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sexta-feira, 26 de março de 2010

Ariel Ramírez morre aos 88 anos

O compositor e pianista argentino Ariel Ramírez morreu aos 88 anos, na quinta 18 de fevereiro, numa clínica de Buenos Aires. O músico era mundialmente conhecido por canções como Alfonsina y el mar e obras corais como a Misa Criolla (1964) e a Misa por la Paz y la Justicia (1981).

Desde jovem Ariel Ramírez interessou-se pela música de raiz argentina, e esse interesse se intensificou em 1941, quando se encontrou com Atahualpa Yupanqui.

Passou a compor com inspiração folclórica sul-americana, apresentando-se também como pianista. Em 1955 criou um grupo folclórico com o qual viajou pelo mundo por duas décadas, difundindo a música de raiz latino-americana.

No vídeo acima, o Gloria da Misa Criolla, interpretado pelo grupo Los Fronterizos e o coro da Catedral de San Isidro, dirigido por Gustavo Felice. Esta música aparece no filme Leolo (1992), do francês Jean-Claude Lauzon.

Abaixo, "Nacimiento del charango", de Ariel Ramírez, tocando piano com Jaime Torres no charango, para o documentário Argentinísima II (1973), dirigido por Fernando Ayala e Héctor Olivera.
Foto da web

sábado, 6 de março de 2010

200 anos do nascimento de Chopin

Esta semana se recordou, ao redor do mundo, o bicentenário de nascimento do maior compositor polonês, mais conhecido por seu nome francês: Fréderic François Chopin (1810-1849). Ao mesmo tempo, se celebrou ontem (5), no Brasil, o dia nacional da música clássica, escolhido em 2009 (leia histórico) por ser o aniversário de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Em Pelotas não houve celebrações por nenhum dos dois motivos.

O nascimento de Chopin foi registrado - numa paróquia próxima a Varsóvia - como sendo 22 de fevereiro de 1810, mas se acredita que a data certa seja mais perto do dia 1 de março. O menino teve as primeiras aulas de piano com a irmã mais velha e com a mãe. O talento precoce o fez conhecido em Varsóvia como "segundo Mozart", pois aos oito anos de idade deu o primeiro recital como pianista e já era autor de uma polonaise (veja biografia). Devia ser como Dimitri, de 7 anos (acima, tocando a Valsa em lá menor, opus póstumo nº 17). Aos quinze, Chopin compôs a obra que seria seu opus 1: o Rondó em dó maior.

Aos vinte, foi morar em Viena, mudou-se para a França - terra de seu pai, professor de francês em Varsóvia - mas nunca pôde voltar à terra natal. Do exílio são suas obras mais intensas, como a famosa "Marcha Fúnebre" (1837), que veio fazer parte da Sonata nº 2 em Si bemol menor, opus 35 (vídeo abaixo, interpretação de Jeffrey Biegel).

Por sentimento e por compromisso político, Chopin esteve sempre ligado à Polônia, como um revolucionário de coração contra a invasão russa. Seguiu compondo até que morreu em Paris, de tuberculose, aos 39 anos. Sua Marcha Fúnebre foi tocada em seu próprio enterro e ficou conhecida em funerais de governantes como John Kennedy, mais especialmente na versão orquestrada pelo inglês Edward Elgar. No Brasil, o motivo melódico principal foi um bordão da novela de sátira política "O Bem-Amado" (1972-73).

Habitualmente se recordam a fama e o inegável talento de Chopin como músico. Nas comemorações dos seus 200 anos, um moderno museu foi inaugurado em Varsóvia e muitos concertos estão sendo realizados em todo o mundo; em São Paulo, por exemplo, o pianista Nelson Freire interpretará algumas de suas obras no próximo sábado (13).

No entanto, em Pelotas o compositor polonês foi homenageado por seu compromisso político e patriótico, sem menção da música. Um pequeno monumento foi levantado, há 65 anos, e até hoje pode ser visto, defronte à Escola de Direito (abaixo). Seus dizeres são: A Chopin, símbolo da liberdade, a Federação Acadêmica de Pelotas.

Segundo o historiador Mário Osório Magalhães (Diário Popular, 24-11-2002), a Federação Acadêmica decidiu, em 1943, destacar o valor patriótico e libertário do artista polonês. Naquele ano, recrudescia a Segunda Guerra Mundial, já com o Brasil aderido às forças aliadas, após submarinos alemães terem atacado mercantes brasileiros. A Polônia era um emblema da luta contra o nazismo (terminada esta guerra, seria novamente dominada pela ditadura russa soviética).

O bronze foi um trabalho da escultora Eugênia Smyte, conforme relata o historiador pelotense. Ainda em 1943 se falou na imprensa sobre a escolha do local para o busto: a praça Osório, a Júlio de Castilhos (hoje Parque Dom Antônio Zattera) ou a pracinha Conselheiro Maciel, a da Escola de Direito, onde finalmente se inaugurou, em 31 de maio de 1944. A Guerra ainda duraria um ano angustiante, envolvendo países de todos os continentes, inclusive com forças expedicionárias brasileiras.

Assim como o Aeroporto Tom Jobim no Rio de Janeiro, a Polônia denominou o seu principal aeroporto internacional com o nome de Fréderic Chopin. Além do proverbial patriotismo (derivado das perseguições dos poderosos vizinhos), o país é um modelo mundial de valorização de seus artistas e intelectuais; muitos deles são designados oficialmente como autoridades públicas e do serviço diplomático, denotando que a inteligência e a cultura é que devem governar ou, pelo menos, representar os princípios morais e éticos da nação.

Pelotas tem muitos artistas e intelectuais, mas aqui eles não governam e inclusive são vistos pela autoridade como um segmento social e político reduzido, fonte de pressões e exigências. A mesma cidade que já homenageou governantes locais - e até artistas estrangeiros - ainda deve um monumento a seu maior escritor, João Simões Lopes Neto.
Imagens da Wikipedia (1) e F. A. Vidal (2)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Terremoto no Chile e a conexão com Pelotas

Ao meio-dia de hoje, o sítio da RBS Pelotas Mais informou da presença de pelotenses em Santiago do Chile, durante o terremoto de sábado (27). Eles são o doutor Waldemar Barboza e sua esposa Sônia, em férias até ontem, e forçados, desde hoje, a esperar um voo de saída do país. Como eu conheço o doutor e conheço o Chile, me pareceu necessário mencionar o fato, que simboliza a conexão destas duas realidades insulares: nossa cidade e o país andino.

Em entrevista pelo bate-papo eletrônico, o médico relata o momento terrorífico do tremor mais forte (o primeiro foi às 3h 26) e descreve a tensa calma que se vive no setor médio-alto de Providencia. Indiretamente ele comenta o que gostaria de ver no brasileiro, se aqui ocorressem situações assim. "...as pessoas formam filas enormes, mas mantendo sempre uma postura de cuidados e respeito com os outros. [...] Os comerciantes estão sendo muito éticos e não estão aumentando os preços de artigos de primeira necessidade, ao menos aqui onde estamos" (leia a nota).

O aeroporto internacional de Santiago está funcionando desde sábado às 14h, mas com restrições, devido aos danos. Os voos do exterior foram desviados ao norte do país, para o atendimento de alfândega, e logo os passageiros são trazidos a Santiago; os voos provenientes do sul foram suspensos. Durante a semana, espera-se recomeçar os serviços normais sob tendas do exército; o clima de verão é quente e com baixa umidade. Os primeiros voos para o exterior poderiam ser na sexta (5), de acordo ao vespertino La Segunda (leia).
Os chilenos estão acostumados a esperar catástrofes e a sofrer danos naturais, inverno ou verão, dia ou noite, mas tudo indica que esta situação é o mais grave que já se viu desde 1960. O terremoto foi minimizado por notas de imprensa, comparando-o ao de março de 1985, que teria sido mais forte, o que parece ter sido dito para não intranquilizar ainda mais a população.

Um sinal de que o tremor é importante são os cortes de luz, água e telefone. Os rádios de pilha passam a ser o contato com o mundo, no meio da angústia. Algumas estradas (foto abaixo, em Talcahuano) e um setor do porto de Valparaíso racharam e prédios residenciais desabaram - em maior medida que no terremoto anterior.
A cada 15 ou 20 anos ocorre um grande sismo (de mais de 6 na escala Richter), com um ou dois menores no meio do período. A força deste último equivale a uma energia que a terra estava guardando, pois há 25 anos que nenhum tinha ultrapassado o grau 6. Os dados oficiais de hoje (1) são de 723 mortos e mais de 500 feridos, segundo o jornal La Nación. O transporte público funciona normalmente desde hoje, não há desabastecimento na capital, mas todos os cinemas e teatros fecharam, ainda sem previsão de reabrir.

A engenharia chilena se encontra ao nível mais avançado no mundo das construções antissísmicas, e é por isso que os edifícios somente balançam mas não caem. As casas mais suscetíveis a danos são as que seguem o sistema colonial, à base de adobes (grandes ladrilhos de barro e palha). Com os tremores de terra, inerentes à natureza próxima aos Andes, as paredes de adobes das casas rurais se desmancham por completo, mas logo estes são reutilizados, a maioria em bom estado.
No entanto, numa cidade permanentemente exposta a sismos, os prédios são construídos com as devidas proteções, a tal ponto que as pessoas devem ser orientadas a proteger-se a si mesmas e não se preocupar com objetos físicos. Por exemplo, se alguém estivesse próximo à janela de um edifício alto, poderia ser projetado pela janela com as oscilações. Mas o edifício não cairia, pois sua estrutura é feita com metais flexíveis e resistentes.
Essa imagem pode ser uma metáfora do psiquismo do chileno, acostumado a duros golpes e programado para não quebrar, com defesas muitas vezes excessivas. Psicólogos aconselham as melhores medidas (leia nota do jornal El Mercurio). Em Pelotas não há terremotos, mas as inundações são nossa permanente ameaça, perigo que se agrava especialmente com a subida do nível dos oceanos.
Daqui a duas semanas assumirá o presidente eleito em janeiro, Sebastián Piñera, empresário de direita que se desligou gradualmente da ditadura pouco antes daquele terremoto de 1985. Até agora nenhum sinal foi dado de que a cerimônia venha a ser alterada ou adiada. Hillary Clinton, que está em Montevidéu para acompanhar a posse do novo presidente uruguaio, confirmou sua visita ao Chile.
Imagens La Segunda

Músicos da UFPel apresentam-se na França

O Núcleo de Música Contemporânea (NuMC) organizou, para a próxima semana, uma atuação na cidade de Paris, França: a Mostra de Música Contemporânea Brasileira. Serão 3 concertos diferentes, programados para os dias 10, 11 e 12 de março, na Maison du Brésil ("Casa do Brasil", centro cultural ligado ao Estado francês).

O NuMC é um grupo formado por professores do Conservatório de Música da UFPel, interessados em desenvolver e difundir a música erudita contemporânea. Participou ativamente em 2009 no 6º Festival de Música Contemporânea, realizado em Porto Alegre e Pelotas (veja nota).

Os participantes na Mostra anunciada são o flautista Raul Costa d´Avila, os violonistas Thiago Colombo (sentado)e Rogério Constante (também compositor) e os pianistas Joana Holanda (sentada), Lucia Cervini e Guilherme Goldberg (de pé, no centro). Ao todo, 18 compositores brasileiros serão interpretados.

Além dos 3 concertos, os integrantes do Núcleo realizam uma palestra sobre as atividades do grupo na UFPel e participam de um ateliê de música contemporânea junto à associação francesa (análoga ao NuMC) Musica Temporalia, à qual pertence a pianista Martine Joste (esq., foto de Isabelle de Rouville), que se apresentou em Pelotas em 2009.

O primeiro concerto traz obras para piano, que serão interpretadas por Joana Holanda e Lucia Cervini, dos seguintes compositores:
  • Liduino Pitombeira (Uma noite na Mata, 2002),
  • Bruno Ruviaro (Sete Vazios, 2006) [ouça o trecho no sítio do autor],
  • Rogério Constante (Pampa I, 2005),
  • Alexandre Lunsqui (Contours... Distances..., 2009),
  • Silvio Ferraz (Catedral das 5:45, 2004),
  • Almeida Prado (Cartas Celestes I, 1974).

O Concerto II traz obras para violão de Edino Krieger (Passacaglia para Fred Schneiter, 2001), César Guerra-Peixe (Sonata para violão, 1968), James Corrêa (Terrains, 2000), Januíbe Tejera (Estudo nº 1, Homenagem a Sciarrino, 2005), Celso Loureiro Chaves (Portais e a Abside, 1991) [leia nota do compositor] e Almeida Prado (Sonata Tropical, 1996).

O último dia inclui obras

  • para flauta solo de: Nelson Macedo (Fantasia Seresteira, 1998) [veja e ouça gravação de Raul Costa D'Ávila], Rodrigo Garcia (In Extremis, 2004), Paulo Costa Lima (Aboio op. 65, 2004) e César Guerra-Peixe (Melopeias nº 3, 1950);
  • para piano solo: de Flávio Oliveira (Serielo op. 10, 1973), Bruno Kiefer (Terra Selvagem, 1971) e Frederico Richter (Variantes Breves, 1972) e
  • para duo de flauta e piano, dos autores Flávio Oliveira e Armando Albuquerque.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Fórum Social Mundial chega às periferias

O Fórum Social Mundial, iniciado há dez anos em Porto Alegre, já rodou pelo mundo e agora tem uma primeira versão expandida às periferias urbanas. Contraposto ao Fórum Econômico de Davos, o Fórum Social é uma rede mundial de resistência contra o capitalismo. A Glocalização se opõe à globalização.

Em Pelotas, as atividades foram organizadas no Loteamento Dunas, de 2 a 6 de fevereiro. Veja a programação. Outras informações no Diário da Manhã de hoje e no blogue da Rede Vidadania.

domingo, 31 de janeiro de 2010

A Imaggem morreu junto com Eric Rohmer

A videolocadora Imaggem Televídeo, que há quatro anos apostava em filmes de boa qualidade artística e tinha várias joias do cinema europeu e latino-americano, fechou as portas este mês.

O ponto em rua movimentada (General Neto 639) era há tempos do mesmo dono, um professor aposentado do CEFET; esteve em outras mãos uns anos, também sem muito sucesso, e o proprietário havia decidido retomar o negócio. Ele vinha ampliando o acervo e optando pelos filmes mais seletos, aqueles que nas grandes locadoras só merecem um cantinho, junto com os documentários. Também havia títulos comerciais, musicais, infantis e até pornôs (numa pasta preta), mas a lei da selva foi mais forte.

O material passou agora, em grande parte, à Veja, a maior videolocadora de Pelotas (Gonçalves Chaves 1145 e General Osório 1288). No local, ficará uma vendedora de aquários (metáfora dos televisores).

Assim como os cinemas se ressentem com o aluguel caseiro de filmes, as locadoras em crise atribuem o mau negócio aos canais de satélite e cabo, à internet e à venda de DVDs (legal ou pirata).

O problema não ocorre somente no interior, onde já não existem salas de cinema. Até nas grandes cidades a locação de filmes evolui e se recicla. O próprio nome "videolocadora" já é coisa do passado, pois os vídeos (VHS - Video Home System) já desapareceram da maioria das locadoras (o que ninguém lamenta). Em Pelotas, ainda há alguns antigos em bom estado na Hobby Vídeo (Andrade Neves 2353).

Mas as pessoas ainda veem filmes e ainda é possível cativar clientes - com muita imaginação e talento comercial. O mais óbvio seria ampliar-se como videoclube, que é o princípio básico das locadoras. A maioria baixa os preços, mas ninguém pensa em exibir filmes grátis, servir pipoca e café na locadora, instalar jogos e internet, ou promover seminários e debates sobre cinema. Os comerciantes não são intelectuais. Quem vê caixa não vê poesia.

Talvez ao dono da Imaggem - um entusiasta do cinema mais do que um negociante - pudesse atribuir-se o traço contraposto: intelectuais não são comerciantes. Quem vê o coração, não lhe quer pôr um valor econômico.

Joari Reis, crítico de cinema (de pé, à esq.), foi o único que noticiou o fechamento da Imaggem, na sua coluna de domingo 17 de janeiro (leia).

Nos mesmos dias, o cineasta francês Eric Rohmer (abaixo à dir.) morria aos 89 anos de idade (veja notícia). A pronúncia em francês (ambas oxítonas): errík romér. Vários de seus filmes estavam disponíveis nesta locadora; por exemplo, "Conto de Verão (acima) e "O joelho de Claire" (abaixo à esq.).

Na cena inicial (vídeo abaixo) de "A colecionadora", os pés da protagonista "conversam" com a água, até que ela pára, intrigada, deixando o mar falando sozinho, para ouvir o distante ruído de um avião (anúncio indireto do segundo personagem do filme). Podemos ver também como o diretor se delicia com a anatomia da moça (atriz Haydée Politoff), nua e fragmentada como a personagem, e com as cores vivas de cada detalhe, fator importante pois La Collectionneuse (1967) é o primeiro filme em cores de Rohmer (veja crítica em inglês).

Se bem os dois fatos (na França e em Pelotas) não tenham tido influência mútua, a relação foi sugerida pelo professor Joari. A partir do dia 11, Rohmer viveria somente mediante suas obras, e elas não seriam mais vistas na Imaggem, pois também havia deixado de existir... Dois fins-da-linha para o cineasta; duas perdas para os cinéfilos pelotenses.

A irreparabilidade das falhas é uma ideia melancólica que alguns cinéfilos cultivam, desde que a decadência dos cinemas (as grandes salas; não o cinema como arte ou como indústria) nos impede ver os melhores filmes em tela gigante.

Mas com pensamentos lamentosos e saudosistas (variedade do sentimento de culpa), seguiremos asfixiando nosso prazer em ver filmes e nossa capacidade de gerar novas imagens.

Deixemos melhor legado às próximas gerações. Uma imagem morreu, mas surgirão muitas outras.
Imagens da web (3, 5-6), F. A. Vidal (1-2) e Roger-Picasa (4)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Jovem italiano cultiva amor por Pelotas

Um italiano de Milão, apaixonado por tudo o que tem relação com Pelotas, desde dezembro mantém uma série de páginas no Facebook com notícias periódicas sobre lugares nossos, com o fim de mostrar ao mundo a beleza deles. O Laranjal já tem 100 fãs, o Rio Grande do Sul tem 50 e os outros ainda estão começando (Tholl fã-clube, Pelotas-RS, a Catedral e o Museu da Baronesa).

O sentimento tão aberto e profundo deste rapaz radica no temperamento latino e numa específica paixão por uma garota pelotense, pela qual ele nutre amor platônico. Sem deixar de pensar nela, como ele mesmo diz, com o tempo a cidade também foi entrando em seu coração. Hoje ele é um apaixonado e comprometido fã de Pelotas.

Aprendeu português escutando música brasileira e tentando se comunicar com a garota e sua família. Como os idiomas são parecidos, ele se faz entender muito bem, e mesmo por escrito pode-se ouvir, nas palavras dele, aquele tom musical e carinhoso, tão característico do italiano. Permito-me transcrever sua opinião ao mesmo tempo crítica e amorosa sobre nossa cidade (ele assina com seu nome, mas pediu não divulgá-lo pois seus gestos são gratuitos e não buscam elogio ou retribuição).

Pelotas è uma cidade linda, mas pouco valorizada de seus cidadãos. Alguma gente nao tem rispeito dela, sujada da seus mesmos cidadãos (não todos). Mas isso è um mal bem comun em muitos lugares do mundo, Italia tambem.
E' dificil encontrar noticias turisticas bem feitas quando se chega na cidade, e bem dificil em ingles. Se è serio, e nao soamente propaganda politica, por Pelotas de se candidatar como polo turistico para a copa 2014, muitas coisas se necesida fazer.
Eu nao ganho nada com a pagina sobre Pelotas, meu amor è verdadeiro e de graça por Pelotas e certo eu vou voltar pra là, porque fica no meu coracao.
Y.


O amigo italiano convida a todos a entrar nessas páginas e a deixar comentários de apoio, para que pelotenses e visitantes conheçam as belezas de Pelotas, ajudando a cuidar de seu espaço e sua cultura com amor e respeito. Se entendermos seu espírito, saberemos construir algo melhor, num lugar que nem todos aprendemos a amar: tratando as pessoas com gentileza, deixando os lugares limpos, dispondo informação em inglês, organizando eventos e abrindo espaços turísticos. Atrás deste grito de amor, ouvem-se aqui vozes de dura crítica contra Pelotas, que só distraem do essencial e não conseguem gerar mudanças.

O vídeo abaixo é uma de suas canções preferidas (mais uma sutil declaração de amor, "Te amo e ponto final"), cantado pelo rapeiro Jovanotti, com músicos italianos e os arranjos do brasiliano Sérgio Mendes.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ciclovias como solução

A propósito de uma reportagem do Diário Popular sobre a ciclovia da Andrade Neves (leia parte), o professor da UFPel Aluísio Barros escreveu o seguinte artigo. O jornal o publicou dia 15 de dezembro passado, em sua edição impressa somente.
Os vídeos foram indicados pelo articulista no mesmo texto, um verdadeiro post de blogue.

Vi no jornal de quinta-feira, dia 10, extensa matéria sobre reclamações de comerciantes e motoristas que dizem que as ciclovias reduzem as vagas, espantam os consumidores. São capazes até de culpar a ciclovia pela recessão! As pessoas, infelizmente, ficam impregnadas de ideias antigas, de como um dia se imaginou a cidade - a cidade do carro, onde há ruas para todos os carros e, especialmente, vagas para todo mundo estacionar bem em frente do seu destino.

A cidade modelo de hoje é bem diferente. O carro, se descobriu, é barulhento, fumacento, entope todas as vias e causa grandes congestionamentos e enorme perda de tempo. Você já parou para pensar quantas horas de vida (ou quantas vidas) são desperdiçadas todos os anos no trânsito? Numa conta rápida, quem passa todo dia uma hora no trânsito gasta 200 h por ano, o que dá 8 dias inteiros de sua vida dentro do carro.

A cidade que se almeja hoje é uma cidade mais humana, onde o pedestre e o ciclista têm a preferência. Sem barulho, sem poluição, sem acidentes. As cidades de vanguarda na Europa estão bloqueando totalmente o acesso de carros ao centro - que voltou a ser um centro de vivência, de encontro humano. O carro fica longe. E as bicicletas é que circulam!

[O articulista sugere neste ponto o trailer abaixo, falado em inglês, e o filme acima, que tem legendas.

Em Pelotas, temos uma facilidade natural para a bicicleta: a cidade é plana e as distâncias não muito grandes. Investir em ciclovias significa mais bicicletas nas ruas e menos carros e motos. Isto é, menos necessidade de ruas, semáforos e vagas de estacionamento! [...]

O que nós precisamos é de mais ciclovias, com mais qualidade. Nossas ciclovias hoje são um tímido aproveitamento de ruas bem largas. A bicicleta não deveria pedir desculpa para circular. Nossas ciclovias são estreitas. Na própria Andrade Neves, eu tenho que sair da faixa quando vem alguém na direção oposta carregando alguma coisa.

E a ciclovia da Dom Joaquim? Do lado esquerdo e quase tendo que se equilibrar nela? Sem falar nos tachões que só servem para aumentar o risco de uma queda se a roda da frente da magrela pega num deles de mau jeito. Com boas ciclovias, quem sabe a gente acaba com a ideia de que o chique é andar de carro? Por que o chique mesmo é andar de bicicleta, e com segurança!

Para terminar, eu desafio qualquer comerciante da Andrade Neves a provar que não se consegue estacionar em alguma transversal, ainda a menos de uma quadra da sua loja.


Aluísio Barros
Centro de Pesquisas Epidemiológicas
abarros.epi@gmail.com

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dueto dos gatos (humor)


O Dueto dos Gatos (Duetto buffo di due gatti, título original de 1825) é uma peça para dois sopranos, atribuída a Gioachino Rossini (1792 -1868). Trata-se, na verdade, de uma compilação de melodias suas, da ópera Otelo, de 1816. O inglês Robert Lucas Pearsall, sob o pseudônimo de G. Berthold (segundo a Wikipedia), aplicou aos trechos a onomatopeia "miau", usando o texto dramático para uma finalidade humorística. Desde então, o dueto vem sendo cantado em concertos líricos, como se fosse mais uma peça erudita.
No vídeo acima, o Dueto dos Gatos é cantado por solistas do coral Les Petits Chanteurs à La Croix de Bois, em Seul, Coreia, novembro de 1996. Há dezenas de versões no YouTube, mas esta tem a correção musical aliada à graça dos intérpretes - sem expressão cênica, somente vocal. Os cantores são Régis Mengus (o moreno) e Hyacinthe de Moulins, e o regente pianista é Rodolphe Pierrepont (veja discografia). Hoje, 13 anos depois, Régis (dir.) é cantor de ópera e ator.
Les Petits Chanteurs à La Croix de Bois é um coral de crianças, fundado em 1907, que pertence à Escola de Canto (veja o portal) da paróquia de Paris La Croix de Bois ("A Cruz de Madeira"). Além das tarefas escolares oficiais, os "Pequenos Cantores de Paris" - como são conhecidos - estudam música e canto, e viajam pelo mundo, apresentando-se ante um público de 50.000 espectadores a cada ano, sem contar os shows de TV. Seu repertório é totalmente sério, como toda a educação francesa (esta brincadeira só foi possível na Coreia, do outro lado do mundo).
Compare uma versão, bastante apegada à partitura, de dois tenores adultos, Rockwell Blake e Gérard Lesne (ouça vídeo), e - com o mesmo texto musical - a apresentação teatralmente dramatizada das inglesas Felicity Lott, soprano, e Ann Murray, mezzo-soprano, num bis após concerto em Londres, 1996 (veja vídeo).
Imagens da internet

sábado, 26 de dezembro de 2009

Café Sócrates

Há poucos anos - mais ou menos entre 2005 e 2007 - esteve funcionando em Pelotas o Café Sócrates, encontros mensais de reflexão filosófica entre profissionais de diversas áreas.

A atividade foi iniciada pelo psicanalista Paulo Luís Sousa e seguiu em mãos de um informal clube filosófico, entre os quais o professor Jandir João Zanotelli ex-reitor da UCPel, e a empresária sra. Aira Gallo. O piso superior da Doçaria Pelotense se fez acolhedor para as conversas do pequeno grupo, porém com inconvenientes acústicos. Eu estive em quatro encontros e num deles expus um ponto de vista psicológico.

Em agosto de 2007, Zanotelli tratou a pergunta “Por que me odeias se não te fiz nenhum favor?”, ao redor dos valores da solidariedade e da generosidade. Houve doze presentes, que participaram fazendo perguntas e comentários. Esta reunião teve um convite de divulgação (abaixo), que deu impulso à atividade, mas o procedimento não se repetiu.

Em setembro, cinco pessoas discutiram, durante quase duas horas, sobre a pergunta “O que é o poder?” e seus significados filosóficos, teológicos e psicológicos.

Em outubro, a reunião foi em torno ao tema “Como ocorre o encontro humano?” (no caso, ocorreu em torno a uma bandeja de doces e o chá de frutas da Doçaria). Ante a pouca clareza na organização das datas, os sete contertúlios concordaram que as sessões ficassem na penúltima quarta-feira de cada mês.
A reunião de novembro abordou o tema “Nascimento e Morte”. Depois disso, as férias diluíram o grupo, que não se reconstituiu no ano seguinte (ou não me informou).
As quatro reuniões foram organizadas pela sr. Aira Gallo, dona da Doçaria, e o professor Zanotelli fez as exposições para estimular os debates, sugerindo também os temas seguintes, com aprovação dos contertúlios. Apesar de ser uma excelente ideia, não teve continuidade por falta de organização. Entre fundar um estilo próprio em Pelotas e reproduzir uma iniciativa trazida de fora, a informalidade do grupo não conseguiu nem uma coisa nem outra.
O Café Sócrates não é um lugar físico, mas uma forma de diálogo, que pode estabelecer-se entre pessoas de quaisquer idades ou origens, somente exigindo atitudes de curiosidade, tolerância e profundidade. Longe de pretender encontrar respostas definitivas, visa a gerar mais perguntas em torno a assuntos de interesse das pessoas.
Em dezembro de 1992, o francês Marc Sautet (dir.), professor de filosofia, iniciou diálogos num café de Paris, que denominou "Café Filosófico", com inspiração socrática. Em 1995 relatou seu método no livro Un Café pour Socrate (veja passagens do texto original). Os temas eram escolhidos na hora do encontro - domingos às 11h - e as opiniões eram dadas por todos os presentes, somente facilitadas por um mediador, que era sempre ele. Sautet faleceu em 1998, por um tumor cerebral, aos 51 anos, mas os cafés-philos (leia verbete na Wikipédia) seguem até hoje.

A divulgação deste método nos Estados Unidos pertence a Christopher Phillips (abaixo à esq.), escritor que em 1996 fundou a S.P.I. (Sociedade para a Indagação Filosófica) em Nova Jersey e estabeleceu orientações para o debate coletivo.
Em 2001 ele escreveu parte de suas experiências em Socrates Café: a Fresh Taste of Philosophy (1ª imagem acima à dir.), e já tem mais dois livros nesse tema. Algumas das sugestões de seu criador são que as reuniões destes “clubes filosóficos” sejam semanais ou quinzenais, durem duas horas, tenham a condução de um facilitador (não um expositor) e girem cada vez em torno a uma pergunta, que cada pessoa responderá. É importante a estabilidade do lugar, horário e periodicidade. O objetivo é ordenar a expressão participativa, estimulando a curiosidade e a tolerância intelectual. Há um formato para crianças e adolescentes, com os mesmos princípios.
A iniciativa se transformou numa espécie de franquia internacional bastante livre, que já teve centenas de grupos em diversos países. Na América do Sul, há ou houve pelo menos um Café Sócrates em Caracas e outro em Buenos Aires. A esposa de Christopher, a professora e pesquisadora mexicana Cecilia Chapa Phillips, traduziu a informação principal ao espanhol, mas ao parecer os livros ainda não passaram ao português.
Imagens da web (1, 3) e F. A. Vidal (2)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Day by Day, a versão gaúcha de Godspell

Graças a uma promoção do Emaús Pelotas, assistimos em 27 e 28 de outubro de 2007, pela primeira vez em nossa cidade, à peça “Day by day - a história que todo mundo conhece”, adaptação livre do musical de 1971 Godspell (palavra que em inglês equivale a “evangelho”, boa notícia).

O grupo porto-alegrense “Cantar a esperança”, que vem encenando esta obra desde 1985, sob a direção de Dayse Matias, satisfaz ao mesmo tempo objetivos artísticos e de evangelização, ao contar a história de Cristo de forma moderna, ágil e engraçada, sem perder o seu significado essencial. Em 2009, eles se apresentaram em setembro, no bairro porto-alegrense de Higienópolis (veja abaixo o cartaz).

A história que todos conhecemos é a do Jesus bíblico, desde o anúncio de João Batista até a Ressurreição. Quando já não o vemos flutuando nas nuvens, e sim cantando e dançando, jogando pétalas para a platéia e incluindo-nos entre os seus amigos, a imagem daquele mestre espiritual adquire nova vida e, mesmo já conhecendo a história, nos emocionamos ao vê-lo despedir-se, ser preso e condenado. Avançada a história, sentimos que a alegria de conhecê-lo foi um sonho, mas sua pronta reaparição faz que a tristeza de perdê-lo também fique no passado.

As canções do norte-americano Stephen Schwartz - que do musical de teatro passaram ao filme Godspell, de 1973 - estão nesta versão gaúcha bem traduzidas à nossa linguagem, inclusive com o típico “tu”. Algumas liberdades foram necessárias para ajustar a mensagem ao público atual e assim retraduzir para nós o que os norte-americanos (de marca protestante) lêem na peça original.

Godspell (veja o filme completo aqui, 1h40 sem legendas) faz adicionalmente um louvor em imagens à cidade de Nova Iorque, com seus parques e impressionantes edifícios, incluídas as Torres Gêmeas recém construídas. A primeira foto acima, capa da trilha sonora, é de uma cena filmada no topo do antigo World Trade Center, na época o edifício mais alto do mundo, com mais de cem andares.

A mensagem turística focada em Nova Iorque é tão óbvia que as imagens se colocam ao nível do texto, como dizendo: "Cristãos do mundo, amem sua própria cidade". Os pelotenses verão, no clipe abaixo (Save the People), um chafariz parecido ao da Praça Osório e poderão até ver alguma semelhança entre o Rio Hudson e o canal São Gonçalo.

Com todas as mudanças e simplificações, permanecem em Day by day (a peça gaúcha) os conteúdos do Evangelho, tipicamente o amor comunitário, a fé incondicional em Deus e a renovação do mundo. Inclusive ficou conservada a mescla de estilos musicais mais comuns dos Estados Unidos (rock, ragtime, gospel, sapateado).

Uma só inovação pareceu-nos desnecessária, ainda que bem apreciada pelo público: a melodia Hosanna Hey, que pertence a “Jesus Cristo Superstar” (ópera-rock de 1970). Afinal, o próprio filme Godspell, feito em 1973, entre tantas citações, também punha no seu Jesus recém batizado o “S” de Superman, detalhe inerente à mentalidade ianque, mas alheio ao cristianismo (contraditório, inclusive).

Algumas alusões a nossa cidade contribuíram a aproximar do público a mensagem religiosa com humor e otimismo, sem as solenidades das catequeses tradicionais, mas conservando os “puxões de orelha” do discurso cristão. Por exemplo, o bom samaritano e o filho pródigo aparecem como personagens pelotenses. Na atualizada parábola do rico e do pobre (parodiando Lucas 16, 25), um engraçado Pai Abraão diz ao rico que reclama por sua condenação:

- Filho, então tu pensavas que a vida era como uma caixa de docinhos de Pelotas?

Banda e coro, presentes no palco, desempenharam-se com agilidade e entusiasmo, acompanhando com perfeita sintonia os atores-cantores, também estes com boa pronúncia e afinação. A voz mais expressiva é da Madalena, que canta Day by day e “Aonde vais?” com graça e sensibilidade. O Jesus, personagem tão idealizado, tem aqui muito boa expressão corporal, mas com maior serenidade pareceria mais um mestre que um discípulo. Leves problemas nos microfones dos atores dificultaram a audição de algumas falas. Além de um bom conceito e um bom texto, é sobre o trabalho deles que se apoia o sucesso deste espetáculo, apresentado somente numa temporada breve a cada ano.

O público, quase a metade do Teatro Guarani em cada apresentação, aplaudiu com entusiasmo e carinho o trabalho dos artistas visitantes, e estes retribuíram com uma repetição do trecho “A luz do mundo”, música baseada no Sermão da Montanha (de Mateus capítulo 5).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Leopoldo Plentz inclui Pelotas na "Fronteira Sul"

Melo, Uruguai (L. Plentz, 2004)
Na jornada que se denominou Noite Branca, em 5 de dezembro passado, uma exposição de fotografias aproximou-se bastante, conceitualmente, ao sentido de complementar o lançamento do livro "Os limites do impossível – contos gardelianos".

A série "Fronteira Sul", concebida por Leopoldo Plentz em 2004 e exposta em Porto Alegre em setembro e outubro de 2009 (esq.), foi aberta no Instituto Simões Lopes Neto uma hora antes da sessão de autógrafos e permanece aberta à visitação até 27 de dezembro próximo.

Plentz costuma pesquisar imagens no contexto urbano, mostrando uma ótica interessante. Em uma dezena de imagens, ele apresenta seu olhar sobre Uruguai, Argentina e Brasil, nas cidades de fronteira e em capitais, buscando uma identidade comum aos gaúchos no sentido geográfico e "geológico", como ele diz (leia nota).

A visão do fotógrafo, registrada em anos recentes, se completa bem com as situações da literatura de Schlee, especialmente neste último texto, ambientado em San Fructuoso, hoje cidade de Tacuarembó.

Leopoldo Plentz
A época, no entanto, é distante de nós 120 anos, e estas fotografias vêm fazer uma ponte, registrando no hoje elementos que são perenes. Essa visão tem algo de holográfico, na medida em que mostra no detalhe uma característica global.

Vistas em Pelotas, as imagens de outras cidades platinas nos fazem tomar consciência desses aspectos do todo escondidos nos detalhes não percebidos.

A foto tomada em Pelotas – "Coca-Cola", Quinze com Tiradentes – registra uma esquina vazia de pessoas e ações, mas cheia de história, o antigo posto de gasolina defronte ao Mercado, hoje Paulinho Loterias.

A renovação dos espaços urbanos ocorre muitas vezes conservando elementos bem antigos, não como nas modernas construções, que destroem tudo o que havia antes.

Aceguá, Uruguai (L. Plentz, 2004)
Aldyr Garcia Schlee reconheceu nestas fotografias o sentido de sua literatura e de sua percepção de fronteira:

Nasci no lado brasileiro do Jaguarão, mais precisamente no lado de cá do rio, na cidade de Jaguarão, diante da cidade uruguaia de Rio Branco, que fica do lado de lá.
Por que aqueles dois mundos tão próximos e tão separados, apesar da majestosa ponte que os unia e das falas diferentes que os distinguiam? Como explicar tudo aquilo, que poderia ser tão simples e tão igual, sendo tudo a mesma gente, sem a linha divisória, numa terra só?
Aprendi, então, a olhar para o outro como quem se vê num espelho. E descobri que, na fronteira, nós não somos nós, apenas; somos nosotros, nós outros, nos outros. E percebo que essa é a grande lição da fronteira, justificando todos os seus mistérios e toda a sua magia (leia todo o texto).
Melo, Uruguai (L. Plentz, 2004)
Imagens da web

sábado, 28 de novembro de 2009

Árvore natalina e árvore natural

Em todo o centro foram colocadas árvores natalinas artificiais, cerca de uma dúzia, em volta da Praça Osório e ao longo das ruas do calçadão.

A que está na esquina da Félix da Cunha com Princesa Isabel (esq.)sofre um contraste especial por todos os lados, deixando-a reduzida a não significar quase nada.

Olhando-se a nordeste, os enormes e geométricos edifícios a fazem parecer uma pequena representante do reino natural. Nem ela se assume como artificial, nem mostra a importância que deveria ter, em relação ao Natal, à vida e à espiritualidade.

Ante o velho prédio do Quartel Farroupilha, conhecido como Casa da Banha (a noroeste), a mesma árvore parece de um modernismo muito alheio a nossa cultura - sem contar a defasagem da estação. Parece transplantada da Europa, lá onde o pinheiro é valorizado por ser uma árvore que permanece verde, apesar da neve (que não temos aqui).

De fato, na estação central da cidade suíça de Zürich, a empresa de cristais Swarovski coloca uma árvore de verdade, bem maior (15 m de altura), com milhares de ornamentos e pedras preciosas (dir.). Neste caso, sua imponência natural parece deslocada do artificial ambiente.

Olhando-se a sudoeste, perante a abundante vegetação da Praça Osório a mesma nossa "conífera" adquire uma aparência ainda mais falsa, minúscula, estrangeira e anacrônica. A vista é de duas grandes árvores (canafístulas), que mudam de aspecto segundo a época do ano (verão, na foto abaixo). Elas é que deveriam causar nossa admiração e ser enfeitadas, se fosse para significar algo grandioso e eterno.
Fotos de F. A. Vidal (1 e 3)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O cerro do Jarau e as torres de Alhambra

Hilda Simões Lopes Costa, escritora e socióloga pelotense, patrona da Feira do Livro que hoje começa, escreveu a seguinte crônica de viagem, que na verdade é uma tese literária e antropológica.

Viajando pela Espanha, hipnotizada, olho os desenhos nas pedras de Alhambra, ouço uma gravação explicando os símbolos árabes e a todo instante sou interrompida: "Olha, aqui um americano escreveu um livro..."

Mais adiante, no palácio, fazem-me ver onde o americano redigiu sua obra; visito o lugar sem entusiasmo, não é momento para livros, estou num mundo alucinante, preciso senti-lo. Mas com o tal escritor intrometendo-se em meus silêncios, está difícil.

Final de dia, calor insuportável, exaustão. Peço a chave no hotel e meu braço derruba a pilha de livros à venda: Cuentos de La Alhambra, Washington Irving. O próprio, o intrometido.

Examino a capa, as ilustrações, não resisto ao fascínio mouro. Compro a obra e, mais tarde, tonta de sono, dou uma olhada.

Vejo a palavra Salamanca e me detenho na Leyenda del soldado encantado. Desaparece o cansaço, leio num fôlego. Tenho nas mãos uma versão europeia da Salamanca do Jarau de João Simões Lopes Neto.

  • Enquanto Blau Nunes, o gaúcho, tem de seu apenas um cavalo, um facão e as estradas reais, don Vicente, o estudante espanhol, além da alegria leva consigo um violão.

  • O gaúcho Blau encontra um vulto de face branca e tristonha, o sacristão que, enfeitiçado, vive há 200 anos preso no cerro do Jarau que ficou sendo "o paiol das riquezas de todas as salamancas (furnas) dos outros lugares"; o espanhol don Vicente depara-se com um soldado dos reis católicos Fernando e Isabel, encantado há 300 anos nas torres de Alhambra, guardando o tesouro do último rei árabe.

  • O vaqueiro gaúcho recebe uma onça de ouro furada pelo condão mágico que o fará rico; o estudante espanhol acha uma estrela de seis pontas, amuleto de extraordinário poder.

  • Na lenda gaúcha, Blau irá adentrar o cerro do Jarau sob as palavras "alma forte, coração sereno, vai"; já Vicente, o espanhol, ao se encaminhar às torres de Alhambra ouvirá: si tienes fe y valor, sígueme.
Sabe-se que essas lendas são originárias da cidade espanhola de Salamanca, onde haveria um sacristão bruxo na cueva de São Cipriano. O escritor americano refere-se a ele e à fama das magias no lugar, mas a lenda se desenrola em Granada, onde chega o estudante de lá provindo.

Pesquisas indicavam o mesmo nódulo inicial à lenda gaúcha que, no entanto, desdobra-se na região do Prata. enquanto a obra de Irving é um registro da história oral, a de Simões Lopes Neto é prosa poética a partir da história oral, e é mais rica em desdobramentos.

O fato é que a lenda, ao que parece desconhecida em Salamanca, foi-se mundo afora. Em Granada, ganhou roteiro, personagens e símbolos. Atravessou os mares, chegou ao continente sul-americano, recebeu nova roupagem, elementos indígenas, adentrou o pampa gaúcho e se enfurnou no cerro do Jarau.

O povo, que vivia pelo meio do conflito entre mouros e cristãos, dominou-o através da palavra. Era um tempo, lamentavelmente perdido, em que os homens ainda fabulavam e não reduziam tudo ao domínio da razão. Criou as lendas, cruzou símbolos de uns e outros, abriu portas encantadas, fez e desfez magias.

Hoje, ao descobrir a lenda espanhola, sinto-me agarrando as duas pontas de um barbante que bordou e rendilhou desde o embrião dessas histórias. Impressiona-me a sabedoria popular, os arquétipos, o inconsciente coletivo, sei lá... Impressiona-me, sobretudo, que dessa mixórdia cultural árabe-cristã se originasse tanta sabedoria.

A atração entre os opostos, a busca da unicidade, é a dialética que faz o universo fluir. E na lenda, os enredo desloca-se através da dualidade: o Sol e a Lua, a mulher e o homem, os cristãos e os mouros, o crescente e a cruz.

Blau Nunes e don Vicente circulam pelo meio desses elementos e, como num bailado, vão dinamizando o alcance do UNO. Essa dinâmica, no plano valorativo dos homens, seres culturais, é entravada por ambições, ódios, vaidades, medos e tudo o que aprisiona o homem ao impedi-lo de ser ele mesmo.

Os símbolos dessa lenda fazem muito sentido nesse mundo de indivíduos reduzidos à mera "unidade econômica" destinada a trabalhar, consumir e repetir modelos estabelecidos, crescentemente apartados de suas condições de seres únicos e criativos. A busca na salamanca é pelo resgate da essência perdida, pela inteireza do EU.

E a salamanca está no cerro do Jarau, nas torres de Alhambra, ou no âmago de qualquer pessoa. Basta mergulhar, não para amealhar tesouros, eles são enfeitiçados. Mas com "alma forte e coração sereno", em busca do que Blau diz ser tudo o que não sabe o que é, porém que atina que existe fora dele, em volta dele, superior a ele, a quem chama o "tudo" e é simbolizado pela teiniaguá encantada.

Diário Popular, 29-06-2003
A Sedução da Salamanca - Leyla Lopes (1)
Blau Nunes, o vaqueano - filme de André Constantin (3)
A Princesa Moura, detalhe, Madu Lopes (6)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Meu Brasil é Pelotas, um país insular

Aleksander Aguilar (dir.) nasceu em Pelotas, é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais pela Universidade de Barcelona. Atualmente vive em Londres e de lá escreveu Meu Brasil é Pelotas, artigo que o Diário Popular publicou há 10 dias.

Não é o seu primeiro texto neste jornal (ele começou em setembro de 2008, com O jornalismo e a moral de Ratatouille). Seu estilo é do tipo "crítico francoatirador" e se apresenta agora como uma coluna quinzenal - a próxima seria neste domingo (27).

Neste novo artigo, Aguilar fala da pobre visão de mundo dos pelotenses, mesmo daqueles que se informam todo dia pela internet. Começa citando o clássico estereótipo dos ingleses. São eles tão fleumáticos como se conta? Responde o pelotense:

Nem todos os britânicos são aristocráticos, nem todos os pelotenses são metidos. O que nos falta é perspectiva e ela é imprescindível para que possamos traçar paralelos que na famosa relação com "o outro", definidora da própria identidade, esses olhares que intercambiamos superem o estereótipo, reconheçam limites, valorizem a experiência, apreciem a opinião, catalisem a crítica.

A miopia
A falta de perspectiva não é simplesmente uma condição optada ou conspirada, mas também uma miopia involuntária, resultado do jogo de possibilidades de acesso. Se Paris [esq.] é para Pelotas [dir.] o centro de um suposto mundo de tradições, é porque esse foi o acesso de um recorte da Cidade Luz permitido a um certo tipo de pelotenses de uma época, reforçando estereótipos.

A imagem que temos da Europa é aquilo que achamos que sabemos da Europa segundo o jogo de importações de estereótipos, segundo nossas leituras mais ou menos críticas, e até conforme - para os mais prósperos - nossas impressões de turistas depois de uma viagem de férias.

E esse jogo de ideias generalistas é de mão dupla, entre os de lá e os de cá. [...]

Como explicar para um pelotense sem perspectiva que ser [Pelotas] uma cidade supostamente tão úmida quanto Londres, mas sem infraestrutura, não significa nada mais que passar muito frio... que morar na Europa não é estar em um hotel com vinhos e lareiras (as lareiras são proibidas em Londres há anos)... que os famosos ônibus vermelhos na hora do rush são mais superlotados que os da antiga empresa que fazia a linha para o Laranjal?

O narcisismo

A própria noção do suposto traço pelotense típico, da vaidade e arrogância - merecidamente criticado na cidade pelas vozes que se levantam em favor da "Pelotas moderna" - está muitas vezes fundamentando a ideia de que o "pelotino" segue aferrado a essas imagens distorcidas e cheias de clichê do mundo ao qual quer comparar-se.

Entretanto, a esse grupo do apelo ao moderno, que acertadamente quer importar clichês, tampouco lhe importa olhar para mais além da Lagoa dos Patos com abertura ao diálogo, pois acha que já conhece suficientemente o mundo através da internet.

Quando porventura alcança esse olhar, tende a reproduzir novos clichês - diferentes dos do passado da Belle Époque, mas ainda assim clichês - defendendo a construção de shopping centers, ignorando expressões culturais das periferias, depreciando demandas de movimentos sociais.

Aguilar define o "pelotino" como o pelotense que nasceu em berço de ouro, pretensioso, conservador, deslumbrado e muitas vezes, sem admitir, economicamente falido. O conceito está no blogue Amigos de Pelotas, que assim batizou um fictício colunista social, aristocrata decadente, com a intenção de satirizar a vaidade de um segmento dos pelotenses.

O articulista termina com uma resposta à pergunta do começo, sobre a fama dos ingleses:
― Sim, há muita gente fleumática na Inglaterra, mas em Pelotas poderia haver tanta quanto lá.
E um bom leitor de sutilezas poderia substituir "fleumática" por "sem perspectiva", e "Inglaterra" por "Pelotas" - e vice-versa. Há egocêntricos aqui, mas lá também.

O leitor Jorge Viana comentou o seguinte no site do Diário:
Parece-me que o que melhor ilustra Pelotas e suas contradições é o Mercado Municipal. Isto, Pelotas é a cara do Mercado Municipal. É uma pretensa obra de arte no seu exterior, como os prédios de Paris (por que não? não temos uma caixa d'água importada da Suíça e chafarizes da França?) e ao mesmo tempo é uma favela no seu interior (como qualquer grande favela de qualquer grande cidade do mundo). Assim é a alma do pelotino/pelotense. No mais, em Pelotas se ficar parado mofa.

Dêiticos é o blogue em que Aguilar veicula seus textos, mas que ainda não reproduziu o artigo acima.
Ele tem o "Pelotas, Capital Cultural" na lista de seus 25 blogues favoritos.
Imagens da web, F.A.Vidal (ônibus na D.Pedro II) e Gustavo Vara (vista aérea)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Psicanálise de uma fábrica de chocolate

O livro “Charlie and the Chocolate Factory”, do escritor britânico Roald Dahl (1916-1990), foi publicado primeiramente nos Estados Unidos, em 1964 (no Reino Unido em 1967), e deu origem a dois filmes: “Willy Wonka & the Chocolate Factory” (1971) e "Charlie and the Chocolate Factory" (2005). Ambos ficaram com o mesmo título em português: “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

À esquerda, a primeira capa, desenhada por Joseph Schindelman (clique para aumentar). À direita, uma capa pós 1998, quando os desenhos passaram a ser feitos por Quentin Blake.

Em 1972, Dahl publicou uma continuação ("Charlie and the Great Glass Elevator") e, decepcionado com o filme, não permitiu que fosse filmada. No entanto, o filme de 2005 inclui detalhes deste segundo texto.

Livro e filmes merecem uma detalhada comparação - literária, cinematográfica e mesmo sociopolítica - assim como uma análise psicológica, que propus no artigo "Psicanálise de uma fábula moderna" (Diário da Manhã, 28-08-05).

Os personagens
Uma primeira discussão é sobre os protagonistas: Charlie Bucket e o fabricante de doces. O menino e o empresário fazem contraponto, como os dois lados da mesma moeda. O filme de 2005 enfatiza os traços de Willy Wonka como personagem excêntrico, infantiloide, insociável, misterioso e sexualmente indefinido - que dialoga com um menino honesto, sincero, humilde, generoso, íntegro. Um busca o outro, como a completar-se mutuamente.

Os outros quatro meninos representam os erros que o autor quer criticar: o caubói violento Mike Teavee (esq., em 2005), a obsessiva Violet Beauregarde, o alemão comilão Augustus Gloop e a manipuladora Veruca Salt - os sotaques de cada país dão mais riqueza à sátira. Todos são levados à morte por esses traços defeituosos, que como doenças mentais ainda afligem a humanidade no século XXI.

O grande sucesso da história entre os leitores infantis, no entanto, não radica na mensagem moralista, mas no lado satírico que descreve a realidade sem enfeites, realiza desejos ocultos e castiga duramente os comportamentos "normais" de crianças e adultos.

Estragando crianças
O livro traz uma forte crítica aos pais que manipulam filhos pela permissividade (falta de limites ao comportamento), por superproteção ou por projetar neles expectativas frustradas. Quando Veruca (esq., em 1971) é avaliada como "ruim" pelos esquilos analistas de nozes (na balança para ovos dourados chamada Educated Eggducator), o inglês brinca com o duplo sentido de nuts (nozes ou loucos) e spoiled.

Spoil significa 1.“estragar, deteriorar algo” e 2.“malcriar, mimar um filho”, de modo parecido a como em português “corromper” pode ter o sentido de “arruinar, decompor, apodrecer” (uma coisa) e o de “viciar, desviar, perverter” (uma pessoa).

A bruxa má: mãe devoradora
A psicanalista Diana Corso vê nesta fábula uma reedição de “João e Maria” (ZH, 10-08-05). Nessa história dos irmãos Grimm, escrita há dois séculos, as crianças são atraídas por uma figura materna malvada, ou seja, por um ventre que as engolirá e destruirá.


A mensagem psicológica oculta é que a ansiedade infantil, manifestada oralmente pelo comer, tem direta relação com a agressividade da mãe. Para escapar do processo destrutivo da imaturidade, devemos controlar a ansiedade oral (parar de comer, equivalente a parar de beber ou de fumar), abandonar a mãe dominadora (casando com alguém da nossa idade) e buscar o nosso próprio caminho, a trilha que nos levará do falso ao verdadeiro lar, do berço da angústia ao amor do bem comum.

O bruxo moralista e abusador
A fábula moderna, a da indústria de chocolate, apresenta o perigo inverso, de caráter paterno (conforme a observação de Diana Corso). Willy Wonka atrai à sua casa de doces os filhos mimados de famílias permissivas (paradoxalmente, a permissividade retém, não liberta). O bruxo sedutor deseja castigar crianças e adultos egoístas.


O pecado que este pai aparentemente irracional aponta é, no filme de 1971, a falta de limites na educação, traço típico da ausência da autoridade (seja esta masculina ou feminina). A lógica moralista do século 19 critica a calidez liberal moderna; o pai durão questiona a mãe branda.

Este anti-Papai Noel com seus gnomos (esq.) também é recalcado e manipulador, e quererá se redimir pela honestidade do menino pobre, visto como filho simbólico (os escravos “umpa-lumpas”, que eram africanos no original, ficaram brancos por razões políticas).

No filme de 2005, com Johnny Depp como Willy Wonka (esq.) pode-se ler uma alusão à pedofilia, transtorno mental em que um adulto quer seduzir uma criança, percebida como amorosamente atraente (“eu te dou meu pirulito e tu me emprestas a tua pureza”). A referência fica mais clara no final, quando o empresário dá de presente ao menino “preferido” a fábrica inteira, sob a condição de vir sem a família.

É fácil associar esta figura com Michael Jackson (dir.), também milionário, assexuado, megalomaníaco, desajustado, perfeccionista e com uma especial atração por crianças.

A infância do doceiro
O diretor Tim Burton ainda enriquece a história original com dados da infância de Willy Wonka. Foi ele um menino mimado, como seus gulosos clientes? Ou sua obsessão pelos chocolates foi uma reação rebelde ante um pai repressivo? Por que ele odeia tanto os adultos permissivos e as crianças mal-educadas?

O filme coloca uma hipótese algo complexa. Como o obsessivo pai de Willy proibiu-lhe comer todo tipo de doces para não ter cáries, gerou no filho simultaneamente um acelerador e um freio: uma urgência por se libertar da tirania do pai e uma raiva que o impede de amadurecer.

Por um lado, está identificado com o pai ambicioso e rígido, motivo pelo qual detesta as pessoas frouxas e busca um herdeiro que prolongue sua missão e resolva suas frustrações. Por outro lado, está ressentido com esse pai, razão pela qual não quer ser adulto, detesta todos os pais do mundo e procura com desespero um menino que lhe devolva a inocência perdida.

Moral da história
Para libertar-se, Willy deverá achar uma criança idealista e livre, sem pais manipuladores. Diana Corso conclui que Willy precisa de um herdeiro tão pobre que não tenha expectativas, para poder aprisioná-lo e usá-lo. E esse será Charlie. O filho e neto de operários desempregados será o novo empresário, mas não tão manipulável como se pensava. E sobretudo será o terapeuta idôneo (limpo de ressentimentos e pleno de afeto) que ajudará a limpar a alma do neurótico Willy.


A imagem ao lado é a moral da história mais libertadora, mostrando o chocolate como fonte de prazer, e não como a clássica muleta neurótica, inútil amenizadora da ansiedade. O melhor e mais maduro prazer ocorre no encontro, com uso livre de todos os sentidos - visão, olfato, gosto, audição, sensações táteis e viscerais, entre outras.
Imagens da web