Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de novembro de 2015

O que os jovens leem na Atenas do Sul


"Pelotas, Atenas do Sul", documentário de Douglas Ferreira dos Santos e Fernando Milani Marrera, buscou propor uma reflexão sobre o hábito de leitura dos jovens pelotenses na atualidade e o conhecimento dos mesmos sobre as produções literárias e dos autores locais. O método usado foi a aplicação de um questionário nos terceiros anos do ensino médio do Colégio Pelotense (público) e do Colégio Gonzaga (privado), para traçar um paralelo entre acesso, disponibilidade e procura das obras de escritores pelotenses.

As entrevistas mostraram quais os gêneros literários de maior procura e que fatores diminuem a leitura entre os jovens ou os fazem conhecer autores locais. Vítor Ramil é o autor mais reconhecido pelos jovens como pelotense (42%); o segundo mais citado é João Simões Lopes Neto (24%). A produção do Laboratório de História, Imagem e Som foi realizada para o I Seminário de Estudos Literários de Pelotas (setembro de 2012).

A Wikipédia remete o epíteto "Atenas do Sul" somente ao município de Itapetininga (SP), também conhecido como Terra das Escolas. No Rio Grande do Sul, atribui a São Gabriel os apelidos de "Atenas Rio-Grandense" e "Princesa das Coxilhas" (v. dados da prefeitura gabrielense e do historiador Cláudio M. Bento). A referência a Pelotas como "Atenas do Rio Grande" se encontra na pesquisa de Mário Osório Magalhães "Opulência e cultura na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul: um estudo sobre a história de Pelotas 1860-1890" (UFPel/Mundial, 1993). 

domingo, 1 de novembro de 2015

Dark City apresenta edição revisada

Edição revisada já está à venda na Mundial.
O livro "Dark City: figuras e figuraças de Pelotas" esgotou sua primeira tiragem em 2013 e agora é reapresentado pelo seu organizador Márcio Ezequiel. A edição corrigida e revisada traz o mesmo conteúdo, que caiu no agrado dos pelotenses, e a mesma capa, que mostra o lado escuro de uma cidade oficialmente luminosa.

A ideia parecia ousada demais no início, pois revelaria detalhes que não saem nos jornais nem nos livros de história mas são sabidos pelos habitantes da cidade. O sucesso da iniciativa mostrou, no entanto, que a Princesa gosta de se mostrar em seu lado oficial e em seu lado B, o mais obscuro e menos falado.

Afinal de contas, o conjunto da obra não é tão sombrio como prometia: as figuraças marginais ou marginalizadas são abordadas, mas os abordadores não se comportam de modo marginal. O leitor encontrará, por primeira vez num livro, descrições não oficiais de personagens históricos e relatos nunca publicados sobre figuras reais como o Miloca, o Alfredinho ou o Tarzan, mas sempre em linguagem respeitosa, para o que o leitor não se ruborize nem pense em abrir demandas judiciais. Sobre um possível segundo volume, com mais personagens, ainda não se sabe se um dia será realizado (diz o organizador que dependerá do sucesso desta segunda edição).

Já disponível para venda na Livraria Mundial, o trabalho coletivo de 18 autores locais terá sessão de autógrafos em Porto Alegre (4-11) e Pelotas (7-11), nas respectivas feiras do livro, às 19h. Quem conseguiu comprar a primeira edição, guarde-a como lembrança cult; quem não conseguiu, terá agora a versão do diretor [confira os outros 55 lançamentos da Feira 2015].

POST DATA
7-11-15
Manuel Padeiro, líder quilombola, pesquisa deste blogue em 2010, originou artigo do livro.
Em 2012, o organizador-autor revelou o Projeto Dark City antes de publicá-lo.
Em 2013, por ocasião do lançamento, o Diário Popular anunciou O lado escuro da memória.
Há uma semana, o co-autor Manoel Magalhães comentou a obra em Dark City e o lado mítico das sombras.

sábado, 3 de outubro de 2015

O primeiro negro que jogou no Pelotas

Dribla
Dupla/corre/bola
Sorri correndo
Joga ...

Nego
Fiz do tempo o que quis ... mas nego
Os negros fizeram história/memória/capítulo
A contagem dita ...
Conto do conflito
Forma clara para/por todos os homens

E passamos por cima dos fatos
Atos deles e nossos ... humanos claro ... claros
Um passado racista nesses jogos marcados.
Sonha correndo ... joga
Corre jogando ... chora

Capítulos da história

O futebol mexe com as pessoas. Suas regras e disputas.
Antigamente dizia-se gôlo no Rio Grande do Sul e torcia-se pelo jogo. Hoje torcemos pelo ídolo/jogador. Um calor fervoroso, interno, quase religioso. Associação deste esporte/indústria. O esporte salva/integra. Mas e o dinheiro, não !?.
Nathanael Anasttacio

Antologia de 2001.
O escritor Lourenço Cazarré começou a desenvolver, por volta de 1985, um conto sobre o futebol pelotense, a partir de um episódio que seu avô dizia ter visto de perto nos anos 30. O texto viu a luz em 1989, no livro "Noturnos do amor e da morte", com o título de "Meia encarnada, dura de sangue"(v. perfil do escritor e outros dados biográficos de Cazarré).

Naqueles tempos de heroísmo e amadorismo, um craque teve que ser comprado ao inimigo. Hoje o desamor à camiseta é coisa trivial; naquela época, não era fácil ser "profissional" (leia crítica literária de Iuri Müller para o Sul21 e comentário no Blogrêmio).

A TV Globo adaptou roteiro à base desta história (série Brava Gente, dez.2000), com direção do gaúcho Jorge Furtado para a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre (v. detalhes técnicos):
No interior do Rio Grande do Sul, em 1953, o craque Bonifácio (Sérgio Menezes) vive um dilema. Jogador de um time integrado por negros e pobres, ele é convidado a fazer parte da equipe dos brancos e ricos. Seria a chance de oferecer uma vida melhor à namorada, a doméstica Elisa (Camila Pitanga).
O conto foi incluído numa antologia de 2001 com contos gaúchos sobre futebol  (v. análise da Trivela sobre o livro, organizado por Ruy Carlos Ostermann). Em 2003 foi escolhido como um dos 35 Melhores Contos do Rio Grande do Sul e em 2005 Cyro de Mattos o incluiu nos "Contos Brasileiros de Futebol" . Na transcrição abaixo, foram omitidos os primeiros parágrafos.

Meia encarnada, dura de sangue
Lourenço Cazarré

Então o meu avô contou a história do crioulo. Ele tinha várias histórias de futebol porque ele mesmo havia sido um jogador, um ponta irritante, daqueles pequenos que são como flechas e que, por não terem nem altura nem força, se obrigam a ser mais velozes e mais matreiros e mais gambeteiros e mais debochados, para irritar os laterais. O velho dizia que naquele seu tempo, sim, aquilo era um esporte para homens, porque os juízes só marcavam falta se o agredido sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado. E falava de como eles se cuspiam e davam cotoveladas e socos e como gostavam de esfregar as garradeiras na cara dos outros e demais barbaridades.

Mas voltemos ao rio, deixemos as vertentes. O tal crioulo esse foi uma espécie de primeiro profissional da cidade. Não sei quando, mas creio que pelo meio ou pelo final da década de trinta, porque o velho contou que por esse tempo, esse sujo tempo em que os atletas ganhavam dinheiro pela sua arte, já estava fora dos campos, ele já estava fora dos campos, com os joelhos arrebentados.

Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. O campo deles ficava nos banhados da Estação Ferroviária. O crioulo, aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de gols da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. E jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, como queria também que seu marcador ficasse por terra, e gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. Conheces o tipo, não é? Não era um sorriso, era um arremedo de sorriso, uma máscara ridente que nada tinha a ver com o que lhe ia pelas entranhas. Ele ria daquele jeito só para enfurecer os adversários, para fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo.

Nada pior pro time da gente do que jogadores de cabeça quente, a gente grita que quer sangue – mata este filho da puta! – e ele parte pro pau, mas aí o jogador frio sempre dá aquele pulinho pro lado, aquele toque sutil, e ganha a parada.

Era assim dentro de campo, implacável. Fora, era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, silencioso, cerimonioso. Saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola.

Reedição de 2005.
Trabalhava num matadouro. Mas não sei te dizer qual. Ficava pras bandas do porto. Ele também morava por lá, naquela ruazinha que corre paralela ao canal e que devia ser naquela época ainda mais escura e suja. Ele e a velha sua mãe, viúva. Durante a semana, gastava o dia dentro daqueles galpões sombrios – iluminados apenas pelo cintilo fugaz dos facões afiados – resvalando pelo chão ensanguentado.

Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais.

Aos domingos, brilhava nos campos.

Depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores negros ou mulatos. E o meu avô dizia: "Está certo que esses negros são uns mandriões, e conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas o certo é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bastante bons". Então um inglês, que palpitava muito nas reuniões de diretoria, tanto encheu que acabaram aceitando conversar com o crioulo. Um dos diretores do clube, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos numa espiga, disse mais: que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá pros lados da Cerquinha. Se aceitasse, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time. Então mandaram alguém falar com o rapaz.

Ele morava num rancho de paredes vacilantes e teto de palha. Muitas vezes no verão, nas cheias do rio, tinha que botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, que moravam nas Terras Altas. Baixava a enchente, lá vinham ele e a velha, de volta. Mas não foi isso que decidiu.

Ele demorou muito para aceitar. Não que estivesse negaceando, como fazem os jogadores de agora, para conseguir contratos melhores. Gastou dois ou três meses pensando os prós e os contras, porque sabia que a partir do momento em que concordasse não seria apenas o crioulo: seria o crioulo vendido. E o meu avô dizia: a gente de hoje não tem ideia do que se passou pelo coração do mulato, coitado, que nem mais dormia pensando no que devia fazer. Naquele tempo o valor dos homens era medido não pelo seu dinheiro mas pela capacidade ou incapacidade de manter a palavra empenhada.

Por uma mulher, decidiu-se.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Cartão telefônico homenageou Simões (2003)


Em 2002, o Instituto João Simões Lopes Neto propôs à Brasil Telecom a criação de um cartão telefônico alusivo ao mais importante escritor pelotense. Na época, o Instituto já havia adquirido a casa da rua Dom Pedro II nº 810, onde Simões havia morado entre 1897 e 1907, e que estava em reformas para sediar a instituição.

O cartão foi finalmente lançado na segunda-feira 24 de fevereiro de 2003, contendo, no anverso, imagem da fachada (dir.) e no verso, breve histórico do personagem (v. notícia do Diário Popular, 25-2-03). A data foi escolhida por proximidade com mais um aniversário do escritor, nascido em 9 de março de 1865.

A cada ano, os simoneanos comemoram esse aniversário com anúncios importantes e com homenagens como esta. Por exemplo, em 9 de março de 2006 o Instituto abriu suas portas ao público, na casa planejada para tal, e que foi recuperada ao longo de anos.

Ironicamente, o cartão telefônico que quis evocar a importância deste prédio tem, agora, somente valor histórico; seu uso e sua lembrança foram tão breves como a passagem do Capitão por esta casa (se bem seu espírito segue vivo e presidindo os bons resultados das iniciativas do Instituto). Os tempos mudaram rápido e, hoje, teria que ser criado algum aplicativo que divulgasse a vida e a obra do famoso autor.

Nos dez anos em que viveu neste prédio da rua Dom Pedro II (na época, rua Sete de Abril), João Simões Lopes Neto escreveu nove obras (v. notícia do Diário Popular, 9-3-03):
  • em 1900, "O Palhaço", cena dramática, e a comédia "Fifina";
  • as comédias teatrais "Jojô e Jajá e não Ioiô e Iaiá", "Querubim Trovão", "Amores e Facadas" e "O Maior Credor", todas em 1901;
  • "Por Causa das Bichas", comédia (1903);
  • em 1905, "A Cidade de Pelotas (apontamentos para alguma monografia para o seu centenário", que apareceu no segundo volume dos Anais da Biblioteca Pública, embrião da Revista do Centenário, de 1911 (v. cronologia);
  • a lenda "O Negrinho do Pastoreio", publicada primeiramente no Correio Mercantil de 26 de dezembro de 1906 (v. cronologia);
O Instituto João Simões Lopes Neto foi fundado em agosto de 1999, a partir do Núcleo de Estudos Simoneanos, que desde 1995 se reunia em diversos locais. Com o estabelecimento da entidade num local fixo, ligado à pessoa e à história do escritor, Pelotas ganhou uma verdadeira e completa instituição para o desenvolvimento de sua vocação intelectual e cultural.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Poemas dedicados a Pelotas

Pelotas, minha cidade, de Sérgio A. O. Siqueira (1968).
Canção de amor a uma cidade que é minha, de Joaquim Luís Duval (1980).
A flor do sal, de Mário Osório Magalhães (1999).
Um pouco de Pelotas (em mim!), de Fábio Gonçalves Zündler (2007).
Querido Laranjal!, de Beatriz Araújo (2010).
Princesa, de Manoel Soares Magalhães (2012).
Por uma tarde de julho, de Joaquim Moncks (2013).
Reflexão e cafeína, de Alexandre Vergara (2013).
Soneto para o Café Aquários, de Vilmar Gomes (2013).
Amor e ódio, de Nauro Júnior (2014).

Minha Terra
Lá, na minha terra, quando
O luar banha o potreiro,
Passa cantando o tropeiro,
Cantando, sempre cantando;
Depois, avista-se o bando
Do gado que muge, adiante;
E um cão ladra bem distante,
Lá, bem distante, na serra;
Nunca foste à minha terra?!

Enfrena, pois, teu cavalo,
Ferra a espora, alça o chicote
E caminha a trote, a trote,
Se não quiseres cansá-lo.
Ainda não canta o galo,
É tempo de viajares.
Deixarás estes lugares,
Irás vendo novas cenas
Sempre amenas, muito amenas.

O laranjal reverdece,
E ao disco argênteo da lua,
Logo os olhos te aparece
A estrela deserta e nua.
Francisco Lobo da Costa

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Poesia para namorados


Para lembrar o Dia dos Namorados, Nauro Júnior recordou no Facebook o poema "Briga", uma de suas "Andanças Imaginárias", com ilustração de sua jovem filha, Sofia Machado. O livro a quatro mãos apareceu na Feira do Livro de 2014 (v. nossa nota Nauro poetiza a vida).

Abaixo, a homenagem alusiva à modernidade: mesmo com a mais alta tecnologia, somada ao individualismo dos seus adeptos, o amor a dois sobrevive (no fundo musical, a primeira das Gimnopédias de Eric Satie, em tempo acelerado).


Nesta sexta (12-6), a Sociedade Música pela Música preparou um programa especial de música, luzes e cenografia, dedicado à paixão e aos namorados. O palco da Praça de Alimentação da Fenadoce 2015 se encheu de músicos que representaram o amor em diversos idiomas, apresentando canções de várias épocas e origens.

Segundo a notícia do evento artístico, que foi dirigido por Sérgio Sisto e Fernando Montini, "a criatividade foi a palavra-chave para o ambiente montado no palco: mesas de jantar, garçons, louças, roupas de gala" (v. texto completo com fotos de Marcel Streicher e clique nelas para ampliar).

PD 13 junho
Ainda na FENADOCE, uma declaração de amor foi feita em público, aproveitando a novidade e a notoriedade do recurso tecnológico "Realidade Aumentada" (v. notícia). O que deveria ser íntimo e real foi levado à publicidade e à virtualidade. Há um ano, mas não no Dia dos Namorados, outro jovem quis chamar a atenção no shopping pelo mesmo meio, sem tanto sucesso (v. nota neste blogue).

terça-feira, 9 de junho de 2015

8ª FestiPOA homenageia Vítor Ramil


"Vitor Ramil: Nascer leva tempo" é um estudo de autoria do professor Luís Rubira sobre a obra musical de Vitor Ramil, que será lançado este mês, na FestiPoa Literária 2015. A obra tem o subtítulo "Identidade, autossuperação e criação, de Estrela, estrela a Longes" e é editada pela Pubblicato, que divulga a seguinte resenha.
Um livro sobre Vitor Ramil, artista cuja obra desloca-se como a linha do horizonte? Ou um esforço para compreender um processo artístico, um percurso interior e uma concepção de “identidade” que considera o sul do Brasil como um lugar que está “no centro de uma outra história”? 
O ensaio que agora vem a público graças ao apoio do Fumproarte não tem a pretensão de enclausurar Vitor Ramil em conceitos, mas busca mostrar uma parte do itinerário do músico, compositor e escritor cuja arte, nas palavras do prefácio de Luís Augusto Fischer, “o tempo vai consagrar como uma das maiores experiências estéticas que o Rio Grande do Sul já teve”.
A 8ª Festa Literária de Porto Alegre abre formalmente na próxima segunda (15-6) às 19h, no Bar Ocidente, destacando o escritor homenageado este ano, o pelotense Vítor Ramil, que fará show dia 16 no Teatro CIEE. O grande evento dura até o dia 23 de junho.

Luís Rubira é professor da UFPel e já publicou, como autor: "Nietzsche: do eterno retorno do mesmo à transvaloração de todos os valores" (2010), "Sepé Tiaraju e a Guerra Guaranítica" (2012) e, como organizador, os 3 volumes do Almanaque do Bicentenário de Pelotas (2012-2014).


Fonte: Facebook

domingo, 8 de março de 2015

Infinita mulher (poema)

Desde que nasce preparada
Para os mais diversos papéis
Com muitas imposições,
O principal deles, ser mulher:
Feminina, magra de preferência,
Bem educada, com facilidade
Para aceitar hierarquia
Do pai, do marido, do chefe,
ter sempre um sorriso no rosto,
Delicadeza ao falar,
Ao homem não querer se igualar.
Mulher, rainha do lar,
Para o homem assessorar,
Mulher que aprendeu
A por sua liberdade lutar
E seu caminho foi buscar
Além de rainha do lar
Aprendeu a ser mãe,
Papel imensurável pelas alegrias
E pelas dores,
Desenvolveu-se profissional,
Foi para a rua trabalhar.
Pela ausência em casa
Carrega com dignidade
A pior das culpas
Por não ver os filhos crescerem,
Falar as primeiras palavras,
Dar os primeiros passos.

É sofredora como Maria,
Lutadora como Joana,
Pecadora como Madalena,
Milagrosa como Fátima,
De múltiplas facetas,
Todas merecendo o maior respeito.
Por isso, independente do nome, origem,
Credo, raça, profissão,
Merece todo respeito
Por desempenhar seus papéis
Com competência, bravura
E, acima de tudo,
Com muita doçura,
Marca indelével de toda mulher.

Isabel C. S. Vargas

Fonte: Diário da Manhã impresso, 3-1-15

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A solidão: dois olhares

Solidão.

O vazio existencial aprisionando-nos.

Podemos senti-la quando estamos a sós ou acompanhados.

O vácuo, porém, agiganta-se quando estamos realmente sozinhos, certos de que cair no abismo é inevitável.

Há quem diga que a solidão prefere olhar para dentro, distraindo-se com os escombros internos.

E o que deixa o solitário ainda mais triste é a certeza de que se perdeu no caminho, seja ele qual for, e que mergulhará definitivamente no buraco frio que abriu ao longo da existência.

Solidão.
Manoel S. Magalhães
Cultive Ler, 19-11-14


O artista plástico tem o poder mágico da imagem. Sem palavras, desperta emoções.

O escritor tem o poder mágico da palavra. Interrompe uma tragédia inevitável e a elabora.

Fotos: M. Soares

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Schlee fala sobre o mundo imaginado em sua obra

Na sétima entrevista da série Obra Completa, realizada com escritores gaúchos pela RBS, Schlee falou sobre sua carreira literária de três décadas. Acompanhe a matéria de Carlos André Moreira, publicada em 26 de outubro de 2013 (v. matéria completa na RBS).

Sobre "O Dia em que o Papa Foi a Melo", v. resenha de Iuri Müller no Sul21 e o artigo da Wikipedia em espanhol El baño del papa, que menciona o conto de Schlee como influência do filme — influência não assumida nem pelos cineastas nem pelo escritor.


Meus personagens são os rejeitados da sorte

ZH — Seus dois primeiros livros parecem comungar de um propósito: mostrar a fronteira como uma região de identidade única no tempo, no caso de "Contos de Sempre", e no espaço, em "Uma Terra Só". Foi um projeto consciente?

Schlee — Eu não gosto de dizer que eu tenha um projeto literário, que tenha pretendido exatamente: “vou fazer assim”. Não consigo entender nenhum colega meu, nenhum autor que tenha um projeto literário, não creio nessa definição. Comigo, o que aconteceu foi que eu tinha esses dois livros de contos que haviam vencido concursos, e os dividi no primeiro livro, mas tinha o impacto do tempo decorrido, e eu os inverti no volume, a seção que eu denominei "Contos de Ontem" eram os mais recentes, e os "Contos de Hoje" eram os mais antigos. Essa era uma perspectiva estritamente temporal. Já no livro seguinte, "Uma Terra Só", eu tinha pretensão de fazer o leitor atentar para um mundo que não é o verdadeiro, e sim o meu mundo imaginado, meu mundo literário, que eu pretendi conquistar e acabei por ele conquistado, porque não tenho condições de sair dele.

O escritor como leitor e espectador da vida

ZH — O senhor lida com o lado B da mitologia da formação do território. Em "Contos de Futebol", olha para o lado B de uma mitologia contemporânea, a do futebol. Foi um passo consciente?

Schlee — Não, eu queria apenas escrever um livro de futebol. A explicação está em um conto chamado Encanto de Futebol, cujo título diz tudo. Esse “encanto de futebol” contaminou uma série de coisas relacionadas à minha vida, o encanto com o futebol uruguaio em particular. Por isso esse livro saiu como Cuentos de Fútbol primeiro no Uruguai. É um livro uruguaio, ainda que não tanto como o "Limites do Impossível" e principalmente "O Dia em que o Papa Foi a Melo".

ZH — Em "Contos de Verdades", o senhor escreve “causos”, mas os chama de “verdades”, mesmo sendo histórias que se apresentam como verdadeiras, mas podem não ser.

Schlee — Eu não havia pensado nisso, mas é assim mesmo. Eu estou falando de “verdades” nesse livro mais ou menos do mesmo jeito que se desenvolvem os “causos”, as “fofocas”, para usar uma expressão mais vulgar, e que dão origem à construção de uma verdade que não é necessariamente verdadeira.

ZH — Nos seus dois primeiros livros, os personagens usam uma mistura de espanhol e português, como na fronteira. A partir de "Linha Divisória", não apenas o personagem, mas o próprio narrador deixa um idioma contaminar o outro. Por quê?

Schlee — Eu aprendi que é possível o narrador assumir a maneira de ser do personagem, deixando de narrar à sua própria maneira. Então, no momento em que estou fazendo uma narrativa referente a um personagem, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. Porque há uma dificuldade muito grande para qualquer autor que, como eu, trabalha com personagens rústicos, geralmente pobres, sem educação formal, como são os párias. Os meus personagens são os rejeitados da sorte. Essas pessoas não têm a minha formação, mas têm seu próprio modo de pensar. E quando tento reproduzir o pensamento deles, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. É uma coisa que eu vejo que enriqueceu muito a literatura do Simões Lopes Neto, por exemplo.

O Uruguai e o papa
ZH — É estranho o senhor falar na ausência de um “projeto”, já que os seus livros caracterizam-se por uma unidade temática ("O Dia em que o Papa Foi a Melo", "Contos de Futebol").

João Paulo II, o papa mais viajante,
esteve no Uruguai em 1988.
Schlee — São livros em que trabalho em cima de uma tese. Há um determinado momento nesse meu mundo literário em que descubro alguma coisa para desenvolver em forma de tese, para demonstrar ao leitor minha visão de mundo. Nesse aspecto, há um certo conteúdo pedagógico. É uma pretensão grande, mas eu vejo assim. Então, quando eu parto para um livro como "O Dia em que o Papa Foi a Melo", estou perplexo diante dessa visita do papa, sendo o Uruguai um país laico declaradamente. Não só porque está expresso na Constituição, mas porque o Uruguai é laico de fato, e em 1904 já não havia mais crucifixos em repartições públicas, uma discussão que fomos ter agora aqui no Brasil. Sabendo que nesse país laico, na sua zona mais pobre, paupérrima, o papa iria fazer uma visita, fiquei atônito. Então resolvi não ir a Melo no dia 8 de maio de 1988, o dia em que ele foi. Mas fui na semana seguinte. E consegui entrevistas e toda uma documentação para escrever um livro de contos.

ZH — O conto que abre o livro enfoca um padre em crise de fé que decide não ver o papa. É a representação desse confronto que o deixou perplexo entre a figura do papa e a laicidade do Uruguai?

Schlee — Exatamente. Esse padre, que, de certa maneira, sou eu, vai negar tudo, mesmo com todo seu conhecimento do cerimonial religioso. Ele não nega apenas a questão da visita do papa, o que é elementar, superficial. Ele contesta tudo, e isso está representado em pequenos detalhes de sua indumentária, da desolação do espaço onde ele vai se meter, uma paisagem à qual o papa não iria. Tudo isso está pesando em um conjunto do qual tentei fazer a receita desse conto, que é, de fato, uma história chave do livro. Depois tem algumas coisas no livro, como a negação do milagre, da possibilidade de um milagre... Eu não escrevi na ordem em que pus, fui alinhavando até chegar ao "Conto do Turco Jaber", que é um conto louco, que denuncia, entre outras coisas, essa questão da gauchidade. Porque nós temos uma dificuldade muito grande de sermos sul-rio-grandenses. O gentílico é dominado pela palavra “gaúcho”, que se tornou sinônimo. A distância é tão grande entre o gentílico e o significado maior da palavra “gaúcho” que escandaliza.

O Uruguai e o político
ZH — E o que o leva a "Don Frutos", um romance de 600 páginas?

José Fructuoso Rivera (1784-1854),
o 1º presidente uruguaio, esteve em Jaguarão.
Schlee — Eu não tinha alternativa. Estava atulhado de informação e comprometido com a necessidade de abordar o fato de que Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, esteve em Jaguarão, minha terra... Um sujeito desses passando pela minha cidade não pode me escapar. Então eu tive que me atirar em cima dessa história, com a ajuda de um pesquisador chamado Amílcar Brum, que se deu ao trabalho de ir a Montevidéu para desencavar tanto material que eu poderia ter escrito três livros, separando por temas. Por exemplo, coisas que não aparecem muito no livro, como a intervenção brasileira, uruguaia e argentina no Paraguai, que não está lá porque o Rivera morreu antes. Mas eu tinha o tema do Rivera em Jaguarão e por ali fiquei.

ZH — "Don Frutos" é singular por ser a única história em que o senhor enfoca uma figura de poder. O fato de Rivera estar doente quando chega a Jaguarão foi o que o tornou “humano” para ser abarcado pela sua ficção?

Schlee — Exato. No primeiro capítulo do "Don Frutos", a decadência física dele é notória, com o homem se mijando, dependendo da mulher e de um outro cara para ajudar a se movimentar, sem ter mais nada. E adiante no romance, a morte do Rivera pode ser lida de várias maneiras, até mesmo por quem domina a grande literatura uruguaia moderna, ao saber que aquele militar, que era o secretário particular do Rivera, Onetti, era de fato parente do Juan Carlos Onetti. Há um falso diálogo final, no qual Rivera se refere a seu ajudante Capitão Onetti, que é feito com uma colagem de textos do Onetti escritor.

ZH — Havia, então, uma dificuldade em lidar com a biografia de um símbolo político, dificuldade expressa na estrutura do livro?

Schlee — Tem outras coisas, como por exemplo a vinculação com os índios, ou o fato de ele os ter traído ou não, aquela famosa matança dos charruas. Eu estava sempre no fio da faca. O que eu tenho de documentação real do Rivera, conseguida pelo Amílcar Brum: são papéis do governo, da Assembleia Constituinte, da Câmara, do Senado, das igrejas. Agora, biografias do Rivera, eu tive que repassar todas as que havia disponíveis. Para as escritas pelos blancos, o Rivera era um bandido, ladrão, safado. Para os colorados, era um herói nacional, fundador do país. Eu tive que ficar em cima disso, e em nenhum momento pretendi que o leitor acreditasse que ele era bom ou mau. Eu queria, como fiz em toda minha ficção, fugir do maniqueísmo.

O Uruguai e o ídolo
ZH — Em "Os Limites do Impossível" o senhor mescla conto e novela numa trama única, tecida das histórias das mulheres que orbitaram o pai de Carlos Gardel. Como chegou a essa história?

Schlee — Essa história eu resolvi escrever no momento em que tive certeza de que era preciso denunciar as arbitrariedades do então presumido pai de Carlos Gardel a partir de tudo o que ele fez na política do Uruguai, mas particularmente em relação ao nascimento desse filho, fruto de estupro e incesto. Então achei que a narração não deveria se referir diretamente a ele, mas às mulheres que tiveram a ver, direta ou indiretamente, com o nascimento de Carlos Gardel.

ZH — "O Dia em que o Papa foi a Melo" e "Os Limites do Impossível" anteciparam respectivamente: "O Banheiro do Papa", longa ficcional de Cesar Charlone, e o documentário "El Padre de Gardel". Em ambos os casos não houve menção a seu tratamento anterior do tema.

Produção franco-uruguaio-brasileira de 2007.
O livro de Schlee é de 1991.
Schlee — O que eu fiquei estranhando é o quanto sou desconhecido. "O Banheiro do Papa" tem uma história que poderia ser inspirada no Conto V de "O Dia em que o Papa Foi a Melo", também chamado de "Melo Era uma Festa", com todas aquelas decepções dos personagens... O clima é o mesmo, os acontecimentos correspondem, os caras que fizeram o filme tiveram o mesmo sentimento que eu tive de identificação com aquelas pobres pessoas que gastaram os últimos centavos que tinham, mataram um leitãozinho de estimação, roubaram uma capivara para poder oferecer comida aos brasileiros, porque ia ter 40 mil brasileiros lá. Eram pessoas não à procura de um milagre, mas buscando criá-lo, e foram frustradas. O papa passou, virou lixo tudo aquilo. O filme mostra uma ideia que está lá no meu conto, a de alguém que pensa em fazer uma latrina. Mas o protagonista não está no conto, a guria que queria ser radioatriz não está no conto, e aqueles personagens me emocionaram às lágrimas. Não tenho do que reclamar, fico feliz que tenham feito um filme tão bom.

Esse documentário do Gardel eu não vi. Os fatos, os acontecimentos históricos que sustentam a minha ficção no caso dos Contos Gardelianos, são comprovados e são os mesmos que devem ter sustentado o documentário. Não tenho como me queixar de nada. Só fico com pena que estejamos tão perto e tão longe do Uruguai ao mesmo tempo, o que comprova que meu mundo literário é limitado e distante.

O Uruguai e a sexualidade
ZH — "Contos da Vida Difícil" retrata Jaguarão como ponto de passagem do tráfico de mulheres – na sequência da construção da ponte que liga a cidade ao Uruguai. Havia a intenção de confrontar essa ponte, signo de passagem, com a situação dessas mulheres, presas à prostituição?

Schlee — Bem observado. Se há alguma possibilidade de encantamento com esse tema, como também em relação ao futebol, é no fato de ser um assunto que Jaguarão considerou necessário esconder e fazer de conta que não é parte de sua memória. Isso aconteceu de uma forma que eu não procurei explicar, porque eu próprio não encontro explicação. Por que esses fatos raramente respingaram algumas famílias de Jaguarão? Por que a maioria das pessoas esqueceu tudo isso? Por que não se fala que o cabaré que foi tão importante, o do Tomazinho, ainda existe como prédio pertencente a um clube social, o Instrução e Recreio? Os sócios se envergonhariam de dizer “aqui funcionou um cabaré”? Não sei se terá sido isso, mas os acontecimentos eram tão contraditórios que em cima deles eu tinha de construir algo.


A matéria de Zero Hora foi acompanhada de um vídeo com trechos da entrevista (acima).

Fotos: RBS (1), Sul21 (2), Wikipedia (3)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A Seleta inspirou gerações (crônica)

O escritor Manoel S. Magalhães (esq.) suspendeu a edição do blogue Cultive Ler, no qual, há uns 4 anos, publicava textos seus e de comentaristas da atualidade. Mas não parou de escrever; até mesmo intensificou a produção de crônicas, que darão em novo livro, desta vez com caráter memorial, muito valioso para conhecer também a história e os costumes pelotenses. 

A seguinte crônica, tomada de sua página no Facebook, se refere a um livro que marcou a infância do autor, "Seleta em Prosa e Verso", que o professor gaúcho Clemente Pinto organizou, em 1883, com trechos selecionados, e que educou gerações de brasileiros ao longo do século XX. A seguir, confira um desses trechos, escolhido por Manoel: "O apólogo das árvores", compilado pela "Seleta" de um dos sermões do Padre Antônio Vieira.


A Seleta apareceu em 1883.
Em 2001 saiu a 59ª edição (leia trechos).
Meu livro de cabeceira, quando pequeno, era "Seleta em Prosa e Verso", organizado por Alfredo Clemente Pinto (1854-1938). Decorei-o inteiramente, para surpresa de meus pais. Eu andava para baixo e para cima com o volume, praticamente em frangalhos. Lia-o de pé, sentado, correndo, nadando e voando...

Quando ganhei de presente História das Invenções, de Monteiro Lobato, deixei a Seleta numa espécie de nicho, aos pés de minha cama. De quando em quando eu a ele retornava, relendo as partes que mais me interessavam – que eram muitas, aliás. A obra de Monteiro Lobato me interessou muito, pois relatava a experiência dos mais fantásticos inventos.

O livro de Alfredo Clemente, todavia, era para mim o primeiro amor literário. E os primeiros amores, sejam eles quais forem, não são esquecidos jamais.

Lembro-me das noites de inverno, quando sob a luz dançante do lampião, ouvindo o vento confessando-se às árvores, eu ia lendo em voz alta as passagens mais interessantes. Tudo em volta silenciava para ouvir as narrativas.

Ainda hoje, embora tenha à disposição boa e eclética biblioteca, sou impulsionado a pegar a Seleta e correr os olhos pelos textos, acarinhando as páginas, a capa, a lombada... Sinto-me como se viajasse no tempo, voltando aos primeiros anos, retornando à época das ilusões, das construções das utopias, da engenharia dos mais improváveis sonhos... E tudo parece realizável, pois o retorno à meninice talvez seja a melhor maneira de acarinhar a abandonada mônada – o nosso verdadeiro ser.

Costumo dizer, para o espanto de muitos amigos, que a felicidade para mim tem cheiro... Cheiro de livro, de livro velho... Quanto mais velho, melhor. Não preciso dizer-lhes, após esta confissão, que o paraíso é tangível, sim... Bem terreno, ao alcance de nossas mãos.

Quando entro num sebo e pego determinado livro, levo-o, incontinenti, ao nariz. Quando dou sorte, o cheiro que o volume exala me conduz ao passado... Vejo-me outra vez sob a chama do lampião lendo o velho e carcomido volume da Seleta em Prosa e Verso. Respiro fundo e me sinto absolutamente vivo. E feliz!
Manoel Soares Magalhães
Facebook, 31-12-14


O apólogo das árvores
da Seleta em Prosa e Verso

O primeiro apologo que se escreveu no mundo (que é fábula com significação verdadeira) foi aquelle que se refere a Sagrada Escriptura no capitulo 9 de Juizes.

Quizeram, diz, as arvores fazer um rei que as governasse, e foram offerecer o governo à oliveira, a qual se escusou, dizendo que não queria deixar o seu óleo, com que se ungem os homens e alumian os deuses. Ouvida a escusa, foram à figueira, e também a figueira não quis acceitar, dizendo que os seus figos eram muito doces e que não queria deixar a sua doçura. Em terceiro lugar, foram à vide, a qual disse que as suas uvas, comidas, eram o sabor e, bebidas, a alegria do mundo; e a quem tinha tão rico patrimonio não lhe convinha deixa-lo para se metter em governos [versículos 8-13].

De sorte que assim andava o governo universal das arvores, como de porta em porta, sem haver quem o quizesse. Mas o [que] eu noto nestas escusas é que todas convieram em uma só razão, e a mesma, que era não querer cada uma deixar os seus fructos. E houve alguem que dissesse ou propuzesse tal cousa a estas arvores? Houve alguem que dissesse à oliveira que havia de deixar as suas azeitonas, nem à figueira os seus figos, nem à vide as suas uvas? Ninguem. Somente lhes disseram e propuzeram que quizessem acceitar o governo.

Pois, si isso foi só o que lhes disseram e offereceram, e ninguém lhes falou em haverem de deixar os seus fructos, por que se excusam todas com os não quererem deixar? Porque entenderam, sem terem entendimento, que quem acceita o governo dos outros só há de tratar delles e não de si; e que, si não deixa totalmente o interesse, a conveniência, a utilidade e qualquer outro gênero de bem particular e próprio, não póde tratar do commum.

Autor: Pe. Antônio Vieira (1608-1697)
do Sermão da Vigésima Segunda (v. parágrafo VI)
Fotos: MariMoon, Sebo do Messias

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ir ao mar (poema)

É hora de içar as velas, ajustá-las ao vento, pegar a bússola, deixar o pranto cair, desatracar o barco, desamarrar as cordas do passado e rumar ao oceano. 

Carrego algumas mágoas, mas a água salgada irá curar. 

O porto não é tão seguro, não possui o que quero no momento, 
então, é hora de partir, esperei demais. 

Eu vou, 
não volto, 
se não tive festa de despedida tua, não importa mais. 

Novos mares,
novos amares,
novos amores, estou chegando. 


Navegar é preciso, mas amar é preciso mais. 

Janaína Madruga da Rocha
13/01/2015.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saquinho mundo (poema)

Boné branco
Jaqueta branca
Sorriso branco
– Um saquinho doce, por favor ... 
– Como vai?
E assim se passam os anos
Para mim e o pipoqueiro da Praça.

A pipoca é tão branquinha!
Que maravilha seria se as almas dos seres humanos
Fossem pipoca! Doces ou salgadas – mas alvas, 
Isentas de preconceitos ou rigidez
Estando em harmonia no saquinho mundo!

E o que nos uniria a todos seria tão profundo,
Que, finalmente, se poderia afirmar, sem errar,
“Os homens são todos iguais!”

E estão felizes, a pipocar.
Loiva Hartmann
Poetisa e patrona do blogue

Sr. Élbio Borges, há décadas na praça Coronel Pedro Osório,
é o pipoqueiro mais antigo da cidade.

Foto: Alisson Assumpção

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Arte nos convida a recriar nosso Ser

A professora Loiva Hartmann, patrona deste blogue, nos envia uma mensagem de Ano Novo em forma de um miniensaio sobre o sentido existencial da literatura. Se descobrirmos que o roteiro de nossa vida pode ser desenhado e redesenhado como se faz com uma obra de arte, usaremos nossa criatividade, nossa capacidade de esperança e a virtude da solidariedade para fazer do mundo um lugar melhor para todos. 

Somos o que lemos, já disse um autor. Se algum dia abrimos os olhos para as coisas mais importantes da vida, é porque alguma ideia de um grande mestre chegou a nosso conhecimento, e nos fez depurar o que fazemos na vida. Se queremos um mundo melhor, comecemos por nós mesmos, por nossa inteligência e criatividade. Que este pensamento nos faça extrair do ano 2015 as máximas gratificações, para nós e nossos iguais.

A Ponte JK, sobre o Lago Paranoá em Brasília, é um arrojado projeto do arquiteto Alexandre Chan.
Seus arcos diagonais foram pensados para sugerir o movimento de uma pedra quicando n'água.

Pensar a arte é pensar a existência e a estrutura que a possibilita

A crise da modernidade é a consciência de que um único modelo filosófico não contempla todos os domínios do saber humano. Dá-se então a irredutível ruptura entre o conhecimento filosófico e o científico. Como diz o sociólogo alemão Jürgen Habermas (nascido em 1929),
"temos que perceber os sinais de um novo tempo, uma nova época, um novo princípio não organizador da história em períodos, de um novo princípio que nos faça perceber as coisas de outra maneira, em nível de razão, em nível de compreensão do ser humano na história" [citado do livro "Epistemologia e Crítica da Modernidade", do professor gaúcho Ernildo Stein, 1991, p. 23].

Pensar a arte é pensar o que somos

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) vê a arte como uma forma de atingir a totalidade do real, de compreender a existência.

Recriar o real é ver o que está subjacente ou latente, é sentir ou pressentir a articulação primeira da obra. Na criação artística, para Aristóteles, a mimesis (imitação mimética do mundo real) instaura um valor que constitui um apelo a todos os homens, e a catarse (purificação emocional) é o grau mais acabado da libertação promovida pela arte, sendo que ambas se unem na tensão estrutural [conforme o acadêmico Eduardo Portella em "Teoria da Comunicação Literária", 1976, p. 46].

A vida humana é como uma amarelinha,
um perneta querendo chegar ao céu.
Para senti-lo, é preciso ler o livro de Cortázar.
Pensar nosso texto criativo

Na literatura, a criação apresenta várias faces: 1) o Tema, que é o impulso que leva o artista a criar certo conteúdo; 2) a Estrutura, que é a organização da obra em si; 3) o Modelo: este decifra a estrutura na medida que mostra sua dinâmica, indica uma direção de sentido e desencadeia a sensibilidade do leitor – ele se constrói com dados da época e da situação da obra lida ou investigada.

Há dois tipos de narrativas literárias: as de estrutura simples, de fácil compreensão, e as complexas, onde são introduzidos estranhamentos, alterações nos elementos convencionais até que eles se tornem polissêmicos, ampliando sua carga de informações. Estranhamento é desvio da norma, é uma expansão do significante na construção das frases, na articulação das personagens, é ruptura com o significado.

A complexidade do texto literário aparece em três níveis: da narrativa, das personagens e da língua. A obra de narrativa complexa não tem fim nem começo, e o início é uma continuação do final. Alguns exemplos são "Grande Sertão: Veredas" (Guimarães Rosa, 1956), "Rayuela" (J. Cortázar, 1963) e "Cien Años de Soledad" (G. García Márquez, 1967).

As personagens complexas rompem com a lógica do espaço e do tempo, são universais e atemporais. Poderiam ser outras: Cristo, Virgem Maria, El Cid [ver "Em memória de João Guimarães Rosa", de Carlos Drummond de Andrade, 1968, p. 15].

Sendo a linguagem literária imagem, está explicado por que as manifestações literárias complexas não se utilizam da linguagem – mas criam uma nova linguagem, um novo estilo, produzem palavras, significados e ordens gramaticais.

Com "A Mão e a Flor", escultura em aço, Oscar Niemeyer agradeceu à França por tê-lo acolhido.
"Desejo ver um mundo fraternal, em que as pessoas não queiram descobrir o defeito dos outros,
mas sim tenham prazer em ajudar o outro", disse o artista.
Analogamente à literatura, podemos descobrir que nosso Ser íntimo é como uma narrativa complexa que se desenvolve sem início nem fim, de modo repetitivo ou como continuação de nossos pais, avós e bisavós. Que dentro deste Ser local existem personagens arquetípicos da Humanidade, como vilões, sábios, heróis, bruxos, cuidadores. Ou que nossa lógica linguística pode ser usada e recriada de diversas formas.

Recriar a linguagem, em Rosa

A literatura de João Guimarães Rosa (1908-1967) é, no grau mais absoluto, instauradora, fundadora. Sua obra pode ser analisada por diversos prismas, tantas seriam os estranhamentos e as contradições. Mas é a partir delas que se vai esclarecer e divisar realmente seu alcance.

Rosa despertou as inusitadas palavras e fez com elas o que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer fizeram com espaços e linhas, em Brasília e no mundo inteiro. Serviu-se de recursos que vão desde a criação linguística pessoal até a mistura, artisticamente dosada, de vocábulos arcaicos e modernos, nacionais e estrangeiros, eruditos e populares, ao jogo exótico das palavras na frase, obtendo efeitos surpreendentes, no ritmo e na sonoridade.

O vocábulo inédito leva ao âmago das coisas. É, em Rosa, uma necessidade temática profunda. Na gramática, seus gerúndios ou particípios equivalentes a orações, alguns até precedidos de conjunção, constituem tradição milenar da linguagem oral. Rosa sabe, como pesquisador devotado e profundo conhecedor de várias línguas, que linguagem é criação contínua, e, com seu temperamento de relojoeiro, deforma e remonta uma gramática e uma retórica que têm ignorado importantes possibilidades da língua portuguesa.

Em carta a seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason (1910-2012), referindo-se ao Quem de sua língua, Rosa afirmou:
“A língua para mim é instrumento: fino, hábil, abarcável, penetrável, sempre perfectível. Mas sempre a serviço do Homem e de Deus, da Transcendência” [tomado do livro "João Guimarães Rosa", vários autores, UFRGS, 1969, p. 132].
A obra de Rosa é eminentemente humanista, a exemplo dos alemães Thomas Mann (1875-1955) e Hermann Hesse (1877-1962). Contrapõe-se ao niilismo do irlandês James Joyce (1882-1941). A religiosidade de Rosa é vivencial, é intuição do universo, é o sentimento da radiosa aventura humana no mundo. Pelas falas de seus personagens, depreende-se que Deus é o sim, é a justiça, enquanto o Diabo é o não, é o mal, a guerra: é a desordem que se opõe à ordem. E nessa polaridade vive o homem.

A Santa Casa de Pelotas foi construída em partes, desde 1867 até 1934.
Por isso mostra notórias assimetrias e mesclas de estilos formais {foto H. de Borba].

Pensar-se a si mesmo é pensar o Ser

Pensar a arte é pensar a existência e a estrutura que a possibilita. Assim como o filósofo e o cientista buscam novos modelos e novos paradigmas, o artista busca novos temas, novos esquemas e novas linguagens para suas obras e projetos.

Os mais rupturistas e inovadores foram os que permaneceram na memória dos séculos e no registro das enciclopédias. Ao buscar novos caminhos, os revolucionários questionam a própria organização do que já existe, e assim fazem uma pequena e focada filosofia da existência.

Cada início de ano nos sugere: podemos reiniciar a vida, rompendo esquemas limitados de nossa estrutura, de nosso comportamento e de nosso Ser. Que este 1º de janeiro seja uma oportunidade para que, como os grandes escritores e os grandes sinfonistas, repensemos nosso roteiro de vida, para reinventar nossas personagens e readaptar nossas mimetizações no mundo real.

Loiva Hartmann
Academia Pelotense de Letras

A orquestra francesa Concert Spirituel recriou efeitos do séc. XVIII pedidos pelo rei George II
na "Música para os Fogos de Artifício", apropriada para celebrações como o Ano Novo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

"Uma corte nos pampas", a burguesia monarquista

O Mercado Central de Pelotas era assim
no século XIX. Foi mandado construir
logo após a visita do Imperador em 1866.
Em seu mais recente livro, a pesquisadora Zênia de León relata o lado humano dos titulados da nobreza pelotense do século XIX. De acordo ao blogue da Academia Pelotense de Letras, a escritora apresentou em outubro passado "Uma Corte nos Pampas", em primeira mão, no Museu Imperial no Rio de Janeiro, e em Petrópolis, onde se encontrou com descendentes do Imperador.

Posteriormente a obra foi apresentada, na Feira do Livro de Pelotas, pela Livraria Mundial, que está reeditando alguns livros de Zênia. Leia abaixo trechos do Prefácio, escrito pela pelotense Arita Cheuiche Godoy.

O governo de Dom Pedro II designou como barões e viscondes alguns de seus fiéis seguidores no extremo sul, homens que atuaram como empresários e políticos, benfeitores do Império, especialmente entre 1845 e 1888. Por seu baixo número e por sua proximidade com o poder, esse grupo de milionários, muitos deles sem linhagem nobre, constituía uma verdadeira "corte real". A ausência de um rei ou rainha nesse ambiente de opulência permitiria denominar esse grupo como "corte irreal". Em linguagem de hoje, os chamaríamos jet set ou "classe A".


Prefácio

A autora Zênia de León já nos apresentou inúmeros trabalhos em algumas linhas de produção escrita. Entretanto, é na área da pesquisa histórica que reside todo um potencial importante. É o gosto que tem por descobrir novidades históricas, episódios. Como este que agora nos brinda: saber um pouco mais sobre a nobreza em Pelotas.

Porque a cidade teve tantos titulados do Império e que atuaram como economistas, industriais, guerreiros, beneméritos, políticos, que representaram uma parcela influente na comunidade, aqui está sua presença. O que mais destaca neste trabalho é a ideia de uma corte quase autêntica. Só não autêntica por não ser real no sentido de existir. Mas real pelos aspectos comuns a uma corte. Vejamos:

A formação social no sul da antiga província era diferenciada. Corria paralela à “grande corte”, no Rio. Era absurda, antagônica, servil. Pensava-se na liberdade escrava, mas tinham-se escravos. Dessa ambiguidade nasceu o apogeu financeiro, o progresso, o refinamento, e nasceu também o próprio desejo de liberdade do gentio. Se “o rei de Portugal se estabeleceu no país em 1808 para criar um poderoso império no Brasil”, poucos anos depois se estabeleceria uma “corte fictícia” em Pelotas.

A corte em Pelotas, embora fictícia, é reveladora, merece ser contada por ter feito parte de um ciclo importante, o das charqueadas, da opulência e da cultura, e seu legado está aqui para se ver. A opulência arquitetônica como um bem inigualável da monarquia, a fundação de liceus, fábricas de azulejos, vidros coloridos, chapéus, carruagens...

Aspecto interior do Solar do Barão de Três Serros,
hoje restaurado e conhecido como Museu da Baronesa.
Homens pardos e mucamas iam ao mercado fazer compras, mas sinhazinhas acompanhadas lá compareciam para dar um toque da presença de cortesãos ao local. No mais, a “corte dos Pampas vivia esquecida, tranqüila, escondendo nas senzalas por mais de setenta anos uma mercadoria encalhada a trabalhar sob a chibata.

E era no subsolo dos casarões que se escondiam os obreiros da cidade. Em cima, uma biblioteca de causar inveja. Na economia, o apogeu das charqueadas; nas senzalas, o cansaço do escravo; nos salões, as luzes dos lustres acesos e nos porões, a escuridão dos catres.

A escritora está sendo corajosa ao tratar de um sistema extinto e sumariamente desprezado. Mas a História precisa de um registro. Este registro está sendo marcante. Abrem-se novos horizontes e novos olhares depois da leitura deste livro, temos certeza.

Na verdade, o livro que a escritora e pesquisadora Zênia de León nos apresenta é um retrospecto de informações, com fatos históricos vistos por olhos perspicazes que analisam o lado humano de uma geração extinta, os monarquistas. Foram quase dois anos de investigação sobre o tema para resgatar de forma acessível o que se passou há duzentos anos, no papel de seus figurões, protagonistas de uma história ainda não de todo explorada.

A verdade é que dificilmente se poderá encontrar um escritor, sobretudo no século XXI, que não reflita sobre tudo no século XX, de maneira a julgar com justiça e parcimônia os prós e os contra de um sistema.
Arita Cheuiche Godoy

Casa 2: Barão de Butuí. - Casa 6: Barão de São Luís. - Casa 8:  2º Barão de Cacequi
Imagens: APEL (1), ASCOM (2), 19&20, fig.01 (3)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

As aventuras do avião vermelho (1936-2014)


Estreou hoje (11-12) o longa animado "As Aventuras do Avião Vermelho", que resgata a obra infantil homônima de Erico Verissimo (1905-1975), o máximo escritor gaúcho (v. Wikipédia). Confira horários no Cineflix do Shopping Pelotas.

Companhia das Letras, 2003
Precisamente no ano de publicação do livro "As Aventuras do Avião Vermelho", 1936, nascia Luís Fernando Verissimo, o único filho homem de Erico. Em 1933, o escritor havia publicado "Clarissa", e em 1935 nascia sua primeira filha, batizada como a personagem de seu primeiro romance (leia um testemunho dela em 2013).

A história conta como um menino de 8 anos (chamado Fernando) lida com a hiperatividade decorrente da falta da mãe e a consequente necessidade de se afirmar como homem, com apoio do pai, valorizando as ações construtivas, a força da imaginação e a superação dos medos. Quem faz a voz do avião é o consagrado ator Milton Gonçalves, hoje com 81 anos, que em seus inícios trabalhou como dublador.

A temática do avião vermelho tem evidente inspiração no piloto militar alemão Manfred von Richthofen (1892-1918), conhecido como Barão Vermelho, personagem histórico que já rendeu livros e filmes. O nome do personagem Capitão Tormenta, que aparece dentro da história de Erico Verissimo e no filme em estreia, é uma homenagem ao livro de aventuras fictícias do italiano Emilio Salgari (v. Wikipedia), Capitan Tempesta, publicado em 1905.

Assim como as movimentadas aventuras do avião de Fernando ao redor do mundo, o filme gaúcho passou por muitos anos de pré-produção, desde 2003 até chegar hoje às salas de cinema de todo o Brasil. Veja outros filmes da produtora gaúcha OKNA e os vídeos de produção do filme no canal Avião Vermelho.
Imagens: Blog MPC (1), Adoro Cinema (2)

sábado, 29 de novembro de 2014

Pergunte pelos sonhos (poema)


Onde perdi meus sonhos de menino?

John Fante perguntou ao pó
Eu pergunto às estrelas
Aos mares
Aos córregos
Às árvores
– Onde perdi meus sonhos?
Meus sonhos de menino...
Incrédulo diante do invisível?

Onde perdi a luz primeira?
Chama que acendeu minha alma
Onde perdi as asas?
Onde perdi as guelras?
Onde enterrei a vontade...
O impulso de chegar à aurora do mundo?
     Em que nuvem jaz o segredo desvendado
     Que deveria ter pingado na terra
     E regado a magia da existência?

John Fante perguntou ao pó
Eu pergunto às estradas
Às pedras
Às ervas daninhas
Às pegadas
– Onde perdi meus sonhos?
Meus sonhos de menino...
Pasmo diante do universo?

Preciso perguntar ao
Novo homem que nasceu em mim...
Manoel Soares Magalhães
Foto: Nauro Jr.
Texto: Facebook
Leia sobre  "Pergunte ao Pó".

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Joaquim Luís Duval


O Tempo

Cai o tempo
pela tarde mansa
e lento escorre
por entre as velhas mãos.

Cai assim:
como chuva em antigos sítios,
e se dispõe
por entre heras
e cabeças anciãs.

Pára, por instantes,
hesitante...

Mas, sempre incapaz de se deter,
anima-se
e retoma, súbito,
sua marcha sem fim
em busca do esquecimento.


Joaquim Luís Duval é poeta pelotense, nascido em 1945, autor de "Minha gente" (1976), "Tempo provisório" (1979), "A palavra no espelho", com fotografias de Anabela Barbosa (1980), "Exercício de multidão", com poemas de 1980-82 (2002) e "Diálogos do silêncio" (2005). 

Sem lançar livros durante duas décadas, o poeta seguia produzindo e às vezes publicava no Diário Popular. Seu pai, Joaquim Duval, havia sido prefeito de Pelotas (1948-51), deputado estadual (1947-48) e federal (1956-64).

Em 1986, Joaquim Luís escreveu e produziu para a Rádio Cosmos, da UFPel, a série de programas "O artesanato doceiro em Pelotas", que reuniu pesquisas sociológicas e entrevistas com doceiras locais ("Xarque com assucar/Pelotas com Nordeste: contraponto de extremos no paladar cultural brasileiro", de Leonil Martinez, UFSC, 2000, p. 12, disponível na internet). 

Para o quinto livro de Duval ("Diálogos do silêncio"), o seu editor, Mário Osório Magalhães (1955-2012), assinou o prefácio, o qual publicou com leves modificações no Diário Popular (13-11-2005), e reeditamos a seguir.



Joaquim Luís Duval publicou três livros de poemas no espaço de cinco anos: entre 1976 e 1980. Depois houve um longo intervalo e o seu nome só voltou a ocupar as prateleiras das livrarias, com obra nova, em 2002. Mas sei, porque acompanhei a sua trajetória, que há mais de 20 anos ele já havia aprontado o seu livro mais recente. Não só aprontado, no que diz respeito à feitura dos poemas: desde o início da década de 1980, "Exercício de Multidão" estava diagramado, composto e ilustrado, com as belas imagens elaboradas pelo irmão, o artista plástico Fernando Duval.

Por que escrevo isso? Em parte, por cacoete de ofício: para estabelecer, na condição de historiador, uma ordem cronológica na produção do poeta; em parte, para dizer que, quando foi impresso e posto em circulação o seu último livro, os pelotenses e eu estávamos habituados com outros poemas de sua autoria, além daqueles que figuravam, na sua rica bibliografia, até o dia de ontem.

5º livro de J. L. Duval (2005)
Que poemas eram esses? Os que foram editados sob o título de "Diálogos do Silêncio". São 78 poesias, muitas das quais Joaquim Duval divulgou, durante as últimas duas décadas, na página literária do Diário Popular.

Lembro que há três anos, quando saiu "Exercício de Multidão", anunciei a Nara, sua mulher, que escreveria um texto, se não sobre a obra, sobre o amigo Joaquim Luís, no Diário. O artigo não saiu: teria que falar, necessariamente, sobre a obra. Embora diga e repita que Joaquim Duval é para mim o maior poeta pelotense da atualidade (e não um dos maiores, veja bem o leitor), não tive fôlego para me aventurar nesta outra espécie de exercício, talvez tão temerário quanto o de multidão: o exercício da crítica.

Mas é preciso que diga, ainda que com humildade e com escassas palavras: considero este versejador um poeta maior porque a sua produção, cheia de ritmo, ocupa-se de coisas concretas, como árvores, ventos, chuvas, remédios, viagens, bagagens. Não trata de puras abstrações do espírito e da alma (que, para mim, só cabem em livros de filosofia ou de autoajuda, estes infelizmente tão em voga hoje em dia).

"Diálogos do Silêncio" fala de sentimentos, mas quase sempre tomando objetos como pontos de referência. Indaga verdades de coisas palpáveis, que não se comunicam, que não falam com a quase generalidade das pessoas, mas com as quais o poeta, inteligentemente, silenciosamente dialoga.

Mario Osorio Magalhães
Pelotas, outubro de 2005

J. L. Duval (foto de L. Bunselmeyer)
Confira outros poemas de J. L. Duval:
  • "Cassino", citado por Mario O. Magalhães no Diário Popular (2005),
  • "Ser jovem", poema citado por L. R. Lourenço (2008),
  • "Primeiro exercício de multidão", citado por Asdruba (2010),
  • "Mensagem", citado no blogue In Loco, de Janaína Chiaradia (2012),
  • "Poema de amor a uma cidade que é minha", transcrito em postagem neste blogue (2014).
Imagens: Mr. Wallpaper, blogue In LocoTraça,

domingo, 16 de novembro de 2014

"Amor e ódio", poema para uma cidade pelotense

Pelotas, do Café onde velhos morrem de ânsia
Cidade dos sobrenomes que não existem mais
Cidade de teatros em ruínas lembranças
Cidade pilhada por oligarquias rurais

Cidade dos rios que umedecem os ossos
Pelotas rosa de horizontes longos
Cidade onde castelos são jogados ao acaso
Cidade onde vampiros não passam de pernilongos

Cidade rota, de história antiga
Cidade onde o nada é maior que tudo
Pelotas quer Ser, mas o ser é nada
Cidade do rebelde de protestos mudos

Pelotas grande, é maior que o mundo
Se vou embora, peço pra voltar
Lugar que odeio quando me encontro dentro
Lugar que vivo pra amar e odiar

Se já existias antes dos poetas
Quando eu partir tu vais ficar aqui
Catedrais de gritos e de fé suspeita
Quando morrer quero morrer em ti

Tuas pedras úmidas de sofrer silêncio
De loucos gritos e de boêmios loucos
Se tua existência cheira a orquídeas
Teu submundo cheira a esgoto

Tuas mulheres talvez sejam homens
Teus escritores pensam ser imortais
Tua carne negra sofre a dor do tempo
Teu rio de sangue já não corre mais.
Nauro Machado Júnior


Fonte: "Andanças Imaginárias" (2014), p. 77.
Sobre o livro, v. a nota Nauro poetiza a vida.