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quinta-feira, 19 de março de 2009

Galeria Nóris Mazza

Galeria de lojas já foi magazine e residência familiar
Uma casa antiga localizada em pleno centro de Pelotas precisa se reinventar para escapar da demolição. A Galeria Nóris Mazza soube adaptar-se ao jogo da modernidade e prolongar-se no tempo, na selva comercial de uma cidade onde só existem pequenas e médias galerias.

Ao redor de 1950, Rafael Dias Mazza comprou a antiga charqueada São João, e a usou de residência com sua esposa Nóris Moreira Mazza (filha do charqueador Carlos Moreira). Mazza faleceu em 1970 e dona Nóris, em novembro de 2001 (veja a notícia). A propriedade rural virou pousada e foi ganhando fama internacional, especialmente após ambientar uma série de televisão.

Critérios parecidos orientaram a família na conservação e utilização deste casarão no centro da cidade, que já foi um dos magazines Mazza, entre os anos 60 e 80.
Funciona como ponto turístico, de compras e negócios; o aspecto cultural fica por conta da arquitetura do prédio, já que não há ali um espaço de encontro nem atividades artísticas. O endereço tem entrada pela General Neto 1006, na esquina com a Andrade Neves, lugar de alta circulação de público.

Não é banal esse ponto da arquitetura, pois se obteve a inclusão no programa federal Monumenta, e seguiram-se certas normas para a revitalização do espaço, que já funcionava como centro comercial. Vê-se, pelo menos, que se respeitou a visibilidade da fachada, sem tapá-la com anúncios.
A eclética construção, que tem nome próprio e logotipo, mantém a aparência externa original (de um casarão), e por dentro ficou quase toda refeita, com 4 lojas em cada pavimento (como uma galeria de lojinhas). Dito de forma inversa: o minishopping por fora não parece o que é, e somente conserva da antiga casa a madeira das escadas, desgastada mas firme (esq.).

No térreo, um painel de fotos compara o aspecto atual com o anterior à reforma de 2008, que restaurou as fachadas. Pela entrada da General Neto (visível na foto maior, à direita), a porta não tem bom aspecto externo, mas dá uma bonita vista desde dentro (abaixo).

Entrada pela rua General Neto, vista desde dentro
POST DATA: 
Veja o aspecto descuidado que o prédio tinha antes da reforma neste post.
Fotos: F. A. Vidal

terça-feira, 17 de março de 2009

Belo casarão restaurado


Na rua Quinze de Novembro nº 207, há um de tantos casarões de tradicionais famílias pelotenses. Mas este não somente está bem conservado, mas totalmente restaurado, brilhando de novo, após um par de anos em reformas - não com a finalidade de ser vendido, e sim alugado.

A Câmara de Vereadores já assinou um pré-contrato de uso por 4 anos, para sair o antes possível de sua atual sede na rua Marechal Deodoro; várias opções já foram consideradas, entre prédios grandes e antigos da cidade.

O único fator de demora é que este casarão não tem uma sala que sirva de plenário, e o dono deverá construí-lo, em dois ou três meses. Depois disso, os vereadores planejam mudar-se, à espera de ocupar o que têm em vista como a sede definitiva: o solene prédio defronte à Prefeitura, propriedade do Banco do Brasil, que a ocupou como sua primeira sede em Pelotas.

Esse dia vai demorar, pois a restauração do edifício não está ao alcance da Câmara, que para ocupá-lo também deveria construir um plenário como anexo. O que se pode pagar é o aluguel desta sede provisória, estimado entre 15 mil e 20 mil reais, segundo reportagem do Diário Popular (03-03-09).

Sábado passado (14), a "imprensa crítica de Pelotas" fez um duro questionamento desta situação (veja o post). O elevadíssimo preço se explica porque o proprietário estaria repassando ao aluguel o valor da restauração e da ampliação. Tudo isso para que o Legislativo tenha uma casa... provisória.

Sexta passada (13) fui fotografar a impressionante construção, que tem um acesso para cadeiras de rodas (foto acima à esquerda), refinados adornos como uma Virgem com o Menino em azulejos (detalhe acima à direita), e cerca elétrica como proteção (dir.).

Será mais cuidada esta casa que a sede da Câmara que ainda este ano os vereadores vão deixar? É o que estaremos acompanhando.
Fotos de F. A. Vidal.


POST DATA 
30-12-12

Com o anunciado fechamento do Amigos de Pelotas para janeiro de 2013, copiei nos comentários a nota crítica citada acima.
A foto do passarinho na caixa do correio (dir.) foi posta agora neste post. Assim como as mensagens voam, o dinheiro público em mãos leves também se dissipa como o vento.
Com uma nova alusão à sede da Câmara que está em ruínas, esta nota foi citada no post O palácio abandonado em pleno centro.

terça-feira, 3 de março de 2009

Uma casa, tantas histórias

João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas em 9 de março de 1865. O Instituto que leva seu nome prepara atividades para celebrar a data, esta segunda-feira, aniversário nº 144 de nosso ilustre conterrâneo.

Um dos motivos de alegria para os simonianos terá relação com uma reportagem, publicada no Diário Popular em novembro passado, sobre a casa onde viveu alguns anos o conhecido contador de histórias. Sob o título "Uma casa, tantas histórias", rendeu uma menção honrosa a sua autora, a jovem jornalista pelotense Bianca Zanella Ribeiro. Transcrevo aqui a parte que se refere à recuperação do prédio, construído em 1891 e situado na rua Dom Pedro II, 810.

Até o final da década de 1990 o local estava caindo aos pedaços. O imóvel, abandonado, por pouco não teve sua destruição decretada. Se isso tivesse ocorrido, os escombros do casario teriam enterrado uma história que, por sorte, alguém se interessou em investigar.

Esse alguém era o pesquisador Carlos Sicca Diniz, que através de registros nos cartórios de Pelotas comprovou as suspeitas de que a casa havia pertencido ao mais célebre dos escritores pelotenses. No período em que viveu ali, de 1897 a 1907, João Simões escreveu a lenda O Negrinho do Pastoreio.

A descoberta deflagrou uma batalha judicial que mobilizou a comunidade, desde a imprensa até os historiadores e admiradores da literatura simoniana. Sete anos mais tarde a aprovação de um projeto de lei do então deputado Bernardo de Souza transformou a casa em Patrimônio Cultural do Estado. A demolição não aconteceria, mas nada impedia que o prédio ruísse irremediavelmente - no final de um processo de degradação longo, solitário - apenas com a ajuda do tempo e da umidade.

Foi então que um grupo de pessoas disposto a devolver a casa ao seu antigo e mais notável dono apareceu. Esse grupo fundou o Instituto João Simões Lopes Neto, e através dessa instituição civil conseguiu captar recursos, restaurar o prédio e, principalmente, devolver a vida ao lugar.
Leia todo o texto.

O texto homenageia Simões e os seus admiráveis admiradores - valha o trocadilho. A casa é um lugar interessante do ponto de vista arquitetônico e histórico, mas sobretudo é um espaço cultural da melhor qualidade, que presta à comunidade serviços gratuitos de museu, escola e lugar de estudos e debates. Tomei as fotos ontem, com a luz natural das 19h.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo

O Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo existe desde novembro de 1986, como parte do Instituto de Artes da Universidade Federal de Pelotas. Mas é somente nos últimos seis anos que ele funciona na atual sede, na rua General Osório 725, esquina General Neto.

Começou numa casa da rua Félix da Cunha, que se fez pequena para as necessidades do MALG. Em 2000 pensou-se na mudança para a antiga Faculdade de Agronomia, mas o centenário prédio requeria ainda total restauração, e o Museu terminou indo para o casarão Alsina, comprado em 1951 por Léo Zilberknopp, que o aluga para a UFPel.
A diretora do museu desde 2006 é a professora Raquel Schwonke, que fez inovações internas, como a Sala de Pesquisa, a reformulação da Sala do Patrono e um Auditório reequipado, agora pelo lado da General Osório (foto abaixo).
O trabalho de conservação do acervo envolve o problema permanente da climatização da Reserva Técnica (há obras com mais de cem anos). O MALG também passou a abrir nos domingos, sendo seu "feriado" agora nas segundas-feiras. Estive ali no último sábado de carnaval às 19h, mas não havia outros visitantes, o que facilitou a tomada de fotos. Como entidade universitária pública, o MALG não cobra entrada.

A casa do MALG foi construída em 1876 por Francisco Alsina, espanhol que chegou a Pelotas em 1860 com sua família. O uso do prédio era residencial na parte de cima, e destinado a lojas comerciais no piso térreo.
Em 1926 o casarão foi doado ao Asilo de Meninos Desvalidos (fundado em 1922), o que modificou totalmente sua estrutura e funcionamento. A doação não foi de agrado de uma parte dos descendentes, que com os anos o comprou de volta. José Alsina Lemos se determinou a ocupá-lo mas faleceu enquanto o reformava, e sua viúva finalmente o vendeu em 1951, ao atual dono.
Houve recentemente uma restauração completa da casa, a cargo do arquiteto Fernando Caetano. Pode-se notar o cuidado extremo nos detalhes, como as escaiolas do andar de cima (dir.), a sacada que dá para a rua Osório (esq.) e o terraço dos fundos, não acessível aos visitantes.
Fotos: F. A. Vidal.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A casa mais antiga de Pelotas

Sob este título, Mario Osório Magalhães escreveu em 2004 no Diário Popular (veja o artigo) algo que ninguém parecia saber nem valorizar: a existência de uma casa com 200 anos, razoavelmente bem conservada.

Se alguém ficou sabendo da "novidade", ninguém pareceu dar-lhe valor, pois a casa continua no mesmo lugar sem mudanças. Nem foi demolida, nem restaurada.

Conta o historiador pelotense que nessa casa, atual rua Major Cícero de Góes Monteiro número 201 (entre Félix da Cunha e Anchieta), morou a família de Antônio José Torres. Daí um dos primeiros nomes da Major Cícero (até 1869): rua do Torres. Quando da criação da Freguesia de São Francisco de Paula, em 1812, esta casa era uma das duas que já existiam no primeiro loteamento (entre a Bento Gonçalves e a General Neto), no qual foi construída a primeira igreja, no mesmo lugar onde hoje está a Catedral.

O mais surpreendente é que esta casa resista ao nosso clima sem desmoronar, enquanto outras mais novas literalmente caem aos pedaços. O fato é único em Pelotas, e talvez em todo o Rio Grande do Sul.

Uma restauração se faz urgente, não só pela antiguidade do material físico, mas por seu sentido histórico: ali se discutiram a localização da futura igreja e os limites da primitiva Pelotas, a que dependia da Vila de São Pedro.
Pedro Luís Prietto dá mais detalhes urbanísticos e históricos desta casa, no site da ONG Viva o Charque (veja o artigo), do qual provém a primeira foto deste post (abril de 2005).

As outras duas fotos são da mesma casa hoje à tarde (23): a fachada em deterioração (compare-se com a imagem superior) e um detalhe da soleira (esq.).
Fotos de F. A. Vidal.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Milton de Lemos, finalmente em reforma

O salão Milton de Lemos leva o nome do diretor mais destacado do Conservatório de Música de Pelotas, que veio do Rio de Janeiro em 1923, aos 25 anos de idade, para dirigir a escola fundada em 1918. Aposentou-se depois de exercer essa função por 31 anos, seguiu trabalhando em Porto Alegre mais um tempo, e finalmente foi morar em sua terra natal, onde faleceu em 1975.

O prédio ocupado pelo Conservatório já era antigo quando de sua fundação. De 1939 a 1941, enquanto o professor Milton de Lemos era o diretor de ensino, a administração da escola fez uma reforma geral, incluindo a fachada, ampliando-se para 350 pessoas a capacidade do auditório. Na época, todas as aulas e espetáculos foram transferidos para a Biblioteca Pública Pelotense.

Em janeiro passado, as cadeiras colocadas há 68 anos começaram a ser retiradas, e deverão ser substituídas - após licitação pública, o antes possível este semestre - por móveis modernos, cômodos e silenciosos. A mudança estava pensada para o verão passado mas foi sendo adiada. Até 1969, o Conservatório era municipal, e sua sede física também; nesse ano, a escola (não o prédio) foi integrada à Universidade Federal de Pelotas e desde então sofre a inevitável burocracia nacional, com o entrave adicional de que sua casa depende da Prefeitura.

Na comemoração dos 90 anos, em 18 de setembro passado, a diretora Isabel Nogueira confirmou a renovação das velhas cadeiras. Além dos famosos rangidos, elas tinham a paradoxal característica de, mesmo pregadas no chão, fazer um forte ruído ao cair seu assento móvel, ferindo às vezes o sacrossanto silêncio dos concertos mais solenes.

Na mesma celebração dos 90 anos, o professor de Composição Rogério Constante apresentou o Estudo Eletroacústico nº 8, alusão bem-humorada ao ranger das cadeiras, um trecho eletrônico de sonoridades elaboradas por um programa computacional.
Ao ser executada no salão em penumbra, essa música dialogou com o ruído real da velha madeira, causado pelos mais leves movimentos dos espectadores ao sentar-se, acomodar-se ou levantar-se. Nessa verdadeira homenagem de despedida, o ranger foi incluído como elemento musical concreto, de certa forma compensando em nossa memória a incomodidade do inoportuno ruído.

Hoje, as cadeiras se foram para sempre e estão sendo recuperados e retocados o forro, o assoalho e as paredes. Por alguns meses, ali não haverá exames nem recitais.

Também nesse 18 de setembro, o reitor Antônio César Borges anunciou (dir.) que o prédio da antiga alfândega faria parte da Universidade, para salas de aula, depósito de materiais e arquivos e, eventualmente, para apresentações artísticas – mantendo a sede da Félix da Cunha e o Salão Milton de Lemos para os concertos.
Em diálogo privado, ele me comentou que não se opõe a que o Conservatório ocupe - além do segundo andar - o piso térreo da casa da Félix da Cunha, de propriedade municipal, o que, segundo ele, somente depende de boa-vontade e de acordos políticos.
Fotos: F. A. Vidal.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Como ficou a Bibliotheca por dentro

Biblioteca Pública Pelotense em 2009, recém restaurado, piso térreo, salão da claraboia
Durante 2007 e 2008, a Biblioteca Pública Pelotense passou por uma restauração, a primeira completa em sua história. Custou 2 milhões de reais, financiados pelo Ministério da Cultura, com patrocínio do Instituto Votorantim. Após a entrega oficial, há um mês e meio (veja o 1º post deste blogue), faltava ir ver como o prédio ficou por dentro.

Sala de leitura, vista da escada de acesso ao piso superior
E ficou como novo. Nem tudo o que há de antigo em Pelotas se perde; muitos prédios são renovados ou reaproveitados, deixando testemunho da riqueza que houve aqui no século XIX, que foi de onde nasceu tamanho nível cultural.

Dona Sônia (foto abaixo) é a funcionária mais antiga, que sabe tudo sobre a Biblioteca. Ela trabalhou aqui 30 anos, aposentou-se e logo voltou, por amor a este lugar. Com um sorriso e uma amabilidade sem fim, ela conta a todo visitante o que sabe deste lugar, por experiência própria.

Uma das coisas que ela sempre diz é que a Biblioteca, em seus 130 anos, nunca teve caráter público, muito embora o nome. Foi fundada e sempre administrada por particulares, gente de fama, riqueza e poder. E de pensamento político republicano. Queria-se uma biblioteca para a cidade, para a educação e a cultura de seus habitantes. Por isso até hoje seus serviços são gratuitos.

Dona Sônia na hemeroteca
Em 1875 foi decidida a construção da Biblioteca, inicialmente num terreno cedido por João Simões Lopes, o Barão da Graça (mais tarde, Visconde). Seu neto João foi um famoso escritor, cujas obras orgulham os pelotenses mas ainda estão muito arquivadas nas estantes, pouco conhecidas e pouco valorizadas.

Nenhuma rua central de Pelotas leva o nome de João Simões Lopes Neto (1865-1916). Não reconhecido por seus contemporâneos, ele assistiu durante sua breve vida à demorada construção da Biblioteca.

Foi de 1881 a 1888 que se edificou a Biblioteca no lugar atual. Portanto, ela tem realmente 120 anos, sendo 93 deles com dois pisos. O material aqui albergado é de grande valor histórico, com muitas obras do século XVIII e até mais antigas.

Na última foto abaixo, olhando para a praça Coronel Pedro Osório, vê-se ao fundo o grande Salão Nobre. Ele não é usado como biblioteca, mas como espaço de reuniões e exposições.

À direita, o corredor transversal onde se apoia a escadaria dupla. Caetano Casaretto foi o arquiteto que criou todo este andar superior, em 1915.

Por estes degraus transitaram os vereadores pelotenses, durante os anos em que a Câmara funcionou neste prédio. Sim, uma verdadeira ocupação do prédio histórico, autolegalizada pelo poder político (e até hoje os vereadores procuram uma sede para o Legislativo municipal).
Do piso superior pode ver-se a entrada e o Salão Nobre, ao fundo.
Fotos de F. A. Vidal.