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segunda-feira, 31 de março de 2014

Centenário dos Casos do Romualdo

Contos de 1914 saíram em livro em 1952.
Em 2014, o Instituto João Simões Lopes Neto festeja o centenário dos relatos fantásticos conhecidos como "Casos do Romualdo". O escritor pelotense publicou-os originalmente em forma de folhetim no extinto jornal pelotense Correio Mercantil, durante o ano de 1914.

Os contos foram reunidos em livro somente em 1952, pela Editora Globo de Porto Alegre, ainda em vida da viúva do escritor, Francisca de Paula Meireles Leite, "Dona Velha" (1873-1965). Simões faleceu em 1916 com 51 anos, em pleno vigor criativo.

O conteúdo das histórias causa risos e incredulidade, mas o que o leitor pode não saber é que o personagem de Simões, que faz o relato das lorotas, se baseia numa pessoa real, o engenheiro Romualdo de Abreu e Silva (v. Wikipédia). Leia aqui o livro.

Há quatro anos, o Instituto estabeleceu a data de primeiro de abril – dia da mentira – como o Dia do Romualdo. Assim, as celebrações alusivas ao centenário dos Casos iniciarão neste 1º de abril. Os festejos continuarão ao longo do ano, palestras, mateadas, recitais de música e poesia, encenações teatrais e outras formas de dar brilho e dignidade à feliz data.

Alci Vieira Júnior cantou ao Romualdo
no domingo 1 de abril de 2012.
Amanhã (1-4-14) às 18h30, num ato especial na sede da rua Dom Pedro II nº 810, serão entregues, a bibliotecas das redes públicas, livros relacionados com João Simões Lopes Neto, previamente doados ao Instituto pelo Professor Agemir Bavaresco e pela sua editora, WS Editor. A Secretaria Municipal de Educação, a 5ª CRE e a biblioteca do IFSul receberão o presente.

No mesmo encontro, Luís Borges e Mário Mattos, conhecidos estudiosos e profundos conhecedores da literatura do Capitão da Guarda Nacional, dialogarão sobre diversos enfoques da obra centenária.

A modo de registro, lembremos que o 3º Dia do Romualdo transcorreu no domingo 1 de abril de 2012 no Parque da Baronesa. Na ocasião, o Grupo de Estudos Simoneanos apresentou alguns dos causos romualdinos, ao ar livre. O evento também incluiu a presença do cantor nativista Alci Vieira Júnior, mateada, sorteio de uma obra de Simões e expositores do Piquenique Cultural.

Como diria Romualdo:
Quando sou centro dos terceiros, ah! então, sim, ouvidos haja, porque língua tenho e acontecimentos sobram! 
Veja as notas deste blogue que citam os Casos do Romualdo.
Fontes: FacebookE-Cult, Alci Vieira Jr

POST DATA
2-4-14
Veja álbum de fotos da palestra de ontem.

domingo, 16 de março de 2014

Kledir lança livro de crônicas


A Livraria Vanguarda já tem à venda exemplares do 3º livro de Kledir Ramil, "Crônicas para ler na escola" (v. nota da editora). Com o autor pelotense, a Editora Objetiva dá continuidade à coleção de mesmo nome que começou, há poucos anos, com escritores como Moacyr Scliar, Ruy Castro e Ignácio de Loyola Brandão.

O autor das letras da dupla Kleiton e Kledir já vinha escrevendo crônicas em Zero Hora e compilando-as em livros: "Tipo Assim" (2003) e "O Pai Invisível" (2011). Veja neste post a lista dos 9 livros anteriormente publicados pelos irmãos Kleiton, Kledir e Vitor Ramil.

Na quinta que vem (20-3), o cantor e cronista autografará para seus leitores na livraria do Shopping Pelotas, a partir das 19h. O livro tem 168 páginas e custa R$ 36,90.

Kledir pode ser descrito como um humorista do cotidiano, seja escrevendo um texto de leitura breve, seja teatralizando ao vivo algum caso fantástico. Muitos desses textos estão em seus dois blogues, catalogados como crônicas, "audiocrônicas" ou "videocrônicas" (no vídeo abaixo ele transforma em show audiovisual a sua crônica "Língua Portuguesa"). Os blogues têm o mesmo nome (BLOG DO KLEDIR o primeiro, e Blog do Kledir, o posterior e atual), a mesma finalidade e a mesma apresentação gráfica. Mas nenhum tem datas, contrariando uma lei essencial dos blogues, que é seguir uma cronologia.


Nos escritos de Kledir não encontramos personagens importantes no conteúdo do texto, mas na alma do cronista: podemos ouvir um narrador campeiro de exagerada fantasia, um amoroso homem de família (paizão, irmãozão, vovô, dono do cachorro), um estudioso de temas humanísticos ou um espantado observador da mudança dos tempos, entre outras figuras. Por trás dessas figuras que ele é, existe um coordenador geral, que é o escritor, outro personagem, mais imparcial e mais sério. Veja como ele mesmo se define, e a seguir uma de suas crônicas no personagem do paizão amoroso:
Sou um moleque de rua, um compositor de música popular. Comecei a juntar palavras para encaixar nas melodias que soavam na minha cabeça e essa brincadeira virou minha profissão. Depois de anos escrevendo canções, acabei desenvolvendo por nossa língua um amor tão grande que me deu coragem para invadir o terreno da prosa. E comecei prudentemente pela crônica, que é dentro da literatura a forma mais simples de todas. Tão simples que até um cantor de rádio é capaz de conseguir.

Lindinha

Quando nasceu minha filha Julia, eu estava despreparado para ser pai. Despreparado no pior sentido em que um músico-cantor-compositor pode estar: eu não conhecia canções de ninar.

Na falta de um repertório específico, comecei a cantar mantras indianos para fazer a pequena dormir. Em especial, os Cantos de Yogananda, que são pérolas preciosas. Fui improvisando com aquilo que eu considerava ser o mais adequado para uma alma pura, recém-chegada a esse mundo.

A verdade é que não funcionava. Muitas vezes virei noites sacolejando aquela coisinha linda nos meus braços e nada. Ela lá, com os olhinhos arregalados, à espera daquilo que amava e era o que efetivamente a fazia adormecer: o seio materno.

Meu repertório, na época, não apresentou o resultado esperado. Ela acalmava, mas não dormia. Por outro lado, acredito que alguma coisa boa deve ter ficado no subconsciente de minha filha. Hoje, olho pra ela já crescida, uma entusiasmada praticante de yoga e meditação, e fico imaginando que talvez aqueles mantras sagrados tenham deixado algumas sementes espalhadas.

É impressionante como, das formas mais inusitadas, a gente vai marcando a vida dos filhos. Eu, por exemplo, sou um sujeito friorento até hoje por culpa do “sapo-cururu” [versão livre de Cyro Baptista].

Voltando ao começo, às minhas tentativas de botar a guria pra dormir. No embalo de muitas noites acordado com Júlia no colo, comecei a compor uma valsinha, aproveitando o ritmo em ¾ que minha mão reproduzia naquele bumbum protegido por uma fralda descartável.

Agora, mais recentemente, quando a canção foi gravada no CD “Par ou Ímpar”, o som dessa percussão insólita, mais afetiva do que efetiva, foi registrado com o nome de Bundolone. É claro, Júlia já está crescidinha e não usa mais fraldas, completou 25 anos. Mesmo assim, fizemos em estúdio uma simulação do som das palmadinhas do papai acompanhando a melodia e, por pouco, ela não pegou no sono. O que só confirma o que eu já sabia: a música funciona bem para os seus objetivos, ou seja, realmente faz dormir.

“Lindinha” surgiu assim, espontânea. É uma canção de ninar carregada de carinho e de pureza. É a manifestação de amor de um artista aprendendo a ser pai.
Kledir Ramil
Fonte: Blog do Kledir



A mais longa noite (conto)


A cada manhã nascida, o sol deixava no quintal um ovo dourado. Eu os guardava no canto do chalé. Guardava-os sem me preocupar em saber a razão por que fazia aquilo.

Certo dia, o sol não nasceu.

A noite avançou até outra noite chegar, e mais outra noite avançar, cada vez mais escura, e assim sucessivamente, até que o breu ficou tão compacto, mas tão duro que nos sentíamos como que presos a imensos blocos de gelo negro.

Ninguém fazia nada. As crianças não brincavam; os adultos não conversavam; os bichos, igualmente, permaneciam inertes em seus cubos de gelo.

Algum tempo se passou.

Ouvi, de repente, um ruído à minha esquerda. Meus olhos, que jamais se haviam fechado, viram um brilho dourado num canto da casa. Lembrei-me dos ovos dourados.

Seria possível?

À medida que as horas corriam, os ovos iam explodindo, aquecendo o gelo negro, a ponto de derretê-lo inteiramente. Luminoso amanhecer irrompeu. As crianças alegraram-se; os adultos tornaram a falar e os bichos deram o ar da graça.

Tudo voltou a ser como antes.
Manoel Soares Magalhães
Fonte: Cultive Ler

sábado, 15 de março de 2014

Schlee denuncia o esquecimento da "difícil vida fácil" (palestra)

Aldyr Garcia Schlee lançou sua mais recente obra, "Contos da vida difícil", na Biblioteca Pública Pelotense, em sessão de autógrafos que durou cerca de três horas (na sexta 23-8-13) e incluiu músicas de Paulo Timm baseadas na literatura de Schlee (v. blogue Turismo em Jaguarão). Em outubro, houve apresentação em Porto Alegre e conversa com o autor (v. nota da Palavraria).

Sentindo a necessidade de um debate maior sobre o assunto do livro, convidei-o a palestrar sobre a psicologia de fundo da assim chamada "vida fácil". O encontro seria em março de 2014 na Sociedade Sigmund Freud, e agora está confirmado para esta quarta (19-3), às 20h (Edifício Everest, Princesa Isabel 280-302)

Sobre o significado dos contos, Schlee diz que com estas histórias quis revelar a prostituição e o tráfico de mulheres que ocorreu em Jaguarão, desde 1930, e denunciar o silêncio com que a sociedade local tapou a memória desses acontecimentos até hoje (v. reportagem Diário Popular). Na apresentação, o autor define os relatos como não moralistas e não eróticos.

Fachada do Clube Instrução e Recreio (foto de 2011)
O lugar principal dos fatos narrados é o antigo cabaré que existiu na rua Andrade Neves, onde hoje está o Clube Instrução e Recreio (dir.). 

O tempo de referência são os anos 30 e 40, precisamente a infância do escritor, quando aquela realidade humana (e desumana) estava à vista de todos mas não era falada por ninguém.

Quem se interessar pelo tema deve também ler La Folie et l'Amour (em português), conto de 2010 que tem relação com a "vida fácil", mas que não foi incluído no livro.

Confira abaixo o texto de apresentação (do próprio Schlee) e as duas imagens que inicialmente seriam as capas opcionais do livro (ambas de Gilberto Perin). Somente a última ficouLeia também neste blogue a nota Schlee apresenta novo livro de contos e os posts: Os limites do impossível (2009), Contos gardelianos dão terceiro Açorianos a Schlee (2010) e Schlee lançando Don Frutos (2010). 



Estes Contos da vida difícil são uma obra da imaginação que não vai além do imaginável, porque está contida na busca das razões do esquecimento, na revelação de certas lembranças não-autorizadas e na tentativa nem sempre bem sucedida de recuperação de uma olvidada memória coletiva. São velhas e sumidas histórias jaguarenses que todos fizemos questão de ocultar desde o início do século XX e cuja lembrança foi preciso reprimir, excluir e suprimir, especialmente a partir de 1930 − e até hoje, já vão quase cem anos.

Jaguarão, que só em 1904 tivera enfim seu porto fluvial aberto à navegação com o Uruguai, viu construir-se entre 1920 e 1930 a grande Ponte Internacional que a ligaria definitivamente ao país vizinho. Nesse período, centenas e centenas de homens − um milhar e pico de homens, talvez − das mais variadas raças e mais diferentes procedências, dos mais diferentes ofícios e das mais variadas habilidades viveram na cidade aquilo que se chamaria “a grande epopeia da construção da Ponte”.

Foram dias, meses e anos em que naturalmente a cidade se encheu de mulheres, apareceram automóveis e gramofones, surgiram negócios e empregos, construíram-se casas e fortunas − era farra e trabalho, trabalho e farra. De noite, havia luz elétrica, música e bochincho: os cabarés iluminavam-se até de manhã; e mesmo os lugares mais pobres, os tristes puteríos das margens do rio ficavam acordados no alvoroto que se armava noite afora (e era como se fossem alegres, e ricos).

Entre 1930 e 32, as redes de traficantes de mulheres tornaram-se escandalosamente públicas nos limites do Brasil com o Uruguai. Nossa fronteira transformou-se num lugar privilegiado para a circulação de mulheres europeias e dos proxenetas que buscavam introduzi-las no Brasil a partir do Atlântico Sul, fugindo da perseguição policial que atingia “o tráfico de escravas brancas” na Argentina e no Uruguai. O Rio de Janeiro era o mercado de colocação preferido; Montevidéu, um refúgio e base de operações; e Jaguarão, com nosso rio e sua Ponte, o lugar escolhido para uma parada delas, de passagem clandestina para o Norte.

Essas informações (como tantas outras sobre o assunto), eu as obtive em um livro, publicado com o título Las rutas de Eros (Taurus, 2006) [v. resenha], pela pesquisadora uruguaia Yvette Trochon sobre o tráfico de mulheres nos países do Atlântico Sul, de 1880 a 1932, incluindo estudos documentados das condições sociais, políticas e econômicas que tornaram possível, na época, a difusão por aqui do rendoso negócio de compra e venda de seres humanos.

Poderá parecer que estes contos, rompendo com um silêncio cúmplice e conivente sobre as misérias da chamada “vida fácil”, não passem da retomada de um passado distante. Contudo, restritos aos limites do imaginável, situam-se no plano de uma mesma e permanente realidade que, se não se esquece e se oculta deliberadamente, tem sido abordada com os prejuízos e preconceitos característicos de uma sociedade conformada por suas próprios mazelas.

O tema relativo ao mercado prostibulário e, especialmente ao tráfico de mulheres foi sempre desenvolvido através de estereótipos, no plano do melodrama de folhetim e do convencionalismo conformista, através de um discurso moralizador de grande poder emocional que o deturpa e que encontra eco na pregação de certos religiosos e reformadores sociais.

Por tudo isto, as histórias de mulheres e homens de vida fácil, girando em torno da sedução barata, da violência gratuita e da perversidade maniqueísta, não têm lugar aqui.

Aldyr Garcia Schlee
Capão do Leão, verão de 2013
Fontes das fotos: ardotempo e blogue Poeta das águas doces
Autores das fotos: E. C. Barcellos (2), G. Perin (1, 3-4)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Um Príncipe chamado Exupéry

O piloto francês viajou pelo Brasil em voos diários.
Companhia Mútua de teatro e animação, atualmente estabelecida em Itajaí (SC), foi fundada em 1993 e pesquisa o teatro de animação desde 2002, além de dedicar-se ao clown, à pantomima e à narrativa cênica. Os integrantes principais são Mônica Longo e Guilherme Peixoto.

Um de seus 6 espetáculos, “Um príncipe chamado Exupéry” [pronúncia aproximada: ekzu-perrí], está numa maratona de apresentações iniciada no Rio Grande do Norte, algumas das quais acompanhadas de oficinas de animação teatral de bonecos. O Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2012, do Ministério da Cultura, viabiliza a turnê.

A obra se baseia na vida de Saint-Exupéry e no seu  livro "O Pequeno Príncipe" (v. Wikipédia), publicado originalmente em 1943, nos Estados Unidos, em inglês e em francês. O autor se encontrava no exílio desde 1940, após ter participado como piloto francês ante o ataque alemão, na Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, a primeira edição do famoso romance é de 1945. Na época, a França estava em ocupação e a edição saiu somente em 1946 (v. artigo "O Pequeno Príncipe"" completa 70 anos).

No Rio Grande do Sul, a Companhia está visitando 4 cidades, cuidadosamente selecionadas: Caxias de Sul (11-3), Pelotas (hoje quinta 13-3), Porto Alegre (dias 15 e 16) e Passo Fundo (19).

Companhia Mútua é fiel à história dos personagens.
A decisão foi apresentar-se precisamente em cidades brasileiras onde, conforme os integrantes e colaboradores pesquisaram, Saint-Exupéry entregou cartas como piloto da Companhia de Correio Aéreo Aéropostale, nos anos 20 e 30, desde Natal (RN) a Pelotas (RS).

Dentro de um hangar construído no teatro, sem uma única fala, é encenada a peça “Um Príncipe Chamado Exupéry”, com capacidade para 60 pessoas e destinada ao público adulto. Desde 2010, a montagem já circulou por 15 estados, participou em festivais de teatro de animação e foi indicada pela Revista Bravo como melhor espetáculo, em fevereiro de 2013.

Em Pelotas, serão feitas duas apresentações no Tablado da UFPel (Almirante Tamandaré 275, com Alberto Rosa), às 19h e às 21h. A produção local é de Alexandre Mattos ( 8116 0377).

Manoel Jesus

Pois é uma pena que os pesquisadores tenham achado e recuperado, ao sul da França, os destroços do avião de Saint-Exupéry, o pai do Pequeno Príncipe. Ainda bem que não encontraram seu corpo, ou o que dele deve ter sobrado, já que ficou submerso desde julho de 1944 - cerca de 60 anos - quando o piloto francês deixou a Córsega para uma missão de reconhecimento da mobilização das tropas alemãs, em continente europeu.

Na verdade, verdade pura, que é a verdade da imaginação, sempre acreditei que, num determinado momento, antes do final, o Pequeno Príncipe (aquele que caiu na Terra, encontrou um aviador e procurava um amigo) apareceu junto ao ombro de Saint-Exupéry, espiou para fora e, vendo a tempestade que se aproximava, disse:

O mítico Antoine de Saint-Exupéry, autor e personagem
– Tens certeza que não queres voltar comigo para o meu planeta?

O aviador sorriu e perguntou se ele tinha uma outra rosa em seu pequeno mundo. Entre perplexo e surpreso, o garoto disse:

– É bem possível que sim. Faz tanto tempo que estou longe de casa!

E partiram. Mergulhando nas águas do Mediterrâneo, procurando uma tumba silenciosa e o melhor caminho para retornar ao pequeno planeta que, até hoje, os astrônomos teimam em procurar entre as diversas constelações. Esquecem da máxima com que Saint-Exupéry encerra sua obra maior que é o Pequeno Príncipe:

– E gosto, à noite, de escutar estrelas. É como ouvir quinhentos milhões de guizos...

Aí, exatamente, reside a única orientação astronômica dada pelo Pequeno Príncipe, recebida na conversa que teve com a sua amiga raposa: "Só se vê bem com o coração". E dá um desfecho capaz de sensibilizar até os mais céticos: "O essencial é invisível aos olhos".

E, então, já não há outro caminho que não seja o de dar valor aos pequenos grandes prazeres da vida. Podemos encontrar a beleza da obra deste aviador, que viveu tão intensamente seus 44 anos, quando nos damos conta que o sentido maior do viver está em encontrar prazer nas coisas simples: como uma rosa que se cultiva, uma amizade que mostra sua cumplicidade até no olhar, a possibilidade de poder olhar para as estrelas ou, quem sabe, um carneiro que se precisa cuidar para que não coma a única rosa existente no planeta.
Diário Popular, 19-4-2004
Imagens da web

POST DATA
13-3-14
Veja o post Saint-Exupéry esteve em Pelotas?

domingo, 2 de março de 2014

Cheuiche ministra oficina em Porto Alegre


Alcy Cheuiche, escritor residente em Porto Alegre, oferece oficina literária com ênfase em escrita de contos, a partir da segunda pós-carnaval (10-3). Com duração de 108 horas, será realizada semanalmente, por oito meses, no Instituto Contemporâneo.

A inscrição é feita por ordem de chegada, até o número de 15 participantes, com a expectativa de formar a turma com a publicação de um livro de contos na Feira do Livro, em novembro.

O escritor vem esporadicamente a Pelotas, sua cidade natal, onde morou até os 4 anos de idade (v. biografia, em seu blogue). A última vez que o vimos foi em 2010, quando autografou seu mais recente romance histórico, em reunião no Instituto Simões Lopes Neto (v. o post Alcy Cheuiche e o Almirante Negro).

Autor de mais de 40 livros, patrono da Feira do Livro de cinco cidades gaúchas, membro da Academia Rio-Grandense de Letras, Cheuiche vem ministrando oficinas de criação literária desde 2002, as quais já deram como fruto mais de vinte livros.

Em Pelotas, os escritores não costumam fazer oficinas; a mais recente foi em 2011, a Terapia Literária, de Márcio Ezequiel (v. blogue). A opção mais conhecida é o Centro Literário Pelotense (v. página do CLIPE), que tem reuniões semanais e permite desenvolver habilidades literárias.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A casa sobre pilotis

No campo, o tempo parecia distender-se. Os que viviam ali, os gaúchos, tinham a lentidão das plantas, falavam em espaços, o olhar sempre adiante. No horizonte aberto, onde tudo era exposição, os animais confundiam-se com as pedras. Era o presente adormecido nas coisas.

Diante dele, minha quietude revelava-se uma variante branda da impaciência. É preciso parar nas coisas para perceber devidamente o presente, e eu não sabia direito como fazê-lo. Suprimida a agitação da vida na cidade, restava a evidência de que eu nunca me permitira parar, nunca daquela maneira. Eu estivera evitando o presente o tempo todo em toda parte.
[Vitor Ramil, "Satolep", p. 157]


O presente adormecido das coisas terminou por se acomodar em minha quietude, que, por sua vez, abriu ao tempo distendido do campo o meu tempo todo em toda parte.

A consequência direta disso foi que, concluídas as filmagens, ao nos aproximarmos de Satolep em nossa viagem de volta, deixei-me atrair por uma casinha solitária erguida sobre pilotis na planície onde corre o Canal de São Gonçalo. Sua forma muito elevada destacava-se como mágica naquele terreno de vegetação predominantemente baixa e parelha, sobre o qual o céu era um domo perfeito.
[ p. 159]
Foto: Gustavo Mansur
V. foto de Cristiane Neves Casa solitária

domingo, 17 de novembro de 2013

Professora Loiva lança CD com poemas


Oh! bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia,
E manda o povo pensar!
O livro, caindo na alma,
É gérmen, que faz a palma,
É chuva, que faz o mar.

Antônio de Castro Alves, 1870
Poema O Livro e a América

A professora Loiva Hartmann apresenta hoje domingo (17-11), último dia da Feira do Livro, dois livros de poemas ("Eu falo de amor" e "Somos a chave de tudo?"), a antologia comemorativa dos 30 anos da União Brasileira de Escritores, onde participa com dois trabalhos, e o CD "Poesias", por ela produzido, contendo poemas dos dois livros mencionados acima.

Capa do CD Poesias, de Loiva Hartmann
O disco funciona como um audiolivro, gravação que permite às pessoas ler um livro sem usar os olhos, e também como um CD de música, pois os poemas trazem todos o fundo em piano de Richard Clayderman. Os textos trazem ideias românticas, filosóficas e psicológicas, e podem ser ouvidos para meditação em casa ou andando de carro ou ônibus.

A ideia é uma nova forma de promover a cultura da poesia, muito a propósito do lema "Poetize sua vida", que esta Feira utilizou, numa homenagem aos 160 anos de nascimento do escritor Lobo da Costa, destacado poeta romântico.

Como ativa promotora da leitura e da educação, ela evoca os versos de Castro Alves, citados no epígrafe deste post, para celebrar mais uma edição da Feira do Livro e para estimular a todos aqueles que estimulam a cultura literária. Em email ao editor do blogue, ela declarou:
A sociedade de Pelotas está reaprendendo a visitar e a conviver no Mercado, pela mão dos livros! Isso é o Paraíso. Cumpriu-se a profecia de que vale a pena preservar o passado para solidificar o presente. Estamos todos de parabéns.
Contracapa do CD
O CD Poesias contém 80 minutos de gravação na voz do locutor Otávio Soares, recitando 23 trechos das obras "Eu falo de amor" e "Somos a chave de tudo?", de Loiva Hartmann.

O trabalho foi gravado na Rádio Federal FM e editado pela Captação Eventos. Disco e livros estão à venda na Livraria Mundial.

Loiva Hartmann,  professora e poetisa radicada em Pelotas, é patrona deste blogue desde junho passado e integrará a Academia Pelotense de Letras desde 7 de dezembro deste ano.
Imagens Banco da Poesia (1) e L. Hartmann (2-3)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

4 livros em lançamento


Como costuma ocorrer com o início da primavera, a Feira do Livro traz novas obras e novos autores à praça da literatura local. Em 2013, no entanto, um desacordo entre os organizadores quanto ao local da Feira exigiu um replanejamento de atividades, na última hora. O evento se realizará, a partir desta quinta (31-10), no Mercado Central recém reformado, que será ocupado pelos livreiros durante duas semanas.

A improvisação não está impedindo os lançamentos de livros, mas parece ter tirado o ritmo à divulgação, ainda não atualizada no Facebook nem no blogue do evento. As informações estão fluindo pelo portal da Prefeitura, cujas matérias são reproduzidas pela imprensa e alguns blogues.

Por outro lado, nem todos os títulos serão lançados na Feira, diluindo levemente a força e a unidade do tradicional evento. Mesmo faltando ainda a informação oficial sobre as sessões de autógrafos, vejam algumas obras que aparecerão nos próximos dias. Destaco aqui 4 autores: o único pelotense é a estreante (mulher), que já é sucesso de vendas no Brasil. O texto de todos eles é em prosa, mas seu conteúdo se encontra próximo da poesia, essa arte de traduzir em palavras a criatividade da vida.


Quarta 30 de outubro
"O livro dos dias", de Márcio Ezequiel, não é uma agenda.
19h30, Shopping Pelotas

Márcio Ezequiel apresenta sua nova obra: Agenda, o livro dos dias, crônicas sobre efemérides nacionais e internacionais. Tomando o formato visual de uma agenda e com o pretexto dos significados das datas comemorativas, o escritor aborda temas polêmicos como racismo, ateísmo e homofobia, sem perder o seu estilo leve e irônico.

Historiador de formação, o autor havia enveredado pela narração de contos e minicontos, essas pequenas histórias de ficção, supostamente distantes da realidade objetiva. Com este livro (e com o próximo que lançará na semana seguinte), ele se define mais claramente como um cronista de nosso tempo e de nosso lugar, confirmando sua vocação para a História.

Márcio ainda provoca o leitor com elementos de subjetividade, sugerindo com exemplos autobiográficos que nossa vida é que passa voando, como as páginas de um livro. Na Feira do Livro, ele autografará novo livro na sexta 8 de novembro e a Agenda dia 10.


Quinta 31 de outubro
16h, Shopping Pelotas

Tristão Alencar Pereira Oleiro lança sua terceira coletânea de crônicas: "Imagens do Cotidiano". Natural de Valparaíso, cidade paulista, o escritor radicou-se em Pelotas e hoje é considerado um autor gaúcho (v. minibiografia). A sessão de autógrafos será na Livraria Vanguarda do Shopping Pelotas.


Sexta 1 de novembro
18h, Mercado Central

Mel Fronckowiak autografa em Pelotas seu primeiro livro: “Inclassificável – Memórias da Estrada”, da Rubra Editora, crônicas de suas experiências como atriz, cantora, poetisa e ídolo juvenil a partir da novela Rebelde (v. nota do site RG).

Melanie começou estudando Jornalismo, passou à modelagem e logo ao acelerado mundo da TV (v. postagem De modelo a ídolo). O livro teve pré-venda pela internet e foi lançado no Rio de Janeiro em agosto passado. Desde então, a moça pelotense vem numa turnê pelo país, com sucesso de vendas devido a sua fama e ao milhão de seguidores no Twitter.

Associada por sua imagem à beleza e à rebeldia adolescente, Melanie aposta agora em seu talento com as palavras, mostrando como uma pessoa pode se reinventar ao longo da vida e parecer "inclassificável", única e original como a poesia.


Sábado 2 de novembro
18h, Mercado Central

O fotógrafo jornalístico Nauro Machado Júnior apresenta seu primeiro livro de fotografias: "Pelotas em imagens", da Satolep Press (v. resenha no Diário Popular). Ele e a esposa Gabriela Mazza criaram esta marca editorial para divulgar autores locais, a partir do sucesso do seu primeiro livro solo (sem fotografias), "Náufrago de um mar doce".

Agora, Nauro homenageia a Pelotas que o acolheu e o apaixonou, de modo explícito, com a arte que o caracteriza há vinte anos. Cerca de 300 fotos cheias de belas cores, harmônicas composições e inesperados ângulos, obra que equivale a uma grande declaração de amor a esta cidade. "Pelotas pela janela" é o título de uma seleção de fotos deste livro, que ficará em exposição no Mercado durante a Feira do Livro.


Imagens: Facebook e Banda Rebeldes.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Hora da Prosa, os escritores vão ao shopping

30 mil livros, espaço para eventos literários, seção infantil e o Shopping como fundo
A Livraria Vanguarda criou a Hora da Prosa para aproximar os escritores a seus públicos, e os clientes ao novo espaço do Shopping Pelotas, aberto há três semanas. O objetivo é promover o encontro entre as obras, os autores e os leitores, em sessões de autógrafos e palestras informais.

Os convidados para a primeira Hora da Prosa, hoje sexta (25-10), são três pelotenses: a poetisa Angélica Freitas, o desenhista Odyr Bernardi e o músico Vitor Ramil, a partir das 19h (v. nota no Diário Popular).

Trata-se de artistas de projeção nacional, segundo o jornalista Ronaldo Bressane, que visitou Pelotas há seis meses (v. reportagem Estética do Frio).

O local comporta maior público que a loja Vanguarda da rua Gonçalves Chaves, e é um dos mais espaçosos na cidade para este tipo de eventos. O ambiente é comercial mas focado ao intercâmbio e aprendizagem da leitura e da literatura (v. nota da LPM Uma livraria de vanguarda em Pelotas).

O conteúdo intelectual e afetivo será posto pelos autores que estiverem presentes, contando sobre seu trabalho e respondendo perguntas dos leitores.

O cenário convida a um coquetel cultural, rodeado de livros, conversas e imaginação. As melodias sem amplificação pretendem ser somente o fundo acústico para a participação ativa do público. Há uma seção infantil, em que as crianças se sentem livres para folhear os livros e ouvir histórias, criando uma mentalidade mais aberta e crítica.

 Desde que foi aberto o Shopping, já estiveram autografando 3 autores gaúchos, ainda sem o momento de fala com o público:
Como a Vanguarda não participará da próxima Feira do Livro, que por primeira vez será realizada em bancas do Mercado Central recém reformado, haverá uma inevitável comparação e competição entre as atividades literárias deste novíssimo Shopping e as do velho Mercado.


Imagens: F. A. Vidal (1),  Facebook (2-3)

POST DATA
26-10-13
Na tarde de ontem (25), ainda antes do início da primeira Hora da Prosa, a Prefeitura anunciou (v. notícia) que Angélica Freitas foi escolhida Patrona da 41ª Feira do Livro e Odyr Bernardi, orador oficial.

sábado, 19 de outubro de 2013

Sábado, o dia do descanso de Deus

Neste sábado, há um poeta que completaria 100 anos se fosse eterno. Sempre achei estranhas estas efemérides de nascimento, quando se comemoram aniversários longevíssimos. Cem anos do fulano de tal. Cento e sessenta daquele outro. Sei lá. Fica com uma cara de tarde demais, mas celebremos porque amanhã é sábado. Estamos aí pro que der e vier. Pro amor e pra desilusão, afinal de contas é o centenário do poetinha da paixão (v. artigo completo Enquanto dure, por Márcio Ezequiel).
Sobre o Poetinha do Brasil, leia neste blogue:
Sobre o Poeta de Pelotas:

Acompanhe a letra de Dia da Criação.

O Poetinha faria 100 anos, resenha de Paulo Virgílio e comentário de Manoel Magalhães.
Poema Ausência, na voz de Maria Alice Estrella.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Rádio Federal homenageia Vinícius


Para celebrar o centenário de nascimento de Vinícius de Moraes, a Federal FM (107,9 Mhz, ouça aqui) está apresentando poemas do famoso escritor brasileiro, na voz da locutora Maria Alice Estrella, também poetisa. Este sábado (19-10) seria o aniversário nº 100 do Poetinha, parceiro histórico de Toquinho e Tom Jobim. Até domingo (20), entre 9h e 22h, dez poemas serão apresentados ao longo da programação, de hora em hora.

O projeto da rádio da UFPel também vai ao ar pela FM Cultura de Porto Alegre, graças ao convênio firmado (em 27-9) com a Fundação Cultural Piratini, a fim de promover o intercâmbio entre as duas emissoras. A Federal FM já está retransmitindo os seguintes programas da FM Cultura: Sessão Jazz, Contos do Sul da Terra, Conversa de Botequim, Contemporânea, e Na Trilha da Tela. O projeto "Vinícius de Moraes: 100 anos de poesia" é a primeira produção da Federal a ser veiculada na Cultura.



Em abril deste ano, um evento da Biblioteca Pública Pelotense destacou Vinícius como autor (escute-o como declamador no "Monólogo de Orfeu" na postagem: Sarau destaca Vinícius).

Confira outros poemas de Vinícius de Moraes no Facebook.


Imagem: UFPel

domingo, 29 de setembro de 2013

Saudação aos poetas

A palavra essencial é o título do texto abaixo, que a Professora e Poetisa Loiva Hartmann escreveu para o Diário Popular (v. na edição de hoje 29-9). O artigo homenageia os poetas, especialmente os pelotenses, que na próxima Feira do Livro terão destaque na programação, em alusão aos 160 anos do nascimento de Francisco Lobo da Costa (1853-1888). Leia também Lobo da Costa, poeta de 34 anos.



Oleiro dá forma ao material.
O poeta, qual cirurgião, rasga e desnuda a carne da palavra e a expõe ao leitor. Sem máscaras, dialogam. Percorrem juntos as veredas do viver. Compartilham afetos, inquietações, alegrias, angústias, verdades.

O poeta é o oleiro dos sonhos que vai trabalhando o barro da palavra humana, com a mente mergulhada no infinito e com os pés fincados na terra.

Segundo Elvo Clemente, a imagem mitológica de Prometeu, os textos estudados na Teologia cristã, tudo leva à contemplação do Ser Supremo. O artista tanto imita o Criador - que busca a sua palavra na essência do Verbo - que, por um ato de amor eterno, humanizou-se, revestindo-se de nossa carne, identificando-se com a nossa pobre e ingrata palavra humana.

Poesia concretista
A verdadeira poesia eleva-se acima do pobre barro humano para abeberar-se na essência da poiesis que é Deus, sem o que não passa de mísero balbucio.

A carpintaria literária do poeta deixa claro ao leitor, observador, que, mais difícil, mais humano e mais belo do que escrever, é convencer. E justamente aí está o universo pleno do texto.

Sendo a literatura expressão dinâmica do homem e suas circunstâncias de espaço, tempo, cultura e ideais, sempre diante de horizontes sem fronteiras, nesse espaço sagrado o autor movimenta-se com liberdade, e mais: no universo pleno de seu texto, à medida que amadurece, aprimora seu discurso, tornando-o cada vez mais conciso. Da adolescência à maturidade, o impulso e a força vital para criar provêm das esferas mais ocultas do ser: da ingenuidade à sensualidade madura, à exigência de realização em todas as nuances do humano.

Quão perceptíveis as marcas do amor. A ferro e fogo, fixa sua logomarca, a qual permanece indelével até ao final de nossos dias. A experiência literária e a habilidade linguística funde-se com a expectativa do leitor: pré-forma de nova compreensão de mundo. Cumpre com maestria a mais significativa função da literatura: na alteridade – a cumplicidade.

Professora Loiva (E) recebeu o brasão da Academia
Pelotense de Letras, de Zênia de León (v. notícia de 2006)
Caro poeta, dispensas adjetivos. Que bom que existes! E que privilégio para uma comunidade, teres enveredado para as letras.

A seara oferecida aos jovens ultimamente, é limitada. Mas, havendo lígias, sclyares, clementes, lyas, zanotellis, szechires, alguns poucos mais, há horizontes a descortinar, futuro possível.

Minha homenagem a quem, além de escrevinhadores, são partícipes constantes do universo cultural da Zona Sul.

Loiva Hartmann
Mentora da Jornada Cultural de Pelotas
Patrona do blog Pelotas, Capital Cultural

Imagem poética de Nauro Júnior 
Imagens: Mundo Insólito (2), L. Hartmann (3), Facebook (4)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Três contra todos, o livro a três


O primeiro livro de André "Deco" Rodrigues vem sendo anunciado pelo Facebook desde outubro de 2012 e agora já pode ser lido completo. Em fevereiro de 2013 ele já estava pronto, segundo o Diário Popular. Haverá um pré-lançamento com autógrafos no Restaurante Madre Mia, hoje (25-9), e um lançamento formal na próxima Feira do Livro.

Em novembro de 2012, o autor liberou as primeiras 37 páginas (v. Facebook), que são pouco mais de um terço da obra, num saboroso adiantamento aos fãs. A ideia era contar um romance fora do comum e num formato atual, algo assim como um folhetim virtual. O mais "moderno" seria relatá-lo em tweets, mas o formato tradicional em papel se mostrou mais adequado: a história tem três narradores, que são os mesmos personagens que se enrolam num romance triangular.

O namoro a três contém 3 casais: 1 legal e 2 clandestinos.
Por sua alta dose "homo", há mais narcisismo do que união.
O escritor entrou na roda e terminou a história em cerca de um mês. Os capítulos são brevíssimos e os fatos que enredam Rafaela, Eduarda e Lucas deixam o leitor enredado com eles desde a primeira página, assim como começou a envolver virtualmente o público, meses antes da publicação.

Além dessas inovações de forma (na divulgação e no relato), Deco Rodrigues também lança seu primeiro livro com um conteúdo provocativo: o texto sugere, já no título, que o amor erótico, vivido com toda sua subjetividade emocional, passa a ser um ato político quando é praticado ante a sociedade. Quem namora dentro da tradição já briga com seus pais, mas quem desafia os padrões sociais começa uma guerra aberta contra todos, algo assim como a Revolução das Flores nos anos 60.

Na pós-modernidade do século XXI, o ousado é oficializar o triângulo, integrando o amante ao casal estabelecido. O terceiro, portanto, não é excluído, pois deseja aos outros dois (e não somente a um) e ao mesmo tempo é desejado por eles (e não somente por um). Complicado? Se Freud o lesse, veria aí o complexo do bebê que se sente afastado pelos pais... e que, na fantasia, deixa o voyeurismo e realiza a aproximação amorosa com ambos. Nessa leitura, trata-se de um casal e um filho.
"Vicky Cristina Barcelona" (Woody Allen, 2008) mostra dois triângulos consecutivos: no primeiro, Juan Antonio seduz as amigas Vicky e Cristina por separado (homem bígamo). Na trama central, o casal de Juan Antonio e María Elena seduz e é seduzido por Cristina (trio amoroso). Quando dois deles se reúnem, aparecem os conflitos; quando os três convivem juntos, reina a harmonia (v. trailer). 
Para isso se requer a postura homossexual das "amantes", motivo pelo qual é mais "fácil" que esse trio ocorra com duas mulheres. Uma reflexão pelo lado masculino é feita pelo gaúcho Nei Van Soria na recente música Tolerância. Já aludi às complicações de reunir dois homens atraídos por uma mulher, no post Jules e Jim, uma para dois, três para três).
Deco Rodrigues faz a narração a três vozes.
Manoel Soares Magalhães, que já descreveu o lado obscuro de nossa cidade, anunciou que "Três contra todos" promete revelar (desnudar) a noite pelotense (v. nota do Cultive Ler). Em "Vampiros" (2008) e "O homem que brigava com Deus" (2002), o escritor mostrou os sérios dramas emocionais de personagens noturnos e subterrâneos de Pelotas.

Sobre o livro de Deco, Nauro Júnior comentou que "Cinquenta Tons de Cinza é coisa do passado". Nauro é editor e fotógrafo do livro.

À venda nas livrarias: Mundial (Quinze de Novembro 564), Vanguarda (Gonçalves Chaves 374), Cia. dos Livros (Quinze de Novembro 559) e no restaurante Madre Mia (Santa Cruz 2200), na Isa Cestas (Dr. Cassiano 196) e na Danny Joias (Gonçalves Chaves 659 loja 4).
Fotos: Nauro Jr

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gabrielle Fredo no Sarau da Biblioteca

O escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) é o destaque literário no 34º Sarau Poético-Musical da Biblioteca Pública Pelotense, neste mês de setembro. A escritora pelotense Cristina Rosa falará sobre o tema em destaque: "Letras do Rio Grande do Sul".

Em relação com o tema da identidade gaúcha, ninguém pode perder "O Tempo e o Vento", atualmente em cartaz em Pelotas (v. nota sobre o filme). Além da famosa trilogia sobre a história do Rio Grande, Érico Veríssimo escreveu "Incidente em Antares", "O resto é silêncio" e diversos livros infanto-juvenis.

Como de costume desde 2010, o Sarau na Biblioteca é organizado na última terça-feira do mês, às 19h30. Amanhã (24-9) os poetas convidados são: Daniel Stepanski, Dulce H. Amaral Chim dos Santos, Matheus Valente e Nelson Ribeiro. O público presente também pode declamar suas criações.

Na música ao vivo, sempre presente no Sarau, o destaque é para a jovem cantora e compositora rio-grandina Gabrielle Fredo, de 15 anos de idade. Com somente 11 anos ela se iniciou no violão e descobriu um bom potencial de voz cantando com uma banda juvenil. Hoje ela segue aulas de canto com Fernanda Martins, em Pelotas, e optou por uma precoce carreira solo.

Gabrielle Fredo já tem um clipe de divulgação: "O Som da Tua Voz", de sua autoria (abaixo). Suas principais influências são as cantoras Ana Carolina e Paula Fernandes. Veja também o programa Acústico TV Câmara de Rio Grande, 18 min, onde ela canta 5 músicas e fala sobre seu trabalho.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sarau na Biblioteca destaca Arnaldo Antunes


O Sarau Poético-Musical destaca, nesta terça (27-8), o músico e poeta paulista Arnaldo Antunes, atualmente com 52 anos (completa 53 na próxima segunda 2-9). Ex-integrante do grupo Titãs, Arnaldo escreve poemas, compõe canções e "desenha" poemas visuais, jogando com as potencialidades gráficas das palavras (v. o comentário de Antônio Medina Rodrigues).
"Rio: o ir" (Arnaldo Antunes)

Neste 33º Sarau, Jorge Braga apresenta a vida e obra de Arnaldo Antunes, e sua música é cantada ao vivo por Raquel Veiras, com Maurício Veiras no violão.

Como de costume nos Saraus da Biblioteca, também haverá declamação de poemas autorais, nesta ocasião com os autores convidados: Ana Isabel Correa, Carmem Nalério, Maria Amália Camacho e Pablo Arbeletche.

O público é convidado a participar no final. No salão térreo da Biblioteca Pública Pelotense, com início às 19:30 e finalização perto das 21:30. Entrada franca.


Socorro!

Socorro! Não estou sentindo nada:
Nem medo, nem calor, nem fogo.
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir...

Socorro! Alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada...

Socorro! Alguém me dê um coração,
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...

Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva,
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva...

Socorro! Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...

domingo, 11 de agosto de 2013

O espírito de Portugal

Azul, de Arlinda Nunes
(mar, ilhas e caminhos)
A artista plástica Arlinda Magalhães Nunes criou uma série de 7 telas, cada uma com uma cor, para ilustrar a sequência do arco-íris. O quadro azul foi o único da série que ela guardou para si, em seu ateliê no Centro Zona Norte, talvez como lembrança do trabalho completo.

Nesse ateliê também estão expostas, de modo permanente, duas mandalas vazias, uma verde e uma vermelha, que lhe recordam a bandeira de Portugal, país de origem de seus ascendentes.

Buscando uma relação possível entre as três obras, me pareceu descobrir por que Arlinda reteve o quadro azul e por que o exibe em conjunto com as duas mandalas: a conexão está no coração da artista, filha de Portugal, e na coloração das obras. As cores da bandeira e a cor do oceano representam o espírito de navegação e empreendimento, que sempre animou os portugueses em suas viagens e anima os artistas em sua busca de novas visões e novos caminhos.

Outra simples associação nos leva ao poema de Fernando Pessoa que define a alma portuguesa de forma tão bela e sintética.


Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Do livro Mensagem (1934)

Composição de Darrell Kastin para o poema de Fernando Pessoa
Shawna Lenore (voz), Darrel Kastin (piano), Luis Sá Pessoa (violoncelo)
Imagem: F. A. Vidal

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Schlee apresenta novo livro de contos

Contos sobre a fronteira ganharam
1º lugar na Bienal Nestlé em 1984
A Biblioteca Pública Pelotense anuncia para sexta 23 de agosto o lançamento do novo livro de Aldyr Garcia Schlee, Contos da vida difícil. A editora porto-alegrense Ar do Tempo vem a Pelotas para fazer aqui a primeira apresentação da obra.

Trata-se do oitavo livro de contos do autor jaguarense e o sétimo título dele publicado pela Ar do Tempo. No dia do lançamento, o editor Alfredo Aquino entregará em doação à Biblioteca Pública Pelotense cinco exemplares de cada um destes títulos.

Schlee lançou em 1983 seus "Contos de sempre", contando assim 30 anos publicando livros. No entanto, pode-se dizer que sua carreira literária já soma 35 anos, contando desde sua estreia em 1977, na coletânea "Histórias Ordinárias", com os contos “Pan viejo”, “Pláquete-pláquete” e “O sulque de rodas vermelhas”.

Ainda nada foi revelado sobre o conteúdo dos novos contos, mas a expressão "vida difícil" sugere uma redefinição da "vida fácil", como tradicionalmente é chamada a prostituição. Como tampouco foi divulgada a capa do livro, ilustramos esta nota com capas de livros de contos anteriores.

O futebol é paixão brasileira e uruguaia.
Os contos nasceram em espanhol.
Desde 2009 a Ar do Tempo tem lançado as novas obras de Schlee ("Os limites do impossível: contos gardelianos", o romance "Don Frutos" e os recentes "Contos da vida difícil"). Comprometida também com a recuperação de seus títulos já esgotados, vem reeditando desde 2011 suas obras anteriores em português: já saíram "O dia em que o Papa foi a Melo", "Contos de futebol", "Contos de verdades" e "Uma terra só".

Especializado em literatura platina, o escritor é um caso raro de ficcionista, tradutor e autotradutor: escreve em português ou em espanhol, se traduz a si mesmo e traduz outros autores, nesses dois idiomas. Por exemplo, os contos do papa, que transcorrem em Melo, foram escritos no idioma local, em 1991, e vertidos por Schlee ao português em 1999.

A bibliografia mais completa de Schlee (até "Don Frutos") se encontra no anexo da entrevista concedida à jornalista Marlova Aseff, publicada em 2009 pela revista da UFSC Cadernos de Tradução.
Imagens: ardotempo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O poema que nasceu de uma enchente

O cronista Rubens Amador publicou há uma semana a crônica "Terna lembrança", na qual recorda um professor que teve lá por 1938, mais precisamente quando cursava o 5º ano primário. O aluno reencontrou o mestre de surpresa, 45 anos depois, mas foi somente agora, em 2013, que surgiu a "terna lembrança". Este artigo constitui-se também em documento histórico sobre o poeta Felicíssimo Silva, um dos jovens fundadores da antiga União Pelotense de Estudantes Secundaristas (hoje ele teria cerca de 100 anos).


Chuvas de 2009 inundaram a zona baixa da Dom Pedro II.
Como ainda muitos hão de lembrar, em julho de 1983 o sul do país sofreu uma grande enchente, inesquecível por sua devastação [v. reportagem do Jornal Nacional].

Pois foi nessa mesma época – precisamente, em 18 de julho daquele ano – que meu velho ex-mestre, Prof. Felicíssimo Silva, apareceu em meu estabelecimento comercial.

Na minha juventude, eu o conhecera no período do Admissão ao Ginásio, então aluno do Colégio Sagrado Coração de Jesus, cujo fardamento era, em tudo, semelhante ao dos escoteiros. Esse homem inteligente, anos mais tarde – já idoso – se tornou conhecido poeta parnasiano, e na imprensa local publicou inúmeros trabalhos, que eram muito apreciados.

Pois bem, naquele dia de 1983, se desenrolando aqueles trágicos e contrastantes acontecimentos climáticos, o Prof. Felicíssimo Silva se apresentou ante mim, todo molhado – pois chovia muito – modestamente vestido, barba por fazer, fisionomia ainda extremamente bondosa, característica de suas feições desde moço. Ao se abrigar, em minha firma, da forte chuva que caía, pude oferecer-lhe uma xícara de café quente, pois fazia muito frio também. Ele tiritava.

O professor foi um poeta autêntico. Vivia só de aulas particulares que ministrava, disse-me. Sabia fazer poesias, mas não sabia ganhar dinheiro com seu saber. Então me ofereceu sua última poesia – escrita havia pouco, segundo ele – relatando o fenômeno climático que sofríamos, de abundante enchente no sul e seca inclemente no nordeste. Sua poesia – uma maravilha – intitulava-se Dramático Contraste:

Por mais que o ser humano se agigante
Na busca infinda da pesquisa e da ciência,
Com seus engenhos chegue à lua e cruze os céus,
A cada dia, cada hora e cada instante,
O homem sente quanto é pouca a suficiência
Para, sem Deus, alcançar os planos seus.

O Plano Eterno – que governa a natureza –
Castiga a terra, nos enchendo de tristeza
E, como a fome e a doença, só, não baste,
Sofre o nordeste a estiagem permanente,
Suporta o sul os flagelos desta enchente,
Qual irônico e dramático contraste.

Até que voltem a seus leitos, rios e lagos,
Que se possam resgatar tantos estragos,
Animados da esperança – que não morre –
Que nos acudam as modernas invenções:
Helicópteros, o rádio e os aviões,
E todo um povo solidário, que socorre.
Felicíssimo Silva
Pelotas, 18 de julho de 1983

Recebi, agradecido, a poesia que meu ex-professor me oferecia, e pedi-lhe que a autografasse. Ali mesmo no balcão, de improviso, apanhou a caneta e, com a mão trêmula pelo frio, rapidamente escreveu:

Neste dia de borrasca, pleno inverno,
Que nos invade um sentimento terno,
Velha amizade de ex-aluno e professor,
Eu ofereço, com sincera modéstia,
Este poema a quem – criança um dia –
Foi bom aluno, o Rubens Amador.

De seu velho e sempre amigo (assinado): Felicíssimo Silva.

O Professor Felicíssimo faleceu no ano de 1987. E a crônica de hoje nasceu do meu reencontro com a poesia que me foi por ele oferecida, e que esteve dormindo entre meus guardados por exatos 30 anos. Dia destes deparei-me com ela entre meus papéis. Confesso que uma terna emoção de saudade me invadiu ao reencontrá-la.
Rubens Amador
Texto: Diário da Manhã, 28-7-13
Foto: Irineu Masiero

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ciclo marca os 100 anos das Lendas do Sul

Ilustração de Mário Mattos para "O Negrinho do Pastoreio"
Neste agosto, completam-se 100 anos da obra "Lendas do Sul", do escritor pelotense João Simões Lopes Neto. O aniversário será comemorado com um ciclo de 3 palestras ao longo do mês, com especialistas da literatura simoneana. Todos os encontros serão às 19 horas na sede do Instituto.

Serão abordadas as três principais lendas do livro.
  • Quinta-feira 1 de agosto, Luís Augusto Fischer aborda a lenda "A Mboitatá".
  • Quinta-feira 8 de agosto, Flávio Loureiro Chaves palestra sobre "A Salamanca do Jarau".
  • Quinta-feira 15 de agosto, Aldyr Garcia Schlee fala sobre "O Negrinho do Pastoreio".
Folha de rosto da primeira edição (1913)
Lendas do Sul foi a terceira obra a ser lançada, ainda em vida, por Simões Lopes. Em 1910, ele estreava com o "Cancioneiro Guasca"; em 1912, seria a vez de "Contos Gauchescos". No ano de 1913, mais uma vez contando com a ajuda da Echenique & C. Editores, Simões lançaria sua coletânea de lendas regionais.

Além das três histórias de maior destaque, acima citadas, o livro ainda trouxe os capítulos "Argumentos de outras lendas missioneiras" e "Argumentos de lendas do centro e norte do Brasil".

Sobre a Salamanca, leia neste blogue o artigo de Hilda Simões Lopes Costa O Cerro do Jarau e as Torres de Alhambra (a escritora palestrou sobre o tema em março passado, segundo o blogue da Palavraria) e o artigo de Marli Marangoni (2007) A Salamanca do Jarau: uma leitura da auto-representação gaúcha.

As lendas de Simões não podem ser consideradas criações totalmente autorais, pois a maioria delas já circulava nos relatos de populares e algumas inclusive haviam sido registradas por outros escritores. O mérito de "Lendas do Sul" está na forma como as lendas foram reconstruídas, com o requinte literário característico de Simões Lopes.

Os três palestrantes deste miniciclo receberam o prêmio Trezentas Onças, que destaca anualmente três pessoas que contribuíram significativamente para a valorização e a divulgação da obra de Simões Lopes. Fischer foi premiado em 2013, Loureiro Chaves foi contemplado em 2008 e Schlee é Trezentas Onças 2009. 
Fonte do texto e das imagens: I.J.S.L.N.