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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Mostra de carnavais antigos no Museu da Baronesa


Na sala de mostras temporárias, o Museu da Baronesa apresenta desde quarta (20) “O Carnaval das Meninas Maciéis”com registros dos carnavais de cem anos atrás, vividos pelos familiares da Baronesa. O Museu Farmacêutico Moura contribui com algumas peças de seu acervo (lança-perfumes argentinos).

Em 1864 Aníbal Antunes Maciel casou-se com a carioca Amélia Hartley, ganhando este solar de seu pai, como presente de casamento. Em 1884 libertou todos seus escravos de uma vez, e foi agraciado pelo Imperador com o título de Barão dos Três Serros (nome de uma de suas fazendas). Dona Amélia ficou sendo a Baronesa, mas ao ficar viúva voltou a residir no Rio. Quem ficou em Pelotas foi sua filha, Amélia Hartley Maciel (1869-1966), conhecida como Dona Sinhá, que casou com seu primo Lourival Maciel (1857-1948). Todos os membros da família foram afastando-se de Pelotas, deixando o solar vazio, até que uma descendente o doou ao município em 1978 e a Prefeitura o abriu oficialmente em 1982.

Mostra de carnaval no Museu da Baronesa
A expressão "meninas Maciéis" foi usada em 1918 pela Baronesa Amélia em relação às netas Déa e Zilda. Nos anos seguintes, as duas foram rainhas do Clube Diamantinos. A exposição inclui fotos delas nos anos 20.

O Museu da Baronesa está aberto à visitação todas as tarde, exceto segundas-feiras. Grupos de 10 ou mais devem agendar a visita pelo telefone 3228.4606. Para entrar ao museu, inclusive à mostra temporária, cada pessoa paga R$ 2. A entrada é livre para crianças (acompanhadas) e o valor é de meia entrada para estudantes e pessoas acima de 60.
Foto: F. A. Vidal

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pesquisa descobriu a charqueada do Santa Bárbara

A RBS TV Pelotas publicou a matéria abaixo no blogue da redação (hoje pertencente à rede Globo) e no Jornal do Almoço de 21 de outubro de 2011 (o trecho aparece no final do vídeo). Transcrevi o texto e as fotos, e reescrevi as legendas.

A reportagem mostra uma equipe universitária pesquisando a senzala de uma antiga charqueada, que – de acordo a uma lista feita por João Simões Lopes Neto em 1912 para a Revista do 1º Centenário de Pelotas – foi a única que existiu às margens do Arroio Santa Bárbara. Hoje suas ruínas ficam no centro da cidade, mas na época a zona urbana terminava no arroio.

Estefânia Jaékel da Rosa, licenciada em História e então aluna do mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural (v. Lattes) preparava um estudo pioneiro no Brasil (leia o projeto Arqueologia da Escravidão no Sul do Brasil), que a levaria à dissertação "Paisagens Negras: Arqueologia da Escravidão nas Charqueadas de Pelotas" (UFPel, 2012). Hoje ela é pesquisadora em Arqueologia da Escravidão no LAMINA/UFPel. 

Esta casa em ruínas foi a senzala de uma charqueada no século XIX.
Fica na Barão de Santa Tecla entre Conde de Porto Alegre e João Manoel

Charqueada no centro de Pelotas é redescoberta

Por Antonio Peixoto, com imagens de Jeferson Kickhöfel

Um trabalho lento e minucioso. Centímetro por centímetro de terra é escavado e vai revelando fragmentos de uma história rica e sofrida. É bem possível que os escombros dessa construção tenham sido de uma senzala que chegou a abrigar 61 escravos em 1854. Pesquisadores e 15 estudantes de cinco cursos da Universidade Federal de Pelotas procuram indícios que mostrem a presença de negros na propriedade.
A senzala estudada faria parte do complexo de uma grande charqueada, sem nome, localizada hoje no centro de Pelotas, que foi esquecida no tempo. A propriedade ficava às margens do arroio Santa Bárbara, que foi aterrado e desviado na década de 1970. O arroio cortava parte do centro da cidade, mas hoje restam apenas indícios dele, com a área próxima ao casarão que facilmente fica alagada em dias de chuva.

Estefânia Jaekel, pesquisadora e mestranda da UFPel
Arqueóloga e historiadora, Estefânia Jaekel pesquisou, para o trabalho final do mestrado na UFPel, as origens da propriedade e descobriu que a casa foi construída numa área de sesmaria doada pelo Império a um estancieiro em 1790.
 A charqueada foi vendida e as terras divididas até que em 1865 teria falido. Foi comprada 13 anos mais tarde por João Simões Lopes, conhecido como o Visconde da Graça  revela a pesquisadora.
Do tempo em que a carne era salgada pelas mãos dos escravos restou pouca coisa. Para o geofísico da Universidade de São Paulo (USP) Gelvan Hartmann, que veio a Pelotas colaborar com os estudos e complementar seu trabalho de pós-doutorado, os objetos é que contarão com exatidão detalhes dessa história.

– Coletamos 12 amostras de tijolos do chão e 12 amostas da parede que devem contar momentos diferentes do casarão, já que ele teria passado por uma ampliação  detalha o geofísico.
Serão necessários 15 anos de mapeamento, testes e muita pesquisa para remontar toda essa história ainda desconhecida. Por enquanto o local está batizado: Charqueada Santa Bárbara.
Google Maps
Charqueada ficava à beira do Santa Bárbara, que passava pelo que seria a rua Santos Dumont

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mestranda contribui à história de Pelotas

Simone X. Moreira
A jovem professora Simone Xavier Moreira vem pesquisando sobre autores literários gaúchos desde a graduação em Língua Portuguesa na UFPel, passando por duas especializações (v. currículo). Na mesma universidade, ela iniciou em 2010 o projeto em Linguística Aplicada "De Princesa do Sul a Satolep: as construções discursivas de uma cidade imaginada".

Agora que ela conclui seu mestrado na FURG, o tema segue aprofundando em Pelotas: A formação da Princesa do Sul: primórdios culturais e literários. A defesa é às 14h desta quarta (20), na sala 3106 do Campus Carreiros (Avenida Itália, km 8).

Seu grande mérito como pesquisadora científica é a consulta em fontes primárias, ou seja, documentos de época que revelam dados diretos (não de outros pesquisadores) sobre a realidade estudada: as origens literárias de Pelotas na primeira metade do século XIX. Seu orientador de mestrado, o professor Dr. Artur Emílio Alarcon Vaz destacou a importância desta pesquisa em 4 pontos, destacados abaixo.


Almanaque registra dados tradicionais, baseados em Simões Lopes Neto.

Dissertação modifica dados sobre a história da cultura em Pelotas

A mestranda do PPG “História da Literatura” Simone Xavier Moreira obteve acesso a diversas fontes primárias sobre os primeiros passos da cultura em Pelotas, modificando alguns dados que se tinha sobre essa cidade.

O trabalho de Simone é um dos resultados parciais do projeto "Formação e consolidação do sistema literário no extremo sul brasileiro", coordenado pelos professores Artur Emilio Alarcon Vaz e Mauro Nicola Póvoas, ambos da FURG. A pesquisa analisava o processo pelo qual se formou e consolidou o sistema literário da cidade de Pelotas. Para tanto, foram verificados os primórdios da leitura e produção cultural e literária da região.

Sobre a expressão “Princesa do Sul”

Tradicionalmente, o cognome atribuído à cidade pelotense era atribuído a um poema de 1863. Embora Mário Osório Magalhães  já indicasse que tal expressão seria de uso comum e que o poema deveria ser somente o primeiro registro escrito [v. artigo de 2006 no Diário Popular], tal versão não havia sido confirmada.

Outro pesquisador, Adão Fernando Monquelat, igualmente já advertia que a expressão usada no poema citado era "princesa dos campos do sul". Com o acesso ao acervo da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), a pesquisadora obteve um exemplar do jornal pelotense O Brado do Sul, de 6 de janeiro de 1860, em que já se usava a expressão “Princesa do Sul” para a cidade de Pelotas.

Acesso direto a dois livros antigos pouco citados por pesquisadores locais

  • Exposição dos elementos d'arithmetica para o uso dos estudantes do collegio de Santa Barbara na cidade de Pelotas, de Antônio Luís Soares (1805-1875), publicado em 1848. Trata-se de um manual didático cujo único exemplar encontrado em bibliotecas brasileiras está no acervo na Biblioteca Rio-Grandense (Rio Grande, RS).
O achado antecipa duas datas consideradas marcos históricos por outros pesquisadores: a da publicação do jornal O Pelotense em 1851, tida como o início da imprensa pelotense, e a do “mais antigo livro editado em Pelotas”, o Resumo da história universal, em 1856 [v. citação de 2010 por Mário O. Magalhães].
Embora outros pesquisadores já tivessem citado a existência deste livro de Antônio Luís Soares, ainda não se haviam obtido dados biográficos sobre o autor.
  • A dama de Veneza, de Carlos de Koseritz [1830-1890], publicação de 1858. Novela curta de menos de cem páginas, deve ser considerado o primeiro romance publicado em Pelotas.
A véspera da batalha, outra novela de Koseritz, também foi publicada em 1858, mas não se conhece nenhum exemplar em bibliotecas públicas brasileiras ou estrangeiras. Assim como o livro didático de 1848, citado acima, A dama de Veneza já havia sido citada e analisada no livro Breviário da prosa romanesca em Pelotas, de Luís Borges (2007), que, porém, não marca o ineditismo dessa obra.
3 Poema de um pelotense em 1834

Um outro marco do trabalho de Simone Moreira é a divulgação dos poemas de Mateus Gomes Viana (1809-1839), provavelmente o primeiro pelotense a publicar seus poemas, ainda na década de 1830, no jornal rio-grandino O Noticiador, como o publicado em 15 de dezembro de 1834, em comemoração ao aniversário de D. Pedro II.

4 Documentos prévios ao surgimento da imprensa

Por fim, destaca-se a consulta aos inventários – a partir do Perfil do leitor colonial, de Jorge de Araújo (1999) – de alguns moradores de Pelotas também nessa primeira metade do século XIX, antes do advento da imprensa. Nesse material, poucas obras podem ser consideradas literárias, revelando um leitor muito mais preocupado com os acontecimentos políticos e sociais, do que direcionado a leitura como lazer.

Imagens da web

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Recuperada antiga sede do Jockey Club

Construído estimativamente na década de 1830, o palacete situado na Sete de Setembro com Félix da Cunha foi propriedade de Domingos de Castro Antiqueira (1774-1852), o Visconde de Jaguari, e ali residiu seu neto, Domingos Soares de Paiva (n. cerca de 1834, m. 1900). 

O Visconde morava no casarão da esquina em diagonal (hoje sede do SANEP), onde se diz que Dom Pedro II teria pernoitado em 1846 (v. referência). Segundo o artigo de Rodrigues e Santos (UFPel, 2011), que abunda em referências históricas e arquitetônicas sobre a casa do neto do Viscondeo Imperador teria ficado neste casarão, certamente de construção posterior.

O Visconde de Jaguari fez  (ou deixou) a casa para seu neto. 
Desde 1948, este prédio serviu de sede social ao Jockey Club de Pelotas, que passou a alugá-lo para cobrir dívidas, até a sua venda em leilão, em 2003. Nos anos 60, foi alugado por partes, para cobrir dívidas do clube. Em 2003, foi comprado por Dario Lorenzi, que o reformou, mantendo traços da construção original. O térreo foi destinado ao Cartório Lorenzi, inaugurado em dezembro de 2012.

Leia a seguir reportagem de Júlia Otero, publicada ontem (9) no sítio de Zero Hora (v. texto completo). 


O prédio foi o primeiro em Pelotas a ser parcialmente financiado com recursos privados pelo Projeto Monumenta, que recupera fachadas e coberturas. Hoje ali funcionam o 4º Tabelionato de Pelotas, reinaugurado no final de 2012, e uma casa de festas com lugar para 300 pessoas.

A recuperação do edifício trouxe à tona outros detalhes esquecidos — ou criados — pelo passar do tempo. Um deles é que Dom Pedro II teria passado uma noite na casa quando o local pertencia a uma família nobre da região.

Dejane e Dario Lorenzi, artista e tabelião
Com 870 metros quadrados, o prédio foi erguido em meados de 1830 e, em 1948, vendido ao Jockey Club. "Era a sede social, fazíamos festas de eleições do clube, os associados podiam franquear o local para eventos particulares", lembra Jarbas Plinio de Mello, que trabalhou por mais de 30 anos no Jockey Club.

No entanto, dívidas forçaram a instituição a alugar espaços do prédio. "Tinha uma barbearia, boate, restaurante, bar e até jogatina nos fundos", lembra Dejane Lorenzi, artista plástica que acompanhou a restauração.

Pelo fato de ter abrigado diferentes estabelecimentos comerciais, a casa sofreu diversas intervenções. "Na construção original, não tinha churrasqueira, mas como foi alugado para um restaurante, no andar térreo havia mesas e churrasqueiras que tivemos de remover", recorda Rudelger Leitzke, arquiteto responsável pelo projeto.

Restaurante Diehl alugou o piso superior
"Queríamos deixar o corrimão da escada apenas de madeira, da forma original. Raspamos e tinha mais de 10 cores ali: azul, rosa, amarelo e por aí vai", conta Dejane, que exibe uma foto da fachada do prédio, também colorida (dir.).

Há 10 anos, o Ministério Público entrou com uma ação para demolir o imóvel, em razão de problemas na estrutura. "Fizemos um laudo dizendo que o prédio poderia ser recuperado, barrando a intenção do Ministério Público", lembra o professor de arquitetura e urbanismo da UFPel, Sylvio Jantzen.

Por conta de dívidas, em 2003, a casa foi a leilão. E o tabelião Dario Lorenzi vislumbrou a oportunidade de adquirir um prédio próprio. Na época, o Projeto Monumenta, de caráter nacional, escolhia em conjunto com a prefeitura projetos de restauração privados. "Depois de comprar a casa, consegui um financiamento de R$ 370 mil para restauro da fachada e da cobertura, que parcelei em 10 anos. O restante da reforma, tirei das minhas economias", calcula Lorenzi, que não sabe precisar o valor total da obra.

Vitral do piso superior foi preservado
Considerado patrimônio histórico da cidade, o prédio não foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Por isso, foi possível fazer modificações nas áreas internas.

As salas brancas estão bem equipadas: com internet, ar condicionado, parte do arquivo computadorizado e salas individualizadas. A lembrança do passado está espalhada no imóvel: na fechadura, na porta, nas janelas, na parede, no vitral do salão de festa e em toda arquitetura externa.

As grandes portas originais de madeira são abertas todas as manhãs, mas, para manter o interior do prédio climatizado, há portas automáticas de vidro que funcionam com sensores. Dentro, a sala principal conta com atendimento em guichês, separados por madeiras de reconstrução da própria obra mesclados com materiais atuais. Os funcionários atendem de branco, combinando com as paredes e a decoração em madeira e tonalidades claras.

O segundo andar é dividido entre quatro salões, compostos por mesas e cadeiras e com janelas grandes em cada compartimento. Os móveis também são antigos, que contrastam com os banheiros, de arquitetura moderna, com pias ovuladas e torneiras finas.
Júlia Otero
Recursos privados e do governo federal permitiram recuperar o palacete de um charqueador.
Fotos de Marcel Ávila

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

No tempo dos chafarizes


"Pelotas no Tempo dos Chafarizes", lançado em sessão de autógrafos este sábado (17), na Feira do Livro, é o mais recente livro de pesquisas históricas de Adão Fernando Monquelat, desta vez em coautoria com Guilherme Pinto de Almeida.

A obra recolhe textos e imagens de jornais pelotenses do século XIX, desde 1871, ano em que a distribuição de água foi assumida pela Companhia Hidráulica Pelotense, pelo uso de 4 principais chafarizes instalados no centro da cidade, mais conhecidos na época pela expressão original francesa "fontes d'água". Depois que a água passou a ser fornecida diretamente nas casas, as mesmas fontes passaram a ter função decorativa.

Hoje conhecemos 3 daqueles chafarizes, situados em pontos de maior concentração urbana e de maior antiguidade: o da Praça Coronel Pedro Osório (1873), o do calçadão da Andrade Neves (1874), originalmente na praça do Porto e desde 1981 no centro da cidade, e o da Praça Cipriano Barcellos (1876), originalmente na Quinze de Novembro com Gomes Carneiro.

O quarto, que cronologicamente é o segundo, foi instalado em 1873 e se encontrava até 1916 defronte à Catedral, mas não se sabe seu destino, e neste livro os autores ajudam a desvendar o mistério.

Não se pode dizer que eles hajam descoberto a existência do chafariz, pois já havia um registro municipal e imagens, mas sim que obtiveram detalhes e confirmações adicionais e verificaram o ponto onde se achava originalmente.

Veja um histórico dos chafarizes no sítio do Museu do Saneamento e uma descrição formal de cada um no Dicionário de História de Pelotas (UFPel, 2010, páginas 56-58), segundo pesquisa de Janaína Silva Xavier realizada em 2006.

Monquelat é livreiro, pesquisador e escritor. Seu nome está citado no verbete A Divina Pastora, na Wikipédia. Também em 2012, publicou Desfazendo Mitos (Mundial, 194 páginas, R$ 30), terceiro livro da parceria com Valdinei Marcolla (Monquelat tem mais uma dezena de obras).

Pinto de Almeida é estudante de Arquitetura e Urbanismo na UFPel. Em 2012 reeditou em formato digital a Revista do 1º Centenário de Pelotas, editada por João Simões Lopes Neto em 1912. Na foto de Roberto Dias para o Diário Popular, os autores se encontram no lugar em que o antigo chafariz se situava há cem anos.

Obra editada pela Livraria Mundial, "Pelotas no Tempo dos Chafarizes" tem 199 páginas e o custo inicial de R$ 35. Veja dois comentários de Manoel Soares Magalhães no blogue Cultive Ler.

Imagens do 4º chafariz: capa e contracapa do livro (1-2), e SANEP (4)
Foto dos autores: R. Dias, no Facebook (4)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Histórias do "theatro" que cresceu com o imperador


“Sete de Abril: o teatro do imperador” é o livro do jornalista Klécio Santos que será lançado hoje (6) na sede do Instituto João Simões Lopes Neto. Quando um jornalista escreve livros, geralmente segue o caminho do realismo ou do documento. Neste caso, além do conteúdo jornalístico, se trata de uma bela homenagem a um dos maiores ícones culturais de Pelotas, a cidade onde Klécio seguiu seu curso superior.

O sete de abril

A obra conta detalhes e curiosidades do nosso Teatro Sete de Abril, em relação com o imperador brasileiro Dom Pedro II (1825-1899). Este paralelo não deixa de ser original e de agradável leitura, mantendo sempre o sentido da verdade histórica.

O nome do Teatro foi, com certeza, tomado do dia da abdicação, em 1831, do imperador Dom Pedro I em favor do seu filho homem nascido no Brasil, Pedro, então com somente 5 anos de idade. Com a despedida do governante português pouco querido pelo povo, a data marcou o início de um novo período político e passou a ser feriado nacional. Mas em Pelotas ganhou uma segunda conotação.

Um ano depois da abdicação, em 7 de abril de 1832, a Freguesia de São Francisco de Paula, criada vinte anos antes, assumiu a condição de Vila. O decreto era de 1830 mas a elevação vinha sendo adiada por meses e meses, e o dia escolhido foi o deste feriado, talvez por conveniência prática. Por isso a data tem um significado nacional e um local, mas tudo indica que o nome do Teatro tem a força do significado nacional. Os relatos são feitos pelo historiador Mario Osorio Magalhães (veja histórico da Câmara e um histórico do Teatro).

O dois de dezembro

O aniversário natalício de Dom Pedro II também faz parte da história do Teatro. A construção foi terminada em 1834, mas a sala já funcionava antes disso e a inauguração foi feita em 2 de dezembro de 1833, dia em que o futuro imperador completava oito anos.

Com reformas em 1870, em 1916 e em 1927, o prédio ficou fechado uns anos, após ser tombado e municipalizado, na década de 1970. A reabertura ocorreu exatamente 150 anos depois da inauguração, também em 2 de dezembro (dir.). Desde 2010, o Teatro se encontra interditado, à espera das verbas para uma restauração.

A reforma ortográfica de 1943 aboliu no Brasil o uso do dígrafo "th", mas os pelotenses seguem usando até hoje, contra as regras nacionais, a grafia antiga Theatro Sete de Abril. O motivo aduzido é que um nome próprio não poderia ser alterado, mas o mesmo não ocorre com entidades como o Clube Comercial, que deveria então ser grafado Club Commercial. Sobre esta questão, veja as notas Conservadorismo ortográfico e Atualização ainda que tardia.

O autor do livro

Atualmente editor-chefe do Grupo RBS em Brasília, Klécio Santos começou sua carreira de jornalista em Pelotas. Em 2010 recebeu o prêmio Trezentas Onças, em reconhecimento aos que se destacam pela preservação da memória e pela divulgação da obra de João Simões Lopes Neto. Foi ele quem publicou a descoberta da casa que pertenceu ao Capitão, onde atualmente é a sede do Instituto.

O livro, que traz textos inéditos dos pelotenses Simões Lopes Neto e Francisco Lobo da Costa, sai pela editora Liberatos e terá distribuição em Porto Alegre e Brasília. Veja no sítio de Zero Hora uma foto dupla (arraste o slider) que mostra o teatro hoje e em 1916.

Além da cerimônia de lançamento de hoje (6), o autor autografa na Feira do Livro de Pelotas (7-11) e na Porto Alegre (10-11). Fotografias de Nauro Júnior. À venda na Livraria Vanguarda (R$ 50).
Imagens: F. A. Vidal (1, 3), RBS (4)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As pinturas da Catedral

José Rodrigues Gomes Neto, colaborador do Diário Popular, relata ter visitado a Catedral de São Francisco de Paula há alguns dias (leia o artigo completo), o que lhe suscitou uma série de lembranças. 

Entre 1948 e 1950, o templo católico passou por importantes reformas de estrutura, ganhando nova cúpula, altar e pinturas. Os vitrais foram colocados em anos posteriores, na década de 1950.



Não sei se os leitores sabem (os mais jovens, talvez não), a Catedral somente tinha as torres da frente, as dos sinos.

Aquela maior, no fundo, sob a qual está o belíssimo altar confeccionado em mármore, na Itália, e coberta de ladrilhos azuis, foi agregada ao prédio nessa época [anos quarenta].

Pelo esforço notável e incansável do bispo dom Antônio Zattera [1899-1987, veja nota biográfica], a reforma deu, à igreja maior pelotense, um padrão de elevado valor arquitetônico e pictórico, digno mesmo de um templo.

O que acabou por ter grande expressão foi a pintura afresco, pela mão do grande pintor italiano Aldo Locatelli [1915-1962]. Ele veio da Itália, acompanhado de um auxiliar e começou o trabalho que resultou na beleza que agora contemplamos.

Conheci pessoalmente Aldo Locatelli por uma circunstância especial: ele residia, como inquilino, em uma casa situada na rua Benjamin Constant, entre Félix da Cunha e Gonçalves Chaves, de propriedade de um grande, querido e saudoso amigo meu - Joaquim José de Assumpção Osório - e nós, adolescentes, mais de uma vez fomos até a Catedral vê-lo pintar. Ele usava, não é fantasia, um típico gorro de veludo, como é comum vermos em filmes que retratam pintores célebres.

Não tenho certeza de quanto tempo duraram as reformas, mas datam daí os belíssimos vitreaux, que ainda lá estão e que foram doados por pessoas de destaque na cidade.

Não sei ao certo: dizem que ele pintou anjos com rostos de meninas daqui. Mas sei, com certeza, que ele pintou, na cúpula, o rosto de uma jovem que eu conheci. Neste dia em que estive lá, de visita, ainda procurei e encontrei a pintura.

A Catedral, por sua arquitetura e por suas pinturas, disso não há dúvida, é um monumento de raro valor que encanta os turistas. Acho mesmo que carece de cuidados para que se não danifiquem mais as pinturas. Por isso, penso que a cidade tem um compromisso sério com a recuperação da Catedral.

Em algum momento, antes da reforma, ela foi pintada, por fora, de cor-de-rosa, se não estou enganado. Eu adoraria, perdoem-me os arquitetos pela indevida intromissão, de vê-la, quem sabe voltar ao rosa ou com aquela cor característica dos prédios históricos de Roma. Ainda mais agora que ela foi elevada à categoria de Catedral Metropolitana da novel Arquidiocese de Pelotas.
José Rodrigues Gomes Neto


Catedral antiga: Facebook
Locatelli: Prof Círio Simon
Cúpula: Ricardo Gruppeli
Porta e vitrais: F. A. Vidal

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Cem anos dos Contos Gauchescos

O Correio do Povo Memória informa que em 21 de setembro de 1912 publicou a nota seguinte (confira na imagem o mesmo texto com a grafia de um século atrás):

O escritor rio-grandense J. Simões Lopes Neto acaba de publicar, em volume, uma série de contos de costumes gaúchos, dos quais teve a gentileza de nos oferecer um exemplar.

O volume intitula-se "Contos gauchescos" e foi editado pela livraria Universal, dos srs. Echenique & C., de Pelotas. 

A edição é elegante e cuidadosamente impressa. Agradecemos a oferta do exemplar.

Na edição de hoje (21), o jornal acrescenta a esta notícia antiga o seguinte texto atual:
A obra literária de Simões Lopes Neto, lançada em 1912, assinala um momento decisivo na tradição regionalista brasileira justamente porque, ao ultrapassar a documentação da realidade aparente, impõe uma visão do mundo que exige o contraste, o paradoxo, o símbolo e a metáfora como seus fundamentos e leva-nos à fronteira da linguagem. 
O livro "Contos Gauchescos" nomeia uma região, seus tipos característicos, seu código social, a tradição e o folclore; ao fazê-lo, confrontam permanentemente o homem e o mundo da natureza. Neste processo, os traços regionais transpõem seu condicionamento particular e geram uma expressão única, definem uma linguagem e um estilo.
"Pode-se dividir a literatura do Rio Grande do Sul entre antes e depois de Simões Lopes. Antes, não havia, de fato, literatura. Depois, tudo passou, justamente, a sempre se referir a ele, que se tornou um marco, como Shalespeare para a literatura inglesa. E isso não é nenhum aumentativo, não, é a mais pura verdade".   
Antônio Hohlfeldt, Doutor em Letras, PPG Letras da PUCRS.
Imagens: F. A. Vidal (1), Correio do Povo (2)

Até dezembro de 2012, o Instituto Simões Lopes Neto promove o ciclo de palestras sobre os Contos Gauchescos, um a cada duas quintas-feiras (confira na Agenda Cultural deste blogue).

domingo, 16 de setembro de 2012

Izídio, o jogador que nunca marcou

Izídio Osório nasceu em 13 de janeiro de 1935, em Pelotas. Conhecido como Cascudo, começou jogando no Brasil de Pelotas, onde participou em 80 jogos, ao longo das temporadas de 1954, 1955, 1956 e 1957 (veja no portal do Grêmio Esportivo Brasil). Aos 25 anos de idade, transferiu-se para o time rival, o Esporte Clube Pelotas.

Escreve Paulo Gastal Neto (leia nota) que o jogador nunca marcou um gol em mais de uma década de carreira. A informação provém da Enciclopédia do Futebol Gaúcho.

Cascudo também atuou vários anos no Farroupilha, onde pendurou as chuteiras. Seguiu ali como treinador, e nessa função teve melhor desempenho. Segundo registro do jornalista Augusto Santos (leia reportagem), Izídio era o técnico do Farrapo em 1980 quando este venceu em casa o Grêmio de Porto Alegre. Foi homenageado em 2001 como ex-atleta do Farroupilha (veja notícia), não voltando a ser notícia.

Izídio passou por três times da mesma cidade e nunca marcou um gol. Mudou de camiseta e não teve frutos com nenhuma? Se isso foi verdade, que explicação terá? Quando Manoel Soares Magalhães soube do fato, ficou sem saber o que pensar. Confira a seguir sua crônica.


Dizer o quê de um atleta que jogou profissionalmente e jamais fez um gol. 
Até hoje não havia pensado nessa possibilidade. Achava impossível existir um jogador que não tivesse feito pelo menos um golzinho. Um meio gol, talvez, com a ajuda do goleiro, do montinho artilheiro, de um deus de plantão, cuja benevolência extrapolou. 
Folheando o excelente livro escrito por Marco Antonio Damian, escritor e historiador, e de Luiz Cesar Freitas, comentarista e cronista esportivo, chamado Enciclopédia do Futebol Gaúcho – Vol. Ídolos e Craques, lançado em 2009, descobri que houve esse jogador. 
Chamava-se Isídio Osório, conhecido como Cascudo. Sim, Cascudo é o nome do jogador que jamais marcou um gol jogando profissionalmente. [...] Encerrou sua carreira sem nunca ter marcado um gol. Sem jamais ter experimentado na alma a quentura de um gol, revolvendo suas entranhas, arremessando-o às alturas. 
Não sei dizer se o ex-atleta já morreu. Acaso isso tenha ocorrido, que terá pensado no instante do passamento? Que procurou tratar bem a bola, porém, caprichosa como solista de ópera, frustrou suas expectativas? Difícil saber o que terá imaginado o velho lateral-direito Cascudo, cujo profissionalismo e dedicação aos clubes que defendeu fora grande. Isso são coisas intangíveis, inimagináveis. 
O fato é que o velho Cascudo jamais balançou a rede. Não teve esse gosto. Por uma estranha e infeliz ironia.
Manoel Soares Magalhães
Leia o artigo completo.
Foto do time 1956:
Colecionador Xavante

POST DATA: 21-09-12
O Sebo GN tem fotos deste jogador com times do Pelotas, do Brasil, do Farroupilha e do Bancário, em diversos tamanhos e boa nitidez (R$ 10). Fica defronte ao Mercado Central, pelo lado da Quinze, e está por mudar-se. O vendedor me informou que Izídio ainda vive mas se encontra muito doente.

domingo, 15 de julho de 2012

Fachada do Sete de Abril em 1926

Os pesquisadores do projeto "Pelotas Memória", da UCPel, divulgaram esta foto no Facebook há uma semana, mas primeiramente saiu no Almanaque Gaúcho de ZH do dia 7 de julho, em homenagem aos 200 anos de Pelotas. O Sete de Abril, que desde 1921 já não era o único teatro da cidade, aparece tão coberto de cartazes que não se pode ver a fachada.

Com a década de 1910, apareceu em Pelotas a exibição de filmes estrangeiros e a pioneira produção de cinema dirigida por Francisco Santos. Mas com o início da Guerra Mundial, em 1914, a produtora local teve que parar de filmar e concentrou-se no que fazia antes, o teatro ao vivo com atores e a promoção de filmes americanos, como os da foto.

O filme "Denny na Berlinda" (What Happened to Jones) esteve em cartaz no Brasil em 1926, de acordo com a Biblioteca Nacional Digital. A produção da Universal Pictures (fundada em 1912 pelo alemão Carl Laemmle) era uma comédia de 70 minutos, muda, em preto-e-branco, protagonizada por Reginald Denny, com Marian Nixon e Otis Harlan. Curiosamente, os cartazes anunciam o então famoso produtor Laemmle como hoje se destacam os atores, e o título põe o nome do ator como se fosse personagem.

O outro filme que se pode identificar nos cartazes é Arizona Sweepstakes, western mudo, de 60 minutos, com Hoot Gibson. Segundo a Wikipédia, o título teve versão em português ("A Corrida de Obstáculos do Arizona"). Veja abaixo outro western mudo americano, Arizona Days (1928), de 43 minutos, com Bob Custer e Peggy Montgomery.

sábado, 7 de julho de 2012

"A Flor do Sal", poema para Pelotas

"A Flor do Sal", de Mario Osorio Magalhães, é um poema-relato que resume o desenvolvimento da cidade de Pelotas, desde sua pré-história (antes da fundação como freguesia em 1812) até o século XX. A flor do sal é o coalho que cristaliza na produção de sal marinho, mas neste texto a expressão é uma metáfora do florescimento da cidade em torno à fabricação de charque (carne seca e salgada).

Desde 1780 até 1910 Pelotas teve seu "ciclo salgado", do qual derivou sua riqueza econômica e cultural, ainda não igualada pelo "ciclo doce", nascido nos bastidores das charqueadas, e hoje exaltado na FENADOCE.

"Nossa Doce Pelotas", vídeo idealizado em 2009 por Viviane Lino (formanda do curso de Turismo da UCPel), utiliza o poema-guia de Magalhães para divulgar a cidade.

O trabalho audiovisual foi apresentado publicamente no dia 7 de julho daquele ano, e em novembro seguinte destacado como um dos melhores vídeos no 11º Seminário de Turismo e Cultura da UCPel (veja notícia).

Nas imagens aparecem o autor Mario Osorio Magalhães, o locutor Otávio Soares e o músico Leonardo Oxley Rodrigues, que compôs e interpretou a trilha sonora, à base da melodia do Hino de Pelotas (1935), de Romeu Tagnin.

Confira abaixo o texto completo de "A Flor do Sal", transcrito do livro "História e Tradições da Cidade de Pelotas" (Magalhães, Ardotempo, 2011).



A Flor do Sal

Mario Osorio Magalhães
I

Primeiro era o gentio — pagão,
sem Deus, sem devoção, sem luzes.
Ultrapassando as fronteiras,
vieram homens de negro,
que empunhavam cruzes,
e bárbaros maltrapilhos,
que conduziam bandeiras,
adagas e arcabuzes.

E o jesuíta voltou, acuado,
pra o outro lado do rio...
Pois era agora o gentio e gado
— milhares e milhares de cabeças de gado bravio.

Juntaram-se em vacarias,
recolheram-se em currais.
— É, sim, só valia o couro
desses rebanhos baguais.
Mas muito o couro valia!

Foram chegando os tropeiros
— lagunenses e mineiros,
paulistas e cariocas.
Brotaram ranchos, malocas,
nas mais remotas distâncias.
Depois, os açorianos,
madeirenses, transmontanos...
Doaram-se as sesmarias,
domaram-se as valentias,
dobraram-se as alternâncias:
gaudérios/pais de família;
boi xucro/gado de cria;
pampa selvagem/estâncias.

— É, sim, só valia o couro
desses rebanhos baguais.
Muita era a serventia
dessas peles animais:
pra arreios, caronas, tentos,
bainhas, guaiacas, botas...
Centauros, ao desmontarem
dos seus fogosos cavalos,
de botas vararam charcos
e os rios passaram em barcos
de couro que, enfim, chamaram
— que trataram de pelotas.

— É, sim, só valia o couro...
Até que, do além do ouro
das velhas Minas Gerais,
retirante da má sorte,
um homem chegou do Norte;
branqueou de sal as tropas
(nossos rebanhos baguais)
à beira, num descampado,
de um rio que, por devassado
nas travessias remotas,
nossos campeiros monarcas
tratavam, igual que às barcas,
de um mesmo nome: Pelotas.

* * *

Agora valia a carne,
os músculos animais...
Dos mares, dos arredores,
vieram donos de iates
(que juntavam patacas),
trabalhadores negros
(que empunhavam facas),
capitães do mato e feitores.

De recantos bem distantes,
eram famílias chegando,
chegando os comerciantes:
mascates negociando
os seus tecidos; mulheres
se oferecendo aos prazeres.
Carreiras, jogos de azar...
Sempre a se multiplicar
— como em mágicos espelhos —
adultos, crianças, velhos.

Pois nasceu o povoado
poucas léguas afastado
do rio que passava em frente
da primeira charqueada.
Por alvará do regente
e por decisão do bispo,
a aldeia foi registrada
com o nome de São Francisco.

Se bem que intenções devotas
respeitasse, aquela gente
ainda assim preferiu
que se chamasse Pelotas
esta porção do Brasil
— talvez, lá no inconsciente,
querendo que andasse em frente,
seguindo sempre a corrente,
feito um barco e feito um rio...



II

Nesta porção do Brasil,
entre novembro e abril
faz mais calor, menos frio;
menos chove e menos venta.
Pois nesses meses de estio
a fria faca assassina
que empunhava o negro mina
degolava trinta mil
cabeças de boi em cada
charqueada das quarenta
que havia à beira do rio...
Pilhas e pilhas de charque
secando ao sol, no varal;
e as mantas de couro em sal
curtindo, para o embarque
até Rio Grande em iate
e para a Europa em navio
— em navio para as Antilhas,
pra América, pra Bahia,
pra Pernambuco e pra o Rio...
No retorno a embarcação
trazia luz no porão.

Reluzindo feito ouro,
no lugar do charque e o couro,
vinha a Civilização.
(Nessa viagem de volta
o navio vem carregado
das luzes da nova Europa:
o Século vem na troca,
estacionando no Porto,
desembarcando em Pelotas...)

III

Pra diversão nada falta:
são as luzes da ribalta,
concertos e operetas;
músicas, bandas, retretas
no Porto e depois no Parque;
nos intervalos do charque,
os negros com seus batuques;
barões que sonham ser duques,
donzelas com ser senhoras;
poetas às altas horas
declamam pelos saraus;
uns homens, nos carnavais,
transfiguram-se em mulheres;
banquetes de mil talheres,
mil folhas, quindins, pastéis,
fios de ovos, camafeus;
discursos dos bacharéis,
procissões, louvor a Deus,
igrejas e a Catedral...
E o poder dos coronéis,
Miss Universo, bra-péis...

Um dia um banco faliu.
Derrubou-se um casario.
A crise. O mundo atual...
Pela corrente do rio
escorre o ouro animal...
Mas não leva a tradição.
Ainda brota do chão,
crescendo no coração,
Pelotas, a flor do sal!

Imagens:
- Aquarelas de Jean-Baptiste Debret (Charqueada e Pelota)
- "Lancero de la Epoca de Rivera", de J. M. Blanes (Wikipedia)
- Vitral da Catedral de Pelotas (F. A. Vidal)


POST DATA
20-09-12 Veja o post Poemas de Mario Osorio Magalhães.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A personalidade da Rua Quinze de Novembro

Neste programa da TV Câmara, André Christ apresenta os fortes traços urbanos e históricos da velha rua Quinze de Novembro: a Catedral do Redentor, o Mercado Público, a Prefeitura Municipal, a Biblioteca Pública, o quiosque de Nelson Nobre, a Doçaria Pelotense, o Café Aquários, o Bar Cruz de Malta, o Clube Brilhante. O nome atual se deve ao governo republicano, mas a Quinze já era a rua principal desde o início do século XIX, com os nomes sucessivos de Rua dos Canários e Rua São Miguel. Se a reportagem fosse mais longa, veríamos a Livraria Mundial, o Diário Popular, a Catedral de São Francisco de Paula, o Colégio Gonzaga, o Ateliê Giane Casaretto, a livraria Monte Cristo, o Asilo de Mendigos. E das épocas passadas: o castelinho do Major Vidal, a Confeitaria Brasil e a Padaria Nogueira, a Livraria Universal e o Bazar Edison, o Bar do Willi, o Hotel Aliança, a Opinião Pública, o Castelinho do Saber (hoje Escola Erico Verissimo). Parece que tudo em Pelotas aconteceu e segue acontecendo em torno a esta rua: o comércio, a política, a cultura, as tradições, as festas. No vídeo dirigido por Matheus Gomes, testemunhos da moradora Maria Zambrano, o bispo anglicano Renato Raatz e o historiador Mario Osorio Magalhães. O texto de Luiz Caminha (diretor da TV Câmara) é narrado por Maria Alice Estrella. No carnaval de 2002, a Escola de Samba Rosa Imperial usou a Rua Quinze como tema-enredo (v. notícia).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Notícia do centenário em 1912

Cada dia o Correio do Povo recorda notícias de um século atrás, e hoje (6) dá um maior espaço ao anúncio da celebração do centenário de Pelotas, a iniciar-se daí a 30 dias, em julho de 1912.

O texto é transcrito pelo jornal com a grafia da época (clique na imagem para ampliar).

No próximo mês de julho, será festivamente comemorado, em Pelotas, o centenário dessa cidade. O programa das festas está, em linhas gerais, assim organizado:

Sábado 6 de julho, recepção na Intendência;

Domingo [7], salvas de 101 bombas, em vários pontos da cidade; músicas tocarão o hino nacional; colocar-se-á uma urna com jornais do dia, selos, moedas, ata etc.

Domingo [14], que coincide com o aniversário da queda da Bastilha, encerramento das festas: romaria ao cemitério e deposição de flores.

Os estabelecimentos industriais se associarão às festas, apitando todos, ao mesmo tempo, às 5 horas da tarde de 6 de julho, assim encerrando o século da atividade fabril.


Cem anos depois, o nosso triunfalismo se limita às glórias do passado e ninguém recorda essa ligação forçada com a Revolução Francesa (14 de julho), ao parecer uma ideia somente válida no Centenário de Pelotas.

Muitas das incomodidades vividas na atualidade pelotense, larvadas nas últimas décadas de estagnação, ofuscam em parte a alegria do bicentenário, especialmente com certos atrasos nos preparativos, mas não impedem que se cultive otimismo para os próximos cem anos.
Reprodução CP (6-6-12): F. A. Vidal

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cem anos da paróquia da Luz

O professor e artista Jonas Klug escreve o seguinte, hoje (23) no Facebook, sobre a paróquia da Luz, que comemora atualmente o centenário de sua fundação (ocorreu em abril de 1912). Ele começa recordando as subdivisões da cidade em bairros e "zonas", especialmente as do Centro de Pelotas .

Lembrei disso ao ver, hoje, um cartaz (esq.) convidando para a novena comemorativa à festa da Padroeira e ao centenário da criação da Paróquia de Nossa Senhora da Luz, que denomina a "zona" onde eu morei por dezoito anos.

O "arrabalde da Luz" formou-se em torno de uma pequena ermida erguida em 1824 — então bastante fora da área urbana — por promessa de um certo capitão de barco José Fernandes da Victoria Santos, que teria recuperado milagrosamente a visão após dois anos de quase total cegueira.
Obtendo licença para pedir esmolas para a obra com o auxílio de um amigo, conseguiu a doação de um terreno particular, e levantou-se a capela, pequena e humilde, para abrigar a imagem da Padroeira, vinda de Portugal.

Nos meus guardados encontrei um "santinho" centenário (tem uma oração, atrás, mas sem data). A estampa (dir.) reproduz uma aquarela muito primitiva, mas que retrata mais ou menos fielmente a imagem — impresso, portanto, especialmente para Pelotas.
(...) Esse costume de imprimir gravuras que retratassem fielmente uma determinada imagem (em escultura) muito venerada pelo povo é muito ibérico.

(...) As cores que a escultura original apresenta na policromia são branco, no vestido, e celeste, no manto, mas não quer dizer que não tenha sofrido alguma repintura nos seus 288 anos de existência. Ou, talvez as cores desta aqui sejam uma licença tomada pelo aquarelista, inclusive porque o vermelho ou o rosado (a luz do fogo) são tradicionalmente associados à Senhora da Luz ou da Candelária.

Embora atualmente, em Pelotas, se comemore em maio, a data oficial da festa é 2 de fevereiro, em pleno verão europeu, onde provavelmente substituiu alguma comemoração pagã de fertilidade da terra.

Como N. Sra. dos Navegantes acabou se implantando no dia da Candelária (2-2), provavelmente por essa razão a festa da Luz, aqui, deva ter sido transferida para o encerramento do mês de Maria.
Em 1899 foi demolida a primeira ermida e começada a graciosa igrejinha (abaixo) que veio a se tornar Matriz da nova "freguesia", desmembrada da Catedral pelo primeiro bispo, D. Francisco de Campos Barreto em 1912.


Infelizmente, no final dos anos 1960, foi demolida, sob argumento de seu tamanho pequeno, para dar lugar à atual igreja (abaixo), de um modernismo do pior gosto. Felizmente sobreviveu a quase bicentenária imagem de Nossa Senhora, testemunha silenciosa das selvagerias do progresso.

Depois arrumaram esse terreno que aparece meio baldio aí na frente (acima) e foi plantada uma alameda de palmeiras, era uma pracinha cuidada. Por dentro tinha uma espécie de mezanino em toda a volta, como um teatro, o altar mor era singelo mas gracioso, com Nossa Senhora bem no alto, entre S. Francisco e Sto. Antonio (leia o post completo de Jonas Klug).

Os seguintes dados históricos foram tomados do livro "Centenário da Diocese de Pelotas", de Mendes e Alves [Pelotas, 2010, p. 136-140].

Em 1932 a paróquia foi entregue aos cuidados dos padres franciscanos, que em 13 de abril desse ano instituíram a Trezena de Santo Antônio de Pádua, celebrada até hoje em 13 terças-feiras seguidas.

Em 1943, a pedido do bispo Dom Antônio Zattera, os freis capuchinhos assumiram a paróquia. Encontraram a instituição beneficente do Pão dos Pobres de Santo Antônio e em 1947 a mudaram para o terreno em frente à igreja, fundando ali o Instituto Pão dos Pobres (desde 1991, Escola Nossa Senhora da Luz).

Em 1967 foi lançada a pedra fundamental da nova matriz, sendo pároco o padre José Schramm.

Imagens: J. Klug (2), Arquidiocese de Pelotas (1, 3) e F. A.Vidal (4)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Casa do Torres, ainda de pé


Há três anos, vimos aqui no blogue a situação da casa mais antiga de Pelotas (leia a postagem), denunciada em 2004 por Mario Osorio Magalhães. Em setembro de 2011, o escritor confessou o que seria seu Sonho do Bicentenário: ver recuperada - fìsica e socialmente - esta construçâo colonial de 1808 (data aproximada, pelos cálculos do historiador pelotense).

A mesma informação já havia sido veiculada em forma de reportagem audiovisual por Júlio César Prestes (vídeo acima). As imagens mostram o mau aspecto externo da casa, que se deteriora lentamente mas está firme há pelo menos 200 anos, e o sobrevivente calçamento de pedra ainda existente no centro da cidade. É preciso notar também que a antiga Rua do Torres, hoje Major Cícero, nâo tem inclinaçâo alguma.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

João Affonso Corrêa de Almeida, gramático de dois idiomas

Nesta crônica, Rubens Amador compartilha um dado cultural que repousava há tempos em sua memória e que veio à tona ao passar pela casa da antiga escola João Affonso Corrêa de Almeida, no Parque Dom Antônio Zattera nº 500.

Naquele domingo ensolarado eu vinha pela rua Andrade Neves, cerca de onze horas da manhã. Nas proximidades do Asilo de Mendigos, ao passar pela hoje Academia Pelotense de Letras (dir.), por associação, lembrei-me de um velho amigo, chamado Epitácio Torres, hoje delegado de polícia aposentado. Homem muito inteligente, autor de uma vintena de livros e professor de inglês, viveu por quatro anos com sua família nos Estados Unidos.

Desde os tempos de ginásio, quando nos conhecemos, estabelecemos uma grande amizade que dura até hoje. Possuo a foto do Kennedy que foi Ministro da Justiça Americana, entregando-lhe o seu diploma, na Academia de Polícia de Chicago, onde concluiu seu curso.

Pois a associação de ideias veio porque um tio seu, o professor João Affonso Corrêa de Almeida, emprestara seu nome por muitos anos à escola que ali existiu por décadas, até as bandeirantes ocuparem o prédio da hoje Academia. E aqui vai um fato histórico que poucas pessoas conhecem; eu, soube-o pelo meu querido e grande professor de português no Ginásio Pelotense, Francisco de Paula Alves da Fonseca (1893-1986).

Certo dia, em aula, contou-nos ele que fora contemporâneo e aluno do professor João Affonso, o qual — e aqui a revelação importante — foi o ÚNICO pelotense que escreveu uma gramática francesa e outra do idioma português.

Para os que gostam de história da cidade, posso informar que o professor João Affonso nasceu em 1854 e morreu em 1914, aos 60 anos. Ao subir num bonde (naquela época, puxado por alimárias), caiu fulminado por um infarto. Quando me encontrava defronte à casa da hoje Academia, lembrei-me das coisas que acabo de narrar.
Rubens Amador
Foto 1: H. Borba (Panoramio)

Helena Neves, Giane Amaral e Elomar Tambara pesquisaram sobre o ensino privado no final do século XIX, em nossa cidade (ver o artigo Professores, a alma do negócio? As propagandas impressas dando visibilidade à atuação docente em Pelotas, 1875-1910).

Entre duzentos nomes de professores, citam a atuação de João Affonso Corrêa de Almeida, de 1879 em diante: como professor — no Ateneu Pelotense e no Colégio Pelotense (anterior ao Ginásio Pelotense, fundado em 1910) — e como diretor do Colégio Sul-Americano, em 1886. Não mencionam as gramáticas do professor João Affonso.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dois séculos de uma cidade em crescimento

O atual prefeito de Pelotas, Fetter Júnior, traçou um histórico da cidade em poucas linhas, e o Diário Popular publicou terça-feira (10), com o título Bicentenário de Pelotas. Transcrevo-o abaixo, acrescentando subtítulos e ilustrações. Dado seu poder de síntese, o texto serve como referência para o estudo do passado e para a formulação de políticas de desenvolvimento.

Os 200 anos se referem à criação da Freguesia de São Francisco de Paula, antes da qual também existiu uma pré-história, aludida no artigo como a fase de "povoamento inicial". A história da cidade se estrutura com os primeiros passos de independência em relação a Rio Grande (1812 e 1832) e segue escrevendo-se até hoje, com alguns descendentes dos fundadores e com bom número de pelotenses adotivos. A comunidade toda pretende realizar a vocação de liderança que fez nascer e crescer a cidade.


Uma cidade é o resultado da ação de pessoas ao longo do tempo. O que foi por sucessivas gerações determina seu presente e projeta seu futuro. As rupturas e insucessos também deixam suas cicatrizes e estão presentes no inconsciente coletivo da comunidade, contribuindo para as expectativas e projeções. Pelotas é, assim, fruto de seus processos históricos e já viveu momentos de apogeu e de declínio.

Desde seu início, marcado pelos conflitos entre os impérios português e espanhol, abrigou diversificada população e acolheu variadas etnias. Por sua posição geográfica privilegiada à época (protegida pelo Canal São Gonçalo e com acesso ao Oceano), tornou-se importante centro industrial e comercial desde seu povoamento inicial, na segunda metade do século 18.

Século XIX

O reconhecimento se deu em 7 de julho de 1812, com a instalação da Freguesia, quando passou a sediar igreja e registrar nascimentos, casamentos e mortes. Em 1815 foi feita a primeira planta da ocupação urbana e seu crescimento a transformou em Vila em 1832, alcançando status de Cidade em 1835.

De lá para cá, viu sua economia expandir-se sensivelmente, tendo como motor a produção do charque, em longo ciclo que se prolongou até após a Primeira Guerra Mundial, quando os frigoríficos substituíram esta indústria.

A afluência gerada possibilitou enorme vitalidade cultural e política, bem como a diversificação econômica. A partir de 1850 foi palco de expressiva colonização de seu interior, com imigrações variadas (alemães, ingleses, franceses e italianos), que também dinamizaram sua produção agrícola e industrial. Estes empreendimentos foram, em sua maioria, feitos por particulares, com poucas colônias “oficiais” (cerca de 10% da área então partilhada).

Século XX

Também nas atividades urbanas foi palco de inúmeras migrações de profissionais, que lhe fortaleceram o comércio e a indústria, chegando até meados do século 20 como o grande polo da economia do interior do Estado.

Foi penalizada, após a década de 1930, com decisões geopolíticas que dificultaram a continuidade deste dinamismo, especialmente a Faixa de Fronteira. As últimas décadas do século 20 foram bastante difíceis e sua imagem desgastada por período de estagnação e perda de protagonismo.

Terceiro passo

O século 21 tem se revelado um Novo Momento, com boas perspectivas e retomada do desenvolvimento. A comunidade se engaja na celebração de seu bicentenário, cuja programação se iniciou nos 199 anos, em 2011, e se estenderá por 2012, com eventos dirigidos aos mais diversos segmentos.

Por isto, é hora de programar visitas a Pelotas onde, a cada mês, eventos significativos estarão ocorrendo e poderá ser conferida a bela história de nossa cidade, assim como desfrutados seus encantos do presente e suas otimistas expectativas quanto ao futuro.

Adolfo Antonio Fetter Júnior
Prefeito de Pelotas

Imagens: Wikipedia (aquarela de Herrmann Rudolf Wendroth), Skyscrapercity (2)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Relançamento de livro sobre Pelotas

Esta terça (6), a partir das 19h, a 6ª edição do livro "História e Tradições da Cidade de Pelotas", de Mario Osorio Magalhães (acima) começa uma caminhada pelo bicentenário da Freguesia de São Francisco de Paula.
Pensado originalmente para acompanhar uma série de imagens de Pelotas, tomadas pelo artista Salomão Scliar, a obra foi lançada em 1979 como simples texto escrito, e foi tendo novas edições (em 1981, 1999, 2003 e 2005), pela boa aceitação do público.
Por primeira vez em 32 anos, e voltando à concepção original, o trabalho inclui fotografias de Pelotas alusivas ao texto, desta vez tomadas por uma equipe: Alexandre Gomes, Daniel Giannechini, Edison Vara, Laureano Bittencourt e Paulo Rossi.
O conteúdo do texto já faz um passeio ao longo dos 200 anos de história de Pelotas, mas em 2012 a obra e seu autor farão um passeio pelo espaço geográfico: 18 das 43 fotos do livro constituem uma exposição que visitará escolas da cidade.
Ao mesmo tempo, Mário Osório Magalhães se encontrará com o público, falando sobre esta Pelotas que ele estudou em detalhe por tantos anos. O objetivo é chegar a 20 mil pessoas em 180 estabelecimentos, mas já se pode calcular que 4 anos serão necessários para fazer tantas exposições em ritmo semanal (ou 4 palestras por semana, durante um ano).
Transcrevo abaixo a página 80, intitulada A crise econômica, com uma foto (que não está no livro) nada turística mas totalmente real, do sucateamento de nosso patrimônio urbano, realizado por nosso próprio povo e nossas próprias autoridades. Ao fundo, o atual BANRISUL (até 1931, Banco Pelotense); em primeiro plano, comércio ambulante, lixo e catadores.

Fundado em 1906, o Banco Pelotense teve 69 agências e filiais por todo o Brasil.
Em 1931, quando ainda ocupava o terceiro lugar no país entre os detentores de maiores depósitos em numerário, foi obrigado a fechar, envolvido numa trama política articulada fora dos limites municipais.
Esse fato, de triste memória, causou verdadeiro abalo na economia do município.
Unindo-se a circunstâncias anteriores, internas e externas - como o ocaso das charqueadas e a crise mundial das primeiras décadas do século -, haveria de se refletir durante muito tempo no desenvolvimento da cidade.

Imagens desta nota:
Paulo Rossi (1), F. A. Vidal (3)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Identidade Xavante, o livro do centenário



O livro que registra os 100 anos de existência do Grêmio Esportivo Brasil será apresentado ao público pelotense no sábado 10 de dezembro às 10h30, no Quiosque Nelson Nobre. Como se vê, o número está onipresente, nos horários e até no preço em reais. 100% do lucro com as vendas está destinado a melhorias para o clube, mediante a Associação Cresce, Xavante!, que, como diz o nome, busca o crescimento do clube por todas as vias possíveis.

O Brasil de Pelotas completou 100 anos em 7 de setembro de 2011. A imagem acima permite ver algumas páginas do livro Identidade Xavante. Mais informações sobre o clube no portal do Grêmio Esportivo Brasil.

sábado, 5 de novembro de 2011

Edição de livros em Pelotas

No Dicionário de História de Pelotas (UFPel, 2010, p. 164-165), o verbete "Livros", redigido por Mario Osorio Magalhães, resume a história da publicação literária em nossa cidade (transcrito abaixo).

Sobre as editoras e gráficas pelotenses na década de 1920, veja também o artigo de Nádia Miranda Leschko Estudo de mapeamento da indústria gráfica em Pelotas (publicado no 4º Seminário de Memória e Patrimônio, UFPel, 2010).


Carl von Koseritz
Em Pelotas – como no Brasil, em geral – a história do livro está associada à história do jornal.

Primeiro, porque das tipografias dos jornais foi que saíram os primeiros livros. É bastante provável que a mais antiga obra editada em Pelotas tenha sido Resumo de História Universal, também o livro de estreia do professor alemão Carl von Koseritz (dir.) [1830-1890; veja biografia segundo a ARL]. Foi impresso em 1856 na tipografia de O Noticiador, o segundo jornal em circulação na cidade (Tipografia Luiz José de Campos).

Antes, em 1852, o prof. Antônio José Domingues mandara imprimir vários poemas na Tipografia Imparcial, de Cândido Augusto de Melo, ou seja, nas oficinas de O Pelotense, o primeiro jornal de Pelotas. Só que, editados em folhas soltas, esses poemas não chegaram a constituir um livro [veja Relação de jornais existentes na Biblioteca Pública Pelotense, de Garcia e Loner, s/d].

Capa original (Livraria Universal, 1910)
[...] Por um segundo motivo a história da imprensa e a história do livro correm paralelamente, tanto no Brasil quanto em Pelotas: grande parte das edições, no século XIX, era resultado da reimpressão de um material que já fora divulgado, em forma de folhetim, nos rodapés dos jornais.

Temos um exemplo disso no final do século: de autoria de Paulo Marques, o folhetim Vênus ou O Dinheiro, veiculado no jornal Onze de Junho entre setembro e novembro de 1881, transformou-se em livro em 1885, editado sob a chancela da Biblioteca Pública Pelotense.

E sabe-se que duas das principais obras do maior escritor pelotense, João Simões Lopes Neto – Contos Gauchescos e Casos do Romualdo –, antes de assumirem o formato de livro foram publicadas na imprensa: respectivamente, no Diário Popular e no Correio Mercantil.

No ramo específico da indústria editorial, duas empresas dominaram o mercado pelotense - e praticamente o mercado rio-grandense - no último quartel do século XIX:
  • a Livraria Americana: de propriedade de Carlos Pinto & Cia., foi fundada em 1875, estabelecendo filiais em Porto Alegre (1879) e Rio Grande (1885); e
  • a Livraria Universal: de propriedade de Echenique & Cia., foi fundada em 1887, expandindo igualmente seus negócios até Rio Grande e Porto Alegre.
    Foi a Universal [dir.; esquina da Sete de Setembro com Quinze de Novembro] que lançou as primeiras edições [em livro] do Cancioneiro Guasca, dos Contos Gauchescos e das Lendas do Sul, do citado Simões Lopes Neto (Casos do Romualdo só seria editado postumamente, pela Globo, de Porto Alegre).
[...] Dentre os livros que publicaram, predominam as obras de ficção, de autores universais, nacionais e regionais. Mas não deixa de ser surpreendente o acervo de seus livros didáticos.

Substituindo a Americana e a Universal, ainda na primeira metade do século XX, as principais livrarias de Pelotas passaram a ser a Livraria do Globo (filial da de Porto Alegre, então uma das maiores casas editoriais do Brasil) e a Livraria Mundial, fundada em 2 de agosto de 1935 e ainda em atividade.

Livraria Universal nos anos 20. A esquina da Quinze com Sete ainda é famosa, mas pelo café e pelos doces.
Imagens: Flanela Paulistana (1), OLX (2), N. Leschko (3)