na FENADOCE.

"Nossa Doce Pelotas", vídeo idealizado em 2009 por Viviane Lino (formanda do curso de Turismo da UCPel), utiliza o poema-guia de Magalhães para divulgar a cidade.

O trabalho audiovisual foi apresentado publicamente no dia 7 de julho daquele ano, e em novembro seguinte destacado como um dos melhores vídeos no 11º Seminário de Turismo e Cultura da UCPel (veja notícia).

Nas imagens aparecem o autor Mario Osorio Magalhães, o locutor Otávio Soares e o músico Leonardo Oxley Rodrigues, que compôs e interpretou a trilha sonora, à base da melodia do Hino de Pelotas (1935), de Romeu Tagnin.

Confira abaixo o texto completo de "A Flor do Sal", transcrito do livro "História e Tradições da Cidade de Pelotas" (Magalhães, Ardotempo, 2011).



A Flor do Sal

Mario Osorio Magalhães
I

Primeiro era o gentio — pagão,
sem Deus, sem devoção, sem luzes.
Ultrapassando as fronteiras,
vieram homens de negro,
que empunhavam cruzes,
e bárbaros maltrapilhos,
que conduziam bandeiras,
adagas e arcabuzes.

E o jesuíta voltou, acuado,
pra o outro lado do rio...
Pois era agora o gentio e gado
— milhares e milhares de cabeças de gado bravio.

Juntaram-se em vacarias,
recolheram-se em currais.
— É, sim, só valia o couro
desses rebanhos baguais.
Mas muito o couro valia!

Foram chegando os tropeiros
— lagunenses e mineiros,
paulistas e cariocas.
Brotaram ranchos, malocas,
nas mais remotas distâncias.
Depois, os açorianos,
madeirenses, transmontanos...
Doaram-se as sesmarias,
domaram-se as valentias,
dobraram-se as alternâncias:
gaudérios/pais de família;
boi xucro/gado de cria;
pampa selvagem/estâncias.

— É, sim, só valia o couro
desses rebanhos baguais.
Muita era a serventia
dessas peles animais:
pra arreios, caronas, tentos,
bainhas, guaiacas, botas...
Centauros, ao desmontarem
dos seus fogosos cavalos,
de botas vararam charcos
e os rios passaram em barcos
de couro que, enfim, chamaram
— que trataram de pelotas.

— É, sim, só valia o couro...
Até que, do além do ouro
das velhas Minas Gerais,
retirante da má sorte,
um homem chegou do Norte;
branqueou de sal as tropas
(nossos rebanhos baguais)
à beira, num descampado,
de um rio que, por devassado
nas travessias remotas,
nossos campeiros monarcas
tratavam, igual que às barcas,
de um mesmo nome: Pelotas.

* * *

Agora valia a carne,
os músculos animais...
Dos mares, dos arredores,
vieram donos de iates
(que juntavam patacas),
trabalhadores negros
(que empunhavam facas),
capitães do mato e feitores.

De recantos bem distantes,
eram famílias chegando,
chegando os comerciantes:
mascates negociando
os seus tecidos; mulheres
se oferecendo aos prazeres.
Carreiras, jogos de azar...
Sempre a se multiplicar
— como em mágicos espelhos —
adultos, crianças, velhos.

Pois nasceu o povoado
poucas léguas afastado
do rio que passava em frente
da primeira charqueada.
Por alvará do regente
e por decisão do bispo,
a aldeia foi registrada
com o nome de São Francisco.

Se bem que intenções devotas
respeitasse, aquela gente
ainda assim preferiu
que se chamasse Pelotas
esta porção do Brasil
— talvez, lá no inconsciente,
querendo que andasse em frente,
seguindo sempre a corrente,
feito um barco e feito um rio...



II

Nesta porção do Brasil,
entre novembro e abril
faz mais calor, menos frio;
menos chove e menos venta.
Pois nesses meses de estio
a fria faca assassina
que empunhava o negro mina
degolava trinta mil
cabeças de boi em cada
charqueada das quarenta
que havia à beira do rio...
Pilhas e pilhas de charque
secando ao sol, no varal;
e as mantas de couro em sal
curtindo, para o embarque
até Rio Grande em iate
e para a Europa em navio
— em navio para as Antilhas,
pra América, pra Bahia,
pra Pernambuco e pra o Rio...
No retorno a embarcação
trazia luz no porão.

Reluzindo feito ouro,
no lugar do charque e o couro,
vinha a Civilização.
(Nessa viagem de volta
o navio vem carregado
das luzes da nova Europa:
o Século vem na troca,
estacionando no Porto,
desembarcando em Pelotas...)

III

Pra diversão nada falta:
são as luzes da ribalta,
concertos e operetas;
músicas, bandas, retretas
no Porto e depois no Parque;
nos intervalos do charque,
os negros com seus batuques;
barões que sonham ser duques,
donzelas com ser senhoras;
poetas às altas horas
declamam pelos saraus;
uns homens, nos carnavais,
transfiguram-se em mulheres;
banquetes de mil talheres,
mil folhas, quindins, pastéis,
fios de ovos, camafeus;
discursos dos bacharéis,
procissões, louvor a Deus,
igrejas e a Catedral...
E o poder dos coronéis,
Miss Universo, bra-péis...

Um dia um banco faliu.
Derrubou-se um casario.
A crise. O mundo atual...
Pela corrente do rio
escorre o ouro animal...
Mas não leva a tradição.
Ainda brota do chão,
crescendo no coração,
Pelotas, a flor do sal!

Imagens:
- Aquarelas de Jean-Baptiste Debret (Charqueada e Pelota)
- "Lancero de la Epoca de Rivera", de J. M. Blanes (Wikipedia)
- Vitral da Catedral de Pelotas (F. A. Vidal)


POST DATA
20-09-12 Veja o post Poemas de Mario Osorio Magalhães.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Zezé curte os 200

Biscoitos Zezé promove uma doação para Pelotas usando sua página no Facebook como contador: a empresa ganha curtidas e algumas entidades ganham biscoitos. Ao compartilhar a foto, os primeiros leitores a curtir estão usando o recurso de mencionar amigos para pedir mais votos. Nas primeiras 6 horas já foram mil votos. A promoção encerra daqui a 24 horas, no fim do sábado 7 de julho.

Pelotenses verão por 1ª vez uma pelota em uso

Este sábado (7), recorda-se a criação da Freguesia de São Francisco de Paula, nascida há duzentos anos no assim chamado Rincão das Pelotas. A área então pertencia à Vila do Rio Grande e dela se desmembraria vinte anos depois (em 1832), originando assim a Cidade de Pelotas, que adotou oficialmente o primitivo nome em 1835.

Uma celebração simbólica deste bicentenário foi idealizada pela Comissão UFPel/200 (veja nota do Treze Horas): a Travessia da Pelota de Couro cruzando um ponto do Arroio Pelotas.

Segundo Clayton Rocha, ele deu a ideia (leia nota) e o dono do Parque Gaúcho de Gramado aceitou o desafio de fabricar uma pelota de couro (veja outra nota do Treze).

A pequena embarcação foi confeccionada segundo os padrões históricos (leia notícia), foi trazida a Pelotas e exposta na FENADOCE (dir.) e, posteriormente, num quiosque defronte ao Café Aquários.

Do centro da cidade, a solitária pelota será levada ao ponto escolhido para a travessia, a Charqueada Boa Vista, que será especialmente aberta ao público para as comemorações. Ao meio-dia será servido um almoço por adesão antecipada (arroz carreteiro com charque e feijão, pudins e doces em calda) e logo haverá um show musical com Joca Martins e Kako Xavier e a Tamborada.

Será um segredo até o último momento quem conduzirá a pelota e quem subirá a bordo dela (nota do Treze Horas). Somente foi anunciado que nadadores da Escola de Educação Física da UFPel vão colaborar na travessia.

O certo e sabido é que pelotense algum (dos que hoje vivem) viu jamais, sequer em filmes, uma pelota em uso no Arroio que deu nome à zona (antes de 1812) e à cidade (desde 1832). Quando surgiram as grandes charqueadas, na década de 1780, e se impôs a escravidão como sistema oficial de "emprego", a região foi abandonada pelos indígenas -que mais usavam as pelotas- e até hoje ninguém se havia interessado em sua reativação. Considerando-se que esta Travessia da Pelota provavelmente não se repetirá (talvez no tricentenário), tem-se o 7 de julho de 2012 como um dia histórico.
Foto: F. A. Vidal (1)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Bastidores do Concerto dos 200 anos na Catedral

Bruno Maestrini gravou, fotografou e editou os aspectos menos visíveis do Concerto dos 200 anos realizado pela Sociedade Pelotense Música pela Música, sábado (1) na Catedral de São Francisco de Paula. Identifique as pessoas que reconhecer nas imagens.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Jingle e logo para os 200 anos de Pelotas


Uma cidade que já nasceu progressista, cresceu rápido e viveu diversas fases (revoluções, auge econômico, figuração artística e política) chega a seus 200 anos com muitas lembranças históricas e polêmicas internas. Tentando gerar acordo e unificação, a Prefeitura Municipal contratou para o Bicentenário uma campanha de publicidade que não excluísse ninguém e que não frisasse a importância do passado nem do futuro por si sós. A ideia completa dizia num cartaz:

Pelotas é uma cidade cheia de história,
mas também está pronta para o que vem pela frente.


O refrão do jingle (vídeo acima) diz:

Pelotas faz duzentos anos e segue em frente,
vive a história e o futuro da sua gente.

Já a estrofe (o áudio esteve disponível por um ano no sítio da Prefeitura) é uma verdadeira lição de vida que incentiva o progresso, mas – talvez por economia – não ficou incluída nos clipes visuais. Vale a pena deixar o registro e meditar nos versos:

A vida é doce pra quem vive a sua história
com todo o orgulho, mas não mora no passado.
A vida é doce pra quem faz acontecer,
enxerga longe e planta agora o resultado.

A mesma campanha fez uma logomarca com o número 200 que não esconde sua semelhança com um dos símbolos do bicentenário da independência argentina (1810-2010). A ideia estrangeira foi repetida em nossos 200 anos, com pequenas modificações, como mostrou um leitor do blogue Amigos de Pelotas.

A bandeira do país vizinho é conhecida pela combinação de azul celeste e branco, e logicamente usou essas cores numa faixa que desenhava o número 200.

Bandeira argentina (v. Wikipédia)
A criança argentina correndo com a faixa bicolor também teve um remake entre nós, talvez aproveitando as duas cores mais notórias da bandeira pelotense.

Bandeira pelotense (v. UFPel)
Será que se usasse também o amarelo de nossa bandeira teria havido desnecessárias discussões  (sobre o Clube Brilhante e o E. C. Pelotas)? Será que algum pelotense hoje se identifica com as cores de sua bandeira (azul, amarelo e branco) ou somente vê as do clube de futebol?

Em sua tentativa de imparcialidade, a campanha dos 200 anos ficou no óbvio e o jingle não pegou força na população, talvez por recordar o formato de uma campanha política e a inevitável proximidade das eleições municipais. Mas a Prefeitura ainda aproveitou o embalo da despedida para fazer outro clipe de divulgação de seu trabalho, agora misturando os progressos do governo com a alegria dos 200 anos (vídeo abaixo).

domingo, 1 de julho de 2012

Parabéns a Pelotas

O Diário Popular no Facebook homenageia o aniversário de Pelotas mediante postais criados pelo coordenador de Arte Bruno Campelo. Foram utilizados trechos do texto poético "Minha casa, tantas casas" (leia o texto completo), de Pablo Rodrigues, e fotografias de Moizés Vasconcelos (acima), Jô Folha, Carlos Queiroz e Paulo Rossi (abaixo). Os leitores podem participar da homenagem compartilhando sua imagem preferida.

É verdade que Pelotas tem as quatro estações ao longo do ano (às vezes, variações do clima num mesmo dia), e seu verão é bastante curto, mas as quatro fotos escolhidas descrevem uma cidade bastante europeia e invernal (chuvosa, escura e solitária). Como já temos visto aqui no blogue, os pelotenses costumam ver-se de modo melancólico e até mesmo fantasmagórico, tanto pela neblina diurna, como pelas sombras da noite.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cerveja dos 200 Anos

O empresário Valter Poetsch (foto abaixo à dir.) presenteou a cidade com um produto especial fabricado em sua microcervejaria, a Original Bier, instalada há 12 anos em Pelotas (veja uma lista do sítio Cervejas do Mundo).

O presente simbólico consiste em 200 garrafas da Cerveja dos 200 Anos, um de cujos exemplares foi entregue quinta (28) ao prefeito (veja notícia).

Adolfo Antonio Fetter recebeu o exemplar nº 011 (dir.) da cerveja pelotense, numa aparente homenagem ao partido de governo (Progressista), que na propaganda eleitoral é identificado com esse número.

O detalhe pode ser lido mais como uma homenagem pessoal, pois nem Poetsch pertence ao P.P., nem Fetter é candidato à reeleição. As campanhas para concorrer a prefeito e vereador começam, coincidentemente, no próximo dia 7 de julho, o aniversário de Pelotas (fundada como freguesia em 1812).

A cerveja especial comemora o bicentenário de Pelotas com um rótulo que apresenta a torre do Mercado Central, ao lado do número 200 (esq.). A verdade histórica é que essa torre só foi incorporada ao Mercado há cem anos.

O lançamento oficial será feito na reabertura do prédio do Mercado (outro dos presentes para o Bicentenário), que foi marcada para o dia dos 200 anos (7 de julho, às 10h). A previsão era para bem antes, mas o atraso fez a entrega coincidir com esta data simbólica (o que não significa que todos os detalhes da reforma estejam terminados).

Segundo a notícia oficial, a Cerveja dos 200 anos foi produzida com seis tipos de malte, de alta fermentação e 5% de teor alcoólico.

De modo parecido à fabricação do champanhe, esta cerveja foi produzida com fermentação dupla, sendo a última dentro da garrafa. Por esse motivo, a Cerveja dos 200 Anos vem numa garrafa do tipo champanhe, com rolha. A cor do líquido é avermelhada e o sabor é levemente amargo, características da red ale (veja uma lista de tipos de cerveja).

O sítio do Pelotas Treze Horas informou que a garrafa nº 13 seria entregue a Clayton Rocha (veja nota). Ainda não se sabe quem terá acesso às demais 198 garrafas.
Fotos: J. Tomberg

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Casa Grande e Senzala pelotenses

O jornalista e escritor Manoel Soares Magalhães reapresenta dez telas da série “No tempo das charqueadas”, que estreou em 2010 no Corredor Arte (veja nota). Exposta na sede da Sociedade Sigmund Freud, a mostra deverá chegar até os primeiros dias de julho, quando Pelotas comemora o bicentenário da Freguesia de São Francisco de Paula, origem da cidade.

Em quadros como o da figura acima, o artista expõe a proximidade entre a senzala e a casa grande no contexto do desenvolvimento pelotense, algo que poucos artistas e historiadores ousaram mencionar nestes 200 anos. O próprio Manoel diz que escolheu o modo primitivo e colorido da arte naíve, pouco conhecido no Rio Grande do Sul, para abordar este tema tão pouco estudado e doloroso para a comunidade pelotense.

Retratando aspectos da época de ouro de Pelotas (aproximadamente 1850-1900), o escritor que pinta se faz relator histórico e psicólogo do inconsciente coletivo da cidade. O inusitado da abordagem naíve, que cria o paradoxo da visão ingênua sobre a dureza da vida, lhe deu liberdade para narrar as contradições entre beleza e sofrimento, ostentação e espiritualidade, maldade e sensibilidade, a terra e a divindade, a humanização e a desumanização das pessoas. “No tempo das charqueadas”, portanto, revela-se ingênua e, ao mesmo tempo crítica, levando a refletir sobre a riqueza e, ao mesmo tempo, a crueldade na vida do pelotense no século XIX.

Abertura quarta (13) a partir das 19h30min. Visitação de segunda a sexta em horário comercial. Espaço de Arte Chico Madrid, Rua Princesa Isabel, 280, sala 302.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Notícia do centenário em 1912

Cada dia o Correio do Povo recorda notícias de um século atrás, e hoje (6) dá um maior espaço ao anúncio da celebração do centenário de Pelotas, a iniciar-se daí a 30 dias, em julho de 1912.

O texto é transcrito pelo jornal com a grafia da época (clique na imagem para ampliar).

No próximo mês de julho, será festivamente comemorado, em Pelotas, o centenário dessa cidade. O programa das festas está, em linhas gerais, assim organizado:

Sábado 6 de julho, recepção na Intendência;

Domingo [7], salvas de 101 bombas, em vários pontos da cidade; músicas tocarão o hino nacional; colocar-se-á uma urna com jornais do dia, selos, moedas, ata etc.

Domingo [14], que coincide com o aniversário da queda da Bastilha, encerramento das festas: romaria ao cemitério e deposição de flores.

Os estabelecimentos industriais se associarão às festas, apitando todos, ao mesmo tempo, às 5 horas da tarde de 6 de julho, assim encerrando o século da atividade fabril.


Cem anos depois, o nosso triunfalismo se limita às glórias do passado e ninguém recorda essa ligação forçada com a Revolução Francesa (14 de julho), ao parecer uma ideia somente válida no Centenário de Pelotas.

Muitas das incomodidades vividas na atualidade pelotense, larvadas nas últimas décadas de estagnação, ofuscam em parte a alegria do bicentenário, especialmente com certos atrasos nos preparativos, mas não impedem que se cultive otimismo para os próximos cem anos.
Reprodução CP (6-6-12): F. A. Vidal

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Hino do Bicentenário de Pelotas

Em 10 de fevereiro passado, foi escolhido o Hino do Bicentenário da Cidade de Pelotas, entre 38 músicas inéditas concorrentes. A vencedora foi Pelotas, 200 Anos, de Marco Aurélio Morales do Nascimento (veja sua página no sítio de compositores Clube Caiubi). Somente 3 meses depois a organização veio fazer o lançamento do resultado, liberando letra e música para divulgação (veja notícia de 3 de maio).

O corpo de jurados esteve composto pelo vice-prefeito, Fabrício Tavares (coordenador da programação dos 200 Anos de Pelotas), e os músicos Daniel Zanotelli, Eduardo Varela, José Francisco da Luz e Osmar Edy Pereira Cardoso. O concurso foi promovido pela Coordenação dos 200 Anos em parceria com o Curso de Produção Fonográfica da UCPel (veja a notícia de fevereiro).

A primeira estrofe (leia abaixo) fala diretamente da beleza da Igreja Anglicana do Redentor (esq.), templo centenário que coberto de hera muda de cor em cada estação do ano.

Uma alusão indireta ao Café Aquários recorda o agrado de conversar com os amigos, querendo arrumar o mundo num dia, sem hora para terminar. De fato, o local concentra os maiores conversadores (homens) da cidade, há cerca de 55 anos.

Internautas mais críticos do que amigos questionaram a segunda estrofe, do ponto de vista histórico (leia os comentários): as pelotas não teriam transportado guerreiros, sob pena de desfazer-se elas em sua fragilidade. Mas a letra especifica que a tal luta era de longo prazo, "para conquistar riquezas, progresso e educação".

E os "usurpadores cruéis" quem teriam sido? Os espanhóis que ocuparam Rio Grande, os farrapos, os charqueadores, os capitalistas dos frigoríficos? Poderá ser uma licença poética, mas para quem ouve perguntas de turistas é importante ter alguma clareza além do mistério e das lendas que rodeiam 200 anos de fantasmas e contradições. Seja a canção um estímulo para conhecer-nos melhor em nossos defeitos e qualidades (clique no botão play para ouvir).


PELOTAS, 200 ANOS
Marco Aurélio M. do Nascimento

É teu bicentenário, Pelotas!
Saio feliz pelas ruas e olho em volta.
O tempo mudou tua cara, teu corpo,
mas não mexeu com teu coração:
Princesa não perde a nobreza, inspira poesia e canção.

I
Como é bom andar pelas calçadas e olhar teus casarões,
A igreja lá da Quinze, que continua vaidosa
Mudando a cor da roupa em todas as estações,

Abraçar amigos de tanto tempo que sempre foram de fé,
Com quem me encontro todo dia à tardinha,
Tentando mudar o mundo, num papo lá no café.

II
O teu nome com orgulho foi tirado de uma rude embarcação
Que transportou guerreiros numa luta incessante,
Para conquistar riquezas, progresso e educação.

Ah, Princesa! Usurpadores cruéis levaram bens materiais,
Mas tua alma linda, tua cultura e tradição
Ninguém conseguiu roubar nem conseguirá jamais.

Fotos: F. A. Vidal (1) e PelotasVip (2)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dois séculos de uma cidade em crescimento

O atual prefeito de Pelotas, Fetter Júnior, traçou um histórico da cidade em poucas linhas, e o Diário Popular publicou terça-feira (10), com o título Bicentenário de Pelotas. Transcrevo-o abaixo, acrescentando subtítulos e ilustrações. Dado seu poder de síntese, o texto serve como referência para o estudo do passado e para a formulação de políticas de desenvolvimento.

Os 200 anos se referem à criação da Freguesia de São Francisco de Paula, antes da qual também existiu uma pré-história, aludida no artigo como a fase de "povoamento inicial". A história da cidade se estrutura com os primeiros passos de independência em relação a Rio Grande (1812 e 1832) e segue escrevendo-se até hoje, com alguns descendentes dos fundadores e com bom número de pelotenses adotivos. A comunidade toda pretende realizar a vocação de liderança que fez nascer e crescer a cidade.


Uma cidade é o resultado da ação de pessoas ao longo do tempo. O que foi por sucessivas gerações determina seu presente e projeta seu futuro. As rupturas e insucessos também deixam suas cicatrizes e estão presentes no inconsciente coletivo da comunidade, contribuindo para as expectativas e projeções. Pelotas é, assim, fruto de seus processos históricos e já viveu momentos de apogeu e de declínio.

Desde seu início, marcado pelos conflitos entre os impérios português e espanhol, abrigou diversificada população e acolheu variadas etnias. Por sua posição geográfica privilegiada à época (protegida pelo Canal São Gonçalo e com acesso ao Oceano), tornou-se importante centro industrial e comercial desde seu povoamento inicial, na segunda metade do século 18.

Século XIX

O reconhecimento se deu em 7 de julho de 1812, com a instalação da Freguesia, quando passou a sediar igreja e registrar nascimentos, casamentos e mortes. Em 1815 foi feita a primeira planta da ocupação urbana e seu crescimento a transformou em Vila em 1832, alcançando status de Cidade em 1835.

De lá para cá, viu sua economia expandir-se sensivelmente, tendo como motor a produção do charque, em longo ciclo que se prolongou até após a Primeira Guerra Mundial, quando os frigoríficos substituíram esta indústria.

A afluência gerada possibilitou enorme vitalidade cultural e política, bem como a diversificação econômica. A partir de 1850 foi palco de expressiva colonização de seu interior, com imigrações variadas (alemães, ingleses, franceses e italianos), que também dinamizaram sua produção agrícola e industrial. Estes empreendimentos foram, em sua maioria, feitos por particulares, com poucas colônias “oficiais” (cerca de 10% da área então partilhada).

Século XX

Também nas atividades urbanas foi palco de inúmeras migrações de profissionais, que lhe fortaleceram o comércio e a indústria, chegando até meados do século 20 como o grande polo da economia do interior do Estado.

Foi penalizada, após a década de 1930, com decisões geopolíticas que dificultaram a continuidade deste dinamismo, especialmente a Faixa de Fronteira. As últimas décadas do século 20 foram bastante difíceis e sua imagem desgastada por período de estagnação e perda de protagonismo.

Terceiro passo

O século 21 tem se revelado um Novo Momento, com boas perspectivas e retomada do desenvolvimento. A comunidade se engaja na celebração de seu bicentenário, cuja programação se iniciou nos 199 anos, em 2011, e se estenderá por 2012, com eventos dirigidos aos mais diversos segmentos.

Por isto, é hora de programar visitas a Pelotas onde, a cada mês, eventos significativos estarão ocorrendo e poderá ser conferida a bela história de nossa cidade, assim como desfrutados seus encantos do presente e suas otimistas expectativas quanto ao futuro.

Adolfo Antonio Fetter Júnior
Prefeito de Pelotas

Imagens: Wikipedia (aquarela de Herrmann Rudolf Wendroth), Skyscrapercity (2)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Vídeo para uma cidade de 200 anos

Um vídeo de promoção turística de Pelotas foi realizado este ano pela In Cena Produtora, para a Prefeitura Municipal, sob o motivo da celebração do bicentenário da Freguesia de São Francisco de Paula. Nos créditos, a direção de Miguel Watanabe e Alberto Alda, produção de Simone Langie, câmera de Felipe Campal, locução Start Studio, edição e finalização de Vladi B. Vargas.

Com dois séculos, a cidade ainda é uma criança com muito por viver e crescer: representando essa ideia, a menina Alice Farias Ávila, de 5 anos, convence com sua simpatia natural (ganhou o Top Mirim em dezembro de 2010; veja nota). Nas imagens aparecem, em breves segundos, as vivências mais fortes dos pelotenses, como uma tarde de vento no Laranjal, o chafariz da Praça Coronel Pedro Osório, uma estrada rural, passeios pela Fenadoce. Belos lugares, belas pessoas, belos projetos por realizar... vale a pena conhecer Pelotas, pois iremos nos apaixonar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Relançamento de livro sobre Pelotas

Esta terça (6), a partir das 19h, a 6ª edição do livro "História e Tradições da Cidade de Pelotas", de Mario Osorio Magalhães (acima) começa uma caminhada pelo bicentenário da Freguesia de São Francisco de Paula.
Pensado originalmente para acompanhar uma série de imagens de Pelotas, tomadas pelo artista Salomão Scliar, a obra foi lançada em 1979 como simples texto escrito, e foi tendo novas edições (em 1981, 1999, 2003 e 2005), pela boa aceitação do público.
Por primeira vez em 32 anos, e voltando à concepção original, o trabalho inclui fotografias de Pelotas alusivas ao texto, desta vez tomadas por uma equipe: Alexandre Gomes, Daniel Giannechini, Edison Vara, Laureano Bittencourt e Paulo Rossi.
O conteúdo do texto já faz um passeio ao longo dos 200 anos de história de Pelotas, mas em 2012 a obra e seu autor farão um passeio pelo espaço geográfico: 18 das 43 fotos do livro constituem uma exposição que visitará escolas da cidade.
Ao mesmo tempo, Mário Osório Magalhães se encontrará com o público, falando sobre esta Pelotas que ele estudou em detalhe por tantos anos. O objetivo é chegar a 20 mil pessoas em 180 estabelecimentos, mas já se pode calcular que 4 anos serão necessários para fazer tantas exposições em ritmo semanal (ou 4 palestras por semana, durante um ano).
Transcrevo abaixo a página 80, intitulada A crise econômica, com uma foto (que não está no livro) nada turística mas totalmente real, do sucateamento de nosso patrimônio urbano, realizado por nosso próprio povo e nossas próprias autoridades. Ao fundo, o atual BANRISUL (até 1931, Banco Pelotense); em primeiro plano, comércio ambulante, lixo e catadores.

Fundado em 1906, o Banco Pelotense teve 69 agências e filiais por todo o Brasil.
Em 1931, quando ainda ocupava o terceiro lugar no país entre os detentores de maiores depósitos em numerário, foi obrigado a fechar, envolvido numa trama política articulada fora dos limites municipais.
Esse fato, de triste memória, causou verdadeiro abalo na economia do município.
Unindo-se a circunstâncias anteriores, internas e externas - como o ocaso das charqueadas e a crise mundial das primeiras décadas do século -, haveria de se refletir durante muito tempo no desenvolvimento da cidade.

Imagens desta nota:
Paulo Rossi (1), F. A. Vidal (3)

domingo, 23 de outubro de 2011

Corte da FENADOCE 2012

Esta sexta (21) foi coroada a Corte Real da 20ª FENADOCE. Na internet, a notícia foi divulgada pelo Diário Popular (leia a matéria) mas até hoje à noite (23) nem a RBS nem o Amigos de Pelotas mencionaram o acontecimento, e o portal da FENADOCE está com a informação atualizada somente até terça (18).

Além de emprestar solenidade e beleza aos eventos da Capital do Doce, as três jovens escolhidas deverão também ajudar a presidir as celebrações dos 200 anos de Pelotas, ao longo de 2012. Se souberem capitalizar esta vantagem, poderão seguir contribuindo nos anos seguintes, de outras formas, ao desenvolvimento turístico da cidade.

A nova doce Rainha dos pelotenses é Melissa Diana Cezar da Silva (dir.), que com o número 13 ganhou o seu primeiro concurso de beleza.

A esbelta morena tem 19 anos, segundo sua apresentação no vídeo de candidata (veja). No Facebook ela se identifica como Melissa Cezar, natural de Rio Grande, ex-aluna do Colégio São José e estudante de Direito na UFPel.

A Princesa Jéssica Hammes Barz (esq.) é pelotense, estuda Jornalismo e tem 17 anos, segundo declara no vídeo de apresentação (veja). Ela é atualmente a rainha da Sociedade Recreativa 15 de Julho, que cultiva tradições alemãs.

A Princesa Cibele Carina de Souza (abaixo) tem 23 anos e havia sido candidata em 2008, tentando ser a segunda rainha da FENADOCE de raça negra (em 2006, Francine Dias havia sido a primeira, veja notícia). Hoje Cibele é Miss Beleza Negra Pelotas.


De acordo ao regulamento (leia), as candidatas devem ter mais de 16 anos, cursar ensino médio ou superior, ser solteiras sem filhos, e residir em Pelotas há mais de 10 anos. Sua candidatura deve ser apresentada por uma entidade legalmente constituída, e a inscrição inclui, entre outros requisitos, a colocação de um vídeo de 1 minuto no YouTube.

Em 2012, a corte precisará esclarecer a turistas e interessados que a FENADOCE tem 25 anos, pois foi criada em 1986 como uma Feira bienal, pelo Governo Bernardo. Foi feita a cada dois anos até 2000 (8ª), e desde então é anual (em 2001 foi a 9ª, e assim por diante).

Portanto, hoje estamos na 20ª edição (mas não no 20º aniversário). Veja histórico no portal oficial. No Facebook do evento ("Escolha da Corte 20ª Fenadoce") podem ser vistas algumas fotografias das cortes anteriores.

Outra dúvida frequente dos visitantes e dos pelotenses pode ser sobre o que o bicentenário comemora. Pelotas foi fundada como município independente em 1832, mas João Simões Lopes Neto propôs que o centenário da cidade fosse celebrado em 1912, lembrando a fundação da Freguesia de São Francisco de Paula em 1812.

Desde então ficamos programados para festejar os 200 anos em 2012; no entanto, para que esta FENADOCE esteja à altura, a comunidade terá que se motivar especialmente: com um sítio oficial mais dinâmico, uma corte com atitudes e posturas mais brilhantes e uma imprensa mais participante e incentivadora.

Leia uma entrevista de 9 perguntas com a 20ª Corte da FENADOCE.
Veja a nota Corte da FENADOCE 2011.
Fotos: Focco, Facebook, Cortefenadoce e Moda Mais

POST DATA 
12-10-12
Veja a postagem Corte da FENADOCE 2013.