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sexta-feira, 22 de abril de 2011

A eterna violência humana (crônica)

O cronista Rubens Amador traz um texto atual, em que interpreta nossa natureza e nosso futuro, à luz dos fatos históricos do último século.

Caim matou Abel, num ato de violência. David atingiu Golias noutro ato desses. Dos hunos, bárbaros antigos, até os nazistas, bárbaros modernos, este pequeno globo em que vivemos nunca teve uma paz duradoura. Conhecemos os kamikazes, armas humanas em que com o próprio corpo se tornavam petardos, levados pela intolerância mesclada com o fanatismo. Não faz muito tempo que estiveram na ativa, esses pobres homens. Pearl Harbor foi seu palco e sua finalização daquela prática.

Depois, em dose gigantesca, vieram Hiroshima e Nagasaki, o superlativo da violência, em que não foram respeitados crianças, velhos, civis, em sua maioria amainando a terra naquele momento do cogumelo.

Foi esta a violência mestra, que haverá de marcar para sempre o lado negro da humanidade. Os japoneses praticavam a violência convencional, como os seus inimigos, até as bombas, sem jamais pensarem que a ciência poderia causar uma hecatombe contra seu povo, como aquela que até hoje ainda medica vítimas dela.

Hoje, por inabilidade de governantes e intrigas entre os muçulmanos, divididos em religiões diversas em cada tribo, os fundamentalistas terroristas (“arma” difícil de combater) são o novo fulcro que se instala, e que, pior do que os kamikazes, estão se imolando e levando consigo dezenas de inocentes. Fanáticos, foram capazes de causarem o 11 de setembro, de triste memória.

Não esqueçamos das duas guerras mundiais, outro indicativo de que o homem é um ser violento e agressivo, capaz de, entre uma sinfonia e uma ópera, construir foguetes capazes de destruir uma cidade. E lembremos que os gases venenosos estiveram em evidência na Segunda Guerra Mundial. Todos nós lembramos as máscaras contra gases, que a cada sirene que tocava, crianças e cidadãos as colocavam. Mas, quando os dois lados se deram conta de que cada um poderia usar do mesmo processo, cessaram; num átimo de bom senso ante o ensandecimento de que estavam possuídos, sob a tutela da Convenção de Genebra.

Desde menino que eu ouço falar no “perigo amarelo” (Yellow Peril), referindo-se aos chineses, que talvez por terem descoberto a pólvora, sempre foram um povo temido, que procuraram manter sob a incultura e o servilismo. Os ingleses – que os dominavam – tinham à porta de seus clubes sociais um letreiro: "Proibida a entrada de chineses e cachorros." A vitória de Mao Tsé-Tung teve muito a ver com este passado de injustiças sofridas por seu povo, em mãos dos estrangeiros. Expulsaram-nos, e exerceram a violência de forma inaudita, até que as gerações posteriores se deram conta de era preciso uma forma de convivência, para saírem da miséria em que se encontravam, com seus bilhões de habitantes para alimentarem.

Hoje os chineses se tornaram polidos e espertos. Mas eu acho que ainda são o “perigo amarelo” de que ouvi falar desde criança. Será o comércio, mais uma vez, que desencadeará a nova guerra que todos nós sentimos no ar. Tem sido quase sempre a economia o pano de fundo das guerras.

Pelo meu modo de ver, estamos caindo na armadilha dos amarelos, pois, enquanto eles compram aos demais matérias-primas importantes, como o ferro, o manganês, e outras matérias estratégicas, ficamos a importar quinquilharias copiadas, de má qualidade, mas muito baratas. Estão conquistando o mundo com esses balangandãs e enriquecem de tal forma, dado que não têm uma legislação trabalhista, com um salário mínimo equivalente a 200 reais.

Mas lá a ONU e os seus aliados nada fazem como estão fazendo com Khadafi na Líbia, e já fizeram com Sadham no Iraque, até porque esses tinham muita “gasosa”, e estão comprando empresas e TERRAS em países estrangeiros, principalmente no Brasil. Nos EUA, três trilhões de dólares são empregados pelos chineses em títulos do Governo Americano, que necessita de muita grana para sair da imensa crise do capital. A sociedade comunista, hoje extinta, há setenta anos já previa que um dia isso iria acontecer, no embate capitalismo e comunismo. Os americanos estão em recessão apesar da sua grandeza, ainda hoje.

Deus queira que eu esteja errado, mas o próximo período de violência mundial que se aproxima terá o velho “perigo amarelo” como um dos principais participantes. E a história de Caim e Abel se repetirá, de tempos em tempos, até a consumação dos séculos.
Fotos da web

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O dia em que o Zepelim sobrevoou Pelotas

O cronista Rubens Amador descreve um fato insólito, por ele presenciado há quase 77 anos: a passagem por Pelotas do dirigível Graf Zeppelin em um de seus voos desde a Alemanha até Buenos Aires, de uma semana de duração. Na foto abaixo, visão da Praça da República (hoje Coronel Pedro Osório) desde o Clube Caixeiral, em 1934. Na última imagem, o Zepelim sobrevoando a Avenida de Mayo, em Buenos Aires.


Assim como os seres humanos, as cidades também passam por momentos significativos – uns agradáveis, outros tristes (casos como Chernobyl, New Orleans, Fukushima, Hiroshima e Nagasaki). Para Pelotas, o destino reservou um momento mágico, que ficará para sempre em nossa história citadina: foi no dia 29 de junho de 1934, às 16h40 min, quando o dirigível alemão Graf Zeppelin sobrevoou, majestoso, o centro de Pelotas, em direção de Buenos Aires. O famoso Zeppelin foi criação da empresa do conde germânico que levava esse nome.

Eu tinha sete anos de idade, mas lembro-me muito bem de onde ele surgiu, lá para o lado nordeste, a uma altura de 600 metros. Morador das imediações da hoje chamada Praça Cel. Pedro Osório, eu estava brincando, quando, de repente, vi grupos de pessoas aqui e ali olhando para o céu. Curioso, olhei para cima e vi, aproximando-se da praça, aquele enorme aparelho. Na época eu nem sabia o que era, e por certo já tinha sido anunciado, na imprensa, seu sobrevôo sobre Pelotas. Ao ver o aerostato sobre minha cabeça, podia perceber claramente, a enorme gôndola, local onde os passageiros e tripulantes se acomodavam, acenando-nos de várias janelas, e todos, do solo, retribuíam aos acenos. Viam-se lenços brancos lá do alto.

Passando por sobre a Praça Cel. Pedro Osório, o Zeppelin fez um longo círculo, tomando a direção do bairro Fragata, onde ficava a Sociedade Germânia, entidade então de muita influência social na cidade. A seu pedido, bem como da comunidade alemã, o dirigível fez aquele sobrevôo para nós inesquecível. O brilho de sua superfície prateada de duralumínio era intenso, dado ao forte sol então reinante naquela tarde.

Foi um espetáculo inesquecível, só posso repetir. Os meus contemporâneos deverão ter, vívidos, em suas mentes, ainda hoje, aquela visita famosa, pois então acreditava-se que ali estava o transporte do futuro. Pensava-se que poderia transportar mais de uma centena de pessoas, em vôo sereno, capaz de ir a qualquer parte do mundo, e sobretudo acreditava-se: altamente seguro. Essas eram, basicamente, as razões de o acontecimento ter assumido as proporções que assumiu, marcando definitivamente a própria história do mais pesado que o ar.

Graf Zeppelin sobre Buenos Aires
Em 1937 veio a decepção, pois um similar do Zeppelin, o dirigível Hindenburg, de maiores proporções do que o que nos sobrevoou, incendiou-se ao descer na cidade americana de Lakehurst, New Jersey, matando inúmeras pessoas; pois então ainda não se conhecia um gás não inflamável como o que fazia pairar o artefato, que era abastecido apenas com hidrogênio, material altamente perigoso. Ali ficou sepultada a idéia dos vôos transatlânticos naquele tipo de nave.

Apesar da tragédia que nos privou dos dirigíveis, o sobrevôo do Zeppelin sobre Pelotas jamais foi esquecido pelos que o viram e viveram naqueles dias de 1934. Colheram-se depoimentos inusitados: Um popular entrevistado na época, no Café Caneca, no bairro do Porto, local de reunião de estivadores que lá bebericavam, disse o seguinte:

— O tal de Zé Pelin me deu um susto danado. Pensei que era uma bomba da Grande Guerra ainda voando.

Houve outras descrições interessantes, como esta:

— Minha mulher dizia que era um grande charuto, reclame de alguma marca nova.

E um punguista uruguaio bateu várias carteiras, ali na praça Cel. Pedro Osório, enquanto as pessoas olhavam maravilhadas para o Zeppelin. Soube-se que acabou preso. No dia imediato ao sobrevôo impressionante (30-06-34), a imprensa local publicou, com certa poesia:
A alma pelotense viveu, ontem, instantes de infinita satisfação e se deixou maravilhar ante a passagem serena, deslumbrante, majestosa, da grande aeronave alemã “Graff Zeppelin”, que, pela primeira vez (e seria a última), atendendo o seu ilustre comandante, o conspícuo engenheiro Sr. Eckner, aos reiterados reclamos das associações e personalidades de destaque da colônia germânica entre nós, cruzou o céu de Pelotas.
Foto 1: Fábrica de Mosaicos

POST DATA
22-09-14
Veja a reportagem Foto do Zepelim foi montada em 1957.

domingo, 27 de março de 2011

Novo holocausto


Three Mile Island, ilha fluvial no Estado da Pensilvânia (EUA)

Crônica de Rubens Amador, especialmente para este blogue
Não bastou Chernobyl em 1986 nem Three Mile Island em 1979 (acima)... com tanta fonte de energia que Deus dotou o mundo, como as águas, o ar, o petróleo, a energia solar. O homem, depois de Hiroshima e Nagasaki, tristes exemplos para a humanidade, sem contar os que já matou, ainda hoje trata de vítimas daquela hecatombe. Sim, aquela energia formidável causou outro holocausto, que, como o judaico, também jamais deveria se repetir.

Mas não, antes de que tal energia pudesse ser útil ao homem, os governantes pensaram na força bélica, tanto assim que a primeira coisa a ser feita, tanto pelos EUA como pela antiga União Soviética, foi aprisionar a energia atômica para criarem arsenais incríveis – que ainda sabemos que existem entre os dois ex-figadais inimigos – e que depois estendeu-se para outros pontos, quando dirigentes possuidores da bomba ameaçam provocar um cataclisma geral, de acordo com suas idiossincrasias.

A energia atômica tornou-se objeto de troca política, e até países como a Índia – em cujo rio principal boiam corpos insepultos junto às piores imundices imagináveis – possuem usinas nucleares. Agora, o caso do Japão ameaça tornar-se uma tragédia quase universal, dado que se desconhece ainda o potencial de energia mortal liberada, por causas outras que toda a tecnologia nuclear e instrumentos de “segurança” usados não previram, como o Tsunami!

Chernobyl em 2006, cidade fantasma na Ucrânia
A humanidade atirou-se na busca de uma energia satânica, cujo perigo agora está vendo, mas, creio, tarde demais para se darem conta de que tal energia não vale a pena. Mas hoje, dado as implicações políticas existentes decorrentes do comércio, este mote de todas as guerras; e como a energia nuclear está espalhada por todos os recantos da terra, um com medo do outro, isto torna impossível resguardar os povos de uma tragédia final.

Eu, na idade provecta, temo pelas pessoas minhas, que estão começando suas vidas. Acho que a humanidade deixou passar toda a energia notável que Deus nos deu, ao trocar a Paz do mundo por esta insegurança proveniente de uma energia que envolve mais riscos que benefícios. Até os nossos mares estão ameaçados permanentemente, com os submarinos nucleares. A liberação da energia nuclear jamais será lembrada como amiga do homem.

Progresso desse tipo não é progresso, já pensava desde 1945 o povo japonês. Tendo sofrido na própria pele cicatrizes inesquecíveis, agora treme, ao lembrar-se de que todos os efeitos desse brinquedo mortífero são imprevisíveis. Tenho certeza de que dirão, como testemunhas incomparáveis:

— Não insistam: se puderem, fujam dessa destruição tão dolorosa! Enquanto é tempo!

Rubens Amador

O parque de diversões de Prypiat (foto 2) ia ser inaugurado dia 1 de maio; o acidente em Chernobyl foi 26 de abril. A roda nunca andou e até hoje concentra grande radioatividade. Veja aqui mais fotos da cidade abandonada, vinte anos depois.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Um cronista define seu gênero

Há um ano, o cronista pelotense Rubens Amador passou a colaborar neste blogue, escrevendo em diversos formatos literários breves (conto, reportagem, crônica, ensaio curto), como já fazia há quatro décadas na imprensa local. Há dois meses, ele mostrou sua versatilidade escrevendo também no gênero dos epigramas, no cabeçalho deste blogue. Hoje ele mostra seu lado poético ao definir sua própria identificação com o caráter passageiro da crônica literária.

De Heterogeneidade
Um dia destes, prezado amigo me disse, face a face, que o meu trabalho é uma colcha de retalhos, heterogêneo. Ora, nada mais certo poderia dizer! Não sou um romancista, novelista ou historiador. Apenas bolino assuntos, por variados que sejam; desde que tragam em seu bojo algo curioso, escandaloso, por demais belo, ou até mesmo triste. Sou um provinciano cronista, apenas! Nada mais do que isto: meu estro conseguiu transformar em frases perenes o que penso sobre determinados temas.

Um cronista jamais alcançará a culminância de um escritor como Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez ou Jorge Luis Borges. São muito poucos os autores de croniquetas que atingem às culminâncias do Olympo literário, com suas garatujices sem profundidade ou peso. Jamais expendem uma temática, uma história, ou uma novela. Limitam-se às próprias limitações. Ou alcançam breve admiração calcados, em verdade, nos feitos ou escritos de outros, mais bem dotados. Comentam sobre, apenas, mas o mote lhes foi dado, nada criaram.

Contam-se nos dedos os livros de crônicas de sucesso permanente. Elas todas fenecem como as flores. Podem ser exuberantes em determinado momento para logo caírem na vala comum das coisas sem importância.

Assim considero meus trabalhos de quase quarenta anos, escrevendo crônicas, pequenos contos e parlapatices. Sempre aparecem amigos queridos que indagam:

— Por que não escreves um livro com tuas crônicas?

E eu indefectivelmente lhes respondo:

— Minhas crônicas têm a efemeridade de uma edição.

Gosto, assim, que elas morram, que sejam como coriscos que riscam o céu — vez por outra com certa luz — mas que, no seu descenso, se tornam cinzas. Para mim, basta aquele risco vertiginoso, às vezes com alguma luz, riscando a imaginação dos que me lêem, mas com a certeza de que o rápido percurso iluminado logo logo se apagará.

Por vezes parece até que permito que a vaidade me assalte: é quando alguém – e já tem acontecido – me pede, pessoalmente ou por telefone, uma cópia de determinada coisa que escrevi. Este é, confesso, o único momento mágico que me encanta às vezes, dentre as coisas simples e sem nenhuma profundidade que escrevo, e que pessoas amáveis tentam retardar a transformação de meus modestos escritos, naquela cinza de que falei, quando meus minúsculos meteoritos se inflamam por breves momentos.

Sei que, quem não me conhece bem, pensa que estão diante de um vaidoso hipócrita. Mas o que fazer se sobre o pensamento não prevalecem os mais fortes ferrolhos?


Imagens da web (Manacá, de Tarsila do Amaral)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Calçadas armadilhas

O cronista Rubens Amador fala de outro problema de nossa cidade que oferece perigo a nós mesmos e que por certo prejudica a imagem de Pelotas ante os visitantes. As fotos foram tomadas por ele mesmo, em ruas do Centro.

Já faz bastante tempo que venho revoltado com o estado de nossas calçadas. É certo que o Sr. Prefeito não pode ser responsabilizado diretamente pelo despautério. Haverá funcionários de segundo escalão responsáveis pela saúde dos nossos passeios públicos.

Uma notícia do Correio de Povo de 15 de fevereiro [leia a matéria aqui] contou que o município de São Leopoldo foi condenado a pagar indenização de R$ 3.570 a certo cidadão que sofreu queda pelo mau estado da calçada, e fraturou o tornozelo.

O valor da condenação foi apenas por danos morais, pois ainda teve fisioterapia demorada, com afastamento do trabalho. Fotos da calçada e o depoimento de duas testemunhas fizeram com que o Tribunal de Justiça entendesse que às prefeituras cabe zelar pelo bom estado dos passeios públicos.

Mas, voltando a Pelotas, nossas ruas estão ficando desdentadas, desde há uns quatro anos, quando ladrões começaram a levar os registros de ferro dos esgotos, para venderem a algum receptador. Nossas autoridades, todas: a polícia civil, os funcionários da prefeitura, a polícia rodoviária (esta no sentido de fiscalizar se tais ferros não eram levados para alguma fundição fora de Pelotas) poderiam buscar soluções em conjunto.

O fato é que nossas calçadas são autênticas armadilhas. E a população ignora se foi investigado para onde foram tantas toneladas de ferro, para evidente demolição. Além dos esgotos destampados, nossas calçadas são de fazer dó.

Sabe-se que há uma lei municipal que responsabiliza cada proprietário de residência, fazendo com que tais munícipes sejam responsáveis pelas calçadas frente às suas propriedades. A Prefeitura - preceitua a citada lei -notifica aos moradores com calçadas em mau estado, dando-lhes um prazo para que os reparos sejam executados. Se não o forem, deverão ser feitos pela Prefeitura, que debitará as despesas para que sejam pagas ao vencer-se o seguinte Imposto Predial.

O que não deve e não pode, é continuarem sendo nossas calçadas as piores do Estado, oferecendo riscos de perigosas quedas, que serão fatalmente cobradas da Prefeitura, a responsável final pelo cuidado com os passeios públicos, tal como é em qualquer cidade civilizada.
Rubens Amador

Fotos: R. Amador

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O retrato da Presidenta

No dia de São Valentim (14) o pintor Romero Britto dedicou uma tela à Presidente Dilma (veja a notícia). A respeito, o cronista Rubens Amador recorda uma homenagem que não deu certo, feita pelo inglês Graham Sutherland para os 80 anos de Churchill, em 1954. Na época, o quadro foi ao fogo, literalmente, só restando um esboço (abaixo à direita).

No Salão Nobre da Prefeitura (esq.), os prefeitos de Pelotas não renunciam a seus retratos fotográficos, nos últimos 120 anos (veja o post). Já para um retrato mais autoral se requer maior compreensão da linguagem das linhas e das cores.


Quando Sir Winston Churchill era um dos mais destacados membros do Parlamento Britânico, no auge da sua popularidade, certo pintor de relativo nome desejou homenageá-lo oferecendo-lhe uma pintura alentada em dimensões, a qual, no entender do artista, seria uma obra que ficaria como uma espécie de logotipo de Churchill. Foi preparada uma sessão especial para o descerramento da pintura ante todos os pares de Sir Winston. A expectativa era enorme.
Chegado o momento da retirada do manto que envolvia a pintura, Sir Winston, como mandava o protocolo, puxa a referida cobertura e surge a figura imponente de um varão.
Nota o homenageado que passa um frisson pela seleta platéia. Há um certo desconforto, pois - pela quase unanimidade - a pintura não revelava em nada os traços marcantes do grande estadista. Este, ante o quadro, olhando-o, e virando-se para os demais presentes, ele também decepcionado e indignado, britanicamente falou (ele, Churchill nas horas vagas tinha na pintura o seu hobby preferido):
— Meu caro pintor e colega, devo confessar-lhe que sinto que não me pareço com o retrato feito pelo ilustre pintor. Desagradou-me tanto, devo confessá-lo, que não pretendo levá-lo para casa, menos ainda permitir que seja exposto numa parede do Parlamento, como aventaram alguns generosos colegas. Penso nos tempos em que meus pósteros não venham a me reconhecer, tal como eu neste momento e, parece, todos os meus colegas. Agradeço a homenagem, mas declino dela.
A sessão foi encerrada e do pintor nunca mais se ouviu falar.
Lembrei esse episódio a propósito de um fato ocorrido esta semana no Brasil: um artista que nunca ouvi falar, chamado Romero Britto, pernambucano, para publicar o quadro que pintou da presidenta Dilma Rousseff, pagou de seu bolso, como matéria paga, 20 mil dólares, como noticia a imprensa (Correio do Povo, terça-feira 15-02-11).
Pois este jovem pintor, amante das cores berrantes, sem a arte de um Andy Warhol ou de uma Frida Kahlo, trajando um terno verde-limão, esquisito para nossos padrões, solicitou uma audiência e fez pessoalmente a entrega da pintura feita por ele, que, cá para nós, em nada se parece com a retratada: num estilo plano único, como as fotos bizantinas, cabelo lembrando um turbante da Carmem Miranda, na face sorridente há marcas em cada bochecha que, para mim, não traz nada de arte e nada representam.
É bem verdade que a foto do Correio do Povo (dir.) mostra uma Dilma dizendo algo para o pintor (ameaçando-o? — pois traz um dedo erguido em situação que lembra um proctologista). Desculpem a comparação, mas achei tão ruim a oferenda, de tão má qualidade — apesar das amizades apregoadas de S. Sª, o pintor, na nota — que fiquei pensando: Onde será que a Presidenta vai colocar tal retrato?
Juro que nessa hora não desejava ser o secretário da Presidenta...

Imagens: F.A.Vidal (1), BBC News (2), Evaristo Sá-AFP (4)
Veja aqui a foto oficial do "Dilma Pop"

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Perda de substância

A seguinte crônica de Rubens Amador é ilustrada por um quadro hiper-realista do pintor iraniano Iman Maleki (n. 1976).

A todo instante relendo sobre o caráter e o saber dos grandes homens do passado, sentimos que a humanidade vem perdendo também em substância.
Por que não surgiu nunca mais um Beethoven, um Liszt? Um Mozart? — para falarmos no mundo dos sons. E na escrita, por que não mais alguém parecido, literariamente, com um Vítor Hugo? Um Voltaire? Um Shakespeare? Por que os pósteros desses homens — nós — ficamos, como certos psicanalistas, rodeando, rodeando, em torno das descobertas de Freud há 100 anos, acrescentando muito pouco às idéias do genial pensador?
Temos que reconhecer que a qualidade do ser humano perdeu muito, na esteira do tempo. No lugar das criações imortais, como a estátua do David, de Miguel Ângelo; das pirâmides do Egito, e de outros monumentos imortais, criamos a cibernética, capaz de colocar um míssil a milhares de quilômetros, mas absolutamente incapaz de evitar a simples destruição dos mananciais de água indispensáveis à vida humana.
Quando me lembro que vivemos uma fase social em que grassa a corrupção, o tóxico, a violência de todos os matizes, penso em Goethe, por exemplo, paradigma de homem decente, além da genialidade que portava.
Ocorreu-me contar-lhes a passagem que li, um dia destes, sobre Frederico da Prússia, o ínclito morador de Sanssouci, o maravilhoso palácio de Potsdam.
Frederico era ávido da convivência dos grandes homens de seu tempo e quis atrair para si outro formidável espírito daquela época. Escreveu a Jean-Jacques Rousseau, oferecendo-lhe “casa, comida e liberdade”. Com tal convite, Frederico, o Grande demonstrou que era um mau psicólogo: Rousseau, homem misantropo de caráter e rebelde em seu apostolado, não era o homem indicado para compartilhar da corte prussiana. O autor do “Contrato Social” — livro que deveria semear os germens da maior revolução de todos os tempos, com ar respeitoso e ao mesmo tempo galhardo, respondeu ao convite que lhe fazia o formidável Frederico nos seguintes termos:
— Majestade, ofereceis-me asilo e prometeis-me liberdade. Mas V. M. se esquece de que tem uma espada e de que é Rei. Ofereceis-me uma pensão, quando eu nunca vos prestei um serviço. Haveis feito o mesmo com os bravos que perderam pernas e braços por vossa causa?...
Agora eu lhes pergunto, para terminar: “Ainda se fazem homens como os de antigamente?”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O boateiro (conto)

O seguinte relato satírico de Rubens Amador foi publicado no Diário Popular de 10 de março de 1984. Era o último ano de governo do general Figueiredo, mas a história se situa vinte anos antes, quando as liberdades eram mínimas. Na época, herói era quem se atrevia a falar em público e ainda sobrevivia.

Estávamos no período mais duro da Revolução. Apesar disto o homem não tinha emenda. Se estivesse em um velório, por exemplo, logo puxava o primeiro pelo braço e ia dizendo, baixinho, com aparente mistério:
— Amanhã o dólar vai triplicar. Esta me veio de fonte limpa!
Em outra rodinha, já dizia que tinha ouvido na TV que o General Normélio estava mobilizando a tropa – sempre olhando para os lados, como se estivesse revelando um segredo de Estado. Se estivesse no futebol, puxava assunto com o vizinho do lado e já lascava:
— Me disseram que ouviram, em Edição Extraordinária, que os americanos estão desembarcando na Amazônia.
O outro abanava a cabeça, solene e grave, e já se virava para o amigo ao seu lado, para passar a última, “de fonte fidedigna”, quentinha.

E assim o nosso personagem ia espalhando boatos na feira, no café, no prado, enfim; onde encontrasse interlocutor, lá vinha ele com “a última de fonte muito autorizada”. O homem se tornara uma espécie de virulenta epidemia de boatos. A tal ponto, que o coronel comandante da Praça da Cidade, informado das mentiras espalhadas pelo boateiro, mandou prendê-lo.

Quando, trêmulo, o fofoqueiro (não passava disto) entrou acompanhado de dois praças no gabinete do militar-chefe, este encarou-o e bradou:
— Então você é que é o famoso boateiro, não?
— Céus, logo eu que sou inimigo de fofocas, meu coronel! Deve haver algum engano.
Aquela contestação lhe saiu com voz diferente da habitual. A boca seca. O militar levantou-se, e foi desenrolando uma espécie de édito da Idade Média, enquanto, lendo-o, minuciava:
— Dia 2, no Café Torrado, às 9 horas da manhã, você afirmou que a Casa da Moeda estava falimentar. Dia 8, no Cine Fagulha... (e narrava novo boato inventado pelo preso.) Dia 17, às 15 horas, na sala do conhecido dentista José Gralha, você deu sua “última quentinha”.

Nosso anti-herói ouvia o detalhado relatório, branco como uma folha de papel almaço sem pauta.
— Mas, coronel... — tentou armar mais um desmentido.
— Tem mais — atalhou o oficial, alteando a voz —: dia 30, no velório do Dr. Teodorico, você falou em certa bomba que iria explodir na praça.
O homem, frente ao comandante militar da cidade, tremia, ante aqueles minudentes relatos dos inventos maldosamente por ele espalhados.
O coronel dirigiu-se aos dois praças que escoltavam o preso:
— Amanhã, ao amanhecer, vamos fuzilar este boateiro inconsequente!
Um forte mau-cheiro se fez sentir na ampla sala.
— Levem-no, e ligeiro! — ordenou o oficial, acercando-se da enorme janela, aberta de par em par.

Cinco horas da manhã. Ouvia-se o cacarejar de um galo. No horizonte, o sol começava a surgir. No pátio da unidade militar, tudo encenado: quatro tamboreiros, sete soldados com seus fuzis ante um tronco de grossa árvore nos fundos do quartel, e que serviria para amarrar o “condenado”.
Tratava-se, já viram, apenas de um susto que o comandante queria dar naquele empedernido boateiro. As próprias balas seriam de festim, de onde só sairiam estampidos, nada mais. A cena, patética e silente! O fofoqueiro tremia feito um “béribéri” na última potência. O coronel desembainhou sua espada e ordenou com voz firme:
— Atenção... Apontar... Atirar!
Assim que os tiros se fizeram ouvir, nosso anti-herói caiu pesadamente... desmaiado, com palidez cadavérica, consequência do susto enorme. Em poucos minutos, porém, já estava de pé, braguilha toda molhada, enquanto o próprio coronel o desamarrava e dizia-lhe, com ênfase:
— Olha, hoje foi só uma encenação, seu fofoqueiro, com os fuzis sem bala, mas na próxima....
— Pode deixar, meu coronel, jamais de minha boca sairá qualquer boato. Juro pelo que há de mais sagrado!
Pelos muros do quartel evolavam-se as risadas da soldadesca.
O mitômano, recomposto e já vestido e humilhado, posto para fora da unidade, caminhava a cerca de quinhentos metros do quartel, quando se encontrou com um padeiro, conhecido seu, na faina de distribuir pães àquela hora da manhã.
— Ezequiel, vem cá, ouve aqui a última!
E, entre misterioso e novidadeiro, falou entre dentes:
— Nosso exército anda pelas “caronas”. Olha, eles não têm nem balas para os seus fuzis... Quem te fala sabe o que está dizendo...
Imagens da web

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Vi o Dr. Mozart bravo!

O cronista Rubens Amador evoca um conflito que viveu na condição de empregador, no verão de 1958. O caso foi julgado pelo Dr. Mozart Victor Russomano (1922-2010), fundador da Justiça do Trabalho em nossa cidade (leia currículo).

O episódio foi recordado por Amador quando o admirável jurista pelotense recebia o sétimo doutorado Honoris Causa (leia notícia), em 2005.

Na época dos acontecimentos narrados, a Junta de Conciliação e Julgamento (hoje, 1ª Vara do Trabalho de Pelotas) funcionava - recorda o articulista - na Félix da Cunha esquina Sete de Setembro (dir.).

Foi esse o lugar da "brabeza" do juiz.


Em trinta e cinco anos que fui comerciante estabelecido, fui levado à Justiça do Trabalho uma única vez. O motivo da coluna de hoje me veio à memória por ocasião de mais esta justa homenagem que a PUC-RS concedeu ao Ministro Mozart Victor Russomano. Preito mais do que merecido para um homem bom e culto.

Tinha eu um empregado — já havia quase 7 anos — que, pretendendo receber uma indenização, agiu de forma grosseira. Certa manhã, atendia eu a dois clientes. Um deles era João Doumid, excelente criatura, hoje falecida. O outro era um cidadão meio áspero, considerado opiniático, embora bom sujeito. Pois naquele momento o aludido empregado veio pegar o serviço, atrasado uma hora. Passou por nós, que estávamos na recepção, a ninguém cumprimentou, e foi dirigindo-se à oficina. Interpelei-o:

— Sr. Fulano, o fato de não cumprimentar ninguém é caso de educação. Mas o senhor me deve uma explicação por que chega atrasado.

Ele foi curto e grosso na resposta que, entendia, se encaixava nos seus propósitos:

— Se o senhor quer que eu venha na hora, dê as voltas que tenho que dar!

Olhei para os clientes e perguntei-lhes:

— Os senhores ouviram?

Ambos assentiram com a cabeça e, então, voltei-me para o empregado e disse-lhe que juntasse suas coisas, se retirasse, e que estava despedido por sua resposta insólita. Ele o fez. Dias depois, recebi uma intimação da Justiça do Trabalho. Era meu advogado e grande amigo, o Dr. Rubens de Oliveira Martins.

Quando chego ao tribunal, vejo que o Juiz seria o Dr. Mozart Victor Russomano, com quem nunca havia falado, mas que já o admirava. Estava impecavelmente vestido; ele seria o mediador da pendência (o fato já deve ter-se perdido no escaninho de suas lembranças), o que muito me agradou, pois conhecia de sua capacidade. Sua figura me impressionava muito por sua cultura impar, por todos reconhecida. Acompanhavam-me, minhas testemunhas.

Estávamos na frente do Tribunal à espera de sermos chamados, quando o Enedino Tavares (ex-player do Grêmio Esportivo Brasil, nos anos 40), que era, penso, o meirinho da Junta, chega-se até nós e convida aos atestantes a passarem para a “sala das testemunhas”. João Doumid prontamente acatou o convite enquanto o outro, com soberba, respondeu ao oficial que não entraria, e que iria ficar ali na porta. Tavares, que era afável, delicadamente insistiu, dizendo-lhe ser aquilo praxe processual, e que cumpria ordens do Juiz. A testemunha manteve-se rígida:

— Ficarei aqui na porta, não entro!

O oficial então comunicou o fato ao Dr. Mozart. Quando olho, vinha com fisionomia contraída, passo apressado, o Dr. Mozart, então uma figura jovem e elegante como ainda hoje o é, e me assustei; porque a testemunha era minha e a reconhecia em erro.

— O senhor é obrigado a obedecer a ritualística processual. Posso mandar conduzi-lo, sob vara, até a dependência indicada. Mas não vou fazê-lo, bem assim como vou dispensá-lo de testemunhar. Queira retirar-se.

Tudo pronunciado com notória severidade, o que fez com que o homem se encolhesse, creio que envergonhado, ante a reação do Juiz, Dr. Mozart Victor Russomano. Neófito nessas questões trabalhistas, pensei logo: "Estou ferrado, logo com a minha testemunha...” Desenvolveu-se a sessão. Veio a deliberação: tive ganho de causa por três a zero! O que equivalia dizer que além do Meritíssimo, votaram a favor de minhas razões, os dois vogais: o dos empregados e o dos empregadores. Não deixou dúvidas.

Desde aquela distante época, daquele incidente provinciano, sou admirador deste homem de qualidades hoje reconhecidas universalmente. Recondidamente, confesso que o admiro, sobre tudo por me ter feito Justiça um dia.

Rubens Amador

Após a publicação desta crônica (em 3-11-2005), o autor recebeu do Dr. Mozart este bilhete:

12.XI.2005
Prezado amigo,
Muito obrigado pelo seu amável artigo no "Diário". Confesso que o fato estava por mim esquecido, sob os escolhos de meus 38 anos de magistratura! Mas o conto ficou pitoresco e espero que minha "brabeza" para com sua testemunha tenha sido discreta e transitória... Abraço cordial de Mozart Victor Russomano
Fotos: F. A. Vidal (1) e RBS (2)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Crônica de fim de ano

Clima de Natal
Rubens Amador

Aproxima-se o Natal. Não sei por que começa a me assaltar uma certa angústia. Até aquele dia em que toda a casa já está pronta, passo por um período de aflição. E os cartões? Comprar selos, envelopes e cartões. Depois endereçá-los. E os presentes? O ter de andar em lojas. Ainda bem que não escolho nada para ninguém. Não sei. Sou capaz de oferecer um jogo de damas para um adulto e uma camiseta para uma criança. Depois vêm as lampadazinhas. Tem as que acendem e as que não acendem mais. E a árvore? Está firme ainda? Ano passado lembro que ela estava guenza, de um lado. As lâmpadas, será preciso testar uma por uma, exaustiva e pacienciosamente. Que vamos comer: Peru ou Chester? Fábio gosta de lombinho. Galinha? Nem pensar, cisca para trás! Ah, a lentilha, para que o ano seja pródigo em dinheiro. Põe 1 quilo! E a bebida? O que vai ser? E os enfeites da árvore? Vários estão quebrados. O camelo da manjedoura está de pescoço quebrado.

O carteiro está chegando e trazendo cartões de amigos. Chi! Este aqui me faz lembrar do pessoal de Porto Alegre, não estava na lista. Inclui! Alguém lembra que talvez seja melhor mandar pela Internet. Mais barato, direto e com menos trabalho. Mas é uma coisa fria e impessoal, retrucam. Acho o fim da picada pela máquina, diz outro. Olha, faltam apenas 15 dias. Nesta época o tempo voa.

Um dos netos telefona lembrando uma lista de quase 12 presentes só para ele, que ficarão em dois ou três. Depois a gente explica por quê esta época é uma época em que se divide, e não será possível desviar tudo para um só. Oxalá ele acredite. Duvido, o garoto tem opinião. Mas vamos conversar com ele.

As ruas estão cheias de pessoas indo e vindo, cada um contribuindo para que o Natal seja mesmo uma festa já no ir e vir das ruas. Como é? Vai ter Papai Noel ao vivo? Vou saindo de mansinho antes que alguém sugira a mim. Suportar aquele calor embaixo de uma fantasia, será dose! Júnior vem? Vitor vem? Fernanda vem? Hoje fiquei com pena de não ter bastante dinheiro, argumenta uma sobrinha. E eu respondo: esta é uma das minhas velhas penas! Mas por quê, logo hoje, ficaste com pena de ter pouca grana? É que nas lojas, penduradas nas vitrines, vi muitas crianças pobres desejando com os olhos as coisas expostas. Acho que estas deveriam ser como os altares na Sexta-feira Santa, cobertos com pano pesado e cor lúgubre para que os infantes carentes nunca vissem a festa bonita de que não poderão participar intensamente, logo eles que são os legítimos donos! Alguém gritou: Sempre tem um Urubulino para toldar a alegria alheia!

Batem à porta. Era uma criança pedindo. Gritei: deixem comigo! É que naquele momento me lembrei de um colégio católico em que havia estudado em minha infância, e que na época do Natal houve uma representação em que um menino pobre e doente que sofria fortes dores, chamava em vão por Jesus. Sua mãe lhe dizia: “O Rabí da Galiléia não vai vir em nossa modesta choupana, pois agora está em Nazaré distribuindo presentes aos ricos.” O menino chorava de dor, e repetia em desespero: Jesus! Jesus! Nisto ouvem-se batidas secas na porta da modesta morada. A mãe do menino deixa-o sob um monte de trapos, abre a porta e alguém segurando um longo cajado apenas diz : “Aqui estou!”

Sem que ninguém visse, fui no monte de presentes que estavam chegando e peguei dois, que eu sabia se destinavam às meninas e dei para aquela criança que, na sua felicidade, abaixou-se e pegando os seus tamanquinhos saiu correndo sem dizer nada. Claro que não seria preciso. Agradeci-lhe, eu, antes de fechar a porta, por ela me ter ensejado ter brincado de Nosso Senhor, naquela data tão bonita.
Fotos de F. A. Vidal (1-2)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Bicicleta na calçada: divertido mas perigoso

Não se costuma esquecer o perigo que os ciclistas sofrem nas ruas e até mesmo nas ciclofaixas (espaço dentro de ruas, como em nossa Andrade Neves), mas ninguém lembra o risco de que as bicicletas usem o espaço dos pedestres. Em Pelotas, é habitual que ciclistas invadam calçadas, e muitos pedestres não ficam por menos: também gostam de uma ciclovia (espaço afastado das ruas, destinado somente a bicicletas) para caminhar e correr (incrível, mas aqui em Pelotas é o que ocorre na Duque de Caxias e na Dom Joaquim).

Buscando incentivar o uso saudável da bicicleta, especialistas aprovam a insólita aplicação de ciclovias dentro das calçadas para pedestres (foto à dir.). Já existe uma em Blumenau (leia nota). Os tais especialistas devem ser europeus que não conhecem o Brasil, onde nem a lei nem o pedestre são respeitados.

Em nosso país a lei proíbe pedalar nas calçadas, a não ser que exista sinalização de ciclovia sobre ela (artigos 58 e 59 do Código de Trânsito). Os guardas municipais devem advertir sempre e, em caso de acidente ou agressividade, podem remover a bicicleta e até estabelecer multa (artigo 255). O DETRAN paranaense dá sugestões educativas para ciclistas, tanto adultos como crianças.

No Rio de Janeiro, há casos de pessoas feridas em atropelamentos na calçada por ciclistas (leia nota). O cronista Rubens Amador nos traz um conto de sua lavra que ilustra de forma dramática esse estranho dilema: de um lado do meio-fio a bicicleta é uma vítima; do lado de cá, pode ser uma assassina.

A velha senhora

Era uma mulher de idade, passara recentemente dos oitenta anos! Jovial e simpática, todos no edifício lhe queriam muito. Prestativa e conselheira; quando lhe solicitavam uma idéia sobre determinada coisa, ela ouvia pacientemente e opinava. Fisicamente era frágil, o que a deixava muito elegante. Dizia, brincando, “se tivesse 20 anos menos, seria modelo”. Embora usasse uma bengala como auxílio nas suas caminhadas diárias, aquele instrumento lhe dava um ar de nobreza e distinção.

Muito independente, preferiu morar só, desde que ficara viúva. O seu filho único fizera de tudo para que ela fosse viver com ele e sua família. Mas ela dizia que um casal tem de viver sua vida sem interferência física de outras pessoas, pois assim perderiam a espontaneidade nas naturais discussões. Jamais seria um empecilho, dizia, e tratava sua nora e netos com o maior carinho. Tinha uma rotina implacável: todas as manhãs, pelas 10 horas, inverno ou verão, saía para “ver as vitrines”, e percorria muitas quadras, cada vez para um lado diferente.

Pois em certa manhã, ao transpor a porta do edifício onde morava, bem no centro da cidade, abanando para o porteiro como fazia todos os dias, logo nos primeiros passos que ganhava a calçada, é violentamente atropelada por um marmanjão pedalando uma bicicleta sobre a calçada, e a jogando no chão. Quase juntos, chegam seu filho, chamado às pressas, e a ambulância. Com o burburinho estabelecido, o sujeito atropelador fugiu rapidamente. Quando pensaram nele, depois que a ambulância partiu para o hospital, já não havia mais sinal dele ou do instrumento que usou para levar à infelicidade a pobre senhora. Um dos que assistiram tudo, no grupo, falou com raiva: “Se esse desgraçado atropela meu filhinho de quatro anos que costuma sair do interior de casa correndo para a calçada, eu o mato”!

Já no hospital, examinada e radiografada, a acidentada teve um diagnóstico terrível após aquele atropelamento em cima da calçada, por aquele indivíduo mau-caráter e mal-educado: fraturara a bacia de forma irreversível. Ficara condenada a ficar para sempre deitada no leito. Realmente, o destino — aliado à irresponsabilidade daquele homem que a atropelou pedalando por sobre o passeio — trouxe-lhe o pior dos sofrimentos, pois a partir daquele dia nunca mais pôde ser independente, passear e visitar os seus amigos no edifício e fora dele. Isso sem referir a que também jamais poderia visitar, com os próprios pés, a seu filho, nora e netos que a adoravam. Aquele aparentemente pequeno acidente, mas tão irregular, porque seu causador infringiu uma norma fundamental: adultos têm de pedalar na rua e jamais nas calçadas, onde as pessoas, como aquela velha senhora confiou, e sentia que estava segura, por estar caminhando sobre o passeio.

Meses depois, a velha senhora teve interrompida sua vida, pois tornara-se uma pessoa muito infeliz. Jamais se conformou com a inutilidade que lhe foi imposta por aquele imbecil da bicicleta sobre a calçada, que sequer prestou-lhe qualquer socorro. Mas assim mesmo, até seu fim, em suas orações por si e pelos seus, ela sempre pedia, piedosamente, pelo ciclista assassino.

Rubens Amador
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Petróleo em Pelotas, um sonho antigo

Este sábado (13), a imprensa gaúcha publicou informação dada pela Petrobras a Fernando e Miriam Marroni, deputados pelotenses (federal e estadual): existe uma possibilidade de se achar petróleo perto de Pelotas, na bacia hidrográfica que vai de Florianópolis ao arroio Chuí (veja nota RBS). A suspeita nasceu de um relatório sísmico, mas somente uma perfuração se saberá se há petróleo e gás no litoral gaúcho (em dois poços entre Tavares e São José do Norte).

Num artigo especial para este blogue, o cronista Rubens Amador recorda que há 70 anos já se vinha buscando petróleo na região, com fundadas esperanças, e não se tratava de análises teóricas, mas de perfurações com os métodos existentes naquele tempo (veja histórico da exploração de petróleo no Brasil).

Em 1939, o empresário gaúcho Curt Rheingantz foi autorizado por Getúlio Vargas a buscar petróleo (veja decreto presidencial de 1941); na época, somente os particulares o faziam, inclusive multinacionais. No entanto, o mesmo Getúlio criou, na segunda gestão, uma empresa estatal para esse fim, deixando todo o trabalho parado na Zona Sul e toda a esperança arquivada... até hoje. (Veja os textos de Rubens Amador).

Diz o velho aforismo: “Onde há fumaça, há fogo!” Quero prestar com este artigo uma justa homenagem, talvez a primeira, que lembrará o nome de um antigo lourenciano de nascimento — mas pelotense de coração — e que foi grande comerciante, de iniciativas várias.

No setor de olaria em grande escala, produzia derivados, como fossas, telhas, tijolos, manilhas etc. Depois foi um dos nossos maiores lojistas, com ferragens e afins, como a famosa Ferragem Rheingantz. Foi criador e proprietário de uma das maiores fábricas de chapéus de nosso Estado, a Fábrica de Chapéus Rheingantz, quando este acessório era usado por todos os cavalheiros, fossem ricos ou pobres. Foi um grande empregador em todas as suas iniciativas, e a Pelotas de então desfrutava de um grande parque econômico, e que esse empreendedor nato, foi um dos maiores, por justiça.

Pois foi esse senhor, chamado Curt Guilherme Rheingantz, cuja amizade tive o privilégio de desfrutar por mais de vinte anos. Até quando, em avançada idade, se viu impossibilitado de se locomover, o visitamos até seus últimos dias, pois eu e minha esposa, todos os sábados pela tarde, éramos muito bem recebidos por ele e sua esposa, Dona Maria Mourgues Rheingantz, igualmente já falecida.

Mas o que desejo enfatizar neste trabalho é o seu pioneirismo também no setor de petróleo. Pois este grande cidadão brasileiro, há muitos anos, pesquisou e executou várias perfurações como pioneiro, em busca do precioso ouro negro, acreditando — e ignoro em que se baseou — na existência de petróleo em nossa região. Despendeu avultada importância nesse propósito.

É certo que na época os equipamentos não tinham a tecnologia de hoje, mas sei – contado por ele mesmo – que executou inúmeras perfurações importantes lá em Arroio Grande, nas margens da Lagoa Mirim, próximo ao farol da Ponta Alegre. Ali ele conseguiu, associado a um cidadão alemão (de nome Von Delreid ou algo assim), que era gerente da secção de ferros da Bromberg (outra forte empresa que deixou Pelotas), perfurar até a profundidade de 1200 metros! Por meses eles trabalharam ali, com um locomóvel (foto) importado da Alemanha gerando energia para o empreendimento.

Quando a terra começou a sair de forma oleaginosa e o contentamento de todos aumentava, surge um decreto de Getúlio Vargas (Lei 2004, de 1953), proibindo a qualquer entidade particular pesquisar nosso solo em busca de petróleo, que passava a ser exclusividade da então novel Petrobrás. Curt Rheingantz e seu companheiro deixaram, com muito dinheiro e tristeza, ali sepultado – com 1200 metros de cano até hoje enterrado na região – o sonho de ambos.

Mas uma coisa ele jamais abandonou – disse-me – da certeza de que em nossa região havia petróleo! Descendente de alemães, chego até a pensar que algum estudioso do assunto dessa origem racial tenho lhe descrito camadas de solo nosso, que seriam dotados de petróleo.

Tudo isto me veio à lembrança neste sábado, ao deparar-me com manchete de capa do Correio do Povo, o meu jornal, dizendo: Petrobras anuncia indícios de petróleo na costa gaúcha. E logo abaixo: “A Petrobras confirmou ontem a possibilidade da existência de petróleo e gás natural na Bacia Pelotas. (...) A estatal também começa a analisar a possibilidade de instalar sua base de operações em Pelotas”.

Como disse no começo: “Onde há fumaça, há fogo!”. O pioneirismo desse sonho talvez muito bem embasado, não esqueçamos, pertence ao cidadão Curt Guilherme Rheingantz, grande empresário e desbravador, nosso compatriota, de operosa existência. Que lhe façamos justiça. Este cronista pretende lembrá-lo, pois é mais do que merecedor, pelo que fez e sonhou para Pelotas e região.

Rubens Amador
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Consulte a fonte da 1ª foto

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Esses bonés... (crônica)

O cronista Rubens Amador traz uma crítica de costumes escrita após as eleições de domingo, recordando valores que os tempos modernos nos fazem esquecer.

Confesso que não gosto desses bonés, copiados dos americanos - como os tênis, como a barriga de fora - entre vários outros hábitos que o cinema passa às demais sociedades, dado a sua força.

Até aprecio um jovem com o boné devidamente usado, com sua aba para a frente. A aba para trás, como o relógio na mão direita, para mim, sinalizam o desejo de seus usuários de chamarem atenção sobre si, entre os demais. Denota pessoa que não se adapta com serenidade aos bons costumes, ao stablishment.

De uns tempos para cá, passei a me sentir mal quando vejo certos rapazes que cobrem suas cabeças com esses bonés, dentro de igrejas, cultos, ambientes austeros, em salas de aula, e já vi: o neto de uma morta, à beira do caixão, trazendo em sua cabeça um desses bonés. Acho esses comportamentos sociais nesses ambientes uma completa falta de educação, de quem não aprendeu em casa, por quaisquer razões, que é um dever social tirar-se o chapéu ou quejandos, em lugares cobertos, especialmente os que merecem respeito, como os templos religiosos.

Vi, nesta última Semana da Pátria, vários jovens com bonés na cabeça durante o Hino Nacional, numa prova de falta de civismo, pela falha educação recebida de seus maiores. Parece mentira, mas esses pequenos maus comportamentos é que trouxeram a constante falta de respeito por tudo, inclusive contra os idosos e os professores. Assistir às aulas com a cabeça coberta é um desrespeito pelo mestre e pela Instituição que lhe prodigaliza ensinamentos. Parece que os diretores e diretoras de escola temem aos alunos, por sua agressividade, e deixam de corrigir esses despautérios.

Os da minha geração se chocam, num restaurante, ao depararem com vários moços e até adultos fazendo suas refeições com os bonés de que falo. Aprendemos em casa que, à mesa, se devem respeitar regras mínimas, como lavar as mãos, cabeça descoberta e não palitar os dentes, numa segunda refeição aos olhos dos demais. A hora da refeição tem algo de sagrado. Infelizmente esses pequenos rituais sociais foram se embrutecendo.

Nesta última eleição (e já fui presidente de mesa por mais de uma vez), havia uma certa solenidade, onde tanto os votantes quanto os companheiros mesários primavam por um ambiente sadio, condizente com o momento solene da escolha dos nossos dirigentes. O destino da Pátria ali era escolhido. Mas algo que vi nessa eleição de domingo último me estarreceu, e espero que o Meritíssimo Sr. Juiz Eleitoral, para as próximas - talvez já para o segundo turno de 31 de outubro - nos poupe o quadro de mesários trabalhando com bonés na cabeça. E vi mais de um com a aba virada para trás, como se estivesse num bar, num ambiente descontraído entre amigos e não colaborando com uma eleição de seu País.

Aquele era um momento austero e importante e exigia inclusive vestimenta adequada, sem camisas coloridas com dizeres em idioma estrangeiro, na maior descontração, como a de quem está participando de uma quermesse. Gostaria que S. Excia o Sr. Juiz Eleitoral mandasse bem orientar a esses jovens, que deram contribuição bonita e importante ao ajudarem na eleição. Mas que, por favor, vistam-se com a dignidade daquele momento tão significativo para a brasilidade.

Rubens Amador

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vaticínio político

O cronista pelotense Rubens Amador escreveu um desabafo que interpreta a incomodidade de muitos brasileiros com a situação de pobreza moral de nossa vida política.

Às vésperas das eleições para presidente, desejo fazer um comentário sobre o que está se passando em nosso País, do meu modesto ponto de vista.
Em primeiro lugar, afirmo, e gostaria que alguém me contestasse: Desde o advento da República jamais tivemos uma oposição tão incompetente como a atual. Felizmente, para o prejuízo não ser total, a Imprensa - até aqui livre - brasileira assumiu o lugar de uma oposição acomodada. O episódio do mensalão, em qualquer nação democrática do mundo ensejaria logo um processo de impedimento do presidente da República. Por muito menos, Nixon foi apeado, dado a seus abusos de poder - apenas abusos de poder - não se tratava de desvios de dinheiro pertencente à Sociedade, o que então seria algo impensável. E também jamais se viu tantos abusos com o dinheiro público como neste governo. Aí estão as coleções dos jornais, desde o Império, para quem quiser pesquisar.

Uma mediocridade esperta assomou o poder. O excelente presidente Fernando Henrique foi quem realmente estancou aquela inflação sarneysiana que infelicitava o Brasil. Um grupo de espertalhões se apoiou nas suas iniciativas econômicas, e com tudo que já sabemos, apenas foram tocando o barco, até chegarmos a resultados positivos na economia. Deus nos ajudou, pois, se tivéssemos caído nas mãos dos Delúbios, Gushikens, Zés Dirceu e companhia - sem a orientação econômica herdada de FH, aqueles todos que o próprio governo espertamente defenestrou, ante as gritantes razões que os incriminavam - teríamos chegado a uma débâcle.
Eu nunca acreditei na qualidade das pesquisas, isto já escrevi na imprensa local há muito tempo, desde o episódio aquele que também a Globo orquestrou contra Brizola, e que a verdade da soma final dos votos mostrou a patifaria armada. Tenho firme convicção de que em realidade os índices estão meio a meio, e não com a diferença mostrada. Para mim, as urnas provarão o que aqui afirmo. Iremos para um saudável segundo turno, e aí as coisas não prevalecerão sob o império da falácia, e a parte do povo que pensa, em nossa Sociedade, irá se manifestar com força. A luta será a do bom senso contra o bolsa-família e quejandos. E creio que aquela (Sociedade) vencerá.
Chega os vinte anos de ditadura por que passamos, com todo o seu rosário de coisas negativas, a começar pelo amordaçamento da Imprensa livre. Eu creio que ressentidos, espertalhões na moita, à espera do bote, estão apostando numa vitória fácil, fácil. Estão enganados. A consciência sadia desta nação irá saber se manifestar, e os votos conscientes, patrióticos; não de pessoas que recebem bolsa disso e daquilo, sem que seus problemas básicos sejam equacionados ou atendidos. Que continuem sem saneamento básico, sem escolas adequadas a seus filhos, vivendo em locais cheios de perigos de vida pela insalubridade social a que estão submetidos e enganados com figurinhas eleitoreiras.
Esta eleição haverá de colocar nos seus devidos lugares aos santos e aos demônios. Quem esperar por 48 horas após as eleições do próximo domingo, já terá o prenúncio do que aqui vaticino, tenho certeza. Me cobrem, depois.
Até o segundo turno!
Rubens Amador

domingo, 19 de setembro de 2010

Lembranças da Confeitaria Brasil

O cronista Rubens Amador traz hoje lembranças da elegante e deliciosa Confeitaria Brasil, que se situava na praça Coronel Pedro Osório, numa das esquinas com a travessa Conde de Piratini, vizinha à Biblioteca Pública. A reconstituição dos prédios na década de 1920 (abaixo) foi publicada numa página do antigo CEFET-RS (a Brasil é a casa de um piso).
A foto do queque foi tomada hoje (19) no Café Aquários. A canção do
Candy Man (Willy Wonka & the chocolate factory, 1971) tem a mesma filosofia implícita de que é a infância que nos permite adoçar a vida.
Memorizando um dias destes, com amigo contemporâneo meu, falamos um pouco da inesquecível Confeitaria Brasil, que ficava ali onde hoje está o Banco HSBC, lembrando fatos interessantes sobre aquele extinto estabelecimento.

A primeira lembrança é que lá reunia-se, diariamente, a nata dos varões economicamente bem abonados da cidade. Alguns médicos habitualmente sentavam-se em três ou quatro mesas, e lá confraternizavam diariamente. Eram então, clientes permanentes: o Comandante dos Bombeiros, Sr. Jango Costa, o Dr. Paulo Campelo, o Dr. Avelino Costa, o importador Pedro Capdeboscq e vários outros.

Acredito que, além do convívio entre amigos, havia as famosas empadas que lá eram produzidas diariamente e que Pelotas jamais viu iguais. Generosas no tamanho, eram feitas de uma massa folheada extremamente bem temperada, e no tempo certo tiradas do forno. Seu recheio era maravilhoso. Onde reinavam sempre uma ou duas azeitonas importadas, de alta qualidade. E sei, por ouvir dizer pelos últimos donos, que a fórmula das empadas e do queque - não menos famoso e jamais igualado - morreram com o que as fazia, e que era um cidadão de cor, antigo funcionário.

Ah, os queques! (corruptela de cake, bolo, em inglês), jamais foram igualados - repito - também. Sua massa era de uma leveza fantástica, sem ser pão-de-ló. Seu sabor era o de um néctar. O “olho”, aquela protuberância do bolinho em questão, era mais claro, de um amarelo bonito que contrastava com a cor característica da guloseima. Pessoas de outras cidades vinham cá comprar os queques e as empadas da Brasil.

Isto sem falar nas balas cor-de-rosa, que imitavam bonequinhos, e as balas de framboesa, as Céu Sul. A gente, quando criança, atravessava a Coronel Pedro Osório, nas noites de domingo, brincando na praça acompanhados de nossos pais, no verão. Ia-se até aquela confeitaria, em sortidas seguidas, na busca daquelas delícias inesquecíveis, que só a Confeitaria Brasil tinha, guardadas em vidros brancos, enormes, sobre o balcão. Ah, que saudade.

Tenho certeza de que muitos lembrarão daquela Casa, que era um tesouro de coisas boas, e muito bem atendida sempre. Era difícil obter-se uma mesa vaga na Confeitaria Brasil, lembro-me. Bem iluminado, aquele ambiente deixava as pessoas viverem momentos simples com imensa alegria, onde todos confraternizavam saudando-se, e abanando uns para os outros quando suas mesas estavam distantes.

Hoje, parece que distante é toda uma época que mudou radicalmente - com o “progresso” - infelizmente, para pior, só restando a saudade.
Rubens Amador
Imagens: CEFET (1), COP (2), F. A. Vidal (3)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um encontro com Getúlio Vargas

Evocando mais um aniversário da morte de Getúlio Vargas, o cronista Rubens Amador relata o dia em que apertou a mão do político gaúcho, que na época já era ex-deputado, ex-governador, ex-ditador e ex-senador, e logo ainda chegaria à presidência da República pelo voto popular. A matéria foi publicada em jornal (Diário Popular, 24-08-2006).

O artigo tem valor de documento histórico, pois se refere à terceira passagem do governante por Pelotas (as anteriores foram em 1925 e 1943) e cita as ligações do ex-presidente, todas gaúchas, como Osvaldo Aranha, Heron Domingues (o Repórter Esso) e o guarda-costas Fortunato, que ganhou recente biografia (leia nota).

Foi no início do inverno de 1950. Getúlio Vargas estava em caravana política por Pelotas e em sua comitiva veio o coronel Eurico de Souza Gomes, pelotense e diretor da Central do Brasil. Carlos Barboza Furtado, que era cunhado do coronel e casado com uma de minhas primas-irmãs, perguntou-me:

─ Vou ao encontro do Eurico, que está lá no Grande Hotel: queres ir comigo?

Prontamente concordei. Ao lá chegarmos, um número enorme de pessoas se apertava frente ao hotel. Nós fomos abrindo caminho pela multidão. Nesse momento, vejo – vindo da esquina fronteira ao hotel – o ex-ministro Oswaldo Aranha, de braço com o doutor José Brusque, médico que hoje tem estátua em nossa principal praça. Em seguida chegamos à escada que levava ao primeiro andar, onde estava parte da comitiva. Carlos Furtado, meu primo político, solicitou a um integrante da comitiva que cientificasse ao Cel. Eurico que seu cunhado estava ali. O militar, solícito, subiu a escada apinhada de gente; após breve demora, apareceu na grade, no patamar do primeiro andar, a figura de Eurico, fazendo sinais com a mão para que subíssemos. Carlos puxou-me pelo braço e fui atrás dele.

No momento que atingíamos o primeiro piso, de um quarto, à esquerda, vinha saindo Getúlio Vargas em direção ao quarto principal, que dava para a frente do Grande Hotel, ante a praça Cel. Pedro Osório, no mesmo piso. Ao vê-lo ante mim ─ pele crestada pelo sol, sorridente; trajando um terno de casimira azul, com listras largas, esbranquiçadas, sobre os ombros um xale de cor marrom com franjas ─ estendi-lhe a mão, como fizera o Carlos, e ele retribuiu o gesto, sempre sorrindo, detendo-se por segundos em sua marcha, sem nada dizer.

Nesse exato momento, olhei para a porta do quarto de onde o agora ex-presidente saíra, portas abertas em par, e vi a figura de um negro enorme, sem chapéu, apenas com uma camisa branca, apoiando-se com ambas as mãos na parte superior da porta, tal sua altura. Era o famoso tenente Gregório Fortunato, que fiscalizava o pequeno trajeto de seu chefe, creio, cuidando o percurso “do homem”.

Foi tudo muito rápido, pode-se imaginar. Mas a cena ficou-me gravada na mente até hoje, pelo carisma inegável com que aquele homem de baixa estatura imediatamente eletrizava as pessoas. Ele estava vivendo seus tempos finais como simples humano. Em breve se tornaria um mito.

Saímos de carro e percorremos vários pontos da cidade que Eurico de Souza Gomes, pelotense, não revia há muitos anos. Fomos até a chácara em que passara longas temporadas com a família, na Guabiroba. Foi uma tarde em que rodamos muito, ele matando saudades. Lembro-me que fez questão de ir ao Café João Pessoa, depois Nacional e hoje Aquário.

Voltando à figura ilustre e carismática de Getúlio Vargas, só vim a lembrar-me dele, com ansiedade, em certa manhã, pelas 8h de 24 de agosto de 1954. Eu me arrumava para sair para o trabalho quando ouço na Rádio Nacional, em edição extraordinária, a notícia dada por Eron Domingues, emocionado, cientificando ao País que, naquele momento, havia se suicidado Getúlio Vargas com um tiro no peito, após forte pressão do Exército à beira da insurreição. “Serenamente saio da vida para entrar na História”, deixou escrito.

Já tenho contado aos meus netos com orgulho que, embora fortuitamente, apertei a mão de um homem que jamais sairá das páginas da nossa história, e que realmente foi um líder que deixou muitas obras importantes. Contei-lhes quem foi este grande homem, para que reconheçam o mito, mais tarde, ao folharem as páginas da História, e seguindo a tradição verbal de família dos que, como eu, fui seu contemporâneo.

Rubens Amador
Imagens da web (foto 2:Veja)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Opção pela vida (conto)

Agora que começou o tempo de propaganda tendo em vista as eleições de outubro de 2010, o cronista Rubens Amador nos traz um relato de ficção inquietante.

Estava sozinho no modesto escritório de sua casa simples. Por cima da escrivaninha, em desordem, entre vários “santinhos” de sua candidatura a deputado estadual, recortes de jornal, lápis e canetas. Sobressaindo naquela desarrumação toda, uma pilha de contas a pagar, resultante da campanha política que enfrentara: tipografias, açougues, pintores de parede, muita tinta, gasolina, aluguel de carros; eram muitas dívidas. O candidato olhava para aquilo tudo com uma profunda sensação de desalento e tristeza. Àquela hora – 17 – nove horas após o início da apuração, obtivera apenas 14 votos. Além de tudo, estava envergonhado. "Como vou poder sair à rua?", perguntava-se.

Na primeira gaveta do móvel, um Smith & Wesson 38, cano longo, carregado; como uma desvairada sugestão para terminar com aquela aflição toda. Já estava considerando aquela hipótese trágica.

E recapitulava: “Não pode ser! E o churrasco que dei para 400 pessoas? E o carreteiro, no clube de futebol, apinhado? É incrível!” Com dedos nervosos somou as contas, na pequena máquina de calcular de plástico que comprara de um camelô: 257 mil! Sem contar os táxis para amigos, remédios que pagara de seu bolso para eleitores e outras pequenas despesas. “Não tenho saída”, monologou baixinho, rosto pálido. “Estou liquidado”, completou. ”Como irei me reerguer se apostei tudo nesta maldita eleição? Onde será que errei?”, se perguntava angustiado.

Seus olhos passearam pela arma como uma sugestão imóvel no fundo da gaveta. Desligou o rádio, que já não falava seu nome há mais de uma hora. Levantou-se e fechou o postigo. Aquilo era o fim... pensou. Com os dois braços afastou nervosamente tudo que estava sobre a escrivaninha e descansou a cabeça. Na intimidade do quarto, chorou convulsivamente. Repousou sua mão trêmula sobre o revólver, até então estático na gaveta. Levantando-o lentamente, deparou-se com um envelope rosa e perfumado embaixo da arma. Mão ainda trêmula, repousou de novo o instrumento de morte na gaveta.

Abriu aquele envelope, que nem lera, tal a agitação em que vivera nas últimas semanas. Tratava-se da carta de uma “coroa” cheia da nota, mas, desculpem, era de uma feiúra de fazer dó. Possuía inclusive bem nutrido buço, mas se engraçara com a figura de nosso herói, quando a colagem de suas fotos-propaganda começara nos postes e muros, havia dois meses. Não a conhecia pessoalmente, mas ela mandara o número de seu telefone e uma foto de corpo inteiro – a audácia! – e enquanto confessava um amor incendiário, estrategicamente, anexou à carta uma (muito boa) declaração de bens, junto com a de amor.

O rosto do candidato derrotado iluminou-se. Com um gesto brusco e eufórico, devolveu o revólver para o fundo da gaveta, chaveando-a, ao mesmo tempo que iniciava uma corrida em direção ao telefone, a fim de discar o número grifado naquela carta salvadora.

Acabara de optar pela vida.
Rubens Amador
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