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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Casarões não têm direito a eutanásia

A velha casa na esquina da Almirante Barroso com Sete de Setembro já sofreu abandono, destruição, incêndios, furtos, invasões, mas suas paredes ainda resistem. Ninguém a destrói nem a conserva, como doente terminal. Devido à sua antiguidade semissagrada, não está permitido tocá-la nem demoli-la, somente restaurá-la (das cinzas) ou observar seu lento desaparecimento.

Após princípios de incêndio, foram colocadas proteções, que não impedem a entrada de delinquentes e usuários de drogas. Em agosto de 2013, um rapaz roubava fios de cobre no meio da fumaça e foi detido (v. foto). Devido à falta de telhado, já nem moradores de rua usam o espaço.

O aspecto quase infernal de castelo queimado atemoriza vizinhos e passantes. Esta segunda (7-04), o fotojornalista registrou a cena que demonstra a insegurança cotidiana e o descaso geral ante mais uma ruína urbana.

Na redondeza, situa-se um hotel de luxo, uma sede da Brigada Militar, o INSS, uma lotérica, um posto de gasolina, restaurantes e residências, mas nada foi nem será feito, como já ocorre com antigas casas de esquina: o casarão Mendonça, na Gonçalves Chaves com Sete de Setembro (v. nota), o Castelo do Major na Quinze de Novembro (v. nota), a antiga residência da família Assumpção Nascimento, na Barão de Butuí com Santa Cruz, e a velha casa da rua Anchieta com Tamandaré (v. nota).
Foto: M. Ávila

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Prefeito Leite entrou no Sete de Abril


Prefeito, vice-prefeita, secretária de cultura e assessores visitaram o Teatro Sete de Abril, interditado em março de 2010, para ver com seus próprios olhos a situação estrutural e as decisões a serem tomadas. Tudo era já sabido, pelas informações prévias dos técnicos, mas a visita mostrou à comunidade o interesse pessoal do prefeito pela reabertura do teatro, o que significa a vontade política de que as coisas aconteçam (dizem os fazendeiros que o gado engorda sob o olho do dono).

No governo Fetter, a Prefeitura emitiu alguns vídeos de fundo publicitário, para promoção dos serviços municipais. Com o governo Leite, a mesma Assessoria de Comunicação (ASCOM) está produzindo vídeos jornalísticos de um minuto com notícias diretamente relacionadas com o prefeito, o que tem também um sentido de divulgação mas se faz mais cotidiano e verossímil.

Quanto ao Sete de Abril, Fetter Jr. avançou na comunicação com o Ministério da Cultura no último ano de seu governo, mas sempre foi claro que seu interesse era pelo prédio e não pelas atividades culturais nem pelos artistas. Ainda em 2010, eu mesmo me dirigi, máquina fotográfica em mão, à direção do Teatro para pedir uma visita de conhecimento, em nome da comunidade, e a diretora Annie Fernandes me explicou que os procedimentos eram demorados e não era possível nem necessário que o público visitasse o interior do Teatro, e muito menos tomar fotos. Essa era a postura do governo Fetter, de não vibrar com a ansiedade das pessoas pelo estado de seu teatro.

Em 2013, o novo prefeito vem mostrar que, pelo menos, tem a mesma ansiedade. Veja a notícia Prefeito faz visita técnica com texto e 7 fotos. Os jornais diários da cidade foram chamados para que a população conhecesse o estado do Teatro, e ambos fizeram reportagens especiais.

Com o descuido, a madeira apodrece e a cultura se ressente.
O Diário da Manhã seguiu o tom otimista da ASCOM, com a manchete: "Recuperação do Theatro começa em 60 dias". Um parágrafo na capa esclarece que o prédio foi aberto "para visita da imprensa". O jornal fez matéria própria, com fotos especiais (o de praxe é veicular as notícias emitidas pela Prefeitura).

Veja as fotos de Eduardo Beleske para Zero Hora.

O Diário Popular usou um tom trágico e alguns trocadilhos teatrais: Theatro Sete de Abril vive o drama real do abandono. 

Abaixo da manchete de capa, a chocante fotografia de Marcel Ávila faz o "resumo da ópera": a preciosa casa está caindo aos pedaços, e piora a cada dia. Seria por isso que a gestão anterior não deixava ninguém entrar?

Na edição impressa, o título da reportagem frisa que a falta de manutenção estraga o material, dia a dia: "Os efeitos da interdição crescem e aparecem".

Próximo a um tom poético (impróprio neste caso), o editor web do Diário introduziu nessa manchete uma rima e duas palavras simbólicas: Os efeitos da interdição crescem no silêncio e na escuridão. O sítio do jornal abunda em fotos mas o conteúdo não atribui responsabilidade a ninguém; no máximo, o apodrecimento do Teatro se deve ao clima de Pelotas e à demora da burocracia. Portanto, bola pra frente.
Foto: M. Ávila (DP)

domingo, 8 de maio de 2011

O portão de Vila Noêmia, 90 anos depois


A imagem acima, tomada por mim em abril de 2009, seria uma possível participante na Mostra Fotográfica Pelotas satoleP, anunciada para julho próximo (veja a nota), com a intenção de revisitar os lugares da cidade fotografados por Brisolara em 1920 e utilizados na ficção histórica "Satolep", de Vitor Ramil. No entanto, a foto não cumpre os requisitos da convocação, e fica aqui como estímulo aos possíveis participantes.
Trata-se da "Villa D. Noemia", casa construída em 1919 por Jorge Campello Duarte, ficando popularmente conhecida como Castelinho Duarte. Jorge era filho de Plotino Amaro Duarte, diretor e principal acionista do Banco Pelotense, que existiu entre 1906 e 1931.
Assim como o registro de Brisolara da casa recém construída (esq.), a foto mais recente também se reveste de valor histórico, pois o prédio em ruínas não existe mais (veja a nota Sumiço de um casarão). A nossa riqueza econômica e a aristocracia local se pulverizaram, restando alguns prédios restaurados para contar a história.
Ao longo do tempo, a decadência econômica de Pelotas foi deixando lembranças esparsas, mediante documentos, prédios e ligações familiares, e hoje ainda restam traços das glórias passadas.
Um século tem sido pouco para a sociedade pelotense aprender a aceitar as perdas gradualmente sofridas. Somente com o reconhecimento e a tolerância das próprias limitações poderemos utilizar nossas capacidades reais e ressurgir como um foco de riqueza humana.

domingo, 27 de junho de 2010

Ruínas urbanas

Numa cidade em progressivo empobrecimento, são mais as casas em ruínas do que as bem conservadas ou as recém construídas. Em Pelotas, a falta de recursos para construir e preservar deixa alguns terrenos abandonados por seus donos, expostos ao vandalismo e à intempérie.
A casa acima, no bairro do Porto, só manteve parte da fachada, sem telhado, com o espaço das janelas introspectivamente preenchido com tijolos.
A imagem abaixo, de uma zona mais nobre, mostra abertamente o vazio total, sem mais obstáculos que um elegante portão transparente.

domingo, 30 de maio de 2010

Ruínas coloniais à espera de um resgate

Casarão com feições coloniais estava abandonado em 2006, ainda com telhas.
Em 2008, plantas saíam pelo espaço deixado pelas telhas.
Perto do ano 2006, o administrador de empresas Saul Moura dos Santos adquiriu o abandonado e ruinoso casarão dos Mendonça (Gonçalves Chaves esquina Sete de Setembro).

Segundo a notícia do Diário Popular (leia), a prefeitura havia dado dois meses de prazo para fazer as contenções que impedissem ações vandálicas (acima), e um arquiteto (Pierre Prestes) preparava um projeto de reforma.

A casa ficou protegida contra invasões, mas seguiu deteriorando-se pelo abandono, até abrir-se um rombo no telhado, que aumentava dia a dia. Em 2008 as árvores cresciam, dentro das salas, e eram regadas pelas chuvas.

Fachada principal, começando a descaracterizar-se (2010)
Em fevereiro de 2009, num post sobre uma casa abandonada (leia), um leitor sugeriu no blogue que pesquisássemos sobre o casarão dos Mendonça.

Em julho desse ano, o jornal acima citado afirmava que até dezembro o referido prédio estaria pronto para o início da obra (leia). Operários haviam retirado as árvores, a calçada já estava liberada para os transeuntes e os acessos da casa seguiam bloqueados. Na edição de 20 de julho, uma antiga moradora foi entrevistada e a reportagem incluiu até um histórico do prédio. Mas no fundo nada havia mudado.

Corredor de entrada, visto pela porta principal (2010)
No comentário aqui no blogue, o nosso leitor anônimo dizia que o valor deste casarão reside na arquitetura colonial lusitana, da qual há pouquíssimos exemplares conservados em Pelotas, que justamente foi habitada em seus inícios por imigrantes portugueses.

Os casarões que fazem a fama e os louvores da cidade - e que é muito mais caro cuidar - são de tipo eclético, mais recente e de menor pureza artística. A construção colonial remete diretamente aos açorianos que primeiro chegaram a Pelotas, o que tem maior valor histórico e maior profundidade afetiva para nossa cidade e cultura.

Mais um ano transcorre e a antiga casa segue deteriorando-se por dentro e por fora, como mostram as duas últimas fotos deste post, tomadas em maio de 2010. Numa delas (acima), vê-se a porta principal (na verdade, um portão metálico improvisado, pois a original apodrecei). De uma abertura nessa mesma porta, podem ver-se azulejos e lajotas expostos à intempérie (dir.).
Fotos da web (1-2) e F. A. Vidal (3-4)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Passa a bola: o futebol da vida

Sábado passado (13), o filme "Futebol, Sociedade Anônima" (2009), da produtora Moviola, conseguiu um verdadeiro prêmio: ser exibido na televisão para milhares de espectadores, no segmento "Curtas Gaúchos", da RBS. Até agora, este trabalho de Cíntia Langie e Rafael Andreazza só havia sido projetado em ocasiões especiais, nunca em cinemas regulares nem na internet.

A equipe criativa tratou um tema humano universal num local assumidamente pelotense, cotidiano e atual: o bairro Simões Lopes, na fronteira entre o centro e a periferia, entre a vida e o abandono. Na estação férrea em ruínas, um sonhador de outra época ainda espera o trem. No jogo da vida, as emoções e o desespero para conseguir coisas reais. A denúncia não poderia ser mais clara e ao mesmo tempo mais sutil.

No clipe musical que a mesma equipe produziu, um irônico Edu daMatta dá conselhos enganosos aos pelotenses: não espere o trem, esqueça seus ideais, não se apaixone, fique na zaga, deixe os outros fazerem o gol, não fale com o motorista, tente agradar a sua mãe e ao diabo. Será que alguém vai se dar conta desses impossíveis e fazer o contrário?


Se você vê que isso não dá pé,
Não deixe uma pétala na flor de bem-me-quer
Para saber se ela ainda te ama.

Não meta a mão no fogo por ninguém
E não pergunte informação ao maquinista deste trem
Para saber se ela foi embora.

Passa a bola, Mané,
Que tu não tem as perna torta nem chuta no gol
E no teu time todos querem ser o Dez.

Não meta a mão no fogo, meu irmão,
Tu vai encontrar outra mulher,
Como a tua mãe queria, como o diabo quer.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Por que Pelotas não quer shoppings?

O leitor Gilvane Ferreira Garcia, pelotense residente em Porto Alegre, fez aqui no blogue uma reflexão para despertar respostas, em busca de entender qual seria nosso impedimento para crescer como o resto do mundo. Isso foi em junho de 2009. Como não houve reações, recoloco o assunto, que seguirá em próximas postagens, analisando aspectos do mesmo problema.

Quando Pelotas terá um "shopping center de verdade"?

As respostas mais típicas à pergunta dele (em azul, acima) costumam ser negativas:
– Nunca, pois os grandes empresários locais não permitirão competidores.
– Pelotas não precisa de shoppings para valorizar-se e crescer.

O tema dos shoppings é polêmico e de complexa resposta. Incomoda a muitos pelotenses, por evidenciar uma tendência ao estagnamento econômico, paradoxo vergonhoso para a que foi cidade rica até inícios do século XX.

Pelotas está hoje povoada de ruínas de centros comerciais –como a carcaça inacabada na Bento Gonçalves com Santos Dumont (dir.) – e de amplos terrenos baldios que esperam dias de glória.

Alguns poucos se dão conta de que as contraforças que impedem o progresso provêm desde dentro de Pelotas... mas nada podem fazer. Outros parecem aprovar a falta de shoppings, que representariam a banalidade, o consumismo e a invasão de multinacionais. O "consolo" nesse caso não ajuda, pois estas pessoas seguem sonhando com ideais.

Será uma resistência da elite empobrecida? Ou maldição que restou das charqueadas? Um exemplo antológico de abandono é o edifício inconcluso (abaixo), que ia ser um centro comercial, enorme lixo urbano em pleno centro histórico, há uma década levantando a bandeira da decadência (que paradoxo).

A seguir, uma condensação do texto que o leitor propôs ao debate.

Dizem que Pelotas é um "shopping a céu aberto"; que tem um comércio pujante; que abarca quase "um milhão de habitantes" da região que a cidade centraliza; enfim, teoricamente Pelotas reúne todas as condições para sediar um centro de compras na modalidade de shopping center.

Por que Pelotas até hoje não recebeu de uma grande rede desse segmento uma atenção direta ? Vários foram os projetos apresentados. Várias vezes foi anunciado que, enfim, Pelotas teria o seu shopping. Até "coquetel de lançamento ocorreu no Dunas", pelo que li no "glorioso" Diário Popular. Porém, na prática, nada avançou.

Enquanto isso, o que se vê ? Cidades de menor representatividade – seja em população, seja até em poder econômico, até mesmo pelo tamanho – já contam com centros comerciais. Canoas amplia o seu shopping; Novo Hamburgo terminou recentemente a ampliação do seu; Santa Maria inaugurou ou está prestes a inaugurar o seu; Passo Fundo está ampliando o seu já conhecido e bonito " Bella Cittá", e por aí vai.

E Pelotas, até quando? Alguém teria uma explicação, plausível ao menos, para esse "retrocesso e por que não dizer, ostracismo comercial da cidade"? Gostaria de ouvir a opinião do segmento empresarial da cidade e região.

Já que nenhum grande grupo manifestou interesse, façam como Passo Fundo: eles construíram um shopping para a cidade com dinheiro da "terra". Pelo que sei, dinheiro não seria o problema, mesmo porque há empresários pelotenses investindo nesse setor, em Gramado, Nova Petrópolis etc.

Abraços, Gilvane Ferreira Garcia, 19/06/09 22:57

Fotos de F. A. Vidal

domingo, 3 de maio de 2009

Sumiço de um casarão

Seguem minhas visões de Satolep em ruínas. Hoje foi nossa casa que eu vi: telhado e muro desabados; a face norte destruída, sala, copa e cozinha entregues à ventania; a porta de entrada caída sob plantas tortuosas, entre os tijolos expostos da fachada. Não restavam marcas da nossa família.
Satolep, p. 72.
Poucos metros ao sul do Castelo Simões Lopes, pela Avenida Brasil, encontrava-se a residência de Jorge Campello Duarte. O casarão, conhecido como “Castelinho Duarte”, foi construído em 1918, quando seu dono tinha 26 anos e denominava-se Villa D. Noemia, em honra de sua esposa Noêmia Alves Pereira.
O Almanaque de Pelotas 1919 mostra duas fotos do prédio recém construído, tomadas por Brisolara, e o descreve como um chalet de estylo suisso.
Vítor Ramil começa o livro “Satolep” com uma dessas fotos (dir.) e o texto em epígrafe (acima). Descreve seus habitantes fictícios e fala do lugar, simplesmente, como o sobrado de alguma família abastada (p. 98) , situado entre o Canal de São Gonçalo e um castelo em construção (alusão ao Simões Lopes).
Tomei a foto acima em 5 de abril passado, quando a "profecia das ruínas" já se havia cumprido. Se Ramil viu a casa há uns 10 anos para inspirar-se, ela devia ter ainda o segundo piso estruturado e um pequeno muro e árvores na frente, mas em total abandono, bem como na foto abaixo.

Jorge Duarte foi um dos filhos de Plotino Amaro Duarte, fundador do Banco Pelotense. Sua irmã mais velha, Hilda Campello Duarte, casou-se em 1906 com Augusto Simões Lopes, filho caçula do Visconde da Graça e prefeito de Pelotas em dois períodos.
Na ficção de Satolep, o protagonista se confunde com os habitantes dessa casa e encontra o relato do início, escrito supostamente pelo filho mais velho.
O texto profético hoje é história.
Há duas ou três semanas, uma ação organizada por vizinhos do bairro terminou definitivamente com as ruínas que já davam ao lugar um aspecto tétrico. Na foto abaixo (dir.), a visão que os fantasmas dos moradores teriam da casa em frente, há um mês.
Até então, somente restavam algumas paredes e tijolos jogados pelo chão, cavalos e vacas pastando ao redor. Agora aqueles restos mortais se distribuíram pelo bairro como as cinzas de um morto que são jogadas ao vento; os vizinhos ficaram com as tábuas, tijolos e o resto do lixo que ainda sobrava.
Coincidentemente, naqueles dias havia falecido Augusto Simões Lopes Neto, e uma procissão de amigos e familiares caminhou da antiga propriedade familiar (o castelo Simões Lopes) até o São Gonçalo para ali depositar as cinzas do neto do ex-prefeito.
A cidade conserva e restaura alguns prédios mais visíveis, mediante recursos econômicos que hoje não possui. O Banco Pelotense deixou seu suntuoso prédio ao Banrisul, nos anos 1930. Mas não se vê uma real valorização do patrimônio, pelo exemplo desta casa cuja destruição foi "ajudada" pelos próprios pelotenses, como num tiro de misericórdia. Entre as ruínas e o pó (em que se converteu o patrimônio do Banco Pelotense), foi preferível ficar com o pó.
Fotos: F. A. Vidal (1, 4, 5), Cristina Moreira (3), Cosac Naify (2).

sábado, 18 de abril de 2009

Estação da tristeza

Há uns dias, vimos aqui no blogue um escuro diagnóstico de nossas vias férreas, com uma imagem de nossa ex-estação em total abandono (veja o post). Num dia de sol, já entrado o outono, pensei que a Estação Ferroviária em ruínas pudesse render uma foto que não fosse tão melancólica ou dolorosa como aquela, que era ao mesmo tempo de grande beleza.
Chegando à Praça Rio Branco, que é o nome oficial daquele espaço hoje vazio (dir.), vi a estação com suas linhas solenes, tão firme como sempre, bem iluminada de cima, mas com aspecto de réu perpétuo que foi dar um passeio ao sol. Como se não fosse expressiva sua deterioração, alguém escreveu na fachada a palavra "socorro" (clique na foto para aumentar).
Nenhum elemento muito animador parecia destacar-se visualmente, exceto alguns detalhes arquitetônicos oferecendo contrastes com o céu azul (acima à esq.).
Cada detalhe do lugar merecia uma atenção específica, que poderei tratar futuramente, mas vou destacar agora o seguinte.
Ao ver-me fotografando a antiga cobertura do lado interno, literalmente caindo aos pedaços (dir.), uma senhora que passava me dirigiu a palavra, em tom mais de censura que de lamento:
— O senhor está fotografando essa tristeza?
Sua expressão facial denotava incomodidade; seria pela intromissão do fotógrafo? A segunda frase definiu, sem mediar pergunta de minha parte, a quem se dirigia sua fúria:
— Foi o governo que deixou a estação nesse estado!
As pedras falam quando o povo cala, diz o Evangelho. Mas neste caso a voz do povo ainda se escuta com força. Só os governantes estão cegos e surdos.
Fotos de F. A. Vidal.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um blog que viaja no tempo

O Século XX é um blog feito em Pelotas, desde junho de 2008, abordando situações atuais e sobre a evolução tecnológica. Seu autor é Sérgio Fontana, engenheiro e meteorologista, que se autodefine como "viajante do tempo".

Entre assuntos históricos e conjunturais, ele integra a realidade local, nacional e internacional, tangenciando a história geral da humanidade. Às vezes mais científico, às vezes mais cultural ou sentimental, ele parece algo assim como um filósofo prático. Voa nas abstrações, como meteorologista, e caminha com o pé no chão, como engenheiro. Seus posts são variados e interessantes, precisando somente de um pouco de enxugamento ou concisão. Abordar o século vinte é um bom conceito, mas requer capacidade de síntese. A gente entende e topa a viagem.

Em 25 de março, ele se referiu ao transporte ferroviário no Brasil, deteriorado por decisões governamentais dos últimos 50 anos e agora em estado de sucateamento. Como ele diz, a privatização da malha ferroviária brasileira foi “um crime”. Ou, em termos mais poéticos: o incentivo desmesurado ao transporte rodoviário, e o consequente desincentivo ao ferroviário fez com que, aos poucos, os nossos trilhos enferrujassem e os nossos dormentes apodrecessem - literal e simbolicamente.

Após uns parágrafos explicativos, ele mostra uma impressionante imagem de Pelotas (veja o post). Em azul, as transcrições literais.

Em poder do capital especulativo, o sistema ferroviário brasileiro não foi contemplado, até hoje, com quaisquer melhorias na sua malha ferroviária que data do século XIX.
Não há uma política séria voltada para reduzir, paulatinamente, o tráfego de caminhões pesados pelas grandes rodovias, o que só pode ocorrer com a reconfiguração generalizada da rede ferroviária do país, onde os caminhões se destinem somente para transportar frações de carregamentos dos locais de produção aos terminais das linhas férreas, cabendo às composições ferroviárias o transporte pesado a longas distâncias, até os portos marítimos.

O retrato do descaso
Assim se encontram as construções que foram antes estações de trens [de passageiros] no Rio Grande do Sul.
A composição estacionada junto à antiga plataforma de embarque é da empresa que comprou os direitos de uso da malha ferroviária desta região. Aparentemente não há relação entre a tal empresa e o prédio que constitui o patrimônio público que fazia parte da RFFSA.
Por culpa das autoridades e pela ação do tempo e do vandalismo, acham-se em ruínas históricos edifícios, que muito bem poderiam estar "na ativa", se o Brasil fosse, de fato, um país sério.


Esta foto [que vale por mil palavras] é de Alfredo Rodrigues.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Castelo do Major

Visão lateral pela Conde de Porto Alegre
O casarão em ruínas que se encontra na esquina da Quinze de Novembro com a Conde de Porto Alegre, na parte alta de Pelotas mais próxima ao Canal São Gonçalo, desperta a imaginação, mesmo aos historiadores. Como um castelo em estilo medieval poderia encontrar-se nesta cidade, que teve seu maior desenvolvimento somente no século XIX?

A resposta leva à excentricidade de um militar e fazendeiro gaúcho com pendores sociais e artísticos. O terreno pertenceu ao major de exército Antônio Duarte da Costa Vidal, que lutou na Guerra de Canudos (1896-1897), no nordeste baiano, e uma vez reformado fixou residência em Pelotas e fez construir o sobradão segundo um modelo europeu (castelo da Baixa Idade Média, séculos XI-XV).

Segundo escreve Mario Osório Magalhães (v. artigo de 9-11-2007), o major Vidal já era proprietário de grandes terras na fronteira oeste do Estado (cidade de Itaqui), comprou o dito terreno da Quinze de Novembro em 1931 e mandou construí-lo em 1936 - o que ocorreu em etapas, pois ele viajava muito. Edificou outro parecido em Itaqui, hoje também abandonado.

Os documentos em que o pesquisador se baseia são um registro cartorial de 23-11-1928, segundo o qual a empresa Dias & Requião adquire o terreno da Intendência de Pelotas (Prefeitura Municipal), e outro de 28-10-1931, que anota a venda da propriedade da empresa citada ao major Vidal (v. artigo de 1-11-2007).

Aspecto atual (2009) pela Quinze
Não vi os documentos, mas me parece, por cálculo da idade do major, que esta construção deve ter ocorrido pelo menos uma década antes, nos anos 20. Na hipótese de ele ter saído do exército aos 35 anos de idade, recém teria levantado o castelinho aos 70?
Em todo caso, não se trata de um verdadeiro castelo, mas de um sobradão com porão e torre. Construí-lo fora de contexto, numa cidade do século XX, foi uma forma de sonhar com outras épocas e com personagens poderosos; talvez, um modo de chamar a atenção e de dar-se uma alta importância social. Em janeiro de 1931, já estava liquidado o Banco Pelotense (localizado, desde 1916, na Marechal Floriano com Andrade Neves), mas a cidade seguia mostrando riqueza.
A propriedade abandonada se encontra hoje num pântano jurídico, fruto de problemas legais, desentendimentos familiares e da incapacidade financeira para restaurar e manter em funcionamento uma obra tão grandiosa e sem o valor histórico que se supõe. Apesar dos traços medievais e do atual aspecto ruinoso, a casa não é mais antiga que o Grande Hotel (que acaba de fazer 80 anos).
Há interesse de historiadores, de imobiliárias e de cidadãos que valorizam o patrimônio, mas em Pelotas ainda as dificuldades superam as boas intenções.

Visão da fachada principal, pela Quinze de Novembro
Fotos: F. A. Vidal (1-2), D. Silva (3)

POST DATA
27-6-12 Há fotos de dentro da casa na Revista O Viés.
16-2-13 O Projeto Pelotas Memória reuniu fotos deste prédio no álbum Castelo da Rua XV.
24-4-14 
Na foto abaixo,Beto Fernandes limpou a fiação e os riscos no muro, obtendo um ar romântico e idealizado para o ângulo pela rua Conde de Porto Alegre (fonte: Facebook).


18-10-14 
No álbum de 2013 citado acima, o Projeto Pelotas Memória acrescentou duas fotos de 1989, tomadas por Marli Costa.
26-3-15
O prédio se encontra em obras e gerando comentários sobre seu novo destino (comercial). A informação foi lançada por Freitag Jr. Reformas não significam restauração, até pelo contrário: reformar é dar nova forma, e restaurar é dar de volta a antiga forma. A construção é dos anos 30 do século XX, uma fantasia de 500 anos no meio de uma cidade que, na época, ainda não tinha 200. 
Duas fotos de V. Lautenschlager (abaixo) comparam a deterioração do falso castelo ao longo dos últimos trinta anos (fonte: Facebook).
Na década de 1980                                   No ano de 2013

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Parte de uma cidade se resiste a cair


Pelotas tem muitas casas antigas que ainda não foram demolidas; algumas muito bem conservadas, outras em total abandono. Uma que se equilibra entre o desmoronamento e a integridade é a construção da rua Padre Anchieta 880, esquina Almirante Tamandaré, no bairro do Porto. Nos anos 80 aqui funcionou a redação do Diário da Manhã.

Há anos que ninguém habita neste casarão, a ponto de perder a integridade que parece ter vivido em outros tempos. Hoje ainda é uma sombra do que foi, como um idoso mendigo que se resiste a morrer, que insiste em honrar a lembrança de um passado digno.

Suas portas e janelas se bloqueiam, negando a realidade. Sua madeira podre não se desfaz, rígida em sua fragilidade. As plantas invasoras a despenteiam sem destruir seu teto.

Sua fortaleza é autossuficiente, mesmo que ninguém lhe traga vida e maquiagem. Quando colapsar, receberá atendimento. Mas quando isso ocorrerá?


Fotos: Flickr (2), F. A. Vidal (1, 3-4)