quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Parte de uma cidade se resiste a cair


Pelotas tem muitas casas antigas que ainda não foram demolidas; algumas muito bem conservadas, outras em total abandono. Uma que se equilibra entre o desmoronamento e a integridade é a construção da rua Padre Anchieta 880, esquina Almirante Tamandaré, no bairro do Porto. Nos anos 80 aqui funcionou a redação do Diário da Manhã.

Há anos que ninguém habita neste casarão, a ponto de perder a integridade que parece ter vivido em outros tempos. Hoje ainda é uma sombra do que foi, como um idoso mendigo que se resiste a morrer, que insiste em honrar a lembrança de um passado digno.

Suas portas e janelas se bloqueiam, negando a realidade. Sua madeira podre não se desfaz, rígida em sua fragilidade. As plantas invasoras a despenteiam sem destruir seu teto.

Sua fortaleza é autossuficiente, mesmo que ninguém lhe traga vida e maquiagem. Quando colapsar, receberá atendimento. Mas quando isso ocorrerá?


Fotos: Flickr (2), F. A. Vidal (1, 3-4)

4 comentários:

teresinha brandão disse...

Bem lembrado o casarão ... Fica perto da minha casa. Quando por ali passo e o contemplo imagino o quanto deve ter sido bonito, suntuoso o tal casarão.
As autoridades públicas, junto com a iniciativa privada, poderiam "aproveitar" o imóvel, "recuperando-o" e transformando-o em um local "habitável", quem sabe até em uma Secretaria municipal ou estadual. No entanto, às vezes, há problemas com os proprietários ... Não se sabe. Enfim, ficaram o alerta do colunista e a minha sugestão. Quando isso "poderá vir a ocorrer"? Não se sabe ...
Teresinha brandão

Coca disse...

Recomendo a leitura de "Nossa cidade era assim" de Heloisa Assumpçao Nascimento, ediçao da Livraria Mundial, onde retraça nzao somente a historia, mas o patrimonio de Pelotas...E falando em patrimônio nao existe um levantamento do que existe nesta area, em que estado se encontram e o que fazer?

Francisco Antônio Vidal disse...

Heloísa Nascimento foi uma grande pesquisadora e sua obra nos deixa orgulhosos, como pelotenses (faleceu há dois anos).
Mário Osório Magalhães é um dos que mais escreve sobre história de Pelotas, mas não se detém muito na arquitetura.
Zênia de León tem 5 livros sobre casarões antigos; descreve 235 deles.

Anônimo disse...

Sugiro uma matéria que levante dados acerca da situação, em termos jurídicos e de interesse do Patrimônio Histórico, do casarão da família Mendonça (Gonçalves Chaves, esquina Sete de Setembro, em diagonal com o Santuário do Ssmo. Sacramento). Em Pelotas parece haver uma centralização de interesse em preservar a arquitetura eclética (da qual já estão salvaguardadas algumas dezenas de exemplares), símbolo do auge da riqueza local, sem que ninguém dê importância à meia dúzia restante de prédios colonial-portugueses que, em termos históricos e arquitetônicos, possuem valor infinitamente superior, refletindo nossas reais origens como cidade. Origens simples, de costumes austeros de sofridos imigrantes açorianos, atemorizados por mais de uma década pela presença vizinha do inimigo espanhol que ocupara a Vila de Rio Grande - de quem apenas precariamente os defendia a distância e a largura do Canal de S. Gonçalo - e, somente depois da expulsão dos opressores, feito "Povinho de S. Francisco de Paula"... Cada vez que passo pela antiga sede do Jockey Club (hoje felizmente restaurada pelo Cartório Lorenzi) não deixo de considerar aquele retrato arquitetônico do "afrancesamento" buscado pela segunda geração local desses bons ilhéus, deslumbrada pelo dinheiro fácil do charque curtido no suor e sangue dos escravos, que decidiu "mascarar-se" exatamente como fez com o velho sobradão português, acrescido, então, de "enfeites" arquitetônicos ao gosto do momento, no intuito de apagar um passado de valores "medievais": trabalho, austeridade, fé. Continuaremos, ciclicamente, a fazer o mesmo?