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terça-feira, 25 de março de 2014

Biblioteca tem o museu privado mais antigo


Além de milhares de obras impressas, a Biblioteca Pública contém o museu privado mais antigo no Rio Grande do Sul, criado em 1904. Algumas das peças que despertam maior interesse são a faixa de Miss Universo de Iolanda Pereira (1910-2001), alguns símbolos originais da Revolução Farroupilha, a arma usada por Bento Gonçalves (1788-1847) e um nu masculino do pintor Luís Carlos Melo da Costa (1947-1993). 1500 peças formam diversas coleções do Museu Histórico da Biblioteca Pública Pelotense.

Apesar do nome, a entidade cultural foi fundada por particulares, com o objetivo de contribuir à educação permanente de todos os cidadãos. Em 1875, sob o regime imperial, a palavra "pública" não era sinônimo de "governamental" mas de "aberta". Se a biblioteca fosse, na época, denominada como "privada" ou "particular", o entendimento seria de uma instituição seletiva, fechada ao público geral.

Nome original com o lema
"Trabalho Instrucção Progresso"
A grafia original "Bibliotheca Publica" (dir.) foi modificada pela reforma de 1943, que aboliu o "th" (originado de étimos gregos) e determinou que todas as proparoxítonas fossem acentuadas (antes não eram). Lembremos que as reformas ortográficas causam modificações nos costumes (e incomodações), mas têm força de lei. O Acordo assinado pelo Presidente Lula em 2009 vinha sendo formulado entre os países lusófonos desde 1990, e no Brasil deverá ter plena vigência em 2017.

Setenta anos depois da antiga reforma, muitos pelotenses conservam o "th" deste nome próprio, como se ele fosse parte do patrimônio histórico, mas acentuam a proparoxítona, seguindo a norma atual, que se impôs plenamente no costume popular. Neste blogue preferimos sempre a forma vigente (nem a arcaica nem a híbrida, ambas fora da realidade e da lei), também usada nos carimbos da Biblioteca Pública Pelotense.

Grafia correta é usada nos carimbos.

Fotos: F. A. Vidal (1), Rádio Pelotense (2)

sábado, 8 de março de 2014

Manchete esfaqueia idioma

Redigir títulos de livros, artigos e notícias é uma arte nada simples. É preciso jogar com o espaço disponível, o poder de síntese, o sentido da verdade, a complexidade dos fatos, a exatidão do texto e a composição de sonoridades.

O Manual de Estilo do Estadão (3ª edição, 1997) traz 60 instruções para redigir títulos, e esses critérios são seguidos pela imprensa nacional. Pelo menos existe a tentativa.

Existem os deslizes involuntários, mas às vezes podemos pensar que também existe uma arte de cometer erros, a julgar por fenômenos como o que vamos analisar. Quantas falhas de redação podem caber em 4 palavras? Vamos comprovar essa arte com ajuda do Manual do Estado de S. Paulo (leia aqui).

O título de uma notícia de hoje em Pelotas (confira a matéria) diz:

Adolescente esfaquea uma jovem


O texto tenta esclarecer:
Uma adolescente esfaqueou outra jovem, também menor de idade, após encontrar o namorado com outra.
Sobre o verbo [esfaquea], informei ao jornal a necessidade de corrigir para esfaqueia [erro 1]. O redator quis enfatizar tanto a violência entre jovens, fato preocupante na atualidade, que tropeçou também na correção verbal. Verbos terminados em EAR exigem um "i" quando a sílaba tônica cai fora da raiz verbal, transformando o "e" em ditongo (induz o leitor desavisado a pensar mal: teria o Acordo abolido o ditongo fechado EI?).

Desenho de Fadri
Mas a verdade é que o texto e seu título deveriam ser reescritos totalmente, tal a má qualidade.

Com o título acima (em azul), o leitor saberá o sexo da vítima mas não o da pessoa atacante. Um homem esfaqueou uma mulher, ou uma mulher atacou outra? [2]

Lendo o corpo da matéria, um brasileiro comum entenderá que a adolescente A viu o namorado dela em companhia da adolescente B e, talvez para vingar uma imaginada traição, atacou esta última a facadas. No entanto, a sentença acima citada não esclarece se o namorado era de A ou de B [3], e ainda introduz uma segunda "outra" (seria C ou a mesma B?). A atacante queria vingar a traição própria ou a da amiga? [4]
    A frase seguinte somente resolve a última dúvida, e acrescenta outra (sobre a orientação sexual de A e B):
    A adolescente estava na moto com um rapaz, quando a atual namorada, encontrou os dois e esfaqueou a jovem nas pernas e no peito.
    Agora sabemos que A queria vingar a si mesma, mas nos perguntamos se a namorada era do rapaz ou da agressora [5]. Hoje em dia, esta dúvida é politicamente correta, mas o leitor comum (sem esta tendência moderna) entenderá que o jornalista usa a premissa heterossexual, e desculpará outras falhas:
    • Verbo no presente: como artifício para dar força à manchete, o Manual indica que normalmente se use o presente do indicativo, mas neste caso o verbo "esfaquear" impacta de tal forma, por si mesmo, que poderia ir no pretérito (esfaqueou). A obsessão pelo tempo presente [6] seria inadmissível no caso da morte de Getúlio (dir.). O tempo passado significa "está passado, não pode repetir-se". "Tenta suicídio" é uma coisa; "suicida-se" é outra.
    • Artigos: o primeiro foi suprimido, prejudicando a informação (um adolescente ou uma adolescente?), e o segundo foi poupado [7], sugerindo a importância da quantidade ("uma jovem" foi esfaqueada, não mais).
    Em 2010, houve um crime parecido na Bahia: um adolescente agrediu uma jovem a facadas e a jornalista feriu o idioma com o mesmo verbo em questão (confira a matéria). Veja opções de títulos para a notícia de Pelotas:

    Adolescente esfaqueia rival
    Menina vingou-se a facadas
    Por namorado, jovem fere outra
    Adolescente foi agredida por outra
    Jovem esfaqueada por namorar

    Um bom título jornalístico deve golpear a curiosidade do leitor em poucas palavras, com a precisão e a elegância de um bisturi. Não deve confundir ou incomodar o leitor, nem perder o foco da informação (neste caso, a violência entre jovens, um problema de dupla gravidade).
    Imagens da web

    terça-feira, 8 de março de 2011

    Diário da Manhã, agora em cores

    O jornal pelotense Diário da Manhã escolheu o dia 8 de março para o início formal de suas edições com todas as páginas em cores (à direita, a capa de hoje). Há algumas semanas, páginas interiores já estavam saindo com fotos coloridas, mesmo com o logo da capa em preto.

    Em 1979, o Diário da Manhã de Passo Fundo (RS) abriu este jornal em Pelotas, como alternativa ao já veterano Diário Popular, fundado em 1890. O primeiro choque foi com a palavra "diário", que na fala costumeira do pelotense passou a ter dois usos, predominando nessa tradição oral o mais antigo (Diário = Diário Popular).

    O segundo golpe do DM foi bem mais efetivo: começou a aparecer segunda-feira — dia em que tradicionalmente os jornais paravam, pelo descanso de domingo —, obrigando assim o Diário Popular a ser publicado sete dias por semana. Entretanto, todos os feriados do ano ambos os jornais ainda respeitam.

    A competição seguiu e o novo diário fechou após uns anos, mas voltou com mais energia e aí está até hoje, ainda com pequena equipe, mas grande mística e aumentando o número de assinantes (especialmente por ser o veículo oficial para publicar editais da Prefeitura).

    Nos últimos vinte anos o Diário Popular (edição de hoje, à esq.) vem modernizando-se: adotou o tamanho tabloide, melhorou a impressão, entrou na internet, adotou Rio Grande como zona editorial, fundou clube de assinantes, eventos paralelos e outros serviços.

    Até o logo sofreu mudança, incluindo o acento agudo na palavra DIARIO (inexistente na época da fundação), que a ortografia de 1943 já mandava acentuar e foi estritamente conservada até os anos 90 (em Pelotas, curiosamente ainda se usa o TH no nome de nossos antigos teatros, contrariando regras básicas do idioma).

    Apesar desta atualização na edição impressa, que hoje comentamos, ainda falta ao Diário da Manhã, para ser um jornal à altura dos tempos atuais e ao nível de Pelotas, ter um espaço interativo com os leitores, especialmente na área cultural, e não só pelas cartas e emails ao diretor, mas também pela internet (por exemplo, blogs dos jornalistas). Hoje a imprensa se limita a registrar o que acontece, até de modo verticalista, segundo os padrões do século XIX. Mesmo a modernização obtida pelo Diário Popular mantém signos de impermeabilidade às críticas e mudanças que a população jovem espera. No século XXI, a comunicação deve seguir a movimentação criativa do povo e incentivar a vida de todos os segmentos cidadãos. Somente os mais flexíveis poderão desenvolver-se nesse ambiente.
    Imagens: F. A. Vidal

    sábado, 5 de março de 2011

    A rebeldia estética do graffiti

    O termo italiano graffiti (traduzível como "rabiscos") aplica-se à escrita em paredes, inclusive a que existia na Antiguidade, e ganhou força nas grandes cidades modernas com o uso da pintura no espaço público para finalidades políticas e de intervenção urbana.

    Para referir-se a este modo de expressão, o idioma inglês usa o termo italiano, enquanto o italiano optou pelo hibridismo inglês graffiti writing, incluindo no mesmo termo a escrita rabiscada e o desenho colorido. Em português, temos um nome para cada um: veja o que a Wikipédia registra sobre o grafite (grafitagem urbana) e a pichação (mais associada a vandalismo).

    Quando se aportuguesou graffiti para "grafite", esta palavra assim ganhou novo significado (além de "mineral de carvão"). Existe a opção de diferenciar entre grafita (substância para escrever) e grafito (escrita em paredes).

    Manoel Soares Magalhães escreveu, em outubro passado, um artigo sobre este tema no Amigos de Pelotas (leia os comentários), diferenciando entre pichação e grafito, e admitindo semelhanças entre ambas formas. Há uma semana, aqui no blogue, iniciou-se uma discussão entre leitores, sobre a nota Entre a arte e o vandalismo. Veja abaixo a crônica de Manoel e siga o debate nos comentários.

    Grafitagem no muro abandonado da rua Tiradentes, esquina Gonçalves Chaves

    Grafite, o grito mudo da arte rebelde

    Muito utilizado no bairro Bronx, em Nova Iorque nos anos sessenta, e na movimentação estudantil francesa, em 1968, o grafite incorporou-se definitivamente ao modus vivendi contemporâneo. Impossível andar-se hoje pelas ruas das médias e grandes cidades sem o contato com essa forma de expressão, que muitas pessoas ainda confundem com pichação.

    A pichação tem por objetivo agredir o patrimônio público, utilizando-se da grafia para isso. O grafite, por outro lado, prescinde deste expediente, preferindo formas e cores inusitadas, interferindo no espaço público com criatividade.

    Quer gostemos ou não, o grafite veio para ficar, oferecendo à realidade perspectivas diferenciadas e ousadas, levando-nos a encarar o espaço urbano com olhos de ver. Negar-se a tal exercício é fechar a porta para o diferente, simplesmente porque o diferente nos inquieta. No diferente está a oportunidade de mudar, escolher novos rumos, horizontes menos preconceituosos.

    O grafite, portanto, interfere na paisagem urbana, influenciando de forma decisiva o comportamento social. Poder-se-ia dizer que é espécie de grito explodindo na garganta do artista em forma de cores e traços ousados, cujo eco reverbera pela cidade, na intenção de arrancar o povo do lugar-comum. Ninguém passa indiferente pelas obras de arte, autênticas instalações cuja intenção é colorir as “zonas mortas” das cidades, entregues ao abandono, servindo, inclusive, de lixões a céu aberto.

    A aceitação a este movimento estético é tão surpreendente, a ponto de haver grafites enfeitando vitrines, servindo igualmente como cenário em desfiles de moda. É a absorção da rebeldia como caminho, incentivando o consumo. Os empresários do ramo deram-se conta de que o grafite é um nicho promissor, proporcionando aos jovens a possibilidade de incorporá-lo sem medo de represálias.

    Ocorre que os grafites não refletem apenas o inconformismo, a insatisfação dos artistas diante do status quo, mas querem, igualmente, manifestar as riquezas do espírito jovem, suas angústias e apreensões, cujos traços exageradamente coloridos – ou num preto-e-branco muitas vezes agressivo, revelam os signos da liberdade de expressão, interpretado erroneamente como a arte da demonização.

    O que anteriormente era visto tão somente nos assépticos ambientes das galerias, hoje se encontra não só nas zonas mortas das cidades, mas, também, na geografia nobre dos grandes centros urbanos, provando a força de uma estética que ainda é profundamente criminalizada. Grafite não é pichação, mas arte da melhor qualidade, que não visa mostrar levianamente as feridas da cidade, mas, sim, cicatrizá-las com criatividade e ousadia.

    Aqui em Pelotas, por exemplo, quem se dispuser a caminhar pela zona do Porto, onde há prédios abandonados – antigos armazéns, engenhos etc., praticamente em ruínas – vai se deparar com centenas de grafites, muitos desses com possibilidade de fazer bonito em bienais de arte, inclusive em São Paulo.

    A miséria e o abandono do lugar modificam-se mercê de uma iconografia que surpreende, extasia e eleva. Em algumas obras há necessidade de parar e refletir, tamanha é a força do simbolismo que encerram, desafiando nossa capacidade de interpretação. O olhar curioso e sem preconceitos acaba encontrando, misturada à profusão de cores e traços irreverentes, a chave para o entendimento da contemporaneidade.

    O que parece esquizofrênico e sem sentido, revela-se, de súbito, capaz de traduzir as sensações do ser humano em toda a sua complexidade. Meio às ruínas daquilo que um dia teve solidez, a fragilidade do grafite impõe-se soberano, refletindo nosso tempo, dizendo-nos que não adianta correr para vencer o relógio.

    A arte revolucionária dos muros pede calma e reflexão. O mutismo, à base de tintas e reboco velho que se esfarela, grita no silêncio das manhãs e no sossego das tardes. Existe para ser ouvido e visto por quem não tem pressa de chegar. Aliás, não tem pressa para nada. Viver é o suficiente. Ou deveria ser.

    Manoel Soares Magalhães


    Veja o documentário No Muro, parte 1 e parte 2, realizado em 2010 por estudantes do 2º semestre de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.
    Imagens: F. A. Vidal

    quarta-feira, 24 de novembro de 2010

    Minuta ou A La Minuta?

    No Brasil se fez costume pedir bifes a cavalo, a pé, à milanesa e... a la minuta? ou à minuta? Ninguém sabe ao certo. Considerando a falta de acordo, até parece que não existe uma forma correta. Há quem acentue (à la minuta), mesmo sem saber o que é uma crase. Em francês existe crase? Essa expressão será, talvez, francesa? Investiguemos este mistério exclusivo do idioma português.

    No nosso Café Aquários, por exemplo, o próprio cardápio-mural (não é qualquer restaurante que tem um cardápio-mural) duvida entre um "á la minuta carne" e um "à la minuta frango" (acima). Segue-se o que os fregueses mandam, e todos dizem "quero uma alaminuta". Vejam só que aí o termo ficou substantivado (com elipse do bife).

    Mas como isso se escreve? Junto, ou separado? Com ou sem acento? À italiana ou à francesa?

    Cada restaurante usa uma forma, dependendo do ouvido, da boa vontade ou dos conhecimentos do idioma. Este é um daqueles casos de pergunta pega-ratão para vestibulares e concursos. É brasileirismo e não está na Wikipédia (ainda). E mesmo que estivesse todos discordariam e apagariam a página.

    Agrava-se o caso quando buscamos o plural (essa é para professores de cursinho): são duas minutas, ou duas a la minutas, ou alaminutas? Será com hífen? E o gênero? Quero "uma minuta", ou "um (bife) alaminuta"? Juntando todas as possibilidades, acharíamos dezenas de formas.

    Um restaurante da Rua Tiradentes (próximo da Álvaro Chaves) pintou com ousadia na fachada o plural: alaminutas (dir.). Portanto, o singular se deduziria: uma "alaminuta", ou um "bife alaminuta". Mas isso seria escrever de ouvido, colocar por escrito o uso oral.

    Resposta do Aurélio

    A palavra minuta já existe no português há alguns séculos. É o feminino latino de minutus. Os dois provêm de minus (menor), que origina muitas outras palavras nossas: menos, minuto, miúdo, minúcia, minúsculo, miuçalha, diminuir, diminuto, esmiuçar. Como substantivo, significa: rascunho, algo feito com rapidez, no minuto.

    Assim, o latim minutus se traduz ao português como: miúdo, diminuído, diminuto. Esse adjetivo denominou, em vários idiomas ocidentais, uma das divisões menores do tempo (virando então substantivo): o minuto (miudinho, pequeninho). Uma coisa breve, feita rapidamente, também se chama "minuta".

    Seguindo o velho Aurélio de 1960 (também o Novo, conhecido como Aurelião, editado em 1975), "à minuta" é a expressão que deve aplicar-se aos pratos de restaurante feitos no momento, na hora do pedido. Assim como encomendamos bifes à milanesa (ao modo milanês), também pediremos filés à minuta (ao modo de uma minuta, de um rascunho, de algo rápido).

    A forma inventada no Brasil "a la minuta" saiu por influência do francês: à la minute (feito no minuto). Para quem não sabe francês, minute é feminino. Aurélio (em 1960) já tentava corrigir essa cópia literal, registrando somente "à minuta", forma não usada pelo povo brasileiro. Ele escreveu, no verbete "minuta 2", que a forma feminina afrancesada seria "absurda", nessa expressão gastronômica. O dicionarista sugeria, assim, que a tradução mais correta seria "ao minuto", ainda mais distante do uso popular, mas não a registrou nem mencionou.

    Apareceram, no caminho, outras versões ilógicas e deselegantes: a variação aglutinada "alaminuta", a italianizada "alla minuta", a afrancesada "à la minuta" e a mais absurda "ala minuta". Portanto, temos duas opções possíveis, com o mesmo significado:
    • ou dizemos em francês: à la minute,
    • ou em português: à minuta.
    Ambas formas se aplicam tanto no plural como no singular: um bife à minuta ou vários bifes à minuta. Quando se tratar do substantivo "minuta", pode aplicar-se o gênero feminino, mesmo que os bifes ou filés estejam subentendidos ("quero uma minuta", ou "uma minuta de filé").

    Se a coisa a ser comida estivesse no feminino, a expressão se manteria a mesma: uma sardinha à minuta, vários linguados à minuta, uma ou duas fatias de presunto à minuta. Foi a omissão desses deliciosos substantivos que nos levou à confusão: eles é que devem ser flexionados - os ingredientes (o filé, a picanha, o frango) - e não o modo de prepará-los.
    Fotos de F. A. Vidal

    segunda-feira, 21 de junho de 2010

    Tudo pára quando eu vejo futebol

    Como tem sido costume em cada Copa do Mundo após o tetracampeonato em 1994, o povo brasileiro detém todas suas atividades – comerciais, profissionais, educacionais, familiares, religiosas, turísticas – e o pensamento da nação pretende ser uma só torcida para obter o hexa.

    Lojas, bancos, escolas, cinemas, museus, consultórios, universidades, tudo pára. Por duas horas se realiza aquele narcisismo absoluto - próprio de um ato amoroso - enaltecido pela música de Roberto Carlos: pára o bairro e a cidade, nessa hora tão feliz, e é tanto o amor que pára até o país (ouça a música).

    Em Pelotas, a Fenadoce adiantou seu período para não perder visitantes, sinalizando sua função lucrativa e o perigo econômico da Copa. Há quatro anos, a Feira do Doce havia coincidido com os jogos na Alemanha, mas terminou impondo-se a loucura mundial: o povo preferia torcer em casa, não nos telões da Feira.

    O primeiro jogo da seleção brasileira na África do Sul foi nesta terça (15), às 15h30min. Como se esperava, o comércio fechou e as ruas esvaziaram. Antigamente se dizia de algo arrasador, que era "de fechar o comércio", como aqueles bandidos arruaceiros de faroeste. Mas aqui nada havia de sensacional ou extraordinário; somente mais um jogo da seleção. A vítima desse perigo arrasador seria o próprio comércio.

    Fui ver como as lojas anunciavam seu forçoso ócio, a negação do negócio. A mais expressiva foi uma livraria da Marechal Floriano (acima), que tapou sua porta com uma grande bandeira brasileira. A razão do fechamento comercial foi patriótica, algo assim como a defesa da pátria. Mas se no Brasil houvesse respeito pelo símbolo nacional, pela ordem e pelo progresso, o futebol não seria tão poderoso.

    No Calçadão, a maioria das lojas fechou pelo resto do dia, enquanto a Renner e a Pompeia ficaram abertas e sem clientes. O museu mais importante de Pelotas, pertencente à UFPel, informou turno único das 8h às 14h (esq.), apesar de que o horário do Sistema Nacional de Museus inclui atendimento até em domingos.
    O Banco do Brasil também planejou e informou abertamente seu horário especial, das 9h às 14h. Nos Correios, o atendimento foi anunciado até as 15h, e as agências fecharam.
    Era um dia normal de semana, não havia motivo fúnebre, nem sequer de celebração alguma - somente havia que torcer.
    Talvez respeitando o valor supremo da saúde, várias farmácias não fecharam e, cheias de funcionários verde-amarelos, colocaram televisores perto da calçada, para que os transeuntes também pudessem torcer. A maioria dos ambulantes da Floriano sumiu do mapa, restando dois com uma TV ligada. Nesta imagem, um grupo da farmácia (comércio estabelecido) vê o jogo num televisor, enquanto camelôs veem o futebol em outro (dir.). Tolerância e indiferença mútua, como ocorre no dia-a-dia.
    Alguns locais e serviços reabriram após ver a partida dentro de seus locais de trabalho, como uma lotérica da Quinze de Novembro que afixou o cartaz que orientava possíveis (?) interessados: "reabriremos às 17:30" (esq.).
    A livraria defronte (dir.) simplesmente fechou, deixando à vista o cartaz de seus horários habituais, agora descumpridos (ninguém o leria e por isso mesmo ninguém se veria desorientado).
    A obsessão tem servido para fins diversos, como fugir do trabalho, faltar ao dentista, passear o cachorro (abaixo, a senhora com a camisa do Romário) e outras atividades igualmente solitárias. Cada um realiza seus fins pessoais, encoberto pelo egoísmo coletivo: aí está uma pequena definição de nossa tendência à corrupção. Um psicólogo diria: desaparição do superego construtivo, predomínio do prazer amoral.
    Nem o Brasil tinha este delírio coletivo, nem se sabe de países que parem todas suas atividades produtivas para não perder um jogo. Mas também nunca houve um país pentacampeão desejando ser hexa... como se precisasse do infantil sonho de ser "o melhor do mundo".
    Certo, é preferível enlouquecer pelo circo esportivo do que pela guerra contra o terrorismo (EUA), e por isso seguimos sendo o paraíso da festa, da gazeta e do oportunismo.
    Devo acrescentar que neste texto acentuei o verbo "pára" - ao contrário do que manda o novo acordo ortográfico - justamente para evitar as confusões geradas pela falta do signo.
    Fotos de F. A. Vidal

    Peixes e pescados

    A peixaria Estrela do Mar funciona no Mercado Público há muitos anos, pelo lado da Andrade Neves, e chama a atenção pela presença de um aquário com peixes vivos (dir.).

    Em geral, um aquário serve para atrair e manter a atenção dos clientes, do mesmo modo que o mico dos realejos e, modernamente, os televisores na fila do banco. Costuma haver aquários em lojas de mascotes e animais em geral, como a Fauna&Flora (veja post).

    Mas numa peixaria o mesmo elemento evoca outras associações, pois o aquário contém animais parecidos aos que se vendem (mortos) para consumo. Seria como instalar um açougue dentro de uma feira pecuária. Em certos portos onde há pescadores, os "frutos do mar" são escolhidos para consumo ali mesmo.

    O contraste traz à consciência que somos comedores de animais, e isso não nos parece muito chocante. Uma parte nossa gosta de ver e tocar os bichos se movendo, vivos, e outra gosta de abocanhá-los (amor e morte; espírito e instinto).

    A presença de peixes vivos numa peixaria fica como um chamariz duplo ao inconsciente humano, que - além de ver filmes sobre bichos - gostaria de ir caçá-los para alimentar-se deles. A força do mesmo fator se encontra na peixaria Aquarius (esq.), hoje fechada, defronte à Estrela do Mar.

    Questões linguísticas

    O caso também faz lembrar que em nosso idioma usamos a palavra "peixe" (do latim piscis) indiferentemente para o animal vivo em seu meio, e o mesmo que foi caçado para consumo. Em espanhol (pez e pescado, respectivamente), o mesmo bicho muda de nome, segundo o momento de observação. Mas em português é peixe antes e peixe depois.

    Ainda em português, temos o exemplo de "touro" e "boi": é o mesmo indivíduo, antes e depois da castração.

    Como contei em outra nota, piscina e aquário apresentam uma curiosa troca histórica (leia o post)
    • uma piscina era um viveiro de peixes que ficou como simples depósito de água (para humanos);
    • um aquário era um provedor ou depósito de água (para humanos) e ficou como viveiro de peixes.

    Nesta mistureba verbal, podemos acrescentar a peixaria: depósito de ex-peixes. Seu nome mais exato seria pescadaria (consta no Aurélio), venda de pescados.
    Fotos de F. A. Vidal

    quinta-feira, 10 de junho de 2010

    Latino-América Trio na Casa do Capitão

    Nesta sexta-feira (11), o Instituto João Simões Lopes Neto retoma o projeto Música na Casa do Capitão, iniciado em 2009. Uma vez por mês, a casa recebe artistas locais, novos ou consagrados, geralmente com pouca visibilidade nos meios de comunicação, mas sempre de boa qualidade.

    Nesta ocasião, os convidados são o Latino-América Trio (esq.), constituído pelos violonistas José Daniel Telles dos Santos e Alexandre Simon e o percussionista Rodrigo Baraka. Na foto: José Daniel à esquerda, Rodrigo no meio, Alexandre à direita.

    O grupo surgiu em 2008 como um duo de violões, no Conservatório de Música de Pelotas; apesar disso, se define como rio-grandino. Desde então, seus integrantes - que não são pelotenses - têm realizado apresentações em Rio Grande, Santa Maria, São Paulo e Montevidéu. José Daniel é professor e produtor musical, e Alexandre compõe música camerística, especialmente para violão.

    Integrando suas diversas raízes pessoais, mais seus estudos e pesquisas nas respectivas áreas, os instrumentistas aproximam música erudita e folclórica, brasileira e hispânica. Melodias de Pixinguinha ou Piazzola reúnem-se com ritmos populares latino-americanos ou com trechos de autores eruditos. Veja um exemplo no vídeo abaixo, gravado em Santa Maria (mais informações no blogue Latino-América Trio).

    Em espanhol, o nome próprio Latinoamérica usa-se com o adjetivo latinoamericano (sem hífen). O mesmo ocorre com Sudamérica e Norteamérica. No entanto, em português somente temos expressões compostas como "América Latina" e "América do Sul", de onde saem os adjetivos "latino-americano" e "sul-americano" (sempre com hífen). Latino-América vem a ser uma talentosa forma de integração em nosso continente ainda tão fragmentado.

    segunda-feira, 10 de maio de 2010

    Camelôs bem tutelados

    Há cerca de duas décadas, a proliferação de vendedores ambulantes no centro de Pelotas levou à necessidade de um local onde eles tivessem bancas fixas, ou seja, deixassem de ser "ambulantes" (a palavra sugere caminhada, deslocamento).

    Desde antes da construção, o lugar ficou com o apelido pejorativo de "camelódromo", depois suavizado para "shopping popular". Na cultura hispânica, conhecem-se como mercados persas, pelo costume árabe de vender em feiras. No Brasil, o mercador de miudezas ficou como camelot, de igual significado no francês.

    O elemento grego dromo significa "corrida ou corredor" (substantivos). Daí saíram: autódromo e aeródromo, o neologismo brasileiro sambódromo, o termo médico dromomania (correr compulsivo) e o dromedário (camelo corredor). O elemento perdeu o conteúdo de deslocamento quando inventamos os fumódromos (espaços para fumar, sem movimento). Outra ideia brasileira, os camelódromos, acrescentaram uma ambiguidade: podem ser um corredor para camelos ou para camelôs. Ambos teriam um pé no Médio Oriente.

    No aspecto legal, ninguém se importou com os camelôs serem comerciantes informais, que não pagam impostos normalmente, como o fazem os empresários estabelecidos. O povo denomina os produtos baratos como "piratas" (falsificados ou "fora-da-lei"), denunciando o lado negativo da atividade.

    O primeiro camelódromo pelotense ia ser vertical (numa espécie de edifício, com vários pisos sem acabamento), mas a construção não deu certo. A opção foi um quarteirão baldio, vizinho à antiga Praça dos Enforcados, onde há um século passava um braço do Arroio Santa Bárbara (ainda se vê a ponte da Marechal Floriano com Santos Dumont).

    Do outro lado da Floriano, situa-se a Receita Federal, onde as leis se cumprem com rigor, na área comercial e financeira. A impressão, no entanto, é que a União patrocina o comércio marginal. Em nosso país, fingimos cumprir a legalidade, mas legalizamos a improvisação e toleramos a corrupção. É o nosso Brasil dividido em dois.

    Hoje, nosso respeitado camelódromo é visitado por pobres e ricos que buscam um produto barato e descartável, enquanto dezenas de outros ambulantes já se instalaram nas calçadas. Pelos corredores de nosso "mercado popular", quem fica fixo são os ex-ambulantes e quem corre são os compradores.
    Foto de F. A. Vidal

    quarta-feira, 10 de março de 2010

    Palavras sobre Palavras: consultório etimológico

    Esta segunda-feira (8), comecei a escrever uma coluna no blogue da Escola Santa Mônica, o Alquimia das Palavras. A professora amiga Teresinha Brandão me convidou a colaborar e batizamos a seção: Palavras sobre Palavras, aludindo à metalinguagem e ao estudo dos étimos. Parece ser o único espaço pelotense dedicado à etimologia, incluindo também algo de paremiologia (origem dos provérbios e expressões).

    De contrabando com as informações históricas e gramaticais, pretendo introduzir análises sobre os costumes brasileiros e comportamento em geral. O primeiro artigo compara os sinônimos trombadinha (assaltante menor de idade) e pivete (menor de idade assaltante), que no Brasil denunciam implicitamente nossa permissividade com o delito e a corrupção, desde tenras idades.
    A etimologia costuma interessar mais a especialistas, mas muitos leigos gostam de saber de onde vêm as palavras e não encontram informação confiável. Minha base será uma dezena de dicionários, vários deles não disponíveis na internet. A intenção é tirar a aparência solene da gramática, respeitando os estudiosos de um assunto em que, parecido ao futebol e a política, muitos dão palpite ou fazem piadas. Inclusive há quem, de ouvido, ache que "étimo" não teria o "i" após o "t" (como em "ritmo"). Mas o radical é etymon, grego que passou pelo latim.

    Alguém sabe por que os cachorros-quentes são chamados de "panchos" no Uruguai e países vizinhos?

    A salsicha veio da Alemanha com o nome de Frankfurter Würstchen (veja explicação). Em vez de ser traduzida para "salsicha de Frankfurt", a expressão foi simplificada para Frankfurter e depois para Frank e Pancho, que em espanhol é o apelido de Francisco.

    Esta explicação é algo que não achei nos dicionários, mas deduzi pela lógica e pelos dados disponíveis (primeiramente publicado em setembro de 2009 no Amigos de Pelotas).
    Imagem: Wikipedia

    domingo, 27 de dezembro de 2009

    Peixes morrem, por ações e omissões dos pelotenses

    Domingo passado (20), uma leitora visitava a Praça Osório e observou o abandono e sujeira em que se encontrava o lago, com lixo flutuando e peixes mortos. Tomou fotos (dir. e abaixo) e as enviou a este blogue e ao sítio da RBS Pelotas Mais, com um texto de desabafo.

    A quantidade de lixo espalhado dentro do lago e o esforço daqueles seres para conseguirem sobreviver era algo inexplicável, inconcebível na verdade.
    De que adianta embelezar uma praça, colocar ali para viver seres que necessitam o básico em termos de cuidados e depois não dar conta do mínimo que deveria ser feito: prestar a manutenção necessária para a limpeza e consequente sobrevivência dos animais que ali habitam?
    Foi deprimente visualizar aquilo e o pior foi não ter para quem pedir ajuda. Resta então tornar pública a minha indignação com quem tem responsabilidade e deveria zelar pela conservação da limpeza e vida do lago da praça Coronel Pedro Osório.
    E, sinceramente, se for para deixar os animais agonizando naquela porquice (perdoem o termo, mas representa o verdadeiro estado do local), então é melhor secar imediatamente o lago e acabar com o sofrimento de quem não tem culpa do ser humano ser tão pouco inteligente quando se trata de responsabilidade (veja a matéria completa).

    A professora Aline Neuschrank, autora da denúncia, não a enviou a outros meios, mas a notícia do Pelotas Mais foi tomada pela TV e teve outras repercussões.
    O Diário Popular publicou o fato na contracapa de terça (22) e no portal da internet (leia). Nos dias seguintes, o Amigos de Pelotas postou em vários tons: crítico, trágico, sério e irônico.
    Terça (22) às 16h alguns peixes mortos haviam sido retirados e - quem sabe para quê - deixados em exposição (dir.).
    O lago seguia com a água turva e escura, mesmo sem lixo. Tão "irrespirável" devia estar, que alguns dos peixes sobreviventes tentavam aproximar-se a uma fonte de água limpa (abaixo à esq.).
    Uma tartaruga só podia ser vista se estivesse perto da superfície; na imagem (última à esq.), ela empurra com a cabeça um peixe morto, como tentando reanimá-lo.
    Naquela tarde, a Brigada Militar veio pesquisar o possível crime ambiental (abaixo à dir.), configurado há meses mas somente agora evidenciado.
    Mesmo sem intenção de dano, pode haver muitas quotas de responsabilidade, por ações ou omissões. Será difícil identificá-las, pois o público que suja a praça é anônimo, enquanto os funcionários municipais se encontram fragmentados em secretarias sem coordenação: Qualidade Ambiental, Serviços Urbanos, Turismo, Educação e Cultura. Todas poderiam contribuir para prevenir e solucionar problemas como este, mas sua desunião é causadora de dores de cabeça na população.

    Enquanto eu tomava fotos, aproximou-se uma senhora de aparência muito humilde, com um só dente e um toco de cigarro aceso na boca. Aparentando consciência da situação, ela me comentou:
    ― As crianças dão pipoca aos peixes e eles morrem afogados.
    A senhora jogou a bagana no chão (não no lago, ainda bem) e afastou-se, preocupada com a inconsciência dos outros.
    Outros transeuntes jogam lixo no chão (mau costume que ninguém se atreve a censurar) e atribuem ao vento ou às pombas sujarem a praça. Sacos plásticos e folhas das árvores simplesmente chegam aonde não devem; copos descartáveis e paus também?
    Os funcionários públicos serão responsabilizados por não limparem a piscina, ou por deixarem mais de mil animais num espaço tão reduzido, mas eles dirão que somente seguem ordens. Ninguém parece pensar em prevenir erros ou em cuidar dos animais ou do ambiente natural. Mas todos gostam de ver os peixinhos vermelhos e as tartarugas. Quando aqui havia jacarés, era uma sensação.
    Quarta (23) o Diário Popular informou (leia) sobre as medidas que seriam tomadas: mudança dos peixes para o lago da Rodoviária, escovação do fundo da piscina e, futuramente, adoção do lago para cuidar de modo adequado da alimentação dos animais. Com sorte, isso ocorrerá em janeiro próximo.
    Hoje (27) ao meio-dia a água parecia menos suja (dir.) e os bichos, mais tranquilos. Se não houvesse uma manifestação popular, o que a prefeitura teria feito pela situação deles?
    As palavras piscina e aquário apresentam uma curiosa troca de significados ao longo do tempo.
    • No latim original, uma piscina era um viveiro de peixes, mais para criação do que para exposição ― nosso popular "aquário".
    • Por sua vez, um aquário se referia a algo puramente aquático, como um chafariz ou um provedor de água (daí o signo zodiacal) ― o que hoje se chama "piscina" (depósito de água para pessoas ou para peixes).
    Fotos de Aline Neuschrank (1-2) e F. A. Vidal (3-7)

    sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

    Avisos da paróquia (humor)

    Em homenagem ao feriado religioso, transcrevo uma antologia de avisos fixados em portas de igrejas, onde predomina a boa vontade sobre a capacidade de redação. São todos autoexplicativos e - dizem - tirados da vida real (mas não de Pelotas).

    Na sexta-feira, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare. Toda a comunidade está convidada a participar nesta tragédia.

    Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam os seus maridos!

    Assunto do sermão de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto do sermão de amanhã: Em busca de Jesus.

    O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

    O torneio de basquete das paróquias continua com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

    O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui a comida.

    O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

    Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados.


    Para todos os que tenham filhos e não saibam, temos na paróquia uma área especial para crianças.

    Quinta-feira que vem, haverá uma reunião do grupo de mães. Todas as senhoras que desejem formar parte das mães, devem dirigir-se ao escritório do pároco.

    Interessados em participar do grupo de planejamento familiar, entrem pela porta de trás.
    Foto de F. A. Vidal (2)

    sábado, 31 de outubro de 2009

    Pôr do sol, agora sem hífen

    Em artigo que comentei há uns dias (leia) apareceu a expressão pôr do sol, cuja ortografia pode causar dúvidas, especialmente neste período de adaptação (2009-2013) ao novo Acordo Ortográfico.

    Antes

    Na verdade, esse é dos casos mais fáceis e menos polêmicos de palavras compostas modificadas pelo Acordo. Grafava-se "pôr-do-sol", com dois hifens e circunflexo em "pôr". Curiosamente, o nascer do sol não requeria hifenização.

    A anterior reforma, da década de 1970, conservou o acento em "pôr", monossílabo tônico, que serve para diferenciar da preposição "por". Na época, os professores de Português brincavam: era preciso, sim, pôr o acento. O circunflexo é tão útil que distingue, por exemplo: "vamos por comida" e "vamos pôr comida" - no primeiro caso, a frase indica fome; no segundo, satisfação.

    Hoje

    O novo Acordo ainda mantém o circunflexo em pôr. Mas retira os hifens. O composto "pôr-do-sol" ficou simplificado em três palavras, igualando-se ao "nascer do sol". Se a natureza não diferencia a aurora do crepúsculo - nem nós falamos com hifens - para que fazê-lo no papel?

    Às vezes sem lógica, o Acordo conserva hifens que poderia abolir (como em pé-de-meia), mas simplifica palavras compostas, de dois modos: aglutinando-as (como em paraquedas) ou fragmentando-as (como em pôr do sol).

    Ao publicar o artigo comentado, o blogue Amigos de Pelotas usou a forma nova, mas o Diário Popular criou uma peregrina versão: "pôr-do-Sol" - que, além de ignorar este Acordo internacional, inventa uma figura não contemplada na língua portuguesa: o uso de maiúscula no meio de um substantivo comum (sobre maiúsculas no meio de um nome próprio veja o post Sul-Rio-Grandense).
    Foto: Eduardo Amorim/Flickr
    Canal São Gonçalo serpenteia em busca do pôr do sol.

    terça-feira, 27 de outubro de 2009

    "Sítio da internet", em vez de website

    Após ver a palavra "sítio" - em vez do internético site - num recente artigo (leia) do vereador Eduardo Leite, que escreve no Amigos de Pelotas desde 31 de julho, pareceu-me correto seguir esse costume em prol do nosso idioma, mesmo que ninguém mais o faça.

    Ao começar este blogue, preferi aportuguesar a palavra blog, na falta de um vocábulo adequado para esse conceito em nosso idioma. Afinal, club virou clube, ballet virou balê, clip já é clipe e blog terá que ser blogue. O Primeiro Mundo inventa coisas e usa seus termos, e nós copiamos o costume e o nome. Até hoje nos valemos do latim no Direito porque foi a Roma Antiga que impôs certos usos e princípios.

    Mas se já temos a palavra em português por que usar a versão inglesa? Daqui por diante, os websites serão chamados sítios ou páginas da rede.

    Mantenho a palavra internet, que é uma condensação de international network, mas web ficará como rede.
    Imagem da rede

    terça-feira, 20 de outubro de 2009

    Centenário da Catedral do Redentor

    A Catedral Anglicana do Redentor - conhecida popularmente como "igreja cabeluda", pela vegetação que cobre sua fachada - está celebrando o centenário, pois o prédio foi inaugurado em 17 de outubro de 1909.

    O templo é considerado um dos cartões postais de Pelotas, e nele realiza-se há 13 anos o Festival das Flores, por coincidência no mês desse aniversário. Este ano, prolongou-se do sábado 17 até terça 20. Veja a notícia no blogue da Diocese Anglicana.

    A organização gaúcha Defender, que trabalha em prol da conservação do patrimônio arquitetônico, publicou o seguinte:

    A Catedral Anglicana do Redentor, de estilo gótico, conquistou a admiração dos habitantes e de quem visita Pelotas. Conforme o livro ‘Catedral do Redentor’, de Oswaldo Kickhofel, no dia 28 de março de 1908 foi escriturada a compra do terreno de Francisco de Paula Guerreiro. O pároco e engenheiro civil John Gaw Meem fez o projeto arquitetônico. O lançamento da pedra fundamental ocorreu em 21 de outubro de 1908, na programação do 10º Concílio, realizado em Rio Grande, e a inauguração, em 1909, no 11º Concílio, já na Paróquia do Redentor (leia a notícia).

    Esta é a descrição que se lê no site da Prefeitura (leia):

    A Catedral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é conhecida como a “Igreja Cabeluda”, por sua característica de ser coberta por uma hera que muda de cor, conforme as estações do ano.

    Na Primavera, a Igreja adquire tom verde claro muito bonito; no Verão, perde as folhas e aparecem somente as raízes, em tom cinza; em maio, muda para o rosa-avermelhado, partindo para o grená e, a seguir, o marrom
    .

    Construída em estilo Gótico-Céltico, abriu suas portas ao público em 1892. Sua torre possui 27 metros de altura. Os vitrais vieram de Nova Iorque, apresentando motivos com símbolos e textos bíblicos.

    Observação idiomática:

    Ainda se lê a identificação pela Rua General Teles: Exedra da Egreja do Redemptor. Há cem anos, essa era a grafia para "Êxedra da Igreja do Redentor" (uma êxedra é um pórtico ou espaço de entrada).
    A forma "igreja" (do grego ekklesia = assembleia) impôs-se no início do século XX. No entanto, é uma deformação fonética devida à vulgarização, enquanto "eclesial" e "eclesiástico" respeitaram a pronúncia de origem.
    Em 1988, a paróquia foi elevada a Diocese Anglicana de Pelotas e a "igreja" passou a ser a Catedral do Redentor.
    Fotos de F. A. Vidal

    terça-feira, 6 de outubro de 2009

    Banda do Pelotense ganha instrumentos musicais

    O Instituto Federal Sul-Rio-Grandense doou ontem (5) ao Colégio Municipal Pelotense 22 instrumentos e 10 uniformes de sua antiga banda musical, a través do ex-aluno Antônio Carlos Porto Silveira (veja a notícia).

    Tanto a velha Escola Técnica Federal de Pelotas como o Colégio Pelotense tiveram suas bandas - que orgulhavam a cidade - e as viram desativar-se. Em 2003, a do Pelotense voltou a sair às ruas, e com esta generosa doação, uma de várias desde então, ela se aproxima à meta de 100 integrantes. Até agora o desempenho era basicamente com percussão e instrumentos de sopro.

    De acordo a lei federal, o antigo CEFET-RS originou em dezembro de 2008 o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense, com reitoria em Pelotas e sedes em outras 6 cidades gaúchas. A sigla IFSul ganhou a pronúncia popular ife-sul (mais simples que iéfe-sul), mas a grafia oficial ainda infringe a norma do idioma: em nomes próprios, mesmo com palavras compostas, devem-se usar todas as iniciais maiúsculas (leia).
    Foto de Paulo Rossi (DP)

    segunda-feira, 31 de agosto de 2009

    Escola de "Design" em "redesenho"

    O prédio antigo da Escola de Belas Artes de Pelotas, batizado com o nome de sua benfeitora Carmen Trápaga Simões, mostrava esta sexta-feira (28) uma cara nova, já quase totalmente disposta a uma nova fase de funcionamento como sede universitária. Há dois meses, as obras estavam em andamento (veja o post).

    A EBA foi fundada em 1949 e esteve anos em busca de uma sede permanente. Em 1960 a mudança estava pronta, para a antiga Escola de Agronomia, com apoio do Prefeito João Carlos Gastal, mas o Ministério da Agricultura impediu a ocupação, por ser um prédio federal (sendo que a Escola era particular). Paradoxalmente, a Escola passou a ser federal em 1969 (tomando o nome de Instituto de Artes) mas aquela sede, atrás da Prefeitura, já havia sido usada para outros fins.

    Finalmente, em 1963 dona Carmen doa sua própria casa para este fim (herança da família Trápaga) e em 1967 a nova sede adota seu nome, passando anos depois a ser parte do patrimônio universitário (federal). A recuperação desta casa coincide com os 40 anos da Universidade e os 60 anos da Escola (veja um post no Amigos de Pelotas).

    A placa na fachada (dir.) confirma o anunciado pelo reitor, no sentido de retomar o nome da Escola, ainda que as estruturas universitárias tenham mudado.

    O barbarismo linguístico

    Hoje a unidade da UFPel tem a denominação ultramoderna de Instituto de Artes e Design. Esta expressão híbrida é sintoma de como o inglês penetra nas culturas nacionais, especialmente onde o povo desconhece seu próprio idioma. O espanhol conserva diseño para referir-se aos dois conceitos, sem necessidade do estrangeirismo.

    Para distinguir-se do simplório e antiquado "desenho", instaurou-se o "design". Até em Portugal se nota o fenômeno, incorporado pelo moderno IADE (Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing).

    Ao mesmo tempo, o site do I.A.D. de Pelotas não se encontra em reformulação ou em redesenho, mas em redesign.

    A pronúncia híbrida

    Em inglês a pronúncia é di-záin, mas a fala gaúcha tem sua particularidade, resultando esta fantasia fonética: dê-záin.

    E como fica o redesign? Em Pelotas e arredores: rê-dê-záin, mas o certo seria ri-di-záin (veja).

    A língua inglesa também copia do latim, como nós do inglês, mas em nosso autodesconhecimento engolimos tudo o que vem do estrangeiro: palavra, significado e pronúncia.

    Teste, copiado do inglês test, por sua vez foi tomado do latim teste, que significa "prova".
    Mídia, copiado do inglês media, é puro latim (plural de medium, "meio").
    Site, sinônimo de nosso "sítio", que se apoia no latim situ.
    Premium, apelido comercial que nos chega com pronúncia inglesa (prí-miam), mais elegante que "Prêmio".
    Em cada caso, a nova palavra já ganhou seu espaço e passou a ter novo significado.

    O premium de nossa macaquice fica com o programa computacional Windows XP, que rejeita toda tradução, e não pode ser assimilado por quem não sabe inglês, mesmo com boa vontade. O produto comercial foi batizado com duas letras misteriosas para nós (XP, écs-pí) para relacioná-lo com uma nova experience (écs-pírians), a Experiência Windows, ou Sensação das Janelas.

    Mas o brasileiro somente pode dizer xis-pê. Até porque confundimos experiência (sentimento) com experimento (ensaio). Esses produtos comerciais são de curta vida, mas o fenômeno da imitação sem razão seguirá vigente, enquanto não fizermos o redesign de nossa self experience.
    Imagens: F. A. Vidal (1-2)

    terça-feira, 18 de agosto de 2009

    Quem é "infantil"

    Anuncia-se, no campus I da UCPel, o 5º Encontro Regional de Educação Infantil, a ser realizado de 24 a 26 de agosto.

    O cartaz preside a solidão do recinto (esq.; ontem às 19h), pois a universidade se encontra em férias forçadas - com a suspensão de todas as aulas e aglomerações em ambientes fechados, para prevenir a gripe que ainda não se instalou em Pelotas. A medida vale até sábado 22 de agosto inclusive (veja a resolução da reitoria, do dia 14).

    Se não há quem veja este anúncio, virá alguém ao encontro? E, se a gripe impedir as duas coisas, a universidade abrirá o auditório?

    O problema linguístico
    Além desse paradoxo administrativo, percebi um detalhe estranho na denominação do Encontro:



    • o título mais destacado diz esta barbaridade:
      Encontro Regional de Educadores infantil (dir.),

    • enquanto o título menor (quase invisível), na camiseta do menino, diz corretamente:
      Encontro Regional de Educadores Infantis (abaixo).
    Ante o deslize, somente nos resta refletir sobre as possíveis motivações para a incongruência. Como a forma "educadores infantis" oferece dúvidas ao ouvido, houve a fuga para "encontro regional...infantil" (pensando bem, não melhora em nada).

    A confusão nasce com o termo "Educação Infantil", que ambiguamente pode significar "educação de crianças" (feita por crianças, ou do modo das crianças) ou "educação para crianças" (feita por adultos). Em português, ambas as educações são "infantis". Como o primeiro sentido teoricamente não é admissível, tem-se o segundo como a única possibilidade real.

    Na Educação Artística, alguns professores preferem dizer "Arte-Educação" (expressão copiada do inglês) para evitar a ambiguidade do português. Mas na prática não é preciso nem possível fugir dessas duplicidades, pois o nosso idioma está cheio delas.

    Para referir-nos aos profissionais da Educação Infantil, o ouvido hesita de novo: está certo "Educadores Infantis" (serão adultos infantilizados?) ou deveríamos dizer "Infanto-Educadores"?

    A lógica é a mesma da expressão original: se a educação infantil é para crianças, os educadores infantis são educadores para crianças.

    A dúvida que ainda paira no ar - como o cartaz pendurado - é se o Encontro será cancelado pela preocupada reitoria da UCPel, que se reúne novamente amanhã (20), para decidir se o reinício das aulas é adiado de novo ou não. Se houver mais férias, o Encontro não ocorrerá. Se as atividades forem autorizadas, poucos virão, pelo temor já espalhado pelas próprias autoridades.
    Fotos de F. A. Vidal

    quarta-feira, 8 de julho de 2009

    Trezentas onças para a cultura de Pelotas

    Trezentas Onças (clique para ler) é um conto de João Simões Lopes Neto, publicado em 1912, no seu livro "Contos Gauchescos". No relato, o personagem perde um saco de moedas de ouro de seu patrão e fala de seu desespero por encontrá-lo (leia uma análise do livro.

    Em 2005, o Instituto João Simões Lopes Neto estabeleceu o Prêmio Trezentas Onças, para destacar o trabalho de quem divulga o nome e a obra de Simões, inclusive de quem colabora na recuperação da Casa do escritor. O troféu é uma moeda, reproduzida 299 vezes a partir de uma onça verdadeira, que serviu de modelo.

    O projeto consiste em entregar 3 onças cada vez, em premiações anuais. Assim, ao fim de um século, no ano 2106, com 300 colaboradores identificados, a guaiaca estará cheia de valores, e Simões Lopes Neto será um autor conhecido por todo o mundo.

    O primeiro premiado, Bernardo de Souza, recebeu o modelo original, em 2006. O ex-prefeito era deputado estadual quando movimentou a criação do Instituto como uma entidade de interesse público. Ele foi o que primeiro e mais acreditou no futuro desta Casa, motivação que se transmitiu a muitas pessoas mais "realistas". Sabe-se que hoje os pelotenses nem sempre são muito otimistas quando se trata de progresso cultural ou de valorização histórica; nosso patrimônio se conserva com ajudas externas.

    Como a condecoração inicial foi unitária, rompeu-se a simetria do número 3. Portanto, uma das seguintes premiações teria que destacar somente dois nomes. Pensou-se que fosse a seguinte, mas até hoje elas continuam o mesmo ritmo ternário. Quem sabe, nestes 97 anos se decida adiantar o fim do prêmio para 2105, pois nesse momento se cumprirão 240 anos do Capitão (nascido em 1865).

    Em 2007 homenagearam-se três simonianos: Luiz Fernando Cirne Lima (veja biografia), Beatriz Araújo e Mozart Victor Russomano.

    Em 2008, foi a vez do artista e pesquisador Mário Mattos (pintor da aquarela à direita), o escritor Flávio Loureiro Chaves e o advogado Paulo Charqueiro (por uma oportuna ação judicial, ele salvou a casa de Simões de ser demolida, quando tinha sido comprada por Theo Bonow e este decidira fazer ali um condomínio).


    Os escolhidos para as três onças de 2009 foram: a ex-presidente do Instituto, professora Paula Schild Mascarenhas (Pelotas, 1970), o jornalista e político Antônio Hohlfeldt (Porto Alegre, 1948) e o escritor Aldyr Garcia Schlee (Jaguarão, 1934). Cada um deles já realizou importantes trabalhos de difusão da obra de Simões Lopes Neto.

    A cerimônia se realizou no auditório Carlos Reverbel, na sexta 3 de julho, sob a coordenação do atual presidente, jornalista Henrique Pires. Os premiados agradeceram com emotivas palavras, e confraternizaram com amigos e familiares.

    O que na Casa chamam "maldição de Simões às avessas" é um círculo de realizações bem-sucedidas (como este projeto e todas as outras atividades), ao contrário dos vários fracassos empresariais do comerciante e do escritor, não reconhecido em vida.

    Paula estava com sua mãe Maria Helena e os irmãos Luiz Octávio e Fernanda (à esquerda).

    Schlee (dir.) veio com a esposa Marlene, os filhos Aldyr e Sylvia, e as netas Helena e Ana Carolina (no colo). Na foto não apareceu Aldyr Filho.

    Hohlfeldt veio de Porto Alegre, sem familiares (abaixo, com Henrique Pires).

    Sobre a palavra "simoniano", é preciso anotar que os devotos pesquisadores de Simões a grafam com "e" em vez de "i" como vogal de ligação, divorciando-se do acostumado na língua portuguesa. Dizem eles que pretendem evitar a associação com a palavra "simonia", de sentido pejorativo, derivada do nome Simão (mas para isso já existe "simoníaco"). Outra razão, não tão rebuscada, é que Simões já tem um "e", que poderia manter-se no adjetivo.

    Em qualquer caso, aí está outra causa possível dos simonianos: instaurar no dicionário a palavra "simoneano".
    Fotos de F. A. Vidal (4-7), IJSLN (1), AL-RS (2) e UCPel (3).