terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

História de um pardal (crônica)

Rubens Amador atuou por mais de quarenta anos como cronista literário e jornalístico. Produziu dois mil e tantos trabalhos, como colaborador na imprensa diária pelotense. Em 2008 e 2009, o blogue Amigos de Pelotas publicou alguns textos seus.

Enquanto não se edita uma coletânea de suas antigas crônicas, o autor compartilha algumas conosco. Entre suas preferidas está o seguinte relato de memórias, daqueles que deixam pensando pelo resto da vida. Situado nos anos 30, foi escrito e publicado na década de 1980, mas vale a pena reler, por seu sabor de permanência.



Crônica sobre um pardal
Passou-se já longo tempo! Teria eu meus quatro ou cinco anos de idade. Meu tio Leôncio estava condenado a morrer de tuberculose.

Naquele tempo era assim. Não havia o pneumotórax, a hidrazida ou os antibióticos. Os bem abonados economicamente procuravam cidades altas, como Campos do Jordão, ou iam para as Minas Gerais. O ar rarefeito desses lugares exigia menos movimentos respiratórios dos pulmões e, este fato, aliado a uma alimentação rica, ensejava, em muitos casos, uma maior chance de cicatrização das cavernas pulmonares.
Os doentes daqui, sem muitos recursos para buscarem uma possibilidade de cura em clínicas distantes e caras, iam para nossa campanha mesmo ou para lugares que a elas se assemelhassem. Procurava-se o ar puro para quem o estava perdendo dia a dia.
Foi o que fez minha avó com seu filho doente, que adorava. Alugou uma chácara, parece-me que na Cascata, e para lá levou seu primogênito. Meu tio era uma criatura boníssima e paciente. Era magro, alto e jovem. Lembro-me muito bem dele com sua barba negra e bem cuidada que, apesar disso, aumentava-lhe o aspeto de doente. Mas ele tinha muito orgulho de sua barba e não a tirava por nada.
Um belo domingo meus pais foram visitá-lo – durante uma tarde – levando-me com eles, que era seu filho caçula.
Eu brincava por entre o pasto do terreno, nos fundos da chácara, onde havia muitas árvores frutíferas.
Em dado momento meu coração pulou forte, de surpresa e alegria! Eu vira um filhotinho de pardal – que ainda não voava – no chão, saltitando, e lembro-me que não foi muito difícil correr atrás dele e pegá-lo.
Oh, tempos dourados que nossa mente tão nova tudo grava, de maneira indelével! Aquele passarinho era a primeira coisa realmente minha. Atingia, por isso, naquele momento, um significado extraordinário para mim. Representava uma posse e uma vitória, que só a tenra idade da inocência podia emprestar àquele acontecimento tão banal.
Corri para casa, a uma dezena de metros de onde eu me encontrava, trazendo desajeitadamente a frágil ave entre minhas pequeninas mãos, meio assustado e desconfortável com as bicadas com que o animalzinho procurava se defender. Mas não o larguei, afinal era meu primeiro troféu.
Tio Leôncio foi a primeira pessoa que encontrei. Estava sentado, tomando sol em uma cadeira nos fundos da casa e provavelmente, reparando por mim enquanto eu descobria aquele ambiente totalmente novo.
Mostrei-lhe o pássaro que “caçara”, com sensação de vitória e fortuna, representadas por aquele pardalzinho cativo em minhas mãos. Meu tio me elogiou pela minha coragem, e disse-me que aquele pássaro (um pardal!) era muito bonito. Agora ele já o segurava, enquanto eu o cercava excitado.
“Rubens”, disse-me. ”Só tem uma coisa: ele é muito pequeno ainda, precisa ser alimentado por sua mãe e seu pai, para crescer. Tem que aprender a voar com eles. Por isto se deixou pegar. Está indefeso.”
Um sentimento de desolação – lembro-me – tomou conta de mim. Perguntei-lhe aflito: “Vou ter que soltá-lo?”
Meu tio piscou-me um olho e tranquilizou-me: “Mas eu sei de uma simpatia que, quando este pardalzinho estiver pronto para voar e alimentar-se sozinho, ele vai voltar para ti um dia...”
“Como?” – indaguei ansioso. “Olha o segredo (respondeu-me com voz entre baixa e misteriosa): vai ter de ficar entre nós para sempre.” E continuou: “A gente coloca três pedrinhas de sal na cauda dele e aí solta-se o passarinho perto de uma árvore; quando estiver adulto, grande, ele volta e o pegas de novo.”
Concordei logo, ante tanta sapiência. Ansioso o vi levantar-se, e com passos lentos ir até a cozinha, onde apanhou o saleiro. Retirou algumas pedrinhas maiores de sal e colocou-as entre as penas da cauda do pássaro. Eu a tudo observava, segurando o animalzinho – honrado – enquanto ele fazia aquela simpatia secreta que traria meu pardal de volta, um dia.
Pouco tempo depois, meu tio morreu. Fomos todos lá onde ele dormia para sempre. Alguém chorava baixinho. Guardo na lembrança a sua face morta, que, hoje percebo, muito se assemelhava à de Che Guevara também sem vida, na maca.
Adulto, nunca me esqueci daquele agradável incidente ocorrido entre as minhas primeiras experiências positivas no aprendizado que todos fazemos, aos poucos, na Universidade da Vida.
Sempre que vejo um pardal adulto saltitando entre as pedras da rua a catar um grão qualquer, pergunto-me se não será aquele que foi meu, em um dia distante, numa posse tão fugaz, e que agora finalmente estaria voltando.
Afinal, dentro da gente, sempre fica a parte melhor da criança que fomos um dia.
Rubens Amador
Fotos da web (2-4) e A.T. Vidal (1)

4 comentários:

Anônimo disse...

Em que pese a imodestia, eu pediria ao diretor do Blogue Pelotas Cultural, o Psicólogo Francisco Antonio Vidal, que, particularmente fez uma apreciação interpretativa de minha modesta crônica e me enviou, que publicasse a dita interpretação que, acheia-a excelente, e que esclarece o subterrâneo daquele incidente ocorrido comigo na infância. Acho que a interpretação do competente Psicólogo já é também uma atração literária para todas as pessoas de bom gosto e cultura,que, felizmente, compõe a maioria dos que acessam este blogue, que fazia falta em uma cidade como a nossa.Rubens Amador.

Francisco Antônio Vidal disse...

A crônica é uma sentida reflexão sobre a maturidade humana.

O menino se identifica com o pardal e precisa segurá-lo para fortalecer a autopercepção e a autoestima. Retê-lo significa permanecer com essa autoimagem, como as meninas retêm as bonecas. Teria bastado ao titio dar-lhe um pardal de brinquedo ou empalhado. Na falta do símbolo de si mesmo, ao menino teria servido outra representação ou até mesmo uma imagem mental ou uma palavra. Por identificação é que admiramos heróis, professores, pais, tios, atores, cantores, até chegarmos a uma autoimagem mais real.

No relato, o autor sugere uma admiração pelo tio, que pressupõe a identificação, em parte. Isso fica mais claro quando o compara com o Che Guevara, médico e guerrilheiro. Ao mesmo tempo, certa frieza com a morte desse mesmo tio esconde a raiva por ter-lhe tirado o passarinho e junto com ele o símbolo de si mesmo. Como o Che, o tio morreu jovem deixando um ensinamento positivo (deixar viver o eu) e uma grande dor (não posso amar meu eu).

O pardal adulto, que simboliza nossa sonhada “maturidade” (licença para ir ao céu) sempre reaparece na vida, mas nunca será agarrado no sentido de “detido” (até porque o tio não permitiu), para que a evolução possa continuar sempre. Prendê-lo seria parar de crescer. O ensinamento ia para o adulto em formação, e a criança não soube entender, por ter um funcionamento mais simples e indefeso.

No entanto, o passarinho tem voltado sempre, nos pardais adultos, para recordar que o crescimento tem existido e seguirá progredindo. Nunca se está maduro, pronto, na vida. A pergunta da criança é "será que agora posso ficar com ele, titio?" O adulto sempre dirá: ainda não, temos que seguir crescendo. Mas como a expectativa do menino é possuir o seu próprio símbolo, podemos dizer-lhe: sim, fica com o pardalzinho, tu és ele mesmo. Ele está em ti e se encontra com os adultos agora.

O pássaro também simboliza o espírito humano, que precisa ser livre sempre, voar indefinidamente (Fernão Capelo Gaivota), enquanto a criança, de pensamento concreto e imediato, precisa de referências mentais rígidas e seguras.

Tear de Sentidos disse...

Liiiido texto, Sr. Rubens! A infância... talvez o melhor de muitos de nós!
Insisto: publique suas crônicas! Precisamos de escritores como o sr. na cidade!
Quanto ao texto do Francisco, excelentes comentários!
Sugestões: O Sr. Rubens escreve, Marcos Macedo publica e o Franscisco faz a Apresentação do livro!
Nós, leitores, sairemos ganhando! Pense e repense nisso, sr. Rubens! Procure um editor!
Bj, Tê!
Ps: assim que fizer o "roubo" do texto, comunico, rsrsr!

Anônimo disse...

Gostaria que vc seguisse meus blogs! vc é quem sabe! se vc quiser os nomes são: www.portalisatkm123.blogspot.com e www.pandacriticas.blogspot.com! adorei o seu blog e espero que a ideia de tear aconteça! Eu te imploro que siga meu blog!

Beijos,
Panda