sexta-feira, 17 de julho de 2009

Orquestra juvenil porto-alegrense

A Orquestra Infanto-Juvenil do Instituto Popular de Arte- Educação (IPDAE) [i-pe-dae] esteve em Pelotas na sexta-feira 3 de julho (esq.), abrindo uma turnê pelo Estado.

Dos 29 músicos da Orquestra, 22 vieram a Pelotas. Todos eles têm entre 12 e 19 anos e provêm da Escola de Música do IPDAE, que prepara um número bem maior de crianças e adolescentes.

Houve no Sete de Abril uma apresentação didática às 16h, e um concerto às 20h, que foi assistido por cerca de cem pelotenses. Após o mesmo, o grupo retornou a Porto Alegre, para na semana seguinte dirigir-se a Santa Maria, Nova Petrópolis, Passo Fundo e Novo Hamburgo.

O IPDAE é uma O.N.G., fundada em 1998 no bairro Lomba do Pinheiro, na capital do Estado, para motivar crianças e jovens à leitura, à arte e outros instrumentos educativos e culturais. O Instituto contém a Escola de Música (dir.), uma biblioteca, um Museu Comunitário, o Coro Infantil e a Orquestra. Há mais atividades: teatro, xadrez, cursinho pré-vestibular e apoio pedagógico.

A Escola e a Orquestra são dirigidas pela violinista Rosângela dos Santos (dir.), que prepara os arranjos musicais, e ensaia 10 horas por semana com os jovens, nos naipes e no grupo total. Os instrumentos são de cordas - violinos, violas e violoncelos - e de sopro: flautas doces em 4 registros e flautas transversais (esq.).

A diretora do Instituto, Fátima Flores, acompanha o grupo na turnê e explica ao público como a O.N.G. funciona; a divulgação inclui os espetáculos e o acesso ao site, tendo em vista motivar doações (veja Como colaborar). Além das duas diretoras, o Instituto tem vinte adultos na equipe técnica e uns quarenta voluntários.

Ao começar a música, percebe-se como a instituição funciona, o que pode ser um modelo para outros grupos: concentração disciplinada, esforço, compreensão do que se faz e espírito de equipe são fatores que despertam a admiração e o carinho dos espectadores.

Eles sabem muito bem o que fazem, perfeccionistas e obedientes à regente nos menores detalhes: entram e terminam em uníssono, e dão sentidos expressivos às diversas passagens. Num desempenho técnico de nível semiprofissional, obtêm sonoridades até mais limpas e afinadas que a Orquestra Filarmônica de Pelotas (faço a comparação, ainda que pareça injusta, somente para descrever a qualidade do som que nos foi trazido). Além de trechos renascentistas, barrocos e do folclore brasileiro, está em seu repertório o Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos, peça orquestral que pode considerar-se difícil para um grupo iniciante.

Fotos de F. A. Vidal (1, 4, 5) e da web (2-3).

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O cotidiano de Pelotas é tornado tema

O Ateliê Giane Casaretto costuma basear-se em temas especiais (como os 100 anos da imigração japonesa, comentado num recente post) ou cíclicos. Um destes últimos é a Semana de Pelotas, uma oportunidade que todos nós temos de fazer novas reflexões sobre a história e as características de nossa cidade.

Este ano, Giane propôs às alunas a técnica chamada "monotipia", que reproduz uma imagem original sem grande nitidez, permitindo criar efeitos novos. Neste exercício, as imagens de base foram fotografias de lugares da cidade de Pelotas, como a Catedral, o Mercado e alguns casarões.
Tanto a inspiração - sem novidade - como a técnica usada - fora do hábito das pintoras do ateliê - deram liberdade à imaginação e às emoções. Quando se usam as cores sem muita nitidez e o método exige alguma capacidade de improvisação, é a afetividade interna que vem em auxílio do artista para preencher vazios e configurar alguma mensagem pessoal.
O resultado foi a mostra chamada "Cotidiano tornando tema", com cerca de vinte pinturas em monotipia, fotografias, desenhos, almofadas e sacolas, todas relacionadas com Pelotas. Até um dos biombos (dos 150 anos de Freud) veio recordar que ele também tinha sido feito com elementos locais.
A exposição foi inaugurada na terça 7, no ateliê, e permanece pelo mês de julho, como várias outras mostras que foram abertas na Semana de Pelotas. Quem chegou a esta vernissage, apesar do frio, viu-se recompensado pelo calor humano e pelo quentão.
Nem todas as artistas deste grupo assinam seus trabalhos ou adjuntam fichas com identificações, pelo qual se tem a impressão de não haver linhas ou tendências autorais, como se os quadros fossem simples adornos de um ambiente. No entanto, a maioria delas tem suas preferências encaminhadas e podem ser identificadas por seus quadros, mesmo que não os assinem. Heloísa e Giane pintaram a Catedral (1-2, acima); Fátima, a Caixa d'água (3, esq.); Hélia, o casarão do MALG (4, dir.). Abaixo, pintura de Giane Casaretto.
Analisar suas obras será uma tarefa interessante a ser realizada neste blogue, tanto como uso do pensamento crítico como uma prática de desenvolvimento pessoal das artistas.
Fotos de F. A. Vidal.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mudança

O cabeçalho do blog passou por uma renovação, com assessoria de um especialista, o designer Nathanael Anasttacio. Esta arte gráfica inclui a mudança de letra em todo o blogue.

Em seu blogue scrittoriodesign, Nathanael colocou outra proposta de cabeçalho para Pelotas, Capital Cultural (abaixo). Ele hoje estuda Cinema e Animação na UFPel, escreve poesia e faz trabalhos gráficos sob encomenda.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Trezentas onças para a cultura de Pelotas

Trezentas Onças (clique para ler) é um conto de João Simões Lopes Neto, publicado em 1912, no seu livro "Contos Gauchescos". No relato, o personagem perde um saco de moedas de ouro de seu patrão e fala de seu desespero por encontrá-lo (leia uma análise do livro.

Em 2005, o Instituto João Simões Lopes Neto estabeleceu o Prêmio Trezentas Onças, para destacar o trabalho de quem divulga o nome e a obra de Simões, inclusive de quem colabora na recuperação da Casa do escritor. O troféu é uma moeda, reproduzida 299 vezes a partir de uma onça verdadeira, que serviu de modelo.

O projeto consiste em entregar 3 onças cada vez, em premiações anuais. Assim, ao fim de um século, no ano 2106, com 300 colaboradores identificados, a guaiaca estará cheia de valores, e Simões Lopes Neto será um autor conhecido por todo o mundo.

O primeiro premiado, Bernardo de Souza, recebeu o modelo original, em 2006. O ex-prefeito era deputado estadual quando movimentou a criação do Instituto como uma entidade de interesse público. Ele foi o que primeiro e mais acreditou no futuro desta Casa, motivação que se transmitiu a muitas pessoas mais "realistas". Sabe-se que hoje os pelotenses nem sempre são muito otimistas quando se trata de progresso cultural ou de valorização histórica; nosso patrimônio se conserva com ajudas externas.

Como a condecoração inicial foi unitária, rompeu-se a simetria do número 3. Portanto, uma das seguintes premiações teria que destacar somente dois nomes. Pensou-se que fosse a seguinte, mas até hoje elas continuam o mesmo ritmo ternário. Quem sabe, nestes 97 anos se decida adiantar o fim do prêmio para 2105, pois nesse momento se cumprirão 240 anos do Capitão (nascido em 1865).

Em 2007 homenagearam-se três simonianos: Luiz Fernando Cirne Lima (veja biografia), Beatriz Araújo e Mozart Victor Russomano.

Em 2008, foi a vez do artista e pesquisador Mário Mattos (pintor da aquarela à direita), o escritor Flávio Loureiro Chaves e o advogado Paulo Charqueiro (por uma oportuna ação judicial, ele salvou a casa de Simões de ser demolida, quando tinha sido comprada por Theo Bonow e este decidira fazer ali um condomínio).


Os escolhidos para as três onças de 2009 foram: a ex-presidente do Instituto, professora Paula Schild Mascarenhas (Pelotas, 1970), o jornalista e político Antônio Hohlfeldt (Porto Alegre, 1948) e o escritor Aldyr Garcia Schlee (Jaguarão, 1934). Cada um deles já realizou importantes trabalhos de difusão da obra de Simões Lopes Neto.

A cerimônia se realizou no auditório Carlos Reverbel, na sexta 3 de julho, sob a coordenação do atual presidente, jornalista Henrique Pires. Os premiados agradeceram com emotivas palavras, e confraternizaram com amigos e familiares.

O que na Casa chamam "maldição de Simões às avessas" é um círculo de realizações bem-sucedidas (como este projeto e todas as outras atividades), ao contrário dos vários fracassos empresariais do comerciante e do escritor, não reconhecido em vida.

Paula estava com sua mãe Maria Helena e os irmãos Luiz Octávio e Fernanda (à esquerda).

Schlee (dir.) veio com a esposa Marlene, os filhos Aldyr e Sylvia, e as netas Helena e Ana Carolina (no colo). Na foto não apareceu Aldyr Filho.

Hohlfeldt veio de Porto Alegre, sem familiares (abaixo, com Henrique Pires).

Sobre a palavra "simoniano", é preciso anotar que os devotos pesquisadores de Simões a grafam com "e" em vez de "i" como vogal de ligação, divorciando-se do acostumado na língua portuguesa. Dizem eles que pretendem evitar a associação com a palavra "simonia", de sentido pejorativo, derivada do nome Simão (mas para isso já existe "simoníaco"). Outra razão, não tão rebuscada, é que Simões já tem um "e", que poderia manter-se no adjetivo.

Em qualquer caso, aí está outra causa possível dos simonianos: instaurar no dicionário a palavra "simoneano".
Fotos de F. A. Vidal (4-7), IJSLN (1), AL-RS (2) e UCPel (3).

Uma tarde na praça-coração de Pelotas

Solano, Pedro, Rodrigo e Carolina
Solano Ferreira, Pedro Dias, Rodrigo Nunes e Carolina Silveira (dir.) são quatro estudantes de Comunicação, apaixonados pela fotografia desde que ingressaram no curso da UCPel.

Uma tarde de uma quinta-feira de outono, eles se dispuseram a fotografar as belezas da Praça Osório, que os pelotenses geralmente não valorizam ou até nem percebem, seja porque elas estão assimiladas no cotidiano, seja pela simples pressa de chegar mais rápido a seus destinos. Eles escolheram trabalhar no mesmo dia, para ter mais interação e para todos terem as mesmas condições de tirar as fotos.

O Corredor Arte acolheu essas fotografias e as expôs até hoje (8) no Hospital-Escola da UFPel. “É interessante mostrar as belezas históricas da cidade, que muitas vezes não nos damos conta”, diz Carolina. “Queríamos que as fotos agradassem aos olhos dos que passam pelo Hospital, para amenizar e levar belezas, ali, tão próximas”, conta Rodrigo.

Em cores ou em preto e branco, focando detalhes do popular chafariz ou a cúpula do Grande Hotel (fotos abaixo), pessoas ocupadas ou a paz da natureza, a diversidade perceptiva dos fotógrafos mostra como o mesmo lugar pode revelar, inclusive no mesmo horário, uma variedade tão ampla de ângulos e aparências.

A nossa praça central contém toda essa riqueza e as contradições de uma grande cidade: natural e artificial, espontânea e solene, tradicional e moderna, humana e animal, infantil e anciã, intelectual e artesanal, científica e artística, santa e pecadora.

Os sucessivos nomes da praça se relacionaram com as transformações políticas. Na Freguesia de São Francisco de Paula, o espaço era um campo central semiurbano. Com a instalação da Vila (1832), ficou como a Praça da Regeneração, em referência a um conceito do liberalismo português; nosso país passava também por renovações.

Em 1865, quando o Imperador visitava Pelotas pela segunda vez, o nome foi mudado para Praça Dom Pedro II, em homenagem explícita ao visitante, então com 40 anos.

A Fonte das Nereidas foi trazida da França em 1873 pela Companhia Hidráulica Pelotense; foi colocada perto de uma das esquinas da praça e poucos anos depois ficou no ponto central. Na época, os chafarizes abasteciam de água a população – não como hoje, que são simples adornos.

Até a colocação do chafariz (não temos a data precisa), houve no centro da praça um pelourinho, instrumento de tortura pública, instalado em 1832, quando a Freguesia tomou a condição de Vila, com governo autônomo. Delinquentes e escravos eram, antes disto, condenados e castigados na Vila de São Pedro do Rio Grande.

A repentina mudança de regime em 1889 traria o nome óbvio: Praça da República. Mas a mudança de nome só ocorreu em 1895, após seis anos de neutralidade, na transição do sistema imperial ao republicano. Nesse meio tempo, a Câmara Municipal – com maioria de liberais – tinha "regenerado" a denominação para "Praça da Regeneração". Era preferível voltar ao nome primitivo, fora de contexto, a evocar a figura maior do proscrito sistema absolutista.

Pedro Luís da Rocha Osório (veja biografia) foi charqueador, agricultor e político, iniciador do Ciclo do Arroz em nossa zona, numa época em que as charqueadas vinham em decadência. Não fez carreira militar, mas em 1894, aos 40 anos, foi nomeado Comandante da Guarda Nacional, recebendo honras de Coronel do Exército. Ao falecer em 1931, o prefeito João Py Crespo o homenageou dando à Praça da República seu nome atual: Praça Coronel Pedro Osório. O monumento feito por Antônio Caringi só viria em 1954, com o centenário de nascimento do coronel que não foi militar.

De 1832 a 1931, a praça central de Pelotas teve 3 denominações, e desde então até hoje (oito décadas) somente uma. Mesmo sendo difícil aos visitantes memorizar o longo nome, será ainda mais difícil que os pelotenses assimilem uma mudança. Nem pelotense, nem "doutor" nem coronel, mas adorado pelos gaúchos, especialmente em Pelotas, cuja economia ajudou a levantar. Quando nascerá outro Pedro Osório?

Fotos Corredor Arte (2-5).

Esquina tenta remediar uma triste memória

Na esquina da General Teles com Gonçalves Chaves situava-se o Bar Bolicho, um boteco a mais na quadra mais alcoolizada do centro de Pelotas. O local tinha espaço amplo no interior e dispunha mesas na calçada; o ambiente era familiar e relaxado, mais rural que urbano.
Em relação com a proximidade da UCPel, ainda hoje por aqui brotam vendedores e consumidores de cerveja. Em junho passado, foi a vez de um minitrêiler de churrasquinhos, instalado como qualquer carro, defronte ao João 100 Gilberto.
Em 2005, o Bolicho ganhou a má fama de ser o ponto de partida de um crime: um cliente matou uma cadela prenhe, arrastando-a de carro até a Quinze com Três de Maio. Na época, a Gonçalves não estava asfaltada. O fato foi denunciado por um grupo de defensores de animais, que abriu o blogue Justiça para Preta e chegou a fazer uma passeata pelo Calçadão, para defender a vida e pedir o castigo aos responsáveis da morte da cachorra Preta. Em 2007, um dos três indiciados foi condenado por crime ambiental.
O bar seguiu atendendo, mas uma persistente pressão mediante processos judiciais, iniciada por um hotel próximo, conseguiu fechá-lo. A venda de álcool é permitida por lei, mas as casas noturnas devem submeter-se a várias regras. Uma dezena delas foi fechada pela fiscalização municipal, em maio, na mesma noite em que expus aqui o costume dos notívagos de fazer da rua um salão de festa (veja o post).
Os moradores do edifício hoje sabem que, com uma farmácia na esquina, não terão grandes alterações da ordem. Depois do boteco licencioso, a botica silenciosa. Os remédios tentam apagar a má lembrança de 2005. Paradoxalmente, os arredores da Católica seguirão sendo um grande foco boêmio e de drogas ilícitas, enquanto a comunidade for tolerante.
Foto de F. A. Vidal.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Diário Popular reabre seu portal web no dia de Pelotas

O Diário Popular escolheu o dia 7 de julho para reabrir seu site jornalístico, suspenso para reformas em setembro passado. O jornal manteve todo este tempo o acesso às notícias já publicadas e seguiu veiculando algumas matérias novas (aqui no blogue já fiz um post sobre o DP).
O novo desenho dá acesso a alguns vídeos, e permite interatividade do leitor com o jornal. As fotos são boas mas poucas, como era no site antigo; neste aspecto, o site do Diário não mostra uma evolução.
Os cadernos têm seu espaço e os dois colunistas sociais escrevem no formato web de miniblogues jornalísticos. Há um terceiro blogue para a FEARG (Feira do Artesanato de Rio Grande); poderá haver outros. Já o Espeto ocupa um formato de seção própria, equivalente a uma editoria. A coluna de Behrensdorf está na seção Opinião.
Em todas as seções do portal, inclusive na programação de cinema e na coluna-blog do Mansur, Pelotas e Rio Grande aparecem juntas (ao contrário do que ocorre na edição impressa), como sendo partes de uma só "megalópole" (expressão minha).
Hoje de manhã a jornalista Bianca Zanella despediu seu blogue Portifólio Online, vitrine e arquivo de suas matérias, que agora sairão diretamente no novo portal de notícias. Foram 38o notas culturais em 14 meses. De tarde, ela postou no seu Plurk: "deixei meu blog de lado, agora que o site do DP tá no ar".
As edições anteriores não se encontram acessíveis. A seção O Diário no Tempo inclui dados históricos do jornal, e até poderia fazer o link aos números passados, desde 2001, mas por enquanto isso não ocorre.
Este primeiro número online destaca uma entrevista por chat com Kleiton e Kledir. Sobre a canção Pelotas, eles dizem que irá no próximo DVD, em forma de clipe, e será incluída em todos os shows da nova turnê da dupla.
DP na Web - E a música será entregue à cidade? Como isso acontecerá?
Kledir - Para nós essa canção é uma homenagem. É um hino de amor à nossa cidade. [...] Por isso queríamos fazer uma entrega oficial e dar ela de presente à cidade. Dessa forma, vamos entregá-la ao prefeito, uma maneira de alcançarmos todos os cidadãos pelotenses. Além do CD e DVD, entregaremos a partitura da música e uma versão que o Kleiton compôs para ser cantada por corais. Em breve estaremos aí.
Fotos do site DP.

Mulheres de Carmen Araújo

A pelotense Carmen Lúcia Kegles de Araújo, ginecologista e obstetra, exercia há uns vinte anos e quis decorar seu consultório com quadros pintados por ela mesma, mesmo sem nunca ter estudado pintura. Isto ocorreu em 1999. Não parou mais, e hoje somente se dedica à arte, participando em concursos internacionais e organizando exposições como esta no Clube Comercial (de segunda a sábado, até 17 de julho).

São 26 quadros figurativos, representando exuberantes mulheres nuas, em homenagem à Semana de Pelotas. A vernissage foi na sexta-feira (3), na sala do Clube que faz esquina com a Félix da Cunha, com coquetel salgado e doce, e a música ambiental de Joaquina Porto.

A escolha do lugar não foi casual, mas com o propósito de chamar a atenção sobre o pobre estado de conservação do prédio, que teve seus dias de glória, foi restaurado há uns cinquenta anos, e em 2003 - ocasião da primeira exposição de Carmen Araújo, no mesmo local - chegou a ver interditado o segundo piso.
As telas desta amostra foram criadas em Pelotas, entre 2001 e 2009, e denominadas com títulos expressivos da psicologia e espiritualidade feminina:
Paz (acima à direita), Intuição (detalhe, à esq.), Inocência, Doce ousadia, Equilíbrio, Atitude, Alma, Brilho, Simbiose, Alegria, Travessia, Felicidade, Luminosidade, Plenitude, Motivação, Perfume de mulher, Suavidade, Serenidade.
Todos mostram mulheres nuas, em diversas posturas, geralmente desacompanhadas, sem traços no rosto e com objetos artísticos (como vitrais, doces, móveis, instrumentos musicais) representando o contexto pelotense.
Em "Reencarnação" (dir.), o casal em união parece convidar ao amor, sob a premissa de que o maior prazer (feminino ou masculino) está na complementação física e emocional.
Mesmo partindo de uma inspiração específica - ilustrar um consultório ginecológico e despertar nas pacientes a esperança e o amor por si mesmas - as obras denotam uma liberdade espiritual que transcende às mulheres e sugere o erotismo e a sensualidade do ser humano em geral (independente de orientações e de objetos sexuais). Daí o sucesso destas pinturas em outros países e culturas.
A universalidade do conteúdo, hoje em dia, chega a pontos que eram impensáveis em épocas de menor liberdade social e moral. Ontem (6), uma avó e seu pequeno neto (esq.) visitavam a exposição e apreciavam a beleza dos nus, adornados com flores e rodeados dos antigos móveis do Clube, construído no século XIX.

A tela principal é "Princesa" (esq.), baseada num detalhe da Fonte das Nereidas, também uma mulher nua montada num cavalo (na mitologia grega, as nereidas, ou filhas de Nereu, são ninfas do Mediterrâneo).
Neste único caso, a pintora se deteve no rosto e seus detalhes (dir.), que significaram várias horas de trabalho com a espátula e a tinta acrílica.
Os olhos podem ser bastante expressivos, despertando às vezes no espectador até a sensação de estar sendo olhado pela pintura. A falta deles, por outro lado, facilita que a imaginação projete desejos e sensações e diminua os pudores, que é comum encontrar na área afetiva, especialmente quanto à nudez e ao encontro interpessoal. Muitas vezes, para o autoconhecimento, é preciso partir com os olhos fechados (da consciência moral), para idealmente aproximar-se ao olhar aberto e direto, onde acontece o verdadeiro encontro.
Fotos de F. A. Vidal (2-7) e Diário Popular (1).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Nomeado o quinto bispo de Pelotas


Iniciando o primeiro dia de julho, o Vaticano anunciou o próximo bispo de Pelotas. Dom Jayme Henrique Chemello (esq.) havia apresentado sua renúncia em 2007, ao cumprir 75 anos, e a diocese esperava desde então a decisão oficial do Papa.

Esta quarta (1), soube-se quem o sucederá: Dom Jacinto Bergmann (dir.), de 57 anos, que já foi bispo auxiliar em Pelotas dois anos, e desde 2004 era o titular em Tubarão (SC). Ele assumirá em setembro, mas veio por este fim de semana; Dom Jayme ficará aqui, como bispo emérito.

Ambos são gaúchos, e igualmente o era Dom Antônio Zattera (leia a biografia), nosso 3º bispo (esq. e dir.), que chegou a Pelotas em julho de 1942. Suas obras foram grandiosas. Criou o Instituto de Menores em 1944, reformou a Catedral em 1950, fundou a primeira faculdade de Filosofia do interior do Estado em 1953 e a Universidade Católica Sul-Rio-Grandense de Pelotas em 1960, que incluía faculdades em Rio Grande e Bagé (em 1962, ficou como UCPel). Renunciou em 1977 e faleceu em 1987, com 88 anos.
Dom Jayme, que hoje se afasta, começou como bispo auxiliar de Pelotas em 1969, e com o afastamento de Dom Antônio assumiu a diocese, onde ficou exatamente 40 anos (32 como titular), tempo considerado longo, pois os bispos usualmente são transferidos com frequência, pelas necessidades da Igreja nos diversos lugares.

O primeiro bispo de Pelotas foi o campinense Dom Francisco de Campos Barreto (esq.; leia a biografia), que assumiu em 1911, no ano seguinte a nossa cidade ter sido declarada diocese pelo Papa Pio X (Décimo). Ficou no cargo até 1920, quando voltou como bispo à diocese de Campinas, com 43 anos.
Em 15 de agosto de 1910, a paróquia de São Francisco de Paula foi elevada a Catedral. A nova diocese abarcava as cidades de Rio Grande, Bagé, Canguçu e Jaguarão (as duas últimas ainda são parte da Diocese de Pelotas). Até 1910, todas as paróquias de nossa zona dependiam do bispado de Porto Alegre.
Nosso segundo bispo foi cearense: Dom Joaquim Ferreira de Melo (1873-1940). Ficou em Pelotas entre 1921 e 1940, quando morreu, aos 67 anos. Foi ele quem fundou o Seminário em 1939 (a avenida que passa por ali recebe seu nome), abriu o Asilo de Meninos Desvalidos - que Dom Antônio converteria no Instituto de Menores - e criou o Asilo Bom Pastor (para "regenerar moças transviadas", segundo documento pesquisado por M.O. Magalhães, leia o artigo de 20.09.03).
Fotos da web.

sábado, 4 de julho de 2009

Receita gaúcha de doçura: amar a cultura

Na semana de aniversário de Pelotas, o jornalista e escritor Walter Galvani (Canoas, 1934) fala com amor sobre a cultura e a importância de Pelotas para o progresso.

"Só quem mora na aldeia conhece os caboclos", dizia antigo treinador de futebol, que não nasceu em Pelotas mas conhecia as doçuras da cidade [Mano Menezes].

Hoje, quem percorre as ruas desta maravilhosa concentração de riquezas culturais sabe o quanto seus habitantes contribuíram para o engrandecimento do Estado.

Mas também é sabido que a região foi esquecida pelos sucessivos governos, que representaram - desde o final da Revolução Farroupilha [1835-1845] - um certo sentimento mesquinho dos "imperiais" com relação a tudo o que [significasse] um possível sentimento de independência (ou separatismo rio-grandense).

Tais diferenças e 170 anos de injustiças acabaram por gerar [nos pelotenses] um justo desejo de reconhecimento, que nunca a capital praticou e jamais o Rio de Janeiro ou Brasília, sedes dos governos do Império e, depois, da República.

Mas Pelotas não perdeu a sua doçura aristocrática - mesmo com as dificuldades que o campo acabou por sofrer - e sua importância cultural não pode ser esquecida ou menosprezada.

Assim, quando há oportunidade de ir até a cidade que recebeu o batismo de Princesa do Sul, o melhor é ir voando, ou melhor rodando, que a melhor empresa de ônibus do Estado tem aqui a sua sede. [Expresso Embaixador]
[...]
Tenho, pois, também a minha receita de doçura: visite Pelotas e ajude-a na luta pela preservação dos seus valores, na reconstrução de seus bens materiais e na propagação dos seus feitos e da sua História.

O Rio Grande agradece. O desenvolvimento da Região Sul é a maior resposta positiva que se pode dar a um sonho de crescimento do Estado, uniformemente distribuído, atendendo a todos - desde a Fronteira, a Campanha, a Serra, o Litoral, passando pela capital e chegando à única cidade que já ousou se igualar, disputar ou dividir com Porto Alegre os sonhos de grandeza do nosso Estado.
Walter Galvani
Diário Popular, 21-06-09
Imagens da web (1-2) e Manoel Magalhães (3).

Paisagens sugeridas por Sabrina Härter

O Corredor Arte do Hospital-Escola UFPel/FAU recebeu, em junho, a exposição “Paisagem Sugerida – o olhar sobre as intempéries”, da pintora Sabrina Härter.

É a primeira mostra individual da artista, que este ano conclui o curso de Artes Visuais - Habilitação em Pintura, da UFPel. Este conjunto de obras nasceu durante seus estudos universitários, refletindo sobre a fotografia, a pintura e o desenho como meios de representação.
Em que diferem e se parecem esses três gêneros artísticos?
Pode-se pintar a partir de uma foto ou de uma percepção viva, e pode-se alterar uma fotografia para fazê-la parecer uma pintura. Por outro lado, o desenho e a pintura também podem aproximar-se e mesclar-se.
Sabrina explica que nestes trabalhos há uma influência da cidade de Pelotas, especificamente da zona do Porto. "Essa ligação é provocada pelo que sinto quando estou diante dos prédios históricos, assim como pelas sensações causadas pelas intempéries. O que me leva a pensar como era antes, que o tempo não pára, está sempre a agir".
Ela deseja, com sua técnica, “sugerir, provocar, seduzir o olhar, para deixar transparecer, revelar um tempo impossível de ser vivenciado, mas possível de ser rememorado".
Imagens: divulgação do Corredor Arte.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Palavras aos pelotenses de hoje e de amanhã

O atual presidente da Academia Sul-Brasileira de Letras (ASBL) escreveu a seguinte nota sobre o aniversário nº 197 de Pelotas, que resume a história da cidade e deixa uma esperança positiva.

Pelotas nasceu para charquear o gado que os jesuítas introduziram no Rio Grande do Sul em 1634. Então, expulsos, os jesuítas (1759), divididas as terras entre as coroas de Portugal e Espanha e seus apaniguados (1755-1801), era preciso alimentar os trabalhadores das minas de ouro de São Paulo e Minas Gerais, uma vez que o açúcar brasileiro já não tinha mais lugar no mercado europeu dominado por Holanda e Inglaterra.

O gado do Nordeste já fora consumido. Restava o gado das estâncias das Reduções e Missões dos índios, agora esparramados pelos fundos das novas estâncias como peões ou posteiros sem eira nem beira. O charque rendeu lucros e escravidão. Mas eram outros tempos.

Com o dinheiro veio a organização urbana, a vila, a cidade, a cultura e Pelotas se fez a Atenas dos pagos do Sul. A arte, o teatro, a arquitetura, a imprensa, a escola, a ciência, a agricultura, a literatura vicejavam, mesclando ideias liberais, iconoclastas e humanistas na direção "da ordem e do progresso".

Vieram depois "tempos bicudos". Com o arrefecimento econômico, a cultura também mermou.

Mas era preciso retomar as rédeas do destino, realimentar a esperança. E a cultura deveria alavancar o futuro. Surgiram escolas, escolas técnicas, universidades, meios de comunicação e Pelotas lembrou com orgulho seus tempos de cultura.

Hoje, em meio aos vendavais da globalização e de muitos desmandos políticos nas cúpulas nacionais, Pelotas junta forças para reabrir sendas, aplainar caminhos, e convocar a todos para não recuar, para construir um espaço onde a vida humana possa se produzir, reproduzir e ampliar com dignidade.

Parabéns a todos os que lutam, para os que não ficam paralisados pela saudade, e juntam mão à mão, braço ao braço, ombro ao ombro na edificação de Pelotas em todas as dimensões.

Nós aqui (ASBL) procuramos incentivar a cultura, as letras, a literatura, para que nela o homem encontre seu próprio rosto, encontre o rosto dos outros e organize mediações de efetiva fraternidade.

Jandir João Zanotelli, presidente da ASBL (Diário da Manhã, 01-07-09)
Fotos da web.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Crepúsculos da Índia

Na segunda quinzena de junho, o artista Jesus Delossantos expôs na Galeria de Arte da UCPel a amostra "Crepúsculos da Índia" (veja a nota no site da Universidade). Os quadros não representam o sol se pondo, mas seduzem pela semipenumbra típica do entardecer.

A escolha do tema da Índia foi pela religiosidade mágica do país e pelas colorações acostumadas, em roupas, alimentos e na vida em geral; na arte, os dois fatores podem dialogar de modos interessantes.

As escolhas do pintor são guiadas pelo misticismo e pela espiritualidade. Para ele, cada crepúsculo é momento de um espetáculo grandioso, "quando o dia encontra a noite e a palheta do céu revela as cores da natureza".

O nome artístico também é religioso e provém da crença em passadas encarnações. Um dos documentos de divulgação joga com as palavras e a teologia mediante o título "A volta de Jesus".

Nestas telas, o artista representa bosques, rios, pontes, cidades, praias, montanhas – tudo iluminado e pigmentado pelo conceito do crepúsculo, que pode ser visto como a perda da luz do dia, o começo da noite, ou o destaque das cores mutantes do lusco-fusco.

Em agosto de 2001, quando a Universidade fazia as exposições na Biblioteca Central do Campus I, o mesmo pintor trouxe óleos sobre tela com espátula com o título "Luminosidade dos sonhos". O tema onírico, em comparação com os crepúsculos, também joga com a fronteira entre o dia e a noite e com a imprecisão do limite entre realidade e fantasia.

Jesus De Los Santos – como seu nome artístico era escrito na época – se declarava impressionista, concentrado na captação da luz e do movimento e "desconsiderando critérios técnicos, condicionamentos estéticos e simetria".
Fotos: F.A. Vidal

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Semana de Pelotas 2009 inicia hoje

Considera-se como a fundação de Pelotas o dia de constituição formal de uma freguesia neste lugar, 7 de julho de 1812. Antes dessa data, somente havia habitantes esparsos em fazendas, neste distrito da Vila de São Pedro do Rio Grande.
Um mês depois (18-08) foi denominada a paróquia com o nome do santo. O primeiro pároco, Pe. Felício da Costa Pereira, erigiu a igreja em 1813. Os habitantes já eram devotos de São Francisco de Paula, desde que em 1776 Rio Grande foi reconquistada aos espanhóis no dia deste santo (2 de abril).
Com a formação da nova paróquia, a localidade ficou mais independente e se instalaram os inícios de um futuro município. De fato, a freguesia veio a ser declarada "vila" e "cidade" duas décadas depois. Mas os pelotenses não recordaram mais estas últimas datas, preferindo ficar com o dia em que o Rei de Portugal, então instalado no Rio de Janeiro, assinou o alvará da freguesia.
Cada início de julho, portanto, a cidade celebra sua fundação, do dia 1 ao dia 7, com atividades culturais e festivas - exposições, espetáculos, palestras, seminários e a tradicional novena de São Francisco de Paula, o padroeiro de Pelotas, que pelo calendário católico deveria ser em abril, mas se faz em julho em honra à denominação da freguesia e paróquia.
Foto de F. A. Vidal.

Quadros de Iara Garcia

O Corredor Arte do Hospital UFPEL/FAU apresentou, em junho, 17 obras da artista plástica Iara Lúcia Garcia.
Iara teve aulas primeiramente com a professora Rosa Pinto, nos anos 90. Depois estudou com Paulo Corrêa, coordenador das oficinas de pintura da Escola Louis Braille.
Sua primeira exposição foi no Espaço Cultural Depósito, coletivamente com artistas da Escola Braille, onde ela também ensina artesanato.
Foi em óleo que a pintora fez o "Golfinho" (esq.), obtendo uma imagem submarina com uma forte luminosidade, que dá ao animal representado um novo sentido. As intensas cores confirmam o sentido realista e de inovação ousada.
"Uvas e queijos" (dir.), outro óleo sobre tela, é uma natureza-morta cheia de detalhes onde as colorações dão o efeito dos sabores, variados e convidativos. As texturas também estão sugeridas, mas não são o fator mais destacado.
"A marinheira" (esq.), acrílica em eucatex, associa a desinibição formal com o bom humor não realista, sem transmitir claramente um conceito especial. A sensualidade e a emocionalidade parecem ser as marcas pessoais da artista.
Imagens: F.A.Vidal (1) e Corredor Arte (2-3).