segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Padre Carlos, cem anos de vida

O padre Carlos era alemão de nascimento, educou-se na Bélgica mas sua formação religiosa foi no Brasil. Viveu entre nós de 1930 a 1970, voltou ao país natal, onde também foi pároco, mas quis passar seus últimos anos em Pelotas, de 1989 a 2004 (notícia de sua morte). 

Foi homenageado em 2003 (v. artigos Padre Johannes comemora 90 anos, de 25-02, e Catedral homenageia Padre Carlos, de 12-03) e várias vezes de forma póstuma: em 2006 foi dado seu nome ao salão de eventos da Casa da Criança (v. nota) e há algumas semanas formou-se uma comissão para preparar o centenário de seu nascimento, que se completa hoje (25 de fevereiro). Cláudio Milton Cassal de Andrea, membro da comissão, publicou há uma semana o artigo abaixo.



Padre Carlos Johannes – Um Homem Santo

No dia 26 de janeiro deste ano [2013] a senhora Maria Eulalie Mello Fernandes escreveu um artigo de muita sensibilidade [Padre Carlos Johannes – Um Homem de Deus]. Como discípula e orientanda espiritual, como ela mesma afirma, ressalta todas as suas virtudes, chamando-o de Mestre ao conectá-lo com diversas passagens do Evangelho. [...]

Seguirei em outra direção, mostrando-o aos leitores [em] passagens de sua vida [e em] seus serviços prestados à comunidade, que o venerava por sua Santidade. Quem não teve a Graça de conhecê-lo, fatalmente perdeu de se aproximar de uma figura ímpar, de um verdadeiro Homem Santo.

Da Alemanha a Pelotas, duas vezes

Pe. Karl Sebastian Johannes aportuguesou nome.
Ele nasceu em Merzig na Alemanha no dia 25 de fevereiro de 1913. Fez seus primeiros estudos na Congregação de La Salle na Bélgica. Com 17 anos desembarcou em Pelotas motivado por uma fotografia do Colégio Gonzaga levada por um Lassalista que aqui estivera.

É de se imaginar a fibra, a perseverança deste jovem que abandona sua pátria, se distancia da família e parte para o desconhecido. Após seus estudos, em 7 de dezembro de 1946 recebeu a ordenação diaconal pela imposição das mãos de Dom Antônio Zattera – Bispo de Pelotas – e exatamente um ano após, foi ordenado presbítero.

De 1970 a 1989 retornou à Alemanha, onde foi vigário na Diocese de Trier. Neste período conquistou sua aposentadoria e retorna a Pelotas, pois segundo suas próprias palavras, quando do recebimento do título de Cidadão Pelotense [veja lei municipal], seu foco se voltava sempre para esta cidade que tão bem lhe acolhera, para se colocar a serviço do povo necessitado que ele escolheu para Amar.

Um missionário do amor

Não deixava de celebrar missas em sua paróquia de sua cidade. Era tanta a credibilidade que ele transmitia que os paroquianos, ao terminar a Missa, colocavam em seus bolsos euros, os quais transformava em obras aqui na sua diocese.

Eis algumas delas: o grandioso Cenáculo, a Capela do Bom Pastor, a Capela (abaixo) e uma ajuda importante no restaurante da Sociedade São Vicente de Paulo, a maquinaria da fábrica de lençóis da Casa da Criança São Francisco de Paula e a presença financeira sempre em boa hora ao Instituto de Menores, Instituto São Benedito, comissão de obras da Catedral e muitas outras.


Foi capelão da Comunidade S. Vicente de Paulo, que fez 25 anos em 2012.

Por aqui foi intensa sua atividade clerical passando por diversas cidades da diocese espalhando sementes que não tiveram outro caminho senão germinar o Amor. Era um eterno evangelizador e sempre pronto a orientar grupos. Antes de seu falecimento em 21 de outubro de 2004, orientava dois grupos de casais - o grupo da segunda-feira também chamado de Perseverança e o grupo Padre Carlos das terças-feiras. Tive o cuidado não citar nomes dos participantes para não cair na armadilha do esquecimento.

Misericórdia, Fé, Perdão e Amor eram suas armas para nos fazerem melhores e termos a sabedoria de suportar as diferenças. Até hoje, já beirando 23 anos da sua ausência, permanecem semanalmente os grupos se reunindo em seu nome, o que demonstra que não foram em vão seus ensinamentos.

Temos a plena convicção que o Padre Carlos é o nosso direto intercessor devido a inúmeras graças por todos recebidas. Sempre nos dizia que não bastava a fé, pois seguia São Tiago, que diz que a fé sem obras é morta [Tg 2, 26].

Gestos de compromisso real

Incentivava-nos a realizar gestos concretos, orientando-nos a participar de movimentos e outros serviços para comunidade. Como disse Maria Eulalie em seu texto, era um Mestre do Amor sempre pronto a perdoar. Era um homem de uma simplicidade Franciscana, pródigo nos sentimentos e de uma reserva moral inatacável.

Contava que quando professor do Colégio Gonzaga colocou um aluno para fora de aula, por uma peraltice qualquer. Passado algum tempo, se deu conta que teria sido injusto. Isto lhe atormentou por mais de 40 anos, até que um determinado dia foi à residência do ex-aluno pedir perdão, livrando-se assim de um peso que muito lhe atormentava.

Não é necessário dizer que o ex-aluno apagara tal acontecimento de sua memória, mas este ato lhe trouxe um alívio, pois o perdão tem o poder mental e espiritual de anular qualquer ressentimento e é, sem dúvida alguma, um dos atos básicos da fé Cristã.

Cláudio Cassal de Andrea
Fotos: DP (1) e F. A. Vidal (2)


POST DATA
18-03-13

Padre Carlos, Mestre de Vida

A ligação história e emotiva, cultura e emocional entre nossa sociedade com a pessoa e o desempenho do Pe. Carlos Johannes é e sempre será um motivo de perene interesse, estudo e comentários por sucessivas gerações. Aos que o conhecemos e nos beneficiamos de sua grande cultura, envolvente personalidade e o desempenho generoso e eficiente, cabe-nos: recordar comentando e divulgar celebrando o que merece ser dito para edificação das gerações atuais e futuras desta região que tanto celebram sua trajetória consagratória.

Assim, fui dos tempos em que, no então Ginásio Gonzaga, ao Irmão não apenas cabia lecionar como se ocupar da área religiosa, os Ajudantes de Missa sendo, no final da década de 30 por ele orientados, utilizando batinas, turíbulos e navetas e manejando livros sagrados, então redigidos em latim. O Mestre não perdia a chance de nos dar, animada, clara e paternalmente, lições de bom-senso e prudência, eis que tínhamos que manejar o incenso e as indispensáveis brasas de fogo, sem as quais, o perfume e a fumaça não subiriam aos ares!...

Remexidas, pois, as brasas do passado e antes que tornem cinzas inúteis e rejeitáveis, prossigo evocando o Irmão Francisco Maria a nos conduzir e ensinar em nosso sagrado desempenho como sacristãos, no qual – mesmo estando a cargo de iniciantes em todos os rumos e, por isso mesmo – devíamos portar-nos com discreção, seriedade e correção, evitando gaiatos desvios numa área que requeria seriedade e autenticidade.

E isso certamente acentuado por ocorrer em eventos anuais como a Procissão do Corpo de Deus, o seleto grupo jovem de Ajudantes de Missa a manejarmos turíbulos, campainhas e navetas num “desfile processional” que durava longas e cansativas horas pelo centro da cidade, em ocasião única no ano.

Desfiando estas lembranças, não deixo de evocar elogiando e de relembrar mencionando que, não fosse a orientação e apoio, a educação formativa e o feliz contágio, não permaneceriam: a feliz memória e a edificante lembrança de um convívio formativo e participativo, e, por outro lado, quem teve a grata chance da escolha, hoje não poderia, como agora, comunicar um desempenho de momentos tão valiosos cuja imorredoura lembrança ora transmito, regidos admiravelmente por uma pessoa cuja evocação se torna, aqui e agora, o motivo central destas linhas!

Francisco Dias da Costa Vidal
Diário da Manhã, 18-03-13

2-04-13
O leitor Jonas Klug da Silveira contribui ao conhecimento do Padre Carlos enviando o seguinte texto exclusivo para este blogue.


O discípulo fiel

Encontrei por casualidade, buscando outra coisa no Google, a foto do querido Cônego Carlos Sebastião Johannes que me reportou a esta matéria, e não pude deixar de acrescentar algumas palavras sobre um dos sacerdotes com quem eu convivi e de quem posso testemunhar que honrou sua missão, sendo, acima de tudo, um ser humano, no mais amplo e melhor sentido do termo.

De sua formação lassalista, hauriu a capacidade didática que fazia de seus sermões – muito breves e sem quaisquer recursos retóricos – uma lição de catequese que ficava naturalmente registrada na memória dos ouvintes. Também escrevia muito bem, conservando-se uma bela crônica, assinada ainda como Ir. Francisco Maria, sobre a última missa do bispo D. Joaquim Ferreira de Mello, na Matriz do porto, interrompida ao Ofertório por um desfalecimento que o levou ao hospital, onde veio a falecer santamente, dias depois.

Expressava-se em um português irretocável, não obstante o carregadíssimo sotaque, que me soará eternamente na memória através das palavras de seu indefectível papel de Pilatos na leitura da Paixão segundo São João, na Sexta-Feira Santa, na Catedral – algo que poderia ser grafado assim: EntHão, tHu és RRRRei??...

Pe. Carlos sempre comentava que se ordenou sacerdote (tendo que deixar sua Congregação de origem, onde os membros são todos religiosos-leigos) apenas aos 36 anos, mas que não lamentava por isso, pois foi uma decisão longamente amadurecida. Tanto que, durante o tempo em que pensava se saía, ou não, da Congregação, pôde cursar a faculdade de Ciências Econômicas, fundada junto ao Gonzaga.

Por sua formação como lassalista, por sua cultura de origem no Sarre (Saarland) e, mais que tudo, por sua própria personalidade e temperamento, possuía a sensibilidade da piedade popular, manifestada em sua ação pastoral e litúrgica, aliada a um gosto particular por estudar a história e entender o perfil cultural e psicossocial luso-brasileiro. Essa faceta foi enriquecida pelo contato, por vários anos, também com o povo da campanha, ao atuar como pároco em Jaguarão, onde tinha muitos amigos.

Das suas muitas estórias, deixo aqui uma que vem a calhar como homenagem póstuma. Pouco tempo depois de chegar ao Brasil, ainda quase um adolescente, contraiu febre tifóide, chegando a ser desenganado. De sua cela, na antiga água-furtada do Gonzaga, ouvia o cantochão dos demais irmãos que ensaiavam na capela a Missa e Ofício de defuntos, para seu próprio funeral... Nessa época, sofria de pânico ao pensar como seria, ao morrer, o Juízo Particular, se ficaria como um réu diante do Juiz Supremo, na incerteza agônica de ser condenado ou absolvido... Pois foi que, em meio ao delírio da febre, ao som dos cânticos fúnebres dos confrades, teve um sonho, em que o Senhor Jesus simplesmente lhe abria os braços, sorridente, e lhe dizia:

– Que bom, foste fiel!... Vem!

Passou o delírio, a febre, e o tifo arrefeceu. Não foi necessário o Réquiem. Desde, então, contava o Pe. Carlos, nunca mais teve medo da morte e do juízo. Mas, certamente, pôde agora ouvir de novo, da mesma voz, o convite definitivo: "Vem!".

Jonas Silveira
Foto 3 fornecida por Renato Leão

2 comentários:

Jonas Silveira disse...

Encontrei por casualidade, buscando outra coisa no Google, a foto do querido Cônego Carlos Sebastião Johannes que me reportou a esta matéria, e não pude deixar de acrescentar algumas palavras sobre um dos sacerdotes com quem eu convivi e de quem posso testemunhar que honrou sua missão, sendo, acima de tudo, um ser humano, no mais amplo e melhor sentido do termo. De sua formação lassalista, hauriu a capacidade didática que fazia de seus sermões - muito breves e sem quaisquer recursos retóricos - uma lição de catequese que ficava naturalmente registrada na memória dos ouvintes. Expressava-se em um português irretocável, não obstante o carregadíssimo sotaque carregado, que me soará eternamente na memória através das palavras de seu indefectível papel de Pilatos na leitura da Paixão segundo São João, na Sexta-Feira Santa, na Catedral - algo que poderia ser grafado assim: "EntHão, tHu és RRRRei??"...
Também escrevia muito bem, conservando-se uma bela crônica, assinada ainda como Ir. Francisco Maria, sobre a última missa do bispo D. Joaquim Ferreira de Mello, na Matriz do porto, interrompida ao Ofertório por um desfalecimento que o levou ao hospital, onde veio a falecer santamente, dias depois.
Pe. Carlos sempre comentava que se ordenou sacerdote (tendo que deixar sua Congregação de origem, onde os membros são todos religiosos-leigos)apenas aos 36 anos, mas que não lamentava por isso, pois foi uma decisão longamente amadurecida. Tanto que, durante o tempo em que pensava se saía, ou não, da Congregação, pôde cursar a faculdade de Ciências Econômicas, fundada junto ao Gonzaga.
Por sua formação como lassalista, por sua cultura de origem no Sarre (Saarland) e, mais que tudo, por sua própria personalidade e temperamento, possuía a sensibilidade da piedade popular, manifestada em sua ação pastoral e litúrgica, aliada a um gosto particular por estudar a história e entender o perfil cultural e psicossocial luso-brasileiro. Essa faceta foi enriquecida pelo contato, por vários anos, também com o povo da campanha, ao atuar como pároco em Jaguarão, onde tinha muitos amigos. Das suas muitas estórias, deixo aqui uma que vem a calhar como homenagem póstuma. Pouco tempo depois de chegar ao Brasil, ainda quase um adolescente, contraiu febre tifóide, chegando a ser desenganado. De sua cela, na antiga água-furtada do Gonzaga, ouvia o cantochão dos demais irmãos que ensaiavam na capela a Missa e Ofício de defuntos, para seu próprio funeral... Nessa época, sofria de pânico ao pensar como seria, ao morrer, o Juízo Particular, se ficaria como um réu diante do Juiz Supremo, na incerteza agônica de ser condenado ou absolvido... Pois foi que, em meio ao delírio da febre, ao som dos cânticos fúnebres dos confrades, teve um sonho, em que o Senhor Jesus simplesmente lhe abria os braços, sorridente, e lhe dizia: "Que bom, foste fiel!... Vem!". Passou o delírio, a febre, e o tifo arrefeceu. Não foi necessario o Réquiem. Desde, então, contava o Pe. Carlos, nunca mais teve medo da morte e do juízo. Mas, certamente, pôde agora ouvir de novo, da mesma voz, o convite definitivo: "Vem!".

Francisco Antônio Vidal disse...

Um belo testemunho, que poderá estimular outros leitores a escrever mais lembranças. Transcrevo para o texto como "P.D."