sábado, 28 de março de 2015

Assalto a automóvel foi repelido (1915)

Notícia publicada pelo Correio do Povo, de Porto Alegre, no domingo 28 de março de 1915 foi reeditada este sábado (28-3). O relato mostra que as más intenções de alguns e a tendência a fazer justiça com as próprias mãos são questões humanas ainda sem solução, especialmente num país que não dedica grandes investimentos nem à educação nem à justiça. A tecnologia pode e deve ser usada para o bem, não só por quem tenha dinheiro para comprá-la, mas por toda pessoa educada.
Os irmãos Dodge em seu primeiro carro, fabricado em 1914
(cidade de Detroit, estado de Michigan).
Em Pelotas, o automóvel nº 52, da Garagem São José, e de que é chauffeur [motorista] José Martins de Oliveira e ajudante Fructuoso Blasco, regressava de uma viagem ao Passo do Salso e, aquém da encruzilhada das estradas do Passo do Salso e dos Carros, foi intimado a parar por um grupo de três desconhecidos, armados de facão e revólveres.

Como não fossem atendidos, os desconhecidos resolveram assaltar o veículo, tendo [um deles] saltado no estribo do auto.

Oliveira e Blasco, que estavam armados, fizeram com que o ousado assaltante baixasse e assim viram-se livres do grupo. Travou-se tiroteio, não havendo porém nenhum ferimento.
Fonte: CP, 28-3-15.

Caminho interno na Granja Progresso, em 1915 (Cachoeirinha, RS).
Fotos: sítio Dodge, blogue de R.M.Bastos

sexta-feira, 27 de março de 2015

600 mil acessos

Este blogue alcançou os 600 mil acessos em 2 de março de 2015, perto das 20h. Esta quantidade é a soma de páginas visitadas em 5 anos e meio, desde janeiro de 2009 (aproximadamente 2 mil dias). Neste período foram publicadas cerca de 1700 notas.

O registro anterior foi feito aos 500 mil acessos, no dia 31 de julho de 2014 (v. postagem), ou seja, há menos de um ano, mostrando um aumento da visitação diária. Na época, contamos o número de visualizações das postagens preferidas dos leitores, e a seguir mostramos a situação atual, com a quantidade aproximada dos 10 mais visitados, de acordo à contagem interna do Google Blogger.

Ingleses na cidade de Pelotas ― 9300. Segue sendo o primeiro lugar em visualizações.

Casarão e senzalas ― 7700. Permanece em segundo lugar das preferências.

Corte da FENADOCE 2012 ― 6000. Superou levemente o post abaixo, que antes era o 3º.

Pôr do sol, agora sem hífen ― 5900. Segue sendo acessado, mas foi superado pelo post acima.

O historiador Alfredo Ferreira Rodrigues ― 4600. Neste período subiu muito no interesse dos internautas, ganhando mais do dobro de visitas e passando do 16º ao 5º lugar.

domingo, 8 de março de 2015

Infinita mulher (poema)

Desde que nasce preparada
Para os mais diversos papéis
Com muitas imposições,
O principal deles, ser mulher:
Feminina, magra de preferência,
Bem educada, com facilidade
Para aceitar hierarquia
Do pai, do marido, do chefe,
ter sempre um sorriso no rosto,
Delicadeza ao falar,
Ao homem não querer se igualar.
Mulher, rainha do lar,
Para o homem assessorar,
Mulher que aprendeu
A por sua liberdade lutar
E seu caminho foi buscar
Além de rainha do lar
Aprendeu a ser mãe,
Papel imensurável pelas alegrias
E pelas dores,
Desenvolveu-se profissional,
Foi para a rua trabalhar.
Pela ausência em casa
Carrega com dignidade
A pior das culpas
Por não ver os filhos crescerem,
Falar as primeiras palavras,
Dar os primeiros passos.

É sofredora como Maria,
Lutadora como Joana,
Pecadora como Madalena,
Milagrosa como Fátima,
De múltiplas facetas,
Todas merecendo o maior respeito.
Por isso, independente do nome, origem,
Credo, raça, profissão,
Merece todo respeito
Por desempenhar seus papéis
Com competência, bravura
E, acima de tudo,
Com muita doçura,
Marca indelével de toda mulher.

Isabel C. S. Vargas

Fonte: Diário da Manhã impresso, 3-1-15

segunda-feira, 2 de março de 2015

Lembrança dos mascarados

Seis artistas foram autorizados pela Prefeitura Municipal para pintar painéis de graffiti (2,2 x 2,2 m) em paredes da Passarela do Samba, para os desfiles de carnaval, este ano realizados fora de época. Os selecionados foram: Anderson Fim Treze, Guilherme Nunes da Rosa, Júnior Asnoum, Luiz Marcel Ferraz, Luiz Minduim e Gabriel Alves (v. fotos dos artistas pintando).

O resultado da seleção (v. notícia) foi publicado na terça (24-02) e os grafiteiros tiveram algumas horas para executar seus trabalhos, na quinta de noite (26). A Secretaria de Cultura forneceu o material (doze frascos de tinta colorida em spray) e um pagamento de 700 reais por pintura.

A figura escolhida por Luiz Minduim Vasconcelos mostrava um mascarado (esq.), um tipo simples de fantasia popular, muito usado no carnaval de rua em Pelotas, nas décadas de meados do século XX.

O painel de Minduim, pintado com spray e finalizado com pincel, se inspirou num desenho feito por ele mesmo nos anos 80, em nanquim e aquarela Ecoline. Naquela época os mascarados começaram a sumir, um dos sinais da decadência do antigo carnaval pelotense.

Em nossa cidade, hoje só resta o carnaval oficial dos desfiles e os bailes organizados por alguns clubes sociais. Os grupos carnavalescos sobrevivem mas o clima não é o mesmo. O único lugar de rua para viver o carnaval é uma passarela com entrada paga. Há menos turistas e nenhum mascarado.

As outrora famosas máscaras, usadas somente naquelas noites em que havia carnaval de rua, eram feitas de pano e cobriam toda a cabeça do folião, deixando três pequenos orifícios, para enxergar e respirar. Para comer, era preciso desapertar e levantar a máscara.

Quem quisesse fazer palhaçadas de modo anônimo vestia um macacão e uma máscara como estas e saía gritando com voz esganiçada. Ocultando a cara e mudando a voz, os mascarados dissimulavam idade, raça e sexo, mas se sabia que a maioria deles eram homens.

Outras características da festa popular nas ruas eram: desfiles pelo centro da cidade, bancas de churrasquinhos ao redor da praça, cadeiras no lugar de arquibancadas, homens travestidos de mulher, conjuntos instrumentais uniformizados e baixo índice de criminalidade. Jamais foi realizado depois da Quarta-Feira de Cinzas.
Imagens: ASCOM, Facebook (2-3)

domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos recentes de Mariza Fernanda


“Algo do Fundo de Mim” é a mais recente mostra da artista plástica pelotense Mariza Fernanda Vargas de Souza, licenciada em Ciências, bacharel em Pintura, especialista em Artes Visuais, cursando o mestrado em Artes Visuais pela UFPel e integrante do Grupo Superfície. As 16 obras, todas utilizando tinta acrílica, estão expostas no Corredor Arte desde 25 de fevereiro e ficam até 17 de março.

Mariza Fernanda relatou à coordenação do Corredor Arte que ela se inspira em lembranças e objetos, e a partir daí cria um procedimento artístico que aplica à pintura, como o desenho e a impressão. Por exemplo, alguns procedimentos simples, muito usados na infância, são desenhar os contornos de objetos com o lápis sobre papel e imprimir a superfície de uma folha de planta mediante o carimbo.

Ainda conforme a informação divulgada pelo Hospital Escola, a artista utiliza um modo de impressão que denomina "rastros de cor". Ela explicou o seguinte:
Estes rastros de cor são contornados por linhas, formulando caminhos e traçados que parecem deslizar, como em um mapa. Margeiam, delimitam, contornam territórios, e originam a sintaxe do contato e, mais ainda, da pressão.
Mariza Fernanda (dir.) já participou em 16 exposições individuais e coletivas com o Grupo Superfície, em cidades do Rio Grande do Sul e em Montevidéu, Uruguai.


Imagens: Corredor Arte, Facebook

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Doar sangue é um ato de caridade

O Hemocentro Regional de Pelotas divulga a importância da doação de sangue. Segundo o vídeo abaixo, as etapas da doação são as seguintes: cadastro, exames, entrevista clínica, voto de autoexclusão, coleta (450 ml), lanche, tratamento e exames laboratoriais do sangue coletado. O HEMOPEL atende das 8h às 18h, na Av. Bento Gonçalves 4569.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Paulo Fontoura Gastal (1922-1996)

Nascido em Pelotas, o jornalista Paulo Fontoura Gastal 
foi o maior crítico de cinema que o Rio Grande do Sul já teve.

Assim o descreve o blogue da Sala P. F. Gastal, pertencente à Secretaria de Cultura da cidade de Porto Alegre. Desde 25 de maio de 1999, o cinéfilo e promotor cultural empresta seu nome ao primeiro cinema municipal da capital gaúcha, em homenagem ao seu longo e notável trabalho pela cultura cinematográfica no Estado.

Perto dos 25 anos, Paulo Gastal mudou-se para Porto Alegre, onde ajudou a fundar o Clube de Cinema. Escreveu diariamente no Correio do Povo sobre cinema e literatura, por trinta anos (1949-1979), onde assinava como P. F. Gastal ou com pseudônimos, como Nilo Tapecoara. 

Sua criativa e produtiva atuação se concentrou na capital, sem participar na vida cultural pelotense. O Espaço Delfos, da PUC-RS, que guarda o acervo de P. F. Gastal, publicou o seguinte  resumo de sua criativa e produtiva história.


Paulo Fontoura Gastal nasceu em Pelotas, no dia 23 de janeiro de 1922, filho de um engenheiro agrônomo e de uma dona de casa. Tímido desde muito pequeno, os irmãos (cinco mais velhos e três mais moços) gostavam de amarrá-lo ao pé de uma mesa, com um cordão bem fino, e dizer: “Estás preso com uma corrente, não podes sair daí”. E ele lá ficava por horas, até que um adulto o soltasse ou um dos irmãos, com pena, viesse romper “os grilhões”. Esta mesma “concentração imaginativa” fez com que cedo se apaixonasse pelo cinema. Entrava escondido em todas as sessões que podia, e logo arranjou um trabalho como “ajudante” no Cine Capitólio [existente desde 1928], só para poder assistir a todos os filmes que lá passavam, quantas vezes quisesse.

No Ginásio Pelotense (o “Gato Pelado” da Félix da Cunha) envolveu-se em política estudantil e precisou dividir o tempo do cinema com a responsabilidade de presidente do Grêmio de Alunos. Foi por esta época que conheceu Dinah, com que dividiria o resto da vida e que nunca seria um entrave nas idas ao cinema, muito pelo contrário: sempre que podia, ia junto. Ainda em Pelotas, começou a escrever sobre cinema [desde 1941], primeiro o material de publicidade dos filmes que o Capitólio exibia, depois pequenos textos para o Diário Popular.

Cinéfilo e crítico

Em 1946 veio para Porto Alegre, indo trabalhar nos escritórios da A. J. Renner, indústria do vestuário. No caminho para casa passava pela frente do Cinema Carlos Gomes, e logo estava trabalhando também ali, fazendo o material de “publicidade” dos filmes e, claro, assistindo a todos quantas vezes pudesse.

Notícias pra cá, notícias pra lá, começou a escrever eventualmente para alguns jornais e revistas, até que entrou para equipe da “Revista do Globo”. Nela iniciou um trabalho crítico e de educação cinematográfica, diferente do que até então era costumeiro. Seus textos traziam uma visão social e política dos filmes, algo incomum em uma época em que o cinema era visto como mero entretenimento.

Libertário desde sempre, suas posições críticas em relação ao cinema comercial americano, somadas a um fascínio pelo cinema soviético, fizeram com que logo entrasse em uma lista de “suspeitos” de comunismo. Paradoxalmente, porém, era admirador de alguns grandes diretores americanos (como John Ford) e ingleses (Alfred Hitchcock) que de comunistas nada tinham, o que gerava confusão no estabelecimento de um rótulo político para colar nele.

Sua grande paixão, desde sempre e até a morte, foi Charles Chaplin, o “Carlitos”. Do personagem de Chaplin em “Luzes da Ribalta” [v. citações do filme], Gastal tirou o pseudônimo “Calvero”, o mais conhecido dos tantos quantos usou em vida. Chaplin era autor e personagem também de difícil rotulagem, ora parecendo um simples “cômico” (como se dizia então) alienado, ora pintado como perigoso representante da “ameaça vermelha”. Como ele, Gastal professava uma inquebrantável convicção na defesa da liberdade de pensamento, fosse qual fosse. Parecia comunista para os conservadores, conservador para os comunistas. E amava Cinema.

Comunicador e divulgador

Por isso, talvez, apesar de ter sido colaborador de publicações de orientação marcadamente de esquerda, como as revistas “Liberação”, “Nossos Dias” e “Horizonte”, não teve problemas para ingressar nos quadros do Correio do Povo, na época o maior veículo de comunicação do Rio Grande do Sul, de forte tendência conservadora, que Gastal conseguiu abrir ao longo dos anos à participação de pensadores dos mais diversos matizes.

Antes disto, contudo, no início dos anos 50 transferiu-se para o Rio de Janeiro, para tomar parte na equipe que, coordenada pelo cineasta Alberto Cavalcanti, estava encarregada de criar o Instituto Nacional de Cinema. Foi neste período que esteve mais próximo da realização cinematográfica prática, já que auxiliou Cavalcanti também na tentativa de estabelecer a Companhia Cinematográfica Vera Cruz como um grande centro de produção do cinema brasileiro, nos moldes dos estúdios norte-americanos, mas com a intenção (pelo menos por parte dele) de realizar filmes minimamente engajados. Desiludiu-se e voltou para Porto Alegre, para o Correio do Povo e para o Clube de Cinema, que, junto com um grupo de amigos intelectuais, havia criado em 1948. Nunca mais deixou qualquer um dos três [Porto, Correio e Clube].

Gestor cultural

Nas três décadas seguintes, os anos 50, 60 e 70, a “mesa do Gastal” na redação do Correio do Povo tornou-se o ponto de referência no panorama cultural de Porto Alegre. De lá coordenou os ciclos e festivais de cinema que iam dos filmes americanos e canadenses aos do Leste Europeu, principalmente poloneses, tchecos e soviéticos. Descobriu e se apaixonou pelo cinema japonês, e fez de Porto Alegre a cidade onde os filmes nipônicos fizeram maior sucesso no Brasil, chegando a rivalizar com São Paulo.

Participou do grupo que apoiou a criação da Feira do Livro (da qual, nos anos 80, foi patrono), protestou contra a derrubada no antigo (e belo) auditório Araújo Vianna, situado na Praça da Matriz, onde hoje se ergue a Assembleia Legislativa, mas aceitou administrar o novo auditório, no Parque da Redenção, desde sua inauguração, mantendo atividades permanentes em seu palco e fazendo dele um polo cultural da cidade.

Participou, com Oswaldo Goidanich e João Ribeiro, da criação, organização e promoção dos Festivais de Coros de Porto Alegre, que anualmente, em julho, traziam centenas, às vezes milhares, de cantores até a capital gaúcha.

Foi delegado do Instituto Nacional do Cinema, e depois representante da Embrafilme no Rio Grande do Sul. E, claro, com Horst Wolk, então prefeito de Gramado, criou o Festival do Cinema Brasileiro daquela cidade. Tudo isto sem abandonar a mesa do Correio do Povo, onde editava as páginas de cultura e o suplemento cultural semanal, além de escrever sobre cinema e livros. E de editar a página de cinema da Folha da Tarde, outro jornal da Caldas Júnior. E de produzir um programa diário, “Cinema na Guaíba”, para a emissora de rádio da empresa.

Por sua mesa passavam projetos, textos e ideias de produtores de cultura de todas as idades, alguns conhecidos, outros inéditos. Tratava a todos com a mesma atenção, mas nem sempre com o mesmo humor. Era capaz de ir da extrema cordialidade às raias da grosseria, mas esta nunca durava muito tempo e não deixava de ser compreensível, para quem tinha tantas atividades simultâneas.

Educador e pesquisador engajado

Na Folha da Tarde, na virada dos anos 60 para os 70, criou e manteve a “equipe das terças”. Era uma página semanal aberta para que estudantes universitários publicassem rápidas resenhas críticas dos filmes estreados na semana. Em pleno auge da ditadura, a página, ele e os estudantes não resistiram muito tempo, mas foi uma experiência única no jornalismo brasileiro.

O mesmo espírito liberal, capaz de garantir a todos (na medida do possível para a época) o direito de publicar suas ideias, mesmo aquelas com as quais não concordava, ele manteve no suplemento cultural “Caderno de Sábado”, considerado durante muito tempo, junto com o de “O Estado de São Paulo”, o melhor do país. Aí a independência custou-lhe um pouco mais caro. Um dia, acabaram com o caderno, substituindo-o por uma versão mais “leve”, “descompromissada” e “comercial”.

Pouco depois, a empresa [Caldas Júnior] entrou em crise e começou a atrasar os salários. Os funcionários entraram em greve. Do grupo dos funcionários mais antigos, Gastal e o poeta Mário Quintana foram os únicos a dar apoio ao movimento desde o primeiro momento. Foi demitido.

Não parou quieto. Passou a escrever uma coluna – sobre cinema – no recém criado “Diário do Sul”, que pouco durou, e depois no semanário “RS”, do colega Sérgio Jockymann. E dedicou todo o tempo livre à tentativa de organizar o acervo de livros, revistas, fotografias, recortes e filmes que durante toda a vida colecionara.

Faleceu no dia 12 de fevereiro de 1996. Virou nome de rua na zona sul [Rua Paulo Fontoura Gastal, Belém Novo, Porto Alegre] e de sala de cinema na Usina do Gasômetro. Seu acervo esteve no GBOEX e no SENAC, mas era demais para estas instituições. Hoje, faz parte do acervo Delfos, na PUC de Porto Alegre, onde pode ser visitado por quem ama ou estuda cinema. Contam que às vezes ele ainda pode ser visto andando por lá.

Fonte: DELFOS

A Sala P. F. Gastal fica no 3º andar da Usina do Gasômetro
(foto CEN 2011).
Há mais dados biográficos no artigo de João Aveline "O que a cultura deve a P. F. Gastal" (Macaco preso para interrogatório, 1999, Ed. AGE, p. 77-79) e no artigo de Eduardo de Souza Soares Um Modesto Rabiscador de Notas Cinematográficas: Paulo Fontoura Gastal e a Construção de Espaços Culturais na Década de 1940 em Porto Alegre

Veja históricos e fotos da Sala P. F. Gastal: no sítio da Prefeitura, em nota do blogue Cineclube e na reportagem Quando todos os cinemas eram Paradiso.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A crueza alegórica do cotidiano voraz

Jornalista Carlos Cogoy comenta “Relatos Selvagens”, em artigo que saiu ontem (24-2) no Diário da Manhã impresso. A produção Argentina/Espanha foi nominada para o Oscar 2015 (v. lista de indicados e vencedores) de Melhor Filme Estrangeiro. O filme é considerado uma comédia dramática ou "comédia negra" (v. Wikipedia em espanhol)Em Pelotas, ainda pode ser visto no Cineflix: até quarta em duas sessões (17h e 21:50) e a partir da quinta em uma só (16:40). 



Após jejum de filmes razoáveis, uma bela obra em exibição no Shopping Pelotas. Em duas horas, seis relatos que espiam o abismo. Cada episódio uma sentença. Reunidos, chegaram com fôlego à indicação para o Oscar de filme estrangeiro.

“Relatos selvagens” não levou a estatueta. O que pouco importa, considerando-se que “Selma” – aborda a questão negra nos EUA – também não venceu como melhor filme. Enquanto o Oscar prossegue “selvagem”, contundentes e lúcidos relatos aguçam a sensibilidade e a inteligência.

Cartaz holandês de "Relatos Salvajes",
retrato animado do nosso lado psicótico.
No filme argentino, surpresas perante tramas inusitadas, apreensão com desfechos imprevistos, riso diante da ficção que espelha o cotidiano. Em cada história, atores transitam sobre o abismo que separa razão e loucura.

Com direção do talentoso Damián Szifrón, “Relatos selvagens” também remete à inescapável comparação com a produção cinematográfica no País que “Lava a Jato”. Nem tudo é ruim, mas têm sido frequentes as idiotices cujos elencos, para atrair bilheteria, escalam celebridades das novelas de tevê.

Pasternak 
Na abertura, voo emblemático. No avião, poucos minutos são suficientes para inquietar. E a “turbulência” é tão intensa que sacode, além dos passageiros, também os espectadores na sala de cinema. Afinal, o que se insinua como o trivial início de viagem corriqueira, gradativamente vai se desdobrando num percurso rumo a destino tragicômico. Na bagagem, a bomba não é artefato explosivo, mas também possui elevada capacidade de destruição. Trata-se de viagem aos traumas do passado. E alegoricamente um psiquiatra está na aeronave. O pouso não será acidental.

Las ratas 
O colesterol das batatas fritas é a causa para a morte de mafioso. Num café à beira de rodovia, o cliente é atendido por garçonete. Ela o identifica e recorda momento doloroso. A cozinheira do lugar ouve o desabafo da colega. Num dos momentos mais hilariantes, surge a dúvida se o “veneno para rato”, com validade vencida, torna-se mais eficaz ou menos nocivo. Ex-presidiária, a cozinheira afirma que “na prisão era mais livre do que essa m... toda”. Com a chegada de adolescente, filho do cliente, Fanta sobre a mesa.

Banalidade no trânsito pode causar brutalidade.
El más fuerte
Pneu furado pode ser fatal. Numa rodovia, Audi tripulado por “bon vivant”. À frente, arrastando-se sobrecarregado, carro popular bem rodado. A estrada é o abismo entre dois mundos e realidades sociais antagônicas. O episódio é caricatura que transcende o vulgar litígio no trânsito. Trata-se de relato sobre o cotidiano voraz, sem inocência ou ingenuidade, tanto do endinheirado quanto do espoliado. A crueza acelera e o fim da viagem tem conotação que ridiculariza as pretensas diferenças. Todos rodam no mesmo chão.

Bombita
Numa teia burocrática com filas, guichês e funcionários treinados na “lógica binária” – sim e não –, armadilhas estão à espreita. As “minas” explodem no bolso do contribuinte. E podem estar armadas em banalidades como o simples estacionamento do veículo. O meio-fio não estava “marcado”, mas o carro foi guinchado. A vítima é o engenheiro interpretado pelo ator Ricardo Darín. Especialista em explosivos, ele desafia o sistema.

Ciúme desencadeia surpresas na festa de casamento.
La propuesta

No penúltimo episódio, jovem de classe média alta atropela e mata gestante. O que sucede, em interpretações magistrais, é uma ciranda de venalidades, corrupção e propina.

Hasta que la muerte nos separe

Na festa de casamento, relato que encerra a obra, o ciúme gera uma comemoração surrealista. Aos convidados, ódio, rancor, ironia, cobiça, medo e ternura.

Carlos Cogoy
Imagens da web (1, 3) e Film1 (2)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Semana da Mulher 2015

Nota do Espeto, fev.2015
As seguintes são as atividades anunciadas pela Prefeitura Municipal para a Semana da Mulher, organizada em conjunto com o Conselho Municipal de Direitos da Mulher (CMDM).

A Secretaria de Justiça Social (SJSS) denominou "Rede Mulher" ao conjunto de serviços especializados de atendimento à mulher em Pelotas: o Conselho da Mulher (CMDM), o Centro de Atendimento à Mulher (CRAM), Delegacia da Mulher (DEAM) e Patrulha Maria da Penha, da Brigada Militar (veja neste blogue a nota Patrulha Maria da Penha está em Pelotas).

Colunista do Diário Popular anunciou, há uma semana (v. imagem ampliada), a criação do Juizado de Violência Doméstica, com solenidade na quarta 11 de março. O Dia da Mulher atrai manifestações em todo o mundo: esta noite, atriz premiada com Oscar valeu-se da tribuna para pedir direitos iguais para as mulheres americanas (v. Facebook).


8 de março – domingo (Dia Internacional da Mulher)
  • 15 h ― Divulgação das atividades da semana com as instituições envolvidas (CMDM, CRAM-SJSS, DEAM). No Shopping Mar de Dentro, Laranjal.
  • 20h30 ― Concerto especial da OSPA no interior do Estado (v. nota temporada 2015 da OSPA inicia em Pelotas), inaugurando o Biênio de Simões. No Teatro Guarani, Lobo da Costa 849.
9 de março – segunda-feira
  • 9h ― Café da Manhã. Na Câmara de Vereadores, Quinze de Novembro 207.
  • 9h e 14 h ― "Desenvolvendo a autoestima das mulheres do presídio", com a Escola de Cabeleireiros Nair Rosselli / SJSS. No Presídio Regional de Pelotas, Ala Feminina.
  • 10h ― Audiência Pública (Frente Parlamentar dos Homens Contra a Violência à Mulher) sobre Saúde Integral da Mulher e "Violência: Campanha Pelotas sem Medo". Na Câmara de Vereadores, Quinze de Novembro 207.
  • 21h ― Música instrumental com o Trio Camará. No pub Diabluras Gastronômicas, Félix da Cunha 954.
10 de março – terça-feira
  • 18h ― Ciclo de Cinema sobre questões de gênero – Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPel. No Museu do Doce, Praça Coronel Pedro Osório, nº 8.
11 de março – quarta-feira
  • 14h ― Campanha contra o Assédio no Trabalho. Na sede da Embrapa Clima Temperado, Rodovia BR 392, km 78, 9º Distrito - Monte Bonito, 3275 8100.
  • 14h ― Palestra: "Violência Doméstica" / Psicólogo Francisco Vidal (CRAM). No CRAS Fragata / SJSS, Presidente de Morais 174. [atividade adiada para quarta 18-3]
  • 14h ― Palestra “Mulher no Contexto Social” / Psicóloga Myryam Viegas (CRAM). No CRAS Areal / SJSS, Mário Peiruque 1521 - Bairro Bom Jesus.
  • 16h ― Inauguração do novo Juizado Especial de Violência Doméstica e Familiar de Pelotas. No Foro da Comarca de Pelotas, av. Ferreira Viana 1134. [antecipada para terça 10-3, 14h30]
  • 17h30 ― Caminhada no Calçadão: Mulheres pela Paz / Coletivo Giamarê. Concentração no Mercado Central.
  • 19h30 ― Painel "Construindo a paz em casa", com informação à comunidade sobre solução pacífica de conflitos e medidas de prevenção, proteção e punição da Lei Maria da Penha. Na escola Cassiano do Nascimento, av. Dom Joaquim 671.
Fernanda Puccinelli (D) debateu sobre Lei Maria da Penha, em agosto de 2014,
com delegada Lisiane (E) e psicólogos Francisco e Myryam.
12 de março – quinta-feira
  • 9h e 14h ― Palestra sobre Saúde da Mulher, com as equipes da Secretaria da Saúde e SJSS. No Presídio Regional de Pelotas, Ala Feminina.
  • 13h30min ― Programa de rádio do COEP (rede Comunidades, Organizações e Pessoas) entrevista representantes da Rede Mulher Pelotas (CMDM e SJSS). Na Rádio COM, FM 104.5.
  • 14h ― Oficina das Artesãs do Bairro Fragata. No CRAS Fragata / SJSS, Presidente de Morais 174.
  • 19h30min ― Programa Entre Nós, de Fernanda Puccinelli, entrevista representantes da Rede Mulher Pelotas (CMDM e SJSS). Na TV Cidade (canal 20 Viacabo). Ao vivo no sítio virtual e reprises no canal 20 Viacabo (sexta 18h e domingo 11h) e canal 14 NET (sábado 14h).
13 de março – sexta-feira
  • 14h ― Comemoração de Aniversário de 1 ano do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em situação de violência – CRAM / SJSS, Tarde Rosa. No auditório do CREAS, Barão de Itamaracá 690 – Bairro Cruzeiro.
14 de março – sábado
  • 11h ― Oficinas das Artesãs dos CRAS / SJSS. Divulgação dos serviços da Rede Mulher Pelotas (CMDM). No Mercado Central, até 18h.
  • 18h ― Roda de Samba com o Grupo Renascença / SECULT / SDET. No Mercado Central, até 21h.
Inauguração do Centro da Mulher (CRAM), em 13 de março de 2014.
Na mesa, representantes do Executivo, Legislativo, DEAM e CMDM.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Temporada 2015 da OSPA inicia em Pelotas

Pela primeira vez em sua história de 65 anos, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre realiza um concerto de abertura de temporada no interior do Estado. O primeiro concerto da OSPA em 2015 será no Teatro Guarani de Pelotas, domingo 8 de março, às 20h30min, com entrada franca. O público deve antecipar-se a esse horário, pois os assentos serão ocupados por ordem de chegada.

A notícia saiu na imprensa há 10 dias (v. notícia de ZH em 10 de fevereiro) e esta sexta (20-02) no sítio da Fundação OSPA, órgão da Secretaria da Cultura (SEDAC-RS). Conforme divulgado, "a escolha do local do concerto marca a meta da nova gestão da OSPA de ampliar e tornar mais constante a sua presença no interior do Estado – um pedido feito pelo secretário estadual da Cultura" (o músico Victor Hugo Alves da Silva). O maestro Evandro Matté, novo diretor artístico da Orquestra, escolheu Pelotas como a primeira cidade a ser visitada.


O concerto marca também a estreia de Evandro Matté como regente da OSPA (v. currículo), na qual ingressou há 24 anos como trompetista. Ele continuará como maestro da UNISINOS Anchieta e como diretor musical do Festival Internacional SESC de Música. O mesmo programa do dia 8 será apresentado em Porto Alegre na terça 10, com entrada paga (entre R$ 10 e 40), e inclui as seguintes obras.
  • Jean Sibelius (1865-1957): poema sinfônico Finlândia, op. 26 nº 7 (v. gravação de agosto de 2011, com orquestra e coro sinfônico de Helsinque, dirigidos por J.-P. Saraste).
  • Maurice Ravel (1875-1937): Pavana para uma Princesa Defunta, versão orquestral (ouça aqui partitura original para piano tocada pelo compositor em 1922).
  • Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908): Capricho Espanhol, op. 34 (no vídeo acima, interpretação da Sinfônica Nacional Dinamarquesa, dirigida por Rafael Frühbeck de Burgos). 
Nossa maior e mais antiga orquestra nasceu porto-alegrense em 1950 e passou ao Estado em 1965. Já foi dirigida por maestros como Pablo Komlós e Isaac Karabtchevsky. Hoje sem um teatro próprio, a OSPA é uma fundação que conta com uma orquestra sinfônica, um coro sinfônico, uma escola de música e uma orquestra jovem. A agenda anual da OSPA inclui entre 50 e 60 atuações, agrupadas em séries: os concertos oficiais no Teatro São Pedro, os ciclos "OSPA pelos caminhos do Rio Grande", a Série Igrejas, e diversas outras programações (confira agenda atual da OSPA).

No vídeo abaixo, Yang Liu convida o público colombiano a presenciar um concerto realizado em 2014, há exatamente um ano, na Universidade Nacional de Bogotá. Conforme mencionado aqui no blogue (v. postagem), o destacado violinista chinês esteve em Pelotas em janeiro de 2012, no Festival SESC. Veja-o tocando o 1º movimento do Concerto para Violino de Mendelssohn, em concerto realizado em Beijing em 2009.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

7ª campanha "Reciclando Materiais"

A campanha Reciclando Materiais busca reaproveitar os materiais escolares que, mesmo em condições de uso, eram jogados no lixo por quem desejava ter um material totalmente novo. A iniciativa foi criada em 2009 pelas irmãs Daniela Meine (diretora do Ágape, Espaço de Arte) e Denise Viana, que começaram arrecadando cadernos e lápis usados entre seus amigos e vizinhos. Em anos passados, o blogue informou sobre esta ideia pelotense que deu certo, nas postagens Reciclando material escolar (2012) e Reciclando materiais para estudar (2013).

O simples gesto de doar uma caneta ou uma borracha usada simboliza uma atitude de solidariedade, que se faz necessária em nossa convivência social.  A campanha quer chamar a atenção para o fato de que algo a ser desprezado por uma pessoa com posses é de muita utilidade para quem nada tem.

Com o lema "O que é lixo para uns é luxo para outros", a campanha a cada ano vem ganhando mais doadores e voluntários. Hoje, a divulgação ultrapassou os conhecidos e é feita pela mídia local, que passou a ser de fundamental importância para o crescimento das doações. As principais fontes são as famílias e escolas mais ricas, onde sempre sobra algum material ainda em condições de uso.

Aceitam-se materiais aproveitáveis, como cadernos com folhas em branco, canetas com carga pela metade, lápis sem ponta, folhas soltas, um jogo de canetinhas incompleto, e todo material que possa ser usado na sala de aula. A campanha somente não aceita livros didáticos, pois são determinados pelas escolas e seu uso é grupal.

O material recolhido é recuperado e limpo, cadernos são encapados, lápis são apontados, e tudo é reunido em conjuntos que serão doados a quem necessita estudar e não tem os recursos para comprar material novo.

O trabalho de recuperação e reciclagem é voluntário. As organizadoras convidam adultos e crianças que queiram colaborar com este serviço generoso e prazeroso.

Nestes últimos anos, a soma de muitos gestos tem ajudado bastante a muita gente disposta a aprender e estudar. Em 2012, as organizadoras da 4ª edição da Campanha confeccionaram mais de 400 kits, que foram distribuídos para entidades como a Casa da Prece, a Escola Ferreira Viana e o serviço de pediatria da Faculdade de Medicina da UFPel.

Em 2014, os beneficiados foram o Núcleo Rotary Vila Castilhos, a comunidade da Igreja do Porto e a Escola da Colônia Z3. Também foi entregue material reciclado para a assistente social Daniela Fossati, que trabalha diretamente com a população carente no CRAS Areal.

Em 2015 a campanha ganhou novos parceiros, que funcionam como pontos de arrecadação: a Farmácia Uso Indicado (Voluntários 1050) e a Doceria Márcia Aquino (Av. Bento Gonçalves 3295).

Faça uma vistoria em seus materiais e presenteie aquilo que não for usar mais. Pense que suas coisas não usadas não são lixo, e serão úteis para alguém. O centro das doações é a casa do Ágape (Anchieta 4480). A segunda-feira 2 de março é a data limite para entrega. Quem não puder entregar pessoalmente, ligue para 3028 4480, 8416 6762 ou 8464 5231.

Fotos: D. Meine

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Chover no molhado, chover no inundado

Fernando Osório e Guilherme Wetzel formam um amplo espaço, que raramente inunda.
Hoje a esquina do shopping Zona Norte ficou intransitável por um par de horas (fotos de S. Machado).
Como acontece com frequência na região de Pelotas, baixa e úmida, uma forte chuva de poucos minutos alagou ruas e calçadas. A expressão "chover no molhado" é verificada com frequência, inverno e verão. O diferente foi que, desta vez, mais casas se viram afetadas e os carros estacionados ficaram tapados até acima das rodas em áreas que raramente inundam. Não houve feridos nem desabrigados.

O Facebook foi fonte de muitas imagens e algumas gozações com o governo municipal (v. Diário Popular). Cidadãos de caiaque faziam um protesto mudo e risível (jornal registrou um deles); veja foto de um navegante não virtual no MetSul. No meio da tarde, num sobrado da Voluntários, foi o andar de cima que inundou primeiro, com a água vazando para o térreo (vídeo aqui).

Canalete da Argolo foi inundado pela rua (fotos F.Añaña).
As primeiras gotas caíram às 14h30 e o toró somente aliviou às 17h, com reinício após as 19h. A imensa nuvem negra que chegava pelo sul indicava que a quantidade de "recurso hídrico" seria abundante.

Um ponto que é raro ver-se inundado é o da chamada "curva da morte", ante o centro comercial Zona Norte (foto acima). Ali, o estacionamento da Guilherme Wetzel ficou um lago, evitado por carros e ônibus.

A ampla área da Marcílio Dias com Sete de Setembro era outro lago; mas o estacionamento nessa esquina era elevado e não molhou o interior dos carros (vídeo de Thiciane Gomes). Cenas semelhantes foram vistas em vários pontos, com pessoas ilhadas, precisando de barcos.

Pelo canalete da Argolo, a vizinha tentava atravessar a rua sem ver o chão (foto à direita), e quase sem ver o canalete, que, desta vez, estava sendo tragado pela rua, o canal maior. Leitores do jornal Tradição enviaram fotos dessa área, que inunda com qualquer chuva. Na Anchieta com Major Cícero, onde jamais alaga, a água começou a entrar na loja da esquina (ver mais).

Na esquina dos generais (Osório com Argolo), onde não há o canalete aberto, a água entrava pelas casas. Numa delas, com vedação da porta transparente, podia-se ver, desde dentro, que a altura do pequeno mar ia acima dos joelhos. Confira abaixo a impressionante e inédita imagem. Como desgraça pouca é bobagem, aqui não se chove mais no molhado, somente no inundado.

A porta transparente vedada permitia ver o nível das águas lá fora (foto J. Machado).
Fotos: Facebook

POST DATA
20-02-15
Veja mais 19 fotos do aguaceiro de ontem nas ruas do Rincão das Pelotas.
21-02-15
A informação (v. notícia) é que caíram 156 mm em sete horas da quinta-feira, mais que o normal para fevereiro (147mm). O momento mais forte da chuva teve 86mm em 45 minutos.
22-02-15
Vídeo de Débora Ramos no Facebook.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Raízes uruguaias em Pelotas

No vídeo abaixo, da agência Maria Bonita Comunicação, Eduardo María Pereira Gozalbo apresenta o Setor de Literatura Uruguaia, criado em 2014 na Biblioteca Pública Pelotense (v. postagem neste blogue). Pereira coordena o projeto América & Pampa — também ligado à Biblioteca e fundado em 2003 — e preside o conselho da AURPAGRA em Pelotas, órgão ligado ao Ministério do Exterior uruguaio. Falando em espanhol, ele se refere à cidade de Pelotas, onde ele é parte da assim chamada colônia uruguaia, estimada hoje em 2500 pessoas. Há dez anos, a estimativa era de 1500 uruguaios em Pelotas, incluindo os não legalizados.

Em 2007, o cônsul Paulo Scheiner propôs oficialmente, ao prefeito Fetter Jr., a fundação de uma Casa de Cultura Uruguaio-Pelotense (v. notícia). O projeto era de uma equipe do curso de Letras da UFPel e deu origem ao blogue Casa de Cultura Uruguaya.


As ligações entre o Uruguai e Pelotas existem desde 1777, pelo menos, quando muitos portugueses vieram desde Colônia do Sacramento (hoje cidade uruguaia) à região que hoje é Pelotas. Naquele ano, o Tratado de Santo Ildefonso (v. Wikipédia) determinou a saída de todos os portugueses da Colônia. A vila nasceu em 1680 como um forte português e foi bombardeada pelos espanhóis durante quase um século, mas sempre resistiu (v. história de Colônia). A fronteira entre as possessões de além-mar não estava claramente definida e os portugueses a levaram ao ponto mais próximo de Buenos Aires, a margem oposta do Rio da Prata.

Com o tratado que os obrigava a sair do território espanhol (incluindo o lado oriental da Colônia e o lado ocidental de Buenos Aires), a maioria dos portugueses preferiu radicar-se em região próxima e pacífica, não afeta a ataques (em 1776, a Vila do Rio Grande havia sido reconquistada, após ocupação espanhola de uma década). No chamado Rincão das Pelotas já existiam famílias que se haviam refugiado nas proximidades de Rio Grande, aproximadamente desde 1766.

Fazendas e charqueadas no Rincão das Pelotas determinaram, desde o ano do tratado, a existência de habitantes "pelotenses" antes da criação da zona urbana . Assim, os primeiros colonizadores do Uruguai foram portugueses, e os primeiros colonizadores de Pelotas vieram da região uruguaia (quase todos, portugueses nascidos em território espanhol).

O plano de urbanização da futura cidade foi autorizado 35 anos depois, com a fundação da Freguesia de São Francisco de Paula por parte do rei português, então residente no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 1812 (v. história de Pelotas).
Vídeo: Maria Bonita Comunicação

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Blues continua em casa maior


O pub e petisqueria Diabluras Gastronômicas está em casa nova e bem maior, na Félix da Cunha 954 (ao lado da Fábrica Cultural), de segunda a sábado, com programas musicais diversos. Até 2014 e por poucos anos, o barzinho esteve num pequeno espaço que antes acolhera uma sorveteria, na Três de Maio com Alberto Rosa.

Lascano + Peixoto, hoje (3-2)
no 15º Toca um Blues Aí
Nas quintas o Diabluras tem jazz, nas sextas tem música brasileira (choro, samba e bossa nova), aos sábados a Diávolos Band. Os nomes são meio endiabrados (em espanhol, diabluras significa "diabices", no sentido de "travessuras"). No final desta nota há uma explicação possível para esta relação entre música e sentimento.

Mas o projeto preferido da turma under anglofônica é nas terças-feiras: o Toca um blues aí, que veio como continuação do "Terça Diablues", desde março de 2014. Em maio, mencionamos aqui no blogue esta iniciativa, quando ainda soava no bairro do Porto (v. postagem Blues no Diabluras não para).

Segundo César Lascano, produtor do "Toca um blues aí", o objetivo é difundir este gênero musical, além de contribuir a valorizar e potencializar a cena musical de Pelotas (Diário da Manhã impresso, 27-1-2015, p. 15, nota de Marcelo Nascente "Yes, we got the blues").

Cada semana são convidados músicos da cidade e da região, o que faz que eles se reconheçam, improvisem e se entusiasmem com novas oportunidades. O projeto também permite que outros músicos presentes subam ao palco, mesmo não estando formalmente anunciados.

Théo Gomes criou o logo do "Toca um blues aí".
No vídeo acima, trecho da terça 15 de abril de 2014 (3ª noite do "Blues aí"), com César Lascano (gaita e vocais), Dione Martins (guitarra), Marcelo Valente (bateria) e Wallace Moraes (baixo). Precisamente hoje, volta Lascano (v. figura acima).

O blues nasceu na cultura afro-norte-americana, derivada dos negro spirituals, e originou outros gêneros como o jazz, o country, o soul e o rock and roll. A expressão "the blues" se refere aos diabos azuis (blue devils), que simbolizam a tristeza vivida pelos negros americanos (v. Wikipedia em espanhol).

Casualidade ou não, a expressão híbrida "diablues", criada em Pelotas, onde também houve muitos escravos, representa o mesmo sentido norte-americano do século XVIII. Onde houve sofrimento profundo, surgirá o blues negro ou similar.

O Diabluras teve interessantes apresentações em janeiro: na quinta 29 houve o reencontro histórico do Grupo Casagrande (jazz), e terça 27 foi o 14º show da série do blues, com Matheus Torres e Alinson Alaniz. A reativação do projeto musical foi reporteada pelo Diário Popular, esta semana. E não se pode esquecer que a gastronomia é o segundo ponto forte da casa, assinado pelo chef Márcio Peixoto (veja aqui outras delícias).

O saudável steak de linguado é criação de Márcio Peixoto, chef do Diabluras.
Imagens: Facebook

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Festival SESC: o lado dos músicos



Desde 2011, o Festival Internacional SESC de Música apresenta ao público em média 4 recitais por dia, e é por essa grande produção artística que ele se chama festival. Não há concursos nem prêmios mas a estrutura do evento é a de um grande encontro festivo, envolvendo centenas de artistas e milhares de espectadores.

A comunidade pelotense presencia diversas formações musicais (solos, quartetos, orquestras) da manhã à noite, no teatro ou na rua, em ensaios ou nos espetáculos. Na primeira semana, o público presencia concertos de grupos convidados (v. reportagem do Diário Popular com o Cuarteto 4Mil); na segunda semana, os estudantes apresentam os resultados dos primeiros dias de estudo. Desse lado espetacular é que provém o nome "festival" (v. definição na Wikipédia).

Jornal porto-alegrense destacou o evento na capa, domingo 18 de janeiro.
Na foto, Evandro Matté rege a orquestra do Festival em 2014.
Ao mesmo tempo, esta quinzena de shows foi concebida como uma escola de verão para estudantes e profissionais se aperfeiçoarem. Algumas desse tipo já existiam no Brasil desde a década de 1950.

Se o Festival SESC não tivesse esta face de trabalho e estudo, que atrai músicos nacionais e estrangeiros, talvez não existisse ou não tivesse a mesma dimensão. Alunos e professores e vêm de muito longe para um encontro humano cheio de aprendizagens técnicas, num verdadeiro congresso internacional, o que repercute numa produção musical mais intensa, mais viva e mais solidária. Por exemplo, o músico e artista plástico Roberto Bonini emprestou o seu piano e fez público vídeo no Facebook (2 min) mostrando parte do ensaio de um estudante. Outras consequências do evento é que a cidade movimenta sua economia com os turistas que vêm ouvir a música de boa qualidade, também motivo de qualificação de suas férias de verão.

No vídeo acima, tomado do Diário Popular, aprecia-se o entusiasmo e o carisma do Núcleo de Metais mostrando sua música sob tempo chuvoso. Abaixo, o lado humano de jovens brasileiros e estrangeiros que, sem saber português, vêm a Pelotas por primeira vez para este evento de criatividade e unificação. Veja reportagem do programa Estação Cultura, da TVE gaúcha (4 min), que mostra o lado do público, que vem para apreciar, e a opinião dos músicos, que buscam o "festival" para aprender em sua profissão. 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Ateliê Giane Casaretto no Corredor (post 1700)


O Ateliê Giane Casaretto retorna ao Corredor Arte em 2015, inaugurando a exposição nº 290, a primeira do ano. Doze alunas apresentam 20 obras, sendo 11 quadros com a temática "cores/flores" e 9 abstratos, nos quais se incluem duas vertentes de trabalho exploradas em 2014 no Ateliê: estudos de Kandinsky e estudos de Paul Klee.

Na imagem acima, o estudo abstrato realizado por Telma Delgado sobre o artista russo Wassily Kandinsky (1866-1944), com um jogo de manchas coloridas e linhas em preto sugerindo formas geométricas. A tela foi feita em acrílica, no tamanho de 60 x 80 cm. Sem copiar o mestre, a estudante conseguiu aquele estranho contraste de emoções intensas convivendo com esboços de racionalismo, na eterna luta humana entre paixão e razão.

O Corredor Arte busca humanizar o ambiente de saúde,
para que a dor seja superada e faça sentido no tratamento.
Além de Telma, as participantes nesta mostra são: Heloisa Motta, Fernanda Tröger, Maria Helena Braga, Mara Coutinho, Vera Holthausen, Fátima Ferreira, Edy Bezerra, Rosamélia Ruivo, Luciana Gastaud, Greice Brod e Clarice Silva.

O Ateliê Giane Casaretto funciona em Pelotas como escola de desenho e galeria de arte. A artista que o dirige já fez exposições individuais e de produções das alunas no Corredor Arte, além das que organiza anualmente na sede do Ateliê.

Esta exposição permanece quatro semanas, de 8 de janeiro a 3 de fevereiro. A visitação ao Corredor pode ser feita todos os dias, das 7h às 22h, no Hospital Escola da UFPel (Professor Araújo, 538).
Imagens: F. A. Vidal

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A solidão: dois olhares

Solidão.

O vazio existencial aprisionando-nos.

Podemos senti-la quando estamos a sós ou acompanhados.

O vácuo, porém, agiganta-se quando estamos realmente sozinhos, certos de que cair no abismo é inevitável.

Há quem diga que a solidão prefere olhar para dentro, distraindo-se com os escombros internos.

E o que deixa o solitário ainda mais triste é a certeza de que se perdeu no caminho, seja ele qual for, e que mergulhará definitivamente no buraco frio que abriu ao longo da existência.

Solidão.
Manoel S. Magalhães
Cultive Ler, 19-11-14


O artista plástico tem o poder mágico da imagem. Sem palavras, desperta emoções.

O escritor tem o poder mágico da palavra. Interrompe uma tragédia inevitável e a elabora.

Fotos: M. Soares

Festival na Comunidade

O 5º Festival SESC de Música (v. programação 2015) leva à comunidade pelotense pocket shows (breves momentos musicais), com o objetivo de desenvolver e valorizar o ser humano onde ele vive, como é de costume neste projeto de ensino e divulgação da música culta.

Gahuer Carrasco, Sônia Cava, Renan Leme e Adão Santos apresentaram música no centro da cidade.
19 janeiro, segunda-feira
11h Café Aquários: Tons Latinos, com Gahuer Carrasco e grupo (v. fotos da ASCOM e reportagem RBS)

21 janeiro, quarta-feira
11h Abrigo Institucional Pensão Assistida e Casa do Idoso (público interno): Quinteto de Sopros (v. fotos).
14:30 CRAS Navegantes.

22 janeiro, quinta-feira
11h Expresso Embaixador (público interno): Quarteto de Saxofones.
17:30 Paróquia Amor Divino (Colônia Santo Antônio): Eufônios.
18h: Shopping Pelotas: Quinteto Porto Alegre.

23 janeiro, sexta-feira
11h Serviço de Convivência Pestano (Rua 15, nº 45): Quinteto de Madeiras.
14:30 Asilo de Mendigos de Pelotas (público interno): Grupo de Violões.

24 janeiro, sábado
11h Mercado Central: Grupo de Metais.

26 janeiro, segunda-feira
11h Serviço de Convivência Vila Castilhos (Dr. Amarante 1155): Quarteto de Cordas.
14h Hospital Espírita de Pelotas (público interno): Quinteto de Madeiras.

27 janeiro, terça-feira
11h Paróquia Nossa Senhora da Luz: Quarteto de Saxofones.
17:30 Café Aquários: Grupo de Metais.

28 janeiro, quarta-feira
11h Abrigo Institucional Meninos 2 (público interno): Quinteto Porto Alegre.
14h Paróquia Sant’Ana (Colônia Maciel).

29 janeiro, quinta-feira
11h Serviço de Convivência Dunas (Ulisses Guimarães 2067): Quinteto Porto Alegre.

Idosos e doentes atendidos pela rede municipal de abrigos
escutaram por primeira vez música tocada ao vivo (v. notícia)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Fãs de fusca


A estudante de Nutrição Tamires Von Pfeil, de 20 anos, tem um gosto especial por coisas antigas e uma paixão por fusquinhas, tomada do seu pai. Ela economizou dinheiro para comprar seu primeiro carro, que obviamente seria um fusca, até achar o de sua preferência, um modelo amarelo 1300L, ano 1977. O pai de Tamires apoiou o namoro surpreendendo a filha com a compra.

A paixão de Tamires ganhou a capa;
o vídeo foi preferido dos internautas.
O Diário Popular reporteou o caso em 2014 (leia a matéria) a propósito do Dia Nacional do Fusca, 20 de janeiro. Nessa data, o queridinho de Tamires ainda ganhou de presente uma reforma na lataria. Circulando pela Andrade Neves, desde o Parque Antônio Zattera em direção ao calçadão, a entrevistada declarou seu amor eterno aos fusquinhas. Ela participa no "Love Machine Fusca Club" (v. blogue do grupo criado em 2012 e página no Facebook).

A reportagem de Camila Faraco, com imagens de Carlos Queiroz, saiu na edição impressa de 30-1-14 e no sítio virtual. A matéria ganhou chamada na capa daquela quinta-feira (dir.), com a foto de Tamires e o fusca amarelo. Entre os cerca de 240 vídeos produzidos pelo Diário Popular na web em 2014, este foi o 6º mais visitado, com 4840 acessos até 31 de dezembro passado.

O Código de Trânsito considera "infração média" o uso de calçados que afetem o uso seguro e firme dos pedais, como os de salto alto ou de sola muito lisa. Chinelos, tamancos e qualquer calçado solto são expressamente proibidos pela lei (v. nota do DETRAN-MT). Dirigir descalço não é proibido, mas também não é o ideal; no entanto, os especialistas consideram mais seguro que usar um chinelo solto. Já que a reportagem passou por alto este detalhe, é de se esperar que, naquele dia, Tamires dirigisse descalça e usasse os chinelos para caminhar.

Veja abaixo a reportagem audiovisual (com a música de 1939 "In the mood", de Glenn Miller, ouça o som original) e, a seguir, mais informações sobre o velho modelo Sedan da Volkswagen, fabricado desde o final da década de 1930 para ser um "carro do povo", e hoje conhecido como o carro mais popular do Brasil.


O Dia Nacional do Fusca em 2014 foi destacado pelo Jornal do Carro do Estadão. A comemoração teve início em 20 de janeiro de 1989, por iniciativa da Volkswagen do Brasil. Veja o porquê da data no portal da Maxicar.

O especialista Alexander Gromow explica que o nome Fusca, usado somente no Brasil, nasceu da pronúncia alemã da palavra Volkswagen (fôlks-váguen) e de sua abreviatura "VW" (fau-vê). A fábrica começou com um único modelo, o Sedan, que ficou conhecido pelo nome da marca: no Brasil, sintetizado para "folks" e simplificado na fala popular para "fulque" (no Paraná), "fuca" (RS) ou "fusca" (SP). Ao redor do mundo, o carrinho ganhou apelidos pela forma arredondada: tartaruga, bolha, besouro, baratinha, escaravelho, joaninha, sapo, corcunda (informações tomadas da Wikipédia).

Sobre o Fusca e sua volta às fábricas, no Governo Itamar, o paulista Gromow foi entrevistado no Jô Onze e Meia, do SBT, em 1 de março de 1993. Acompanhe abaixo o vídeo da entrevista (desde o minuto 6:35), um dos registros mais antigos do programa do Jô, que hoje é um dos mais longevos da TV brasileira (12 anos no SBT + 15 anos na TV Globo).


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Schlee fala sobre o mundo imaginado em sua obra

Na sétima entrevista da série Obra Completa, realizada com escritores gaúchos pela RBS, Schlee falou sobre sua carreira literária de três décadas. Acompanhe a matéria de Carlos André Moreira, publicada em 26 de outubro de 2013 (v. matéria completa na RBS).

Sobre "O Dia em que o Papa Foi a Melo", v. resenha de Iuri Müller no Sul21 e o artigo da Wikipedia em espanhol El baño del papa, que menciona o conto de Schlee como influência do filme — influência não assumida nem pelos cineastas nem pelo escritor.


Meus personagens são os rejeitados da sorte

ZH — Seus dois primeiros livros parecem comungar de um propósito: mostrar a fronteira como uma região de identidade única no tempo, no caso de "Contos de Sempre", e no espaço, em "Uma Terra Só". Foi um projeto consciente?

Schlee — Eu não gosto de dizer que eu tenha um projeto literário, que tenha pretendido exatamente: “vou fazer assim”. Não consigo entender nenhum colega meu, nenhum autor que tenha um projeto literário, não creio nessa definição. Comigo, o que aconteceu foi que eu tinha esses dois livros de contos que haviam vencido concursos, e os dividi no primeiro livro, mas tinha o impacto do tempo decorrido, e eu os inverti no volume, a seção que eu denominei "Contos de Ontem" eram os mais recentes, e os "Contos de Hoje" eram os mais antigos. Essa era uma perspectiva estritamente temporal. Já no livro seguinte, "Uma Terra Só", eu tinha pretensão de fazer o leitor atentar para um mundo que não é o verdadeiro, e sim o meu mundo imaginado, meu mundo literário, que eu pretendi conquistar e acabei por ele conquistado, porque não tenho condições de sair dele.

O escritor como leitor e espectador da vida

ZH — O senhor lida com o lado B da mitologia da formação do território. Em "Contos de Futebol", olha para o lado B de uma mitologia contemporânea, a do futebol. Foi um passo consciente?

Schlee — Não, eu queria apenas escrever um livro de futebol. A explicação está em um conto chamado Encanto de Futebol, cujo título diz tudo. Esse “encanto de futebol” contaminou uma série de coisas relacionadas à minha vida, o encanto com o futebol uruguaio em particular. Por isso esse livro saiu como Cuentos de Fútbol primeiro no Uruguai. É um livro uruguaio, ainda que não tanto como o "Limites do Impossível" e principalmente "O Dia em que o Papa Foi a Melo".

ZH — Em "Contos de Verdades", o senhor escreve “causos”, mas os chama de “verdades”, mesmo sendo histórias que se apresentam como verdadeiras, mas podem não ser.

Schlee — Eu não havia pensado nisso, mas é assim mesmo. Eu estou falando de “verdades” nesse livro mais ou menos do mesmo jeito que se desenvolvem os “causos”, as “fofocas”, para usar uma expressão mais vulgar, e que dão origem à construção de uma verdade que não é necessariamente verdadeira.

ZH — Nos seus dois primeiros livros, os personagens usam uma mistura de espanhol e português, como na fronteira. A partir de "Linha Divisória", não apenas o personagem, mas o próprio narrador deixa um idioma contaminar o outro. Por quê?

Schlee — Eu aprendi que é possível o narrador assumir a maneira de ser do personagem, deixando de narrar à sua própria maneira. Então, no momento em que estou fazendo uma narrativa referente a um personagem, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. Porque há uma dificuldade muito grande para qualquer autor que, como eu, trabalha com personagens rústicos, geralmente pobres, sem educação formal, como são os párias. Os meus personagens são os rejeitados da sorte. Essas pessoas não têm a minha formação, mas têm seu próprio modo de pensar. E quando tento reproduzir o pensamento deles, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. É uma coisa que eu vejo que enriqueceu muito a literatura do Simões Lopes Neto, por exemplo.

O Uruguai e o papa
ZH — É estranho o senhor falar na ausência de um “projeto”, já que os seus livros caracterizam-se por uma unidade temática ("O Dia em que o Papa Foi a Melo", "Contos de Futebol").

João Paulo II, o papa mais viajante,
esteve no Uruguai em 1988.
Schlee — São livros em que trabalho em cima de uma tese. Há um determinado momento nesse meu mundo literário em que descubro alguma coisa para desenvolver em forma de tese, para demonstrar ao leitor minha visão de mundo. Nesse aspecto, há um certo conteúdo pedagógico. É uma pretensão grande, mas eu vejo assim. Então, quando eu parto para um livro como "O Dia em que o Papa Foi a Melo", estou perplexo diante dessa visita do papa, sendo o Uruguai um país laico declaradamente. Não só porque está expresso na Constituição, mas porque o Uruguai é laico de fato, e em 1904 já não havia mais crucifixos em repartições públicas, uma discussão que fomos ter agora aqui no Brasil. Sabendo que nesse país laico, na sua zona mais pobre, paupérrima, o papa iria fazer uma visita, fiquei atônito. Então resolvi não ir a Melo no dia 8 de maio de 1988, o dia em que ele foi. Mas fui na semana seguinte. E consegui entrevistas e toda uma documentação para escrever um livro de contos.

ZH — O conto que abre o livro enfoca um padre em crise de fé que decide não ver o papa. É a representação desse confronto que o deixou perplexo entre a figura do papa e a laicidade do Uruguai?

Schlee — Exatamente. Esse padre, que, de certa maneira, sou eu, vai negar tudo, mesmo com todo seu conhecimento do cerimonial religioso. Ele não nega apenas a questão da visita do papa, o que é elementar, superficial. Ele contesta tudo, e isso está representado em pequenos detalhes de sua indumentária, da desolação do espaço onde ele vai se meter, uma paisagem à qual o papa não iria. Tudo isso está pesando em um conjunto do qual tentei fazer a receita desse conto, que é, de fato, uma história chave do livro. Depois tem algumas coisas no livro, como a negação do milagre, da possibilidade de um milagre... Eu não escrevi na ordem em que pus, fui alinhavando até chegar ao "Conto do Turco Jaber", que é um conto louco, que denuncia, entre outras coisas, essa questão da gauchidade. Porque nós temos uma dificuldade muito grande de sermos sul-rio-grandenses. O gentílico é dominado pela palavra “gaúcho”, que se tornou sinônimo. A distância é tão grande entre o gentílico e o significado maior da palavra “gaúcho” que escandaliza.

O Uruguai e o político
ZH — E o que o leva a "Don Frutos", um romance de 600 páginas?

José Fructuoso Rivera (1784-1854),
o 1º presidente uruguaio, esteve em Jaguarão.
Schlee — Eu não tinha alternativa. Estava atulhado de informação e comprometido com a necessidade de abordar o fato de que Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, esteve em Jaguarão, minha terra... Um sujeito desses passando pela minha cidade não pode me escapar. Então eu tive que me atirar em cima dessa história, com a ajuda de um pesquisador chamado Amílcar Brum, que se deu ao trabalho de ir a Montevidéu para desencavar tanto material que eu poderia ter escrito três livros, separando por temas. Por exemplo, coisas que não aparecem muito no livro, como a intervenção brasileira, uruguaia e argentina no Paraguai, que não está lá porque o Rivera morreu antes. Mas eu tinha o tema do Rivera em Jaguarão e por ali fiquei.

ZH — "Don Frutos" é singular por ser a única história em que o senhor enfoca uma figura de poder. O fato de Rivera estar doente quando chega a Jaguarão foi o que o tornou “humano” para ser abarcado pela sua ficção?

Schlee — Exato. No primeiro capítulo do "Don Frutos", a decadência física dele é notória, com o homem se mijando, dependendo da mulher e de um outro cara para ajudar a se movimentar, sem ter mais nada. E adiante no romance, a morte do Rivera pode ser lida de várias maneiras, até mesmo por quem domina a grande literatura uruguaia moderna, ao saber que aquele militar, que era o secretário particular do Rivera, Onetti, era de fato parente do Juan Carlos Onetti. Há um falso diálogo final, no qual Rivera se refere a seu ajudante Capitão Onetti, que é feito com uma colagem de textos do Onetti escritor.

ZH — Havia, então, uma dificuldade em lidar com a biografia de um símbolo político, dificuldade expressa na estrutura do livro?

Schlee — Tem outras coisas, como por exemplo a vinculação com os índios, ou o fato de ele os ter traído ou não, aquela famosa matança dos charruas. Eu estava sempre no fio da faca. O que eu tenho de documentação real do Rivera, conseguida pelo Amílcar Brum: são papéis do governo, da Assembleia Constituinte, da Câmara, do Senado, das igrejas. Agora, biografias do Rivera, eu tive que repassar todas as que havia disponíveis. Para as escritas pelos blancos, o Rivera era um bandido, ladrão, safado. Para os colorados, era um herói nacional, fundador do país. Eu tive que ficar em cima disso, e em nenhum momento pretendi que o leitor acreditasse que ele era bom ou mau. Eu queria, como fiz em toda minha ficção, fugir do maniqueísmo.

O Uruguai e o ídolo
ZH — Em "Os Limites do Impossível" o senhor mescla conto e novela numa trama única, tecida das histórias das mulheres que orbitaram o pai de Carlos Gardel. Como chegou a essa história?

Schlee — Essa história eu resolvi escrever no momento em que tive certeza de que era preciso denunciar as arbitrariedades do então presumido pai de Carlos Gardel a partir de tudo o que ele fez na política do Uruguai, mas particularmente em relação ao nascimento desse filho, fruto de estupro e incesto. Então achei que a narração não deveria se referir diretamente a ele, mas às mulheres que tiveram a ver, direta ou indiretamente, com o nascimento de Carlos Gardel.

ZH — "O Dia em que o Papa foi a Melo" e "Os Limites do Impossível" anteciparam respectivamente: "O Banheiro do Papa", longa ficcional de Cesar Charlone, e o documentário "El Padre de Gardel". Em ambos os casos não houve menção a seu tratamento anterior do tema.

Produção franco-uruguaio-brasileira de 2007.
O livro de Schlee é de 1991.
Schlee — O que eu fiquei estranhando é o quanto sou desconhecido. "O Banheiro do Papa" tem uma história que poderia ser inspirada no Conto V de "O Dia em que o Papa Foi a Melo", também chamado de "Melo Era uma Festa", com todas aquelas decepções dos personagens... O clima é o mesmo, os acontecimentos correspondem, os caras que fizeram o filme tiveram o mesmo sentimento que eu tive de identificação com aquelas pobres pessoas que gastaram os últimos centavos que tinham, mataram um leitãozinho de estimação, roubaram uma capivara para poder oferecer comida aos brasileiros, porque ia ter 40 mil brasileiros lá. Eram pessoas não à procura de um milagre, mas buscando criá-lo, e foram frustradas. O papa passou, virou lixo tudo aquilo. O filme mostra uma ideia que está lá no meu conto, a de alguém que pensa em fazer uma latrina. Mas o protagonista não está no conto, a guria que queria ser radioatriz não está no conto, e aqueles personagens me emocionaram às lágrimas. Não tenho do que reclamar, fico feliz que tenham feito um filme tão bom.

Esse documentário do Gardel eu não vi. Os fatos, os acontecimentos históricos que sustentam a minha ficção no caso dos Contos Gardelianos, são comprovados e são os mesmos que devem ter sustentado o documentário. Não tenho como me queixar de nada. Só fico com pena que estejamos tão perto e tão longe do Uruguai ao mesmo tempo, o que comprova que meu mundo literário é limitado e distante.

O Uruguai e a sexualidade
ZH — "Contos da Vida Difícil" retrata Jaguarão como ponto de passagem do tráfico de mulheres – na sequência da construção da ponte que liga a cidade ao Uruguai. Havia a intenção de confrontar essa ponte, signo de passagem, com a situação dessas mulheres, presas à prostituição?

Schlee — Bem observado. Se há alguma possibilidade de encantamento com esse tema, como também em relação ao futebol, é no fato de ser um assunto que Jaguarão considerou necessário esconder e fazer de conta que não é parte de sua memória. Isso aconteceu de uma forma que eu não procurei explicar, porque eu próprio não encontro explicação. Por que esses fatos raramente respingaram algumas famílias de Jaguarão? Por que a maioria das pessoas esqueceu tudo isso? Por que não se fala que o cabaré que foi tão importante, o do Tomazinho, ainda existe como prédio pertencente a um clube social, o Instrução e Recreio? Os sócios se envergonhariam de dizer “aqui funcionou um cabaré”? Não sei se terá sido isso, mas os acontecimentos eram tão contraditórios que em cima deles eu tinha de construir algo.


A matéria de Zero Hora foi acompanhada de um vídeo com trechos da entrevista (acima).

Fotos: RBS (1), Sul21 (2), Wikipedia (3)