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sábado, 23 de janeiro de 2016

Pelotas e o Festival SESC

O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil acompanhou o desenvolvimento do Festival Internacional SESC de Música, na condição de Secretário da Cultura (v. nota neste blogue em 2013), e o segue fazendo como apoiador. Para a 6ª edição, ele incentiva o evento no artigo "Pelotas, o SESC e o Festival", elogiando a situação cultural pelotense e o esforço permanente na realização do Festival (dos organizadores e da comunidade local). 

É preciso dizer que em 2016, sob graves dificuldades financeiras no Estado, o Festival SESC segue sendo realizado com o mesmo empenho e brilho, mas não se trabalhou neste ano o foco da inclusão social, a diversidade musical ficou restrita aos repertório erudito (antes houve abertura ao jazz e ao choro) e não houve montagem teatral de uma ópera. Também devemos admitir que o Teatro Sete de Abril se encontra fechado para restauração desde o início do Festival, assim como o Salão Milton de Lemos, do Conservatório de Música.



Não é de hoje que digo: Pelotas é o ponto de transcendência do Rio Grande do Sul. Este meu conceito não decorre do fato de ser cidadão pelotense honorário - título que guardo com o maior orgulho - mas, sim, por conhecer a longa história cultural de uma cidade que se destaca no cenário brasileiro há quase dois séculos. Poderia referir vários exemplos desta intensa atividade, mas para ficar em apenas dois, lembro o Sete de Abril e o quase centenário Conservatório, este último responsável por várias gerações de músicos.

Também o SESC se notabiliza, em nosso país, como uma entidade que tem na cultura um foco permanente, responsabilizando-se pelas melhores promoções nesta área e suprindo, muitas vezes, aquilo que os governos não podem ou não querem assumir. Sou testemunha destas ações, e para ficar apenas no âmbito da minha atuação, a literatura, o SESC se faz onipresente, seja pela realização de dezenas de feiras de livro, seja pelos prêmios e eventos que promove.

Quando Pelotas – através da Prefeitura – e o SESC se unem, o resultado só poderia ser excepcional, e o símbolo maior é a realização deste 6º Festival Internacional de Música. Acompanho o Festival desde o início, de várias formas. A cada ano percebo que se consolidam algumas linhas-mestras que o definem: a permanente qualidade dos convidados, a internacionalização, a diversidade das estéticas musicais acolhidas, o número ampliado dos participantes, o profissionalismo de sua realização e, algo que muitos esquecem, a inclusão social que existe desde sempre. Esta é uma fórmula geral e intrincada, que implica tomada de decisões com um olho no que é desejável e outro no que é possível em termos logísticos e financeiros.

Registro aqui a operosidade de uma equipe que trabalha o ano inteiro para que tudo decorra com normalidade e excelência: o maestro Evandro Matté, competentíssimo diretor artístico; Sílvio Alves Bento, o incombustível gerente de cultura do SESC/RS; Luiz Tadeu Piva, o diretor regional, com sua presença atenta e inteligente. Isso não seria possível sem o apoio de Luiz Carlos Bohn, presidente do Sistema Fecomércio-RS. Cumpro o dever de fazer referência a uma legião de abnegados trabalhadores e, para representá-los, é incontornável citar a ação decisiva e onipresente da escritora Cleonice Bourscheid. Aliás, Cleonice e Aristóteles Boursheid são os melhores expoentes do mecenato artístico no Brasil. Obrigado a eles, e bom festival a todos.
Luiz Antonio de Assis Brasil
Foto: M.F.Soares

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A música e a cidade

Colunista de ZH Juarez Fonseca assina o artigo "Pelotas Jazz Festival, uma surpresa!", elogiando músicos, organizadores e especialmente o público pelotense, que com sua vocação e sensibilidade apoia as melhores iniciativas culturais.

Palco geodésico centralizou o festival na rua e unificou os músicos com o público.
Voltei de Pelotas ontem (23-11) impressionado com o impacto do Pelotas Jazz Festival, já em terceira edição. Impressionado com tudo: os shows, a organização, os locais e - talvez principalmente - o comportamento do público. Quê público! Tem tudo para se tornar um dos principais festivais de jazz do Brasil, para não dizer do Cone Sul. [...]

Último dia do Festival

O show de Naná Vasconcellos num Theatro Guarany lotado foi emocionante, histórico. Ele transformou o público em um instrumento, entre seus berimbau, tambores e chocalhos, recebeu aplausos de pé no meio da apresentação, deixou pessoas com um nó na garganta e saiu chorando do palco, profundamente tocado pela sinergia. Que grande brasileiro! Que grande músico! Que grande homem! Ele remeteu com delicadeza à triste memória dos negros das charqueadas, que ocupavam suas horas livres com música e inventaram instrumentos de percussão como o sopapo, que só existe no RS (v. crítica de Cristiano Castilho para a Gazeta do Povo, de Londrina: Naná faz show sobrenatural].

No palco externo, o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo, ao lado da flautista Léa Freire e do bandolinista Fábio Peron, um trio de altas esferas, mandou seu recado mesmo fazendo uma música menos afeita aos grandes espaços ao ar livre, cheia de improvisos e requintes [v. comentário de Roger Lerina: Pelotas é a cidade do jazz].

Mas o público pelotense aprovou e teve toda a paciência, à espera do mais famoso grupo de Hermeto Pascoal, que viria a seguir. Confesso que eu estava meio preocupado com o Bruxo, escaldado pelo show ruim feito por ele em outubro no POA Jazz Festival. Mas ele (a meus olhos) se redimiu, fazendo em hora e meia um show sem sobressaltos, na medida para satisfazer o enorme público e fechar o festival em alto astral [abaixo, cenas da oficina com Hermeto; aqui imagens da oficina com Naná].

Naná Vasconcelos sozinho encheu de música o Teatro Guarani.
A cidade é protagonista

Parece que a encantadora Pelotas de uma longa história humana e arquitetônica se recupera de também longos períodos de descaso político. A memória do passado, preservada com cada vez mais cuidado em prédios belíssimos, muitos deles abertos à população, parece estar enfatizando nos últimos tempos (uns 20 anos para cá, por aí) um orgulho de ser pelotense. Trazendo a ideia de que a insubstituível arquitetura dos anos de fausto econômico nos hotéis, nos prédios públicos, nos bancos, nas mansões, não deve dar lugar a caixas de concreto sem alma e sem arte como os edifícios modernos - que já roubaram boa parte dessa história.

Palco geodésico e a Rua do Jazz vistos de cima
Pelotas é uma cidade única no RGS. Sua vocação era ser a capital do estado. E, como o Rio de Janeiro em relação a Brasília, tem várias evidências disso. Um de seus filhos mais ilustres, Vitor Ramil, tem se ocupado em demonstrar isso em seu trabalho musical e literário; em sua filosofia, posso dizer.

Em meio ao passado, a modernidade de Satolep encanta os visitantes, como se percebe ao conversar com os artistas do festival. Como se percebe ao ver o cuidado com que a TIM, patrocinador master do festival, o está considerando, ao trazer jornalistas de outros estados para assisti-lo, por exemplo.

Graças aos idealizadores do festival e à sua realizadora, Gaia Cultura e Arte, eu e todos os visitantes, sem falar dos pelotenses que durante três dias lotaram o fantástico Theatro Guarany e as ruas do centro da cidade, pudemos comprovar o bom uso da Lei de Incentivo à Cultura do Estado e como ela é importante para levar adiante projetos que ajudam uma cidade da importância de Pelotas a crescer artística, turística e economicamente.

Sem citar nomes, dou os parabéns a todos os responsáveis por fazer do Pelotas Jazz Festival um verdadeiro evento. E aos felizardos pelotenses, por entenderem e apoiarem a ideia com sua participação. Em 2015 quero voltar.
Juarez Fonseca
Colunista de Zero Hora



Fotos: F. Campal (1-2), L. P. Carapeto (3)
Texto: Facebook

domingo, 9 de novembro de 2014

1º Festival de Jazz de Pelotas (2010)

Moviola Filmes documentou momentos do 1º Festival de Jazz de Pelotas

A versão pioneira do Festival de Jazz de Pelotas realizou-se em julho de 2010 no Teatro Guarani, em três noites dentro da Semana de Pelotas (v. programação). O documentário de 15 minutos da Moviola Filmes (acima), dirigido por Cíntia Langie e Rafael Andreazza, mostra os momentos mais emocionantes desses dias, junto a declarações dos principais envolvidos, entre organizadores e artistas.

Participaram nomes da música local, como Gilberto Oliveira, Celso Krause e o grupo Quebraceira, e convidados especiais: o uruguaio Hugo Fattoruso (com seu grupo Rey Tambor), Geraldo Flach e seu quinteto, e o legendário Hermeto Pascoal. Nesta ocasião destacado como patrono do evento por sua trajetória, o gaúcho Geraldo Flach veio a morrer meses depois, em janeiro de 2011 (v. Wikipédia).

A ideia nasceu no Clube de Jazz de Pelotas, como a realização de um sonho antigo, e, posteriormente, o evento denominou-se Pelotas Jazz Festival (com pronúncia à inglesa, jazz féstival). Não se trata propriamente de um festival por não existirem concorrentes nem premiações, mas sim com a grandiosidade de um evento de vários dias e com figuras de importância internacional.

Grande entusiasta do Festival desde o início, Hermeto Pascoal disse que este "veio para ficar" e que esperava "voltar o mais rápido possível", segundo registrado neste documentário. A ocasião demorou 4 anos, mas chegou. Visitando a orla do Laranjal, o alagoano exaltou a beleza do Balneário dos Prazeres:
Isto aqui é um Céu na Terra!

Imagem: Festival de Jazz

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Nauro poetiza a vida

Desde que cheguei a Pelotas, no século passado, vejo alguns pelotenses reclamando da cidade. No início eu não entendia. Como pode alguém não gostar de uma cidade linda igual a Pelotas? Eu particularmente sou um apaixonado por esta cidade que me adotou e hoje considero tão minha.

Eu nasci em Novo Hamburgo por um acidente geográfico. Deus estava com o GPS estragado no dia 9 de abril de 1969 e me colocou 300 km ao norte do meu destino. Eu tenho um relação tranquila com NH. Não a culpo por nenhuma de minhas frustrações. Quando achei que não era lá que eu queria passar os dias que restavam de minha vida, parti e fui em busca de minha felicidade.

Mas fui notando que com Pelotas o caso é diferente.

Alguns pelotenses têm uma relação de "Amor e Ódio" com a cidade onde nasceram. Eles vão embora e a história não fica bem resolvida. Alguns têm vergonha de dizer que nasceram aqui, outros vivem desdenhando mas continuam fiéis aos times daqui. Outros, por mais ricos que tenham ficado nos lugares onde vivem, passam falando que só foram embora porque "Pelotas não lhes ofereceu oportunidade".

Bom, eu, com o passar do tempo, fui recolhendo frases destes pelotenses revoltados, coloquei minhas impressões sobre elas e fiz este poema que está no livro "Andanças Imaginárias", que vou lançar no sábado (01-11) as 18h, na 42ª Feira do Livro de Pelotas (v. página do evento).

Nauro Machado Júnior

Ilustração de Sofia Machado para o poema
"Fotografia", de Nauro Machado Jr.
Nauro organizou, primeiro, um livro impresso, coletânea de seus poemas, enriquecida com desenhos da filha Sofia, onde mostra como se uniu a Pelotas, através do amor e da criatividade. 

Não satisfeito, ele armou também uma coleção de clipes, com declamações de seus poemas, feitas por seus amigos. Cada um escolheu o texto que leria e abre seu coração com um testemunho pessoal.

Este livro audiovisual é uma nova obra de Nauro, mais autobiográfica que o texto escrito, que fala da riqueza de um homem (o amor-ágape de seus amigos) e da riqueza de uma comunidade (o talento e o gosto pela arte e a sabedoria). O filme ficou melhor que o livro.

"Poetize sua vida" foi o tema da Feira do Livro de Pelotas em 2013.

O poema citado por Nauro no texto acima, Amor e ódio, foi gravado pelo livreiro e pesquisador Adão Monquelat. Confira a seguir os demais vídeos.


Jornalista Maíra Lessa declama Fotografia.
Professor Clóvis de Barros Filho declama Fotografia (desde São Paulo).
Escritor Fabrício Carpinejar declama Briga.
Cantor Joca Martins declama Inconstância.
Jornalista Márcio Melo recita Gardenal.
Joice Pereira recita Árvore da infância (desde a Itália).
Locutor Gil Azevedo lê o poema Chefe.
Jornalista Daniel Trzeciak lê o poema A Estrada.
Músico Rodrigo Munari lê o poema Não é uma graça a vida?
Sofia Mazza Machado recita seu próprio minipoema Palafita.
Jornalista Klécio Santos recita Silêncio II.
Poeta Xiru Antunes declama Prendinha.
Jornalista Sabrina Ongaratto declama Amor.
Poeta Xiru Antunes declama Tua luz me ilumina e os textos Dez Perguntas.
Fonte: Facebook

POST DATA
Nauro e Sofia são coautores das Andanças, e coautores um do outro.
30-10-14
O ator Juliano Cazarré faz a leitura do poema "Meu Fusca ficou sem gasolina de novo".
O professor de Filosofia Luís Rubira lê o trecho Trensurb, desde o metrô de Paris (vídeo abaixo).
31-10-14
Hoje o Diário Popular noticia o lançamento do livro "Andanças Imaginárias" (v. reportagem de Leon Sanguiné), com foto de Elison Bitencourt, reproduzida acima.
1-11-14
Hoje à tarde, com chuvisco e tudo, Sofia e Nauro realizaram a façanha de uma sessão de duas horas autografando como autor adulto e autora infantil, num gênero tradicionalmente considerado para adultos (v. fotos no Flickr de Gustavo Vara).
Joca Martins emocionado proclama "Um segundo antes", que Nauro dedicou à filha Sofia.
O músico Rodrigo Munari lê Poesia e o texto Terapia.
O músico Vítor Ramil lê Meu pai e o fusca azul (desde Barcelona, Espanha).
O prefeito Eduardo Leite lê Meu escritório é no café.
8-11-14
Clayton Rocha lê o texto de Nauro sobre a morte: Carpe Diem mas Memento Mori. Já é o 24º vídeo deste audiolivro. 
16-11-14
Otávio Soares lê Existência em despedida.
Clayton Rocha lê O silêncio do café.



quinta-feira, 31 de julho de 2014

Vicente Pimentero, cozinheiro de eventos binacionais


A agência Maria Bonita Comunicação (veja seu canal de vídeos) tem registrado uma série de músicos locais e visitantes, no gênero popular. Um deles é o uruguaio Vicente Botti, que mora em Pelotas há anos e criou em 2007 a banda Pimenta Buena (v. Facebook), junto a colegas brasileiros.

No vídeo acima, publicado esta semana, a praça Coronel Pedro Osório como cenário natural, visto do piso superior semiabandonado de um café central. Maria Bonita descreve Vicente com as seguintes características:
O hibridismo entre a latinidade do pampa, a vivência em Pelotas, com passagens em Jaguarão, berço uruguaio e soma de referências na musicalidade brasileira...
O músico tem participado em criativos projetos culturais que usam a música para dar sabor e "calentar" o ambiente humano na região, como a própria Pimenta Buena, o restaurante Madre Mia e o Poesia no Bar. Com o nome artístico de Vicente Pimentero, ele se apresenta como compositor e produtor cultural, e em cada espetáculo ele é o vocalista de suas músicas, geralmente em espanhol. Um de seus sucessos é "La Celeste", hino dedicado à seleção uruguaia de futebol, apresentado em 2010 no restaurante Mercado del Puerto (v. notícia)

Acompanhe aqui uma entrevista mais longa de Vicente, realizada em 2012 pela jornalista Ediane Oliveira (13 min). Abaixo, o documentário oficial da Pimenta Buena, elaborado pela produtora pelotense Moviola Filmes em 2008.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Laranjal, dois pontos de vista


Na visão do morador, o Laranjal é um bairro semirrural de Pelotas, esquecido pela Prefeitura, com ambiente tranquilo a maior parte do tempo, animais pelas ruas de terra, falta de iluminação, buracos e lamaçal. Em junho de 2014, Maria Bonita Comunicação gravou a fala da uruguaia Nancy Balbiani, há dez anos morando no Laranjal (acima).

Na visão do turista, o Laranjal é uma orla cheia de gente no verão e nos domingos de inverno e vazia no resto do tempo. Quando lotada, é um viveiro de sensações de prazer; quando vazia, um deserto que desperta as saudades dos tempos bons. Em junho de 2013, o porto-alegrense Paulo César Ribeiro reuniu fotos e vídeos da orla, elogiando o Laranjal como sendo um orgulho para uma cidade (abaixo).


Um terceiro ponto de vista, não representado aqui, é o do pelotense urbano, que visita a praia como turista, servindo-se dele como lugar de espairecimento, geralmente indo de carro, e em boa companhia. Conhece desde o Pontal da Barra até a Colônia Z-3, cultivando fetiches como o antigo Bar da Figueira, o Trapiche do Valverde e o calçadão de 2 km.

Todos gostam do Laranjal mas, desde suas visões diversas, não conseguem unir-se para fazer dele um ponto turístico de valor nacional. A foto de Fly Camera Pelotas mostra a rótula do Mar de Dentro, neste início de inverno, balizando a lagoa da natureza, a orla dos turistas e a cidade de tantos habitantes.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Pelotense reclama demais

O jornalista Jarbas Tomaschewski não é pelotense, mas assimilou uma característica local: a crítica lamentosa sem busca de soluções, um dos traços da histórica neurose depressiva pelotense. Como bom cronista, ele envolve o leitor ao descrever o problema, mesmo tratando-se de uma questão antiga ou óbvia, ou até mesmo paradoxal e enredada, e termina com uma proposta bem-intencionada (pois a lamúria coletiva é assunto para uma equipe de especialistas, ao longo de décadas, formulando um projeto de transformação social). Leia a crônica "Reclamar: nossa grande virtude", publicada no Diário Popular de 26 de fevereiro passado.

Todo visitante que chega a Pelotas para aqui fixar residência deveria receber, no primeiro dia nessas terras, um folheto com duas regras básicas de convivência pacífica. Dois artigos simples, suficientes para traduzir o modo pelotense de pensar e facilitar a vida de quem tem pressa em se adaptar, longe das confusões.

Artigo 1º - Os pelotenses odeiam que pessoas de outras regiões falem mal da cidade.

Artigo 2º - Os pelotenses adoram falar mal da própria cidade.

Ao escrever esta crônica, portanto, já estou infringindo o artigo 1º, pois não sou natural daqui e estou fazendo uma crítica. Porém, como sou pelotense por opção há 25 anos, automaticamente estou absolvido e imunizado pelo artigo 2º.

Meu comentário nada mais é do que a observação de muitos “estrangeiros” radicados na Princesa do Sul. Há algum tempo participei de uma conversa que, sem qualquer estímulo, rumou para críticas ao local onde vivemos. E 99% dos presentes exercitaram, sem dó, a política do “eu só enxergo os defeitos do chão onde piso”. Até que um dos participantes da conversa, não pelotense, falou e deixou todos mudos. Na verdade, constrangidos.

– Onde eu morava os problemas de vocês são pequenos demais. Como vocês reclamam!

Muitos tiveram de engolir a resposta que gostariam de ter dado à colocação afrontosa do autor, pois nada nos deixa mais furiosos do que ouvir a verdade que sempre renegamos jogada na cara, sem piedade e sem filtros.

Frase de Geissy Araujo
Não defendo fechar os olhos ao que atrapalha a vida de toda a comunidade. Ao contrário, é preciso sim reclamar, se revoltar, lutar por direitos, soluções. Debater o que está errado e, nossa, como tem coisa errada em Pelotas. Mas gostaria de ver, um pouco que fosse, maior distanciamento desse modo de agir. Virou hábito, um péssimo hábito, a ponto de rejeitarmos até o que é bom.

Nossa fama já ultrapassa as fronteiras. Longe daqui escuta-se que o pelotense é um povo “reclamão” e nada faz para mudar, só chora e não se mexe. E quem gosta de conviver com pessoas assim? Ninguém. A tendência do ser humano é fugir de quem só se queixa e carrega, para onde vai, uma nuvem cinza sobre a cabeça.

Pelotas, cidade boa demais para viver, tem muitos problemas, uma lista infindável de problemas. E a lista oposta, de nossos orgulhos, está sempre reprimida. Poderia haver mais equilíbrio. Não podemos sorrir para tudo e achar que vivemos no mundo perfeito. Agir assim aproxima qualquer pessoa da idiotice. Mas escolher ficar com a testa encostada no muro de lamentações, sem sair do lugar e nada fazer para mudar algumas situações, já parece caso para tratamento.
Jarbas Tomaschewski

imagem do blogue Mariguedes
Fonte do texto: Diário Popular

quinta-feira, 6 de março de 2014

Fragata Futebol Clube recebeu australianos (post nº 1500)


Em 2013, o Fragata Futebol Clube consolidou uma parceria com o South Melbourne FC (v. anúncio na Rádio Cultura), através da qual jovens atletas australianos treinaram durante 10 dias (de 1 a 14 de abril) no Centro de Treinamento do Fragata FC. A negociação incluiu passagens, vistos, deslocamentos, hospedagem, refeições e uniformes para treinamento, num valor de 4700 por pessoa (v. notícia no sítio virtual). O convite em inglês não especificava se o valor era em reais ou dólares australianos (hoje em câmbio 2,1).

No vídeo acima, Émerson Ferreira da Rosa explica, antes da parceria citada, a proposta do clube que ele fundou em sua cidade natal. Há dois anos, falamos aqui sobre outra parceria (v. post Fragata FC associa-se à UCPel); esperamos que ela siga vigente.

Quando da visita dos jovens australianos, o intercâmbio foi informado em Pelotas (abaixo). No mesmo ano, Émerson tentou parceria com o clube Roma. Veja também um trecho (3 min) de programa "Par ou Ímpar" da Fox Sports, em outubro de 2013, em que o ex-jogador fala brevemente sobre o inglês David Beckham.

Fonte: O Século XX; Facebook e sítio do Fragata FC

sexta-feira, 15 de março de 2013

O jornalista que competiu sozinho com o Diário Popular

Serginho Ross em 1983
O jornalista Sérgio Ross foi jogador juvenil do Grêmio (1951-53) e, depois, repórter da Última Hora. Veio dar em Pelotas em 1960, com a missão de abrir uma sucursal da U.H. que concorresse com os dois diários já existentes na cidade. O incrível é que ele conseguiu se equilibrar nessa missão impossível.

Serginho ficou em Pelotas até inícios de 1964. Posteriormente, dirigiu sucursais da Manchete em Porto Alegre, Rio e Brasília. Nestes 50 anos, ele já viu coisas tão fantásticas, que parecem irreais, mas, como bom jornalista, ele faz um relato fantástico de fatos reais. Por exemplo, a vez em que ele descartou um novo cronista.
O Justino Martins era tio do Luís Fernando Veríssimo. Ele veio em uma ocasião a Porto Alegre. Conversando comigo, disse que tinha um sobrinho, que estava começando a escrever e que era muito bom. Como achou que eu duvidasse, me disse: “O guri é filho do Érico Veríssimo...”. Continuei com cara de dúvida. Mesmo sendo, como sou até hoje, o maior fã do pai dele, não quis [um estranho] na minha equipe. 
Me arrependo? É claro que me arrependo. Até hoje, nunca cheguei perto dele, com medo de apanhar. Mas no fundo, no fundo mesmo, acho que agora ele vai me agradecer. Se tivesse ficado na Manchete, estaria desempregado como eu. Mesmo assim, vai aqui o meu pedido de perdão ao Luís Fernando e o meu muito obrigado por eu poder lê-lo diariamente. (Pô, este lê-lo aqui ficou bom, néee?)
Ross e Marlene Galeazzi (2011)
No seguinte texto, o hoje veterano Ross conta episódios do tempo em que os jornalistas aprendiam na prática, sem diploma no currículo. Os repórteres escreviam sem revisar, passavam ao copydesk e este reescrevia. 

Esta crônica foi copiada sem correções, para transmitir o sabor daqueles textos, que eram escritos na pressão do horário, sem revisar. Somente foram acrescentados subtítulos. Foi escrita em 2008, desde Brasília, e publicada em 2010 no blogue de Olides Canton. 

O título foi posto por Sérgio, para chamar a atenção do leitor, mas o texto exalta o Diário Popular, do qual o autor ficou mais fã que da Última Hora. Assim talvez possa pagar parte do mal que causou.


Um jornal que começou num galinheiro

O ano de 1960 estava chegando ao fim. Um cheiro de crise política estava no ar. [...] O jornal Ultima Hora,do Samuel Wainer, era um sucesso no meio jornalístico do país. Estava circulando em Porto Alegre, onde enfrentava a dura concorrência dos jornais da Caldas Junior, o Correio do Povo e a Folha da Tarde. Eu era repórter esportivo.

O Samuel Wainer, nas suas loucuras, estava lançando jornais pelo Brasil inteiro. No sul, pretendia lançar a UH em Caxias do Sul, para concorrer com O Pioneiro e em Pelotas, para concorrer com o Diário Popular e com o seu vespertino, a Opinião.

Aí o Neu Reiner e o Nestor Fedrizzi que comandavam aí em Porto Alegre a Ultima Hora, mais com pena de mim do que preocupados com a minha competência, me chamaram e disseram: tu és o homem para dirigir a Ultima Hora na região sul.

É claro que levei um susto. E eu sabia o que era dirigir um jornal? Eu sabia era conseguir noticias do Grêmio para as páginas de esporte.

O nome do jornal extinto foi pintado por cima, mas, como tem letras em relevo, segue legível há 50 anos.

Como montar um jornal com ajuda do inimigo

Logo que cheguei em Pelotas comecei a montar a minha equipe e inocentemente, a primeira coisa que fiz, foi procurar a redação do jornal o Diário Popular. Lá, conheci uma grande cara – diretor do jornal, que pertencia a família Fetter – era o Clair Rocheffort que me disseram,dias atrás, está com 80 anos, sendo que 60 desses anos, passou dentro do Diário,ali na rua Quinze de Novembro,bem no centro de Pelotas. Fui lá, pedir a ele que me indicassem gente para eu contratar.

Hoje me dou contra da minha ingenuidade.

O Clair, achou meio estranho, mas mesmo assim, colocou a redação do Diário a minha disposição. Imagina, ir na casa do inimigo pedir apoio. Mas ele me deu esse apoio e eu contratei algumas pessoas como o Wilson Lima,um dos melhores fotógrafos que eu já conheci e filho de um outro grande fotógrafo do Diário, o Ramão Barros.

Bavária existe até hoje
Contratei mais um repórter, que estudava direito e fazia um bico como redator, para poder pagar seus estudos. Era o Oscarzinho. O Oscar Valério Borges, um grande cara também. Um texto maravilhoso.

E assim comecei a montar a redação do jornal que começou a circular imediatamente.

Nós mandávamos os texto de ônibus para Porto Alegre por volta das 18 horas e no dia seguinte, às seis da matina, íamos para a rodoviária esperar a edição da UH/ Pelotas. Foi um sucesso. Mas eu, ainda inocentemente,não tinha avaliado o mal que estava fazendo para os companheiros do Diário Popular.

À noite, antes de ir para o Bar Bavária onde eu gostava de beber o melhor chope do Brasil e comer o melhor sanduíche aberto que já comi, passava na redação do jornal para conversar com o Clair. Aí fui conhecendo a história do Diário.

O galinheiro dos inícios

O jornal que agora completa 120 anos de existência, começou por incrível que pareça,dentro de um galinheiro. Claro que vai aqui, um pouco de exagero mas muito carinho. É que apareceu na redação do jornal, que dava os seus primeiros passos,uma pessoa oferecendo a venda de uma impressora que, servia, acreditem, como poleiro de um galinheiro numa fazenda nos arredores da cidade. No fundo,nunca fiquei sabendo como essa impressora foi parar nesse lugar tão feio.

domingo, 10 de março de 2013

A cidade das ruas infinitas

O jornalista Emílio Pacheco é de Porto Alegre – cidade cheia de morros – e abriu seus olhos a uma especial característica de nossa cidade, que os pelotenses ou não percebem ou consideram monótona demais: a retidão e longitude de suas ruas. Em fevereiro de 2010 ele publicou a crônica "As ruas de Pelotas".


Em 1972, na 5ª série, tive uma professora de Português – aliás, "Língua Nacional", que era o nome da disciplina no primeiro ano da Reforma do Ensino – que sentia um orgulho imenso de sua cidade natal. Era a Dona Constança. Acho que não havia uma só aula com ela em que não ouvíamos falar de Pelotas. O assunto podia ser pronomes, verbos, objetos diretos e/ou indiretos, que invariavelmente entrava Pelotas no meio.

Certa vez ela pediu que escrevêssemos sobre a localidade onde havíamos nascido, abrangendo vários itens. Um deles era se a cidade em questão era bem traçada. Uma colega que vinha de São Paulo comentou em voz alta que iria responder "sim" a essa pergunta. A professora contestou na hora. São Paulo não é bem traçada, imagina! Nem Porto Alegre é, que dirá a capital paulista. Cidade bem traçada é Pelotas! Aí ela falou uma frase que eu nunca esqueci:

– Em Pelotas a gente olha para uma rua e enxerga o fim!

Eu tinha estado em Pelotas rapidamente no ano anterior, mas não observei essa característica. Voltei lá em 1974 e desta vez resolvi conferir. Espichei o olho em uma das ruas e, dito e feito, enxerguei o final. Não é possível! Dona Constança não exagerou! Guardei mais essa recordação por todos esses anos, mas prometi a mim mesmo que, se voltasse a Pelotas, faria mais uma verificação.

Pois no sábado passado, mais uma vez, pus-me a conferir o prumo das ruas de Pelotas. E constatei que elas não empenaram nem um milímetro. Continuam tão retas quanto em 1974.

Quando estávamos para ir embora, pedimos orientação de como chegar à saída para a estrada. Disseram-nos que deveríamos pegar a mesma rua do nosso hotel e ir em frente "até o fim". Foi o que fizemos. Seguimos por várias quadras em linha reta. Quando terminou a rua, terminou Pelotas. Dona Constança tinha razão. É por isso que a letra de "Pelotas", de Kleiton e Kledir (veja o post, penúltima estrofe), diz:

– O meu amor não tem fim / como uma rua infinita.



Fotos: F. A. Vidal e R. Marin

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A fantástica fábrica de doces (crônica)

Durante 2011, Fabrício Carpinejar escreveu uma série de reportagens sobre cidades gaúchas, recolhidas no livro "Beleza Interior" (Arquipélago, 2012). As matérias também estão em Zero Hora, no Facebook e no blogue Carpinejar.

O livro pode ser lido como um pequeno manual poético do Rio Grande do Sul. Sobre Pelotas, o escritor contou a história de Anette Ruas, sobrinha da doceira Nilza Ruas (texto abaixo).

Observador psicológico das essências e dos detalhes, o premiado autor de 21 livros sabe elogiar e ao mesmo tempo tocar nos pontos álgidos. Ele diz que no Rio Grande do Sul não há cidades do interior. Todas são capitais. Capital da uva, capital do vinho, capital do calçado, capital do fumo, capital do doce. O chamado interior passa a significar o universal de cada mundo interno.

Carpinejar dará uma oficina literária dias 22 e 23 de fevereiro, em nossa cidade (v. nota).


Um caderninho escolar surrado, sujo de comida, é o maior patrimônio de Annete Ruas, 53 anos. Mais sigiloso do que agenda de adolescente, mais importante do que inventário de morto.

Ela troca o objeto de esconderijo toda semana. Às vezes esconde tão bem que tarda a achar. O conteúdo vale a fortuna acumulada de três gerações.

O caderno de Anette é um mapa da doçura.
Trata-se do livrinho de receitas da família, alma da empresa "Anette Ruas". A verdadeira bíblia do açúcar, com os segredos portugueses de 40 tipos de confeitos, sustenta uma fábrica de 15 funcionários e gera uma produção de cinco mil produtos por dia.

É óbvio que a história acontece em Pelotas, cidade que é sobrenome de doce, onde até existe legislação para evitar a concorrência desleal.

Nas vitrines pelotenses, não vale colocar brigadeiro grande para ganhar a preferência do cliente. Doce de festa precisa ter até 40 gramas e o de confeitaria não pode ultrapassar 70 gramas. O melhor negrinho é sempre o menor, do tamanho de uma unha e que se desmancha na boca. O terceiro município mais populoso do Estado, a 250 quilômetros de Porto Alegre, leva a sério a atmosfera pecadora de claras, gemas, chocolate e massas. Isso explica a preocupação obsessiva de Anette em proteger suas fórmulas.

– Minha biografia são as receitas – comenta.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Cidades irmãs, tão longe e tão perto

O Diário do Matuto, do professor de História rio-grandino Felipe Nóbrega, usa linguagem educada e elegante, mas a crítica é impiedosa. Nesta crônica, que foi despertada pelo aniversário dos 200 anos, o tema é Pelotas e seu momento atual em relação a Rio Grande: segundo o autor, a primeira se desenvolve (culturalmente) mas não enriquece, e esta cresce (na economia) e se vulgariza. 

O autor conhece bem as duas cidades, mas as descreve em tom depreciativo, como duas irmãs que se invejam e maltratam desde o nascimento. Ele não faz ficção, mas traça um panorama tragicômico. Ambas são antigas e empobrecidas, mas Pelotas sabe usar seu bairrismo para atrair turistas (Pelotas, cidade tão rica). O público pelotense é culto mas não consegue ter um bom cinema (A cidade que merece filmes piratas). 
O Matuto percebe Pelotas como subúrbio habitacional de Rio Grande e também como bairro cultural e intelectual. Para ele, o porto marítimo seria somente um bairro de empregos. Não haveria um centro ou matriz; somente fragmentos urbanos. Veja na Wikipédia o conceito de cidade dormitório. Com tal pessimismo, estes municípios nunca se associariam, ficando para sempre como caricaturas. 

O Canal São Gonçalo já foi proteção que permitiu o crescimento econômico; hoje parece uma muralha intransponível.


Pelotas tem muita dificuldade em admitir um sintoma: está se tornando uma cidade dormitório de Rio Grande. E a tendência é cada vez mais entrar nesse movimento no qual Rio Grande é o local onde se ganha dinheiro, Pelotas é o local onde se gasta e se dorme.

Recapitulando: Pelotas era parte de Rio Grande, virou cidade, se transformou num polo econômico fundamental do Estado, estagnou. Rio Grande, por vias de uma política pública federal do governo Lula, recebeu o investimento do Polo Naval, cresceu, não se desenvolveu e fez com que Pelotas voltasse à cena para abocanhar a fatia de serviços que Rio Grande não é capaz de prestar – fundamentalmente, um comércio de qualidade e cultura.

Não é raro ouvir ironias antipelotenses como esta.
O prefeito Fetter Jr. não escondeu o desconforto ao ser perguntado sobre o fato do reaquecimento da economia pelotense estar diretamente ligado, e ser devedor, do Polo Naval na cidade vizinha. Desdobrou-se em oito para não admitir isso.

O motivo? Bem, Rio Grande e Pelotas é como um eterno Brasil-Argentina. Outro motivo: o partidário. Fetter não reconheceria que é por vias de uma administração petista que a Região Sul do Estado voltou a ser importante no cenário nacional. Seria demais para ele assumir a dupla derrota em tempos de duzentos anos.

Não há como negar que a infraestrutura de Pelotas é infinitamente maior do que a de Rio Grande – em se tratando de prestação de serviços e comércio. Mas não fica só por aí, na questão cultural não existe nível de comparação entre as duas cidades.

É vergonhoso que Rio Grande consiga ter apenas um ou dois bares que não se rendem ao pagode universitário, sertanejo universitário e funk universitário após ás duas da madrugada. Do mesmo jeito, é gritante a diferença no que tange à possibilidade de espaços para exposições, pontos de cultura e afins – em Rio Grande esses espaços ainda estão grudados nas mãos de uma elite moribunda.

Vira-lata à espera do Primo Rico.
Claro que Pelotas tem seus problemas, aliás, muitos que estão debaixo do tapete nessa festa de 200 anos, mas não há como negar que a cidade soube fazer uso da própria tradição para ganhar dinheiro.

E tanto sabe que, mesmo não sendo a cidade polo dos investimentos, está tirando mais proveito do que a própria Rio Grande quando o assunto é “desenvolvimento” e não “crescimento”.

Pelotas, mesmo como uma cidade dormitório que ainda não se assumiu, continua sendo o Primo Rico da cidade com síndrome de vira-lata chamada Rio Grande.

Felipe Nóbrega
6 julho 2012
Fotos: L. Bittencourt e Diário do Matuto

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quindim e merengue saíram do ovo

Ana Cecília Romeu Rodrigues, publicitária e escritora gaúcha, morou em Pelotas e dedica à cidade de sua infância esta crônica alusiva aos doces e ao sentido da vida a dois. Apareceu primeiro em 2011 no seu blogue Humor em Conto e em junho de 2012, por alusão à FENADOCE, no Diário Popular.

Passei toda minha primeira infância na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, terra de doces maravilhosos, com receitas de origem açoriana em sua maioria. Sempre que me lembro dessa época, me vem à memória o sabor desses doces, que não encontrei nem nos famosos austríacos.

Mais tarde, me peguei em alguns momentos questionando sobre o que acontecia com a parte do ovo que não era aproveitada para fazer os tão deliciosos quindins. Feitos de gema, todos amarelinhos e suculentos. Mas, e a clara, onde ficava? Cheguei à conclusão do óbvio: faziam merengues, delícia composta de clara.

Refleti a partir daí sobre relacionamentos de uma forma geral. Pensei que, quando temos algum tipo de parceria emocional com quem quer que seja, é como se cada um fizesse um tipo de doce. Um faz o quindim; o outro, merengue. Os dois aproveitam do mesmo ovo e complementam a sobremesa.

Mas em que momento duas pessoas passam a ignorar a receita óbvia dos doces e não querer mais essa parceria tão proveitosa matematicamente? O que faz com que duas pessoas não queiram mais dividir seus quindins ou seus merengues com o outro, não se completarem, nem quererem provar a culinária alheia?

Tive algumas experiências desastrosas. Amizades que se foram por causa de um detalhe ínfimo. Na verdade, é como se eu fizesse os quindins e a outra pessoa resolvesse fazê-los também ou vice-versa. Ainda houve a resistência em trocar para os merengues. Sobraram muitas claras de ovo e ninguém para fazê-los.

Orgulho, falta de companheirismo, traição, incompreensão... Tudo pode acabar com a parceria de doces e, às vezes, é por puro detalhe. Mas seria amizade verdadeira? Não resistiu a uma parceria tão lógica?

Por outro lado, vemos amizades que nunca terminam, como tenho com uma amiga que mora no Uruguai, coisa de mais de 30 anos. Uma briguinha aqui e ali, mas o tempo não apagou quase nada e modificou muito pouco.

Há também casamentos indissolúveis ou aquelas pessoas que nutrimos maior respeito e sabemos que é recíproco, mas muitas vezes nem as conhecemos direito. Mas nesses momentos, sim, a parceria quindim-merengue está sendo construída.

Como diz um provérbio romano: "Se for roseira, florescerá". Se for para dar certo, a parceria dará, se for para não dar... No que completo: quindim só combina com merengue. E merengue, só combina com quindim.
Fotos: A. C. Romeu

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pierre Dutot inclui Pelotas no mapa

O trompetista francês Pierre Dutot (dir.) esteve no Brasil por quarta vez, por ocasião do Festival Internacional de Música, em Pelotas. Ele já havia estado em eventos similares em Porto Alegre, São Leopoldo e Curitiba.

Por que sempre no sul do Brasil? Porque seu contato é seu ex-aluno Evandro Matté, regente da Orquestra UNISINOS e diretor do Festival de Pelotas.

O visitante não esconde seu contentamento por ter vindo a este curso internacional em Pelotas:
— Pelotas é uma cidade agradável; saio nas ruas e vejo que as pessoas estão felizes de estar aqui. Ver o teatro sempre cheio é maravilhoso.
Segundo Dutot, que leciona no instrumento há 23 anos, os alunos ganham muito na formação quando conhecem outras pessoas e outros lugares: trocando experiências, desenvolvem autonomia e descobrem seu próprio método (leia a notícia do SESC). Numa frase, ele resumiu o sentido deste evento:

— O Festival coloca Pelotas no mapa mundial da música e traz a oportunidade para esta cidade conhecer o melhor da música e ajudar na formação de seus jovens.

Dutot foi entrevistado por Brigida Sofia, para o Jornal do Comércio (leia a reportagem). Para ele, o Brasil é um daqueles países que vem dedicando maiores espaços à cultura, ao lado de México e Venezuela. “Bem diferente de Inglaterra, Alemanha e mesmo a França, infelizmente”, opina.

O esforço e a motivação dos estudantes também são pontos positivos nestes cursos internacionais, pelo qual ele anima seus alunos a irem à França. Vencida a barreira dos custos da viagem, o professor acredita que as chances de sucesso são altas, pois os brasileiros que chegam ao seu país (ele leciona no Conservatório de Bordeaux) veem oportunidades que os franceses não aproveitam tanto.

— O Brasil tem uma imagem muito boa na França. Sempre digo a meus alunos franceses: "Vão ao Brasil porque lá as pessoas estão sempre sorrindo”.

No vídeo abaixo, Pierre Dutot interpreta Lazy Trumpeter, do norte-americano Edrich Siebert (1903-1984), acompanhado pela Orchestre d'Harmonie de Lannilis, dirigida por Claude Maine (fevereiro de 2010, em Milizac, Bretanha francesa).


sexta-feira, 19 de março de 2010

Poema-canto ao Laranjal

A poetisa porto-alegrense Beatriz Araujo foi apresentada aqui no blogue, há uns meses (veja nota), após a edição de seu primeiro livro. Admiradora de Pelotas, oferece-nos um novo escrito, inspirado na praia que é nossa maior beleza natural.

Querido Laranjal!

Querido Laranjal! Porto sempre seguro!
Relicário de amores, sonhos embevecidos.
Tão só, insone – à noite, te procuro!
A mim devolves os sentidos.

Lavas minha alma de coração impuro.
Dás calma, paz, ao meu olhar entristecido.
Querido Laranjal! Porto sempre seguro!
Relicário de amores, sonhos embevecidos.

Enleias-me em águas cheias, de prata lua!
E à minha alma, teu corpo-água se mistura.
Necessito-te como a um sonho que emolduro.
Acolhes-me! Por teu amor é que perduro!
Querido Laranjal! Porto sempre seguro!

Beatriz Araujo
19/03/2010

Foto: blogue de Liziane Vieira

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Jovem italiano cultiva amor por Pelotas

Um italiano de Milão, apaixonado por tudo o que tem relação com Pelotas, desde dezembro mantém uma série de páginas no Facebook com notícias periódicas sobre lugares nossos, com o fim de mostrar ao mundo a beleza deles. O Laranjal já tem 100 fãs, o Rio Grande do Sul tem 50 e os outros ainda estão começando (Tholl fã-clube, Pelotas-RS, a Catedral e o Museu da Baronesa).

O sentimento tão aberto e profundo deste rapaz radica no temperamento latino e numa específica paixão por uma garota pelotense, pela qual ele nutre amor platônico. Sem deixar de pensar nela, como ele mesmo diz, com o tempo a cidade também foi entrando em seu coração. Hoje ele é um apaixonado e comprometido fã de Pelotas.

Aprendeu português escutando música brasileira e tentando se comunicar com a garota e sua família. Como os idiomas são parecidos, ele se faz entender muito bem, e mesmo por escrito pode-se ouvir, nas palavras dele, aquele tom musical e carinhoso, tão característico do italiano. Permito-me transcrever sua opinião ao mesmo tempo crítica e amorosa sobre nossa cidade (ele assina com seu nome, mas pediu não divulgá-lo pois seus gestos são gratuitos e não buscam elogio ou retribuição).

Pelotas è uma cidade linda, mas pouco valorizada de seus cidadãos. Alguma gente nao tem rispeito dela, sujada da seus mesmos cidadãos (não todos). Mas isso è um mal bem comun em muitos lugares do mundo, Italia tambem.
E' dificil encontrar noticias turisticas bem feitas quando se chega na cidade, e bem dificil em ingles. Se è serio, e nao soamente propaganda politica, por Pelotas de se candidatar como polo turistico para a copa 2014, muitas coisas se necesida fazer.
Eu nao ganho nada com a pagina sobre Pelotas, meu amor è verdadeiro e de graça por Pelotas e certo eu vou voltar pra là, porque fica no meu coracao.
Y.


O amigo italiano convida a todos a entrar nessas páginas e a deixar comentários de apoio, para que pelotenses e visitantes conheçam as belezas de Pelotas, ajudando a cuidar de seu espaço e sua cultura com amor e respeito. Se entendermos seu espírito, saberemos construir algo melhor, num lugar que nem todos aprendemos a amar: tratando as pessoas com gentileza, deixando os lugares limpos, dispondo informação em inglês, organizando eventos e abrindo espaços turísticos. Atrás deste grito de amor, ouvem-se aqui vozes de dura crítica contra Pelotas, que só distraem do essencial e não conseguem gerar mudanças.

O vídeo abaixo é uma de suas canções preferidas (mais uma sutil declaração de amor, "Te amo e ponto final"), cantado pelo rapeiro Jovanotti, com músicos italianos e os arranjos do brasiliano Sérgio Mendes.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Poetisa escolheu Pelotas para viver

Beatriz Araujo nasceu em Porto Alegre em janeiro de 1964, e escreve literatura desde os 8 anos de idade. Em agosto passado, lançou seu primeiro livro, "Todas as cores", pela editora virtual Clube de Autores.

Uma, duas Beatrizes

Como já temos uma Beatriz Araujo pelotense, é preciso diferenciar as duas. Coisa difícil, pois elas têm muitas semelhanças: usam o sobrenome sem acento, têm idades próximas, trabalham na área cultural em Pelotas e atuam só nos bastidores (não nos palcos), onde se planejam e administram as ações públicas. Trabalham como líderes, mas seu espírito é reflexivo.

A Beatriz Araujo porto-alegrense, que conheceremos agora, nasceu aquariana, diz "ser escritora" e "estar administradora". Chama-se legalmente Vânia Beatriz.

A Beatriz Araujo pelotense, ex-secretária de Cultura, é virginiana e se define como "Produtora Cultural". Diz que não escreve, mas participa do projeto de crítica gastronômica "Papo na Mesa". Seus prenomes são Beatriz Helena.

A escritora

Já no 3º ano primário Beatriz escreveu uma historinha infantil; logo vieram contos, crônicas e até um romance de cem páginas. Aos 13 anos, começou a fase poética, com seus versos sendo lidos por declamadores; aos 16, a divulgação foi pela Rádio Metrópole AM. Aos 23, fazia produção artística na Bandeirantes FM, e outro poema seu foi lido pelo rádio. Daí seguiu somente em poesias de amor e prosa poética.

Aos 35, fez-se Administradora de Empresas pela FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses), mas não deixou a literatura, pois se considera poetisa, na essência. É das pessoas que acham que o amor é que conduz todas as coisas da vida, e ele deve ser vivido em toda sua expressão. Romântica até a medula, afirma viver e amar com a mesma intensidade com que escreve seus versos.

Vinda a Pelotas

Foi o amor que a trouxe a Pelotas, uma cidade que em pouco tempo a encantou, com a beleza das praias do Laranjal, as opções de lazer, os prédios antigos, a história cultural, e especialmente com a amizade das pessoas. Não é a única porto-alegrense que prefere viver aqui, mais ao sul do paralelo 30.

Já cansada da correria da cidade grande, em 2001 escolheu Pelotas como lugar para construir sua carreira de Administradora. Vendeu o que tinha em Porto Alegre e se estabeleceu nesta "pequena capital", de tamanho certo, na medida do ser humano. O que não deixa de ser uma ação poética.

Fui muito bem recebida e acolhida pelo povo pelotense. Desde que estou aqui, trabalhei na ONG Grupo Vale a Vida, e depois vim para a Secretaria de Saúde, onde trabalho (por contrato) no Programa Municipal DST/AIDS.

O primeiro livro

"Todas as cores" é uma coletânea de todos os escritos de Beatriz em poesia e prosa poética (veja o vídeo de divulgação). Também pode ler-se como o testemunho em verso de um amor que perde a esperança e deixa de existir, antes de passar da fase platônica para a plena vivência.

Beatriz já estava publicando em sítios da internet, mas por estímulo de amigos virtuais portugueses - admiradores de sua escrita sonora e natural - decidiu reunir os poemas e frases num volume físico, real. Ela começou no Portal das Curiosidades. Mais tarde, foi convidada a participar no Espaço de escrita.

O estilo não passou pelo exercício depurador de oficinas literárias, mas se mantém intuitivo e sentimental, analogamente àqueles sentimentos da adolescência que não tiveram resolução mas ainda vivem na memória. A simplicidade dos termos e das metáforas não impressionarão o leitor pela forma, mas sim pela sabedoria de perceber verdades profundas nos detalhes concretos da vida, especialmente nas dores, esperas e decepções.

Assim como há livrarias fora da Feira, Beatriz ainda é uma escritora off , independente do sistema, mas com maior divulgação ela também poderá autografar na Feira do Livro. Sua divulgação começou por meios virtuais: os sítios acima citados, o blogue pessoal (Um Jeito Simples de Ser) e uma editora virtual, que vende exemplares a pedido. Seus leitores são longínquos (mormente de Portugal, e dela saberão por esta nota). Mas ela já está disposta a usar uma editora "real" para possíveis leitores locais. Leia mais poesias de Beatriz no Recanto das Letras.
Imagens: da autora (1-2) e F.A.Vidal (3-4)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pelotas merece um abraço

A jornalista gaúcha Erika Hanssen Madaleno escreveu um artigo falando de seu amor e encantamento com Pelotas.

O texto saiu na edição impressa do Diário Popular de hoje, mas como o site não publicou me pareceu triplamente interessante divulgá-lo aqui: pela ausência na internet, por referir-se a Pelotas e pela bela redação (Erika ganhou o Prêmio Esso Regional em 1991).

O verbo "merecer" se refere à possibilidade de ter algum mérito ou direito, mas a autora mostra o lado emocional de quem ouve essa nossa expressão, tão comum para agradecer, que faz o outro se sentir valioso. Ela se sente amada e nos retribui o abraço.
Pelotas merece
A primeira vez que vim a Pelotas foi no final da década de 80. Como jornalista, tinha a tarefa de escrever uma reportagem sobre as praias do Litoral Sul. Ainda era primavera, fazia muito frio, chovia e o Laranjal estava deserto. Não foi um bom começo!

Para esperar a melhora do tempo, decidi caminhar sozinha pelas ruas centrais. Resultado: me perdi e não sabia mais voltar ao hotel. Definitivamente, Pelotas e eu não estávamos nos entendendo.

Ninguém havia nos apresentado formalmente e senti falta de um contato mais caloroso. A imagem que guardei da cidade foi essa: um local frio, chuvoso e onde a gente se perdia com a maior facilidade. Até visitar Pelotas novamente, anos mais tarde. Bem acompanhada e, especialmente, com olhos mais maduros e com a cabeça mais arejada.

A primeira surpresa ocorreu em uma pequena loja, onde, ao agradecer o atendimento, a moça me respondeu "Merece!". Com essa simples palavra, começava um novo amor, uma nova visão sobre a Princesa do Sul. Com encanto, percebi que todas as pessoas diziam "merece", em vez do tradicional "de nada".

Policiais militares, comerciários, o povo na rua, na rede hoteleira ou em restaurantes, qualquer pessoa a quem eu agradecia por um favor me respondiam com um sorriso: "A senhora merece!". Era apaixonante.

Foi também em Pelotas, no início deste ano, que recebi meu primeiro abraço, daqueles que a gente vê nos filmes e nos e-mails, onde pessoas portam cartazes oferecendo este carinho gratuito [veja o vídeo abaixo]. Um grupo de alegres adolescentes passou por mim na praça Coronel Pedro Osório e recebi um abraço apertado, além de ouvir que eu "merecia" tudo aquilo. De repente, Pelotas entrou em minha vida como um turbilhão de emoções.

Com o calor humano que me foi oferecido, ergui os olhos para a cidade, comecei a pesquisar sua história, descobri sua imensa riqueza cultural, suas casas de espetáculo - onde passaram as melhores e maiores companhias - e os prédios históricos, que não me canso de fotografar.

A beleza da Catedral São Francisco de Paula [acima], o Grande Hotel [esq.], o Theatro Sete de Abril e o Guarany, que me deixaram extasiada, as praças, o povo, os doces... ah, os doces... a perdição do meu regime esquecido.

Hoje não tenho mais medo de me perder em Pelotas. Não penso que seja um município frio e chuvoso. Ando pelas ruas como se vivesse aqui eternamente. O Calçadão virou minha casa; a praça central, meu local de descanso e contemplação.

Quem mora na cidade pode pensar de outra forma, pois vivencia problemas que não percebo. Afinal, ser turista eventual é sempre diferente. Mas neste mês de julho, em que a cidade completa 197 anos, gostaria de homenageá-la, escrevendo este texto de amor incondicional e me redimindo de um dia não tê-la achado tão interessante.

Pelotas tem açúcar no sangue, tem um povo amoroso e hospitaleiro. Me faz bem, me traz alegrias, faz com que eu viaje no tempo e vislumbre o futuro. Na verdade, quem "merece" algo não sou eu. É a gente que vive nesta cidade, que trabalha, estuda, luta por dias melhores, que me recebe tão bem e a tantos outros simpatizantes.

Muito obrigada, Pelotas!

Merece!
______
O psicólogo brasileiro Ary Itnem Whitacker ficou famoso no YouTube em 2006, quando replicou, em plena Avenida Paulista, uma faceta da campanha Abraços Grátis (Free Hugs Campaign)[veja o verbete na Wikipedia], criada em 2004 pelo australiano Juan Mann.
O brasileiro aplica às empresas o efeito social do contato afetuoso, chamando-o "abraço corporativo".
A Terapia do Abraço (Hug Therapy) foi proposta nos anos 80 pela americana Kathleen Keating.