terça-feira, 4 de novembro de 2014

Novo projeto do Capitólio, o cine finado

Os organizadores do primeiro Noitão no Capitólio (2011) levaram 3 anos para retomar o projeto, e descobriram que não seria mais possível fazê-lo no antigo cinema, pois o dono daria, em novembro de 2014, uma nova finalidade à estrutura (a antiga Sala 2), sucata abandonada do mais longevo cinema de Pelotas, inaugurado em 1928, reformado em 1967 e fechado em 2007.

Quais seriam os "outros planos para a estrutura"? A expressão foi usada na reportagem de sexta (31-10) no Diário Popular que anunciou o segundo e último Noitão, exatamente no amanhecer de Finados (2-11).
O clima será de despedida. Após as sete horas de exibição, a sala não estará mais apta para o uso. Os organizadores adiantam que o aluguel do prédio retornará para o proprietário, que possui outros planos para a estrutura.
Se a antiga Sala 1, com 900 poltronas, virou estacionamento de carros, o mezanino teria vocação de estacionamento de motos? Uma lan house, talvez? Locadora de celulares ou de pen drives?

Teria que ser algo lucrativo, pois o prédio é imenso. Mas nada de livros ou filmes, pois a cultura somente traz prejuízo e desequilibra as finanças. Tampouco sonhos idealistas, por muito elevado que seja o 2º andar.

De um lado, a entrada de carros; de outro, o acesso à fantasia. No meio, o velho guichê desativado.
A resposta está à vista de quem passa pelo "Estacionamento Capitólio" (a ex-sala para 900 pessoas). Esta semana devem começar as obras para instalar o tal projeto (na ex-sala 2), que é precisamente financeiro, destinado a não dar prejuízo.

A expressão "Lotérica Capitólio" esconde duplo eufemismo metafórico. Dois enganos ao consumidor desavisado: uma loteria sem ganhadores e um cinema sem filmes.

Na Agência Lotérica, não haverá muitas apostas ou esperanças de uma vida melhor (a loteria da vida); o nome Capitólio não despertará aventuras ou fantasias de luxo (evocação do finado cinemão). Simplesmente, um guichê bancário recolherá o pagamento de dívidas, disfarçado com cores e, ainda por cima, em desajuste com as normas de acesso para idosos e cadeirantes. Quem quiser estacionar o carro terá a oportunidade de pôr em dia as contas, e quem precisar ir ao banco também poderá estacionar.

A mesma escada que antigamente despertava a imaginação agora servirá para expiar culpas. Ronnie Von poderá cantar sua letra dos anos 60, em paródia: o mesmo cine, a mesma sala, a mesma escada, o mesmo mezanino, tudo é igual, mas estou triste, porque não tenho você perto de mim...

Humilde sugestão: para não descaracterizar o projeto, o eufemismo poderá ser adornado com a venda de pipocas, cartazes de filmes e ar condicionado. O público saberá da falsa promessa, mas não haverá quem resista a uma pitada de fantasia.
Fotos: F. A. Vidal

7 comentários:

Loiva Hartmann disse...

Melancólico. Triste? Ou perfeitamente dentro do espírito capitalista?
Os templos do mundo moderno são os bancos.
Excelente reportagem. Lembra a desumanização dos espaços, a solidão do ser humano, refém das cifras, alijado daquela necessária dose de fantasia que perfuma a vida!
Resultado? Mais violência, menos ternura. O ser humano esquece que colherá o que planta hoje!
Loiva Hartmann

Anônimo disse...

O cinema do calçadão foi fechado, poderia fazer uma matéria sobre...

Francisco Antônio Vidal disse...

O Cine Art está com sintomas de fechamento, pois decidiu, há cerca de um mês, não abrir mais à noite, em vista de que há menos espectadores, pouca segurança nas ruas e o prédio ficava aberto somente em função das sessões das 21 horas.
Sobrevive com as 3 salas, com o público diurno do centro, com filmes dublados e com as sessões das 15h, 17h e 19h.
Isto era previsível após o surgimento do Shopping Pelotas e seus modernos cinemas, inaugurados há exatamente um ano, onde há estacionamento, segurança e comodidade.

Anônimo disse...

Obrigado pela resposta, mas eu entrei em contato via email com a rede que gerencia ele, a Arcoplex, e me informaram via email que ele nao foi fechado, apenas nao fazia mais parte da rede de cinemas deles. Se ele nao foi fechado, e nao é mais da Arcoplex, de que rede ele é afinal agora? Ainda esta aberto? E uma pena, foi um bom cinema, pena nao ter se modernizado.

Francisco Antônio Vidal disse...

O Cineart saiu da rede Arcoplex, mas continua aberto, agora só em sessões da tarde.
Foi a solução que os donos acharam para sobreviver, essa é a realidade dos vários cinemas pequenos do interior. Perguntarei detalhes no atual Cineart.

Para exibir filmes não é preciso fazer parte de uma rede nacional, a vantagem é que os espectadores são mais bem atendidos quando é de uma franquia. As internacionais, como Cinemark e CineHoyts, são ainda melhores.

Anônimo disse...

Cinema no Capitólio!?
O local tem PPCI para funcionar como cinema?
Com certeza não. Talvez tenha para estacionamento, mas cinema não!!!
Enquanto isso, não posso trabalhar pois "AINDA" aguardo meu PPCI ser aprovado.
Sem ter padrinhos nessa cidade é F#...
Perdão. É FOGO!

Francisco Antônio Vidal disse...

PPCI - Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio. Com certeza o Capitólio já não tem esquema de segurança como cinema no 2º andar, pois deixou de funcionar há 7 anos, e não voltou a fazê-lo. Para o funcionamento como lotérica, acredito que deva ter algum acesso para saída de emergência.

O que foi divulgado como Noitão no Capitólio não foi um cinema real, mas uma reunião noturna, fechada para 300 pessoas. As entradas foram vendidas na UFPel, e até o projetor digital foi fornecido pela Universidade. Foi montado por uma noite um cinema de fantasia, sem empregados nem projeto jurídico. Teria sido bonito reinstalar um cinema ali, mas não foi possível.