segunda-feira, 31 de março de 2014

Jantar com Arte e Minduim

O Ágape, Espaço de Arte retorna em 2014 com a proposta do Jantar com Arte, na sexta próxima (4-4), com o gourmet, artista plástico e professor Luiz Vasconcellos, o Minduim. Ele mesmo, como artesão das palavras, escreveu a seguinte apresentação de seu cardápio.
Cores Locais é o tema, onde os preparos são delineados por ingredientes de Pelotas e região, com destaques para cores e sabores... o exótico se envolve com o caseiro, a picância é doce e suave, por certo comida cozida nas panelas da memória. 
Pastinhas cremosas farão a entrada com ajuda das cores secundárias. As obras principais vão buscar o camarão da lagoa e a galinha da colônia como ingredientes protagonistas, e o figurino terá especiarias de exóticas paragens e texturas condizentes. O forno vai acomodar e agregar crocâncias coloridas, de um arroz plantado nas cercanias. E como se tal não fosse, o encontro final entre os doces ovos e a escura geleia do mirtilo. 
Na produção do evento, Tio João, Danby, Zezé, Crochemore e os "acessórios" do Armazém TerraSul. E a equipe esperta do Ágape, espaço de arte. 
Abertura da exposição de Jérôme Rehel no Ágape (17-3-14)
A noite de confraternização no Ágape inclui uma exposição de artes plásticas, de modo a formar um completo banquete dos sentidos, com aromas, sabores, cores e sons que envolvem os convivas.

Desta vez, a mostra "Cores e Harmonias", com as telas do francês Jérôme Rehel, faz jogo com os ingredientes pelotenses trazidos por Minduim.

Reservas pelos telefones 3028 4480 e 8438 4480. Valor: R$ 45 (sem bebida). Local: Ateliê dos Sonhos, Anchieta 4480.
Imagens: Facebook

POST DATA
5-4-14
Ver álbum de fotos Jantar com Arte.

Centenário dos Casos do Romualdo

Contos de 1914 saíram em livro em 1952.
Em 2014, o Instituto João Simões Lopes Neto festeja o centenário dos relatos fantásticos conhecidos como "Casos do Romualdo". O escritor pelotense publicou-os originalmente em forma de folhetim no extinto jornal pelotense Correio Mercantil, durante o ano de 1914.

Os contos foram reunidos em livro somente em 1952, pela Editora Globo de Porto Alegre, ainda em vida da viúva do escritor, Francisca de Paula Meireles Leite, "Dona Velha" (1873-1965). Simões faleceu em 1916 com 51 anos, em pleno vigor criativo.

O conteúdo das histórias causa risos e incredulidade, mas o que o leitor pode não saber é que o personagem de Simões, que faz o relato das lorotas, se baseia numa pessoa real, o engenheiro Romualdo de Abreu e Silva (v. Wikipédia). Leia aqui o livro.

Há quatro anos, o Instituto estabeleceu a data de primeiro de abril – dia da mentira – como o Dia do Romualdo. Assim, as celebrações alusivas ao centenário dos Casos iniciarão neste 1º de abril. Os festejos continuarão ao longo do ano, palestras, mateadas, recitais de música e poesia, encenações teatrais e outras formas de dar brilho e dignidade à feliz data.

Alci Vieira Júnior cantou ao Romualdo
no domingo 1 de abril de 2012.
Amanhã (1-4-14) às 18h30, num ato especial na sede da rua Dom Pedro II nº 810, serão entregues, a bibliotecas das redes públicas, livros relacionados com João Simões Lopes Neto, previamente doados ao Instituto pelo Professor Agemir Bavaresco e pela sua editora, WS Editor. A Secretaria Municipal de Educação, a 5ª CRE e a biblioteca do IFSul receberão o presente.

No mesmo encontro, Luís Borges e Mário Mattos, conhecidos estudiosos e profundos conhecedores da literatura do Capitão da Guarda Nacional, dialogarão sobre diversos enfoques da obra centenária.

A modo de registro, lembremos que o 3º Dia do Romualdo transcorreu no domingo 1 de abril de 2012 no Parque da Baronesa. Na ocasião, o Grupo de Estudos Simoneanos apresentou alguns dos causos romualdinos, ao ar livre. O evento também incluiu a presença do cantor nativista Alci Vieira Júnior, mateada, sorteio de uma obra de Simões e expositores do Piquenique Cultural.

Como diria Romualdo:
Quando sou centro dos terceiros, ah! então, sim, ouvidos haja, porque língua tenho e acontecimentos sobram! 
Veja as notas deste blogue que citam os Casos do Romualdo.
Fontes: FacebookE-Cult, Alci Vieira Jr

POST DATA
2-4-14
Veja álbum de fotos da palestra de ontem.

Chuva na praça


O fotógrafo Marcelo Soares se molhou, mas obteve um registro único, de inesperada iluminação natural no meio de uma chuva de domingo (30-3-14), e de mágica bolha de conversa, protegida por um amplo guarda-chuva e as altas árvores da bicentenária praça Coronel Pedro Osório. 
Fonte: Camafunga

sexta-feira, 28 de março de 2014

Amilton Fernandes, celebridade esquecida


Conversando com Kleiton e Kledir num de seus programas em 2011, Rolando Boldrin citou um ator pelotense com que havia contracenado em 1964 na novela "O Direito de Nascer": Amilton Fernandes (1919-1968). Ele foi um dos primeiros galãs da TV brasileira, ou pelo menos o primeiro herói de novela que se fez nacionalmente famoso (v. post Boldrin recebeu Kleiton e Kledir).

Apesar de ter sido uma celebridade por alguns anos e de ter morrido de modo inesperado, não se encontram dados biográficos sobre a origem e os anos jovens de Amilton Fernandes. Os mais velhos não o recordam bem e as gerações atuais nem ouviram falar dele.

Inícios da TV no Brasil

Amilton e Guy Loup, casal central
em "O Direito de Nascer" (Tupi, 1964)
Wikipédia apresenta uma lista de seus trabalhos no início da televisão brasileira, final da década de 1950. Com figuras como Lima Duarte e Paulo Gracindo, Amilton viu nascer a televisão, quando todas as transmissões ainda eram feitas ao vivo, antes da criação do videoteipe (v. histórico). Em 1958, ano em que Amilton estreou na TV, usou-se a gravação de imagens por primeira vez no Brasil, primeiramente sem a possibilidade de edição e montagem. Nos anos seguintes, o ator participou em diversas novelas e séries.

A radionovela "O Direito de Nascer", originalmente escrita em Cuba (v. Wikipedia em espanhol), foi levada ao ar no Brasil em 1951, com mais de dois anos de duração (confira aqui trecho de 2 min) e vozes como a de Paulo Gracindo (1911-1995). Em 1964 foi adaptada como telenovela (audiovisual) pela TV Tupi, no horário das 21h30 (v. Wikipédia).

A fama

Em dezembro daquele ano, o país sob o governo militar, a televisão era uma novidade no Brasil e o público assistiu ao "Direito" com ainda maior entusiasmo do que a radionovela. Os capítulos de TV iam ao ar ao mesmo tempo em São Paulo e no Rio de Janeiro, somente. Em agosto de 1965, o final teve tanto sucesso que o episódio final foi representado no Maracanã e seguiu sendo repetido diversas vezes ao vivo, ante milhares de pessoas, em visitas às capitais em que os atores eram aclamados como ídolos (ouça aqui a música tema com fotos da telenovela).

Leila Diniz e Amilton em
"O Sheik de Agadir" (Globo, 1966)
Imediatamente após "O Direito de Nascer", Amilton Fernandes seguiu na Tupi, com "O Preço de uma Vida", mas o sucesso não pôde ser repetido, apesar dos ingredientes muito semelhantes.

Em 1966, o ator passou à Globo, sendo um dos protagonistas de "O Sheik de Agadir", com Yoná Magalhães e uma jovem Leila Diniz (1945-1972), que teria trágica morte aos 27 anos (como Amilton, que morreria aos 48).

Sem pausas entre as consecutivas produções, o galã permaneceu na Globo, ainda no papel típico do moço rico e bonito de "A Rainha Louca" (1966).

Em 1967, foi passado ao novo horário da novela das oito, "Sangue e Areia" (v. Wikipédia), onde seria o vilão, enquanto o casal romântico seria feito pelas recém-chegadas aquisições da emissora (provenientes da TV Excelsior): Tarcísio Meira e Glória Menezes. Esta última, outra celebridade que nasceu em Pelotas (v. post Glória Menezes faz 75 anos).

O desenlace

Amilton fez o vilão Dom Ricardo,
de Sangue e Areia (Globo, 1968)
Durante o segundo mês desta novela, o ator ficou ferido num acidente de trânsito na zona norte do Rio de Janeiro. Hemofílico, não resistiu às seis cirurgias a que foi submetido, vindo a falecer dois meses depois, em abril, poucos dias antes de completar 49 anos de idade. A novela não podia parar e o roteiro teve que ser reformulado por Janete Clair (v. lista de personagens).

"Sangre y Arena" é um romance de 1908, do espanhol Vicente Blasco Ibáñez, que deu origem a vários filmes de sucesso. O título alude ao drama de um toureiro, dividido entre o amor e a morte, a pobreza e a fama. A adaptação da Globo pôs Amilton Fernandes como um rival amoroso do herói, com atitudes violentas.

Fora do mocinho que se acostumara a fazer, o ator conhecido por sua elegância e gentileza pode ter-se desacomodado do papel de assassino, a tal ponto de perder o controle da vida pessoal e se deslocar, inconscientemente, a uma situação de vítima. É uma possível interpretação dos motivos ocultos para aquele acidente, que levou embora esta celebridade do nosso meio e de nossa memória.

O blogue Astros em Revista reúne mais de 90 fotos de Amilton Fernandes em sua fase célebre, a única da qual temos registros. Veja um trecho de 1 minuto de "O Sheik de Agadir" (Globo, 1966-1967), com o beijo de lado entre Amilton Fernandes e Iris Bruzzi.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Vera Loca gravou cenas em Pelotas

A  Vera Loca é uma banda roqueira porto-alegrense que está em atividade há 12 anos, desde o verão de 2002. Seus integrantes são quatro gaúchos e um argentino: Diego Dias (teclados), Luigi Vieira (bateria), Fabrício Beck (vocal), Hernán González (guitarra) e Mumu (contrabaixo). Veja na Wikipédia a explicação sobre o estranho nome da banda, escolhido às pressas para o primeiro CD. Depois de 12 anos, o grupo tem seguidores espalhados pelo país, autodenominados "veralocos".

Cuidado, Ana foi composta por Beck e Mumu; está no quarto álbum da banda, "Parece que foi ontem", preparado em 2012, quando o grupo fazia dez anos e se autocomentou no título do disco. O clipe tem cenas gravadas em Pelotas (Café Aquários, rua Quinze) e no Cassino (Rio Grande), em outubro de 2011 (informação do Blog do Zoom). Segundo Fabrício, a intenção de filmar em cidades do interior é ajudar na identificação dos fãs com os trabalhos do grupo (v. Jornal Agora, p. 5).

Em 2010 a Vera Loca tocou no João Gilberto e o VIP Pelotas comentou o evento (já era a quinta passagem por Pelotas). Nos anos seguintes, apresentou-se no Galpão Satolep (v. nota de 2011), celebrou os dez anos no Fica Aí (v. E-Cult), esteve no Neptuno (11-5-13) e no Estádio do Pelotas (22-1-14, Futebol Daqui), fazendo uma frequência quase anual.

terça-feira, 25 de março de 2014

Biblioteca tem o museu privado mais antigo


Além de milhares de obras impressas, a Biblioteca Pública contém o museu privado mais antigo no Rio Grande do Sul, criado em 1904. Algumas das peças que despertam maior interesse são a faixa de Miss Universo de Iolanda Pereira (1910-2001), alguns símbolos originais da Revolução Farroupilha, a arma usada por Bento Gonçalves (1788-1847) e um nu masculino do pintor Luís Carlos Melo da Costa (1947-1993). 1500 peças formam diversas coleções do Museu Histórico da Biblioteca Pública Pelotense.

Apesar do nome, a entidade cultural foi fundada por particulares, com o objetivo de contribuir à educação permanente de todos os cidadãos. Em 1875, sob o regime imperial, a palavra "pública" não era sinônimo de "governamental" mas de "aberta". Se a biblioteca fosse, na época, denominada como "privada" ou "particular", o entendimento seria de uma instituição seletiva, fechada ao público geral.

Nome original com o lema
"Trabalho Instrucção Progresso"
A grafia original "Bibliotheca Publica" (dir.) foi modificada pela reforma de 1943, que aboliu o "th" (originado de étimos gregos) e determinou que todas as proparoxítonas fossem acentuadas (antes não eram). Lembremos que as reformas ortográficas causam modificações nos costumes (e incomodações), mas têm força de lei. O Acordo assinado pelo Presidente Lula em 2009 vinha sendo formulado entre os países lusófonos desde 1990, e no Brasil deverá ter plena vigência em 2017.

Setenta anos depois da antiga reforma, muitos pelotenses conservam o "th" deste nome próprio, como se ele fosse parte do patrimônio histórico, mas acentuam a proparoxítona, seguindo a norma atual, que se impôs plenamente no costume popular. Neste blogue preferimos sempre a forma vigente (nem a arcaica nem a híbrida, ambas fora da realidade e da lei), também usada nos carimbos da Biblioteca Pública Pelotense.

Grafia correta é usada nos carimbos.

Fotos: F. A. Vidal (1), Rádio Pelotense (2)

segunda-feira, 24 de março de 2014

Loucos por futebol


Em setembro de 2013, a reportagem do Esportchê tomou esta foto num jogo do Farroupilha contra o Pelotas. Mostra o sr. Guilherme Silva Dias, torcedor conhecido como Trem, exemplo de amor e fidelidade ao clube conhecido como Fantasma do Fragata (v. Blog do Fantasma). Onde o Farrapo vai, lá está o guerreiro Trem com sua bandeira e sua força (v. comentário de um treino em agosto de 2013).

Em 2011, aos 69 anos, o ex-jogador mereceu reportagem completa do Correio do Povo. [POST DATA 29-10-15. Acompanhe a reportagem do Diário Popular sobre o torcedor Trem]

Ele também simboliza o fanatismo por futebol característico da equipe do Esportchê e, em geral, a solidão de muitos idealistas que persistem toda sua vida fazendo o que gostam ou necessitam. O Esportchê é um grupo jornalístico que cobre na internet o futebol gaúcho, mediante notícias escritas, fotos, debates e vídeos, usando um sítio virtual e diversas redes sociais. Os "esportchistas" se autodefinem como loucos por futebol e gaúchos de raiz, como mostram dia a dia e no vídeo de divulgação (abaixo), filmado em Pelotas.


Foto: Grêmio Atlético Farroupilha

domingo, 23 de março de 2014

Travessias e travessuras nos bondes


Na segunda-feira 24 de fevereiro, na coluna LINHA DIRETA meu amigo Hélio Freitag fez uma referência aos bondes em Pelotas, associando tal lembrança à minha pessoa [v. post Saudosismo dos anos 50].

Eu, por conotação, associei o citado veículo a uma das casas onde morei quando menino. Vou falar um pouco dos bondes aqui, mas comecemos com a casa, que ficava na Rua Marquês de Caxias (hoje, Santos Dumont), quase esquina Voluntários.

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Um belo dia, pedi para entrar naquela residência, identificando-me, e contando minha curiosidade em rever aquela moradia onde eu fora criança um dia. A senhora que me recebeu foi muito gentil e apreciou a minha vontade de rever o cenário de tantas “artes”.

Entrando na casa, a primeira coisa que fiz foi verificar como tinha ficado a cicatriz que eu fizera aos sete anos. Eram duas letras que escrevi com um ferro de soldar, quente, sulcando a porta de madeira do quarto da tia Dorina.
As letras eram DB, de Dorina Bastos, minha querida e inolvidável tia, que, um dia, mesmo sabendo que tinha sido eu que marcara a madeira da porta de seu quarto a fogo, ante a inscrição perguntou-me se havia sido eu que fizera aquilo. Saltei logo: “Não, não fui eu”. 
Depois me arrependi de ter mentido, mas já era tarde. Titia não ficou brava comigo e disse que aquilo era coisa de algum espírito. Na época, pensei que ela estava acreditando no tal “espírito”. Mas aquilo ficou em mim. 
Anos depois, eu já adulto, confessei-lhe. Ela disse-me que sabia quem era o autor, mas, como eu ia todos os dias buscar o pão na Padaria Industrial e ia no Armazém do seu Rosinha, defronte, ela me perdoou.
A Padaria Industrial ocupava este enorme prédio,
na esquina da Santos Dumont com Major Cícero.
Passando a mão na porta, no lugar, lá estavam, em discreto relevo, as letras DB que algum pintor procurara disfarçar, mas que só EU sabia o local ...e quem tinha feito aquele monograma.

Fui revisitando a casa, cheio de saudade de minha avó, que todos os dias fazia um bife na chapa para mim. Lembrei Mamãe. E depois cheguei ao pátio. Na soleira que dava para esse espaço, onde plantavam chuchus, e muitos cartuchos (copos-de-leite), tudo estava praticamente como era.

Mas naquela soleira havia outro segredo meu.

Com um martelo, eu havia pregado um parafuso enorme, que depois dobrei e bati até ele entrar na madeira da soleira, que era de lei. Pois lá estava ele enterrado ainda ali, gasto, havia dezenas de anos e só EU sabia daquele parafuso ali. Passei-lhe a mão, e naquele momento me senti a criança que fez aquela outra “arte”.

Senti-me emocionado. Feita a visita, agradeci a gentil senhora e retirei-me.


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Bondes e ônibus na rua Aquidaban com General Canabarro (Rio Grande, 1957)
Agora entra o Bonde e minha convivência com eles. Safety (segurança) era como se chamava também aos bondes. Fui contemporâneo deles.

Eles nunca faziam a volta. Quando chegavam ao fim da linha, o motorneiro puxava e prendia a alavanca que deslizava no fio de alta tensão, por uma roda, dando energia para os “elétricos”, como também se os chamava. Então o motorneiro liberava a da outra ponta, virando todos os assentos para o lado oposto.

Naquele tempo, não havia muito automóvel e o bonde era o grande veículo popular. Eu gostava de andar de bonde. Custava duzentos réis a passagem. Brancas, escritas em azul, com original e canhoto. A “tripulação” constava do motorneiro, o vendedor das passagens, e às vezes subia o fiscal (quepe diferenciado por linhas douradas), que via se tudo estava certo. Era então a Light and Power (Luz e Força) que explorava o serviço. A empresa ficava onde hoje é a CEEE. Inclusive lá está ainda o grande galpão onde os bondes eram recolhidos após determinada hora da noite.

Abrigo de bondes na Praça Sete de Julho, entre a Prefeitura e o Mercado
(esquina em que um médico foi atropelado) 
No início dos anos quarenta, circulou um único bonde de cor marrom (os outros todos eram amarelos), que era de dois andares, tipo a maioria dos ônibus londrinos que ainda hoje lá circulam. Eu ia para as regatas nele, ano 39.

Dificilmente havia acidentes com os bondes. Mas mesmo assim, certa manhã, cedo, uma zorra (bonde-socorro, que carregava ferramentas para reparos), atropela e mata o competente e respeitado médico Dr. Paulo Campelo, entre a Prefeitura e o Banco do Brasil, então defronte.

A política (contra os americanos) foi que acabou com aquele serviço magnífico, que ao ser desapropriado, deixou muita gente rica com a compra e posterior venda daqueles trilhos, que eram as veias de nossa cidade. Vou contar-lhes um episódio que vivi com meu pai num daqueles “elétricos”.

Bondes vinham pela Santa Tecla, parando na Voluntários.
Eu tinha meus 8 anos de idade. Costumava jogar futebol defronte ao Armazém Furão, logo quem entra na Cerquinha, passando a Professor Araújo – ou brincava com a turma ali da Paysandú (hoje Barão de Santa Tecla).

Alguns mais ousados da turma costumavam se pendurar atrás dos bondes quando estes paravam na Santa Tecla com Voluntários e iam umas duas ou três quadras, “gozando”, dependurados. Só faziam isso os moleques de rua, mas nós os estávamos copiando.

Até que um dia resolvi também me pendurar num daqueles bondes por duas ou três quadras, e depois voltava a pé com outro amigo, para recomeçar tudo de novo. Passava as tardes fazendo isso, coisa que só moleques de rua costumavam fazer com grande destreza. Pois um amigo de Papai contou-lhe o que eu andava fazendo: me pendurando nos bondes!

O meu pai ficou bravo comigo e me disse que eu nunca mais fizesse aquilo porque, além de feio, era muito perigoso. Eu poderia me machucar – e, dramático, acrescentou – e até morrer!

Meninos pendurados (Rio Grande, 1957)
Fonte: The Tramways of Rio Grande
Claro que prometi que não subiria mais. E, tal como hoje – em relação à droga – os perversos fazem com os mais fracos, os mais velhos me diziam: “Tá com medo! Tá com medo”. Em verdade eu temia era o meu pai, mas tanto eles me gozaram que resolvi: dei um pulo, me agarrei na traseira do primeiro bonde que parou na Paysandú com Voluntários, desobedecendo a ordem que me tinha sido dada.

Mal o bonde arranca e pega velocidade – me lembro das pedras do calçamento correndo ante meus olhos – ouço alguém batendo nos vidros, por dentro, bem forte. Era o meu pai com um jornal na mão gritando:

– Só desce quando o bonde parar!

Assim fiz. E como era comum naquele tempo, meu pai me pegou por uma orelha e me conduziu por duas quadras até nossa casa, eu com a cabeça o mais alto possível, de lado, para aliviar aquele corretivo.

Não levei algumas palmadas. Mamãe impediu. Ainda sinto aquele “puxão de orelhas” e o compreendo. Só sei que nunca mais me pendurei em nenhum bonde para dar uma “gozadinha” por duas ou três quadras, copiando os moleques de então.

Mas confesso-lhes que gostaria de fazer tudo de novo, só para ter ao meu lado todas aquelas figuras que eu amei e que, junto com os anos que já vivi, foram como que se apagando, só voltando de vez em quando, como agora, com a feliz lembrança do Hélio Freitag.
Rubens Amador



Fotos: F. A. Vidal (1, 4), The Tramways of Pelotas (3)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dados sobre história do turismo em Pelotas

O Diário da Manhã impresso desta quarta (19-3) publicou na página de Opinião a breve nota: "Modesta contribuição à História do Turismo no Município de Pelotas", de Samir Curi Hallal, ex-presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Pelotas. 

São apontamentos mínimos sobre as duas grandes festas baseadas nas riquezas da cidade, os quais sugerem aprofundar a pesquisa histórica e ampliar a promoção do turismo na relação entre empresários e governantes. Ao texto original do DM acrescentei títulos e colchetes.

Em 2010, o sr. Samir, dono do Curi Palace Hotel, foi homenageado com o título de Embaixador da 18ª Fenadoce e comentou que gostaria de reativar a Fenapêssego (v. notícia). Foi durante a 1ª Fenapêssego que surgiu a ideia de fazer uma feira dedicada somente ao doce, segundo o autor do texto.

Abaixo da transcrição desta nota, confira o vídeo de apresentação da 20ª Fenadoce (2012), com relatos de como a festa nasceu nos anos 80. Confira outros comentários históricos no post Corte da FENADOCE 2012


O pêssego
  • Nas décadas de 1950, 1960 e parte de 1970, realizávamos a Festa do Pêssego em diversas localidades da zona colonial do município de Pelotas (Bachini, Ponte Cordeiro de Farias, Arroio do Padre, Morro Redondo). A última edição da Festa do Pêssego na Colônia de Pelotas foi na Cascata, organizada por Salma Costa, com direito a carro alegórico.
Fenadoce 2014 lembrou o pêssego da região.
  • Foi no governo do professor Francisco Louzada Alves da Fonseca (Chiquinho), Prefeito de Pelotas [1969-1972], que se concebeu e planejou a 1ª Festa Nacional do Pêssego (Fenapêssego), mas quem a executou foi o Governo Ari Rodrigues Alcântara [1973-1976], em dezembro de 1973, nos pavilhões da Associação Rural de Pelotas (presidente Geraldo Bertoldi).
  • Todos os governos municipais dos anos 50, 60 e 70 contribuíram positivamente para a bela História da Cultura do Pêssego na região de Pelotas (Adolfo Fetter, Mário Meneghetti, João Carlos Gastal, Edmar Fetter, Francisco L. A. da Fonseca, Ari Alcântara, Irajá Andara Rodrigues, Anselmo Rodrigues, Bernardo Souza, Fernando Marroni e Fetter Júnior).
  • Pelotas já foi considerada a Capital do Pêssego.
Os doces
  • De 1982 a 1985 realizamos [Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes em parceria com o Senac/Pelotas] os Festivais do Doce de Pelotas.
    [Foi de 82 a 84, segundo o blogue O Ponto do Doce].
  • Em janeiro de 1986, implementamos no Laranjal a 1ª edição da Fenadoce (Festa Nacional do Doce), governo Dr. Bernardo Olavo Gomes de Souza [1983-1986].
  • Em todos estes eventos o Conselho Municipal de Turismo de Pelotas teve participação importante.
  • De 4 a 22 de junho de 2014, será realizada a 22ª edição da Fenadoce, no Centro de Eventos de Pelotas.
Samir Curi Hallal
Transcrito do jornal Diário da Manhã de 19-3-2014




Imagens: Capão do Leão (1), IHGPel (2)

POST DATA
25-09-14
Diário da Manhã de hoje publicou, na seção de leitores (p. 4), a nota "História da Cultura do Pêssego na Região de Pelotas", do mesmo autor, com dados adicionais, acrescentados no texto acima entre parênteses.
Leia a nota do Globo Rural O novo pêssego e a matéria do IHGPel A cultura do pêssego em Pelotas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Curso de teologia para leigos

Sala quase lotada no curso de teologia para leigos
A Coordenação Arquidiocesana de Leigos e o Instituto de Teologia Paulo VI iniciaram, quarta passada (12-3), nova edição do Curso Intensivo de Teologia, agora em versão semestral. Cerca de 80 pessoas se inscreveram nesta primeira sessão, quase lotando o auditório do Campus II da UCPel.

Até 29 de junho, quatro módulos abordarão o tema geral: "A Palavra de Deus na Vida e na Pastoral", dirigido a agentes pastorais católicos, adultos e leigos (v. nota da Arquidiocese de Pelotas). Os temas foram pensados à luz da recente exortação apostólica Evangelii Gaudium (E.G., A Alegria do Evangelho), do papa Francisco, publicada em novembro de 2013.

Os únicos requisitos são uma taxa de 10 reais e uma carta de apresentação (assinada por um pároco, presidente de Conselho Paroquial ou coordenador de Movimentos).  O sentido desta carta é que os catequistas e outros agentes de serviço pastoral percebam que não vão aprender teologia por conta própria, mas para sua comunidade.

Coordenador anima os leigos a dar vida nova à Igreja.
Na primeira sessão, o coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Pelotas, Padre Guilherme Panatieri, falou sobre a Prioridade Pastoral 2014-2015: revitalizar as comunidades paroquiais, dando força à iniciação cristã e à animação bíblica. A Arquidiocese, antes chamada "Diocese"

O presbítero também ministrou a 1ª aula do curso, explicando que, por problema no agendamento, o conteúdo da aula inaugural, que seria dada no dia 12 de março  pelo arcebispo Dom Jacinto (Prioridade Pastoral), será explicado mais amplamente daqui a duas semanas (v. programação abaixo).

Já entrando no 1º módulo (relação da Palavra de Deus com as experiências pessoais), foi explicado, com inspiração na experiência de Moisés, que precisamos tirar as sandálias com humildade e abrir-nos a ouvir e dizer as verdades como elas são, e assim será possível que tenhamos um encontro verdadeiro com Deus.

Veja a seguir os conteúdos destes 4 meses (programação corrigida), com os nomes dos professores e os trechos bíblicos tratados. Inscrições e informações no Secretariado Arquidiocesano (Sete de Setembro, 145).

Curso "A Palavra de Deus na Vida e na Pastoral"

1º Módulo:
Eu e a Palavra de Deus (Pe. Guilherme e Pe. Rômulo).
12/03 - Experiência de Deus - Êxodo 3, 1-6.
19/03 - A alegria do chamado - Lucas 1, 26-31.
02/04 - A escuta de Deus - 1ª Samuel 3, 2-10.
09/03 - Encontro com Cristo - Atos 9, 1-6.

2º Módulo:
A Palavra de Deus propõe uma ação (Maria Elizabete Gonçalves).
16/04 - Deus propõe ação - Êxodo 2, 16-18.
23/04 - Deus nos impulsiona ao serviço - Lucas 1, 39-45.
30/04 - Profetismo e discipulado - 1ª Samuel 3, 15-20.
07/05 - Deus nos chama a viver em comunidade - Atos 2, 42-47.

3º Módulo:
A Palavra de DEUS e o outro (Maria Beatriz Ferreira).
14/05 - Campanha da Fraternidade 2014 - Gálatas 5, 1.
21/05 - Dimensão Social da Evangelização - Atos 4, 32-35.
28/05 - Relacionamentos (ciúme, poder, sabedoria...) - Êxodo 4, 1-12.
04/06 - Família - Lucas 2, 41-52.

4º Módulo:
A Palavra de Deus e a Missão (Maria Suely Leitzke).
11/06 - A alegria do Evangelho" - João 16, 20-22.
18/06 - Discípulos Missionários da Palavra de Deus - João 4, 5,10, 34-41.
25/06 - Na crise do compromisso comunitário (E.G. Cap. 2) - Mateus 4, 1-4; 5-11.
02/07 - A transformação missionária da Igreja (E.G.) - Atos 3, 32-35.
09/07 - Avaliação e celebração de envio.

Encontro de Jesus com a samaritana e a descoberta da Água Viva (Evangelho de João, cap. 4) 
Fotos: F. A. Vidal (1-2), Living Water, pintura de Simon Dewey (3)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pontal da Barra, um postal-aquarela


Em Pelotas é fácil ver o sol nascer na lagoa todos os dias, mas vê-lo se pôr na água não é tanto. O Pontal da Barra é um dos poucos pontos onde podemos sentir, valendo-nos do Canal São Gonçalo, que a cidade é como uma ilha rodeada de água ao leste e ao oeste. O Pontal é uma ponta de areia, na barra do Canal, onde se localiza uma pequena colônia de pescadores (v. post Vista aérea da Barra).

Beto Fernandes registrou um desses momentos e logo manipulou a foto com uma técnica digital, fazendo-a parecer uma pintura. Compare com a foto original sem a intervenção (abaixo). Ele tem uma série de outras imagens muito especiais da cidade, que mostrarei no blogue cada vez que possível (v. álbum de fotos no Laranjal).

domingo, 16 de março de 2014

Kledir lança livro de crônicas


A Livraria Vanguarda já tem à venda exemplares do 3º livro de Kledir Ramil, "Crônicas para ler na escola" (v. nota da editora). Com o autor pelotense, a Editora Objetiva dá continuidade à coleção de mesmo nome que começou, há poucos anos, com escritores como Moacyr Scliar, Ruy Castro e Ignácio de Loyola Brandão.

O autor das letras da dupla Kleiton e Kledir já vinha escrevendo crônicas em Zero Hora e compilando-as em livros: "Tipo Assim" (2003) e "O Pai Invisível" (2011). Veja neste post a lista dos 9 livros anteriormente publicados pelos irmãos Kleiton, Kledir e Vitor Ramil.

Na quinta que vem (20-3), o cantor e cronista autografará para seus leitores na livraria do Shopping Pelotas, a partir das 19h. O livro tem 168 páginas e custa R$ 36,90.

Kledir pode ser descrito como um humorista do cotidiano, seja escrevendo um texto de leitura breve, seja teatralizando ao vivo algum caso fantástico. Muitos desses textos estão em seus dois blogues, catalogados como crônicas, "audiocrônicas" ou "videocrônicas" (no vídeo abaixo ele transforma em show audiovisual a sua crônica "Língua Portuguesa"). Os blogues têm o mesmo nome (BLOG DO KLEDIR o primeiro, e Blog do Kledir, o posterior e atual), a mesma finalidade e a mesma apresentação gráfica. Mas nenhum tem datas, contrariando uma lei essencial dos blogues, que é seguir uma cronologia.


Nos escritos de Kledir não encontramos personagens importantes no conteúdo do texto, mas na alma do cronista: podemos ouvir um narrador campeiro de exagerada fantasia, um amoroso homem de família (paizão, irmãozão, vovô, dono do cachorro), um estudioso de temas humanísticos ou um espantado observador da mudança dos tempos, entre outras figuras. Por trás dessas figuras que ele é, existe um coordenador geral, que é o escritor, outro personagem, mais imparcial e mais sério. Veja como ele mesmo se define, e a seguir uma de suas crônicas no personagem do paizão amoroso:
Sou um moleque de rua, um compositor de música popular. Comecei a juntar palavras para encaixar nas melodias que soavam na minha cabeça e essa brincadeira virou minha profissão. Depois de anos escrevendo canções, acabei desenvolvendo por nossa língua um amor tão grande que me deu coragem para invadir o terreno da prosa. E comecei prudentemente pela crônica, que é dentro da literatura a forma mais simples de todas. Tão simples que até um cantor de rádio é capaz de conseguir.

Lindinha

Quando nasceu minha filha Julia, eu estava despreparado para ser pai. Despreparado no pior sentido em que um músico-cantor-compositor pode estar: eu não conhecia canções de ninar.

Na falta de um repertório específico, comecei a cantar mantras indianos para fazer a pequena dormir. Em especial, os Cantos de Yogananda, que são pérolas preciosas. Fui improvisando com aquilo que eu considerava ser o mais adequado para uma alma pura, recém-chegada a esse mundo.

A verdade é que não funcionava. Muitas vezes virei noites sacolejando aquela coisinha linda nos meus braços e nada. Ela lá, com os olhinhos arregalados, à espera daquilo que amava e era o que efetivamente a fazia adormecer: o seio materno.

Meu repertório, na época, não apresentou o resultado esperado. Ela acalmava, mas não dormia. Por outro lado, acredito que alguma coisa boa deve ter ficado no subconsciente de minha filha. Hoje, olho pra ela já crescida, uma entusiasmada praticante de yoga e meditação, e fico imaginando que talvez aqueles mantras sagrados tenham deixado algumas sementes espalhadas.

É impressionante como, das formas mais inusitadas, a gente vai marcando a vida dos filhos. Eu, por exemplo, sou um sujeito friorento até hoje por culpa do “sapo-cururu” [versão livre de Cyro Baptista].

Voltando ao começo, às minhas tentativas de botar a guria pra dormir. No embalo de muitas noites acordado com Júlia no colo, comecei a compor uma valsinha, aproveitando o ritmo em ¾ que minha mão reproduzia naquele bumbum protegido por uma fralda descartável.

Agora, mais recentemente, quando a canção foi gravada no CD “Par ou Ímpar”, o som dessa percussão insólita, mais afetiva do que efetiva, foi registrado com o nome de Bundolone. É claro, Júlia já está crescidinha e não usa mais fraldas, completou 25 anos. Mesmo assim, fizemos em estúdio uma simulação do som das palmadinhas do papai acompanhando a melodia e, por pouco, ela não pegou no sono. O que só confirma o que eu já sabia: a música funciona bem para os seus objetivos, ou seja, realmente faz dormir.

“Lindinha” surgiu assim, espontânea. É uma canção de ninar carregada de carinho e de pureza. É a manifestação de amor de um artista aprendendo a ser pai.
Kledir Ramil
Fonte: Blog do Kledir



A mais longa noite (conto)


A cada manhã nascida, o sol deixava no quintal um ovo dourado. Eu os guardava no canto do chalé. Guardava-os sem me preocupar em saber a razão por que fazia aquilo.

Certo dia, o sol não nasceu.

A noite avançou até outra noite chegar, e mais outra noite avançar, cada vez mais escura, e assim sucessivamente, até que o breu ficou tão compacto, mas tão duro que nos sentíamos como que presos a imensos blocos de gelo negro.

Ninguém fazia nada. As crianças não brincavam; os adultos não conversavam; os bichos, igualmente, permaneciam inertes em seus cubos de gelo.

Algum tempo se passou.

Ouvi, de repente, um ruído à minha esquerda. Meus olhos, que jamais se haviam fechado, viram um brilho dourado num canto da casa. Lembrei-me dos ovos dourados.

Seria possível?

À medida que as horas corriam, os ovos iam explodindo, aquecendo o gelo negro, a ponto de derretê-lo inteiramente. Luminoso amanhecer irrompeu. As crianças alegraram-se; os adultos tornaram a falar e os bichos deram o ar da graça.

Tudo voltou a ser como antes.
Manoel Soares Magalhães
Fonte: Cultive Ler

sábado, 15 de março de 2014

Beatles em acordeon


Diego "Floreio" Dias homenageia os Beatles transpondo melodias do quarteto inglês para um singelo acordeon (vídeo abaixo). Ele se apresenta no Bar João Gilberto nesta quarta (19-3), a partir das 22h (antecipados a 12 reais no Studio CDs).

Diego é integrante da banda gaúcha Vera Loca, fundada há doze anos em Porto Alegre. Nesta passagem por Pelotas, Diego participou do programa Esportchê.

Outras transcriações do som dos roqueiros de Liverpool ao modo brasileiro:
  • projeto Beatles in Choro (escute She's Leaving Home em violão e percussão), 
  • "Bossa in Beatles" com Marcela Mangabeira (Can't buy me love),
  • Grupo Cara de Choro (ouça um popurri em flauta, violão, cavaquinho e pandeiro),
  • Brazilian Tropical Orchestra no disco "Beatles in Bossa Nova" (55 min, 19 músicas para orquestra e coro),
  • Sérgio Mendes & Brasil '66 (The fool on the hill),
  • Caetano Veloso (ouça Eleanor Rigby em voz e violão), 
  • Rita Lee, no disco "Bossa'n Beatles" (40 min, 13 músicas). 
  • Em Pelotas, Celso Krause e colegas recriaram músicas do famoso quarteto em shows instrumentais intitulados Jazzy Beat (confira She loves you);
  • o grupo local Filhos da Véia tenta ser o mais acusticamente fiel ao original inglês, não podendo considerar-se uma recriação (All my loving).

Paisagens naturais e urbanas


Esta quarta-feira (19-3) às 19h o Espaço Arte Chico Madrid da Sociedade Científica Sigmund Freud inaugura a mostra de fotografias “Entre Paisagens”, do fotógrafo Alexandre Neutzling. As atividades culturais da Sociedade realizam-se nas primeiras quartas do mês e, no mesmo dia às 20h, quem estiver na abertura da exposição poderá conversar com o artista e assistir à palestra do escritor Aldyr Garcia Schlee sobre seu mais recente livro, “Contos da Vida Difícil”. O jornalista Carlos Cogoy reporteou amplamente os dois acontecimentos culturais no Diário da Manhã.

Alexandre Neutzling
As fotografias de Alexandre, como diz a mensagem de divulgação, são um convite para adentrar, através de seu olhar estético, as paisagens naturais e urbanas de Pelotas. São fotografados aspectos do centro histórico e do Laranjal, aqueles considerados como postais clássicos da cidade.

Este estar "entre paisagens" é um situar-se dentro do olhar do fotógrafo no momento em que ele esteve entre as paisagens, procurando capturar e compor um ângulo especial naquela cena. Por exemplo, numa noite ante a Casa nº 2 da Praça Coronel Pedro Osório (acima) ou numa tarde nublada diante do trapiche do Valverde (abaixo). Não são paisagens propriamente humanas, mas que propõem ao espectador que ele se situe em relação à cidade, colocando ele mesmo o ingrediente subjetivo, seja emocional ou analítico.

A coordenação cultural da Sigmund Freud está a cargo do médico e artista fotográfico Eduardo Dévens. O endereço do Espaço Chico Madrid é Rua Princesa Isabel, 280 conj. 302 (esquina Gonçalves Chaves) e a exposição permanecerá três semanas, até o dia 6 de maio, em horário comercial.

Schlee denuncia o esquecimento da "difícil vida fácil" (palestra)

Aldyr Garcia Schlee lançou sua mais recente obra, "Contos da vida difícil", na Biblioteca Pública Pelotense, em sessão de autógrafos que durou cerca de três horas (na sexta 23-8-13) e incluiu músicas de Paulo Timm baseadas na literatura de Schlee (v. blogue Turismo em Jaguarão). Em outubro, houve apresentação em Porto Alegre e conversa com o autor (v. nota da Palavraria).

Sentindo a necessidade de um debate maior sobre o assunto do livro, convidei-o a palestrar sobre a psicologia de fundo da assim chamada "vida fácil". O encontro seria em março de 2014 na Sociedade Sigmund Freud, e agora está confirmado para esta quarta (19-3), às 20h (Edifício Everest, Princesa Isabel 280-302)

Sobre o significado dos contos, Schlee diz que com estas histórias quis revelar a prostituição e o tráfico de mulheres que ocorreu em Jaguarão, desde 1930, e denunciar o silêncio com que a sociedade local tapou a memória desses acontecimentos até hoje (v. reportagem Diário Popular). Na apresentação, o autor define os relatos como não moralistas e não eróticos.

Fachada do Clube Instrução e Recreio (foto de 2011)
O lugar principal dos fatos narrados é o antigo cabaré que existiu na rua Andrade Neves, onde hoje está o Clube Instrução e Recreio (dir.). 

O tempo de referência são os anos 30 e 40, precisamente a infância do escritor, quando aquela realidade humana (e desumana) estava à vista de todos mas não era falada por ninguém.

Quem se interessar pelo tema deve também ler La Folie et l'Amour (em português), conto de 2010 que tem relação com a "vida fácil", mas que não foi incluído no livro.

Confira abaixo o texto de apresentação (do próprio Schlee) e as duas imagens que inicialmente seriam as capas opcionais do livro (ambas de Gilberto Perin). Somente a última ficouLeia também neste blogue a nota Schlee apresenta novo livro de contos e os posts: Os limites do impossível (2009), Contos gardelianos dão terceiro Açorianos a Schlee (2010) e Schlee lançando Don Frutos (2010). 



Estes Contos da vida difícil são uma obra da imaginação que não vai além do imaginável, porque está contida na busca das razões do esquecimento, na revelação de certas lembranças não-autorizadas e na tentativa nem sempre bem sucedida de recuperação de uma olvidada memória coletiva. São velhas e sumidas histórias jaguarenses que todos fizemos questão de ocultar desde o início do século XX e cuja lembrança foi preciso reprimir, excluir e suprimir, especialmente a partir de 1930 − e até hoje, já vão quase cem anos.

Jaguarão, que só em 1904 tivera enfim seu porto fluvial aberto à navegação com o Uruguai, viu construir-se entre 1920 e 1930 a grande Ponte Internacional que a ligaria definitivamente ao país vizinho. Nesse período, centenas e centenas de homens − um milhar e pico de homens, talvez − das mais variadas raças e mais diferentes procedências, dos mais diferentes ofícios e das mais variadas habilidades viveram na cidade aquilo que se chamaria “a grande epopeia da construção da Ponte”.

Foram dias, meses e anos em que naturalmente a cidade se encheu de mulheres, apareceram automóveis e gramofones, surgiram negócios e empregos, construíram-se casas e fortunas − era farra e trabalho, trabalho e farra. De noite, havia luz elétrica, música e bochincho: os cabarés iluminavam-se até de manhã; e mesmo os lugares mais pobres, os tristes puteríos das margens do rio ficavam acordados no alvoroto que se armava noite afora (e era como se fossem alegres, e ricos).

Entre 1930 e 32, as redes de traficantes de mulheres tornaram-se escandalosamente públicas nos limites do Brasil com o Uruguai. Nossa fronteira transformou-se num lugar privilegiado para a circulação de mulheres europeias e dos proxenetas que buscavam introduzi-las no Brasil a partir do Atlântico Sul, fugindo da perseguição policial que atingia “o tráfico de escravas brancas” na Argentina e no Uruguai. O Rio de Janeiro era o mercado de colocação preferido; Montevidéu, um refúgio e base de operações; e Jaguarão, com nosso rio e sua Ponte, o lugar escolhido para uma parada delas, de passagem clandestina para o Norte.

Essas informações (como tantas outras sobre o assunto), eu as obtive em um livro, publicado com o título Las rutas de Eros (Taurus, 2006) [v. resenha], pela pesquisadora uruguaia Yvette Trochon sobre o tráfico de mulheres nos países do Atlântico Sul, de 1880 a 1932, incluindo estudos documentados das condições sociais, políticas e econômicas que tornaram possível, na época, a difusão por aqui do rendoso negócio de compra e venda de seres humanos.

Poderá parecer que estes contos, rompendo com um silêncio cúmplice e conivente sobre as misérias da chamada “vida fácil”, não passem da retomada de um passado distante. Contudo, restritos aos limites do imaginável, situam-se no plano de uma mesma e permanente realidade que, se não se esquece e se oculta deliberadamente, tem sido abordada com os prejuízos e preconceitos característicos de uma sociedade conformada por suas próprios mazelas.

O tema relativo ao mercado prostibulário e, especialmente ao tráfico de mulheres foi sempre desenvolvido através de estereótipos, no plano do melodrama de folhetim e do convencionalismo conformista, através de um discurso moralizador de grande poder emocional que o deturpa e que encontra eco na pregação de certos religiosos e reformadores sociais.

Por tudo isto, as histórias de mulheres e homens de vida fácil, girando em torno da sedução barata, da violência gratuita e da perversidade maniqueísta, não têm lugar aqui.

Aldyr Garcia Schlee
Capão do Leão, verão de 2013
Fontes das fotos: ardotempo e blogue Poeta das águas doces
Autores das fotos: E. C. Barcellos (2), G. Perin (1, 3-4)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Saint-Exupéry esteve em Pelotas?

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)
O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry foi aviador de guerra e trabalhou como piloto postal em diversos países. Em seu exílio na América escreveu grande parte de sua obra, especialmente "O Pequeno Príncipe", um dos livros mais vendidos em toda a história.

Seus roteiros aéreos no Brasil incluíram diversas cidades que nos anos 40 tinham aeroportos, e Pelotas estava entre elas. Veja abaixo a rota internacional do voo da empresa francesa, no mapa divulgado pelo blogue Sterling Numismática.

A informação também foi pesquisada pela Companhia Mútua, grupo teatral catarinense que preparou a peça de animação "Um príncipe chamado Exupéry" (v. post neste blogue).

O dado é confirmado, ainda, pelo estudo Antoine de Saint-Exupéry e o Campeche: a legitimação de uma história sem registros escritos, de Mariana Ferreira (aluna de História da UFSC), publicado na Revista Santa Catarina em História, v. 7, n. 2 (Florianópolis, 2013).

Na capital catarinense, a Avenida Pequeno Príncipe recorda o lugar onde o piloto pousava e descansava após um voo transoceânico (v. Wikipédia). Nos anos 20, Florianópolis tinha o aeroporto internacional mais ao sul do Brasil. Em 1930, Pelotas passou a ser o último campo de pouso antes da fronteira com Uruguai ou Argentina.

Trimotor Breguet 393T da Air France, em ação desde 1935 na América do Sul
Uma indicação mais específica da presença de Saint-Exupéry em nossa cidade está anotada num fascículo da coleção "Pelotas Memória", de Nelson Nobre Magalhães (artigo "Exupéry em Pelotas"):
Em um domingo de fevereiro de 1935, Exupéry chega a Pelotas pilotando um Breguet 393 [v. modelo], denominado "Gaivota", sendo que depois, o piloto-escritor durante muito tempo cruzou os céus latino-americanos, detendo-se em Pelotas por diversas vezes.
[citado pelo blogue Conheça Pelotas, setembro de 2009]
Nada indica, no entanto, que o aviador francês tenha ficado em Pelotas mais tempo do que o necessário para abastecer ou deixar encomendas. O mais provável é que ele não tenha conhecido a cidade nem tenha feito amizades aqui, como sim aconteceu em Florianópolis, ao ponto de ele ser recordado até hoje mediante o nome da avenida. Hoje, 70 anos após sua morte, os pelotenses talvez conheçam o escritor por seu best-seller, mas não sabem desta sua proximidade física com o Brasil.

Ligação França-América do Sul, da empresa Aéropostale (documento editado em 1933) - detalhe
Imagens: Sterling Numismática (2-3)

POST DATA
14-3-14, 13h
Pesquisadores buscam resgatar a memória do correio postal nos anos 20, realizado no Brasil por pilotos militares franceses que haviam participado na Primeira Guerra Mundial (v. notícia no Diário Popular).

quinta-feira, 13 de março de 2014

Um Príncipe chamado Exupéry

O piloto francês viajou pelo Brasil em voos diários.
Companhia Mútua de teatro e animação, atualmente estabelecida em Itajaí (SC), foi fundada em 1993 e pesquisa o teatro de animação desde 2002, além de dedicar-se ao clown, à pantomima e à narrativa cênica. Os integrantes principais são Mônica Longo e Guilherme Peixoto.

Um de seus 6 espetáculos, “Um príncipe chamado Exupéry” [pronúncia aproximada: ekzu-perrí], está numa maratona de apresentações iniciada no Rio Grande do Norte, algumas das quais acompanhadas de oficinas de animação teatral de bonecos. O Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2012, do Ministério da Cultura, viabiliza a turnê.

A obra se baseia na vida de Saint-Exupéry e no seu  livro "O Pequeno Príncipe" (v. Wikipédia), publicado originalmente em 1943, nos Estados Unidos, em inglês e em francês. O autor se encontrava no exílio desde 1940, após ter participado como piloto francês ante o ataque alemão, na Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, a primeira edição do famoso romance é de 1945. Na época, a França estava em ocupação e a edição saiu somente em 1946 (v. artigo "O Pequeno Príncipe"" completa 70 anos).

No Rio Grande do Sul, a Companhia está visitando 4 cidades, cuidadosamente selecionadas: Caxias de Sul (11-3), Pelotas (hoje quinta 13-3), Porto Alegre (dias 15 e 16) e Passo Fundo (19).

Companhia Mútua é fiel à história dos personagens.
A decisão foi apresentar-se precisamente em cidades brasileiras onde, conforme os integrantes e colaboradores pesquisaram, Saint-Exupéry entregou cartas como piloto da Companhia de Correio Aéreo Aéropostale, nos anos 20 e 30, desde Natal (RN) a Pelotas (RS).

Dentro de um hangar construído no teatro, sem uma única fala, é encenada a peça “Um Príncipe Chamado Exupéry”, com capacidade para 60 pessoas e destinada ao público adulto. Desde 2010, a montagem já circulou por 15 estados, participou em festivais de teatro de animação e foi indicada pela Revista Bravo como melhor espetáculo, em fevereiro de 2013.

Em Pelotas, serão feitas duas apresentações no Tablado da UFPel (Almirante Tamandaré 275, com Alberto Rosa), às 19h e às 21h. A produção local é de Alexandre Mattos ( 8116 0377).

Manoel Jesus

Pois é uma pena que os pesquisadores tenham achado e recuperado, ao sul da França, os destroços do avião de Saint-Exupéry, o pai do Pequeno Príncipe. Ainda bem que não encontraram seu corpo, ou o que dele deve ter sobrado, já que ficou submerso desde julho de 1944 - cerca de 60 anos - quando o piloto francês deixou a Córsega para uma missão de reconhecimento da mobilização das tropas alemãs, em continente europeu.

Na verdade, verdade pura, que é a verdade da imaginação, sempre acreditei que, num determinado momento, antes do final, o Pequeno Príncipe (aquele que caiu na Terra, encontrou um aviador e procurava um amigo) apareceu junto ao ombro de Saint-Exupéry, espiou para fora e, vendo a tempestade que se aproximava, disse:

O mítico Antoine de Saint-Exupéry, autor e personagem
– Tens certeza que não queres voltar comigo para o meu planeta?

O aviador sorriu e perguntou se ele tinha uma outra rosa em seu pequeno mundo. Entre perplexo e surpreso, o garoto disse:

– É bem possível que sim. Faz tanto tempo que estou longe de casa!

E partiram. Mergulhando nas águas do Mediterrâneo, procurando uma tumba silenciosa e o melhor caminho para retornar ao pequeno planeta que, até hoje, os astrônomos teimam em procurar entre as diversas constelações. Esquecem da máxima com que Saint-Exupéry encerra sua obra maior que é o Pequeno Príncipe:

– E gosto, à noite, de escutar estrelas. É como ouvir quinhentos milhões de guizos...

Aí, exatamente, reside a única orientação astronômica dada pelo Pequeno Príncipe, recebida na conversa que teve com a sua amiga raposa: "Só se vê bem com o coração". E dá um desfecho capaz de sensibilizar até os mais céticos: "O essencial é invisível aos olhos".

E, então, já não há outro caminho que não seja o de dar valor aos pequenos grandes prazeres da vida. Podemos encontrar a beleza da obra deste aviador, que viveu tão intensamente seus 44 anos, quando nos damos conta que o sentido maior do viver está em encontrar prazer nas coisas simples: como uma rosa que se cultiva, uma amizade que mostra sua cumplicidade até no olhar, a possibilidade de poder olhar para as estrelas ou, quem sabe, um carneiro que se precisa cuidar para que não coma a única rosa existente no planeta.
Diário Popular, 19-4-2004
Imagens da web

POST DATA
13-3-14
Veja o post Saint-Exupéry esteve em Pelotas?

segunda-feira, 10 de março de 2014

Pelotense reclama demais

O jornalista Jarbas Tomaschewski não é pelotense, mas assimilou uma característica local: a crítica lamentosa sem busca de soluções, um dos traços da histórica neurose depressiva pelotense. Como bom cronista, ele envolve o leitor ao descrever o problema, mesmo tratando-se de uma questão antiga ou óbvia, ou até mesmo paradoxal e enredada, e termina com uma proposta bem-intencionada (pois a lamúria coletiva é assunto para uma equipe de especialistas, ao longo de décadas, formulando um projeto de transformação social). Leia a crônica "Reclamar: nossa grande virtude", publicada no Diário Popular de 26 de fevereiro passado.

Todo visitante que chega a Pelotas para aqui fixar residência deveria receber, no primeiro dia nessas terras, um folheto com duas regras básicas de convivência pacífica. Dois artigos simples, suficientes para traduzir o modo pelotense de pensar e facilitar a vida de quem tem pressa em se adaptar, longe das confusões.

Artigo 1º - Os pelotenses odeiam que pessoas de outras regiões falem mal da cidade.

Artigo 2º - Os pelotenses adoram falar mal da própria cidade.

Ao escrever esta crônica, portanto, já estou infringindo o artigo 1º, pois não sou natural daqui e estou fazendo uma crítica. Porém, como sou pelotense por opção há 25 anos, automaticamente estou absolvido e imunizado pelo artigo 2º.

Meu comentário nada mais é do que a observação de muitos “estrangeiros” radicados na Princesa do Sul. Há algum tempo participei de uma conversa que, sem qualquer estímulo, rumou para críticas ao local onde vivemos. E 99% dos presentes exercitaram, sem dó, a política do “eu só enxergo os defeitos do chão onde piso”. Até que um dos participantes da conversa, não pelotense, falou e deixou todos mudos. Na verdade, constrangidos.

– Onde eu morava os problemas de vocês são pequenos demais. Como vocês reclamam!

Muitos tiveram de engolir a resposta que gostariam de ter dado à colocação afrontosa do autor, pois nada nos deixa mais furiosos do que ouvir a verdade que sempre renegamos jogada na cara, sem piedade e sem filtros.

Frase de Geissy Araujo
Não defendo fechar os olhos ao que atrapalha a vida de toda a comunidade. Ao contrário, é preciso sim reclamar, se revoltar, lutar por direitos, soluções. Debater o que está errado e, nossa, como tem coisa errada em Pelotas. Mas gostaria de ver, um pouco que fosse, maior distanciamento desse modo de agir. Virou hábito, um péssimo hábito, a ponto de rejeitarmos até o que é bom.

Nossa fama já ultrapassa as fronteiras. Longe daqui escuta-se que o pelotense é um povo “reclamão” e nada faz para mudar, só chora e não se mexe. E quem gosta de conviver com pessoas assim? Ninguém. A tendência do ser humano é fugir de quem só se queixa e carrega, para onde vai, uma nuvem cinza sobre a cabeça.

Pelotas, cidade boa demais para viver, tem muitos problemas, uma lista infindável de problemas. E a lista oposta, de nossos orgulhos, está sempre reprimida. Poderia haver mais equilíbrio. Não podemos sorrir para tudo e achar que vivemos no mundo perfeito. Agir assim aproxima qualquer pessoa da idiotice. Mas escolher ficar com a testa encostada no muro de lamentações, sem sair do lugar e nada fazer para mudar algumas situações, já parece caso para tratamento.
Jarbas Tomaschewski

imagem do blogue Mariguedes
Fonte do texto: Diário Popular