quinta-feira, 13 de maio de 2010

O dia em que choveu dinheiro, no Guarani

O cronista Rubens Amador presenciou um fato inacreditável, em 1937.

Segundo seu relato, o filme Pennies from Heaven (1936) foi publicitado, somente em Pelotas, com uma ousada técnica, que fez a romântica música-título, uma canção de ninar, cantada no filme por Bing Crosby (veja o trecho original), perder a espiritualidade original (veja a letra completa). Mas ninguém reclamou por isso.

Para acompanhar a leitura, clique no vídeo (final desta nota) para ouvir a música cantada por Billie Holliday, em gravação de 1936 (Teddy Wilson no piano, Benny Goodman no clarinete, Jonah Jones no trompete, Ben Webster no sax tenor).


Uma única vez, caíram Pennies from Heaven
Faz muitos anos, aconteceu chover dinheiro do céu, defronte ao velho e simpático Teatro Guarany.

O empresário do cine-teatro, da época a que me vou reportar, parece-me que era David Guirotane. Ele deu um autêntico show de marketing, com a finalidade de lotar a casa, antecipando-se, sem o saber, em várias décadas, às modernas técnicas publicitárias. Segundo a imprensa da cidade, escrita e falada, os dirigentes do Teatro Guarany prometiam que, às 16 horas do dia tal, “cairia dinheiro do céu”, associando tal fato ao filme que tinha o título: "Dinheiro do Céu".

Desnecessário dizer que, por volta das 16 horas do dia marcado, grande número de pessoas se aglomerou frente ao cinema na expectativa de tão excitante promessa. Havia um grupo enorme e heterogêneo; todos, no fundo, muito curiosos ante os repetitivos anúncios feitos pelos meios de comunicação durante toda a semana. Só se falava na fita "Dinheiro do Céu", e na “chuva pecuniária” que desabaria, ali na rua Lobo da Costa, frente ao cinema.

É preciso que se diga que quase todos os jornaleiros de Pelotas lá estavam (havia quatro jornais na cidade) e formavam um grupo de respeito, pois eram brigões. E, dentre eles, muitos garotos classe média, entre eles eu, torcendo para que ninguém conhecido me visse ali. Como os demais, eu estava decidido “a pegar algum”. Aliás, este era o propósito da maioria, daí já se poder imaginar o clima reinante.

Às 16 horas em ponto, a zoada aumentou lá em baixo, pois alguns funcionários da casa de espetáculos já apareciam no primeiro andar do prédio. Viam-se, de mão em mão, vários sacos com o que seria dinheiro. Grandes cartazes foram erguidos naquele momento, lembrando o filme, que seria lançado no domingo próximo.

De repente, realmente começou a chover dinheiro do céu!

O centro da enorme roda humana que se formara, transformou-se, como que por encanto, em uma autêntica liça: empurrões, guris rolando, gritos de “este é meu!” e não paravam de cair moedas e cédulas de um e dois mil réis, em papel, e de 100 a 500 réis em moeda.

A música criou a lenda das moedas do céu
para as crianças não terem medo de trovão
Lá em baixo, no “apanha” desesperado, várias notas ficavam rasgadas pelo empenho dos disputantes. A gritaria era infernal e se mesclava com as risadas das muitas pessoas adultas que tinham ido assistir algo jamais visto em nossa cidade, promovendo a uma “fita” de cinema, segundo os programas impressos, fartamente distribuídos. Por cerca de vinte minutos, choveu dinheiro, tal como anunciavam os reclames de “Dinheiro do Céu”. O que levou grande público a assisti-lo nos dias subsequentes.

Eu vi. Participei. O irmão do Gaitinha, o mais famoso vendedor de jornais daquela época, anda por aí, e volta e meia nos encontramos e revivemos aquela tarde inesquecível. Tive o prazer, um dia destes, de ouvir de viva voz o testemunho do Dr. Francisco D. C. Vidal, meu caro amigo, que residia defronte aonde todos os fatos se deram, e de sua janela principal a tudo assistiu com seus familiares.

Naquela noite fiquei de castigo, sentado em uma cadeira frente a minha mãe, enquanto ela costurava minha roupa, depois de passar iodo nos arranhões que eu apresentava. Ela verberando a minha sina de brigão, ante aqueles lanhados todos. E eu firme, sem revelar o que tinha acontecido. Jamais vou me esquecer daquele dia e daquele filme que passou no Guarany, e que me rendeu quase três mil réis. Na época, um chefe de família modesto ganhava mais ou menos 150 mil réis!

Juro-lhes: se tivesse a graça de voltar no tempo, repetiria tudo de novo. Aquele foi o primeiro dinheiro que ganhei com meu próprio esforço. E que esforço.
Imagens da web (1, 3), blog Common Cents (4, Gerard Oge) e F. A. Vidal (2)

2 comentários:

Tear de Sentidos disse...

Sr. Rubens, a sua narrativa é leve e graciosa!O seu "castigo" valeu pelo "esforço" de ganhar os três mil réis, rsrs!

Esse empresário, o tal Sr. David, com certeza, anteviu o que hoje o grande empresário de tevê Silvio Santos faz com toda naturalidade: a apresentação do quadro "Quem quer dinheiro?", veiculado aos domingos no SBT, e com alto índice de audiência.

Quem disse que Pelotas não serve de inspiração aos grandes empresários?????? Tsi...!

Abr cordial,
Tê!

Francisco Antônio Vidal disse...

Tradução resumida da letra:

Há um milhão de anos, as coisas eram todas grátis, ninguém apreciava um céu que estava sempre azul. Então se decidiu que elas sumiriam de vez em quando, e nós deveríamos pagar para que elas voltassem.

Para isso foram feitas as tempestades, e não devemos ter medo delas. Cada vez que chove, chovem moedas do céu. Deixe seu guarda-chuva de cabeça pra baixo, sua fortuna cairá por toda a cidade. Com ela compre um pacote de sol e flores.

Se você quer as coisas que ama, tem que passar pelas chuvas. Então, quando ouvir um trovão, não vá se esconder, pois as moedas do céu estão esperando por nós.

www.lyricsmania.com/pennies_from_heaven_lyrics_bing_crosby.html
en.wikipedia.org/wiki/Pennies_from_Heaven_(song)