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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O menino sírio foi ao céu

O muro de Berlim foi abaixo a 9 de novembro de 1989. Um grande monumento à vergonha. Outros muros, entretanto, embora invisíveis, são erguidos atualmente, dividindo o mundo entre ricos e pobres. O drama dos refugiados enodoa a civilização que conheceu o Século das Luzes (XVIII), Disso, porém, parece não saber, pois continua pisoteando as ideias implementadas pelo iluminismo, que teve sua maior força na França, influenciando o mundo a nível cultural, social, político e espiritual.

A pintura "Operação resgate" (acrílica s/tela 46x61) nasceu de minha indignação ao ver a fotografia do menino sírio Aylan Kurdi, de três anos (que neste quadro aparece nos braços da Virgem Maria), morto à beira da praia turca de Ali Hoca (v. notícia de setembro de 2015). Irrefutável prova de que os "muros" invisíveis estão aí, separando as nações, não só por questões financeiras, mas por diferenças étnicas e religiosas. Uma estupidez inconcebível!
Manoel Soares Magalhães
Facebook

sábado, 6 de dezembro de 2014

Vinholes fala em programa canadense

Vinholes trabalhou no Canadá doze anos e ainda é um ativo articulador cultural.
A Rádio CKCU FM 93.1, emissora ligada à Universidade Carleton, de Ottawa (Ontário, Canadá), começou a apresentar, esta quinta (4-12), uma série de 3 programas sobre a vida e obra do pelotense Luiz Carlos Lessa Vinholes. O trabalho pioneiro e criativo do diplomata, músico e escritor brasileiro é reconhecido no mundo todo como uma contribuição cultural ao entendimento entre as nações.

Conduzido pelo professor aposentado e pesquisador cultural Lloyd Stanford, o programa chama-se Third World Players (Jogadores do Terceiro Mundo) e, à base de uma entrevista entre Stanford e Vinholes, realizada em outubro passado no Canadá, constituiu esta série, a qual toma o título “Sobre música, poesia e diplomacia: L. C. Vinholes”. O primeiro capítulo (33 min) pode ser ouvido nesta página da rádio (ícone "Listen now").

A CKCU se mantém com doações.
Não transmite anúncios comerciais.
Os próximos capítulos poderão ser acompanhados ao vivo (ícone LISTEN LIVE), nos dias 11 e 18 de dezembro, sempre às 21h (hora de Brasília), ou na lista de programas, quando o áudio estiver disponível (v. o do dia 11 e o do dia 18).

A entrevista está em inglês e, além do diálogo, reproduz gravações das peças musicais de Vinholes Tempo-Espaço VIII (1974) e Tempo-Espaço IX (1975), para conjunto de câmara, gravadas pela Orquestra Sinfônica Nacional do Rio de Janeiro sob a regência do maestro Leandro Gazineo.

A informação acima foi enviada hoje por email a este blogue, pelo próprio Vinholes, que em novembro passado esteve em Pelotas, como patrono da 42ª Feira do Livro (v. artigo sobre ele neste blogue). Atuante na área cultural desde a década de 1950, o diplomata trabalhou no Japão, Paraguai, Canadá, Itália e Brasil, além de visitar outros países.

Em seu sítio virtual, a rádio CKCU se apresenta como a primeira rádio canadense com base num campus universitário. Desde novembro de 1975, a emissora oferece uma programação cultural, não comercial, à comunidade universitária, assim como aos ouvintes de todo o seu alcance, num raio de 100 km (atualmente incluindo o planeta inteiro, pela internet). Transmite sem interrupção, todos os dias do ano (v. mais informação na Wikipedia em inglês).

A rádio da Universidade Carleton transmite do 5º andar do prédio central.
Imagens: D.M. (1), CKCU (2), Examtime (3)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Violeta Parra, chilena de talentos múltiplos

Francisca reconstruiu Violeta em corpo e voz.
O projeto de extensão da UFPel "A Filosofia e a Música no Cinema" exibe, esta sexta (20-06), o filme chileno de 2011 "Violeta foi para o céu", de Andrés Wood (v. biografia em espanhol).

Não se trata de um documentário, mas de uma cinebiografia, bastante respeitosa com os fatos da vida de Violeta Parra, com pequenas liberdades criativas, próprias de uma recriação para o cinema (v. fotos do filme).

A representação da personagem central é feita por Francisca Gavilán, de aparência física e voz muito parecidas às de Violeta, e complementada por algumas imagens de época, da Violeta real.

A trilha sonora (escute no SoundCloud) não traz a voz de Violeta Parra, mas as músicas cover, cantadas por Francisca em arranjos modernos. A atriz teve que aprender música e conseguiu fazer um verdadeiro tributo a Violeta Parra (v. reportagem).

A múltipla artista Violeta recolheu aspectos do folclore chileno e se fez ela mesma artista popular, criadora na música, na poesia, nas artes plásticas, no artesanato. Viveu a pobreza do interior e da capital, não sendo reconhecida no seu país, adiantada a sua época, mesmo sem ter frequentado escolas formais de arte. Com traços bipolares e rebeldes, parecia feliz mas dizia viver a infelicidade, especialmente no amor (suicidou-se aos 49 anos).

Violeta Parra e sua filha Isabel, década de 1950
Este filme, que não aprofunda os aspectos ideológicos e políticos, baseia-se na biografia escrita pelo filho Ángel Parra, e se concentra em poucas figuras: um só dos vários amores da artista, o suíço Gilbert Favre, e dois dos quatro filhos, Ángel e María Luísa. Veja aqui o longa Violeta se fue a los cielos, sem legendas, de 1h 43min.

A programação completa do V Ciclo de Cinema, sob a coordenação do professor dr. Luís Rubira, está disponível no sítio da UFPel. Em 2014, todos os filmes são documentários sobre música ou cinebiografias de músicos de todas as épocas. As sessões são realizadas toda sexta às 20h no Centro de Integração do Mercosul, com entrada franca.

Conheça mais sobre a verdadeira Violeta na Wikipedia em espanhol, no programa de TV Nacional Grandes Chilenos (59 min) e na reportagem argentina do Canal Encuentro (54 min). Ouça aqui a voz de Violeta em antologia de 26 músicas (59 min). Confira abaixo Viola Chilensis, documentário de Luis Vera realizado em 2003.

domingo, 11 de agosto de 2013

O espírito de Portugal

Azul, de Arlinda Nunes
(mar, ilhas e caminhos)
A artista plástica Arlinda Magalhães Nunes criou uma série de 7 telas, cada uma com uma cor, para ilustrar a sequência do arco-íris. O quadro azul foi o único da série que ela guardou para si, em seu ateliê no Centro Zona Norte, talvez como lembrança do trabalho completo.

Nesse ateliê também estão expostas, de modo permanente, duas mandalas vazias, uma verde e uma vermelha, que lhe recordam a bandeira de Portugal, país de origem de seus ascendentes.

Buscando uma relação possível entre as três obras, me pareceu descobrir por que Arlinda reteve o quadro azul e por que o exibe em conjunto com as duas mandalas: a conexão está no coração da artista, filha de Portugal, e na coloração das obras. As cores da bandeira e a cor do oceano representam o espírito de navegação e empreendimento, que sempre animou os portugueses em suas viagens e anima os artistas em sua busca de novas visões e novos caminhos.

Outra simples associação nos leva ao poema de Fernando Pessoa que define a alma portuguesa de forma tão bela e sintética.


Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Do livro Mensagem (1934)

Composição de Darrell Kastin para o poema de Fernando Pessoa
Shawna Lenore (voz), Darrel Kastin (piano), Luis Sá Pessoa (violoncelo)
Imagem: F. A. Vidal

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Encuentro en el estudio": Ramil em Buenos Aires

"Encuentro en el Estudio" é um programa do canal educativo Encuentro, do Ministério da Educação argentino. Em cada edição, o experiente apresentador Lalo Mir conversa com cantores e grupos destacados da cena argentina e latino-americana, dos mais diversos gêneros. Em agosto de 2012, durante a 5ª temporada do programa, foi a vez do músico brasileiro Vítor Ramil.

Durante uma hora, o entrevistado pelotense falou sobre sua obra e cantou as seguintes músicas, acompanhado pelo argentino Carlos Moscardini: Não é céu; Ramilonga; Milonga de los morenos; Deixando o pago; Noite de São João; Estrela, estrela. O programa completo se encontra no vídeo abaixo.

O nome "Encuentro en el Estudio" se deve ao fato de ser gravado nos estúdios ION, onde foram registradas as músicas mais importantes da Argentina nos últimos 50 anos (Piazzolla, Pugliese, Mercedes, Charly, Fito). Alguns brasileiros que já estiveram nessa sala de gravação: Vinícius, Toquinho, Maria Creusa, Betânia e João Gilberto. Todos eles, verdadeiras lendas da música. O engenheiro de som (Jorge "Portugués" da Silva, de cabelos brancos) e o radialista Lalo Mir também são grandes nomes, em suas áreas.


Vítor defende o direito de ser parte de outro Brasil, o não tropical, e fala de uma confusão de identidade dos brasileiros do sul, os gaúchos, pois vivem em clima frio, com costumes hispanizados, mas devem rezar pela cartilha cultural dos centros do norte quente.

Por outro lado, nesta entrevista ele se apresenta como filho de uruguaio e neto de espanhol, talvez para não parecer tão distante, até porque ele fala espanhol platino normalmente. Tal definição de mistura também não é aceitável pelos castelhanos, pois identificam num descendente de hispânicos, como ele, um verdadeiro hispânico, somente com roupa e aparência de brasileiro. Autores platinos também já falaram do templadismo e do subtropicalismo, que são outros nomes da ramiliana Estética do Frio.

A verdade é que Vítor como gaúcho lusófono está definindo um novo lugar cultural, uma referência que não foi valorizada nem como parte do Brasil, nem como algo que seja autêntica e puramente hispânico, mas de uma nação diferente. Subjaz um separatismo gaúcho, mas do século XXI, sem bravatas sanguinárias nem fronteiras burocráticas. No Rio de Janeiro, o crítico Sérgio Martins já inclui Vítor como parte do Brasil, aplicando-lhe o epíteto de "o segredo mais bem guardado da MPB" (veja entrevista, em vídeo de 7 min).

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Virada do ano com virada do tempo

Precipitações começaram na Argentina após meio-dia (foto de Gastón Berne: Rio da Prata visto desde Montevidéu)
No último dia do ano, pela tarde, todo o Rio Grande do Sul estava com temperaturas entre 30 e 35 graus, enquanto no meio da Argentina começava uma forte instabilidade, com muita chuva, ventos de uns 90 km/h e um pouco de granizo.

Após o meio-dia já chovia forte em Buenos Aires (a foto acima dá uma ideia de como o temporal começou). Nas horas da tarde, os ventos faziam o céu mudar no sul do Brasil. No Natal, as temperaturas gerais de 40 graus em todo a região sul, incluindo Santa Catarina, foram amenizadas por uma virada de tempo seco, ficando as mínimas, pelo menos por um dia, ao redor dos 20 graus.

Em Quaraí, a frente de rajada entra em território brasileiro (dia 31 à tarde).
Em Quaraí, a frente vista de lado (registros de Daniel Arbiza).

O céu ao norte de Pelotas muda ao anoitecer (foto de Artur Rocha)
As fotos, publicadas pelo MetSul, mostram como a grande massa avançou, com incrível rapidez, chegando até Porto Alegre em questão de doze horas. Antes de aguar o réveillon na capital, o céu já se havia nublado e haviam caído chuvas esparsas, tranquilizando muita gente quanto a mais precipitações.

No Cassino, a chuvarada chegou antes da meia-noite e a festa nas ruas foi suspensa. Mas em Porto Alegre os fogos do Ano Novo se confundiam com os raios e relâmpagos e houve muita confusão. Em Pelotas, a hora mais pesada foi das 22h às 23h.

Pela inusual rapidez e pela inconveniência do feriadão mundial, o fenômeno tomou a imprensa de surpresa em todo o Estado. Somente foi acompanhado pela empresa gaúcha de meteorologia METSUL, durante todo o dia 31 até as 3h de terça (1). Na internet, o Diário Popular fez uma pequena menção à tempestade. O evento foi significativo, pois em uma hora choveu um quinto da média mensal, nas cidades mais afetadas da região.

Em Porto Alegre choveu à tarde (foto de Luciano Alcântara).
O toró foi na virada do ano novo.
Fotos: MetSul

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Música sul-coreana entre os casarões


Muzik Ex Machina é um cover brasileiro do quinteto feminino sul-coreano 4Minute. Apesar do estranho nome, trata-se de um grupo pelotense, em que cada bailarina assume uma cantora do grupo imitado e reproduz a coreografia e os movimentos de lábios de seu papel.

O pop coreano ou K-pop [kêi-póp] é um gênero musical juvenil que combina traços específicos da cultura sul-coreana e da norte-americana, e se transformou num fenômeno internacional na última década, com fãs por todo o mundo.

Ontem (30) o Diário Popular (veja a nota de Max Cirne) informou sobre o primeiro clipe do grupo, em que as meninas do Muzik Ex Machina reconstroem a música "Volume Up" (vídeo acima), com a direção de Ruan Sampaio Leal.

Em Pelotas, as cenas foram filmadas em prédios antigos, como o Castelo Simões Lopes (foto maior abaixo) e a Biblioteca Pública (esq.). Nada têm a ver os casarões do início do século XX com a música atual, mas é justamente a justaposição de elementos discordantes que dá força à colagem intercultural.

Veja imagens dos ensaios no making of deste vídeo de estreia do grupo pelotense e a Volume Up original com o grupo sul-coreano 4Minute. O quinteto já mereceu uma resenha do sítio A-Team, especializado em música asiática.

Identificando na foto (dir.) as integrantes do grupo cover, a partir da esquerda:
  • Caroline Garcia Rosa (morena, 16 anos) usa o nome artístico Aiko, e faz a sul-coreana SoHyun, 
  • Amanda Salagnac (loira, cabelo crespo, 22 anos) é Sara, que representa GaYoon; 
  • Paola Martins (ruiva, 24) tem o pseudônimo Akemi e faz HyunA; 
  • Amanda Hartwig (loira, cabelo liso, 16) se apresenta como Mei, dublando a original JiHyun, 
  • Franciele Mendes (morena, 21), a Syza, faz JiYoon e confirmou estes dados. 
Imagens: Facebook


sábado, 15 de setembro de 2012

Previsão de chuvaradas e ventanias

O blogue da empresa MetSul Meteorologia resumiu com sobriedade a previsão do tempo para o Rio Grande do Sul em setembro: Setembro não repete agosto e vem chuva para os gaúchos. No entanto, as imagens da Argentina central inundada, no jornal La Nación, assustam quem mora em terreno baixo como Pelotas e região. Lá a planície virou lagoa e houve grandes perdas para a economia. E a frente fria que alagou milhões de hectares no país vizinho ainda tem água para extinguir a seca que afeta o sul do Brasil até hoje.

Para o Diário Popular, o panorama é espantoso e a Defesa Civil não está prevenida (veja a notícia). Em termos práticos, a partir deste fim de semana o anúncio é de muita chuva, vendavais, baixa de temperatura, inundações e caídas de árvores.
Fotos blog MetSul

POST DATA: 
18-09-12 O blogue MetSul advertiu hoje: Ciclone traz cenário muito perigoso.
19-09-12 O jornal El Observador mostrou efeitos da tempestade em Montevidéu. Abaixo, imagens tomadas por um repórter hoje (19). Veja outro no mesmo canal de vídeo.

domingo, 4 de setembro de 2011

Mais 7 noites para Woody Allen

Mais uma semana para Woody Allen em Pelotas com sua "Meia-Noite em Paris" (v. nota neste blogue). Talvez um dos melhores filmes do ano, por algum estranho motivo ele chegou a nossa cidade, mas ficou isolado na poltrona das 21 horas (leia a crítica feita pelo jornalista Luiz Caminha no Pelotas13horas).

Além das homenagens que o diretor nova-iorquino faz a Hemingway, Buñuel e uma infinidade de artistas, o título já evoca um disco de Duke Ellington gravado em 1962, Midnight in Paris.

Para o filme de 2011, Woody Allen faz sua própria seleção, também inspirado na música francesa (ouça abaixo o tema principal, com o violonista francês Stéphane Wrembel).

O pelotense vaidoso verá muitas semelhanças entre sua cidade-natal e a capital do mundo: o clima frio e chuvoso, a riqueza arquitetônica, museus e bares, a presença de artistas de todo tipo, a tendência de considerar-se o centro do mundo, e ruas de paralelepídeos.

Uma dessas involuntárias semelhanças aparece na capa do disco de 1962, que mostra um aspecto noturno e enevoado de uma das fontes da Praça da Concórdia, toda uma evocação à "estética do frio" (teoria do pelotense Vítor Ramil). Paris e Pelotas podem não ter nada a ver hoje, mas a conexão mais profunda ficou, neste filme, um pouco mais consciente.

Imagem do vídeo: A Noite Estrelada, de Van Gogh

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Exposição de arte em miniatura

O artista colombiano Daniel Gómez Naranjo concebeu a exposição 5x5 ("cinco por cinco"), alusão ao tamanho único das obras participantes: liberdade para criar em 5 centímetros quadrados (ou cúbicos), com qualquer técnica e os materiais mais diversos.

A primeira fase do projeto foi organizada por ele na Universidad de Caldas (cidade de Manizales, província de Caldas, Colômbia), com artistas daquele país; a dimensão formal pretendia adaptar a coleção em diversos espaços e facilitar o transporte (veja nota no Diário Popular).

Num segundo momento, realizado em junho passado, 10 brasileiros expuseram trabalhos, criados no Brasil e enviados à Colômbia por correio. Organizadas pela artista Francis Silva, as obras foram expostas no evento Zona de Encuentro (leia nota), num total de 500 participantes.

A terceira parte ocorre em Pelotas até este sábado (30), na Escola Idiomas (Tiradentes 2582), com curadoria de Francis Silva. As obras brasileiras voltaram, e algumas das colombianas fizeram sua primeira turnê internacional. Sendo a exposição agora em nosso país, o título "Brasil 5 x 5 Colombia" brinca com a nossa linguagem futebolística.

As 29 pequenas criações contêm grandes jogos de significados, como a moeda que abre portas (acima à esq.) e os dados viciados na origem (dir)., que nunca caem nos extremos (números 1 ou 6). Os cigarros desenhados (abaixo) fazem uma volta pela má fama do tráfico de maconha, que "queima" a imagem de um país.

Daniel também construiu uma alusão musical, colocando as miniaturas (soltas, a maioria) em suportes de seis fios em linha, que sugerem as cordas de um violão sem fim.

Por sua parte, o espectador se vê obrigado a aproximar-se muito de cada obra, talvez à distância dos mesmos 5 cm estipulados pelo curador, como se tivesse um alto grau de miopia (cegueira às questões interculturais?). Essa aproximação física evidencia e, ao mesmo tempo, induz um maior interesse de parte do observador, e funciona como um gancho de sedução para envolver a pessoa curiosa.

Talvez o trabalho menos chamativo visualmente - e, no entanto, mais polêmico - seja a cápsula de cocaína (esq.) trazida pelo artista em seu próprio corpo, como fazem as "mulas" do tráfico: o mesmo objeto que é transportado em contrabando ilegal aqui está para simples observação e reflexão.

Os 29 autores estão identificados numa lista, mas seus nomes não aparecem ao lado das obras, o que requer a presença de mediadores para falar dos trabalhos e recolher impressões dos visitantes. Até porque o conceito da exposição e a maioria dos trabalhos mexe muito com pensamentos e emoções das pessoas. A mostra ficou entre nós somente 5 dias (outra sutil alusão numérica), e deixará sentir sua lembrança por muito tempo.
Fotos de F. A. Vidal

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A eterna violência humana (crônica)

O cronista Rubens Amador traz um texto atual, em que interpreta nossa natureza e nosso futuro, à luz dos fatos históricos do último século.

Caim matou Abel, num ato de violência. David atingiu Golias noutro ato desses. Dos hunos, bárbaros antigos, até os nazistas, bárbaros modernos, este pequeno globo em que vivemos nunca teve uma paz duradoura. Conhecemos os kamikazes, armas humanas em que com o próprio corpo se tornavam petardos, levados pela intolerância mesclada com o fanatismo. Não faz muito tempo que estiveram na ativa, esses pobres homens. Pearl Harbor foi seu palco e sua finalização daquela prática.

Depois, em dose gigantesca, vieram Hiroshima e Nagasaki, o superlativo da violência, em que não foram respeitados crianças, velhos, civis, em sua maioria amainando a terra naquele momento do cogumelo.

Foi esta a violência mestra, que haverá de marcar para sempre o lado negro da humanidade. Os japoneses praticavam a violência convencional, como os seus inimigos, até as bombas, sem jamais pensarem que a ciência poderia causar uma hecatombe contra seu povo, como aquela que até hoje ainda medica vítimas dela.

Hoje, por inabilidade de governantes e intrigas entre os muçulmanos, divididos em religiões diversas em cada tribo, os fundamentalistas terroristas (“arma” difícil de combater) são o novo fulcro que se instala, e que, pior do que os kamikazes, estão se imolando e levando consigo dezenas de inocentes. Fanáticos, foram capazes de causarem o 11 de setembro, de triste memória.

Não esqueçamos das duas guerras mundiais, outro indicativo de que o homem é um ser violento e agressivo, capaz de, entre uma sinfonia e uma ópera, construir foguetes capazes de destruir uma cidade. E lembremos que os gases venenosos estiveram em evidência na Segunda Guerra Mundial. Todos nós lembramos as máscaras contra gases, que a cada sirene que tocava, crianças e cidadãos as colocavam. Mas, quando os dois lados se deram conta de que cada um poderia usar do mesmo processo, cessaram; num átimo de bom senso ante o ensandecimento de que estavam possuídos, sob a tutela da Convenção de Genebra.

Desde menino que eu ouço falar no “perigo amarelo” (Yellow Peril), referindo-se aos chineses, que talvez por terem descoberto a pólvora, sempre foram um povo temido, que procuraram manter sob a incultura e o servilismo. Os ingleses – que os dominavam – tinham à porta de seus clubes sociais um letreiro: "Proibida a entrada de chineses e cachorros." A vitória de Mao Tsé-Tung teve muito a ver com este passado de injustiças sofridas por seu povo, em mãos dos estrangeiros. Expulsaram-nos, e exerceram a violência de forma inaudita, até que as gerações posteriores se deram conta de era preciso uma forma de convivência, para saírem da miséria em que se encontravam, com seus bilhões de habitantes para alimentarem.

Hoje os chineses se tornaram polidos e espertos. Mas eu acho que ainda são o “perigo amarelo” de que ouvi falar desde criança. Será o comércio, mais uma vez, que desencadeará a nova guerra que todos nós sentimos no ar. Tem sido quase sempre a economia o pano de fundo das guerras.

Pelo meu modo de ver, estamos caindo na armadilha dos amarelos, pois, enquanto eles compram aos demais matérias-primas importantes, como o ferro, o manganês, e outras matérias estratégicas, ficamos a importar quinquilharias copiadas, de má qualidade, mas muito baratas. Estão conquistando o mundo com esses balangandãs e enriquecem de tal forma, dado que não têm uma legislação trabalhista, com um salário mínimo equivalente a 200 reais.

Mas lá a ONU e os seus aliados nada fazem como estão fazendo com Khadafi na Líbia, e já fizeram com Sadham no Iraque, até porque esses tinham muita “gasosa”, e estão comprando empresas e TERRAS em países estrangeiros, principalmente no Brasil. Nos EUA, três trilhões de dólares são empregados pelos chineses em títulos do Governo Americano, que necessita de muita grana para sair da imensa crise do capital. A sociedade comunista, hoje extinta, há setenta anos já previa que um dia isso iria acontecer, no embate capitalismo e comunismo. Os americanos estão em recessão apesar da sua grandeza, ainda hoje.

Deus queira que eu esteja errado, mas o próximo período de violência mundial que se aproxima terá o velho “perigo amarelo” como um dos principais participantes. E a história de Caim e Abel se repetirá, de tempos em tempos, até a consumação dos séculos.
Fotos da web

domingo, 27 de março de 2011

Novo holocausto


Three Mile Island, ilha fluvial no Estado da Pensilvânia (EUA)

Crônica de Rubens Amador, especialmente para este blogue
Não bastou Chernobyl em 1986 nem Three Mile Island em 1979 (acima)... com tanta fonte de energia que Deus dotou o mundo, como as águas, o ar, o petróleo, a energia solar. O homem, depois de Hiroshima e Nagasaki, tristes exemplos para a humanidade, sem contar os que já matou, ainda hoje trata de vítimas daquela hecatombe. Sim, aquela energia formidável causou outro holocausto, que, como o judaico, também jamais deveria se repetir.

Mas não, antes de que tal energia pudesse ser útil ao homem, os governantes pensaram na força bélica, tanto assim que a primeira coisa a ser feita, tanto pelos EUA como pela antiga União Soviética, foi aprisionar a energia atômica para criarem arsenais incríveis – que ainda sabemos que existem entre os dois ex-figadais inimigos – e que depois estendeu-se para outros pontos, quando dirigentes possuidores da bomba ameaçam provocar um cataclisma geral, de acordo com suas idiossincrasias.

A energia atômica tornou-se objeto de troca política, e até países como a Índia – em cujo rio principal boiam corpos insepultos junto às piores imundices imagináveis – possuem usinas nucleares. Agora, o caso do Japão ameaça tornar-se uma tragédia quase universal, dado que se desconhece ainda o potencial de energia mortal liberada, por causas outras que toda a tecnologia nuclear e instrumentos de “segurança” usados não previram, como o Tsunami!

Chernobyl em 2006, cidade fantasma na Ucrânia
A humanidade atirou-se na busca de uma energia satânica, cujo perigo agora está vendo, mas, creio, tarde demais para se darem conta de que tal energia não vale a pena. Mas hoje, dado as implicações políticas existentes decorrentes do comércio, este mote de todas as guerras; e como a energia nuclear está espalhada por todos os recantos da terra, um com medo do outro, isto torna impossível resguardar os povos de uma tragédia final.

Eu, na idade provecta, temo pelas pessoas minhas, que estão começando suas vidas. Acho que a humanidade deixou passar toda a energia notável que Deus nos deu, ao trocar a Paz do mundo por esta insegurança proveniente de uma energia que envolve mais riscos que benefícios. Até os nossos mares estão ameaçados permanentemente, com os submarinos nucleares. A liberação da energia nuclear jamais será lembrada como amiga do homem.

Progresso desse tipo não é progresso, já pensava desde 1945 o povo japonês. Tendo sofrido na própria pele cicatrizes inesquecíveis, agora treme, ao lembrar-se de que todos os efeitos desse brinquedo mortífero são imprevisíveis. Tenho certeza de que dirão, como testemunhas incomparáveis:

— Não insistam: se puderem, fujam dessa destruição tão dolorosa! Enquanto é tempo!

Rubens Amador

O parque de diversões de Prypiat (foto 2) ia ser inaugurado dia 1 de maio; o acidente em Chernobyl foi 26 de abril. A roda nunca andou e até hoje concentra grande radioatividade. Veja aqui mais fotos da cidade abandonada, vinte anos depois.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Explicação das festas juninas

Na última quarta-feira de junho (30), o padre Adelar José Rosa (dir.) falou sobre as origens e significados das festas juninas, ante psicólogos da Sociedade Sigmund Freud, em sua maioria colegas da especialização em terapia psicanalítica.

O estudioso começou explicando que não se trata de festas nascidas no Brasil, mas trazidas pelos portugueses, sendo de origem pagã e milenar. Os europeus comemoravam há muitos séculos o solstício de início do verão no hemisfério norte e a Igreja Católica cristianizou a data, centrando-a em São João Batista, o primo de Jesus, que teria nascido em 24 de junho. Ficou com o apelido de festa joanina, que derivou para "junina", como se fosse pelo mês de junho (veja na Wikipédia).

No Brasil, os santos "juninos" mais recordados são, além de João Batista: Antônio de Pádua (dia 13) e os apóstolos Pedro e Paulo (dia 29). Antônio nasceu em Portugal, fez-se frade agostiniano e se radicou em Pádua, na Itália, passando à ordem franciscana; é conhecido como santo casamenteiro e solucionador de conflitos e coisas perdidas (no entanto, as simpatias para arranjar marido são superstições populares).

O apóstolo Pedro era pescador, discípulo de Jesus (nosso Estado leva seu nome, desde que era a Província de São Pedro). No Rio Grande do Sul, os brigadianos - por policiar a cidade em duplas - ficaram com o apelido popular de "pedripaulo".

A Igreja recorda Pedro e Paulo no mesmo dia, como líderes da evangelização no primeiro século, mas eles não foram martirizados juntos, como poderia supor-se. Nem são os únicos santos do mês; o catolicismo recorda vários (média de oito) em cada dia do ano.

Nas festas juninas brasileiras não há traços paulinos (do santo chamado Paulo), mas elas foram mais fortes no interior do Estado de São Paulo, o que marcou as datas como se fossem somente caipiras.

No Brasil, as crenças e tradições tomaram elementos europeus (como a quadrilha francesa) e se renovaram segundo cada zona. O folclore nordestino foi mais forte que os costumes paulistas, e aqui no sul nossas tradições se mesclaram com elementos caipiras e europeus.

Para não esquecer a psicanálise, o palestrante mencionou o sentido fálico da brincadeira do Pau Ensebado, que nas festas juninas os homens mais ousados trepam, à cata de um prêmio (não citou a função masturbatória masculina, representada nesse ato). Se o mastro fosse um monumento, talvez se pudesse falar de um signo de poder falocêntrico.

O Casamento na Roça é uma encenação em que um par de namorados é forçado a casar-se, por uma gravidez inesperada. Na palestra, tal costume foi relacionado com o sentido pró-familiar do famoso Santo Antônio, que também patrocina o dia dos namorados no Brasil. No entanto, como qualquer católico sabe, a Igreja não valida casamentos por força.

O interesse popular estaria focado, segundo Freud, no ato sexual dos pais, cuja visão é proibida à criança. O riso nervoso se faz prazeroso quando o padre autoriza e o delegado, com rifle na mão, obriga os noivos a assumir, em público, o papel dos pais.

O casamento caipira entre a ex-BBB Gyselle Soares e seu namorado francês (dir.) foi justamente no dia de São Pedro e São Paulo, em junho de 2008, mas parece que na ocasião não houve rifles nem pedripaulos.

Ao longo da reunião aqui comentada, Adelar ilustrou os conceitos com exemplos em imagens e música, obtendo a atenção e a motivação de todos. O momento de maior silêncio e concentração foi quando no fundo musical se ouviu um canto gregoriano - elemento genuinamente religioso e não festivo. No vídeo abaixo, o Intróito Spiritus Domini, com os monges espanhóis de Santo Domingo de Silos.
Imagens da web e F. A. Vidal (1)

domingo, 27 de junho de 2010

O expressionismo visual e a composição da "pintura sonora"

Em fevereiro passado, o compositor Jorge Meletti ensinou um conceito utilizado na criação de trilhas sonoras: o mickeymousing (veja o post).

Trata-se de uma técnica de composição para cinema - não somente de desenhos animados - em que a música imita a cena: às vezes detalhadamente, de forma sincronizada com ações dos personagens, outras vezes imitando a cena de forma geral, no seu caráter como um todo. Começou a ser usada nos primeiros curtas de animação de Disney, e com o tempo foi incorporada pelos compositores nos mais variados gêneros de filmes.

Um dos exemplos - do filme Pollock (2000) - foi gentilmente disponibilizado pelo professor e se transformou em minha primeira postagem no portal YouTube. Nesse trecho, o pintor expressionista norte-americano Paul Jackson Pollock (1912-1956) - representado no filme pelo ator-diretor Ed Harris - faz um mural abstrato, após algumas semanas de refletir e olhar para uma parede vazia.

Veja como a música ilustra as imagens, com precisão formal e abundância de significados. O compositor Jeff Beal cria conexões entre os timbres instrumentais e as cores de tinta. Textura, orquestração e gestos musicais aparecem em estreita relação com as ações físicas do artista. Um sofisticado exemplo de mickeymousing.


    • O ataque gentil e brilhante da percussão em 0:09, facilmente associável à faísca criativa na mente do artista, ao olhar a tela em branco.
    • As arcadas rápidas e enérgicas nas cordas agudas acompanham as primeiras pinceladas do artista em 0:14;
    • O oboé introduz a cor cinza em 0:50.
    • Os sons de percussão são associados ao amarelo em 1:12.
    • As melodias paralelas ilustram as onduladas linhas descendentes em preto e cinza em 0:57.
    • Os ataques instrumentais graves ilustram a tinta vermelha sendo atirada sobre a tela em 1:37.
    • Quando a pintura revela melhor sua exuberância de linhas, formas e cores, a música assume uma nova postura, com várias melodias simultâneas que dialogam em diversos timbres instrumentais: 1:55.
    • O momento em que a obra está mais acabada, e o artista pinta os últimos retoques, é sublinhado por uma mudança textural e pelo caráter musical menos improvisatório: 2:10.

    Assista e ouça atentamente, buscando outras relações música/imagem. Há muito mais.

    sexta-feira, 25 de junho de 2010

    Série Isla Negra

    Durante o mês de maio esteve exposta, na Sociedade Sigmund Freud, a série "Isla Negra", obras de artistas locais que haviam participado de uma exposição no Chile. A mostra marcou a chegada do médico Eduardo Devens à função de coordenador cultural, que na Sociedade organiza as exposições e uma palestra por mês.
    No Museu Pablo Neruda de Isla Negra - balneário na região de Valparaíso - apresentou-se em novembro de 2009 a 14ª edição do Circuito Internacional de Arte Brasileira, uma iniciativa do Colege Arte, entidade de Belo Horizonte que promove a arte brasileira. A curadora para nosso Estado é Norma Alves, artista plástica que também se fez presente como autora e na viagem ao Chile com o grupo de artistas.
    Isla Negra é uma pequena localidade às margens do Oceano Pacífico. Não é uma ilha, mas Pablo Neruda (1904-1973) assim batizou o lugar ao ver a paisagem solitária, cheia de recifes escuros. O nome sentimental se fez popular, e foi oficializado anos depois de o poeta haver ali construído uma nova casa, a última de suas habitações no Chile.

    Outro dado pouco conhecido é sobre o nome pelo qual se fez famoso mundialmente o professor de francês Ricardo Reyes Basoalto, nome de batismo do poeta. Há duas hipóteses (segundo a Wikipedia em espanhol): ainda adolescente, ele teria tomado o sobrenome do poeta tcheco Jan Neruda e acrescentou-lhe o prenome de sua preferência; ou teria visto uma partitura do compositor Pablo de Sarasate com dedicatória à violinista Wilme Norman-Neruda. Seja como for, o resultado foi tão sonoro como os versos que o mesmo poeta geraria. Neste caso, o pseudônimo poético também virou realidade (como a Isla Negra), pois foi legalizado como o nome do poeta em 1946 .

    Das 17 obras que ficaram expostas, nove são os autores: Maria Medeiros, Zé Darci (acima), Geovani Aldrighi, Liziane Fonseca (esq.), Edilaine Dutra, Rute Grillo, Norma Alves, Eduardo Devens e Maria Cristina Leonardo. Não se observou uma temática comum, nem sequer pelo lugar aonde elas se destinavam, exceto talvez por dois quadros: um que se referia a Pablo Neruda, de Aldrighi, e "Araucárias" de Cristina Leonardo, que alude às árvores mais comuns no Chile.
    Outros trabalhos à primeira vista não muito chamativos eram as fotografias de Norma Alves e de Eduardo Devens. Um olhar mais cuidadoso, com explicações adequadas, revelaria que não se tratava de imagens totalmente abstratas, mas de olhares minuciosos e inesperados sobre objetos cotidianos, registros somente possíveis para uma máquina de qualidade e uma visão humana atenta e bem-humorada.
    Em "Cores Primárias II" (dir.), Norma Alves mostra o fundo de uma taça de champanhe, com leves intervenções digitais. Se o copo já é objeto funcional, a fotógrafa mostrou o lado artístico do mesmo, escondido aos olhos de quem deseja beber algo espirituoso e o vê somente pelo lado de cima.
    Em "Ordem e Progresso" (esq.), Devens amplia uma simples bolinha de gude, desfazendo nossa ideia de pequenez, sem a menor alteração digital no resultado. A sutil alusão à infância nos remete à percepção de vivências pessoais talvez minúsculas, mas que na mente podem ter proporções gigantescas, alterando a ordem e o progresso psicológico.
    Imagens: E. Devens (1) e F. A. Vidal (2-5)

    segunda-feira, 21 de junho de 2010

    Tudo pára quando eu vejo futebol

    Como tem sido costume em cada Copa do Mundo após o tetracampeonato em 1994, o povo brasileiro detém todas suas atividades – comerciais, profissionais, educacionais, familiares, religiosas, turísticas – e o pensamento da nação pretende ser uma só torcida para obter o hexa.

    Lojas, bancos, escolas, cinemas, museus, consultórios, universidades, tudo pára. Por duas horas se realiza aquele narcisismo absoluto - próprio de um ato amoroso - enaltecido pela música de Roberto Carlos: pára o bairro e a cidade, nessa hora tão feliz, e é tanto o amor que pára até o país (ouça a música).

    Em Pelotas, a Fenadoce adiantou seu período para não perder visitantes, sinalizando sua função lucrativa e o perigo econômico da Copa. Há quatro anos, a Feira do Doce havia coincidido com os jogos na Alemanha, mas terminou impondo-se a loucura mundial: o povo preferia torcer em casa, não nos telões da Feira.

    O primeiro jogo da seleção brasileira na África do Sul foi nesta terça (15), às 15h30min. Como se esperava, o comércio fechou e as ruas esvaziaram. Antigamente se dizia de algo arrasador, que era "de fechar o comércio", como aqueles bandidos arruaceiros de faroeste. Mas aqui nada havia de sensacional ou extraordinário; somente mais um jogo da seleção. A vítima desse perigo arrasador seria o próprio comércio.

    Fui ver como as lojas anunciavam seu forçoso ócio, a negação do negócio. A mais expressiva foi uma livraria da Marechal Floriano (acima), que tapou sua porta com uma grande bandeira brasileira. A razão do fechamento comercial foi patriótica, algo assim como a defesa da pátria. Mas se no Brasil houvesse respeito pelo símbolo nacional, pela ordem e pelo progresso, o futebol não seria tão poderoso.

    No Calçadão, a maioria das lojas fechou pelo resto do dia, enquanto a Renner e a Pompeia ficaram abertas e sem clientes. O museu mais importante de Pelotas, pertencente à UFPel, informou turno único das 8h às 14h (esq.), apesar de que o horário do Sistema Nacional de Museus inclui atendimento até em domingos.
    O Banco do Brasil também planejou e informou abertamente seu horário especial, das 9h às 14h. Nos Correios, o atendimento foi anunciado até as 15h, e as agências fecharam.
    Era um dia normal de semana, não havia motivo fúnebre, nem sequer de celebração alguma - somente havia que torcer.
    Talvez respeitando o valor supremo da saúde, várias farmácias não fecharam e, cheias de funcionários verde-amarelos, colocaram televisores perto da calçada, para que os transeuntes também pudessem torcer. A maioria dos ambulantes da Floriano sumiu do mapa, restando dois com uma TV ligada. Nesta imagem, um grupo da farmácia (comércio estabelecido) vê o jogo num televisor, enquanto camelôs veem o futebol em outro (dir.). Tolerância e indiferença mútua, como ocorre no dia-a-dia.
    Alguns locais e serviços reabriram após ver a partida dentro de seus locais de trabalho, como uma lotérica da Quinze de Novembro que afixou o cartaz que orientava possíveis (?) interessados: "reabriremos às 17:30" (esq.).
    A livraria defronte (dir.) simplesmente fechou, deixando à vista o cartaz de seus horários habituais, agora descumpridos (ninguém o leria e por isso mesmo ninguém se veria desorientado).
    A obsessão tem servido para fins diversos, como fugir do trabalho, faltar ao dentista, passear o cachorro (abaixo, a senhora com a camisa do Romário) e outras atividades igualmente solitárias. Cada um realiza seus fins pessoais, encoberto pelo egoísmo coletivo: aí está uma pequena definição de nossa tendência à corrupção. Um psicólogo diria: desaparição do superego construtivo, predomínio do prazer amoral.
    Nem o Brasil tinha este delírio coletivo, nem se sabe de países que parem todas suas atividades produtivas para não perder um jogo. Mas também nunca houve um país pentacampeão desejando ser hexa... como se precisasse do infantil sonho de ser "o melhor do mundo".
    Certo, é preferível enlouquecer pelo circo esportivo do que pela guerra contra o terrorismo (EUA), e por isso seguimos sendo o paraíso da festa, da gazeta e do oportunismo.
    Devo acrescentar que neste texto acentuei o verbo "pára" - ao contrário do que manda o novo acordo ortográfico - justamente para evitar as confusões geradas pela falta do signo.
    Fotos de F. A. Vidal

    domingo, 20 de junho de 2010

    Yolanda Pereira, 100 anos de nossa eterna Miss Universo

    Em 8 de setembro de 1930, o Jornal do Brasil noticiou sobre o Concurso Internacional de Beleza (leia nota), realizado pela primeira vez no Brasil - desde seu início em 1926 - país que também participava por primeira vez no concurso.

    A ganhadora foi uma brasileira, Yolanda Pereira, pelotense de 19 anos. No Rio de Janeiro, desfiles e glórias para a nação. Em Pelotas, bandas de música, foguetes e hasteamento da bandeira nacional para a filha emérita. A Princesa do Sul estava no início de sua decadência econômica mas não poupou festas e homenagens por esta vitória incrível.

    Segundo a Wikipédia (verbetes Yolanda Pereira e Miss Universo), o evento - que dava o título de Miss Universo - chamava-se Concurso (ou Desfile) Internacional de Beleza. O atual "Miss Universo" (com esse nome desde 1952) é ainda o maior no gênero e se inspira naquela versão antiga, iniciada em 1926 e interrompida em 1935, em função da depressão nos EUA e pela Segunda Guerra Mundial.
    A Miss Pelotas Yolanda Pereira também foi a primeira Miss Brasil, e a única brasileira a ganhar o título de Miss Universo naquela primeira fase do concurso. Nascida em 16 de outubro de 1910, Yolanda se definia como uma pessoa modesta, de hábitos e sentimentos religiosos arraigados. Estudou no Colégio São Francisco e estudou piano no Conservatório de Música de Pelotas.
    Após cumprir os deveres impostos pelo concurso, Yolanda voltou a Pelotas, e continuou a viver, como ela declarou, "com tanta modéstia quanto permitiu a evidência em que a colocou o concurso".
    A casa paterna, em que ela morou enquanto solteira, ainda existe e foi restaurada há alguns meses pelo novo dono, Antônio Carlos Niemczewski. Pai de Yolanda foi o leiloeiro Lydio Pereira, segundo informação do cronista Rubens Amador.
    Poucos anos depois do concurso, em 1936, Yolanda casou-se com o brigadeiro da Aeronáutica Homero Souto de Oliveira. Radicando-se no Rio de Janeiro, o casal teve quatro filhos: Homero, Vânia, Jane e Sérgio Souto de Oliveira. Na foto da Revista Manchete, em março de 1964 (abaixo), ela aparece aos 53 anos, com a recém-casada Vânia e com Jane, de 17 anos.
    Yolanda faleceu em setembro de 2001, aos 90 anos, no Rio. Cidadã Emérita de Pelotas, um monumento na praça Osório, em forma de coluna grega (esq.), recorda seu nome e sua "beleza grega" (foto tomada hoje, 20 de junho).
    Em outubro de 2010, ela faria 100 anos, mas não se preveem novas homenagens. Em 2008, a vereadora Diosma Nunes propôs a denominação de uma rua para Yolanda Pereira (veja nota).
    A Bibliotheca Pública Pelotense guarda, como símbolo da história da cidade, as faixas usadas por Yolanda Pereira - a primeira Miss Pelotas, a primeira Miss Rio Grande do Sul, a primeira Miss Brasil e a primeira brasileira a conquistar o título de Miss Universo.
    Em honra às mulheres pelotenses, o Quiosque de Nelson Nobre apresentou, em março de 2010, algumas reproduções de fotos de Yolanda Pereira, uma das quais é a imagem acima à direita. Homenagem parecida foi feita pelo próprio Nelson, anos antes (veja nota antiga do Diário Popular, 27-08-2003).
    O Ponto de Cultura da UCPel, que preserva e digitaliza o acervo de Nelson Nobre e administra o Quiosque, também gera material audiovisual em associação com a TV UCPel. Um dos curta-metragens criados é sobre a primeira Miss Universo brasileira, e nossa eterna Miss Universo (abaixo).
    Fotos: F. A. Vidal (3-4) e sítio de Sérgio Souto

    segunda-feira, 31 de maio de 2010

    The Beats novamente em Pelotas

    O grupo argentino The Beats reproduz desde 1987 a música de The Beatles. Eles imitam todos os detalhes dos rapazes ingleses, inclusive a roupagem e a instrumentação original dos anos 60, até o ponto de terem sido indicados como a melhor banda cover no gênero beatle em 1996.

    Compare os Beats argentinos (acima) com os insuperáveis Beatles (som de estúdio, abaixo). Veja aqui outra versão dos ingleses (show no Shea Stadium, Nova Iorque, agosto 1965).

    Veja aqui outra banda de tributo, The Cavern Beatles (integrantes naturais de Liverpool, com grandes semelhanças físicas e de voz com os originais), cantando a mesma Ticket to ride, do filme Help!

    Neste feriado católico de Corpus Christi, quinta 3 de junho, The Beats se apresenta de novo no Teatro Guarani, às 21h (a vez anterior foi em 2007). No sábado 5, eles estarão em Porto Alegre, no Teatro do SESI.

    segunda-feira, 24 de maio de 2010

    Serenata para a terra da gente

    María Elena Walsh, compositora e poetisa argentina nascida em fevereiro de 1930, fez a letra e a música de Serenata para la tierra de uno em 1968. O poema canta o amor pela pátria como se fosse uma pessoa; mudando pequenos detalhes alusivos à Argentina, pode aplicar-se a qualquer terra natal.
    Mercedes Sosa (1935-2009), acompanhada pelo violão de Nicolás Brizuela, gravou esta e mais onze canções em abril de 1980, para a TV suíça, em Lugano (DVD Mercedes Sosa Live).

    POST DATA (15-01-11):
    A compositora María Elena Walsh faleceu em 10 de janeiro, aos 80 anos de idade.

    Porque me duele si me quedo, pero me muero si me voy,
    por todo y a pesar de todo, mi amor, yo quiero vivir en vos.
    Por tu decencia de vidala y por tu escándalo de sol,
    por tu verano con jazmines, mi amor, yo quiero vivir en vos.
    Porque el idioma de infancia es un secreto entre los dos,
    porque le diste reparo al desarraigo de mi corazón.
    Por tus antiguas rebeldías y por la edad de tu dolor,
    por tu esperanza interminable, mi amor, yo quiero vivir en vos.
    Para sembrarte de guitarra, para cuidarte en cada flor,
    y odiar a los que te castigan, mi amor, yo quiero vivir en vos.

    terça-feira, 11 de maio de 2010

    Uma cidade é feita por corações

    Paris, Je T'Aime foi o filme escolhido para iniciar mais um ciclo de cinema ao redor da História da Arte, na sexta-feira 9 de abril. O professor Carlos Alberto Santos (abaixo), que leciona esta disciplina na UFPel, seleciona algumas obras audiovisuais que ilustram períodos históricos e aspectos artísticos interessantes, e os comenta antes da projeção. Abertos à comunidade, os ciclos vêm sendo feitos há três anos no I.A.D., com sala quase cheia, e sem cobrar entrada. O esquema começou há uma década quando o Instituto de Artes estava na Marechal Floriano e os filmes ainda eram em VHS.

    Nossa cidade é uma extensão de nossa família, já disse Vítor Ramil (veja entrevista). Por que não se entender bem com nossa comunidade, se ela é feita de pessoas que pensam, sentem e sonham? Mas geralmente quem mais odeia um lugar são os que nele habitam, e os turistas que o visitam uma vez por ano são os que o fotografam e louvam. Talvez por isso, Paris, Je T'Aime tem 22 diretores dos cinco continentes e atores franceses e estrangeiros. Há dois diretores brasileiros, Walter Salles e Daniela Thomas.
    O modelo do filme coletivo pode ser aplicado a quem quiser manifestar amor por sua cidade. Dezoito bairros de Paris inspiram dezoito relatos de seis ou sete minutos, de gêneros diversos, sobre amores e medos, cada um deles acontecendo em ruas, praças, restaurantes, metrô, cemitério, dentro de casa, longe de casa, dentro do carro, longe do país de origem etc. A premissa do filme é que a cidade é um grande coração coletivo formado por milhares de corações individuais.

    Segundo a Wikipédia, Paris tem 105 km2 e Pelotas, 1608. No filme, Montmartre, Pigalle, Quartier Latin, Bastille e outros setores parisinos sediam histórias de prazer e sofrimento, ilustrando como as pessoas vivem ou tentam viver. Em nossos bairros e sub-bairros não seria diferente: o centro histórico, Simões Lopes, o Porto, a Cerquinha, Recanto de Portugal, a Z3, a Dom Joaquim, Tablada, Guabiroba, Vila Princesa, Navegantes, Obelisco e toda a zona rural.
    Pelotas está sendo descoberta por turistas, pesquisadores e estudantes, enquanto alguns pelotenses persistem em dois mundos fictícios e paralelos: o das glórias históricas e o das denúncias urgentes. Vaidades e ódios se anulam, e a comunidade fica estagnada. Os tempos e as interações nos levarão a uma integração gradual, passando pela conscientização de nossas belas e feias intimidades.

    No trecho sobre o bairro Tour Eiffel (abaixo), de tom levemente surrealista, escrito e dirigido pelo francês Sylvain Chomet, um menino chamado Jean-Claude conta como seus pais se conheceram. As imagens mostram como o mímico (ator inglês Paul Putner), preso por engano ao imitar um ladrão, se apaixona por uma colega (atriz belga Yolande Moreau), também presa por algo parecido. Eles têm este filho, que é objeto de deboche por ser "filho de mímico", ocupação que o relato coloca como odiada pela sociedade. Mas seus pais o amam assim como é, e o animam a sorrir para a vida, como faz todo palhaço.
    Assim deveríamos orgulhar-nos de nossa cidade e nossas origens.
    Imagens da web e F.A. Vidal (2)