quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Capitólio (1928-2007), o John Wayne dos cinemas

O Cine Capitólio abriu em novembro de 1928, numa época em que Pelotas já conhecia bem o cinema, mas sentia os inícios de uma crise financeira que aos poucos deixaria a tradição da riqueza pelotense como uma lembrança do século XIX.

Existia desde 1925 uma sala maior - o Apollo, que durou mais uns 40 anos - e outras menores, ainda mais antigas. Inaugurados no mesmo ano de 1928, o Capitólio e o Grande Hotel (no lugar onde até 1919 tinha estado o Cinema Polytheama), foram as últimas grandezas de uma cidade que se resistia à decadência, ou - diríamos hoje - que se resistia às modernizações do século XX.
Nos anos 50, o Capitólio funcionou como teatro e cinema, com seus camarotes no segundo andar, numa época em que Pelotas ainda tinha uma interessante vida intelectual e artística. "Capitólio" era o nome de uma das sete colinas de Roma, dado a edifícios governamentais ou muito suntuosos, em todo o mundo.
Na década de 1960, fecharam alguns velhos cinemas e surgiram novos: Tabajara, Pelotense e Rei. Havia filmes e público para várias salas, que se diferenciavam por estilos. A juventude preferia o Capitólio, que dava os filmes mais "legais". Havia brindes de Natal: passes livres para o ano inteiro.
Em 1967, o Capitólio passou por uma reforma, que deixou a fachada com um aspecto modernista. Na época, os brise-soleils (quebrassóis em forma de barras paralelas - veja na foto maior acima) eram um ousado recurso arquitetônico, para proteger da luz e calor solar. Hoje, essa mesma fachada com os brises à vista perdeu toda a graça e todo o sentido, pela sombra que os edifícios frontais projetam sobre o ex-cinema.
O filme Titanic (1997) lotou o Capitólio por última vez, marcando o lento naufrágio do velho gigante. Naquele ano, fechava as portas o Cine Pelotense, anunciando qual seria o destino dos sobreviventes. Apareceu o DVD, e os cinemas não ofereceram grandes vantagens aos poucos espectadores.
Além da internacional permissão para sujar a sala com pipocas e refrigerantes, a passiva gerência do Capitólio não ofereceu grandes novidades; ficou olhando o público diminuir, enquanto o público olhava o cinema envelhecer e perder funcionários, para manter os custos. Crianças de 8 anos entravam, em companhia de adultos, para ver filmes adultos. A projeção era interrompida nos créditos finais, mesmo com espectadores sentados. Sessões eram canceladas porque as cópias não chegavam de Porto Alegre a tempo. O cinema estava dando prejuízo, mas permaneceu aberto. Os donos não queriam perder seu antigo negócio, mas nenhuma "salvação" se vislumbrava.
Em outubro de 2007, o Capitólio projetou seu último filme na primeira quinta-feira, e na sexta amanheceu com cartazes que diziam ambiguamente: "Fechado para reforma" (dir.). Em novembro já estava aberto o lucrativo estacionamento, doce vingança dos donos, que não sabiam nem queriam administrar um estabelecimento social ou cultural - somente comercial.
Em maio de 2008, Rubens Filho fotografou horrorizado, para o Amigos de Pelotas (veja o post), os carros estacionados sobre o parquê, ao lado da tela branca em progressiva deterioração (esq.).
Em outubro, um ano após o "falecimento", fotografei o cemitério de nossas lembranças, para o blog do Rubens. Vi um carro com ar fantasmagórico sob a escada que levava à Sala 2 (3ª foto a contar de cima; veja o post). O guichê de venda de entradas estava quebrado, como se tivesse levado uma bordoada com algum pesado ferro (2ª foto). Em novembro, outra foto minha rendeu mais comentários (veja o post).
Sexta passada (13), perguntei ao caixa do estacionamento - mesmo empregado que até 2007 carimbava as entradas na Sala 1 - se eu podia tomar alguma foto no interior do recinto. Ele disse bem sério e firme que não podia. "Ordens da direção".
Afinal, digo eu, aquilo não era ponto turístico ou um lugar cultural, só um estacionamento. As instruções deviam ter sido: "nada de repórteres, nada de perguntas, ninguém fuce na minha loja".
Ante o leite derramado, uns olham para outro lado para não ver, outros choram, alguns protestam ou denunciam. São emoções, mas não mudam os fatos. Não é o fim do mundo; estamos ante mudanças culturais. Mas o defunto e a dor dos sobreviventes exige respeito.
Fotos da web: ZH (Nauro Júnior), Amigos de Pelotas e Flickr (guitavares).

2 comentários:

teresinha brandão disse...

É, Francisco, metáforas e metáforas _ Titanic, fantasma, falecimento _ e a realidade ainda mais cruel: Pelotas, uma cidade sem cinemas ... Lamentável...!
Muito boa matéria!
Lembro-me quando era criança e recebia uma "mesada", ou melhor, "semanada" _ Cr$ 5,00 por semana _ , que me garantiam uma ida ao Capitólio ou Pelotense assistir a algum filme nos domingos e, após, um lanche na Confeitaria Nogueira ...
Tornei-me nostálgica com a matéria postada, eh, eh ... Bons tempos aqueles!
Bj, Tê!

Anônimo disse...

trabalhei neste cinema durante tres anos e um pouquinhu, adorava meu serviço e principalmente meus colegas, sinto muita saudades daquele tempo,bons tempos...