terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Estampas hidráulicas, de Gracia Casaretto

Gracia Casaretto Calderón apresentou a uma centena e meia de pessoas o resultado de seu projeto prático de pesquisa no curso de Design Gráfico: estampas de roupa para o verão, estilizadas sobre o conceito dos ladrilhos hidráulicos, que tipicamente cobrem as calçadas em nossa cidade (veja o projeto).

A jovem pelotense investigou sobre a fabricação dos ladrilhos na Fábrica de Mosaicos, e desenhou umas 40 peças, que foram exibidas em público de uma forma original para um artista plástico: num desfile de moda, com modelos vestindo as criações.
Os mosaicos de piso ou "tijoletas", como as conhecemos em Pelotas, são hidráulicas por seu método de fabricação, cuidadoso e demorado, feito por pressão de água.
Além de desenhar as estampas ao modo dos ladrilhos - detalhe que não foi percebido pelo público - e logo mostrá-las como uma criação de moda, Gracia acrescentou a seu trabalho mais um toque pessoal ao organizar o grupo de modelos, colegas e amigos seus - entre eles sua irmã Papola (1ª foto acima) - que aceitaram vestir as roupas e desfilar com elas.
Essa ação unitária transmitiu um sentido de ousadia, amizade e sintonia grupal, revelando as capacidades de planejamento e gestão social da artista.
Os vinte jovens, homens e mulheres, desfilaram descalços, dando a cada roupa seus movimentos e atitudes pessoais, sorrindo ou sérios, relaxados ou levemente tensos, alguns mostrando que era sua primeira vez na passarela, outros parecendo profissionais.
A rapidez da apresentação sugeria um caráter de pressa (havia começado 40 minutos depois da hora, mas esse não seria um motivo para terminar em somente 30 minutos). O público estava deliciado e teria ficado mais uns minutos, mesmo com a luz natural diminuindo, para apreciar bem as cores e formas dos desenhos - afinal, esse era ou devia ser o centro das atenções.
Seguindo o estilo dos criadores de roupas, Gracia saiu no final e foi aplaudida e ovacionada (esq. e abaixo). Com mérito, pois estava integrando talentos como autora gráfica, diretora de produto, coordenadora cênica e preparadora da equipe humana. E ainda poderia ter sido uma das modelos, pois tem a figura esbelta e a elegância segura dos movimentos.
De família artística, ela também pinta, desenha (veja criações) e fotografa (veja Flickr). Mas seu centro está no desenho gráfico (cartazes, cartões de visita, logos, convites, infográficos, peças publicitárias).
A julgar pela idade dos modelos, poderia pensar-se que as roupas foram concebidas somente para jovens, mas esse detalhe somente se derivou do modo de conformar a equipe. Se houver um próximo desfile destas estampas, uma parte de crianças e uma de adultos mais maduros permitirá explorar as grandes potencialidades desta ideia.
Um lugar com mais natureza - ou com ladrilhos - também ajudará a valorizar o sentido urbano deste conceito milenar, e tão característico de Pelotas.
Fotos de F. A. Vidal (1-5 e 7) e Rafael Takaki (6)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Jornal na contramão: da ciclovia e da cibervia

Nada de estranho que um blogue ou um jornal eletrônico incorpore um vídeo - é um recurso muito usado, que pode enriquecer um texto, podendo até ser ele sozinho o conteúdo da nota. Há quem recomende vídeos mediante hiperlinks (com dois cliques as imagens são vistas), mas o mais comum é incorporá-los na postagem.

Foi o que fiz em nota anterior sobre ciclovias (veja), transcrição de artigo do prof. Aluísio Barros em que ele indicava dois vídeos.

Bem menos comum é que um jornal impresso informe por extenso um endereço de internet. Os meios não são compatíveis: se um leitor do jornal quisesse ver as imagens, teria que digitar o código no seu computador. Hoje, a regra é fazer tudo pelo caminho rápido, e esquecer as vias lentas. Asfaltam-se as ruas, e os engenheiros concebem ciclovias inúteis - estreitas demais ou cheias de voltas e paradas.

Imagina agora o leitor que um jornal de tendência conservadora, não muito acostumado com a internet, forneça um endereço de vídeo num artigo de sua edição impressa? Acredite se quiser: o nosso Diário Popular fez isso há poucos dias, terça 15 de dezembro, nessa nota que acabo de citar.

E o jornal - que tem portal na internet - reproduziu o texto na sua edição online? Inexplicavel e lamentavelmente, não! O veículo não se move na internet, nem quer destacar-se por isso. Os internautas não viram o artigo do professor, e os assinantes deixaram o complicado link na folha impressa.

Cinco dias antes, o Diário alfinetava o projeto municipal de ciclovias, magnificando artificialmente uma suposta oposição dos lojistas, na reportagem que o professor respondeu: Comerciantes reclamam de ciclovia na Andrade Neves (esta foi ao portal da internet).

Em agosto, outra matéria, meio alarmista, criticou a mesma ciclovia (leia), mas engana-se quem pensar que o Diário tenha algo contra o uso de bicicletas: em outubro, um editorial defendeu abertamente o ciclismo na cidade (leia) e, em dezembro, uma notícia mostrou o passeio solidário da Escola Hipólito Leite (veja aqui).

As críticas do decano se dirigem, consistentemente, contra as ações da prefeitura, seja pela falta de asfalto ou pelas supostas desvantagens das ciclovias. Não parece haver aí um conteúdo ideológico que separe o pensamento do jornal e do governo municipal, mas somente uma guerrinha de minúcias políticas.

Metrópoles brasileiras já descobriram que as ciclovias não solucionam o problema do transporte se não houver um entendimento entre os usuários do espaço urbano.

Pelotas se presta para as ciclovias, mas os cidadãos não estão acostumados a suas vantagens, mergulhados no egoísmo e na prepotência. Carros avançam sobre ciclistas, bicicletas avançam sobre pedestres nas calçadas, e até pedestres ocupam as ciclovias do Areal, do Fragata e da Dom Joaquim. Ao contrário, em Copacabana (esq.), as bicicletas vão pela ciclovia e as pessoas pelo calçadão.

O problema é complexo, mas tem solução pelo lado humano e social, não de simples engenharia.
Imagens da web
1-Passeio Ciclístico da ECOJUS Pelotas
2-Ciclovia da Andrade Neves

domingo, 10 de janeiro de 2010

Blogue inicia segundo ano

Ontem (9) o blogue completou um ano, com 390 notas publicadas. Como eu previa inicialmente, não conseguiria cobrir sozinho todos os acontecimentos da cidade. Já que não pretendo fazer noticiário, mas um mapeamento da cultura de Pelotas, vou informando no ritmo possível sobre "o que é que Pelotas tem" (como diria Dorival).

O "Pelotas, Capital Cultural" compila e gera documentação sobre Pelotas e os pelotenses - em arte, pesquisa e costumes nossos. O objetivo imediato não é anunciar acontecimentos, mas analisar o que já ocorreu, dando preferência a aspectos mais essenciais da cidade, que definam o que ela é. A longo prazo, a meta é que os pelotenses conheçam e renovem a sua cultura, vivendo-a mais e acreditando mais nas suas potencialidades.

Em novembro, o blogue participou numa espécie de experimento entre amigos, com um público de 5 pessoas: foi nosso primeiro evento próprio, que promoveu uma reunião entre blogueiros radicados na cidade (veja nota). Há mais ideias por ser executadas.

Com postagens diárias, o blogue conquistou leitores daqui e de fora de Pelotas. Foi aberto ao público em março, após dois meses funcionando para convidados, registrando então uns 300 acessos de página por semana. Hoje o ritmo oscila entre 700 e 900 semanais.

Em 2009, observamos diversos progressos em nosso meio: a Prefeitura iniciou a restauração do Grande Hotel e do Mercado Municipal, enquanto a UFPel desenvolve reformas e ampliações em todas suas unidades.

Na área privada, tivemos a criação do Instituto Leda Bacci para o Desenvolvimento (leia 2 notas), e do espaço Fábrica Cultural Música pela Música (veja nota); vimos a inserção da Fenadoce na agenda cultural e um aumento produtivo em diversas áreas (literatura, teatro, cinema, música contemporânea), com uma intensa atividade do Grupo Tholl e a criação do movimento Vigília Cultural. A organização da Feira do Livro passa por uma séria crise, e requer uma ampla reformulação. Já no meio virtual:

Mantendo os objetivos do blogue em 2010, tentarei publicar uma agenda para que os leitores de Pelotas possam saber previamente das atividades, presenciá-las e opinar com maior conhecimento.
Fotos de F. A. Vidal
1- quadro de Manoel Soares Magalhães: a Igreja Matriz de Pelotas, hoje Catedral
2-ao fundo o Mercado em reforma; em primeiro plano, aspecto de uma unidade da UFPel

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ciclovias como solução

A propósito de uma reportagem do Diário Popular sobre a ciclovia da Andrade Neves (leia parte), o professor da UFPel Aluísio Barros escreveu o seguinte artigo. O jornal o publicou dia 15 de dezembro passado, em sua edição impressa somente.
Os vídeos foram indicados pelo articulista no mesmo texto, um verdadeiro post de blogue.

Vi no jornal de quinta-feira, dia 10, extensa matéria sobre reclamações de comerciantes e motoristas que dizem que as ciclovias reduzem as vagas, espantam os consumidores. São capazes até de culpar a ciclovia pela recessão! As pessoas, infelizmente, ficam impregnadas de ideias antigas, de como um dia se imaginou a cidade - a cidade do carro, onde há ruas para todos os carros e, especialmente, vagas para todo mundo estacionar bem em frente do seu destino.

A cidade modelo de hoje é bem diferente. O carro, se descobriu, é barulhento, fumacento, entope todas as vias e causa grandes congestionamentos e enorme perda de tempo. Você já parou para pensar quantas horas de vida (ou quantas vidas) são desperdiçadas todos os anos no trânsito? Numa conta rápida, quem passa todo dia uma hora no trânsito gasta 200 h por ano, o que dá 8 dias inteiros de sua vida dentro do carro.

A cidade que se almeja hoje é uma cidade mais humana, onde o pedestre e o ciclista têm a preferência. Sem barulho, sem poluição, sem acidentes. As cidades de vanguarda na Europa estão bloqueando totalmente o acesso de carros ao centro - que voltou a ser um centro de vivência, de encontro humano. O carro fica longe. E as bicicletas é que circulam!

[O articulista sugere neste ponto o trailer abaixo, falado em inglês, e o filme acima, que tem legendas.

Em Pelotas, temos uma facilidade natural para a bicicleta: a cidade é plana e as distâncias não muito grandes. Investir em ciclovias significa mais bicicletas nas ruas e menos carros e motos. Isto é, menos necessidade de ruas, semáforos e vagas de estacionamento! [...]

O que nós precisamos é de mais ciclovias, com mais qualidade. Nossas ciclovias hoje são um tímido aproveitamento de ruas bem largas. A bicicleta não deveria pedir desculpa para circular. Nossas ciclovias são estreitas. Na própria Andrade Neves, eu tenho que sair da faixa quando vem alguém na direção oposta carregando alguma coisa.

E a ciclovia da Dom Joaquim? Do lado esquerdo e quase tendo que se equilibrar nela? Sem falar nos tachões que só servem para aumentar o risco de uma queda se a roda da frente da magrela pega num deles de mau jeito. Com boas ciclovias, quem sabe a gente acaba com a ideia de que o chique é andar de carro? Por que o chique mesmo é andar de bicicleta, e com segurança!

Para terminar, eu desafio qualquer comerciante da Andrade Neves a provar que não se consegue estacionar em alguma transversal, ainda a menos de uma quadra da sua loja.


Aluísio Barros
Centro de Pesquisas Epidemiológicas
abarros.epi@gmail.com

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Moda conceitual inspirada em Pelotas

Hoje às 19h, a formanda em Design Gráfico Gracia Casaretto Calderón apresenta no Casarão 2 mais uma de suas criações artísticas: a coleção ESTAMPAHIDRÁULICA. A entrada é franca, aberta a todos os visitantes (veja notícia).

Gracia fez seu projeto prático de pesquisa, como conclusão do curso na UFPel, sobre estampas para o verão, inspiradas numa realidade pelotense: os desenhos dos ladrilhos hidráulicos das calçadas.

A inovação da jovem artista plástica pelotense reúne dois elementos interessantes, além do sentido comercial: o desenho de roupas à base de um conceito de autoria, e a inspiração na cultura urbana, marcando a obra como local e valorizando a cidade no sentido turístico.

Nas fotografias de Gracia Casaretto, os modelos são Paula Curi Hallal (esq.) e Iuri Ramil (dir.).

Lembranças de Carmem Araújo

Após anos de exercício médico, desenvolvendo habilidades científicas de pesquisa e de cuidado, a ginecologista Carmem Araújo voltou-se ao interior e à capacidade autoexpressiva, transformando-se progressivamente numa artista plástica, cada vez mais definida, lúcida e ousada.
Com boa disciplina e produtividade, trabalha elementos como a autoestima e a sensibilidade feminina, primeiro associando-os às mulheres atendidas em seu consultório, logo a seu próprio corpo e alma e, mais recentemente, ligando esses conceitos à cidade de Pelotas.
No primeiro semestre de 2009, Carmem apresentou 30 quadros de mulheres nuas alusivos à Princesa do Sul, a maioria produções recentes (veja nota).
Ao finalizar o segundo semestre, de 9 a 21 de dezembro, trouxe nova amostra de telas em acrílica, desta vez à Galeria de Arte da Universidade Católica, totalizando 18 "Lembranças", a grande maioria recém criadas.
Algumas imagens contêm basicamente erotismo e sensualidade: o elemento corresponde a séries anteriores, em que a desinibição se relacionava com o autoconhecimento anímico e corporal. Quando os temas incluem figuras artísticas como os vitrais ou se baseiam em esculturas de casarões antigos ou do chafariz das nereidas, o mundo feminino anterior se entrelaça com a realidade pelotense, talvez necessitada de autoestimação e sensualidade amorosa, não destrutiva.
Nesta nova série, pelo menos duas figuras falam do tema do nascimento e do parto, formas de realização do ser feminino que se conhece e se ama a si mesmo (isto inclui o lado feminino de um homem). O uso do metal - como material de trabalho ou como suporte (abaixo à esq.) - também sugere um contraponto, em relação à fase anterior, mais cálida e flexível.
Outra possibilidade não resolvida é sobre o papel do homem na evolução feminina... objeto de percepção, de interação, de inclusão? Ainda não há respostas, mas as perguntas já parecem sugeridas.
A artista conserva e aprofunda suas motivações, progredindo como pesquisadora do espírito humano. Sua profissão permitiu-lhe operar com os misteriosos procedimentos de criação da vida e de regeneração biológica, a arte lhe faz reconstituir os modos em que uma alma se conhece a si mesma em busca da sanação interna. Mesmo que esses modos sigam parecendo indecifráveis, os espectadores e a própria "criadora-criatura" se beneficiam dessa progressiva consciência autoamorosa.
Imagens de F. A. Vidal

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Pensamento Ampliado, a fórmula de um escritor

Anderson de Mello Reichow nasceu em Canguçu há 23 anos e, aos poucos, tem-se feito pelotense. Trabalhou como bancário até 2007 e, coerente com sua busca pela justiça, passou a servir no Poder Judiciário e a estudar Direito.

Em 2008 Anderson abriu o blogue Defensores dos Direitos Animais, e teve uma coluna semanal por seis meses seguidos no Amigos de Pelotas (veja artigos). Também é colunista da ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais - , tido como o primeiro portal jornalístico do mundo voltado ao universo animal. Ainda neste mês de janeiro, Anderson (veja seus artigos) publicará um ensaio breve sobre a condição animal, numa coletânea de trabalhos dos 36 redatores da ANDA.

Há dois meses Anderson abriu o blogue Pensamento Ampliado, uma experiência para exercitar seus talentos, esforços e aprendizagens como escritor. Ali pratica gêneros como a crônica e o conto, aproveitando para esboçar partes de algum romance e dialogar com os leitores que já passam a conhecê-lo em seu crescimento literário. Paralelamente, se expressa e se compreende melhor a si mesmo, num exercício também psicológico.

Diz o blogueiro ter tomado a expressão do francês Luc Ferry. Para este filósofo (e educador da ala conservadora), "pensamento ampliado" é
colocar-se no lugar do outro não só para entendê-lo melhor, mas para tentar, num movimento de retorno do exterior para si mesmo, examinar os próprios julgamentos e valores do ponto vista que poderia ser aquele dos outros ["O que é uma vida bem-sucedida?", p. 340. Rio de Janeiro: Difel, 2004].
O novo escritor se vale dessa ideia de empatia (colocar-se no lugar do outro) e amplia ainda mais o conceito. Veja um exemplo dado por ele mesmo:
Meus textos, em geral, nascem de um desafio criativo. Para mim, amarrar os cadarços nunca foi algo especial. Sem ter eu nada em mente, meu irmão sugeriu que eu escrevesse um conto sobre "amarrar os cadarços", e assim o fiz. Depois de ter escrito "Gotas de infância" [leia a crônica], este ato passou a ter mais sentido para mim e, desde então, ampliei na minha existência a razão ou significado deste mero amarrar de cordéis.
20-11-15 Este post foi editado hoje.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dueto dos gatos (humor)


O Dueto dos Gatos (Duetto buffo di due gatti, título original de 1825) é uma peça para dois sopranos, atribuída a Gioachino Rossini (1792 -1868). Trata-se, na verdade, de uma compilação de melodias suas, da ópera Otelo, de 1816. O inglês Robert Lucas Pearsall, sob o pseudônimo de G. Berthold (segundo a Wikipedia), aplicou aos trechos a onomatopeia "miau", usando o texto dramático para uma finalidade humorística. Desde então, o dueto vem sendo cantado em concertos líricos, como se fosse mais uma peça erudita.
No vídeo acima, o Dueto dos Gatos é cantado por solistas do coral Les Petits Chanteurs à La Croix de Bois, em Seul, Coreia, novembro de 1996. Há dezenas de versões no YouTube, mas esta tem a correção musical aliada à graça dos intérpretes - sem expressão cênica, somente vocal. Os cantores são Régis Mengus (o moreno) e Hyacinthe de Moulins, e o regente pianista é Rodolphe Pierrepont (veja discografia). Hoje, 13 anos depois, Régis (dir.) é cantor de ópera e ator.
Les Petits Chanteurs à La Croix de Bois é um coral de crianças, fundado em 1907, que pertence à Escola de Canto (veja o portal) da paróquia de Paris La Croix de Bois ("A Cruz de Madeira"). Além das tarefas escolares oficiais, os "Pequenos Cantores de Paris" - como são conhecidos - estudam música e canto, e viajam pelo mundo, apresentando-se ante um público de 50.000 espectadores a cada ano, sem contar os shows de TV. Seu repertório é totalmente sério, como toda a educação francesa (esta brincadeira só foi possível na Coreia, do outro lado do mundo).
Compare uma versão, bastante apegada à partitura, de dois tenores adultos, Rockwell Blake e Gérard Lesne (ouça vídeo), e - com o mesmo texto musical - a apresentação teatralmente dramatizada das inglesas Felicity Lott, soprano, e Ann Murray, mezzo-soprano, num bis após concerto em Londres, 1996 (veja vídeo).
Imagens da internet

domingo, 3 de janeiro de 2010

Retrospectiva de Madu Lopes

Entre novembro e dezembro de 2009, Madu Lopes expôs uma retrospectiva denominada "Bagagem Exposta", no Bar João Gilberto. Em ocasião anterior, mostrei alguns de seus quadros, em mostra realizada no mesmo lugar (veja nota).

A pintura de Madu se centra nas mulheres e seu mundo, caracterizado por gatos, luas, estrelas e objetos de uso feminino.

Num detalhe da tela "Morada da Lua" (dir.), a mulher tem refúgio em seu castelo mas não deixa de admirar o mundo externo, cada um com suas particularidades luminosidades.
Na "Cidadela de Alice" (esq., detalhe), variação do mesmo tema, a personagem é mais extrovertida e ativa, como se todo o mundo natural lhe pertencesse e as várias casas estivessem incluídas dentro dela, como as estrelas no selvático cabelo. Madu não aborda diretamente o erotismo da mulher - que é uma pequena parte de seu mundo interno - nem o espiritualiza em abstrações, mas o focaliza em elementos concretos e em sensações de movimento, profundidade e até odores, sutilmente sugeridos nas telas.
O "Rodopio" (abaixo à dir.) tem um estilo gráfico diferente, mais onírico, menos naïf, que parece anunciar um novo Madu, mantendo os traços característicos do artista que já conhecíamos - ou acreditávamos conhecer.
Excepcionalmente encontramos homens em sua obra, mas eles também têm traços carinhosos ou sonhadores, como um poeta ou um São Francisco. Pessoalmente, ele se define, muito simples e sinteticamente, como
um artista do sul que adora cheiro de alecrim e terra molhada...
Na última imagem (abaixo) o homem parece ser o próprio artista, navegando num mundo que é feminino em si mesmo. A pintura se encontra em seu blogue Estrelário de Madu Lopes, aberto em maio de 2009. Há mais imagens na galeria de Madu no Flickr.
Nesta exposição, pode-se ver que os quadros não foram simplesmente postos nas paredes do Bar João Gilberto, mas harmonizam com aspectos noturnos e festivos do restaurante (esq.). Em ocasiões anteriores, observei a falta de entrosamento entre as pinturas e o ambiente do local, o que parece ser um traço especial de cada artista.
A propósito desta exposição, o jornalista Carlos Cogoy escreveu:
Jovem talento que tem se destacado pela criatividade temática, Madu diversifica sua arte. O feminino tanto está em telas, quanto nas esculturas. E as imagens evocam aspectos como ternura, sensualidade e espiritualidade. Em destaque, as cores que compõem o apelo de cada obra (Cogoy – Diário da Manhã 19/11/09).
Imagens: F. A. Vidal (1-4) e Madu Lopes (5)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O lusco-fusco e as árvores da praça

Entre o fim da tarde e o começo da noite, a iluminação das árvores da Praça Osório faz um jogo com a luz natural, que diminui lentamente.

Nesta transição entre os dois mundos incompatíveis, o da luz e o da escuridão, as fotografias no lusco-fusco registram um pouco de cada um. Dão a impressão de serem eles simultâneos, de poderem conviver normalmente, mas se trata somente de uma passagem entre esses mundos.

As pessoas vêm admirar as luzinhas que brilham como se fossem poderosas, remarcando as formas cilíndricas das árvores.

O próprio coronel Pedro Osório, cujo monumento de dia reina solenemente, fica na escuridão da praça a observar os galhos horizontais também adornados, como se agora fossem para demarcar sua figura.
Fotos de F. A. Vidal

SeCult instaura novo Conselho de Cultura

Há cinco anos, o meio cultural de Pelotas esperava por uma lei municipal que regulasse os incentivos às artes e à pesquisa histórica. Sem que se entenda ainda o porquê da demora, a SeCult liberou o texto diretamente para aprovação na Câmara, em regime de urgência, ignorando a existência do Conselho de Cultura, que funciona em Pelotas há uns 4 anos. O texto legal se denomina Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Procultura).
Quando as leis são aprovadas entre Natal e Ano Novo, pode-se deduzir que a autoridade quis evitar a discussão pública; os legisladores precisam de tempo para analisar as propostas e, como nestes casos, fecham os olhos e dão tudo por aprovado. Por seu lado, a imprensa informou sobre a primeira votação, dia 29, que foi aprobatória por unanimidade, com ressalvas de um vereador (leia notícia).
No mesmo dia, o sítio da Prefeitura deu alguns detalhes sobre a lei, incluindo declarações do prefeito Fetter. Entende-se que o texto foi redigido por dois secretários: Mogar Xavier, de Cultura, e Carlos Mário Santos, de Desenvolvimento Econômico (leia). Nesta notícia oficial, um ponto chama a atenção: para conceder os incentivos, a nova lei dispõe sobre a instituição do Conselho Municipal de Cultura. O texto jornalístico segue resumindo os procedimentos da lei:
Os membros do novo órgão [Conselho de Cultura] terão a incumbência de avaliar o mérito dos projetos selecionados pela Secult, seguindo os critérios estabelecidos no próprio ordenamento jurídico: facilitar à comunidade o acesso aos bens artísticos e culturais e incentivar a produção cultural em todo o município. Todas as decisões proferidas pelo Concult precisarão ser homologadas pelo chefe do Executivo pelotense.
No dia seguinte (30), o mesmo portal destaca que o projeto foi definitivamente aprovado - nesse último dia útil do plenário na Câmara -, devendo somente ser sancionado pelo prefeito nos dias seguintes. Para dissipar qualquer dúvida sobre a situação do Conselho de Cultura, o jornalista repete o publicado no dia anterior:
Sobre a concessão dos incentivos, a nova legislação permitirá a instituição do Conselho Municipal de Cultura (Concult). Os membros do novo órgão terão o encargo de avaliar o mérito dos projetos selecionados pela Secult... (leia)
Quem viu o Conselho de Cultura de Pelotas sendo instituído no Teatro Sete de Abril, sob o governo Bernardo, com representantes da Câmara e da comunidade cultural, agora se pergunta:
  • a SeCult não reconhece este órgão (por ter sido iniciado pela secretária Beatriz Araújo),
  • pretende legitimar o que atualmente existe (não seria legítimo?), independentemente de sua renovação para um novo período?
  • está fundando um conselho paralelo (há poucos meses, o mesmo secretário declarou uma Conferência Municipal de Cultura paralela à convocada pela Câmara) ? (leia nota neste blogue)
  • o Conselho que conhecíamos foi extinto, e não sabíamos?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Tholl alegra público

Na semana prévia ao Natal, o grupo Tholl voltou a apresentar-se no Teatro Sete de Abril, terça 22 com seu show original ("Tholl, imagem e sonho") e quarta 23 com o segundo, "Exotique", pocket show desenvolvido em 2009.
Nesta última ocasião, os artistas caracterizados começaram a animação meia hora antes, recebendo o público antes de entrar ao teatro (esq.). Na verdade, o espetáculo já estava começando, no meio do público.
Um quarteto musical estilizado bailava junto aos outros personagens. Com bom humor teatral, alguns deles conversavam com as pessoas que iam chegando. Quando fui fotografar um desses momentos (abaixo à esq.), o artista não quis ser destacado e aproveitou para elogiar a simpatia e beleza da mulher pelotense, com o gesto expressivo "elas é que merecem estar na capa da revista".
Como a imprensa não foi chamada especialmente, estas imagens espontâneas não aparecem em outros meios de comunicação.

A trupe nasceu em nossa cidade com o nome de Oficina Pelotense de Técnicas Circenses, e terminou adotando o nome de seu espetáculo, bastante mais breve e fácil de recordar.

O grupo se destaca por seu grande esforço num trabalho que é feito por amor à arte, sem buscar lucros. Adultos e crianças aprendem e ensinam, tanto em Pelotas como em outras cidades do Brasil.
Em 2009, o Tholl pediu a Luciano Huck o apoio ao lar de dona Conceição Teixeira, e o apresentador da Globo fez aqui em Pelotas o último programa do ano com os quadros do Caldeirão.
Mesmo assim, o fato de eles estarem cotidianamente em nossa convivência nos faz esquecer que é preciso apoio comunitário para que o grupo se mantenha (por exemplo, para ter uma sede própria, para financiar materiais e para remunerar alguns serviços).
O Tholl já tem alguns patrocínios, seu sítio na internet anuncia um terceiro show e este mês realiza-se o 5º Oficinão Caça-Talentos.
Fotos de F. A. Vidal

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Primeiro blogue gastronômico

Há dois meses apareceu o primeiro blogue pelotense de crítica de restaurantes, o Vigília Gastronômica.

Foi criado por seis amigos que comentam, sem pretensões e com bom humor, suas visitas a casas de comida e bebida, às vezes elogiando com diplomacia, às vezes desnudando a má qualidade do atendimento, da comida ou do preço - mas sempre com fundamento. Afinal, a comida é o único estímulo humano que entra pela boca e pelos olhos, e gera controvérsias.

O sexteto de vigilantes é o seguinte: Ana Marafiga, designer, Charles Huber, professor universitário, Daniel Costa, formando de jornalismo, Gonçalo Cholant, professor de inglês, Guilherme Corrêa, mestrando em computação, e Paula Gracioli, estudante de jornalismo.

O ritmo de postagem em novembro foi a cada 2 ou 3 dias; em dezembro dilatou-se para uma semana. A nota mais interessante - em texto e fotos - foi uma comparação dos dois sushi-bars que há em Pelotas: o Shanghay (dir.) e o Luna Inti (leia).
A nota mais recente foi sobre os pastéis recheadíssimos do Komilãw (foto abaixo).

Diz Guilherme no primeiro post: Inicialmente, a intenção foi focar apenas em locais públicos - bares, botecos, restaurantes e afins - e publicar críticas, levando em consideração a qualidade, o preço, o atendimento e o ambiente. Logo em seguida, surgiu a idéia de escrever resenhas a respeito dos pratos que o próprio grupo prepara, passando para o leitor, não só a receita básica mas, também, dicas que podem ser úteis na hora de cozinhar.

Se bem o blogue está dirigido basicamente aos pelotenses, as regras incluem relatar visitas gastronômicas fora de Pelotas. Charles foi o primeiro a cumprir essa espécie de exceção, e comentou sobre o Eis, uma sorveteria da cidade de Birkenfeld (se alguém passar pelo sul da Alemanha, não custa nada conferir). Guilherme apresentou o PratBurger, de Porto Alegre.

Os guris estão no gmail, no Twitter, no Orkut e no Flickr (veja os contatos). E aceitam convites para jantar... na sua casa ou no seu restaurante! Não se acanhe, eles são muito simpáticos.

Valorizando que eles armaram o primeiro blogue gastronômico, vale destacar que a crítica de restaurantes pelotenses na internet foi iniciada em agosto de 2008 pelo blogue Amigos de Pelotas (colunista Slow Food).
Fotos: blogue VG

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Do encontro de blogueiros nascem mais ideias

Em novembro, a experiência deste blogue serviu para iniciar um debate entre psicólogos blogueiros de Pelotas. Éramos somente três, e dois estávamos na cidade: Liana chegaria em dezembro. O bate-papo pelo computador foi de uma hora, mas muito intenso, criativo e interessante (veja a nota).

Pois exatamente um mês depois, na quinta-feira 17 de dezembro, o encontro pessoal se realizou: na mesa 10 da Doçaria Pelotense, o chá dos três foi às quatro e, em vez de chá inglês, foi com coca zero, suco natural e H2O maçã.
O entusiasmo da primeira vez (ou seria esta a primeira vez?) parecia ter diminuído, mas a criatividade seguia fluindo e fomos buscando pontos comuns. Não eram muitos, exceto pela tendência a sair da cidade natal (Liana é de São Gabriel, Isane é de Jaguarão), o gosto pela redação e a inventar assuntos e formas de comunicação.
De fato, nós três seguimos escrevendo com frequência nos blogues e a Isane (a morena) nos anunciou que abriria um novo, destinado a mostrar o trabalho de colegas daqui: deve chamar-se Psicólogos de Pelotas e estar disponível desde o primeiro dia do ano que vem: 01-01-10. A Liana, por sua vez, acha que poderíamos ter um programa de rádio, e só precisaríamos definir os assuntos e o feeling recíproco. O que eu pressinto é que outros colegas aparecerão com mil ideias e que teremos um foco de mudanças positivas na cidade. É questão de tempo, somente.
Foto de F. A. Vidal (tomada por uma garçonete da Doçaria)
POST DATA: O blogue Psicólogos de Pelotas já está disponível para colaborações.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cidade de enchentes

Em dezembro, várias exposições e encontros culturais foram realizados nos espaços de convivência da Universidade Católica. Uma dessas atividades foi uma exposição de fotografias sob o título "Pelotas, cidade de enchentes".

O projeto assinado por Diogo Salaberry, aluno do Jornalismo da UCPel, incluiu três colegas fotógrafos: Marcel Ávila, Felipe Nyland e Solano Ferreira.

Todos eles cobriram para a imprensa escrita (Diário Popular e Zero Hora) as inundações de janeiro passado e publicaram seus trabalhos nesses meios (impresso e eletrônico), inseridos nas notícias. A exposição começou dia 9 de dezembro no campus II e terminou dia 17 no campus I.

As enchentes são um problema da humanidade há milênios e rendem fotografias de todo tipo. Esta série mostra em somente 28 imagens aspectos dramáticos e/ou estéticos, mas cotidianos em nossa cidade, como o contato sensorial com a água (fotos maiores, de Marcel Ávila), reflexos de simetria (à esq., foto de Solano Ferreira) e um desnível paradoxal (foto menor). Todas estas são fotos de fotos.

Sendo Pelotas um lugar baixo, chuvoso e próximo a banhados e ao mar, expõe-se permanentemente ao problema físico e social que advém das inundações, sem contar o aspecto psicológico, nunca bastante considerado e resolvido (perdas e renovações, afogamentos, frio, isolamento e necessidade de ajuda).
Imagens de F. A. Vidal

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Casamento civil coletivo

O saguão do Paço Municipal foi o cenário do matrimônio coletivo de 31 casais, no sábado 5 de dezembro. A ação é parte do projeto Ronda da Cidadania - com apoio do Poder Executivo - que desde 2001 já organizou 576 casamentos gratuitos para casais sem recursos financeiros. Em dezembro de 2008 somente, o benefício foi recebido por 56 pares de noivos de uma só vez (leia).

As Rondas da Cidadania são serviços de utilidade pública, promovidos pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em que mutirões de profissionais dão atendimento gratuito à comunidade. Em Pelotas, já se realizaram 36 edições, metade das quais foram casamentos coletivos.

Enquanto no piso superior a Banda do 4º Batalhão de Polícia Militar tocava a Marcha Nupcial, cada noiva era chamada pelo locutor, descia as escadas sob chuva de pétalas de rosas e se encontrava com o noivo (dir.). A Guarda de Honra que acompanhava as noivas era formada por estudantes das escolas Independência e Ferreira Viana.

O prefeito fez um discurso de saudação; ele e sua esposa presidiam a solene circunstância. O Coral da Santa Casa cantou “Como é grande o meu amor por você”, e logo as uniões foram formalizadas no casamento propriamente dito, por intermédio do Cartório de Registro Civil.

Havia noivos muito jovens e outros de mais idade, como o casal Sérgio e Loiva, com 57 e 60 anos, respectivamente (leia nota no portal da Prefeitura).

Segundo os juízes Marcelo Cabral e Suzana Neves da Silva, coordenadores da Ronda da Cidadania em Pelotas, os casamentos coletivos têm por objetivo dar proteção à família com o apoio da legislação e garantir cidadania às pessoas, além de realizarem um sonho. Antes da cerimônia, os nubentes recebem orientações jurídicas (sobre direitos e deveres para com o cônjuge e filhos), sociais (sobre planejamento familiar) e psicológicas (veja nota). Ações parecidas são realizadas em outros Estados, como o "Paraná em Ação" (200 casais).

O projeto municipal Fala Pelotas providenciou - mediante parcerias com empresas comerciais, artistas e escolas - a decoração do local, os trajes dos noivos e noivas, maquiagem, fotografias, música e outros itens para embelezar o dia (leia notícia).
Imagens da web

domingo, 27 de dezembro de 2009

O dia em que o Aquários fechou

Na sexta-feira 26 de junho deste ano, o Café Aquários amanheceu fechado e assim permaneceu todo o dia. Somente um cartazinho na porta informava o motivo: luto. No início da noite anterior havia falecido um dos donos, o português Joaquim Rodrigues. Ele tinha 75 anos de idade, uns 50 de Pelotas, e uns 40 de Aquários, que era sua casa e segue sendo a de muitos pelotenses.

O Amigos de Pelotas registrou o fato naquela tarde; um cliente dizia só ter visto o Café fechado uma vez na vida (leia os comentários) - um modo de dizer, pois o lugar fecha todas as noites, às 22h (no horário de verão, às 23h).

No dia seguinte, Zero Hora noticiou: "Morre o dono do Café Aquários de Pelotas" (leia), com a foto de Nauro Jr. (abaixo). A imagem da loja fechada parece banal para alguém de fora, mas em nossa cidade é momento histórico e insólito.

Em 1912, abriu ali um dos primeiros cinemas da cidade, o Ponto Chic, que funcionou por uns vinte anos (veja uma foto). Na década de 30 ou 40 abriu um café, e nos anos 50 denominou-se como até hoje.

O Aquários é um ponto de encontro - um lugar no sentido estrito - e não de passagem simplesmente. Marcos Macedo referiu-se numa crônica ao conceito de "lugar" (leia).

Nesta ocasião, os clientes habituais ficaram ali mesmo toda a manhã, mesmo sem tomar cafezinho (que no Aquários chega a ser um detalhe). A tristeza se focava na falta do seu espaço diário; se o Café tivesse seguido aberto, alguns deles não teriam percebido a morte de alguém. Os meios de comunicação sutilmente pareciam noticiar a provinciana frustração. Um cliente teria dito: "Com o Café fechado a cidade morre".

Que cidade pequena; só tem um café? Na verdade, o principal lugar de Pelotas não deixou de ser um lugar por ter fechado um dia, mas precisava das portas abertas. O lugar é feito pelas pessoas, mas requer referências físicas.

No dia seguinte, 27 de junho, o Aquários abriu e ZH também noticiou, aparentando que o foco era o vazio comercial; no entanto, o texto de Giacomo Bertinetti se refere às alterações emocionais (leia). Disso faz hoje seis meses e esperamos que a normalidade não mais se altere no nosso bastião de paz.
Foto: ZH (Nauro Jr)

Peixes morrem, por ações e omissões dos pelotenses

Domingo passado (20), uma leitora visitava a Praça Osório e observou o abandono e sujeira em que se encontrava o lago, com lixo flutuando e peixes mortos. Tomou fotos (dir. e abaixo) e as enviou a este blogue e ao sítio da RBS Pelotas Mais, com um texto de desabafo.

A quantidade de lixo espalhado dentro do lago e o esforço daqueles seres para conseguirem sobreviver era algo inexplicável, inconcebível na verdade.
De que adianta embelezar uma praça, colocar ali para viver seres que necessitam o básico em termos de cuidados e depois não dar conta do mínimo que deveria ser feito: prestar a manutenção necessária para a limpeza e consequente sobrevivência dos animais que ali habitam?
Foi deprimente visualizar aquilo e o pior foi não ter para quem pedir ajuda. Resta então tornar pública a minha indignação com quem tem responsabilidade e deveria zelar pela conservação da limpeza e vida do lago da praça Coronel Pedro Osório.
E, sinceramente, se for para deixar os animais agonizando naquela porquice (perdoem o termo, mas representa o verdadeiro estado do local), então é melhor secar imediatamente o lago e acabar com o sofrimento de quem não tem culpa do ser humano ser tão pouco inteligente quando se trata de responsabilidade (veja a matéria completa).

A professora Aline Neuschrank, autora da denúncia, não a enviou a outros meios, mas a notícia do Pelotas Mais foi tomada pela TV e teve outras repercussões.
O Diário Popular publicou o fato na contracapa de terça (22) e no portal da internet (leia). Nos dias seguintes, o Amigos de Pelotas postou em vários tons: crítico, trágico, sério e irônico.
Terça (22) às 16h alguns peixes mortos haviam sido retirados e - quem sabe para quê - deixados em exposição (dir.).
O lago seguia com a água turva e escura, mesmo sem lixo. Tão "irrespirável" devia estar, que alguns dos peixes sobreviventes tentavam aproximar-se a uma fonte de água limpa (abaixo à esq.).
Uma tartaruga só podia ser vista se estivesse perto da superfície; na imagem (última à esq.), ela empurra com a cabeça um peixe morto, como tentando reanimá-lo.
Naquela tarde, a Brigada Militar veio pesquisar o possível crime ambiental (abaixo à dir.), configurado há meses mas somente agora evidenciado.
Mesmo sem intenção de dano, pode haver muitas quotas de responsabilidade, por ações ou omissões. Será difícil identificá-las, pois o público que suja a praça é anônimo, enquanto os funcionários municipais se encontram fragmentados em secretarias sem coordenação: Qualidade Ambiental, Serviços Urbanos, Turismo, Educação e Cultura. Todas poderiam contribuir para prevenir e solucionar problemas como este, mas sua desunião é causadora de dores de cabeça na população.

Enquanto eu tomava fotos, aproximou-se uma senhora de aparência muito humilde, com um só dente e um toco de cigarro aceso na boca. Aparentando consciência da situação, ela me comentou:
― As crianças dão pipoca aos peixes e eles morrem afogados.
A senhora jogou a bagana no chão (não no lago, ainda bem) e afastou-se, preocupada com a inconsciência dos outros.
Outros transeuntes jogam lixo no chão (mau costume que ninguém se atreve a censurar) e atribuem ao vento ou às pombas sujarem a praça. Sacos plásticos e folhas das árvores simplesmente chegam aonde não devem; copos descartáveis e paus também?
Os funcionários públicos serão responsabilizados por não limparem a piscina, ou por deixarem mais de mil animais num espaço tão reduzido, mas eles dirão que somente seguem ordens. Ninguém parece pensar em prevenir erros ou em cuidar dos animais ou do ambiente natural. Mas todos gostam de ver os peixinhos vermelhos e as tartarugas. Quando aqui havia jacarés, era uma sensação.
Quarta (23) o Diário Popular informou (leia) sobre as medidas que seriam tomadas: mudança dos peixes para o lago da Rodoviária, escovação do fundo da piscina e, futuramente, adoção do lago para cuidar de modo adequado da alimentação dos animais. Com sorte, isso ocorrerá em janeiro próximo.
Hoje (27) ao meio-dia a água parecia menos suja (dir.) e os bichos, mais tranquilos. Se não houvesse uma manifestação popular, o que a prefeitura teria feito pela situação deles?
As palavras piscina e aquário apresentam uma curiosa troca de significados ao longo do tempo.
  • No latim original, uma piscina era um viveiro de peixes, mais para criação do que para exposição ― nosso popular "aquário".
  • Por sua vez, um aquário se referia a algo puramente aquático, como um chafariz ou um provedor de água (daí o signo zodiacal) ― o que hoje se chama "piscina" (depósito de água para pessoas ou para peixes).
Fotos de Aline Neuschrank (1-2) e F. A. Vidal (3-7)