quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A história da máquina de fazer chapinhas

O cronista Rubens Amador recorda como nasceu sua paixão juvenil por uma especial máquina importada, surgida em Pelotas perto dos anos 20, a qual imprimia rótulos em chapinhas de alumínio e era muito do agrado do público. Por primeira vez e especialmente para este blogue, ele narra como começou o "namoro" com a máquina, como a reencontrou vinte anos depois... veja como segue a história.
Quinze esquina Sete, início do século XX (praça Osório ao fundo)

A primeira máquina, na Mensageria

Entre os anos 20 e 40, havia em nossa cidade, na parte de baixo do atual prédio da Caixa Econômica Federal, pela rua Quinze, uma casa que se chamava “Mensageria Pelotas”, do ramo da cigarraria, engraxataria e venda de artigos vários.

Sucedeu-a um café famoso, o popular “Oliósi”! (o Aquário da época). Meu pai lá costumava fazer ponto, e era muito amigo dos donos [o casal italiano Isacco Giuseppe Oliosi e Anuncciata Fornari Oliosi].

Proporções da máquina
segundo desenho de R. Amador
Muitas vezes estive na Mensageria com meu pai, para engraxar os sapatos, e me fascinava com u´a máquina de fazer chapinhas, que lá existia. Era um móvel de cerca de l m. e meio de altura por uns 80 centímetros de largura. A gente colocava uma moeda de duzentos réis, que deslizava para um cofre de ferro dentro da máquina, liberando uma espécie de ponteiro no painel da frente, que se girava com a mão em cima da letra ou sinal que se desejasse. Ao final, movia-se uma trave, e a chapa era cortada com as palavras em relevo. É que dentro dela havia duas matrizes (macho e fêmea) com todo o abecedário e sinais. Entre essas partes o alumínio corria.

As plaquinhas eram muito bem acabadas e a cada extremidade havia um furinho para que se a fixasse onde se pretendesse. A cada plaquinha pronta tocava um sino e ela travava, até que alguém pusesse novos duzentos réis.

Naquele tempo (anos 20) havia quase nada de novidades. Aquela era uma, que dava muito movimento na Mensageria Pelotas. Era uma atração. Eu, siderado pela tal máquina, pensava que poderia ficar rico com ela, nas minhas fantasias de menino sonhador. Um belo dia, anos 40, fecha a Mensageria e não se soube mais da máquina.

Na Miscelânia

Voluntários com Quinze, esquina da Vidraçaria
Na quadra abaixo, no térreo de um sobrado que havia pegado a uma vidraçaria também famosa, a "Vidraçaria Vieira de Souza", tinha uma lojinha de duas portas, do Sr. Cassanelli. Pois esse senhor adquiriria a máquina de que falamos, e por alguns anos a teve funcionando em sua lojinha que se chamava “A Miscelânia". Eu, que a esta altura morava a cerca de 60 metros da loja, lá ia todo dia vê-la fazer chapinhas. Minhas fantasias a seu respeito renasceram.

Alguns poucos anos depois, “A Miscelânia” também fechou. Novamente a máquina de fazer chapinhas sumiu da minha admiração.

Anos se passaram, já estamos nos anos 60. Pegado à casa de minha noiva, que seria minha mulher por mais de 50 anos, morava o seu Cassanelli. Ao reconhecê-lo, certo dia, perguntei-lhe sobre a máquina, e quase caí para trás!

– Ela está lá no fundo do meu pátio. Não tem mais o alumínio para fazer chapinhas.

Contei-lhe de minhas fantasias sobre aquela máquina alemã que eu conhecia desde o tempo da Mensageria Pelotas.

– Quer vendê-la? – indaguei, temeroso de uma negativa.

– Mas, moço – disse-me ele – para que vai querê-la se não há mais alumínio, que vinha da Alemanha antes da guerra?

Eu então disse-lhe que não me importava, mas que se ele queria vendê-la por um preço condizente com a situação, eu a compraria. Seu Cassanelli levou-me aos fundos de sua casa e me pôs em contato com a máquina sonhada. Deu-me um preço muito barato e fechamos negócio no ato. No outro dia, de manhã fui pagar-lhe, retirando-a à tarde.

A máquina na Solimar

Solimar ficava na Voluntários 943
Eu nessa época era comerciante e tinha uma loja mecanizada de consertos de calçados. Foi famosa, a SOLIMAR! Modéstia à parte, por 35 anos marcou época em Pelotas, minha pequena e única firma de consertos de calçados.

Limpei cuidadosamente a máquina, lubrifiquei-a, pintei-a com cores vivas, e pus-me em campo para obter o alumínio. Consultei as melhores ferragens de Pelotas sobre o material, até que um cidadão da Ferragem Bromberg, disse-me que o Grupo Votorantim tinha um setor só de alumínios, dando-me o endereço. Escrevi-lhes, mandando uma chapinha das que ainda tinha, solicitando que precisava naquela bitola e espessura. Em seguida responderam-me que poderiam fazer um pedido mínimo de 25 rolos com cerca de 45 cm de largura. Importaria tudo em dezoito mil cruzeiros, na época. Imaginei logo: cada rolo daria para fazer pelo menos um milhão de chapinhas!

Fiz logo o pedido e coloquei a máquina na recepção, obtendo um grande sucesso, muito compensador. Vendia cada chapinha por um cruzeiro. Era uma atração na loja. Muitas pessoas se lembraram dela e diziam ainda terem chapinhas feitas por ela pregadas em malas, etc. Eu estava muito feliz com o meu reencontro positivo com a velha máquina alemã, perfeitíssima em seu desempenho.

Milhares de chapinhas como esta foram feitas na Solimar. A máquina e loja
se deram fama mutuamente. Uma sem a outra, sozinhas, não subsistiram.
Aí comecei a oferecer em firmas, por quantidades altas, l.000, 2.000 chapas para serem aparafusadas no interior de geladeiras, como um lembrete aos clientes. Eu vendia a minha idéia. Fiz muitas “por grosso”, lembro-me da Imcosul e da Mesbla, duas firmas hoje extintas. Fiz para repartições públicas que colocavam em cada móvel ou máquina de escrever, uma chapinha com um número. Eu colocara um rapaz para fazer as chapinhas durante todo o dia, praticamente. E ele também vendia em firmas, sob uma boa comissão.

Por anos eu tive aquela máquina, até que no começo dos anos 80 resolvi que, ao fazer 35 anos de atividade na minha firma, me aposentaria. Eu tinha razões para não deixar a máquina com o que me sucedeu. E acabei vendendo-a, não sem uma certa tristeza, mas não dava para acomodá-la em casa, pois nessa época eu estava todo voltado para a fotografia e filmagens com Super-Oito. Os espaços de que dispunha estavam tomados pelo laboratório. Era minha paixão nova.

A segunda máquina e a transferência sentimental

Certo dia, ouço, não lembro onde, falando sobre a máquina, um senhor dizer-me que havia uma outra, exatamente igual, na cidade do Rio Grande, em uma antiga firma de lá chamada TABACARIA LAGES. Na época eu tinha uma camioneta DKW, e fui com toda a família, minha mulher e três filhos, lá em Rio Grande, num domingo, desejando chegar à tal Tabacaria.

Tabacaria Lages, rua Marechal Floriano, Rio Grande (foto C. Lages)
Em lá chegando, conversei com o Sr. Lages, um senhor já idoso, que me disse que realmente tinha uma igual à fotografia que eu lhe mostrava, e convidou-me a ir a uma dependência ao fim da firma, onde me mostrou outra realmente exatamente igual à que me pertencera. Era um reencontro sentimental com um objeto que eu conhecera e admirava desde a meninice.

Perguntei ao Sr. Lages se me vendia a máquina. Ele foi sincero, como o senhor Cassanelli:

– Devo dizer-lhe que ela hoje está obsoleta, pois não há mais alumínio para ela.

Ora, eu quando vendi a primeira, entreguei-a com o rolo que estava nela e dei outro, mas fiquei com a maioria dos rolos. Inconscientemente, eu não queria quebrar definitivamente meus laços com aquela máquina. E fizemos negócio na hora. Quando eu carregava, com a ajuda de seus empregados, a pesada máquina na camioneta, ele disse-me:

– Se o senhor quiser levar, graciosamente, eu dou-lhe só o mecanismo de outra máquina semelhante, mas que faz os nomes em sinais um pouco maiores do que a que lhe vendi.

Aceitei a oferta e carreguei-a comigo para Pelotas naquele domingo por vários motivos inesquecível. Aqui chegando, já nos fundos de minha casa, reformei toda a máquina adquirida por um belo preço na Noiva do Mar, pintando-a e lubrificando-a, pois era só o que faltava! Com o mecanismo da outra, deixei-o funcionando, bem lubrificado e, já fazendo chapas, pois eu tinha cerca de dez rolos comigo, ainda. Sem uma firma que se interessasse por elas, sem um local seguro para colocá-las (eu teria de mandar fazer uma caixa sofisticada para o mecanismo da outra).

A segunda despedida e a nova paixão

Impressora de rótulos plásticos
(comum nos anos 80)
Os anos se passaram, já havia televisão e outros atrativos que ofuscaram aquela máquina de fazer chapinhas. Havia agora um pequeno engenho manual que fazia nomes e sinais, em fitas plásticas coloridas (dir.), só que não eram de metal. Entendi que era chegada a hora de me desfazer delas com bons lucros. Meu ego estava satisfeito pelos anos que a tivera em minhas mãos e minha posse.

Assim, um belo dia, conversando com um rapaz de Porto Alegre, eu falei para ele nas máquinas, e que, se eu morasse lá em Porto Alegre, eu pensava ganhar muito dinheiro vendendo cada chapinha, na época, por três reais cada uma! Eu disse-lhe que eu teria uma equipe comissionada subindo em cada edifício no último andar e viria baixando, de apartamento em apartamento, oferecendo as chapinhas agora sobre uma pequena base de madeira comum, lixada em máquina ou esmeril, nas bordas para que a pessoa não fosse importunada por serem todas as portas semelhantes em um edifício! O trabalho seria inesgotável. A idéia era boa e o moço com que falava estava muito bem economicamente, era homem criativo e operoso, e logo se interessou vivamente.

Propus-lhe trocar o velho amor por um novo: Eu desejava um projetor sonoro, da famosa marca Bell&Howell e uma filmadora da mesma marca. Fechamos na palavra, e na outra semana ele me trouxe de Porto Alegre a filmadora 16 mm. E o projetor, com os documentos quitados, conforme o combinado. Levou de presente o mecanismo da que fazia caracteres maiores com o mesmo material, e dei-lhe CINCO rolos, ficando com os outros cinco guardados).

Projetor caseiro Bell&Howell 16mm
Fui muito feliz com a minha Bell&Howell, minha nova grande paixão, totalmente fora de meu orçamento para adquirir uma naquele começo de vida, além de uma maravilhosa filmadora, com a qual fiz, e conservo até hoje devidamente passados para mídias eletrônicas, filmes de meus filhos crianças. Confesso-lhes que me dá uma enorme nostalgia ao rever, vez por outra, aquelas cenas e como éramos, quando jovens pais e cheios de vida.

Aí tendes a história da máquina de fazer chapinhas.

A primeira delas eu sei ainda onde está! Desativada. Ainda sinto que vou tê-la de novo, numa posse puramente emotiva, antes de mais nada. Não esqueçam que ainda tenho comigo CINCO rolos guardados daquele alumínio que tantas alegrias e ganhos me deu, num passado já remoto, mas sempre muito vivo em minhas reminiscências.

Rubens Amador
Fotos da web, F. A. Vidal (2-5), C. Lages (6), Wikipedia (8)

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