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domingo, 24 de maio de 2015

O grito de Tarzan, nosso herói ingênuo

Nos filmes, o amor e o heroísmo garantindo a felicidade.
No mundo real, a perigosa e implacável lei da selva.
Não faz muito, evocava com amigos os dias dourados de Johnny Weissmuller (1904-1984), o único e verdadeiro Tarzan das telas, que lotava os cinemas de Pelotas, como de resto os de todo o país.

Há muitos anos, guri ainda, lembro-me quão difícil era adquirir o ingresso para se assistir a mais uma aventura de Tarzan, Jane e Chita [1932-1948]. Pouco mais tarde, como convinha à lei da vida e da selva, a família se completou com a chegada de Boy (O Filho de Tarzan, 1939).

Foi na época em que não se havia descoberto a fila e a irracionalidade imperava: tirava primeiro o ingresso quem tinha mais força. Assim como na "lei da selva", as pessoas se empurravam, competindo, e ganhava o mais forte.

Só com a Segunda Guerra Mundial [1939-1945] as pessoas passaram a se organizar em filas: o último a chegar entrava na cauda. Assim os alimentos eram distribuídos nas zonas de conflitos. E o mundo passou a usar a fila como mais uma coisa da civilização.

Mas Tarzan valia esperar-se por longos minutos para se retirar o ingresso, na fila dos cinemas. Era quando aconteciam as "enchentes", como se dizia na época toda vez que surgia um grande filme, sucesso de bilheteria. E Tarzan e Jane eram sempre sucesso garantido.

O amor modelo de Tarzan e Jane (1934),
uma forma de driblar a tragédia social.
Me Tarzan, you Jane, balbuciava o Rei das Selvas com seu limitado vocabulário, apontando o dedo ora para si, ora para a mocinha. Foi o primeiro audiovisual das selvas. Tempos bons em que as pessoas se comoviam e vibravam com coisas simples. Criado por Edgar Rice Burroughs nos anos 1920, Tarzan representou toda uma época. Ainda não havia Superman, Hulk, Homem Aranha e muito menos a Mulher Maravilha.

Com profunda nostalgia evoquei aquele mito, que serviu de paradigma aos meninos de minha geração. Quem não subia nas árvores ou deixava de imitar o grito de guerra do inesquecível personagem?  Os meninos e o público de então "se amarravam" naquele homem destemido, de físico formidável (o ator era campeão olímpico de natação), que vencia os inimigos andando de cipó em cipó [v. filmografia de Weissmuller].

A família macaco nos cipós (1942):
na Guerra, os filmes de Tarzan eram anuais.
Tarzan era ingênuo e puro e assim amava sua Jane. Lutava contra os malfeitores que queriam destruir, aproveitando-se das riquezas naturais dos nativos, usando a sua ignorância. Bastava ele bradar seu grito que o tornou famoso e inigualável, e os animais da selva vinham correndo em seu socorro. Parece que podemos afirmar com tristeza: "Já não se fazem heróis como antigamente!".

Então evoquei o que alguns da roda também tinham assistido: certo dia, há alguns anos, a televisão apresentou Johnny Weissmuller, já velho, como recepcionista de um hotel famoso [trabalhou em 1973 e 1974 no Caesars Palace de Las Vegas; v. história completa, resumo no sítio DW, e vídeo abaixo de 1969, em inglês]. O repórter que o entrevistava pediu-lhe que repetisse o grito de guerra, que todos lembram, do personagem que encarnou como ninguém, desde os anos 30.

Solícito, o ex-ator resolveu atender o pedido e, num visível esforço, tentou repetir aquele grito cheio de vida, juventude e força que o fez único nas telas. Mas ouviu-se apenas um lamentável grunhido, que matou, naquele momento, desapiedadamente, dentro de muitos como eu, um herói que ainda estava vivo em minhas reminiscências. Nunca mais esqueci aquele grito triste e alquebrado que representou, para todos os saudosistas, o Canto do Cisne de um Herói, que levou consigo um tempo glorioso que não vai voltar nunca mais.
Rubens Amador
Diário da Manhã, 24-5-15

Brincando, Weissmuller tenta repetir o grito de Tarzan...
em vão, pois se tratava de um efeito de áudio, fabricado em estúdio.
Fotos: Pinterest

domingo, 31 de agosto de 2014

A Espanhola e o Ebola, epidemias mortais

Nosso colaborador cronista Rubens Amador publicou no Diário da Manhã impresso de domingo passado (24-08-14) a crônica seguinte, onde sugere que a gripe espanhola e os recentes surtos da febre ebola poderiam ter em comum um mesmo fator de risco: a exposição ao ar livre de cadáveres de vítimas de guerra.


Fonte: SlidePlayer
A terrível influenza não tem origem certa, mas se associou à Espanha porque naquele país, neutro na 1ª Guerra Mundial, a imprensa noticiou abertamente sobre a epidemia, enquanto os demais países (afetados pela guerra e pela doença) estavam sob censura. Na Espanha, era chamada "russa"; na Rússia, era "siberiana".

A gripe espanhola foi a pior pandemia da história da humanidade (v. slide à dir.). Também chegou ao Rio Grande do Sul, e a Pelotas, como menciona nosso cronista. Em 1918, nossa cidade tinha uns 78 mil habitantes (v. artigo de L. A. Gill) e Porto Alegre, 192 mil.

A historiadora Janete Abrão informa em palestra (v. vídeo 34 min., slide 33) que, em 1918, houve somente em Porto Alegre 1316 óbitos pela gripe espanhola (12 mil na cidade do Rio, 5 mil em São Paulo), estimando-se em 300 mil mortos em todo o Brasil, em todos os Estados (entre 1 e 2 % da população morreu). Em Pelotas pode ter sido entre 800 e 1000 pessoas, comparável a 4 mil mortos em 2014. 

Um novo vírus apareceu em 1976 perto do Rio Ebola, no Congo, ganhando o nome ebolavírus. A grafia ébola é do francês, idioma oficial do Congo, e sua pronúncia é eboláSobre esta epidemia surgida na África, v. a nota de Médicos sem Fronteiras, o artigo Ebola e a falência moral do capitalismo e a reportagem da Revista Veja.


Cuidado com a pandemia

Curiosamente, pelo que leio sobre o Ebola, não encontrei até agora nenhuma conotação com algo muito importante que deve ser pensado, acho eu. Refiro-me à famosa Gripe Espanhola, de 1918. Foi atribuída àquela tragédia universal, como causa, os corpos insepultos durante a Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918. Milhões de seres se putrefizeram na atmosfera, contaminando-a seriamente, tal como acontece com a branda e lenta poluição de hoje pelas chaminés das fábricas e dos automóveis.

"Gripe A" de 1918 matou, em todo o planeta,
mais que a 1ª Guerra (que teve 16 milhões de mortos)
A Gripe recebeu esse nome porque falsamente surgiu na Espanha (leia um resumo). Foram considerados mortos pela gripe “espanhola”, no mundo daquela época, de 20 a 100 milhões de pessoas!

Os sintomas eram terríveis: a pele da pessoa assumia uma coloração castanha arroxeada, os pés ficavam pretos, o doente começava a tossir sangue, deixando a saliva tingida. Sobrevinha uma sufocação por falta de ar, e a vítima entrava em agonia até a morte, por ter seus pulmões inchados por um muco sanguinolento.

Agora questiono o seguinte: Lá na Nigéria, Libéria, Serra Leoa, Guiné, Monróvia e adjacências, está acontecendo um terrível morticínio por questões políticas terroristas, de onde resulta também ficarem milhares de corpos insepultos. Há poucos dias, vi na televisão o depoimento de um homem que fugia do pavor pelas mortes praticadas por guerrilheiros islamitas fanáticos, que ele e sua mulher conseguiram vencer a fadiga, em difícil fuga, com fome e sede, mas que sua mãe morrera no caminho, e ele teve de abandonar seu corpo na estrada. E que essa via estava juncada de cadáveres. Naquele setor da África, há enormes condições pró-vírus, por enquanto uma epidemia, com já quase dois mil mortos, tal a miséria que lá impera.

E aqui venho perguntar: não terá o Ebola certa similitude com a Gripe Espanhola? Só que agora manifestando-se com outro vírus peculiar? Face ao perigo de outra pandemia, vários países estão tentando circunscrever o foco do vírus (já morreu um médico espanhol, e dois colegas seus americanos que, contaminados, já foram recambiados em câmaras muito especiais para serem tratados nos EUA), mas o resto da humanidade teme que possa acontecer outra pandemia como a trágica Gripe Espanhola.

Ebola mata 90% dos contagiados,
entre estes alguns médicos e cuidadores.
Em Pelotas, milhares de pessoas morreram com a “espanhola”. Não havia caixões suficientes, nem médicos, nem hospitais. Os corpos eram transportados em carroças para sítios distantes, pois não havia lugar no cemitério local de então.

Foi uma tragédia universal. Tudo – se afirma – uma trágica decorrência da guerra de 1914-18, quando as condições sanitárias ainda eram muito precárias e pouco se sabia de como enfrentar uma agressão virótica daquela magnitude, com milhares de corpos insepultos.

Para se ter uma idéia da letalidade do vírus da chamada Gripe Espanhola, ele só pôde ser tratado 77 anos depois de aparecer, quando o Dr. Jeffrey Tautenberg – um norte americano – o isolou no ano de 1995, tornando possível uma vacina. O mundo agora conhece o vírus da terrível Gripe Espanhola, que leva a sigla H1N1.

Para concluir estas considerações de um leigo no assunto, baseado apenas em leituras, insisto: O vírus Ebola, no meu entender, surgiu devido aos corpos insepultos e a uma precária higiene, o que aconteceu também na 1ª Guerra Mundial de 1914-18. Na miséria dos países africanos onde hoje o Ebola nasceu e prolifera, reina pouca sanidade, e os corpos se espalham pelas ruas e estradas, ante as mortes abundantes de contaminados.

O ebolavírus é tão letal e contagioso que os
pesquisadores devem usar proteções especiais.
O perigo é enorme, um dos maiores deste século, pois se tal vírus ganhar o resto do mundo, neste momento em que se desconhece tudo sobre ele, talvez ainda leve outros 2 anos para se chegar à etiologia do vírus em laboratório.

Enquanto isso, por certo, milhões de pessoas serão infectadas, em outra pandemia, apesar do progresso científico de hoje.

Rubens Amador

Imagens da web

domingo, 23 de março de 2014

Travessias e travessuras nos bondes


Na segunda-feira 24 de fevereiro, na coluna LINHA DIRETA meu amigo Hélio Freitag fez uma referência aos bondes em Pelotas, associando tal lembrança à minha pessoa [v. post Saudosismo dos anos 50].

Eu, por conotação, associei o citado veículo a uma das casas onde morei quando menino. Vou falar um pouco dos bondes aqui, mas comecemos com a casa, que ficava na Rua Marquês de Caxias (hoje, Santos Dumont), quase esquina Voluntários.

* * * * * * * * * * * * *

Um belo dia, pedi para entrar naquela residência, identificando-me, e contando minha curiosidade em rever aquela moradia onde eu fora criança um dia. A senhora que me recebeu foi muito gentil e apreciou a minha vontade de rever o cenário de tantas “artes”.

Entrando na casa, a primeira coisa que fiz foi verificar como tinha ficado a cicatriz que eu fizera aos sete anos. Eram duas letras que escrevi com um ferro de soldar, quente, sulcando a porta de madeira do quarto da tia Dorina.
As letras eram DB, de Dorina Bastos, minha querida e inolvidável tia, que, um dia, mesmo sabendo que tinha sido eu que marcara a madeira da porta de seu quarto a fogo, ante a inscrição perguntou-me se havia sido eu que fizera aquilo. Saltei logo: “Não, não fui eu”. 
Depois me arrependi de ter mentido, mas já era tarde. Titia não ficou brava comigo e disse que aquilo era coisa de algum espírito. Na época, pensei que ela estava acreditando no tal “espírito”. Mas aquilo ficou em mim. 
Anos depois, eu já adulto, confessei-lhe. Ela disse-me que sabia quem era o autor, mas, como eu ia todos os dias buscar o pão na Padaria Industrial e ia no Armazém do seu Rosinha, defronte, ela me perdoou.
A Padaria Industrial ocupava este enorme prédio,
na esquina da Santos Dumont com Major Cícero.
Passando a mão na porta, no lugar, lá estavam, em discreto relevo, as letras DB que algum pintor procurara disfarçar, mas que só EU sabia o local ...e quem tinha feito aquele monograma.

Fui revisitando a casa, cheio de saudade de minha avó, que todos os dias fazia um bife na chapa para mim. Lembrei Mamãe. E depois cheguei ao pátio. Na soleira que dava para esse espaço, onde plantavam chuchus, e muitos cartuchos (copos-de-leite), tudo estava praticamente como era.

Mas naquela soleira havia outro segredo meu.

Com um martelo, eu havia pregado um parafuso enorme, que depois dobrei e bati até ele entrar na madeira da soleira, que era de lei. Pois lá estava ele enterrado ainda ali, gasto, havia dezenas de anos e só EU sabia daquele parafuso ali. Passei-lhe a mão, e naquele momento me senti a criança que fez aquela outra “arte”.

Senti-me emocionado. Feita a visita, agradeci a gentil senhora e retirei-me.


* * * * * * * * * * * * *
Bondes e ônibus na rua Aquidaban com General Canabarro (Rio Grande, 1957)
Agora entra o Bonde e minha convivência com eles. Safety (segurança) era como se chamava também aos bondes. Fui contemporâneo deles.

Eles nunca faziam a volta. Quando chegavam ao fim da linha, o motorneiro puxava e prendia a alavanca que deslizava no fio de alta tensão, por uma roda, dando energia para os “elétricos”, como também se os chamava. Então o motorneiro liberava a da outra ponta, virando todos os assentos para o lado oposto.

Naquele tempo, não havia muito automóvel e o bonde era o grande veículo popular. Eu gostava de andar de bonde. Custava duzentos réis a passagem. Brancas, escritas em azul, com original e canhoto. A “tripulação” constava do motorneiro, o vendedor das passagens, e às vezes subia o fiscal (quepe diferenciado por linhas douradas), que via se tudo estava certo. Era então a Light and Power (Luz e Força) que explorava o serviço. A empresa ficava onde hoje é a CEEE. Inclusive lá está ainda o grande galpão onde os bondes eram recolhidos após determinada hora da noite.

Abrigo de bondes na Praça Sete de Julho, entre a Prefeitura e o Mercado
(esquina em que um médico foi atropelado) 
No início dos anos quarenta, circulou um único bonde de cor marrom (os outros todos eram amarelos), que era de dois andares, tipo a maioria dos ônibus londrinos que ainda hoje lá circulam. Eu ia para as regatas nele, ano 39.

Dificilmente havia acidentes com os bondes. Mas mesmo assim, certa manhã, cedo, uma zorra (bonde-socorro, que carregava ferramentas para reparos), atropela e mata o competente e respeitado médico Dr. Paulo Campelo, entre a Prefeitura e o Banco do Brasil, então defronte.

A política (contra os americanos) foi que acabou com aquele serviço magnífico, que ao ser desapropriado, deixou muita gente rica com a compra e posterior venda daqueles trilhos, que eram as veias de nossa cidade. Vou contar-lhes um episódio que vivi com meu pai num daqueles “elétricos”.

Bondes vinham pela Santa Tecla, parando na Voluntários.
Eu tinha meus 8 anos de idade. Costumava jogar futebol defronte ao Armazém Furão, logo quem entra na Cerquinha, passando a Professor Araújo – ou brincava com a turma ali da Paysandú (hoje Barão de Santa Tecla).

Alguns mais ousados da turma costumavam se pendurar atrás dos bondes quando estes paravam na Santa Tecla com Voluntários e iam umas duas ou três quadras, “gozando”, dependurados. Só faziam isso os moleques de rua, mas nós os estávamos copiando.

Até que um dia resolvi também me pendurar num daqueles bondes por duas ou três quadras, e depois voltava a pé com outro amigo, para recomeçar tudo de novo. Passava as tardes fazendo isso, coisa que só moleques de rua costumavam fazer com grande destreza. Pois um amigo de Papai contou-lhe o que eu andava fazendo: me pendurando nos bondes!

O meu pai ficou bravo comigo e me disse que eu nunca mais fizesse aquilo porque, além de feio, era muito perigoso. Eu poderia me machucar – e, dramático, acrescentou – e até morrer!

Meninos pendurados (Rio Grande, 1957)
Fonte: The Tramways of Rio Grande
Claro que prometi que não subiria mais. E, tal como hoje – em relação à droga – os perversos fazem com os mais fracos, os mais velhos me diziam: “Tá com medo! Tá com medo”. Em verdade eu temia era o meu pai, mas tanto eles me gozaram que resolvi: dei um pulo, me agarrei na traseira do primeiro bonde que parou na Paysandú com Voluntários, desobedecendo a ordem que me tinha sido dada.

Mal o bonde arranca e pega velocidade – me lembro das pedras do calçamento correndo ante meus olhos – ouço alguém batendo nos vidros, por dentro, bem forte. Era o meu pai com um jornal na mão gritando:

– Só desce quando o bonde parar!

Assim fiz. E como era comum naquele tempo, meu pai me pegou por uma orelha e me conduziu por duas quadras até nossa casa, eu com a cabeça o mais alto possível, de lado, para aliviar aquele corretivo.

Não levei algumas palmadas. Mamãe impediu. Ainda sinto aquele “puxão de orelhas” e o compreendo. Só sei que nunca mais me pendurei em nenhum bonde para dar uma “gozadinha” por duas ou três quadras, copiando os moleques de então.

Mas confesso-lhes que gostaria de fazer tudo de novo, só para ter ao meu lado todas aquelas figuras que eu amei e que, junto com os anos que já vivi, foram como que se apagando, só voltando de vez em quando, como agora, com a feliz lembrança do Hélio Freitag.
Rubens Amador



Fotos: F. A. Vidal (1, 4), The Tramways of Pelotas (3)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Susto amigável

O cronista Rubens Amador, colaborador deste blogue desde 2010, participou na coletânea "Dark City", sobre personagens típicos de Pelotas, com 7 textos seus, anteriormente publicados em jornais e na internet. Organizado pelo historiador Márcio Ezequiel, o livro teve a contribuição de 18 autores, entre jornalistas e pesquisadores da história da cidade, e foi apresentado na Feira do Livro 2013. 

O lançamento reuniu 12 autores, entre os quais estava Amador, emocionado porque era sua primeira experiência autografando, mesmo após alguns milhares de textos já publicados na imprensa. Essa novidade fez surgir mais uma crônica (leia a seguir),onde a emoção do escritor é o centro da notícia. O homem maduro se faz menino ante a experiência única da primeira vez, fazendo remover pensamentos de toda uma vida.

A tiragem inicial do livro esgotou em dezembro, mostrando como os pelotenses se interessam por falar em si mesmos. Ante o sucesso, o editor Marcos Macedo já aprovou uma segunda edição (estará disponível na Livraria Mundial, provavelmente em março), e o organizador está pensando num segundo volume, com mais figuras e figuraças de Pelotas. O anúncio será feito proximamente, no ato de doação dos lucros ao Albergue Noturno. 




Antologia de personagens pelotenses
esgotou primeira tiragem em 3 meses.
Meu amigo Francisco Antonio Soto Vidal já publicou neste blogue várias coisas minhas, como eu gosto: sem modificar nada de meu texto. Senti-me muito satisfeito por ver que alguém apreciava alguns de meus escritos.

Cerca de um ano atrás, recebi um telefonema de Vidal, pedindo-me autorização para que eu permitisse que alguns trabalhos meus sobre tipos de Pelotas fossem publicados em um livro que estava sendo organizado pelo porto-alegrense/pelotense Márcio Ezequiel. Seria uma obra em benefício de uma entidade de pessoas carentes. Prontamente acedi e confesso que me esqueci do assunto.

Em outubro de 2013, fui surpreendido por novo telefonema de Vidal, convidando-me a comparecer na Feira do Livro para cumprimentar e ser cumprimentado pelas pessoas que colaboraram para o livro, que se chamava Dark City, excelente produção da Livraria Mundial, do diligente Marco Macedo, que está se destacando no cenário editorial pela qualidade e bom gosto dos livros que edita com perfeição.

Em lá chegando, fico conhecendo alguns dos demais colaboradores do livro, pessoas altamente qualificadas. De repente, um susto! Sou convidado para sentar-me em uma mesa onde estavam os coautores e eu teria de autografar também, às pessoas que solicitassem meu autógrafo.

Tremi. Jamais me passou pela cabeça viver um momento assim, não obstante eu ter produzido em outro jornal da cidade por cerca de 35 anos, onde escrevi várias reportagens, por mim assinadas, com foto e tudo, além de artigos, crônicas e contos. Atualmente, assino uma coluna que leva meu nome, às quintas e domingos, no Diário da Manhã, já há quase dois anos. Inclusive por isso vários amigos estão sempre me perguntando por que não edito um livro. E eu sempre lhes respondo:
“Meus modestos escritos têm a efemeridade de uma edição. São cadentes sinais que riscam o céu de vez em quando, para logo se apagarem. Para eu chegar a um livro falta-me percorrer um longo caminho. As leituras que tenho feito de autores verdadeiros me inibem de me aventurar numa obra editorial.”
Assim penso há muitos e muitos anos, e continuo pensando.

Rubens Amador (E) autografou por primeira vez na Feira.
Escreve em jornais desde os anos 70, mas só em 2013 saiu em livro,
em companhia de historiadores e estudiosos da cidade.
Mas de repente vi-me autografando! Que susto, repito. Ficava encabulado quando as pessoas vinham em minha direção com seu exemplar e seu nome. E mais ainda quando descobriam que eu era Rubens Amador e me cumprimentavam, dizendo que me liam sempre no Diário da Manhã todas as semanas.

Olha, a gente fica momentaneamente vaidoso. De repente, um coronel, que até há pouco comandava a nossa briosa Brigada Militar, acerca-se de mim perguntando-me se eu era Rubens Amador e,  ante minha confirmação, abraçou-me, e confessou-se meu leitor; e pediu para que tirássemos uma fotografia juntos. A foto foi feita. Das 18h até as 20h, eu e meus companheiros demos dezenas de autógrafos de “Dark City”, que, segundo fui informado, está vendendo muito bem.

Naquele dia 8 de novembro último foi uma tarde que brinquei de autor de um livro. Será um dia inesquecível. Levei um susto, pela surpresa – insisto – que me foi dada pelo meu amigo Francisco Antonio Soto Vidal. O mais agradável susto que jamais pensei poderia ter me acontecido.
Rubens Amador
A crônica sobre Miloca havia saído neste blogue em 2011 e foi para o livro.
Em 2009 e em 2013 Rubens Filho publicou Mario A-Cores.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O poema que nasceu de uma enchente

O cronista Rubens Amador publicou há uma semana a crônica "Terna lembrança", na qual recorda um professor que teve lá por 1938, mais precisamente quando cursava o 5º ano primário. O aluno reencontrou o mestre de surpresa, 45 anos depois, mas foi somente agora, em 2013, que surgiu a "terna lembrança". Este artigo constitui-se também em documento histórico sobre o poeta Felicíssimo Silva, um dos jovens fundadores da antiga União Pelotense de Estudantes Secundaristas (hoje ele teria cerca de 100 anos).


Chuvas de 2009 inundaram a zona baixa da Dom Pedro II.
Como ainda muitos hão de lembrar, em julho de 1983 o sul do país sofreu uma grande enchente, inesquecível por sua devastação [v. reportagem do Jornal Nacional].

Pois foi nessa mesma época – precisamente, em 18 de julho daquele ano – que meu velho ex-mestre, Prof. Felicíssimo Silva, apareceu em meu estabelecimento comercial.

Na minha juventude, eu o conhecera no período do Admissão ao Ginásio, então aluno do Colégio Sagrado Coração de Jesus, cujo fardamento era, em tudo, semelhante ao dos escoteiros. Esse homem inteligente, anos mais tarde – já idoso – se tornou conhecido poeta parnasiano, e na imprensa local publicou inúmeros trabalhos, que eram muito apreciados.

Pois bem, naquele dia de 1983, se desenrolando aqueles trágicos e contrastantes acontecimentos climáticos, o Prof. Felicíssimo Silva se apresentou ante mim, todo molhado – pois chovia muito – modestamente vestido, barba por fazer, fisionomia ainda extremamente bondosa, característica de suas feições desde moço. Ao se abrigar, em minha firma, da forte chuva que caía, pude oferecer-lhe uma xícara de café quente, pois fazia muito frio também. Ele tiritava.

O professor foi um poeta autêntico. Vivia só de aulas particulares que ministrava, disse-me. Sabia fazer poesias, mas não sabia ganhar dinheiro com seu saber. Então me ofereceu sua última poesia – escrita havia pouco, segundo ele – relatando o fenômeno climático que sofríamos, de abundante enchente no sul e seca inclemente no nordeste. Sua poesia – uma maravilha – intitulava-se Dramático Contraste:

Por mais que o ser humano se agigante
Na busca infinda da pesquisa e da ciência,
Com seus engenhos chegue à lua e cruze os céus,
A cada dia, cada hora e cada instante,
O homem sente quanto é pouca a suficiência
Para, sem Deus, alcançar os planos seus.

O Plano Eterno – que governa a natureza –
Castiga a terra, nos enchendo de tristeza
E, como a fome e a doença, só, não baste,
Sofre o nordeste a estiagem permanente,
Suporta o sul os flagelos desta enchente,
Qual irônico e dramático contraste.

Até que voltem a seus leitos, rios e lagos,
Que se possam resgatar tantos estragos,
Animados da esperança – que não morre –
Que nos acudam as modernas invenções:
Helicópteros, o rádio e os aviões,
E todo um povo solidário, que socorre.
Felicíssimo Silva
Pelotas, 18 de julho de 1983

Recebi, agradecido, a poesia que meu ex-professor me oferecia, e pedi-lhe que a autografasse. Ali mesmo no balcão, de improviso, apanhou a caneta e, com a mão trêmula pelo frio, rapidamente escreveu:

Neste dia de borrasca, pleno inverno,
Que nos invade um sentimento terno,
Velha amizade de ex-aluno e professor,
Eu ofereço, com sincera modéstia,
Este poema a quem – criança um dia –
Foi bom aluno, o Rubens Amador.

De seu velho e sempre amigo (assinado): Felicíssimo Silva.

O Professor Felicíssimo faleceu no ano de 1987. E a crônica de hoje nasceu do meu reencontro com a poesia que me foi por ele oferecida, e que esteve dormindo entre meus guardados por exatos 30 anos. Dia destes deparei-me com ela entre meus papéis. Confesso que uma terna emoção de saudade me invadiu ao reencontrá-la.
Rubens Amador
Texto: Diário da Manhã, 28-7-13
Foto: Irineu Masiero

domingo, 14 de abril de 2013

Os mestres e a mística do Ginásio Pelotense

Segundo prédio do Ginásio Pelotense, utilizado desde 1903 até 1961 (foto anterior a 1912)

Colégio Municipal Pelotense foi fundado em 24 de outubro de 1902 pela Loja Maçônica Antunes Ribas, com o nome de Ginásio Pelotense. As aulas começaram em 1903, no casarão da rua Miguel Barcelos nº 563; ante o aumento das matrículas, a escola mudou-se, no mesmo ano, para o imponente palacete da Félix da Cunha nº 520 esquina Tiradentes, que já existia desde 1835 e segue de pé (hoje em uso pela UFPel). Municipalizado na década de 1920, o Pelotense recebeu denominação de Colégio em 1943. Permaneceu nesta sede por 58 anos, até 1961 (v. histórico escrito em 2001). 

O artigo Os professores como um diferencial competitivo, de Neves, Amaral e Tambara, realizou um mapeamento de professores do ensino privado em Pelotas no período 1875-1910 (Cadernos de História da Educação, vol. 11, nº 1, 2012, p. 165-188).

O ex-gato-pelado Rubens Amador não perdeu contato com sua turma do Ginásio egressa em 1946, e recorda os nomes dos professores que ajudaram a fazer a boa fama intelectual do Colégio. O texto abaixo compila recordações feitas por ele em artigos no Diário Popular, Diário da Manhã e Amigos de Pelotas. Veja outros dados históricos no post Figura do Gato-Pelado foi criada por Aldyr Schlee.


O Ginásio Pelotense que cursei
Um velho colega do então chamado “Gymnasio Pelotense” perguntou-me se eu não estava exagerando, quando lhe comentei, no café, que o nosso Pelotense era considerado uma das escolas de maior prestígio no País. Naquele tempo nós achávamos que só o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, famoso por seu corpo docente, se igualava ao velho Pelotense. Logo lhe perguntei se ele se lembrava dos nossos mestres naqueles distantes dias, e lhe refresquei a memória com um desfile de alguns dos professores que tivemos.

Nosso professor de Português era o grande Francisco de Paula Alves da Fonseca, inesquecível por sua didática. O nome Paula Alves é uma legenda no ensino do nosso idioma. Na matemática, seu irmão, o marcante professor Joaquim Alves da Fonseca, talento raro para ensinar. Ambos, exímios nas suas matérias.

Quem nos ensinava Francês era um parisiense, o Dr. Jules Delanoy, engenheiro civil. Até hoje lembro como nos fazia repetir exaustiva e frequentemente: “In” em francês faz “Am”; “O-U” em francês faz U; na terminação E-T, o T é sempre mudo. E assim por diante.
Pintura do palacete Ribas nos anos 40, de autor desconhecido
No Inglês tivemos o professor Adolfo Souza, que trabalhara por 18 anos na Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos. Era conhecido como Mister Souza, o brasileiro que falava inglês sem sotaque. Inclusive nosso professor de Educação Física era um suíço, chamado Roberto Müller. Outro estrangeiro era nosso professor de Canto Orfeônico, o maestro espanhol Valeriano Olivares, formado em Barcelona e autor de várias peças para piano.

No Latim, eram nossos mestres dois egressos da famosa Universidade de Coimbra: o Dr. Antônio Augusto Pinto, advogado português, que considerávamos homem da maior cultura, e, igualmente lusitano, Dr. Salvador Balreira, médico. No naipe brasileiro, o professor Felisberto Machado, que costumava falar em aula só em latim, explicando-nos os textos. O professor Machadinho, como o chamávamos, também era notável latinista.

Profissional de grande conhecimento técnico, o professor de Desenho, Dr. Benjamim Gastal, possuía curso em Seattle, nos Estados Unidos, aonde foi se aperfeiçoar na matéria, e lá esteve por um ano. Nos ensinou tudo sobre as colunas gregas, fazendo-nos desenhá-las. Nosso professor de Geografia era o Dr. João Mendonça, advogado, que tinha todos os mapas, com minúcias, em sua cabeça.

Havia ainda um mestre, professor Gregório Romeu Iruzun, advogado que servira na Marinha Mercante Britânica, na qual viajou pelo mundo, por vários anos. Nós o chamávamos carinhosamente de “Coringa”, porque, toda vez que faltava um professor, ele assumia seu lugar onde parara seu colega, na matéria que fosse: inglês, francês, história do Brasil ou universal, latim, ciências, geografia, português. Como poliglota que era, ensinou-nos que o habitante de Cádiz, na Espanha, é uma exceção; diz-se "gaditano".

Depois, no Curso Científico [Ensino Médio] encontrávamos, na matéria de Química, o Dr. Ceslau Maria Biezanko, cientista polonês que figura nos compêndios de entomologia por ter descoberto um inseto único, aqui no Rio Grande do Sul, que leva o nome científico de “Biezankóia Brasiliensis”, em homenagem a seu descobridor.
O Colégio Salis Goulart funcionou neste prédio por cerca de 40 anos.
Lembro ainda do Dr. Vicente Russomano, advogado, que lecionava História, homem de vasta cultura. Outro advogado que nos dava aulas de História era o Dr. Apody de Oliveira, grande conhecedor da matéria.

Em Ciências, dois então jovens, de vocações natas para o magistério, o doutor Francisco Louzada Alves da Fonseca e o doutor Afonso Motta da Costa, os mais recentemente falecidos desta lista de docentes de um período dourado da história do hoje Colégio Municipal Pelotense.

É com emoção e gratidão que evoco os nomes desses homens notáveis – médicos, advogados, engenheiros, músicos – que, embora fossem formados em áreas bem diversas, que não a pedagogia, achavam um tempo – dentro de suas profissões, que exerciam também – para serem professores por vocação, porque amavam a arte de ensinar.

O professor é como uma composição ferroviária: é preciso que passe, para que se tenha uma noção da sua grandeza! Com seus carismas e talentos intelectuais, esses mestres imprimiram ao nosso educandário uma marca registrada que se mantém viva até hoje! O que gera a mística em uma escola é sempre seu passado de glórias e a lembrança dos mestres inesquecíveis, por sua bondade e saber.

A mística do Pelotense atravessou os anos e, ainda hoje, continua viva naquela casa, atualmente na rua Marcílio Dias. Os professores de hoje por certo serão lembrados também, pelo amor com que ensinam aos seus alunos e por sua competência, quando o futuro chegar...Com isto desejo prestar homenagem aos professores e à direção de hoje, que receberam o bastão, no revezamento histórico do Pelotense e têm se saído tão bem.

Do Pelotense de que falo saíram grandes cabeças, conterrâneos que se destacaram nacionalmente pelos cargos importantes que exerceram, ou pelos livros reconhecidos que escreveram, nomes incorporados à história de uma Pelotas que sempre se destacou pela sua cultura. Esses vultos todos sintetizo no destacado nome do Dr. Mozart Victor Russomano, um antigo Gato Pelado, que teve como seus mestres no Velho Pelotense todos esses nomes que citei acima – segundo confirmou-me ele, em inesquecível conversa que entretivemos pouco antes de sua morte.

Os remanescentes da turma do Ginásio de 1946 já firmaram um pacto: o último, haverá de comparecer, de smoking, num derradeiro 24 de outubro, em um restaurante fino e – em silêncio – deverá beber uma taça de champagne relembrando em seu íntimo a cada um dos colegas que se foram, dos mestres e do Gymnasio Pelotense, sem dúvida o templo da mística, para nós.
Rubens Amador


O ex-gato-pelado José Duarte Bacchieri (1925-2005) passou a juventude em Pelotas, dos 9 aos 22 anos de idade. Começou sua carreira no Diário Popular e na Rádio Pelotense, foi vereador em nossa cidade (1952-1955), vindo a destacar-se em Porto Alegre como político, jornalista, empresário e historiador (v. uma biografia). No vídeo abaixo, trecho de entrevista com Flávio Alcaraz Gomes em 2004, em que menciona alguns dos professores do Ginásio Pelotense na década de 1940.


Fotos da web

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A história da máquina de fazer chapinhas

O cronista Rubens Amador recorda como nasceu sua paixão juvenil por uma especial máquina importada, surgida em Pelotas perto dos anos 20, a qual imprimia rótulos em chapinhas de alumínio e era muito do agrado do público. Por primeira vez e especialmente para este blogue, ele narra como começou o "namoro" com a máquina, como a reencontrou vinte anos depois... veja como segue a história.
Quinze esquina Sete, início do século XX (praça Osório ao fundo)

A primeira máquina, na Mensageria

Entre os anos 20 e 40, havia em nossa cidade, na parte de baixo do atual prédio da Caixa Econômica Federal, pela rua Quinze, uma casa que se chamava “Mensageria Pelotas”, do ramo da cigarraria, engraxataria e venda de artigos vários.

Sucedeu-a um café famoso, o popular “Oliósi”! (o Aquário da época). Meu pai lá costumava fazer ponto, e era muito amigo dos donos [o casal italiano Isacco Giuseppe Oliosi e Anuncciata Fornari Oliosi].

Proporções da máquina
segundo desenho de R. Amador
Muitas vezes estive na Mensageria com meu pai, para engraxar os sapatos, e me fascinava com u´a máquina de fazer chapinhas, que lá existia. Era um móvel de cerca de l m. e meio de altura por uns 80 centímetros de largura. A gente colocava uma moeda de duzentos réis, que deslizava para um cofre de ferro dentro da máquina, liberando uma espécie de ponteiro no painel da frente, que se girava com a mão em cima da letra ou sinal que se desejasse. Ao final, movia-se uma trave, e a chapa era cortada com as palavras em relevo. É que dentro dela havia duas matrizes (macho e fêmea) com todo o abecedário e sinais. Entre essas partes o alumínio corria.

As plaquinhas eram muito bem acabadas e a cada extremidade havia um furinho para que se a fixasse onde se pretendesse. A cada plaquinha pronta tocava um sino e ela travava, até que alguém pusesse novos duzentos réis.

Naquele tempo (anos 20) havia quase nada de novidades. Aquela era uma, que dava muito movimento na Mensageria Pelotas. Era uma atração. Eu, siderado pela tal máquina, pensava que poderia ficar rico com ela, nas minhas fantasias de menino sonhador. Um belo dia, anos 40, fecha a Mensageria e não se soube mais da máquina.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O triste dia em que Irajá Nunes foi a notícia

Quando da repentina morte do cronista do Diário Popular Irajá Nunes, em 26 de outubro de 1977, Rubens Amador relatou detalhes daquele dia amargo. Amigos, colegas, a cidade inteira se inundaram pela impotência ante a fragilidade da vida e a injustiça incompreensível de perder o convívio com um homem tão lúcido, gozador da vida e ainda com um projeto de livro em mãos, que nunca foi editado. O repórter que chegara adolescente agora se ia aos 41 anos.


Dez e trinta da manhã de primavera. Trabalhávamos. Toca o telefone. É o médico Paulo Kelbert, pesaroso, comunicando-me que o Irajá, nosso comum amigo, havia se acidentado seriamente.

– Amador – disse o Paulo – que tipo de sangue tens? Estão pedindo O Positivo, pelo rádio, infelizmente o meu não dá.

–  Não sei – respondi-lhe – mas onde estão solicitando? que já vou para lá.

– É no Hospital de Clínicas.

Irajá Moraes Nunes em 1977
Desligamos e parti para o nosocômio. Lá chegando, na portaria encontrei o Bento, com aspecto grave, que se antecipou à pergunta que formuláramos à recepcionista: “Sobe a rampa, e desce depois, à esquerda, lá fica o Banco de Sangue “. Subimos a rampa rapidamente . Passamos pelo Piegas, que saía, lamentando que seu sangue não dera.

Ao chegarmos à porta do Banco de Sangue, havia um pequeno “comício”, como diria o Irajá. Lá estavam, cabisbaixos, o Clayr, junto a vários outros colegas do jornal. Havia no ar um silêncio eloquente, uma espécie de sufocação e amarga expectativa. Sentado em uma cadeira apropriada, doando o precioso líquido vermelho, o Cunha, da Rádio Universidade .

Aguardamos. Lamentavelmente, ao chegar a nossa vez, não passamos no teste: Tipo A Positivo! Subimos de volta a escada para ganharmos a rua. Antes soubemos do amigo acidentado: “Está sendo operado neste momento, trata-se de caso sumamente grave”.

Não acreditávamos que algo de grave pudesse acontecer ao Mirim – o apelido, se não me engano, foi o falecido Ramão Barros que lhe deu. Não podia ser. O Irajá não poderia morrer assim, num prosaico acidente de trânsito, de manhã cedo, saindo para o trabalho. E voltamos às nossas atividades sem poder deixar de pensar no acontecido, daquela tragédia com o amigo estimado.

Almoçamos e, por cerca de uma hora e pouco da tarde, nos dirigimos novamente ao hospital onde Irajá fora operado. Batíamos nos vidros para entrar, pelo menos no saguão, já que àquela hora era proibido o ingresso de visitantes. Queríamos apenas uma notícia, se possível boa, para retomarmos o trabalho da tarde mais confiante e satisfeitos.

Enquanto o funcionário abria a porta, divisamos em nossa direção o Clayr e o Piegas que se aproximavam. Fui ao seu encontro. Notei nas suas fisionomias profunda tristeza. Confesso que me alarmei, então. Com certa dificuldade perguntei:

– E o Mirim?

Então o Clayr Rochefort olhou-me nos olhos, e pleno de nítida amargura praticamente sussurrou:

– Não deu!

Clayr, figura paterna e amigo íntimo do Mirim
Naquelas duas palavras ele conseguiu traduzir toda a dor que trazia em seu peito e que naquele momento dividia conosco, comigo e o Piegas. Não trocamos mais que outras tantas duas ou três palavras. Com um aceno de cabeça nos despedimos e cada um seguiu o seu caminho.

Irajá Nunes não era um santo. Era apenas um ser humano cheio de ternura e calor. Quem não o conheceu e privou com ele, mas que apenas o leu, sabe do que estamos falando. Agora mesmo estava em lua-de-mel com um livro seu por sair. Era um tremendo cara. Todos nós que o conhecíamos bem e frequentemente participávamos de suas tertúlias, cheias de boa verve e frases inteligentes, sabíamos o quanto ele era amigo de sua família e da forma especial com que evocava a figura de sua esposa, a quem nos dizia sempre ser uma santa, por aturar as suas molecagens.

Realmente, vai ficar no espaço que ocupava o Irajá, nesta Selva de Pedra, um desfalque muito grande. Nesses dias que correm, personalidade coruscante como a sua, era como que pirilampo em voo incerto e nervoso pelo espaço, em busca de algo, mas sempre dando um pouco de sua luz para o nosso deslumbramento.
Rubens Amador (1977)
Foto: reprodução DP

domingo, 9 de dezembro de 2012

Procópio Ferreira e seu maior aplauso

Teatro Guarani lotado, em 2010, no 1º Festival de Jazz
A Geral, acima das 2 linhas de camarotes, foi fechada nos anos 60
O teatro era o Guarany. O ano exato não me recordo, mas devia ser na década de 1940. No palco, Procópio Ferreira e Suzana Negri. Sei que a peça chamava-se “Ciúme”, de autoria de Louis Verneuil.

A casa estava lotada e aquele trabalho teatral tinha a singularidade de ser, todo ele, um diálogo entre os dois protagonistas citados. Procópio estava soberbo e Suzana Negri, experimentada atriz, seguríssima no seu personagem.

Eis que, em determinado momento, alguns engraçadinhos começam a proferir gracinhas lá no “poleiro”, a chamada “geral”, onde os preços eram bem populares. Naquele tempo, excluindo o Capitólio, todos os demais cinemas e teatros possuíam essa dependência, de cambulhada com pessoas que procuravam diversão a baixo custo. Frequentavam-na muitos maus elementos que com frequência prejudicavam o bom filme ou a boa apresentação teatral, com assovios e algumas piadas pesadas, acobertados sempre pela luz tênue do ambiente.

A princípio, Procópio mostrou-se com aparente indiferença e, com sua grande experiência teatral, continuou representando, sem se mostrar agastado com as impertinências. Os recalcitrantes, cada vez mais importunos.

O grande Procópio, então, ergue sua mão direita para Suzana Negri, que com ele contracenava, pedindo-lhe que interrompesse o diálogo. Suzana, frente a uma lareira crepitante, à direita do palco, silenciou e assumiu uma postura digna e elegante.

Procópio volta-se para a plateia, de frente, dando uns passos até a boca de cena. Faz, de início, um breve silêncio, como a medir as palavras, dominando o público, em estado de nervosa expectativa.

Então fala mais ou menos assim: cabeça erguida para a galeria perturbadora:
Biografia editada em 2000 pela Rocco
Senhores, eu sou um artista que ganha para representar. Muito jovem iniciei minha carreira. E enfrentei diversos públicos com minha arte. Daí conhecer inclusive a espécie de público que hoje se manifesta em lugar errado. Desde que a casa esteja lotada, como hoje, eu poderia fazer apenas o meu trabalho e sair daqui satisfeito, apesar do mau comportamento de meia dúzia de cidadãos que por certo erraram a porta.  
Estou a lhes dizer isto, não pela desatenção ao nosso trabalho, meu e de Suzana, mas pelo insulto que estão proferindo com tal conduta, à platéia de Pelotas, que aqui está (apontando para os camarotes), frisas e cadeiras todos estão tomados, literalmente, com que esta cidade tem de mais representativo: esta platéia que, pelo seu elevado grau de cultura é respeitada em todo o País. 
Creiam, eu não me sinto pessoalmente ofendido pelo seu condenável procedimento, a não ser, como já disse, por este público que aprendi a adorar nas diversas vezes em que aqui estive em seu convívio. 
Por isto tudo é que eu, inimigo da violência, prometo-lhes: se não se comportarem adequadamente, em consideração ao meu público, mandarei evacuar as galerias!

Voltou-se para Suzana Negri, e retomou o diálogo da peça, imperturbável. Mas teve de parar novamente por cerca de dez minutos, enquanto ouvia, emocionado, o que talvez tenha sido o maior aplauso de toda sua vida.

Rubens Amador

  • João Álvaro de Jesus Quental Ferreira (1898-1979), o Procópio Ferreira, viveu 80 anos [v. biografia]. Adotou o nome artístico por haver nascido no dia de São Procópio, 8 de julho.
  • Esteve em Pelotas em várias ocasiões, uma delas em 1947, que pode ter sido a referida nesta crônica. Em 1969, foi declarado Cidadão Pelotense pelo Prefeito Municipal (v. lei 1784).
  • A Editora Rocco lançou uma biografia baseada em seus manuscritos: Procópio Ferreira apresenta Procópio.
  • "Ciúme" (1946), com Bette Davis e Paul Henreid, baseou-se na peça de Verneuil (v. sinopse do filme com vídeo do trecho do concerto para violoncelo).

domingo, 11 de novembro de 2012

O Bilhete (XII)

XII  Final

E, lentamente, Madame Marie lhe foi traduzindo toda a carta, que dizia:
Paris, 16 de maio de 1940
Caro. Prazer. Reconheci-o logo. Estranhei apenas não ter vindo trajado de negro, conforme o combinado. Atribuo a um problema de lavanderia. Certo?
Anote: Tomaremos Luz, na madrugada de 30 corrente. Recomendo-lhe extremo cuidado. Você está sendo vigiado a partir deste momento. Será seguido em todas as horas que lhe restam em Paris. EVITE FALAR COM QUEM QUER QUE SEJA.
A mais simples comunicação sua com alguém implicará na sumária eliminação dessa pessoa, imediatamente. Basta desconfiarmos do mais leve relacionamento. Tal como aconteceu com Karl e Rudolph. Não podemos pôr em risco toda a operação. NÃO FALE COM NINGUÉM. Não deixe ninguém inocente morrer por sua causa, até partir esta noite.
Destrua este, como sempre. Lembre-se que sou francesa!
Auf wiedersen
Caroline

As tropas alemãs contornaram a linha defensiva francesa;
sem maior esforço, ocuparam Paris em 14 de junho de 1940. 
— A invasão de Paris! Então era isso! Veja, professora, ‘tomaremos Luz’ refere-se, sem dúvidas, à Cidade Luz — bradou, de pé, mal contendo sua agitação.

— Sim, chéri, e a invasão deu-se somente em 14 de junho, talvez porque a rede de espionagem se deu conta do erro em que a moça incorreu ao confundi-lo com o seu contato. Por este motivo devem ter ficado aguardando as consequências do equívoco que infelizmente não vieram, para eles.

Com os olhos apertados, procurando concentração, ele acedia com a cabeça. Tudo estava finalmente se tornando claro.

— Maldita Maginot vociferou Madame Marie, no seu orgulho ferido de francesa. — Os boches entraram em Paris porque nós, em França, acreditávamos na inexpugnabilidade da Linha. Nossos militares jamais aceitaram que os alemães pudessem transpô-la.

Ele testemunhou:

— Sim, devem ter sido surpreendidos mesmo, porque não se notava no ambiente parisiense nos dias que antecederam a invasão, quando lá estive, nada que lembrasse guerra em solo francês, principalmente Paris.

E o quebra-cabeça continuou sendo juntado:

Após a rendição francesa, em 23-06-1940.
— Chérie, quanto à reação agressiva das pessoas, é perfeitamente aceitável. Todos procuravam demonstrar total ausência de qualquer relacionamento com você, pois suas vidas corriam perigo, segundo o texto ameaçador. Hoje em França, sobretudo em Paris, é fortíssimo o tráfico de escravas brancas e de cocaína, provindos de Marselha, provavelmente as pessoas pensaram num envolvimento seu neste campo, onde a vida do ser humano não vale uma palha  concluiu Madame Marie com certa amargura em sua voz grave.

— E está bem claro também por que meu Chefe em Paris ordenou minha volta imediata. Houve preocupação de sua parte para com minha segurança  comentou reconhecido, ao encontrar a peça que se ajustava perfeitamente à sua curiosidade nas últimas semanas.

— Madame, chegamos ao fim deste autêntico folhetim. Penso que devo ir à Embaixada Francesa entregar este bilhete embora tudo já seja tarde demais  completou nosso herói.

— Perfeito!  exclamou a velha professora do idioma francês.  Creio ser o destino que deva ser dado a esta mal compreendida mensagem. Quem sabe as autoridades com ela possam desbaratar a rede, se ela ainda estiver atuando. Puxa, oxalá tenha esta carta algo de positivo, afinal quase nos enlouqueceu, não foi mesmo?

Despediram-se.

Ele caminhava ligeiro, até o ponto de táxi, próximo sempre empunhando a pasta de couro contendo aquela carta-mistério agora desvendada.

No caminho foi interrompido por um cambista lotérico que lhe ofereceu seu artigo, com o lacônico pregão: “Bilhete?” Ele olhou para o ambulante e com um sorriso enigmático e irônico, em marcha, respondeu: 

— Bilhete? Nunca mais!

Rubens Amador, setembro de 1979
Leia o episódio I
Imagens: Rio Blog (1) e CD História (2)

sábado, 10 de novembro de 2012

O Bilhete (XI)

Pç Barão do Campo Belo, Vassouras (RJ), a "Princesinha do Café" ou "Cidade dos Barões" (postal antigo)

XI  A última esperança

Já vamos encontrá-lo na Central do Brasil em busca do trem que o levaria ao encontro da sua ex-professora. “Felizmente era sábado inglês”, considerou.

Na mão, pressurosamente, carregava uma pasta de couro com alça, tendo em seu interior apenas a preciosa carta. Enquanto não chegava o trem para Vassouras, vez por outra ele abria a aba da pasta e certificava-se de que a mensagem lá estava.

Tomado o trem, cerca de uma hora após, já o temos descendo do táxi frente à casa da professora aposentada.

Madame abriu-a após um certo espaço de tempo, e alegrou-se muito em revê-lo.

— Ora, bons olhos o vejam! Estava com saudade sua! —  E olhando-o nos olhos: — Quanto à carta, esqueceu-se como combinamos, pois não?

Ele mal se conteve:

— Aqui está ela, Madame! — , erguendo a pasta de couro à altura dos olhos de ambos. Madame Marie ainda ficou um pouco olhando para a pasta marrom que ele erguera.

— Mas que surpresa, meu filho! É incrível! — E falando rápido: — Vamos passar...

A idosa caminhou o mais ligeiro que lhe era possível em direção à saleta onde habitualmente permanecia, sempre apoiada nas duas bengalas canadenses com que tornava mais fácil seu deambular.

Depois de ele minuciar para sua amiga como a carta lhe havia voltado à mãos, quarenta dias depois de terem escrito para o Hotel Lafayette, resolveram solenemente efetuar a leitura e tradução dos dizeres daquela mensagem que tantos aborrecimentos houvera causado a ambos, por que não dizer?

Tão pronto aproximou um abat-jour de pé para o lado da velha senhora — com indisfarçável emoção, percebia-se pelo leve tremor de mãos —, silenciosamente ela começou a leitura, para si apenas.

A seu lado ele perscrutava as expressões fisionômicas da ex-professora do Ginásio, no desejo de captar algo — sem interrompê-la, contudo.

À medida que lia a missiva, Madame Marie sacudia a cabeça, lentamente, como a expressar estar compreendendo a série de comportamentos estranhos que a carta provocara em diferentes pessoas.

Inteirada de toda a mensagem, ela segurou as mãos de seu angustiado ex-discípulo e lhe falou com doçura:

— Acalme-se, tudo está explicado. Você já vai ficar sabendo em que curiosa aventura involuntariamente se envolveu.

Conclui amanhã (parte XII).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Bilhete (X)



X  A agulha no palheiro

Haviam-se passado mais de quarenta dias desde que dera por encerrada a questão. Praticamente já se havia esquecido do episódio da perda do maldito bilhete, pelo menos o seu continuado pensar compulsivo no tema tinha arrefecido.

Foi naqueles dias que Madame Marie recebeu em sua casa a contestação da missiva que escrevera para o maitre do Hotel Lafayette, em Paris, e cuja resposta veio nas seguintes circunstâncias.

Subscrita para Madame Marie Darrieux, chegou uma correspondência em bonito envelope, onde se via uma litografia colorida do Hotel, à esquerda, em cima, e trazendo em seu interior a carta que enviara, devidamente fechada, sem ter sido aberta por seu destinatário.

Além da carta intocada, o envelope trazia uma nota breve da Direção do Hotel Lafayette, com os seguintes dizeres:

Mademoiselle Darrieux:
Anexo estamos lhe devolvendo sua carta, dirigida a nosso ex-maitre, Sr. Giuseppe Divani. Cumpre-nos informar-lhe, com tristeza, que o referido senhor faleceu recentemente, de mal súbito, precisamente em 6 de junho corrente.
Informamos-lhe ainda ser de nosso conhecimento que seus familiares residem na Vila Lucchino, 433, em Roma, Itália.
Sendo o que nos cabia informar, com admiração e respeito, nos firmamos
Cordialmente
Jean Jacques Du Bois
Diretor

A sequência de frustrações tinha sido tão acachapante desde aquela troca de olhares com a moça no café, em Paris, e cujo ápice fora atingido com a notícia da morte do maitre, que resolvera sepultar para sempre aquela aventura.

“Para todo o sempre... Jamais se pode dizer isto”, recordou, olhando para a correspondência que acabara de receber do carteiro da zona, no momento exato em que chegava em casa, do trabalho.

Abrindo-a constatou com emocionada euforia que o quase esquecido bilhete, malsinado bilhete, lhe chegara às mãos, afinal!

Alguém o tinha achado no trem e o guardara “com a intenção de enviá-lo a seu dono, como era pedido no verso”, dizia a cartinha recém recebida.

Junto à devolução o remetente anônimo escrevera algumas linhas, onde pedia desculpas por ter demorado tanto em enviar-lhe “aquela carta de amor”, segundo julgava ser, já que confessava desconhecer, também, o idioma francês.

Nosso herói jamais acreditara recebê-la de volta por aquele meio, mas ali estava o papel, um pouco amassado, mas inteiro e perfeito, considerando-se a saga que percorrera.

Ele o segurava com as duas mãos, emocionado.

Correu os olhos, agitado, por sobre o bilhete. Lá estavam todas as palavras; a data; a assinatura, tudo!

E pensou com gratidão no missivista que anonimamente lhe remetera a tão buscada carta até algumas semanas atrás.

“Aqui está ela, afinal”, gritou de alegria, brandindo-a no ar. “Finalmente vou saber o que contém de tão terrível ou execrável esta carta-bilhete”.

As ideias lhe vinham aos borbotões sobre o conteúdo da descoberta daquela verdadeira “agulha no palheiro”.

Continua amanhã (v. parte XI).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Bilhete (IX)

"Maria Fumaça", óleo de João Barcelos

IX Busca no trem

Mal a porta do 888 se abriu, rente à plataforma, na gare, saltou avidamente para dentro dele, seguido pelo funcionário da Central que, por certo, recebera instruções para acompanhá-lo.

No chão do carro havia mil e um papéis dos mais variados matizes. A ele só interessariam os brancos – pensou logo.

Olhou com animação para o funcionário a seu lado e pediu:

 Poderia varrer tudo para um canto? O que procuro é um documento em forma de uma lauda manuscrita em língua francesa.  e continuou, quase sem tomar fôlego:  Se acharmos o papel de que lhe falo, vou gratificá-lo acima do que reservei para você!

— Ótimo, patrão, mãos a obra, então!  respondeu-lhe o modesto funcionário, empunhando um enorme vassourão e começando a varrer entusiasmado.

Reunida a papelada, cuidadosamente, a um canto, procederam a seleção de todos os papéis pela cor. Os não brancos eram logo eliminados de qualquer exame. Então iniciaram uma busca rigorosa. Nada foi deixado de lado que pudesse interessar.

Cerca de uma hora depois, nosso personagem certificou-se que não estava ali o que procurava com tanto empenho.

Ainda voltou aos bancos em que teria sentado, com certeza, procurou uma frincha na parede de madeira, algum buraco no assoalho, algo que pudesse estar escondendo a buscada lauda, mas nada havia, mesmo.

Sentou-se em um banco dos muitos da gare existentes, cansado, decepcionado e quase desanimado, enquanto assoviando uma música popular qualquer, o varredor ligava um aspirador enorme.

Mas ainda restava a esperança da resposta da carta que Madame Marie escrevera, pensou, procurando consolar-se e compensar o cansaço de que estava possuído, agravado pelo calor reinante e que era conseqüência daquela madrugada tipicamente carioca.

Por aquela época, 1940, uma carta levava cerca de quinze, vinte dias para ir e a resposta voltar, se respondida logo, para a capital francesa.

Teriam de esperar, ele e sua querida amiga, a velha mestra Madame Marie Darrieux, solidária e também ansiosa por um esclarecimento final de tudo aquilo. Faltariam mais duas semanas ainda de espera. De esperançosa espera. Mas confiava que teriam uma resposta positiva do maitre...

A carta fora escrita com muito sentimento e era uma carta até certo ponto promissora

 Aquele trabalho e angústia seriam recompensados  pensou, cheio da sempre válida esperança.

E firmando esquema de ir, no dia seguinte, até a casa de sua ex-professora para dar-lhe o resultado da busca infrutífera que realizara, levantou-se, despediu-se do empregado da Rede ferroviária, e mão nos bolsos, caminhando vagarosamente devido ao calor, dirigiu-se ao portão principal por onde entrara, para ganhar a rua e tomar um táxi.

Continua amanhã (v. parte X).


Estação Central do Brasil (Lucas Fracalossi, canetinha e giz pastel, 2009)
Imagens: J. Barcelos (1), Ju Fumero (2), L. Fracalossi (3)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Bilhete (VIII)


VIII  Remoendo lembranças

Bastava chegar a composição, identificar o vagão em que viajara naquela tarde, cedo, e procurar aquela maldita mensagem. Divagava.

Sentado num dos muitos bancos dispostos na plataforma, reviveu cada cena que vivera em Paris em relação ao bilhete perdido.

Não podia esquecer, por exemplo, a expressão extremamente simpática daquela francesinha que trocara olhares e sorrisos com ele, naquele café parisiense. Depois reviu o garçon entregando-lhe o perfumado bilhete. O seu olhar malicioso quando pediu-lhe que o traduzisse, através de mímica. E a sua imediata reação colérica enxotando-o do café, sem sequer deixá-lo pagar a despesa, quando se inteirara dos dizeres do texto.

E o que pensar da expressão bondosa e compreensiva do maitre do Hhotel Lafayette que, igualmente malicioso, logo se prontificou a dizer-lhe o que continha aquela folha de papel manuscrita no idioma francês?

E logo revisou, em pensamentos, o homem completamente mudado em atitudes, a fazer com que se retirasse do hotel. Na mesma hora.

Finalmente repassou a cena de seu Chefe, em Paris, naquele imenso escritório cercado por enormes vidros e para quem contara, com detalhes, tudo que lhe acontecera de estranho em relação à comunicação recebida de parta da linda moça. De novo sentiu compreensão e boa vontade na fisionomia do homem, para logo transformar-se, e praticamente correr-lhe do escritório; ordenar-lhe que retornasse ao Brasil; ameaçar-lhe com demissão sumária; tudo por causa daquele quadrilátero de papel manuscrito que a moça lhe enviara e que agora buscava com tanta ansiedade.

A rigor, nas últimas semanas, desde que retornara da Europa, só pensava no ocorrido, como uma obsessão.


Afinal, Deus, o que dizia aquela mensagem de tão perigoso, ou que segredos maus continha, que todos ficavam ensandecidos ao tomarem conhecimento de seu conteúdo?

Por quê? Se indagava, repetidamente...

Finalmente, rompendo o silêncio da noite quente, ouviu-se uma sirene e um toque de sino a bater freneticamente.

Um dos funcionários da limpeza acercou-se do banco onde estava sentado e lhe dirigiu a palavra:

 O 888 vem chegando, nesta composição  apontando em direção ao veículo que se aproximava em marcha cada vez mais vagarosa, sob a sinalização, por bandeiras, de um guarda-freios.

Ele levantou-se e olhou o relógio. Eram exatamente 1,30 da madrugada. Em pensamentos fez blague: “Pelo menos hoje este trem está no horário”.

Continua amanhã (v. parte IX).
Imagens:
Exposição Universal em 1900;
aniversário da Torre Eiffel, 1939

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Bilhete (VII)


Estação Central do Brasil em construção, Rio de Janeiro, cerca de 1940

VII  Na Central do Brasil

Apeou do táxi e praticamente correu até a entrada da Estação Central do Brasil. Dirigiu-se ao guichet de informações e perguntou ansioso:

— Com quem se fala para poder-se procurar um documento perdido dentro de um trem?

— Quando o perdeu? — perguntou o funcionário, displicentemente. E completou: — Se faz mais de vinte e quatro horas é remota a possibilidade de reencontrar algo devido a limpeza ser feita com potentes aspiradores, a cada dia.

— Fazem umas sete ou oito horas apenas — respondeu o agoniado interpelante, tentando recuperar a serenidade.

— Procure o senhor Leandro, no primeiro andar. Ele poderá autorizá-lo, talvez. Agora, tem uma coisa — falou o servidor da rede ferroviária —, uma vez autorizado só poderá proceder à busca entre uma e meia, e duas e meia da madrugada, intervalo em que se processa a limpeza.

— Obrigado, vou até o senhor Leandro. Muito obrigado — repetiu, agora esperançoso mais do que nunca. Afinal tudo parecia que iria dar certo.

Na antessala do gabinete foi convidado a sentar-se e aguardar a chamada de seu nome, o que se deu quinze minutos mais tarde.

Chamado, entrou apressado, sendo convidado pelo graduado funcionário a sentar-se, num gesto de mão.

Frente a frente ao Chefe de Linhas, expôs o que o levara lá. O senhor Leandro não era o tipo que se poderia chamar de prestativo e cooperador. Tentou obstar a busca colocando mil e um empecilhos; como que à hora que seria possível efetuar a procura ele não poderia destacar um funcionário só para acompanhá-lo, e outros óbices desse jaez.

Saguão da Central do Brasil, dias atuais
Nosso herói deu então o grande golpe em que nós brasileiros somos mestres, o do “sabe com quem está falando?”. Pigarreando, nosso personagem disse com forçada segurança:

— Se o senhor não me pode autorizar, irei ter com o Coronel Napoleão de Alencastro Guimarães (então diretor da Central do Brasil).

Como num passe de mágica, as coisas imediatamente se tornaram fáceis.

— Não será preciso falar com o Coronel. Vou dar-lhe um passe e uma autorização para que proceda à busca junto com nosso pessoal da limpeza. Mas, por favor, o senhor terá de estar na plataforma a partir dos trinta minutos desta madrugada ater a chegada do carro. — E confirmou: — Carro 888, linha de Vassouras, pois não?

Nosso herói concordou, agradeceu e saiu, procurando aparentar digna superioridade, encenação que, sabia, agradava sempre aos homens de caráter subserviente. Pessoa competente e precavida, o destinatário daquela malfadada carta-bilhete, agora buscada.

A meia-noite estava chegando na plataforma da Central. Imediatamente se identificou junto ao setor de limpeza, com a credencial e autorização que trazia.

Continua amanhã (v. parte VIII). 
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