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| Foto de Carlos Queiroz sugere união entre a casa e sua "entrada". |
Um
pórtico é o espaço de entrada de uma grande construção (como um templo ou um palácio) que soleniza o conjunto e o ingresso a ele. É um elemento arquitetônico da Grécia Antiga que se disseminou pelas demais culturas.

Modernamente se aplica também a cidades; temos, por exemplo, o impressionante portão de
Gramado, o pórtico com farol em
Santa Vitória do Palmar, o pórtico de entrada a
Rio Grande.
Ainda hoje Pelotas é uma das tantas cidades que não têm um pórtico especial que assinale a entrada a seu perímetro urbano.
Com sede própria há uma década, a Academia Pelotense de Letras sentia a falta de uma entrada digna. A antiga construção, que já foi escola, não conta com vestíbulo nem com cercas de proteção: quem chega de fora já entra ao salão, sem preâmbulos (
veja nota com imagens da casa).
Presidente reeleita mais de uma vez nestes anos, a escritora Zênia de León propôs há uns cinco anos um pórtico grego para esta casa. O projeto foi questionado (
notícia de julho passado) — e ainda é — mas obteve as licenças formais e foi inaugurado este sábado (10), sem que a polêmica diminua. Tem relação com o parque? Tem relação com a Academia? Tem relação com os 200 anos de Pelotas? Deveria ficar na entrada da cidade ou em outro logradouro público?
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| Prefeito e acadêmico Fetter Jr. inaugura o monumento. |
O prefeito Fetter Júnior, que como escritor é também integrante da Academia, recebeu simbolicamente o pórtico como um monumento dedicado à tradição pelotense e o descreveu como um novo ponto turístico da cidade (
notícia do Diário Popular, no mesmo sábado). Mais exato seria dizer que o ponto turístico é o parque Dom Antônio Zattera e este pórtico, um de seus tantos monumentos.
O portal da Prefeitura na internet também não esperou a segunda-feira e emitiu a notícia este domingo, com fotografias (
veja a nota).
A estrutura superior contém o lema
Per aspera ad astra (literalmente, "pelas asperezas às estrelas"), em letras análogas ao nome que está na fachada, "Academia Pelotense de Letras".
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| Crase com acento agudo usava-se até os anos 40. |
Abaixo de cada par de colunas que sustenta essa estrutura, há uma placa:
- a da esquerda diz "Á Tradição Cultural de Pelotas em seu Bicentenário" (com acento agudo no A), como se vê na foto (dir.);
- no da direita se lê "Academia Pelotense de Letras, Zênia de León, 2012".
Alguns veem o pórtico como um monumento bonito e significativo, enquanto outros o consideram irrelevante e até sem sentido estético, histórico ou urbanístico — opiniões que eram emitidas e publicadas antes que fosse construído. Agora que a ideia saiu do papel e ocupa o espaço público, pode e deve ser avaliada pela população.
O novo apêndice arquitetônico tem a virtude de chamar a atenção visual e de suscitar discussão na comunidade, mas ainda uma quantidade de falhas entorpece os seus bem-intencionados objetivos:
- o pórtico foi pensado para a sede da Academia, mas não serve de abrigo nem facilita a entrada ao visitante, deixando a casa com o mesmo problema estrutural,
- os encontros que se realizavam na sombra das árvores passarão a ser feitos sob o rigor do sol,
- a estrutura destaca muito mais a Academia como entidade (com inspiração na Grécia Antiga) do que a tradição da cidade (identificada com a Europa renascentista e ainda com elementos africanos), ambas fortemente ancoradas no passado,
- o destaque à Academia fica ainda mais evidenciado pela "assinatura" da presidente como autora do pórtico (na placa da direita) e pelo uso do lema em latim (sem clara relação com Pelotas),
- Pelotas tem vários prédios com colunas gregas, mas construí-las em 2012 é extemporâneo, e ainda mais em desacordo com o estilo da casa para o qual foi feito,
- uma cidade com consciência turística poderia sim ter um pórtico de entrada, e o debate sobre sua construção, desenho e lema deveria ser feito por todos os segmentos sociais,
- a gafe da crase com acento agudo (foto acima) não fala bem da função linguística da Academia; fica talvez como anacronismo, lembrando que era nesse formato (Á) que se escrevia há cem anos (veja notícia de 1912 no Correio do Povo).
Restará à comunidade pelotense incorporar este novo elemento em seus costumes e sua vida cultural, relacionando-se mais intensamente com esta associação literária que pretende conscientizar nosso passado e acompanhar-nos, mesmo com asperezas no caminho, às altas estrelas do futuro.
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| Monumento em forma de pórtico, dedicado à tradição cultural de Pelotas |
POST DATA
3 fevereiro 2013
Em agosto de 2012, o arquiteto Pedro Marasco da Cunha emitiu uma opinião profissional sobre a localização do monumento, que ilustrei com imagens de outros pórticos na arquitetura pelotense (veja o post).
Após a publicação da presente nota, ainda no mês de novembro de 2012, a Academia fez a correção no acento do "A" que contrai preposição e artigo.
Fotos: C. Queiroz (1), R. Marin (2-3), F. A. Vidal (4-6)