sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Poemas sociais de Nathanael Anasttacio

O designer profissional Nathanael Anasttacio está preparando um segundo livro de poemas, "Teoria do Te-Vira", que será lançado na Feira do Livro, em novembro de 2011. "Inquilinos da Intolerância" (2008) foi o primeiro, poemas assinados com o pseudônimo de Condessa de Lilith. "Designado", seu primeiro trabalho escrito, versou sobre a implantação do curso de Design na UFPEL, uma história social mediada pela visão autobiográfica.

O texto de Nathanael critica as incoerências do antissocial mundo moderno e não deixa de ironizar sobre isso em nossa Pelotas de 200 anos, uma capital regional sempre moderna e sempre fora do seu tempo. Estruturado em peças de fácil leitura, o livro denuncia o abandono humano vivido em todas as áreas: na política e na arte, no amor e no sexo, no abuso de drogas, na solidão e na convivência social.

Infiltração

Ele não serve para casar comigo ...
Tem amizades densas com outros rapazes

Infiltrado com sua farda entre a marcha
Ele responde ao peso da espada ... inclinando os ombros
E desaprovo tal conduta ... pois apenas ele faz isso

Infiltrado no batalhão cercado de moços atraentes
E então desço em trajes finos a escadaria do hall ...
levanto as saias do longo vestido evitando beijar o chão

Ele não serve como marido
Vejo algo em seu olhar que esconde intenções
Sempre que outros jovens se aproximam
Sempre espreitando o mover-se de outros homens

Taciturno ... falseia ao falar em público
E o tecido das minhas vestes caras trama o que sinto e digo
E ele sempre se afasta assustado como inseto descoberto antevendo a morte
E apenas sorrio ... desdenhando o escarnecido

Ele não serve para casar comigo
Já notei como admira a beleza dos outros meninos
E infiltrado está ... onde desejou estar

Passo todo o baile observando ... ave de rapina mergulhando os olhos

E vejo o que ele pensa e deseja ... e tenho pena
Tão bem infiltrado em seu disfarce quase perfeito

Esperando meu dote para casar comigo ...
E meu cinismo jocoso incentivando tal espera
E inundo o espaço amplo ... minha sessão de piano
Toco uma música triste que o provoca e desperta

Tal qual uma dama ele sai sorrateiro
Noto sua ausência prolongada e quando volta arredio
... outros amigos entram no salão por outras portas

Encosto-me na coluna de mármore gelado
Tenho uma visão ampla e aristocrática
Um grupo ri ... outro serve de motivo
Alguns planejam impressionar ... mas poucos entendem o porquê disso
Infiltrados na corte ... tentando ascender

Respeitando minha dinastia ... o nome e propriedades da família
Eu não gostaria de gerar descendentes com o sangue dele
Ideia que minha alma repudia

E quietamente observo a bebida agir em meu alvo ...
Suas frases quentes sempre mirando os olhos do alpha macho
Eu peguei sua essência ... e me embriago vendo o que os outros ignoram

Como a água suja se infiltra permitindo o surgimento do mofo
Eu aposto ... sugiro e acho sentido nisso
A valência do caso está em impedir

Ele não serve para casar comigo ... pois ao invés de amá-lo eu teria uma rival

Deixo a cerimônia retirando-me aos meus aposentos
Para a nobreza as festas sempre começam mais tarde e terminam mais cedo
Os comensais esbanjam sorrisos
Tal qual um animal em sua gula demonstram querer mais

E então sofro em meus anseios
E detenho-me pensando aos risos

Ele não me serve como marido ... pois nenhum deles nunca serviria
Pois não me desejam como uma pessoa ... nem tão pouco como companhia
Desejam apenas uma chave ... para ascenderem em hierarquia

Os bailes da corte sempre me agoniam pelo mascaramento da hipocrisia ...

Imagens da web

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Falsa preferencial, acidente de verdade

A combinação de asfalto e álcool vitimou, no passado fim de semana, um inocente fradinho protetor de esquina. Após a meia-noite desta sexta (12), alguém que atropelou a preferencial da Rua Tiradentes fez um carro avançar para cima do Moreira.

Para facilitar o trânsito da zona do porto à zona norte, a Santa Cruz foi asfaltada e virou preferencial. No entanto, três exceções obrigam a parar e esperar: Dom Pedro II, Tiradentes e General Neto. O motorista que tiver suficientes neurônios funcionando não cairá nestas armadilhas urbanas, mesmo que perca um minuto na viagem.

Para proteger as casas de esquina contra os maus motoristas, em alguns pontos da cidade são colocados minipostes de material pesado. Em épocas antigas, esses pontos de referência serviam para amarrar cavalos e charretes, e ficaram conhecidos como fradinhos, por sua baixa altura e forma monolítica e arredondada.

Hoje, esses guardas mudos simbolizam o que a sociedade faz com a estupidez humana: sem tocá-la nem alterá-la, mantém as vidas e o patrimônio a salvo dos excessos noturnos, nas horas em que o álcool sobe ao cérebro e desliza pelas ruas asfaltadas.
Foto: F. A. Vidal

terça-feira, 16 de agosto de 2011

II Exposição de Arteterapeutas

A mostra II Arte de Arteterapeutas, no Centro Ágape, traz produções artísticas, em pequeno formato, de 10 artistas brasileiros que são arteterapeutas. Uma diferença com os "artistas puros" é que os arteterapeutas criam objetos de arte com emoções mais vivas e conscientes, como o faria um educador ou um psicólogo, para buscar a harmonia pessoal interna, e não tanto a perfeição da obra criada.

Paralelamente à exposição, também no Ágape, a arteterapeuta argentina Angélica Shigihara realiza o minicurso O poder e o acontecer do criar, sobre como a criatividade pode melhorar o desenvolvimento pessoal e ser aplicado com sucesso na educação e na saúde.

Exposição: 9-12h e 14-18h, da terça 9 ao sábado 20 de agosto.

Curso: 19 e 20 de agosto, com o custo de R$ 90 (9h de duração).

Encerramento das duas atividades: diálogo com artistas expositores, sábado 20, 17h 30min.

Informações: 3028 4480 e no blogue Ágape.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Percepções de Luiz Carapeto


O Espaço Arte Chico Madrid da Sociedade Científica Sigmund Freud inaugura, nesta terça-feira (16), a mostra fotográfica "Percepções". Em dezessete imagens, Luiz Paiva Carapeto mostra sua pessoal visão da praia do Laranjal e sugere como a pessoa pode interagir com seu ambiente cotidiano, especialmente o da beira da Lagoa, que traz sempre toda uma carga de variadas emoções para o pelotense.

Nesta vernissagem será o momento de conversar informalmente com o artista sobre este e outros temas. A exposição permanece 4 semanas, no 3º andar do Edifício Everest (Princesa Isabel, 280).

Pinturas de Antônio Cláudio Ribeiro

O artista plástico Antônio Cláudio Ribeiro apresenta a série de pinturas “As coisas e o tempo”, em exposição no Bar João Gilberto.

Natural de Vila Pereira (MG), Antônio reside desde 2001 em Rio Grande, onde se formou em Artes Plásticas. Há 3 anos frequenta o atelier da artista Nauri Saccol, em Pelotas, tendo participado de exposições coletivas e individuais.

Sobre o tema "As coisas e o tempo", ele mesmo escreve:

Abordo-me ao tempo
Que nos acalenta,
Que nos acorrenta
Aos elos das coisas
Que vão e que vêm
Nas correntezas das horas,
Que nos atacam
E não nos deixam
Entender as coisas
E o tempo.

Violonista mexicano Francisco Gil


O violonista mexicano Francisco Gil, que se encontra em turnê pelo Brasil, fará recitais em Pelotas (segunda-feira 15) e em Rio Grande (terça 16). A realização é do Conservatório de Música de Pelotas em parceria com a academia Espaço Musical JD de Rio Grande. O músico também oferece masterclass para estudantes de violão e uma palestra sobre o violão e o cenário violonístico na América Latina.

O concertista lança este ano seu quinto disco, com obras do espanhol catalão Isaac Albéniz (1860-1909), uma das quais é o Capricho Catalán (vídeo acima), original para piano, adaptado por Gil para violão.

Ouça interpretações de Francisco Gil no My Space e no Sound Cloud.

domingo, 14 de agosto de 2011

Gilda de Souza Soares

O professor Mário Osório Magalhães recorda, em sentida crônica, a pessoa de Gilda Litran de Souza Soares, compositora pelotense, nascida em 12 de maio de 1913 e falecida em 28 de março de 1974. Era neta, pelo lado materno, do pintor Guilherme Litran e, pelo paterno, do Visconde de Souza Soares. Estudou o primário no Colégio São Francisco, o secundário com professor particular e Piano no Conservatório de Música.

Compôs a canção "Minha Querência", considerada como um verdadeiro hino popular do Rio Grande do Sul. Seu sobrinho Leopoldo Souza Soares Rassier (1936-2000), também pelotense, ficou conhecido por outra música emblemática do nativismo romântico, "Não podemo se entregar pros home". É ele quem canta a música de dona Gilda no vídeo abaixo.

Dona Gilda

Quando me avisaram, no entardecer de um sábado, que eu havia tirado primeiro lugar naquele concurso literário e que, no dia seguinte, o meu ensaio sairia publicado no jornal, senti-me com mais de 30 anos e prestes a entrar na Academia. Sonhei, naquela noite, sonhos de grandeza, mas amanheci, felizmente, com os meus 15 anos. Nesse mesmo domingo, porém, no meio da manhã, troquei o pijama pelo fardão: através do telefone, a minha querida amiga dona Gilda Litran de Souza Soares dava-se ao trabalho de me cumprimentar pelo êxito e me incentivar mais uma vez.
Gilda Litran de Souza Soares

Era a própria gentileza e bondade, a dona Gilda. Não um poço: um manancial, uma vertente... Jorrava bem-querer e sentimento, dos mais puros, mesmo em pleno asfalto — na Biblioteca Pública e, depois, no Arquivo Municipal, longe da querência. Clareava em nossos diálogos as dúvidas literárias do piá, mas sem pretensão e sem qualquer pressa — como o sol, devagarinho, vem (vai) rasgando a escuridão.

Quando foi a última vez que nos vimos não me lembro. Outro dia, remexendo nas estantes, encontrei, num exemplar de um pequeno livro que escrevi há muitos anos, uma dedicatória dirigida a ela. Não sei se mandei outro exemplar, com outra dedicatória, quem sabe um pouco mais afetuosa; mas é provável que nunca tenha chegado às suas mãos, pelo menos autografado, esse livrinho escrito precocemente pelo seu jovem discípulo e admirador. É muito provável que eu jamais tenha lhe dito, por tímido que era, o quanto ganhava com a nossa convivência. Tenho certeza que não correspondi à expectativa que ela depositava em mim.

Lembro-me — e também não sei quando — que a partir de um dia os nossos caminhos se distanciaram. Ela se aposentou, os meus anseios se desviaram momentaneamente das coxilhas e galpões e foram pousar em diferentes planícies. Algum tempo depois, quando voltei de novo os olhos para o chão, dei-me conta de que ela havia morrido. Comecei, aí, a perseguir sua lembrança.

Hoje, ligo o rádio ou a TV e, pela voz do cantor, escuto a dona Gilda: Meu Rio Grande do Sul, meu lindo pago, meu chão, minha querência eu te trago na forma do coração...

Recordo-me que um dia observei um dos meus filhos ocupado em recortar, como tarefa de casa, um mapa do Rio Grande por regiões, e depois refazê-lo, colando, feito um quebra-cabeça. No início desta crônica senti, também, o coração partido. Mas aqui, no seu final, já juntei peça por peça, e agora, aquietado num canto, tomo um mate. Meio sem fôlego, é certo. Afinal, não foi pra divertir ninguém que o Patrão Velho lá de cima inventou o adeus sem despedida.
Mario Osorio Magalhães

Foto fornecida por Leonor Souza Soares


Acima, "Minha Querência", composição de Gilda Souza Soares, na interpretação de Leopoldo Souza Soares Rassier. Ouça também esta música cantada por Sérgio Sisto, com acompanhamento da Orquestra Música pela Música, e a versão sertaneja de Osvaldir&Carlos Magrão.

POST DATA

2-11-14
Esta postagem sobre dona Gilda foi citada no livro de Carmen Reis, lançado na Feira do Livro sábado (1-11), "Souza Soares: a Saga de uma Família Portuguesa no Brasil". Sobre a autora e sua pesquisa sobre as origens familiares, confira a nota Genealogia dos Souza Soares, portugueses no Brasil.

sábado, 13 de agosto de 2011

Marcovaldo em Gramado: Melhor Música

O curta-metragem pelotense "Marcovaldo" ganhou o prêmio de Melhor Música no 39º Festival de Cinema de Gramado. O filme concorria na Mostra Gaúcha com outros 19 filmes (18 de Porto Alegre e um de São Leopoldo). A premiação foi recebida, na quinta (11), pelos diretores Cíntia Langie e Rafael Andreazza (dir.).

A trilha sonora original de "Marcovaldo" tem sete músicas, elaboradas em conjunto pelos pelotenses Eduardo Varela, Zé Menna e Tato Ribeiro (a dupla "Zé e Tatu") e Davi Mesquita. Também participaram nessa trilha o músico Edu DaMatta e a banda Canastra Suja.

O filme estreou em outubro de 2010 no Teatro Guarani (leia nota neste blogue), e desde lá vem arrecadando prêmios em diversos festivais:
Veja o Making Of de Marcovaldo, um curta de Eduardo Resing, Eleonora Coutinho e Leonardo Peixoto.


Premiação Trezentas Onças de 2011

Esta sexta-feira (12) o Instituto João Simões Lopes Neto entregou uma nova edição do Prêmio Trezentas Onças (leia no Diário Popular a matéria assinada por Max Cirne). Durante um século, três personalidades ligadas à obra do escritor pelotense receberão anualmente este destaque, instaurado em 2005.

Nesta ocasião as pesquisadoras Lígia Chiappini e Alda Jaccottet e e o empresário Theo Bonow (a partir da esq., na foto) receberam a honraria, que está inspirada no conto de Simões (leia neste blogue Trezentas Onças para a cultura de Pelotas).

Desde 27 de julho de 2011, o Instituto conta com um novo conselho e nova diretoria, presidida pelo advogado Antônio Carlos Mazza Leite (v. nota no Diário Popular).
Foto: Moizés Vasconcellos

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Telhas de Nely Rodeghiero

Às vésperas de completar 80 anos, Nely Rodeghiero transforma o que quiser em um objeto decorativo. Telas, troncos, discos de vinil, sobras de construção, embalagens, pedras, espelhos e telhas servem de suporte para sua expressão. Paisagens, prédios históricos, pontos turísticos de Pelotas são lembrados por Nely.

Professora aposentada, Nely tem a arte como uma terapia que protege contra a depressão. Ela começou a pintar após ter ficado viúva, e até hoje enfrenta a vida com a máxima alegria. Além disso, sua mente está sempre repleta de ideias e seu espírito tem uma incansável disposição para realizá-las.

As 26 telhas, expostas até 24 de agosto no Corredor Arte, são apenas uma parcela da trajetória de misturas e invenções de Nely Rodeghiero, que é recebida com carinho, e interesse pela comunidade do Hospital da UFPel/FAU.
Imagens: Completa Comunicação

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Olhos de Lata e a fotografia artesanal

Uma das contribuições mais interessantes do Festival de Inverno de Pelotas 2012 é a do grupo de pesquisa em fotografia Olhos de Lata, formado por Juliana Charnaud, Luisa Planella e Graziele Gomes.

Nesta fase de lançamento, elas programaram três atividades (veja detalhes no blogue do Festival): uma mesa-redonda (8 de agosto, 15h), uma oficina de Fotografia na Lata (9 de agosto, 14h) e uma oficina de Pintura com Luz (10 de agosto, 16h).

A Fotografia na Lata ou Câmera Pinhole (do inglês pin hole, furo de alfinete, pronunciado pin-hôul) é uma técnica de fotografia artesanal, que usa o fenômeno natural chamado Princípio da Câmara Escura, sem uso de lente nem interferência de processos digitais ou analógicos.

Uma lata ou recipiente qualquer pode transformar-se numa câmara escura, desde que possa ser totalmente isolado da luz externa, exceto por um pequeno furinho. A luz que entrar pelo orifício projetará uma imagem da paisagem externa (dir.).

Esta oficina será dada a 12 pessoas, a R$ 25 cada inscrição, na Casa do Trabalhador (Santa Cruz 2454). Os participantes receberão papéis fotográficos e produtos químicos para revelação.

Na Pintura com Luz (Light Painting), a técnica de fotografar em baixa velocidade permite desenhar com qualquer fonte luminosa. Trabalha-se a velocidade do obturador e a abertura do diafragma.

Na oficina de Light Painting, os alunos devem levar câmera para fotografar e alguma fonte de luz, como lanternas ou velas.

São apenas 12 vagas e a participação custa R$ 15. Local: Biblioteca da SMED (Andrade Neves 2282). Inscrições: pelo sítio do Grupo Olhos de Lata e fones (53) 8435 9240 e 8434 4505.
Fotos: divulgação

As referências sentimentais da geografia urbana

Continuando o que escrevi ontem (Uma padaria sobrevive nos sonhos): o grande ponto de referência do Bairro da Luz — corrigindo-me: da Zona Norte — era a Panambra (dir.).

A Panambra ainda existe (faço votos que esteja cada vez mais sólida), ainda é um referencial daquela região; mas, exclusivo, só até surgir — e depois se impor no espaço urbano, e mais tarde no esportivo (no culto ao corpo, à boa forma física) — a Avenida Dom Joaquim.

Dizia-se, por exemplo, que tal lugar de uma das ruas longitudinais do centro ficava, depois da Avenida, a tantas quadras da Panambra... Raramente se indicava que seria na altura da Pinto Martins, ou na esquina da Padre Felício, ou até mesmo perto da Capela da Luz, que dera nome ao bairro...

Afirmei que eram raros os pontos de referência da cidade. Explico-me melhor: eram raros, estes pontos que menciono, porque todos os outros — inclusive a Avenida Dom Joaquim — representam sinalizações muito óbvias, comparáveis às de qualquer outra cidade.

O porto, na região sul; o cemitério e o quartel, no Fragata; a estátua do Colono, nas Três Vendas (esq.), não se diferenciam, neste sentido, de qualquer avenida, trapiche, aeroporto, quartel, delegacia, prefeitura, campo santo ou monumento que exista pelo mundo afora.

Além das funções específicas que desempenham, esses elementos do patrimônio público sempre serviram, em todos os lugares, de parâmetros, de indicativos, de orientações — enfim, são pontos naturais de referência (e esta é, mesmo, a melhor expressão).

O extraordinário é que uma concessionária de automóveis tenha exercido, um dia, esse papel mais sentimental. E que uma entidade hoje etérea — incorpórea como os sonhos (mas não exatamente os reais “bolinhos de chuva” que fazia) — aponte a uma jovem usuária o lugar exato onde descer do ônibus. Enfim, que uma antiga padaria, onde não há mais padaria, siga prestando ainda hoje esse serviço. Um serviço que se mantém útil, para aquela moça, e para mim, mais do que útil, lírico.
Mario Osorio Magalhães

Fotos: F. A. Vidal

domingo, 7 de agosto de 2011

Uma padaria sobrevive nos sonhos

O professor e historiador Mario Osorio Magalhães envia ao blogue uma crônica sobre a carga afetiva que as pessoas depositam em alguns (poucos) pontos de referência urbanos.

Na primeira parte, mostra o caso da Padaria Gaúcha, uma referência física do passado (foto 1) que segue existindo em função da memória dos cidadãos. Paradoxalmente, essa referência-fantasma sobrevive na lembrança de modo paralelo a uma espécie de "filha" (foto 2), defronte à antiga casa, na mesma rua e com o mesmo nome.

Na segunda parte (amanhã), o cronista cita o caso da Panambra, um ponto físico do presente que é, aos poucos, superado (na lembrança dos cidadãos) por uma referência vizinha, mais jovem e moderna: a Avenida Dom Joaquim.
Muitos ainda se lembram, naturalmente, que era assim que se chamava; mas creio que ninguém, hoje em dia, absolutamente mais ninguém, seria capaz de tratar, de forma corriqueira (e coloquial), como Bairro da Luz a atual Zona Norte. A não ser que esteja relembrando, com algum contemporâneo, um determinado episódio ou fato antigo, ocorrido por lá... Até aí, tudo bem, se entende. Caso contrário, é porque está, de fato, caducando.

Esse argumento me ocorreu, outro dia, quando ouvi uma jovem, no ônibus, dizer à sua vizinha de banco que ia descer na altura da Padaria Gaúcha.

Não existe mais, como se sabe, a Padaria Gaúcha original — na Avenida Domingos de Almeida, direção bairro-centro —, em cujo ponto de ônibus a jovem pretendia descer. Durante longos anos, foi a Padaria um desses fortes, e raros, pontos de referência na geografia prática e sentimental da cidade — neste caso específico, relativamente ao bairro Areal.

Eram bem moças as duas passageiras, mas não faz muito tempo que a padaria fechou (cedeu lugar a uma nova agência Banrisul). É provável, portanto, que essa referência se mantenha de pé, sadia, ainda por um período razoável. Poderia dizer, com outras palavras, que, na condição de memória, ainda goza (para utilizar uma expressão moderna) de uma boa expectativa de vida... Ao contrário, aliás, da expressão Bairro da Luz, morta e sepultada para sempre.

De todo o modo, naquele fim de tarde andava, digamos assim, meio nostálgico (embora não solitário, pois me conduzia, como os outros passageiros, coletivamente; e, aliás, sei muito bem que solidão e nostalgia só às vezes se confundem: está bem explicado no excelente livro de Moacyr Scliar, Saturno nos Trópicos).

Talvez por isso, aquela frase que me chegou aos ouvidos, entre ruídos de freio, buzinas, canos de descarga, não ficou em mim apenas como a afirmativa, muito simples, que era: prolongou-se um pouco mais, rebuscou-se um tanto mais, sob a forma de crônica... e uma crônica de morte anunciada.
Mario Osorio Magalhães

Fotos: F. A. Vidal

Feira da Serra Gaúcha 2011

Em seu terceiro ano, transcorre de 5 a 14 de agosto a Feira da Serra Gaúcha, um evento comercial pelotense que aproveita o tempo frio para a venda de roupas adequadas à estação.

Segundo ocorreu em 2009 por primeira vez (veja o post), cerca de 50 pequenos lojistas oferecem confecções, sapatos, artesanato, vinhos, queijos e salames, tudo muito apropriado ao inverno.

A Feira é realizada no ginásio Primeiro de Maio (Av. Fernando Osório 964), defronte à praça do mesmo nome (onde se situa o conhecido monumento Ao Colono). Aberta das 14 às 21h.
Foto: F. A. Vidal

POST DATA
29-03-13
A Feira da Serra Gaúcha anuncia sua presença em Pelotas de 1 a 12 de maio de 2013, no mesmo local e horário de funcionamento.
11-08-13
Os intensos frios de agosto trouxeram a Feira por segunda vez este ano a Pelotas, da sexta 2 ao domingo 11.
4-05-14

Retorna a tradicional Feira da quinta 1 ao domingo 11 de maio.

Monquelat, pesquisador de livros e de histórias

O livreiro Adão Fernando Monquelat ficou nacionalmente conhecido em 1992, quando - graças a suas pesquisas - foi reeditado o primeiro romance gaúcho (e segundo no Brasil), "A Divina Pastora", de José Antônio do Vale Caldre e Fião, originalmente publicado em 1847 (abaixo, a capa de 1992).

Foi ele quem localizou em Montevidéu o único exemplar até hoje conhecido desse livro. O nome de Monquelat está na Wikipédia (v. A Divina Pastora) e num artigo de Paulo Monteiro, escrito em 2005 (leia).

Suas atuais pesquisas focam nas origens da nossa cidade, e são publicadas no blogue O Povoamento de Pelotas, junto ao professor Valdinei Marcolla.

Em 2010, a jornalista Daniela Xu o descreveu como um "fazedor de amigos e de livros", em entrevista publicada no blogue Desgarrados de Satolep (sobre pelotenses afastados do rebanho).


Há 30 anos, Monquelat abriu no centro de Pelotas um sebo que de início se chamava Livraria Lobo da Costa. À jornalista ele explicou o motivo da mudança de nome para Livraria Monquelat. Leia a seguir parte da entrevista (veja o post completo). Ali na Rua General Teles 558, o livreiro recebe amigos e outros pesquisadores para compartilhar o chimarrão e muita conversa.


— Monquelat, quando começou essa paixão pelos livros?

— Com os gibis. Iniciei uma coleção na década de 40 e 50. Tinha como heróis o Super-Homem, Durango Kid, Zorro, Kid Limonada e Kid Colt. Guardava-os em caixas de madeira que antes armazenavam champanhes Georges Aubert e Michelon. Eram todos cadastrados e valeriam uma fortuna hoje.

— O que aconteceu com os gibis?

Minha mãe colocou fogo na coleção quando tomei bomba em uma prova de Latim. Meus heróis viraram cinzas. A partir daí começou meu interesse pela literatura.

— Por que abriste um sebo?

Por necessidade própria. Na época, Pelotas tinha apenas um sebo mas, sem catalogação, sem organização, era muito difícil a procura por um exemplar específico. Também porque sou fascinado por sebos, tenho um gosto pessoal de frequentá-los. É algo que sempre me fascina.

— A Livraria Monquelat sempre teve esse nome?

Não. O primeiro nome era Lobo da Costa mas, como ficava na rua Dom Pedro II sempre me perguntavam por que o nome da livraria não tinha o mesmo nome da rua. Cansado de explicar que era por causa de uma predileção pelo poeta pelotense [Francisco Lobo da Costa] troquei o nome para Monquelat. Também foi na mesma época do lançamento de A Divina Pastora. Dois fatores que me fizeram optar pela troca do nome.

— Além de livreiro tens fama de escritor, e dos bons. Quais são tuas obras publicadas?

Novos Textos Simonianos; Maiêutica; Fóquiu & Company; Antologia Poética e Alguma Prosa, sobre Lobo da Costa; Coletâneas e Notas Bibliográficas de Poetas Pelotenses, de 1804 a 1864; Notas à Margem da História da Escravidão; O Desbravamento do Sul e a Ocupação Castelhana. E a mais recente publicação é em 2010, pela Editora e Gráfica da UFPEL: "Senhores da Carne: Charqueadores, Saladeristas y Esclavistas".

— Já te sentiste um Desgarrado de Satolep?

Não, nunca! Me considero um cidadão do mundo. Quem está no mato não consegue ver as árvores. É preciso sair da cidade para conseguir ver as árvores. Na rotina tu te perdes. Morei em Curitiba, em São Paulo e Porto Alegre. Se hoje tivesse que fazer a opção de sair, eu iria para Montevidéu, no Uruguai. Visito a cidade há 41 anos. Me sinto em casa lá, já poderia ser jubilado.
Foto: D. Xu

sábado, 6 de agosto de 2011

Memórias da Tradição, em Bagé

A artista plástica pelotense Maria Lúcia Drummond, já apresentada aqui no blogue, está expondo a série de quadros "Memórias da Tradição", dentro da temática nativista que vem desenvolvendo há alguns anos. A mostra se encontra na Casa de Cultura Pedro Wayne, na cidade de Bagé.

Após vários anos de formação no Ateliê Giane Casaretto, Maria Lúcia vem mostrando seus trabalhos em Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre e cidades uruguaias. Selecionada por edital da Secretaria de Cultura de Bagé, nesta ocasião ela reúne 15 pinturas em pastel seco, abordando conteúdos da vida campeira, como as vestimentas, costumes e objetos de casas rurais gaúchas.

Em "Domador" (acima), imagem utilizada no convite para a exposição, a artista evoca com extrema delicadeza visual a doma de cavalos, que é, em contraste, um exemplo das mais duras atividades típicas do ambiente rural. O couro rachado e as esporas desgastadas sugerem que muita violência ali já se desempenhou e, não obstante, o homem rude deve ter conseguido contribuir à construção de uma comunidade mais pacífica e próspera.

A vernissagem realizou-se na sexta-feira 29 de julho, com presença da diretora da Casa, Carmem Lúcia Barros, e de Sapiran Coutinho de Brito, Secretário Municipal de Cultura (dir.).

A exposição se inclui dentro das festividades dos 200 Anos de Bagé, comemorados em 17 de julho de 2011. A Casa Pedro Wayne está aberta das 13h às 18h30 (Av. Sete de Setembro 1001) e esta mostra pode ser visitada até a quarta-feira 17 de agosto.
Imagens: F. A. Vidal (1) e M. L. Drummond

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Festival de Inverno de Pelotas

O Festival de Inverno de Pelotas será realizado em agosto de 2012, em comemoração aos 200 anos da fundação de Pelotas como Freguesia de São Francisco de Paula (em 7 de julho de 1812). Para apresentar à comunidade pelotense este evento multiartístico, haverá uma Edição de Lançamento, durante seis dias seguidos, desde hoje sexta (5) até quarta 10 de agosto de 2011.

Com este Lançamento, os organizadores (Teatro do Chapéu Azul) pretendem avaliar as potencialidades da ideia do Festival (leia a proposta), aproximando artistas, ativistas culturais, instituições públicas e investidores interessados em viabilizar o Festival de Inverno em 2012 e nos anos seguintes.

As atividades incluem cerca de 40 eventos, entre debates, oficinas (de dança, canto e de fotografia), festas, shows musicais e teatrais, exposições de artes visuais e projeção de filmes, a maioria delas disposta na agenda cultural do blogue (coluna da direita). A iniciativa busca integrar todos os públicos (diversas idades e diversos estratos sociais), unificando duas características clássicas da vida pelotense: o interesse pela arte e o predomínio do clima frio.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pelotense, participe na vida cultural

Procuram-se jornalistas de qualquer idade, com ou sem título, para escrever sobre arte, história e costumes de Pelotas.

Para enriquecer o conteúdo e agilizar as postagens, o blogue convida os leitores a escrever textos e enviar imagens, dentro da nossa linha editorial.

Já temos várias fontes de informação e um colunista (Rubens Amador), mas neste 3º ano de atuação queremos ver também a participação ativa dos pelotenses na vida cultural da cidade.

Aceitam-se crônicas sobre temas relacionados com Pelotas, reportagens atuais ou históricas, e análises críticas sobre a cidade e seus habitantes, nas áreas humanas, científicas e artísticas.

O colaborador também pode seguir as orientações do editor, como repórter (redigindo ou fotografando). Escreva ou telefone ao editor (dados na figura ao lado, clique para ampliar).

Se algum estudante de jornalismo contribuir de modo estável e frequente, poderá contar com um certificado de participação.
Arte de Nathanael Anasttacio