Mostrando postagens com marcador Inspirações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inspirações. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Para reiniciar o caminho

E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido?
E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente?
E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente?
E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos?

"À mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Fernando Teixeira de Andrade
(Confira texto completo)
Foto: Pelotas Memória 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A paixão aumenta a esperança e a fidelidade

"My God" é uma das músicas da comédia Mudança de Hábito (1992). Trocando somente uma palavra da letra original de William "Smokey" Robinson (My Guy), a canção de amor que fez sucesso em 1964 na voz de Mary Wells (veja aqui) ganhou uma segunda leitura: como um hino de louvor a um Deus íntimo, pessoal e amável.

Quem ama não quer nem consegue ficar longe do amado, e o desejo vai gerando desejo. A ideia de "grudar-se em Deus" foi lançada pelo apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos (8, 38-39). Que saibamos apegar-nos à felicidade e desgrudar-nos das mágoas.


Nothing you could say could tear me away from my God.
Nothing you could do, 'cause I'm stuck like glue to my God.
I'm sticking to my God like a stamp to a letter,
Like birds of a feather we stick together.
I'm tellin' you from the start, I can't be torn apart from my God.

Nothing you could do could make me untrue to my God
Nothing you could buy could make me tell a lie to my God
I gave my God my word of honour to be faithful, and I'm gonna.
You best be believing I won't be deceiving my God.

As a matter of opinion I think he's tops
My opinion is he's the cream of the crop.
As a matter of taste, to be exact,
He's my ideal, as a matter of fact.

No muscle bound man could take my hand from my God.
No handsome face could ever take the place of my God.
He may not be a movie star, but when it comes to bein' happy, we are.

There's not a man today who could take me away from my God.
(V. tradução nos comentários)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pelotas, Minha Cidade (poema)


Minha cidade é uma enorme sala de recordações...
De alma, de vida e emoções.
É um pouco de mim mesmo correndo pelas artérias do tempo;
um pouco de brisa e muito de vento.

Luz do sol encobrindo colinas,
a beleza infinita de suas meninas
e estrelas vadias passeando na noite.

É brilho de lua, gota de orvalho;
paz de mil sonhos e um velho carvalho.
É praça e esporte, arte e cultura;
paz e amor na forma mais pura.

Minha cidade é o carro-de-lomba
de uma criança que tomba;
riso de gente,
gente que sente;
é tradição de velhos e moços,
de pai e irmão,
dos amores com brilho,
da mãe que "parte o seu coração
e entrega sorrindo um pedaço a cada filho".

Minha cidade é muito de mim
de campos em flores, de muitos amores,
de rosa e jasmim, de uma paixão dessas sem fim.

É fé e orgulho, som e barulho;
pedra e cascalho, asfalto e cimento
e o mito concreto que vence o lamento.

Minha cidade é História,
é a minha memória
que um dia falece em dado momento.
É trânsito doido, engarrafamento
e o carro de boi que um dia se foi no rumo da Sorte.

É um canto do Sul
que vive a olhar de frente pro Norte.
Minha cidade é um céu sempre azul,
é uma pátria pequena que eu tenho no Sul.

Sérgio A. O. Siqueira - Verão de 1968
Fotos: Nauro Jr (1) e D. Giannechini (2)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O espírito que pousa sobre o que restou

A Claquete Filmes e o blogue Cultive Ler lançaram hoje (31) a série Espírito das Ruas, uma proposta cinematográfica, pioneira e exclusiva em Pelotas. O trabalho do escritor e artista plástico Manoel Soares Magalhães reúne imagem em movimento, poesia sem palavras e trilha musical (com um texto não explícito).
Este primeiro segmento (vídeo acima) mostra uma visão diferente de Pelotas, vazia de tudo, inesperadamente antiturística, quase apocalíptica. Vemos uma cidade fantasma, com suas ruínas, túmulos, ruas sem gente, somente cães parecem ser o que sobrou da Criação, num dia futuro que talvez já chegou e não nos demos conta. No fundo musical, o Magnificat de Arvo Pärt.

POST DATA 16-11-12 

Veja uma análise do Espírito das Ruas e entrevista com Manoel no blogue Terra Alternativa, de Fábio Garcez.

terça-feira, 8 de março de 2011

Homenagem poética à Mulher

Em 2006, Laís Maria Falcão Sparenberg - então com 80 anos de idade - destacou o valor das mulheres pelotenses ao longo da história (leia o artigo).

Também com conhecimento de causa, Isabel Cristina Silva Vargas define em versos a essência feminina.

Mulher

Substantivo feminino singular:
Menina, adolescente, jovem, senhorita,
Mulher, esposa, consorte,
Cônjuge, dama, senhora...
São tantas as definições,
Que exprimem situações,
Condições ou aspirações
– Até mesmo decepções –
Mas será que exprimem
A essência da mulher?

Em geral nascemos para amar,
Cuidar, proteger, amamentar.
Somos fortes, aguerridas e bravas
Na defesa de nossos rebentos,
Somos companheiras, cúmplices,
Donas de casa, profissionais,
Por opção ou imposição,
Libertas no pensamento,
Nem sempre nas condições humanas.

Por isso ainda existem Amélias
Pela dedicação integral,
Outras tantas Marias:
Da Penha pelos maus-tratos,
De Nazaré pelos filhos tirados,
De Fátima pelos milagres realizados,
E outras tantas pelo mundo encontradas.

Conquistamos espaços,
Outrora negados ou
Sequer imaginados,
Alcançamos respeito
E Amor próprio e
Por amor – até impróprio –
Percorremos longa estrada
Todos os dias do ano
Ao longo da vida inteira.

Por isso ganhamos – não de graça,
Mas à custa de muita raça –
Um dia todo nosso
Para muito pensarmos
E a nós todas dedicarmos.
Isabel C. S. Vargas
Imagem: "Serenidade", da pelotense Carmen Araújo

sábado, 24 de julho de 2010

Meu pedaço de universo é aqui

A letra de Taiguara (1945-1996) Universo no teu corpo, de 1970, parece dedicada ao amor de uma pessoa, em contraposição ao desamor de uma sociedade. Quem acha um amor estável, recupera a esperança que o mundo não pode dar.

Mas também pode aplicar-se a qualquer amor, inclusive ao da terra natal. Para quem gosta dela, esse é seu melhor pedaço de universo. Ouça aqui a inesquecível versão original com voz e orquestra, remasterizada.

Eu desisto: não existe essa manhã que eu perseguia,
Um lugar que me dê trégua ou me sorria,
Uma gente que não viva só pra si.
Só encontro gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi.

Por uns velhos vãos motivos,
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor.
E é por isso que eu preciso
De você como eu preciso;
Não me deixe um só minuto sem amor.

Vem comigo:
Meu pedaço de universo é no teu corpo.
Eu te abraço, corpo imerso no teu corpo,
E em teus braços se unem versos à canção
Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo,
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo - amante, amigo - em minhas mãos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sinal aberto para o futuro

Vi hoje a lua cheia fazendo jogo com um semáforo (aqui chamado "sinaleira"), na esquina da Félix da Cunha com Princesa Isabel.

Nada mais cotidiano que ver sinalizações urbanas ou o céu noturno, mas neste caso a graça foi dada pelos conteúdos semânticos em conjunção com a lua: o da luz verde e o da flecha reta.

Em cruzamentos, esta flecha significa que os veículos somente podem seguir em diante, sem dobrar. A lua interpondo-se sugeria que o destino seria o infinito (ou, pelo menos, o satélite a 300 mil km). O trio dizia: Licença para subir, sem limites nem desviações.

O simbolismo me remeteu à história de Fernão Capelo Gaivota (veja post).
Foto de F. A. Vidal

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Serenata para a terra da gente

María Elena Walsh, compositora e poetisa argentina nascida em fevereiro de 1930, fez a letra e a música de Serenata para la tierra de uno em 1968. O poema canta o amor pela pátria como se fosse uma pessoa; mudando pequenos detalhes alusivos à Argentina, pode aplicar-se a qualquer terra natal.
Mercedes Sosa (1935-2009), acompanhada pelo violão de Nicolás Brizuela, gravou esta e mais onze canções em abril de 1980, para a TV suíça, em Lugano (DVD Mercedes Sosa Live).

POST DATA (15-01-11):
A compositora María Elena Walsh faleceu em 10 de janeiro, aos 80 anos de idade.

Porque me duele si me quedo, pero me muero si me voy,
por todo y a pesar de todo, mi amor, yo quiero vivir en vos.
Por tu decencia de vidala y por tu escándalo de sol,
por tu verano con jazmines, mi amor, yo quiero vivir en vos.
Porque el idioma de infancia es un secreto entre los dos,
porque le diste reparo al desarraigo de mi corazón.
Por tus antiguas rebeldías y por la edad de tu dolor,
por tu esperanza interminable, mi amor, yo quiero vivir en vos.
Para sembrarte de guitarra, para cuidarte en cada flor,
y odiar a los que te castigan, mi amor, yo quiero vivir en vos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Raul anima Pelotas

Raul Seixas compôs esta música em 1975, em parceria com Paulo Coelho e Marcelo Motta. A ideia pode aplicar-se a alguém desanimado ou precisando de fé em si mesmo, seja um indivíduo ou uma comunidade.

O letrista se baseou em versículos do Evangelho de João (cap. 7, v. 37-38) e do Livro do Apocalipse (cap. 22, v. 17), sugerindo passos espirituais como o ver (consciência), beber (oração), querer (desejo) e tentar (iniciativa). É possível que eles tenham validade ainda e possamos usá-los para ser mais felizes.


Veja! Não diga que a canção está perdida.
Tenha em fé em Deus, tenha fé na vida. Tente outra vez!

Beba, pois a Água Viva ainda 'tá na fonte.
Você tem dois pés para cruzar a ponte. Nada acabou!

Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar.
Não pense que a cabeça aguenta se você parar.
Há uma voz que canta,
uma voz que dança,
uma voz que gira, bailando no ar.

Queira! Basta ser sincero e desejar profundo.
Você será capaz de sacudir o mundo. Tente outra vez!

Tente! E não diga que a vitória está perdida.
Se é de batalhas que se vive a vida! Tente outra vez!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pelotenses visitaram a FLIP

A Escola Mário Quintana é em Pelotas um foco de dinamismo e criatividade. Dentro do trabalho cotidiano, a organização cresce e mantém a qualidade intelectual e afetivo-social do serviço educativo entregue à comunidade.

Uma das exclusividades da Escola é o Projeto de Leitura desenvolvido pelas professoras Alline Bettin, Thaís Rochefort, Deborah Kaé e Aline Neuschrank (da esq. à dir.). Em agosto passado, elas foram à FLIP (Festa Literária Internacional de Parati) e de lá trouxeram contatos com escritores e várias ideias que motivarão a leitura em seus alunos do ensino fundamental.

Na terça 18 de agosto, recém começado o segundo semestre, elas me receberam na sala de professores para falar de sua experiência em Parati e com o Projeto de Leitura, que explicarei melhor em próxima postagem. Desta entrevista também saiu a informação que já publiquei sobre o blogue de Alline (veja o post).

A FLIP é o evento literário mais emblemático e inspirador que conhecemos pela mídia de alcance nacional - mesmo sendo pequeno e de recente criação. Maior e mais antiga é a Jornada Literária de Passo Fundo, valorizada basicamente pela imprensa gaúcha.

A visita à FLIP foi sonhada pelas professoras desde 2008 e teve o comprometido apoio do diretor Carlos Valério. De Parati elas chegaram com entusiasmo dobrado para continuar inovando no ensino da leitura.

Elas já foram convidadas a seguir ampliando seu trabalho de 4ª a 8ª série - por exemplo, numa eventual participação na Feira do Livro de Pelotas - mas sua concentração está totalmente dedicada, pelo momento, a este projeto dentro da Escola.

Um de seus contatos em Parati foi com o escritor carioca membro da Academia Brasileira de Letras Carlos Heitor Cony (esq.). Na sexta 3 de julho, ele foi uma das atrações da Flipinha, o evento literário para crianças que se realiza paralelamente aos debates "adultos" na Tenda dos Autores da FLIP.

Na Flipinha, os encontros com autores de literatura infanto-juvenil se alternam com apresentações musicais e teatrais dos alunos das escolas de Parati.

As professoras contam que é emocionante ver nas ruas escritores famosos e poder falar com eles como vizinhos conversando na calçada.

Outro divertido encontro deste quarteto feminino pelotense foi com o quarteto do quadrinismo no Brasil. Na quinta-feira 2 de julho, um dos debates na FLIP era sobre comics, e os convidados eram os desenhistas Rafael Coutinho, Rafael Grampá e os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (leia a notícia).

Na foto aparecem Aline e Deborah e, entre elas, Rafael Grampá, quadrinista pelotense que com elas faz o "P" de Pelotas (dir.).

A arte e a literatura fazem com que se misturem e se confundam o trabalho, a diversão e a amizade. Por isso eu já dizia, no primeiro post da seção Inspirações, que a FLIP era uma referência para este blogue.
Fotos de F. A. Vidal (1) e Deborah Kaé (2-4)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Psicanálise de uma fábrica de chocolate

O livro “Charlie and the Chocolate Factory”, do escritor britânico Roald Dahl (1916-1990), foi publicado primeiramente nos Estados Unidos, em 1964 (no Reino Unido em 1967), e deu origem a dois filmes: “Willy Wonka & the Chocolate Factory” (1971) e "Charlie and the Chocolate Factory" (2005). Ambos ficaram com o mesmo título em português: “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

À esquerda, a primeira capa, desenhada por Joseph Schindelman (clique para aumentar). À direita, uma capa pós 1998, quando os desenhos passaram a ser feitos por Quentin Blake.

Em 1972, Dahl publicou uma continuação ("Charlie and the Great Glass Elevator") e, decepcionado com o filme, não permitiu que fosse filmada. No entanto, o filme de 2005 inclui detalhes deste segundo texto.

Livro e filmes merecem uma detalhada comparação - literária, cinematográfica e mesmo sociopolítica - assim como uma análise psicológica, que propus no artigo "Psicanálise de uma fábula moderna" (Diário da Manhã, 28-08-05).

Os personagens
Uma primeira discussão é sobre os protagonistas: Charlie Bucket e o fabricante de doces. O menino e o empresário fazem contraponto, como os dois lados da mesma moeda. O filme de 2005 enfatiza os traços de Willy Wonka como personagem excêntrico, infantiloide, insociável, misterioso e sexualmente indefinido - que dialoga com um menino honesto, sincero, humilde, generoso, íntegro. Um busca o outro, como a completar-se mutuamente.

Os outros quatro meninos representam os erros que o autor quer criticar: o caubói violento Mike Teavee (esq., em 2005), a obsessiva Violet Beauregarde, o alemão comilão Augustus Gloop e a manipuladora Veruca Salt - os sotaques de cada país dão mais riqueza à sátira. Todos são levados à morte por esses traços defeituosos, que como doenças mentais ainda afligem a humanidade no século XXI.

O grande sucesso da história entre os leitores infantis, no entanto, não radica na mensagem moralista, mas no lado satírico que descreve a realidade sem enfeites, realiza desejos ocultos e castiga duramente os comportamentos "normais" de crianças e adultos.

Estragando crianças
O livro traz uma forte crítica aos pais que manipulam filhos pela permissividade (falta de limites ao comportamento), por superproteção ou por projetar neles expectativas frustradas. Quando Veruca (esq., em 1971) é avaliada como "ruim" pelos esquilos analistas de nozes (na balança para ovos dourados chamada Educated Eggducator), o inglês brinca com o duplo sentido de nuts (nozes ou loucos) e spoiled.

Spoil significa 1.“estragar, deteriorar algo” e 2.“malcriar, mimar um filho”, de modo parecido a como em português “corromper” pode ter o sentido de “arruinar, decompor, apodrecer” (uma coisa) e o de “viciar, desviar, perverter” (uma pessoa).

A bruxa má: mãe devoradora
A psicanalista Diana Corso vê nesta fábula uma reedição de “João e Maria” (ZH, 10-08-05). Nessa história dos irmãos Grimm, escrita há dois séculos, as crianças são atraídas por uma figura materna malvada, ou seja, por um ventre que as engolirá e destruirá.


A mensagem psicológica oculta é que a ansiedade infantil, manifestada oralmente pelo comer, tem direta relação com a agressividade da mãe. Para escapar do processo destrutivo da imaturidade, devemos controlar a ansiedade oral (parar de comer, equivalente a parar de beber ou de fumar), abandonar a mãe dominadora (casando com alguém da nossa idade) e buscar o nosso próprio caminho, a trilha que nos levará do falso ao verdadeiro lar, do berço da angústia ao amor do bem comum.

O bruxo moralista e abusador
A fábula moderna, a da indústria de chocolate, apresenta o perigo inverso, de caráter paterno (conforme a observação de Diana Corso). Willy Wonka atrai à sua casa de doces os filhos mimados de famílias permissivas (paradoxalmente, a permissividade retém, não liberta). O bruxo sedutor deseja castigar crianças e adultos egoístas.


O pecado que este pai aparentemente irracional aponta é, no filme de 1971, a falta de limites na educação, traço típico da ausência da autoridade (seja esta masculina ou feminina). A lógica moralista do século 19 critica a calidez liberal moderna; o pai durão questiona a mãe branda.

Este anti-Papai Noel com seus gnomos (esq.) também é recalcado e manipulador, e quererá se redimir pela honestidade do menino pobre, visto como filho simbólico (os escravos “umpa-lumpas”, que eram africanos no original, ficaram brancos por razões políticas).

No filme de 2005, com Johnny Depp como Willy Wonka (esq.) pode-se ler uma alusão à pedofilia, transtorno mental em que um adulto quer seduzir uma criança, percebida como amorosamente atraente (“eu te dou meu pirulito e tu me emprestas a tua pureza”). A referência fica mais clara no final, quando o empresário dá de presente ao menino “preferido” a fábrica inteira, sob a condição de vir sem a família.

É fácil associar esta figura com Michael Jackson (dir.), também milionário, assexuado, megalomaníaco, desajustado, perfeccionista e com uma especial atração por crianças.

A infância do doceiro
O diretor Tim Burton ainda enriquece a história original com dados da infância de Willy Wonka. Foi ele um menino mimado, como seus gulosos clientes? Ou sua obsessão pelos chocolates foi uma reação rebelde ante um pai repressivo? Por que ele odeia tanto os adultos permissivos e as crianças mal-educadas?

O filme coloca uma hipótese algo complexa. Como o obsessivo pai de Willy proibiu-lhe comer todo tipo de doces para não ter cáries, gerou no filho simultaneamente um acelerador e um freio: uma urgência por se libertar da tirania do pai e uma raiva que o impede de amadurecer.

Por um lado, está identificado com o pai ambicioso e rígido, motivo pelo qual detesta as pessoas frouxas e busca um herdeiro que prolongue sua missão e resolva suas frustrações. Por outro lado, está ressentido com esse pai, razão pela qual não quer ser adulto, detesta todos os pais do mundo e procura com desespero um menino que lhe devolva a inocência perdida.

Moral da história
Para libertar-se, Willy deverá achar uma criança idealista e livre, sem pais manipuladores. Diana Corso conclui que Willy precisa de um herdeiro tão pobre que não tenha expectativas, para poder aprisioná-lo e usá-lo. E esse será Charlie. O filho e neto de operários desempregados será o novo empresário, mas não tão manipulável como se pensava. E sobretudo será o terapeuta idôneo (limpo de ressentimentos e pleno de afeto) que ajudará a limpar a alma do neurótico Willy.


A imagem ao lado é a moral da história mais libertadora, mostrando o chocolate como fonte de prazer, e não como a clássica muleta neurótica, inútil amenizadora da ansiedade. O melhor e mais maduro prazer ocorre no encontro, com uso livre de todos os sentidos - visão, olfato, gosto, audição, sensações táteis e viscerais, entre outras.
Imagens da web

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Crônica de uma festa literária

A escritora pelotense Beatriz Mecking esteve na 7ª FLIP e fez um resumo, que condensei ainda mais para caber num único post. Ao iniciar este blogue, mencionei esta Festa Literária como um exemplo a ser seguido (veja o post).

É preciso imaginação, amor e ousadia para romper a inércia e estabelecer nexos com o resto do Brasil, especialmente na área cultural, onde Pelotas se considera autossuficiente. Aceitemos o convite de viajar nesse impulso. Parati é especialmente inspiradora por sua história de 440 anos e por sua geografia - situada entre dois rios, à beira do Atlântico e no limite fluminense-paulista.

Ao sul do Rio

De ônibus, Paraty está quase quatro horas ao sul do Rio de Janeiro. A cidade tem umas quatrocentas pousadas.

Ao chegar, almoço um peixe com camarões num quiosque da praia [acima], e a pouco mais de um quilômetro, entre morros e a mata exuberante, encontro o palco onde, durante cinco dias, se desenrolará a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty, evento que se realiza anualmente na cidade desde 2003).

Toda a cidade vive em função da Festa

Em duas longas filas esperam: os que buscam os ingressos já comprados e os que tentam vaga para as atividades que ainda não lotaram. São 18 mesas de debate que se sucedem de quinta de manhã a domingo à tarde, no palco da Tenda dos Autores [dir.].

Na Casa da Cultura, há uma programação paralela, este ano dedicada às relações Brasil-França. Para as crianças, existe a Flipinha; para os adolescentes, a FLIPZona. Sem falar em atividades culturais que compõem a OFF Flip. Além de outras visitas e passeios turísticos.

Toda a comunidade parece envolvida, de alguma forma, no grande acontecimento. E dou-me conta de que, infelizmente, não vou poder atender a tudo.

Abertura da Festa

O início oficial foi dado pelo escritor Davi Arrigucci Jr., um dos mais conceituados críticos literários brasileiros.
O homenageado da FLIP 2009 foi Manuel Bandeira, cuja poesia Arrigucci já analisou em dois livros: "Humildade, paixão e morte" (1990) e "O cacto e as ruínas" (1997). Ele discorreu sobre o alumbramento de Bandeira - um sentimento poético baseado no desvendar da rua, das coisas humildes, vivido por ele no bairro da Lapa, no Rio.

Após a conferência de abertura, Adriana Calcanhotto apresentou-se na vizinha Tenda do Telão, espaço em que muitos assistiam às mesas, já que não era fácil conseguir um lugar na Tenda dos Autores. Para ir de uma tenda a outra, usa-se a romântica pontezinha [esq.] que teve movimento ininterrupto durante os dias da FLIP.

Alguns destaques da FLIP

Nos dias seguintes, frequentamos as mesas e uma avalanche de debates e depoimentos que, de maneira geral, se mostraram enriquecedores. Autores de nove países versaram sobre os mais diferentes temas, apresentaram trechos de suas obras, trocaram experiências, interagiram com a platéia.

Ma Jian e Xinran, chineses exilados na Inglaterra, estiveram na mesa de debate "A China no Divã". Mas preferi ir a uma palestra com o francês David Foenkinos e, para me penitenciar da falta, comprei "Les funérailles célestes", da escritora Xinran, sobre as relações da China com o então soberano Tibete.

Em conversa com Silio Boccanera, o biólogo britânico Richard Dawkins, autor de "Deus, um delírio", revelou-se um darwinista convicto; embora não darwinista social, Dawkins é tido como o principal evolucionista em atividade.

Chico Buarque [dir.] e Milton Hatoum, na concorrida mesa intitulada "Sequências brasileiras", cotejaram seus últimos livros (respectivamente: "Leite derramado" e "Órfãos do Eldorado"), em que mostram visões críticas do Brasil.

O português Antonio Lobo Antunes esteve à frente da mesa "Escrever é preciso", com sua presença forte, suas respostas inteligentes e por vezes irônicas. Neto de brasileiro, afirmou ter começado a amar a literatura através dos versos de nossos poetas.

As francesas Sophie Calle e Catherine Millet se inserem na autoficção, vertente que mescla a vida privada e a vida literária.

Esses são alguns destaques de um encontro que nos fez conhecer nomes de estatura e relevância mundial.

Gostaria também de mencionar o cálido poeta Eucanaã Ferraz e a poetisa pelotense Angélica Freitas, que lindamente evocaram Bandeira [veja a no blogue da FLIP].

Retorno a Pelotas

No domingo à tarde (5 de julho), deixei já com saudade o ambiente tranquilo de Paraty, suas ruas de pedras, seu belo casario colonial, aquele centro histórico onde me havia sentido bem acolhida.

Na lembrança, levava o exemplo que poderia ser imitado por outras comunidades (e já várias cidades estão montando eventos do gênero). Com dedicação, paulatinamente, é possível chegar lá, organizando uma programação que divulgue valores, que os traga para junto das pessoas, que intercambie cultura. Que seja suficientemente instigante.
Fotos de Beatriz Mecking (1-3, 5-6) e FLIP (4)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pelotas merece um abraço

A jornalista gaúcha Erika Hanssen Madaleno escreveu um artigo falando de seu amor e encantamento com Pelotas.

O texto saiu na edição impressa do Diário Popular de hoje, mas como o site não publicou me pareceu triplamente interessante divulgá-lo aqui: pela ausência na internet, por referir-se a Pelotas e pela bela redação (Erika ganhou o Prêmio Esso Regional em 1991).

O verbo "merecer" se refere à possibilidade de ter algum mérito ou direito, mas a autora mostra o lado emocional de quem ouve essa nossa expressão, tão comum para agradecer, que faz o outro se sentir valioso. Ela se sente amada e nos retribui o abraço.
Pelotas merece
A primeira vez que vim a Pelotas foi no final da década de 80. Como jornalista, tinha a tarefa de escrever uma reportagem sobre as praias do Litoral Sul. Ainda era primavera, fazia muito frio, chovia e o Laranjal estava deserto. Não foi um bom começo!

Para esperar a melhora do tempo, decidi caminhar sozinha pelas ruas centrais. Resultado: me perdi e não sabia mais voltar ao hotel. Definitivamente, Pelotas e eu não estávamos nos entendendo.

Ninguém havia nos apresentado formalmente e senti falta de um contato mais caloroso. A imagem que guardei da cidade foi essa: um local frio, chuvoso e onde a gente se perdia com a maior facilidade. Até visitar Pelotas novamente, anos mais tarde. Bem acompanhada e, especialmente, com olhos mais maduros e com a cabeça mais arejada.

A primeira surpresa ocorreu em uma pequena loja, onde, ao agradecer o atendimento, a moça me respondeu "Merece!". Com essa simples palavra, começava um novo amor, uma nova visão sobre a Princesa do Sul. Com encanto, percebi que todas as pessoas diziam "merece", em vez do tradicional "de nada".

Policiais militares, comerciários, o povo na rua, na rede hoteleira ou em restaurantes, qualquer pessoa a quem eu agradecia por um favor me respondiam com um sorriso: "A senhora merece!". Era apaixonante.

Foi também em Pelotas, no início deste ano, que recebi meu primeiro abraço, daqueles que a gente vê nos filmes e nos e-mails, onde pessoas portam cartazes oferecendo este carinho gratuito [veja o vídeo abaixo]. Um grupo de alegres adolescentes passou por mim na praça Coronel Pedro Osório e recebi um abraço apertado, além de ouvir que eu "merecia" tudo aquilo. De repente, Pelotas entrou em minha vida como um turbilhão de emoções.

Com o calor humano que me foi oferecido, ergui os olhos para a cidade, comecei a pesquisar sua história, descobri sua imensa riqueza cultural, suas casas de espetáculo - onde passaram as melhores e maiores companhias - e os prédios históricos, que não me canso de fotografar.

A beleza da Catedral São Francisco de Paula [acima], o Grande Hotel [esq.], o Theatro Sete de Abril e o Guarany, que me deixaram extasiada, as praças, o povo, os doces... ah, os doces... a perdição do meu regime esquecido.

Hoje não tenho mais medo de me perder em Pelotas. Não penso que seja um município frio e chuvoso. Ando pelas ruas como se vivesse aqui eternamente. O Calçadão virou minha casa; a praça central, meu local de descanso e contemplação.

Quem mora na cidade pode pensar de outra forma, pois vivencia problemas que não percebo. Afinal, ser turista eventual é sempre diferente. Mas neste mês de julho, em que a cidade completa 197 anos, gostaria de homenageá-la, escrevendo este texto de amor incondicional e me redimindo de um dia não tê-la achado tão interessante.

Pelotas tem açúcar no sangue, tem um povo amoroso e hospitaleiro. Me faz bem, me traz alegrias, faz com que eu viaje no tempo e vislumbre o futuro. Na verdade, quem "merece" algo não sou eu. É a gente que vive nesta cidade, que trabalha, estuda, luta por dias melhores, que me recebe tão bem e a tantos outros simpatizantes.

Muito obrigada, Pelotas!

Merece!
______
O psicólogo brasileiro Ary Itnem Whitacker ficou famoso no YouTube em 2006, quando replicou, em plena Avenida Paulista, uma faceta da campanha Abraços Grátis (Free Hugs Campaign)[veja o verbete na Wikipedia], criada em 2004 pelo australiano Juan Mann.
O brasileiro aplica às empresas o efeito social do contato afetuoso, chamando-o "abraço corporativo".
A Terapia do Abraço (Hug Therapy) foi proposta nos anos 80 pela americana Kathleen Keating.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Poema de amor por Pelotas

Neste aniversário de Pelotas, dia 7, o Diário Popular voltou à internet. Postado no dia anterior, ali estava um vídeo de homenagem à cidade, com imagens de fotógrafos do jornal e um apaixonadíssimo texto de Pablo Rodrigues, jornalista que o redigiu em 2007, para a inauguração da Casa de Pelotas no Mercado Público de Porto Alegre. A interpretação é do ator Zé de Abreu (paulista, morou em Pelotas nos anos 70).

A prosa poética de Pablo (veja um post sobre ele) brota de sentimentos profundos que também inspiram este blogue. Para nossa meditação, transcrevo abaixo o texto original do autor, com a pontuação revisada por ele.

O
monólogo pode ler-se como uma conversa com Deus (o Senhor). A cidade tem incontáveis detalhes, como a casa do espírito humano tem inúmeras janelas. A casa divina também tem uma multiplicidade infinita (Evangelho de João 14, 2).


Minha casa e tantas casas
― Digo ao senhor, sem o receio qualquer de errar: minha cidade é minha casa, o lugar onde me encontro. E crescem em mim incontáveis alegrias, abrem-se em mim inúmeras janelas quando volto pra : coração no compasso do mais certo. Aliás, o tanto e quanto mais sei e testo nesta vida de entreandanças é que tudo é viagem de volta... Minto? A saudade então não é a cada instante a sempre-presença? Ai, e tem maior que a saudade da casa da gente? Pois repito, para que não sobre assombro: minha casa é minha cidade. Toda doçura.
Essas lindas moças todas e suas finas feições e caminhares e perfumes são minha cidade: o crescer da lua, na Lagoa dos Patos, o inesperado irromper do amor. Lhe conto que não há nada igual no mundo. O senhor vá no Laranjal, comigo confirme, constate com os seus próprios olhos. E ponha o coração à larga. Depois sonhe com aquilo quando sonhar, toda a vida.

Uma casa e tantas casas, minha cidade, onde Ramilonga se fez canção, poema e estética profunda de frio, solidão e amor. Sim, minha cidade em mim não sei como, não saberia ser quando, onde quer que fosse, onde?, se não em mim, o que me faz mais eu: assim, minha casa e tantas casas, assim, aberto à esperança de tantos milagres e povos.

Olhe, veja - e me escute mais do que estou lhe dizendo. Escute cada pedra, cada árvore, cada banco de praça. Escute cada flor lilás dos jacarandás-em-dezembro da Coronel Pedro Osório, o silêncio das peças de xadrez, as mesas, os velhos senhores tão sempre donos do tempo, como se num quadro. Eternos. E Deus por todos os cantos.

Escute o cheiro de infância que ainda circula pelo Café Aquário: um desejo enorme de debater o mundo com os amigos. Mudam-se apenas os assuntos. Todos somos crianças, porém, lá no fundo. O senhor faça o teste: pare diante do espelho e se olhe fixo, por cinco minutos. O que verá no fim? Pois lhe digo: um rostinho de menos que menino, como se pedisse ainda - toda a vida - o carinho, o colo e o cheiro da mãe. Mais: como se pedisse mais amor.

Só o que me consola é a minha cidade e todas as suas belezas.

Ah, subir pela Princesa Isabel, a mais bonita das ruas e ver as folhas caídas naquele chão de tanta história! Chegar à praça Coronel Pedro Osório... Como definir ao senhor?: o exato da beleza de se estar olhando para o chão e de repente erguer os olhos e topar com o Grande Hotel... ali, imenso, desde sempre, de portas abertas, um convite à elegância.

Sei, certos momentos não são definíveis. Fosse lhe dizer mais, o tanto que minha cidade cultiva, muito mais conversa precisaria. O Sete de Abril e seus delicados contornos, as charqueadas que estão aí para dar testemunho, sal e sangue, luta e memória.

O senhor preste toda a atenção no enorme da voz do Joca e saberá do que falo: raízes.

Minha cidade é toda a alegria e beleza do mundo, mesmo quando a vida anoitece. Tholl em festa, o senhor sabe o que lhe digo. Como dizer ao senhor o encantamento de caminhar distraído pela Lobo da Costa e começar a ouvir o crescer dos violinos e violoncelos da Orquestra Filarmônica e os timbres das muitas vozes do Coro de Música pela Música? O Guarani guarda tantas histórias!

E o que dizer então das histórias que guarda o Instituto, Casa do Capitão, minha casa... Blau Nunes mora ali! e ainda ensina a vida aos mais novos, patrício menos avisado do essencial do cotidiano, a esperança e a luz de Deus por todos os lados, de muitas onças.

Como dizer ao senhor o tanto que minha cidade é?
Desconheço.
Sei e digo, apenas, que minha cidade é o que há de melhor em mim, a parte mais minha, o que em mim mais profundo habita.
Em qualquer lugar: minha casa, sua casa, esta casa, Pelotas.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Pelotas e suas belezas


Saiu um clipe com gravação de estúdio para a música "Pelotas" de Kleiton e Kledir, interpretada já duas vezes em nossa cidade, como mencionei num post anterior. A vantagem é que o áudio permite entender a letra bem melhor que nas gravações até agora disponíveis.

Esta é uma das músicas mais ingênuas e simples da dupla, mas conseguiu a aprovação dos pelotenses, pois os irmãos Ramil conhecem bem nossos lugares e nossas preferências.

Já as imagens do clipe não refletem o mesmo conhecimento presencial de Pelotas; se baseiam no álbum pessoal dos cantores, acrescentando algumas escolhidas pela internet. O vazio se faz imperdoável quando a letra menciona as gurias lindas por metro quadrado.

Onde elas foram parar?

Para compensar essa baita falta, estão aqui algumas dessas lindas pelotenses:

Gabriele Rocha (acima, foto de Suzy Alam), Rainha da Fenadoce 2008, Miss Pelotas 2010, que nesta sexta-feira (29) recebe a faixa de sua antecessora Bruna Peter.

Taíse Rodrigues Dias (dir.), nossa Garota Verão 2005 e única pelotense a ganhar o concurso em todo o Estado - então aluna do Colégio Municipal Pelotense; pela agência pelotense Maxi Models já obteve colocações como bailarina e modelo internacional. Hoje está trabalhando como modelo na China.

Há milhares delas, e mereceriam várias canções de Kleiton, Kledir e outros.
Foto 1: Flickr.
Foto 2: site CMP.

domingo, 12 de abril de 2009

A sinfonia da cerveja (humor)

Em outubro de 2007, a cerveja Victoria Bitter (VB), do grupo australiano Foster, fez um comercial onde uma orquestra toca sua música-tema usando apenas garrafas como instrumentos.

A ideia publicitária pertence à agência George Patterson, e a proeza musical foi realizada por membros da Orquestra Sinfônica de Melbourne (MSO) e da Orquestra Victoria, usando 451 garrafas de VB e 6 tímpanos. Após 3 meses de ensaio, a VB Stubby Symphony foi apresentada no Melbourne Concert Hall.

O regente é o polonês Cezary Skubiszewski (nascido em 1949, radicado na Austrália desde 1974), que também é compositor e fez o arranjo para orquestra da melodia que identifica a cerveja há 40 anos. Pode-se dizer que o velho tema foi "refrescado" (em inglês, refresh também significa: restaurar, reforçar). Sem usar palavras, a peça publicitária deu nova vida a um produto tradicional. Veja o making of da "sinfonia" (5 min, em inglês); no final, o regente alude ao Brinde da ópera La Traviata.

Quando dois elementos são associados pela primeira vez, a ideia se considera criativa. A aparente incoerência entre música erudita e cerveja é salva, neste caso, pela imagem séria dos músicos (dir.) e pelo poder embriagante da arte musical.

Não é bom apoiar quem lucra com o consumo de álcool, mas fico pensando no que se pode fazer com a força da arte e da criatividade quando elas são postas ao serviço de causas melhores (como o desenvolvimento cultural de uma cidade ou nação).
Imagens da web.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Pedaços visuais dos Andes

O pelotense Rafael Takaki começou a fotografar aos 15 anos e não parou mais. O que era hobby virou vocação. Foi estudar Artes Visuais, mas não havia a especialização em Fotografia; escolheu Gravura, pela proximidade, mas seguiu com sua antiga paixão, trazendo-a até o trabalho de conclusão de curso. Formou-se em 2008 e hoje ele é um gravurista com alma de fotógrafo (ou um fotógrafo com diploma de gravurista).
Em janeiro, viajou ao Chile e fotografou a Cordilheira dos Andes, uma fonte de detalhes visuais que no Brasil não temos, mesclando cores, texturas, sombras, profundidades, além das sensações de vertigem e atmosfera seca, fria e rarefeita.
Essas fotos vieram constituir sua primeira amostra individual, exposta até 15 de abril no Corredor Arte do Hospital-Escola da UFPel-FAU.
As imagens merecem uma observação cuidadosa, muito mais pela impressionante situação natural registrada pelo artista do que por alguma técnica especial. As montanhas andinas têm tal grandiosidade que o observador perde o sentido das proporções. O fotógrafo precisa colocar algum ponto de referência, para dar uma ideia das dimensões verdadeiras, pois, para alguém que não conhece, tudo aquilo é impensável.
Domingo estive no Corredor Arte, quando - pelo menor trânsito de pessoas - algumas luzes do corredor são apagadas. O efeito da penumbra não é estético nem terapêutico, mas ocorre pela necessidade institucional de bem utilizar os dinheiros públicos.
Outros fatores que dificultam a apreciação: o tamanho relativamente pequeno destas fotos e os reflexos nos vidros. Mas basta pedir na portaria que se acendam todas as luzes, e a exposição ganha um aspecto muito mais nítido e até esperançador. As reproduções neste post são fotos minhas sobre as imagens expostas no Corredor, exceto a 1, que me foi enviada.
Outra opção que melhoraria o trabalho de Rafael seria aproveitar a conexão com o Chile, país de poetas, e citar algum verso ilustrativo sobre as montanhas, rios, lagos e vulcões. Como, por exemplo, o soneto 18 de Neruda (1959):
Por las montañas vas como viene la brisa
o la corriente brusca que baja de la nieve
o bien tu cabellera palpitante confirma
los altos ornamentos del sol en la espesura.
Toda la luz del Cáucaso cae sobre tu cuerpo
como en una pequeña vasija interminable
en que el agua se cambia de vestido y de canto
a cada movimiento transparente del río.
Por los montes el viejo camino de guerreros
y abajo enfurecida brilla como una espada
el agua entre murallas de manos minerales,
hasta que tú recibes de los bosques de pronto
el ramo o el relámpago de unas flores azules
y la insólita flecha de un aroma salvaje.

terça-feira, 17 de março de 2009

Epigramas de Mário Quintana (1906-1994)

Sonhar é acordar-se para dentro.

Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais e ficamos repousando no fundo do mar.

O despertador é um acidente de tráfego do sono.

Sem o coaxar dos sapos ou o cricri dos grilos como é que poderíamos dormir tranquilos a nossa eternidade?

O fantasma é um exibicionista póstumo.

Nossos olhos também precisam de alimento.
Se as coisas são inatingíveis, não é motivo para não querê-las.
Ah, nem queiras saber... A vida é preciosa como um pão roubado!
Que tristes os caminhos se não fosse a presença mágica das estrelas.
A mentira é uma verdade que se esquece de acontecer.
A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.
Autodidata: ignorante por conta própria.
O único problema da solidão consiste em como conservá-la.

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas.

Estilo é a deficiência que faz um sujeito escrever sempre do mesmo jeito.

É graças a Deus que o Brasil tem saído de situações difíceis. Mas, graças ao diabo, é que se mete em outras.

Triste é o rio, que não pode parar.
O destino é apenas o acaso com mania de grandeza.
Amar é mudar a alma de casa.
O passado não reconhece seu lugar: está sempre presente.
As pulgas saltam tanto porque também têm pulgas.
O mais irritante de nos transformarem um dia em estátuas é que a gente não pode coçar-se.
Drummond e Quintana, Porto Alegre.

domingo, 15 de março de 2009

Cidade sombria


No filme Dark City (1998), o protagonista acorda sem memória, numa cidade onde é sempre noite. Aos poucos ele tenta reconstruir seu passado, mas é acusado pelos Estranhos de horríveis crimes. Tenta descobrir por que ali nunca amanhece e por que ele não pode deixar a cidade. A realidade é alterada pelos Estranhos, que podem parar o tempo e fazer surgir edifícios (usa-se a técnica do morphing para a transformação de prédios).

Direção e roteiro são de Alex Projas ("O Corvo" e "Eu, Robô"). É um suspense fantástico e noir, inspirado em Metropolis (Lang, 1927) e Nosferatu (Murnau, 1922). Dark City compartilhou com Armaggedon (1998) o Prêmio Saturno (Saturn Awards) para filmes de ficção científica, entregue posteriormente a The Matrix (1999), X-Men (2000), "Inteligência Artificial" (2001) e outros. No Brasil, o título é "Cidade das Sombras"; em Portugal, ficou como "Cidade Misteriosa".

Há dez anos, a expressão "Dark City" foi usada em nossa cidade para denominar festas góticas. Com sentido crítico e alguma imaginação, seus organizadores e participantes relacionaram a personalidade de Pelotas com o estilo bizarro e depressivo do noir. Dark City era aqui.

Os americanos fazem o mesmo com Nova Iorque, considerada uma cidade dark, como Gotham City - que é uma representação gótica de Nova Iorque. A diferença é que a cidade mais emblemática do mundo logo se refaz e se reinventa, enquanto nós nos identificamos mais com a escuridão e a umidade.

Como contribuição, nosso conterrâneo Vítor Ramil formula a Estética do Frio, que ajuda a entender uma parte da mentalidade pelotense, do ponto de vista da melancolia. É inegável a semelhança entre as imagens do filme e o ar transilvânico do Barão de Satolep (esq.) que não esconde ser uma cruel sátira do efeito europeu em nossa cultura.

Cruel, pois o deboche expulsa do campo cotidiano as criações e costumes mais refinadas. Se não é gay ou afrancesado demais, então parece um vampiro ou uma múmia. Mas o que Pelotas tem de melhor ainda é a cultura, e ela pode recuperar-se, se for uma renovação criativa e não só uma adoração do passado.
Fotos da web, Kinocinema (1), Paul Cook (2)

sábado, 14 de março de 2009

Cidade de sombras

LONGE DE VOCÊ - Vítor Ramil, 2004.

Tô vivendo em outra dimensão, longe de você,
Habitando o fundo de um vulcão que eu domestiquei.
Todo dia deixo o sol entrar, mas a luz não vem.
A janela em mim é tão brutal, causa esse desdém.

Meu relógio, em outra dimensão, corre de você.
Solto o pensamento num tufão, finjo que bem sei.
Todo dia o dia quer passar, mas o fim não vem.
A espera é sempre tão brutal, tudo se mantém.

Acredito em outra dimensão, longe de você.
Lava, fogo, cinza, solidão, já me acostumei.
Todo dia posso te encontrar, mas você não vem.
O deserto em volta é tão brutal, sempre te detém.

Imagens de Paulo Momento, 2007 (baixista e DJ pelotense).