Este fim de semana Gahuer Carrasco apresentou pelo Facebook o videoclipe "Só pra te fazer feliz", filmado em pontos turísticos de Pelotas pelo produtor mexicano Pablo Lemus, com músicos locais. Gahuer como cantor e a modelo Karen de los Santos (Rainha da FENADOCE 2011, v. post) protagonizam o conteúdo romântico da música, letra composta por Gahuer em parceria musical com Igor Cardoso.
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 3 de outubro de 2015
O primeiro negro que jogou no Pelotas
Dribla
Dupla/corre/bola
Sorri correndo
Joga ...
Nego
Fiz do tempo o que quis ... mas nego
Os negros fizeram história/memória/capítulo
A contagem dita ...
Conto do conflito
Forma clara para/por todos os homens
E passamos por cima dos fatos
Atos deles e nossos ... humanos claro ... claros
Um passado racista nesses jogos marcados.
Sonha correndo ... joga
Corre jogando ... chora
Capítulos da história
O futebol mexe com as pessoas. Suas regras e disputas.
Antigamente dizia-se gôlo no Rio Grande do Sul e torcia-se pelo jogo. Hoje torcemos pelo ídolo/jogador. Um calor fervoroso, interno, quase religioso. Associação deste esporte/indústria. O esporte salva/integra. Mas e o dinheiro, não !?.
O escritor Lourenço Cazarré começou a desenvolver, por volta de 1985, um conto sobre o futebol pelotense, a partir de um episódio que seu avô dizia ter visto de perto nos anos 30. O texto viu a luz em 1989, no livro "Noturnos do amor e da morte", com o título de "Meia encarnada, dura de sangue"(v. perfil do escritor e outros dados biográficos de Cazarré).
Naqueles tempos de heroísmo e amadorismo, um craque teve que ser comprado ao inimigo. Hoje o desamor à camiseta é coisa trivial; naquela época, não era fácil ser "profissional" (leia crítica literária de Iuri Müller para o Sul21 e comentário no Blogrêmio).
A TV Globo adaptou roteiro à base desta história (série Brava Gente, dez.2000), com direção do gaúcho Jorge Furtado para a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre (v. detalhes técnicos):
Dupla/corre/bola
Sorri correndo
Joga ...
Nego
Fiz do tempo o que quis ... mas nego
Os negros fizeram história/memória/capítulo
A contagem dita ...
Conto do conflito
Forma clara para/por todos os homens
E passamos por cima dos fatos
Atos deles e nossos ... humanos claro ... claros
Um passado racista nesses jogos marcados.
Sonha correndo ... joga
Corre jogando ... chora
Capítulos da história
O futebol mexe com as pessoas. Suas regras e disputas.
Antigamente dizia-se gôlo no Rio Grande do Sul e torcia-se pelo jogo. Hoje torcemos pelo ídolo/jogador. Um calor fervoroso, interno, quase religioso. Associação deste esporte/indústria. O esporte salva/integra. Mas e o dinheiro, não !?.
Nathanael Anasttacio
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| Antologia de 2001. |
Naqueles tempos de heroísmo e amadorismo, um craque teve que ser comprado ao inimigo. Hoje o desamor à camiseta é coisa trivial; naquela época, não era fácil ser "profissional" (leia crítica literária de Iuri Müller para o Sul21 e comentário no Blogrêmio).
A TV Globo adaptou roteiro à base desta história (série Brava Gente, dez.2000), com direção do gaúcho Jorge Furtado para a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre (v. detalhes técnicos):
No interior do Rio Grande do Sul, em 1953, o craque Bonifácio (Sérgio Menezes) vive um dilema. Jogador de um time integrado por negros e pobres, ele é convidado a fazer parte da equipe dos brancos e ricos. Seria a chance de oferecer uma vida melhor à namorada, a doméstica Elisa (Camila Pitanga).O conto foi incluído numa antologia de 2001 com contos gaúchos sobre futebol (v. análise da Trivela sobre o livro, organizado por Ruy Carlos Ostermann). Em 2003 foi escolhido como um dos 35 Melhores Contos do Rio Grande do Sul e em 2005 Cyro de Mattos o incluiu nos "Contos Brasileiros de Futebol" . Na transcrição abaixo, foram omitidos os primeiros parágrafos.
Meia encarnada, dura de sangue
Lourenço Cazarré
Então o meu avô contou a história do crioulo. Ele tinha várias histórias de futebol porque ele mesmo havia sido um jogador, um ponta irritante, daqueles pequenos que são como flechas e que, por não terem nem altura nem força, se obrigam a ser mais velozes e mais matreiros e mais gambeteiros e mais debochados, para irritar os laterais. O velho dizia que naquele seu tempo, sim, aquilo era um esporte para homens, porque os juízes só marcavam falta se o agredido sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado. E falava de como eles se cuspiam e davam cotoveladas e socos e como gostavam de esfregar as garradeiras na cara dos outros e demais barbaridades.
Mas voltemos ao rio, deixemos as vertentes. O tal crioulo esse foi uma espécie de primeiro profissional da cidade. Não sei quando, mas creio que pelo meio ou pelo final da década de trinta, porque o velho contou que por esse tempo, esse sujo tempo em que os atletas ganhavam dinheiro pela sua arte, já estava fora dos campos, ele já estava fora dos campos, com os joelhos arrebentados.
Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. O campo deles ficava nos banhados da Estação Ferroviária. O crioulo, aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de gols da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. E jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, como queria também que seu marcador ficasse por terra, e gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. Conheces o tipo, não é? Não era um sorriso, era um arremedo de sorriso, uma máscara ridente que nada tinha a ver com o que lhe ia pelas entranhas. Ele ria daquele jeito só para enfurecer os adversários, para fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo.
Nada pior pro time da gente do que jogadores de cabeça quente, a gente grita que quer sangue – mata este filho da puta! – e ele parte pro pau, mas aí o jogador frio sempre dá aquele pulinho pro lado, aquele toque sutil, e ganha a parada.
Era assim dentro de campo, implacável. Fora, era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, silencioso, cerimonioso. Saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola.
Trabalhava num matadouro. Mas não sei te dizer qual. Ficava pras bandas do porto. Ele também morava por lá, naquela ruazinha que corre paralela ao canal e que devia ser naquela época ainda mais escura e suja. Ele e a velha sua mãe, viúva. Durante a semana, gastava o dia dentro daqueles galpões sombrios – iluminados apenas pelo cintilo fugaz dos facões afiados – resvalando pelo chão ensanguentado.
Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais.
Aos domingos, brilhava nos campos.
Depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores negros ou mulatos. E o meu avô dizia: "Está certo que esses negros são uns mandriões, e conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas o certo é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bastante bons". Então um inglês, que palpitava muito nas reuniões de diretoria, tanto encheu que acabaram aceitando conversar com o crioulo. Um dos diretores do clube, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos numa espiga, disse mais: que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá pros lados da Cerquinha. Se aceitasse, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time. Então mandaram alguém falar com o rapaz.
Ele morava num rancho de paredes vacilantes e teto de palha. Muitas vezes no verão, nas cheias do rio, tinha que botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, que moravam nas Terras Altas. Baixava a enchente, lá vinham ele e a velha, de volta. Mas não foi isso que decidiu.
Ele demorou muito para aceitar. Não que estivesse negaceando, como fazem os jogadores de agora, para conseguir contratos melhores. Gastou dois ou três meses pensando os prós e os contras, porque sabia que a partir do momento em que concordasse não seria apenas o crioulo: seria o crioulo vendido. E o meu avô dizia: a gente de hoje não tem ideia do que se passou pelo coração do mulato, coitado, que nem mais dormia pensando no que devia fazer. Naquele tempo o valor dos homens era medido não pelo seu dinheiro mas pela capacidade ou incapacidade de manter a palavra empenhada.
Por uma mulher, decidiu-se.
Mas voltemos ao rio, deixemos as vertentes. O tal crioulo esse foi uma espécie de primeiro profissional da cidade. Não sei quando, mas creio que pelo meio ou pelo final da década de trinta, porque o velho contou que por esse tempo, esse sujo tempo em que os atletas ganhavam dinheiro pela sua arte, já estava fora dos campos, ele já estava fora dos campos, com os joelhos arrebentados.
Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. O campo deles ficava nos banhados da Estação Ferroviária. O crioulo, aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de gols da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. E jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, como queria também que seu marcador ficasse por terra, e gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. Conheces o tipo, não é? Não era um sorriso, era um arremedo de sorriso, uma máscara ridente que nada tinha a ver com o que lhe ia pelas entranhas. Ele ria daquele jeito só para enfurecer os adversários, para fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo.
Nada pior pro time da gente do que jogadores de cabeça quente, a gente grita que quer sangue – mata este filho da puta! – e ele parte pro pau, mas aí o jogador frio sempre dá aquele pulinho pro lado, aquele toque sutil, e ganha a parada.
Era assim dentro de campo, implacável. Fora, era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, silencioso, cerimonioso. Saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola.
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| Reedição de 2005. |
Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais.
Aos domingos, brilhava nos campos.
Depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores negros ou mulatos. E o meu avô dizia: "Está certo que esses negros são uns mandriões, e conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas o certo é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bastante bons". Então um inglês, que palpitava muito nas reuniões de diretoria, tanto encheu que acabaram aceitando conversar com o crioulo. Um dos diretores do clube, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos numa espiga, disse mais: que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá pros lados da Cerquinha. Se aceitasse, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time. Então mandaram alguém falar com o rapaz.
Ele morava num rancho de paredes vacilantes e teto de palha. Muitas vezes no verão, nas cheias do rio, tinha que botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, que moravam nas Terras Altas. Baixava a enchente, lá vinham ele e a velha, de volta. Mas não foi isso que decidiu.
Ele demorou muito para aceitar. Não que estivesse negaceando, como fazem os jogadores de agora, para conseguir contratos melhores. Gastou dois ou três meses pensando os prós e os contras, porque sabia que a partir do momento em que concordasse não seria apenas o crioulo: seria o crioulo vendido. E o meu avô dizia: a gente de hoje não tem ideia do que se passou pelo coração do mulato, coitado, que nem mais dormia pensando no que devia fazer. Naquele tempo o valor dos homens era medido não pelo seu dinheiro mas pela capacidade ou incapacidade de manter a palavra empenhada.
Por uma mulher, decidiu-se.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Mostra nº 300 do Corredor foi sobre Pelotas
Durante agosto de 2015 (precisamente, de 12-8 a 1-9), o Atelier Giane Casaretto voltou a expor, no Corredor Arte do Hospital da UFPel. Desta vez foram 19 pinturas sobre o tema "Pelotas", produzidas em anos anteriores no atelier.As artistas são: a professora Giane Casaretto e as alunas Fernanda Tröger, Fátima Ferreira, Greice Brod, Heloisa Motta, Rosamélia Ruivo, Carmem Brod, Maria Helena Braga, Vera Holthausen e Clarice Silva (v. mais imagens no Facebook). O convite (dir.) mostra a criação de Giane, uma colagem livre de detalhes urbanos pelotenses, como a Fonte das Nereidas e o calçadão do Mercado.
Costumeiramente no primeiro semestre, o grupo trabalhava motivos relacionados com a Princesa do Sul e organizava, em sua própria sede, mostra alusiva à Semana de Pelotas, celebrada de 1 a 7 de julho. Desta vez, durante três semanas a exposição não foi feita na época de praxe, mas chegou a pessoas que nunca teriam ido a uma galeria de arte ou a um ateliê de pintura: trabalhadores do hospital, pacientes em tratamento e os visitantes dos enfermos.
Um detalhe especial nesta ocasião é que os trabalhos sobre Pelotas marcaram a 300ª (tricentésima) exposição de arte no Corredor do Hospital. O projeto de humanização foi iniciado no ano 2000 e completa 15 anos de atividade ininterrupta, mais precisamente na sexta-feira 18 de setembro (v. post de 2010 Dez anos do Corredor Arte).
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| Charqueada, de M. H. Braga |
Sem tentar uma reprodução minuciosa da realidade, a artista conseguiu um distanciamento que sugere a idealização de um tempo ainda mais antigo que o observado, como que obnubilado por lágrimas. Potenciando a introspecção, ela trabalhou o reflexo na água, que remarca a ruralidade do local, afastado das luzes e geometrias do centro urbano. A tela de 50x70 custa somente R$90 mas terá grande valor afetivo para a maioria dos pelotenses, pois evoca a riqueza que deu fama à cidade, riqueza perdida gradualmente desde as primeiras décadas do século XX.
Rosamélia Ruivo pintou "Patrimônio: banco", outra emblemática face da tradição pelotense, tanto pelo lado arquitetônico como pela história econômica. Em tamanho menor que a tela descrita acima (40x50) esta tem o preço de R$80. Novamente devemos comentar: o valor de mercado seria pelo menos dez vezes maior, se fosse apregoado ou oferecido em leilão.Em 1928 o Banco do Brasil inaugurou esta imponente sede, defronte à Prefeitura Municipal, com a qual compete, até hoje, em solenidade e sofisticação. As duas instituições representam o poder imperial do século XIX: esta última aloja o governo político, inicialmente nas mãos dos fazendeiros locais, enquanto o Banco do Brasil, imune à decadência das charqueadas, se associa desde sempre ao capital federal. O prédio passou ao Município em 1970, que o utilizou por mais 30 anos, mas, em vez de restaurá-lo, deixou-o fechado e em deterioração progressiva na última década.
Há mais de um século que Pelotas perdeu a antiga riqueza e não existe mais o Império do Brasil, mas o povo ainda respeita e estima a grandiosidade destes símbolos colocados no coração da cidade. A imagem aqui reproduzida mostra outro tipo de idealização afetiva, a que maquia defeitos e sujeiras e prefere recordar as caras dos bisavós não pelas nuvens da memória mas pelas nítidas fotos dos álbuns de família.
sábado, 26 de setembro de 2015
O mendigo que lia revista em quadrinhos
Ele “morava” sob uma marquise. De poucas palavras, vivia do que lhe davam – e eram poucas coisas. O de comer, o de vestir e o de sentir (no coração), quase nada. No olhar – fugidio – um secreto desespero, segredos há muito engolidos e não digeridos.
Nas proximidades, um supermercado, de onde eu comprava, de quando em quando, algo para lhe dar. Não era sempre – para que ele não se acostumasse. Na verdade, uma cretinice minha, pois o que ele queria mesmo era distância de nós, os ajustados (ao menos na aparência).
Hoje pela manhã, ao dirigir-me ao centro pelo mesmo trajeto, disposto a dar algo para o mendigo, percebi que ele não estava – e o certo era vê-lo ali, como cotidianamente acontecia. Levantara acampamento, quem sabe à procura de outra zona da cidade, outra marquise, outras pessoas, melhores ou piores.
Deixara para trás uma garrafa pet, um saco de plástico com restos de pão... E uma revista de história em quadrinhos.
Lembro-me de que ele nos últimos dias lia algo com muita atenção. Quando as pessoas se aproximavam dele, tratava de esconder o que estava lendo. Àquele momento, a caminho do centro da cidade, parei e observei a razão que levara o mendigo a alhear-se do entorno.
Preferira mil vezes a revista infantil – que o remetia ao passado, quem sabe mais feliz – à realidade em derredor, tão triste e melancólica quanto ele. Um mistério, porém, parece-me insolúvel.
Por que ele fora embora e deixara para trás a revista infantil?
Esta pergunta talvez não seja respondida – ainda que ele retorne à sua “toca”, à entrada de uma garagem – pois é de pouquíssimas palavras. Fotografei a cena, espécie de palco de uma pantomima triste, cujo personagem o abandonara. Sem ele, sem a presença humana, aquele pedaço de concreto ficou ainda mais triste e deprimente.
Nas proximidades, um supermercado, de onde eu comprava, de quando em quando, algo para lhe dar. Não era sempre – para que ele não se acostumasse. Na verdade, uma cretinice minha, pois o que ele queria mesmo era distância de nós, os ajustados (ao menos na aparência).
Hoje pela manhã, ao dirigir-me ao centro pelo mesmo trajeto, disposto a dar algo para o mendigo, percebi que ele não estava – e o certo era vê-lo ali, como cotidianamente acontecia. Levantara acampamento, quem sabe à procura de outra zona da cidade, outra marquise, outras pessoas, melhores ou piores.
Deixara para trás uma garrafa pet, um saco de plástico com restos de pão... E uma revista de história em quadrinhos.
Lembro-me de que ele nos últimos dias lia algo com muita atenção. Quando as pessoas se aproximavam dele, tratava de esconder o que estava lendo. Àquele momento, a caminho do centro da cidade, parei e observei a razão que levara o mendigo a alhear-se do entorno.
Preferira mil vezes a revista infantil – que o remetia ao passado, quem sabe mais feliz – à realidade em derredor, tão triste e melancólica quanto ele. Um mistério, porém, parece-me insolúvel.
Por que ele fora embora e deixara para trás a revista infantil?
Esta pergunta talvez não seja respondida – ainda que ele retorne à sua “toca”, à entrada de uma garagem – pois é de pouquíssimas palavras. Fotografei a cena, espécie de palco de uma pantomima triste, cujo personagem o abandonara. Sem ele, sem a presença humana, aquele pedaço de concreto ficou ainda mais triste e deprimente.
Manoel Soares Magalhães
Texto e foto: Cultive Ler, 22-12-2011
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Rejane, candidata negra a prefeita (2008)
Cor da pele cortês
Poder/permanências
Acessos
Pelo amor
Pêlo de que cor?
Pena que a penugem social veja apenas
Pormenores associados à cor
No passado havia ...
Divisão clara de tons
Propensos à ascensão alguns
Fugitivos todos da escuridão
A cor e o gênero
Geralmente ambos geram contratempos
Nos tempos de hoje e sempre
As coisas ainda são como são ...
Como eram desde a mental escravidão ... costumes escravocratas
Falando na polis e na política daí derivada. Falando na etimologia ambígua do preconceito encarnado.
Hoje temos uma mulher no poder e as críticas não são apenas por formas de governar. Há dúvidas sobre a capacidade feminina!?
E se a Xuxa fosse negra? Nossos cafés fartos e aquelas manhãs de baixinhos seriam as mesmas?
Ser homem branco? Francamente sabemos o que achamos nos pré-julgamentos que fazemos.
Convidamos à reflexão do tema.
E se a Xuxa fosse negra?
Maria Rejane Medeiros Terres foi a primeira mulher negra a concorrer à Prefeitura Municipal de Pelotas, nas municipais de 5 de outubro de 2008. Ela foi escolhida em junho daquele ano (v. Agência Afro Press). Também foi a primeira vez que o Partido Verde levantou candidatura própria na cidade, sem coligação. Seu vice era o correligionário Nereu Jorge Diniz Morales, assessor parlamentar de 45 anos.
Nascida em Canguçu em 10 de dezembro de 1968, com 20 anos de experiência coordenando campanhas eleitorais; separada, 7 filhos, assessora na Câmara, Maria Rejane tinha o fundamental completo (v. perfil). Ela chegou a participar num debate de TV com outros 7 candidatos homens (v. notícia de ZH, setembro 2008 e lista de candidatos).
Poder/permanências
Acessos
Pelo amor
Pêlo de que cor?
Pena que a penugem social veja apenas
Pormenores associados à cor
No passado havia ...
Divisão clara de tons
Propensos à ascensão alguns
Fugitivos todos da escuridão
A cor e o gênero
Geralmente ambos geram contratempos
Nos tempos de hoje e sempre
As coisas ainda são como são ...
Como eram desde a mental escravidão ... costumes escravocratas
Somos todos escravos do que achamos que somos.
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| Por uma só vez, Maria Rejane Medeiros Terres ousou levantar uma candidatura dos pobres. |
Hoje temos uma mulher no poder e as críticas não são apenas por formas de governar. Há dúvidas sobre a capacidade feminina!?
E se a Xuxa fosse negra? Nossos cafés fartos e aquelas manhãs de baixinhos seriam as mesmas?
Ser homem branco? Francamente sabemos o que achamos nos pré-julgamentos que fazemos.
Convidamos à reflexão do tema.
E se a Xuxa fosse negra?
Nathanael Anasttacio
Maria Rejane Medeiros Terres foi a primeira mulher negra a concorrer à Prefeitura Municipal de Pelotas, nas municipais de 5 de outubro de 2008. Ela foi escolhida em junho daquele ano (v. Agência Afro Press). Também foi a primeira vez que o Partido Verde levantou candidatura própria na cidade, sem coligação. Seu vice era o correligionário Nereu Jorge Diniz Morales, assessor parlamentar de 45 anos.
Nascida em Canguçu em 10 de dezembro de 1968, com 20 anos de experiência coordenando campanhas eleitorais; separada, 7 filhos, assessora na Câmara, Maria Rejane tinha o fundamental completo (v. perfil). Ela chegou a participar num debate de TV com outros 7 candidatos homens (v. notícia de ZH, setembro 2008 e lista de candidatos).
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Cartão telefônico homenageou Simões (2003)
Em 2002, o Instituto João Simões Lopes Neto propôs à Brasil Telecom a criação de um cartão telefônico alusivo ao mais importante escritor pelotense. Na época, o Instituto já havia adquirido a casa da rua Dom Pedro II nº 810, onde Simões havia morado entre 1897 e 1907, e que estava em reformas para sediar a instituição.
O cartão foi finalmente lançado na segunda-feira 24 de fevereiro de 2003, contendo, no anverso, imagem da fachada (dir.) e no verso, breve histórico do personagem (v. notícia do Diário Popular, 25-2-03). A data foi escolhida por proximidade com mais um aniversário do escritor, nascido em 9 de março de 1865.
A cada ano, os simoneanos comemoram esse aniversário com anúncios importantes e com homenagens como esta. Por exemplo, em 9 de março de 2006 o Instituto abriu suas portas ao público, na casa planejada para tal, e que foi recuperada ao longo de anos.
Ironicamente, o cartão telefônico que quis evocar a importância deste prédio tem, agora, somente valor histórico; seu uso e sua lembrança foram tão breves como a passagem do Capitão por esta casa (se bem seu espírito segue vivo e presidindo os bons resultados das iniciativas do Instituto). Os tempos mudaram rápido e, hoje, teria que ser criado algum aplicativo que divulgasse a vida e a obra do famoso autor.
Nos dez anos em que viveu neste prédio da rua Dom Pedro II (na época, rua Sete de Abril), João Simões Lopes Neto escreveu nove obras (v. notícia do Diário Popular, 9-3-03):
O cartão foi finalmente lançado na segunda-feira 24 de fevereiro de 2003, contendo, no anverso, imagem da fachada (dir.) e no verso, breve histórico do personagem (v. notícia do Diário Popular, 25-2-03). A data foi escolhida por proximidade com mais um aniversário do escritor, nascido em 9 de março de 1865.A cada ano, os simoneanos comemoram esse aniversário com anúncios importantes e com homenagens como esta. Por exemplo, em 9 de março de 2006 o Instituto abriu suas portas ao público, na casa planejada para tal, e que foi recuperada ao longo de anos.
Ironicamente, o cartão telefônico que quis evocar a importância deste prédio tem, agora, somente valor histórico; seu uso e sua lembrança foram tão breves como a passagem do Capitão por esta casa (se bem seu espírito segue vivo e presidindo os bons resultados das iniciativas do Instituto). Os tempos mudaram rápido e, hoje, teria que ser criado algum aplicativo que divulgasse a vida e a obra do famoso autor.
Nos dez anos em que viveu neste prédio da rua Dom Pedro II (na época, rua Sete de Abril), João Simões Lopes Neto escreveu nove obras (v. notícia do Diário Popular, 9-3-03):
- em 1900, "O Palhaço", cena dramática, e a comédia "Fifina";
- as comédias teatrais "Jojô e Jajá e não Ioiô e Iaiá", "Querubim Trovão", "Amores e Facadas" e "O Maior Credor", todas em 1901;
- "Por Causa das Bichas", comédia (1903);
- em 1905, "A Cidade de Pelotas (apontamentos para alguma monografia para o seu centenário", que apareceu no segundo volume dos Anais da Biblioteca Pública, embrião da Revista do Centenário, de 1911 (v. cronologia);
- a lenda "O Negrinho do Pastoreio", publicada primeiramente no Correio Mercantil de 26 de dezembro de 1906 (v. cronologia);
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
A empregada era a segunda mãe
"Que Horas Ela Volta?” é o quarto longa-metragem da diretora paulistana Anna Muylaert, que conta uma história de amor mãe-filha, retratando questões sociais do Brasil contemporâneo. Misto de drama familiar e social, é a estreia artística desta semana (10-16 de setembro) no Cineflix Pelotas: sessões às 19h e 21:20.
Regina Casé é Val, empregada doméstica nordestina que trabalha na capital paulista. Sua filha Jéssica (Camila Márdila) vem prestar o vestibular para arquitetura e pretende morar com a mãe, na casa dos patrões. A adolescente muda assim os costumes da casa e rompe a paz social e familiar entre empregada e patroa. O título é emprestado da pergunta que Fabinho (Michel Joelsas) fazia a Val sobre a mãe, quando criança (v. crítica de Veja e no sítio da Deutsche Welle). A empregada criou o filho da patroa, mas não pôde educar sua própria filha.
O filme já ganhou o Prêmio do Público no Festival de Berlim e a dupla protagonista recebeu o de Melhor Atriz em Sundance, EUA. Por essa visibilidade, é o preferido para representar o Brasil no Oscar 2016 para Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se indicado pelo Ministério da Cultura, irá com o título "The Second Mother" (A Segunda Mãe). Um drama com humor ou uma comédia inteligente, à base da vida real.
POST DATA
11-9-15
Notícia oficial do Minc Que Horas Ela Volta? representará o Brasil no Oscar 2016.
18-9-15
O filme entrou em segunda semana, mantendo os horários anteriores (19h e 21:20).
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
O misterioso carnaval do Redondo da Praça
Luiz Carlos Marques Pinheiro escreveu um livro virtual de memórias, e o dedicou à cidade natal e a quem no futuro buscar testemunhos dos anos 30, 40 e 50. As lembranças pessoais do conterrâneo, hoje com 75 anos, despertam o sabor e o amor dos pelotenses por sua cidade e pela conservação de suas vivências coletivas (leia o livro completo "A Pelotas que eu vivi: crônicas existenciais", 199 p.).
Um dos 45 capítulos de L. C. Pinheiro (confira abaixo) evoca os antigos carnavais no interior da praça Coronel Pedro Osório. Em janeiro de 2012, José Gomes Neto, outro antigo pelotense, já havia publicado lembranças sobre o falado Redondo da Praça (ao parecer, influindo em parte o texto de Pinheiro, que saiu em 2013):
Um dos 45 capítulos de L. C. Pinheiro (confira abaixo) evoca os antigos carnavais no interior da praça Coronel Pedro Osório. Em janeiro de 2012, José Gomes Neto, outro antigo pelotense, já havia publicado lembranças sobre o falado Redondo da Praça (ao parecer, influindo em parte o texto de Pinheiro, que saiu em 2013):
Quem nunca participou de um baile no Redondo da Praça Coronel Pedro Osório, durante o carnaval, não sentiu, ainda, alegria em grau máximo.
O Carnaval em Pelotas acontecia na rua Quinze de Novembro, no pedaço entre as ruas Tiradentes e Voluntários. A Praça constituía um apêndice ao trecho citado. (...)
E o Redondo? Bem, esse era um caso à parte. Lá não desfilavam as escolas nem os blocos organizados e sim grupos e indivíduos, que se deixavam tomar pela inacreditável animação com que os bailes transcorriam [v. artigo Redondo da Praça, de José Rodrigues Gomes Neto, e Redondo da Praça II, no Pelotas Treze Horas].
O Carnaval do Redondo
Ano 1956. Para quem não conhece, o Redondo é a parte mais central da Pça.Cel.Pedro Osório. Por sua vez, a praça é o ponto mais central da cidade de Pelotas. A praça apresenta oito entradas e no ponto central está o chafariz “As Nereidas”, um presente da França, inaugurado em 1873.
Este chafariz, originalmente, tinha a função de abastecer de água potável a população do seu entorno. Posteriormente, foi construído um tanque externo, em torno das “Nereidas”, para abrigar a água que jorrava da fonte. Esse tanque é chanfrado e, em cada esquina tem um poste. São oito postes ao todo. Esse tanque fica elevado e há três degraus de acesso.
Em torno desse tanque o projeto urbanístico disponibilizou uma área circular (daí o nome de Redondo dado pelo povo), bastante ampla, para o desfrute das pessoas. Em torno dessa área, foram colocados bancos de madeira, tornando o local um ponto muito aprazível e próprio para se reunir, para conversar. Por ser um ponto muito central na cidade, e uma novidade, era muito visado pelos moradores e atraía uma enorme freqüência de famílias.
Passada a fase da novidade pelo Redondo, as famílias começaram a se afastar, porque as prostitutas começaram a frequentar o local, na esperança de fazer conquistas amorosas. Chegou a um ponto em que elas dominaram o Redondo. Eu era menino e a minha mãe fazia recomendações para que eu não cruzasse pelo Redondo, que fizesse a volta na praça, porque era perigoso. Mesmo já rapaz, eu evitava de cruzar pelo Redondo. Cruzar seria mais prático, porque cortava caminho, mas a preocupação existia. Na realidade, as prostitutas não ofereciam nenhum risco. Elas ficavam sentadas nos bancos e nunca tomavam a iniciativa de uma abordagem.
No Carnaval, o Redondo fazia o seu próprio Carnaval, característico, que não se confundia com o carnaval de rua da cidade. Incrivelmente, o Redondo não tomava conhecimento do carnaval de rua de Pelotas. Era como se não existisse. Como era um antro de prostitutas, no Carnaval atraía toda a classe baixa de Pelotas. E aqui é interessante fazer uma reflexão.
Quem era essa classe baixa? Os rapazes de Pelotas não era; tinham os seus amigos e, no Carnaval, era muito gostoso sair em grupo. Logo, não iam para o Redondo. Quem era ligado a um bloco, ou a uma escola de samba, também não ia para o Redondo, porque saía com a sua escola. As empregadas domésticas detestavam as prostitutas. A classe média, mesmo a baixa, não queria contato com as frequentadoras do Redondo.
Quem sobrava? Sobravam aqueles que não eram da cidade, geralmente colonos das redondezas que vinham para a cidade pela fama do Carnaval, os solitários, os caixeiros-viajantes de passagem pela cidade, e a rafuagem da cidade. Essa rafuagem eram verdadeiros párias sociais. Eram moradores pobres das periferias mais distantes, sem vínculos com ninguém. Eram chamados de varzeanos, porque moravam nas várzeas alagadas. Como se dizia em Pelotas, “atravessavam em ponte para entrar em casa...” Era a ralé. E todos se reuniam no Redondo. E então o Redondo se transformava num grande salão de baile.
Eu lembro de ir lá, por curiosidade, e o que eu vi foi um Carnaval muito diferente do que eu conhecia. Os homens abraçavam as mulheres por trás e saíam arrastando os pés, cantando, ao som das marchinhas. Todo mundo feliz! Formavam uma roda só, no entorno do Redondo, todos juntos, uma massa compacta, como num bloco de Carnaval. Não havia espaço para se passar...
Sem exagero, o carnaval do Redondo tinha mais características de carnaval de salão do que propriamente de carnaval de rua. Qualquer lugar servia para descansar, a começar pelos degraus da base da Fonte das Nereidas, que ficavam completamente lotados. A sorte é que a praça dispunha de um banheiro público... Jogavam confete e serpentina uns nos outros, mas também era só. Ali muito poucos tinham dinheiro para comprar um lança-perfume. Mas o confete e a serpentina já eram suficientes para deixar forrado o chão da praça. Quando aparecia um lança-perfume, chovia de lenços na volta... para um cheirinho.
Este chafariz, originalmente, tinha a função de abastecer de água potável a população do seu entorno. Posteriormente, foi construído um tanque externo, em torno das “Nereidas”, para abrigar a água que jorrava da fonte. Esse tanque é chanfrado e, em cada esquina tem um poste. São oito postes ao todo. Esse tanque fica elevado e há três degraus de acesso.
Em torno desse tanque o projeto urbanístico disponibilizou uma área circular (daí o nome de Redondo dado pelo povo), bastante ampla, para o desfrute das pessoas. Em torno dessa área, foram colocados bancos de madeira, tornando o local um ponto muito aprazível e próprio para se reunir, para conversar. Por ser um ponto muito central na cidade, e uma novidade, era muito visado pelos moradores e atraía uma enorme freqüência de famílias.
Passada a fase da novidade pelo Redondo, as famílias começaram a se afastar, porque as prostitutas começaram a frequentar o local, na esperança de fazer conquistas amorosas. Chegou a um ponto em que elas dominaram o Redondo. Eu era menino e a minha mãe fazia recomendações para que eu não cruzasse pelo Redondo, que fizesse a volta na praça, porque era perigoso. Mesmo já rapaz, eu evitava de cruzar pelo Redondo. Cruzar seria mais prático, porque cortava caminho, mas a preocupação existia. Na realidade, as prostitutas não ofereciam nenhum risco. Elas ficavam sentadas nos bancos e nunca tomavam a iniciativa de uma abordagem.
| Desenho satírico da Praça Dom Pedro II, reaberta ao público em 1879 (na época, já era usada a expressão "redondo da praça"). |
Quem era essa classe baixa? Os rapazes de Pelotas não era; tinham os seus amigos e, no Carnaval, era muito gostoso sair em grupo. Logo, não iam para o Redondo. Quem era ligado a um bloco, ou a uma escola de samba, também não ia para o Redondo, porque saía com a sua escola. As empregadas domésticas detestavam as prostitutas. A classe média, mesmo a baixa, não queria contato com as frequentadoras do Redondo.
Quem sobrava? Sobravam aqueles que não eram da cidade, geralmente colonos das redondezas que vinham para a cidade pela fama do Carnaval, os solitários, os caixeiros-viajantes de passagem pela cidade, e a rafuagem da cidade. Essa rafuagem eram verdadeiros párias sociais. Eram moradores pobres das periferias mais distantes, sem vínculos com ninguém. Eram chamados de varzeanos, porque moravam nas várzeas alagadas. Como se dizia em Pelotas, “atravessavam em ponte para entrar em casa...” Era a ralé. E todos se reuniam no Redondo. E então o Redondo se transformava num grande salão de baile.
Eu lembro de ir lá, por curiosidade, e o que eu vi foi um Carnaval muito diferente do que eu conhecia. Os homens abraçavam as mulheres por trás e saíam arrastando os pés, cantando, ao som das marchinhas. Todo mundo feliz! Formavam uma roda só, no entorno do Redondo, todos juntos, uma massa compacta, como num bloco de Carnaval. Não havia espaço para se passar...
Sem exagero, o carnaval do Redondo tinha mais características de carnaval de salão do que propriamente de carnaval de rua. Qualquer lugar servia para descansar, a começar pelos degraus da base da Fonte das Nereidas, que ficavam completamente lotados. A sorte é que a praça dispunha de um banheiro público... Jogavam confete e serpentina uns nos outros, mas também era só. Ali muito poucos tinham dinheiro para comprar um lança-perfume. Mas o confete e a serpentina já eram suficientes para deixar forrado o chão da praça. Quando aparecia um lança-perfume, chovia de lenços na volta... para um cheirinho.
sábado, 5 de setembro de 2015
Carla e a Rainha brilham em ópera no Chile
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| Nesta adaptação chilena, a personagem da Rainha da Noite chama-se Astrid Flamante que é a dona de uma companhia de teatro que busca atores para apresentar a Flauta Mágica. |
Desta vez, a convidada estrangeira foi Carla, que já por segunda vez atua em ópera completa no exterior. A primeira foi no papel de Amore em "Orfeu e Eurídice" (Montevidéu, dezembro de 2011). E esta foi também sua segunda visita ao Chile. Registramos a primeira em janeiro de 2014 (v. postagem), quando Carla participou do concurso Laguna Mágica, com diferentes trechos líricos . Veja também a postagem de 2013 Recital de Carla Domingues em Montevidéu.
O diário El Mercurio publicou crítica de Juan Antonio Muñoz sobre o espetáculo (v. texto original e nota da Radio Bio-Bio). O recorte do jornal (figura abaixo) foi apresentado pela artista em sua página no Facebook, e a tradução abaixo foi feita por este blogue. Confira no final a crítica de cada solista lírico.
Uma viagem por outra Flauta Mágica
A ópera corre grandes riscos, hoje em dia, e isso mantém o gênero vivo. Algumas produções, ainda que controversas, fazem boas contribuições ou destacam elementos que antes passavam despercebidos. Nestas inovações, tudo vale se houver um bom pano de fundo ou uma ideia imaginativa que surpreenda. A "Flauta mágica" trazida pela Corporação Cultural da Universidade de Concepción ficou numa zona estranha, no meio do caminho, como se o propósito ainda não estivesse maduro ou tivesse sido forçado.
Na proposta do diretor de cena, Gonzalo Cuadra, existe uma "Companhia d'A Flauta Mágica", de Astrid Flamante (por Astrafiamante, o nome da Rainha da Noite) e de Sarastro Solleben, cujos integrantes têm traços análogos aos das personagens mozartianas. Conforme o programa, eles ensaiam os números musicais daquela noite, mas ainda lhes falta o personagem principal. Sarastro anuncia que "o Grande Arquiteto" certamente enviará alguém como complemento ideal para sua filha Pamina. Então aparece Tamino Príncipe (nome e sobrenome), que preenche a falta.
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| Recorte de EL MERCURIO (Concepción, 29-8-15) |
O problema é que nada parece engrenar neste jogo de metateatro, a começar pela contradição de que o casal que dirige a companhia mostra acordo em tudo, enquanto Sarastro e a Rainha da Noite brigam permanentemente (inclusive, ela gostaria de vê-lo morto). Os diálogos novos também não ajudam, pois abusam de expressões populares e pueris, que somente servem para suscitar gargalhadas. O próprio libreto original já tem algo disso (em alemão, claro), em meio a reflexões ontológicas e juízos de valores, mas tudo junto fica um exagero.
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| Carla Domingues faz Astrid Flamante e a Rainha da Noite. |
Usando poucos elementos, inclusive a parede posterior do teatro, e exibindo a maquinária de roldanas, cordas e luzes, a cenografia de Germán Droghetti funciona perfeitamente, e a iluminação de Álvaro Torres ajuda a criar as atmosferas necessárias. O colorido e miscelâneo vestuário, também de Droghetti, sublinha a dupla natureza dos personagens (os atores e os papéis que interpretam).
A construção musical está notável. Julian Kuerti, ante a impecável Orquestra Sinfônica da Universidade de Concepción, mostra-se sempre consciente das vozes de que dispõe, e sabe viajar pela nobreza melódica desta música, respeitando tanto a solenidade como a leveza. Excelente também a direção coral de Carlos Traverso, certo e preciso, comprometido com o desenvolvimento teatral.
Os solistas
Por voz, convicção e espírito festivo, Ricardo Seguel brilha e conquista como Papageno. Luis Rivas entrega a doçura de seu canto e sua musicalidade como Tamino, mas como ator precisa melhorar. Yaritza Véliz tem a voz e a linha de canto ideais para Pamina. Carla Domingues mostra o temperamento da furiosa Rainha e alcança todas as notas. Por outro lado, Mateo Palma, que está muito bem na autoridade própria de Sarastro, se percebe complicado vocalmente com as descidas abismais que o pentagrama exige e com os textos que deve declamar. Estão muito bem David Gáez como o orador e o sacerdote 1, Roni Ancavil como Monostatos, e as três damas (Andrea Aguilar, Regina Sandoval e Gloria Rojas).
Juan Antonio Muñoz
Imagens de Carla: Facebook
Tradução: F. A. Vidal
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Poemas dedicados a Pelotas
Pelotas, minha cidade, de Sérgio A. O. Siqueira (1968).
Canção de amor a uma cidade que é minha, de Joaquim Luís Duval (1980).
A flor do sal, de Mário Osório Magalhães (1999).
Um pouco de Pelotas (em mim!), de Fábio Gonçalves Zündler (2007).
Querido Laranjal!, de Beatriz Araújo (2010).
Princesa, de Manoel Soares Magalhães (2012).
Por uma tarde de julho, de Joaquim Moncks (2013).
Reflexão e cafeína, de Alexandre Vergara (2013).
Soneto para o Café Aquários, de Vilmar Gomes (2013).
Amor e ódio, de Nauro Júnior (2014).
Minha Terra
Lá, na minha terra, quandoO luar banha o potreiro,
Passa cantando o tropeiro,
Cantando, sempre cantando;
Depois, avista-se o bando
Do gado que muge, adiante;
E um cão ladra bem distante,
Lá, bem distante, na serra;
Nunca foste à minha terra?!
Enfrena, pois, teu cavalo,
Ferra a espora, alça o chicote
E caminha a trote, a trote,
Se não quiseres cansá-lo.
Ainda não canta o galo,
É tempo de viajares.
Deixarás estes lugares,
Irás vendo novas cenas
Sempre amenas, muito amenas.
O laranjal reverdece,
E ao disco argênteo da lua,
Logo os olhos te aparece
A estrela deserta e nua.
Francisco Lobo da Costa
domingo, 14 de junho de 2015
Recém-nascidos em fotos
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| Exposição no hospital é vista por pacientes e visitantes de todas as idades. |
A médica obstetra e fotógrafa Sônia Simões de Almeida expõe o ensaio "Newborn", 17 fotografias de bebês, entre 5 e 12 dias de vida. A mostra pode ser visitada no Corredor Arte do Hospital Escola da UFPel até 30 de junho.Nascida em Minas Gerais, Sônia formou-se em 1989 pela Faculdade de Medicina de Itajubá, graduou-se pela Escola Panamericana de Arte e Design e hoje reside em São Paulo (veja o sítio da artista).
A médica com 25 anos de experiência em ginecologia e obstetrícia transformou em arte seu amor pelos pequeninos e passou a ser também uma fotógrafa especializada em recém-nascidos.
Nas suas fotografias ela busca capturar a graça de cada bebê, num cenário especialmente preparado para cada um, e contar as histórias das crianças, em suas características únicas (um anjinho, um docinho, um filhotinho). Como ela mesma explica:
– Meu objetivo como fotógrafa vai além de capturar poses construídas, mas captar com muita sensibilidade imagens espontâneas, detalhes do corpo, dos movimentos e expressões dos bebês, tudo com muito conhecimento no manuseio, em como tranquilizar e mantê-lo em segurança.
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| Fotos de Sônia Almeida mostram a alma de pessoas recém-nascidas. |
sexta-feira, 12 de junho de 2015
Poesia para namorados
Para lembrar o Dia dos Namorados, Nauro Júnior recordou no Facebook o poema "Briga", uma de suas "Andanças Imaginárias", com ilustração de sua jovem filha, Sofia Machado. O livro a quatro mãos apareceu na Feira do Livro de 2014 (v. nossa nota Nauro poetiza a vida).
Abaixo, a homenagem alusiva à modernidade: mesmo com a mais alta tecnologia, somada ao individualismo dos seus adeptos, o amor a dois sobrevive (no fundo musical, a primeira das Gimnopédias de Eric Satie, em tempo acelerado).
Abaixo, a homenagem alusiva à modernidade: mesmo com a mais alta tecnologia, somada ao individualismo dos seus adeptos, o amor a dois sobrevive (no fundo musical, a primeira das Gimnopédias de Eric Satie, em tempo acelerado).
Nesta sexta (12-6), a Sociedade Música pela Música preparou um programa especial de música, luzes e cenografia, dedicado à paixão e aos namorados. O palco da Praça de Alimentação da Fenadoce 2015 se encheu de músicos que representaram o amor em diversos idiomas, apresentando canções de várias épocas e origens.
Segundo a notícia do evento artístico, que foi dirigido por Sérgio Sisto e Fernando Montini, "a criatividade foi a palavra-chave para o ambiente montado no palco: mesas de jantar, garçons, louças, roupas de gala" (v. texto completo com fotos de Marcel Streicher e clique nelas para ampliar).
PD 13 junho
Ainda na FENADOCE, uma declaração de amor foi feita em público, aproveitando a novidade e a notoriedade do recurso tecnológico "Realidade Aumentada" (v. notícia). O que deveria ser íntimo e real foi levado à publicidade e à virtualidade. Há um ano, mas não no Dia dos Namorados, outro jovem quis chamar a atenção no shopping pelo mesmo meio, sem tanto sucesso (v. nota neste blogue).
Segundo a notícia do evento artístico, que foi dirigido por Sérgio Sisto e Fernando Montini, "a criatividade foi a palavra-chave para o ambiente montado no palco: mesas de jantar, garçons, louças, roupas de gala" (v. texto completo com fotos de Marcel Streicher e clique nelas para ampliar).
PD 13 junho
Ainda na FENADOCE, uma declaração de amor foi feita em público, aproveitando a novidade e a notoriedade do recurso tecnológico "Realidade Aumentada" (v. notícia). O que deveria ser íntimo e real foi levado à publicidade e à virtualidade. Há um ano, mas não no Dia dos Namorados, outro jovem quis chamar a atenção no shopping pelo mesmo meio, sem tanto sucesso (v. nota neste blogue).
quinta-feira, 11 de junho de 2015
Pelotas em inverno
Inspirado nos traços e na técnica do artista Leonid Afremov, o pelotense Mário Campello pintou uma vista da praça Coronel Pedro Osório. O ângulo é clássico para qualquer pessoa que conheça Pelotas, mas o olhar do pintor trouxe uma tonalidade europeia, talvez inusitada para quem fotografa nossas praças, a qual acentua e evidencia uma de nossas verdades locais: que nosso clima e nossa arquitetura têm algo a ver com a geografia e a cultura dos que nos colonizaram.
Enquanto os parapluies entristecidos mergulham no anoitecer, as árvores enrubescidas iluminam o Grande Hotel de Pelotas, este plantado aqui em 1928 para recordar a Europa do século XIX. Na época, os modelos e ideais urbanos eram esses prédios com sacadas, desvãos, sótãos e cúpulas. Contudo, nada tão pelotense como este jogo de lusco-fusco e umidade. Mesmo num conteúdo visual nada de surpreendente, o artista nos cativa com esses aspectos formais: viscerais, pegajosos e ancestrais.
De acordo à postagem consultada, a imagem está no Facebook desde setembro de 2012. No entanto, ela foi publicada em 26 de maio deste ano. Técnica: óleo espatulado sobre tela de 50x80 cm. Veja aqui o autor pintando, em março de 2015.
Imagem: Facebook
Enquanto os parapluies entristecidos mergulham no anoitecer, as árvores enrubescidas iluminam o Grande Hotel de Pelotas, este plantado aqui em 1928 para recordar a Europa do século XIX. Na época, os modelos e ideais urbanos eram esses prédios com sacadas, desvãos, sótãos e cúpulas. Contudo, nada tão pelotense como este jogo de lusco-fusco e umidade. Mesmo num conteúdo visual nada de surpreendente, o artista nos cativa com esses aspectos formais: viscerais, pegajosos e ancestrais.
De acordo à postagem consultada, a imagem está no Facebook desde setembro de 2012. No entanto, ela foi publicada em 26 de maio deste ano. Técnica: óleo espatulado sobre tela de 50x80 cm. Veja aqui o autor pintando, em março de 2015.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Conservatório de Música 97 anos
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| Desde 1918, o Conservatório ocupou casarão do século XIX. Reformado em 1940, ficou com o aspecto acima (foto dos anos 50). |
É o caso do Conservatório de Música de Pelotas, que, durante 97 anos de vida, tem sabido se manter e crescer, como exemplo de um trabalho entusiasta, digno de refinados valores, ali cultivados.
Como se sabe, foi em 4 de junho de 1918 que a decisão de fundar esta escola de arte ficou formalizada, numa reunião de egrégios pelotenses, por iniciativa de Alcides Costa e Francisco Simões. Três meses após, em 18 de setembro, realizou-se a cerimônia de inauguração da Casa. Naquele ano, nossa cidade, que já era um centro cultural e econômico regional, criou uma instituição à altura das grandes capitais, que até hoje nos alegra e orgulha.
Julgamo-nos aptos a falar desta história, devido a que vivemos boa parte desses anos em “carne própria”, desde a juventude, e por acompanharmos, por décadas, a tradicional e apreciável vida social e artística de um ambiente cultural prestigiado.
Em 1953 comecei a atuar como parte de uma equipe de amadores jornalísticos, ligada ao Diário Popular. O período me parece bastante longo, não extenuante, por sinal, muito importante, pois acrescentou, em minha vida e em minha formação cultural, gratos e belos momentos de crescimento. É possível comprovar o que aconteceu por mais de meio século, pois guardo com apreço e orgulho as dedicatórias obtidas dos artistas. Todos eles deixaram em nossa cidade valioso lastro cultural e inesquecível marca afetiva.
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| Dedicatória de Arthur Moreira Lima ao Conservatório |
Nomes importantes da História da Música como os pianistas Claudio Arrau (1940), Magdalena Tagliaferro (1944), Wilhelm Kempff (1949), Nelson Freire (1969) e Sebastian Benda (1953 e 1970), o violonista Andrés Segovia (1941), o compositor Francisco Mignone (1940 e 1968), o violonista e compositor Agustín Barrios (1929) se apresentaram no Salão do Conservatório, sendo que alguns os conhecemos em início de carreira, como Miguel Proença – que aqui realizou seu primeiro recital em 1962 –, Olinda Alessandrini, Eudóxia de Barros, Roberto Szidon, Cristina Ortiz, Daniel Wolff e muitos outros.
Também incontáveis intérpretes aqui se formaram e passaram a ser professores de seus instrumentos na mesma Casa de origem, assim como outros partiram da cidade e se transformaram em valores luminosos espalhados pelo mundo. Seria injusto mencionar algum e omitir tantos nomes, das centenas que nosso Conservatório formou ao longo do século.
Aproveito esta ocasião para festejar e aplaudir, junto à comunidade e o próprio Conservatório da UFPel, mais este aniversário que nos lembra a bela história da cidade de Pelotas e seu Conservatório de Música. Desejamos que estes 97 anos de vida artística e cultural continuem a ser de crescimento e força, como grande acervo que orgulhe o patrimônio cultural de nossa cidade!
Francisco Dias da Costa Vidal
Diário Popular impresso, 4-6-2015
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| Saudação especial de Olinda Alessandrini a Francisco D. C. Vidal, cronista por 50 anos |
Imagem 2 Ao Conservatório de Música, com os meus melhores agradecimentos pela cordial acolhida. Foi um prazer tocar para uma platéia tão distinta, calorosa e culta. Espero voltar ainda muitas e muitas vezes! Cordialmente, Arthur Moreira Lima. Pelotas, 21/IX/83 [História Iconográfica do Conservatório de Música da UFPel, p. 47]
Imagem 3 Para o querido amigo Francisco Vidal, sempre presente a todos os eventos culturais de Pelotas, e que representa para mim, além de um grande amigo, uma grande presença ao apoio e estímulo a todos os artistas. Fico sempre encantada com seu sorriso afável, seu aplauso caloroso e seu entusiasmo. Com grande afeto, Olinda Alessandrini. 24.09.2003 [do caderno de autógrafos de Francisco Dias da Costa Vidal]
terça-feira, 9 de junho de 2015
8ª FestiPOA homenageia Vítor Ramil

"Vitor Ramil: Nascer leva tempo" é um estudo de autoria do professor Luís Rubira sobre a obra musical de Vitor Ramil, que será lançado este mês, na FestiPoa Literária 2015. A obra tem o subtítulo "Identidade, autossuperação e criação, de Estrela, estrela a Longes" e é editada pela Pubblicato, que divulga a seguinte resenha.
Luís Rubira é professor da UFPel e já publicou, como autor: "Nietzsche: do eterno retorno do mesmo à transvaloração de todos os valores" (2010), "Sepé Tiaraju e a Guerra Guaranítica" (2012) e, como organizador, os 3 volumes do Almanaque do Bicentenário de Pelotas (2012-2014).
Um livro sobre Vitor Ramil, artista cuja obra desloca-se como a linha do horizonte? Ou um esforço para compreender um processo artístico, um percurso interior e uma concepção de “identidade” que considera o sul do Brasil como um lugar que está “no centro de uma outra história”?
O ensaio que agora vem a público graças ao apoio do Fumproarte não tem a pretensão de enclausurar Vitor Ramil em conceitos, mas busca mostrar uma parte do itinerário do músico, compositor e escritor cuja arte, nas palavras do prefácio de Luís Augusto Fischer, “o tempo vai consagrar como uma das maiores experiências estéticas que o Rio Grande do Sul já teve”.A 8ª Festa Literária de Porto Alegre abre formalmente na próxima segunda (15-6) às 19h, no Bar Ocidente, destacando o escritor homenageado este ano, o pelotense Vítor Ramil, que fará show dia 16 no Teatro CIEE. O grande evento dura até o dia 23 de junho.
Luís Rubira é professor da UFPel e já publicou, como autor: "Nietzsche: do eterno retorno do mesmo à transvaloração de todos os valores" (2010), "Sepé Tiaraju e a Guerra Guaranítica" (2012) e, como organizador, os 3 volumes do Almanaque do Bicentenário de Pelotas (2012-2014).
Fonte: Facebook
domingo, 24 de maio de 2015
O grito de Tarzan, nosso herói ingênuo
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| Nos filmes, o amor e o heroísmo garantindo a felicidade. No mundo real, a perigosa e implacável lei da selva. |
Há muitos anos, guri ainda, lembro-me quão difícil era adquirir o ingresso para se assistir a mais uma aventura de Tarzan, Jane e Chita [1932-1948]. Pouco mais tarde, como convinha à lei da vida e da selva, a família se completou com a chegada de Boy (O Filho de Tarzan, 1939).
Foi na época em que não se havia descoberto a fila e a irracionalidade imperava: tirava primeiro o ingresso quem tinha mais força. Assim como na "lei da selva", as pessoas se empurravam, competindo, e ganhava o mais forte.
Só com a Segunda Guerra Mundial [1939-1945] as pessoas passaram a se organizar em filas: o último a chegar entrava na cauda. Assim os alimentos eram distribuídos nas zonas de conflitos. E o mundo passou a usar a fila como mais uma coisa da civilização.
Mas Tarzan valia esperar-se por longos minutos para se retirar o ingresso, na fila dos cinemas. Era quando aconteciam as "enchentes", como se dizia na época toda vez que surgia um grande filme, sucesso de bilheteria. E Tarzan e Jane eram sempre sucesso garantido.
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| O amor modelo de Tarzan e Jane (1934), uma forma de driblar a tragédia social. |
Com profunda nostalgia evoquei aquele mito, que serviu de paradigma aos meninos de minha geração. Quem não subia nas árvores ou deixava de imitar o grito de guerra do inesquecível personagem? Os meninos e o público de então "se amarravam" naquele homem destemido, de físico formidável (o ator era campeão olímpico de natação), que vencia os inimigos andando de cipó em cipó [v. filmografia de Weissmuller].
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| A família macaco nos cipós (1942): na Guerra, os filmes de Tarzan eram anuais. |
Então evoquei o que alguns da roda também tinham assistido: certo dia, há alguns anos, a televisão apresentou Johnny Weissmuller, já velho, como recepcionista de um hotel famoso [trabalhou em 1973 e 1974 no Caesars Palace de Las Vegas; v. história completa, resumo no sítio DW, e vídeo abaixo de 1969, em inglês]. O repórter que o entrevistava pediu-lhe que repetisse o grito de guerra, que todos lembram, do personagem que encarnou como ninguém, desde os anos 30.
Solícito, o ex-ator resolveu atender o pedido e, num visível esforço, tentou repetir aquele grito cheio de vida, juventude e força que o fez único nas telas. Mas ouviu-se apenas um lamentável grunhido, que matou, naquele momento, desapiedadamente, dentro de muitos como eu, um herói que ainda estava vivo em minhas reminiscências. Nunca mais esqueci aquele grito triste e alquebrado que representou, para todos os saudosistas, o Canto do Cisne de um Herói, que levou consigo um tempo glorioso que não vai voltar nunca mais.
Rubens Amador
Diário da Manhã, 24-5-15
Diário da Manhã, 24-5-15
Brincando, Weissmuller tenta repetir o grito de Tarzan...
em vão, pois se tratava de um efeito de áudio, fabricado em estúdio.
Fotos: Pinterest
em vão, pois se tratava de um efeito de áudio, fabricado em estúdio.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Depois da chuva, as pessoas iam para o céu
Quando eu era criança, ao ouvir barulho nas alturas, entre carregadas e negras nuvens, minha mãe dizia: "Deus está arrumando a casa". Eu olhava para cima apurando o olhar, ansioso para ver alguma coisa se destacando no céu.
Quando a tormenta passava, fixava-me nas nuvens brancas que se ofereciam à vontade de Deus. Meu pensamento nelas plasmava imagens de santos, anjos e de pessoas que, apressadas, punham escadas que se erguiam em direção às nuvens, nelas se perdendo.
Manoel Soares Magalhães
Facebook 30-1-15
Facebook 30-1-15
Na ilustração (dir.), pintura naïve de autoria de Manoel, representando uma dessas visões do menino imaginativo que já pensava na vida e na morte, e no papel divino em relação às culpas e à dor humana. Como seria a casa de Deus? Quem estaria convidado a visitá-la?
O escritor e jornalista recorreu às artes plásticas como forma de narrar a história sentimental de Pelotas, que aos pesquisadores custa descrever. Há cerca de uma década, ele pinta, ao modo ingênuo, o lado escondido do sofrimento escravo no século XIX e o lado trágico da riqueza que deu fama à assim chamada Princesa do Sul.
Em 2015 Manoel se encontra em produção de novas pinturas, agora mostrando o universo literário simoneano, também alusivo a uma realidade social do século XIX pouco estudada pelos historiadores. Veja algumas de suas telas neste álbum de fotos, na Série Aparições, no álbum Obras à venda e em postagens deste blogue.
O escritor e jornalista recorreu às artes plásticas como forma de narrar a história sentimental de Pelotas, que aos pesquisadores custa descrever. Há cerca de uma década, ele pinta, ao modo ingênuo, o lado escondido do sofrimento escravo no século XIX e o lado trágico da riqueza que deu fama à assim chamada Princesa do Sul.
Em 2015 Manoel se encontra em produção de novas pinturas, agora mostrando o universo literário simoneano, também alusivo a uma realidade social do século XIX pouco estudada pelos historiadores. Veja algumas de suas telas neste álbum de fotos, na Série Aparições, no álbum Obras à venda e em postagens deste blogue.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
IV Seminário sobre Fotografia
O programa do 4º seminário Fotógrafos Históricos aborda, além dos autores históricos (europeus, russos e norte-americanos), outras relações entre a história e a arte da fotografia. A primeira edição deste evento acadêmico realizou-se em junho de 2011 (v. cartaz). O segundo foi em julho de 2013 (v. programa) e o terceiro, em junho de 2014.
Um dos trabalhos de 2015 se refere à nossa cidade: "Fotografias dos Almanaques de Pelotas (1913-1935): indícios da condição feminina naquele contexto", de Paula Garcia Lima, professora da UFPel que publicou recentemente, na revista do Centro de Artes Paralelo 31, o artigo Memórias do gênero feminino e do trabalho a partir dos Almanachs de Pelotas 1913-1935 (clique no título para ler). Hoje mestre e doutoranda em Memória e Patrimônio, Paula já havia apresentado, no seminário de 2011, um estudo sobre fotografias do Parque Souza Soares.
Inscrições gratuitas no Centro de Artes (sala 301, Alberto Rosa 62) ou na hora do evento, 18h (Museu Leopoldo Gotuzzo, General Osório 725). O cartaz com o programa deste ano usou uma foto de 2009 da retratista americana Annie Leibovitz (v. Wikipédia).
Um dos trabalhos de 2015 se refere à nossa cidade: "Fotografias dos Almanaques de Pelotas (1913-1935): indícios da condição feminina naquele contexto", de Paula Garcia Lima, professora da UFPel que publicou recentemente, na revista do Centro de Artes Paralelo 31, o artigo Memórias do gênero feminino e do trabalho a partir dos Almanachs de Pelotas 1913-1935 (clique no título para ler). Hoje mestre e doutoranda em Memória e Patrimônio, Paula já havia apresentado, no seminário de 2011, um estudo sobre fotografias do Parque Souza Soares.
Inscrições gratuitas no Centro de Artes (sala 301, Alberto Rosa 62) ou na hora do evento, 18h (Museu Leopoldo Gotuzzo, General Osório 725). O cartaz com o programa deste ano usou uma foto de 2009 da retratista americana Annie Leibovitz (v. Wikipédia).
Fonte: Facebook
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