EPIGRAMA DE DOMINGO

No declive, é preciso caminhar lento e cuidadoso com o piso, até que Alguém apague a luz!

Rubens Amador

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ingleses na cidade de Pelotas


Entre as comunidades de estrangeiros em Pelotas, a de ingleses é das menos documentadas, talvez por dois motivos principais: porque estes foram relativamente poucos no início, ou por ter-se ligado sua vinda, já no século XX, aos frigoríficos: uma atividade industrial e radicada em zona urbana (por oposição ao trabalho artesanal e rural, como foi o da maioria dos colonos). Junto à abolição da escravatura, os frigoríficos contribuíram a sepultar a riqueza das charqueadas, que fundou o desenvolvimento da cidade. Fiquem estas reflexões para futuros estudos históricos.

De acordo a pesquisas do escritor Joaquim Moncks (leia artigo), sete famílias inglesas chegaram a Pelotas por volta de 1840: Sinott, Stone, Ward, Anderson, Laks ou Yacks, Yeats e Moncks. Os Sinott (pronunciado sínot) se estabeleceram no Monte Bonito, na zona hoje conhecida como "Represa do Sinott" (entre nós, a sílaba tônica deslocou-se para o "o", parecendo italiano: sinótti). Isto não significa que fossem os únicos nem os primeiros ingleses em chegar a Pelotas.

O Dicionário de História de Pelotas (organizado por Loner, Gill e Magalhães, UFPEL, 2010) não menciona imigrantes britânicos, exceto um grupo de 300 ou mais irlandeses provenientes de Liverpool, que ocuparam em 1850 a Colônia Dom Pedro II, no caminho para o Capão do Leão (p. 79). Teria sido nas proximidades do Clube Campestre ou country club?

Ainda no século XIX, o empresário Irineu Evangelista de Sousa (Barão de Mauá, 1813-1889), natural da Zona Sul do Estado, manteve excelentes relações com os banqueiros e a Coroa Inglesa, teve empresas nos Estados Unidos e na Europa, mas suas ações não incidiram em nossa economia local, pois seu fim era mais o lucro: para ele mesmo e, indiretamente, para o Império Brasileiro.

Na primeira década do século XX, chegaram a Pelotas famílias de origem anglo-judaica, provenientes da Argentina e da comunidade de Phillipson (Santa Maria, RS). Salomão Millman fundou a Casa Londres, de roupas masculinas, e Miguel Galanternick abriu uma filial da firma porto-alegrense "A Moda Inglesa", de móveis e tecidos, na rua General Osório 663 (informações do blogue Querendo Deus). Sobre judeus em Pelotas há mais dados no Dicionário de História de Pelotas.

Segundo um histórico da UFPel (leia a nota), no local do novo Campus Porto existiu até 1916 a charqueada de Brutus Almeida, posteriormente a Companhia Frigorífica Rio Grande, que foi vendida, em 1924, para a firma inglesa Westerns Brothers, que transformou o local em Frigorífico Anglo. Com o mesmo nome houve outros em Barretos, SP, e em Fray Bentos, Uruguai.

De acordo à professora Neuza Regina Janke, o Frigorífico Anglo S.A. começou a funcionar em Pelotas ao redor de 1940, e o Bairro da Balsa foi ocupado por operários que vinham até de outras cidades, para morar perto do trabalho. Os empresários se ocuparam dos lucros, sem se envolver com a situação social dos trabalhadores, quase todos brasileiros. Muito poucos teriam sido estrangeiros, segundo o artigo Frigorífico Anglo e Bairro da Balsa: histórias paralelas e tão diferentes (Janke, 2009).

Em 1998, um desses ingleses, o sr. Oliver Murray Cunningham, declarou à mesma pesquisadora que não havia sido preciso construir colônias de imigrantes, pois aqui já havia mão-de-obra (com experiência nas antigas charqueadas): Não precisava buscar em outros lugares. E não vamos esquecer que Pelotas tinha uma tradição de carne (Janke, link acima). Pode-se consultar também o artigo Vilas Operárias no Rio Grande do Sul, na Revista Dimensões, vol. 24 (Janke, 2010).

Ao parecer, então, os únicos ingleses chegados a Pelotas no século XX teriam sido alguns mecânicos e administradores do Frigorífico Anglo. Com o fechamento da empresa na década de 1990, os trabalhadores brasileiros ficaram morando no Bairro da Balsa (sem boas condições de saneamento e urbanização) e os estrangeiros tiveram a opção de retornar.

Consultado sobre este tema, o cronista Rubens Amador escreveu o seguinte, em email ao editor deste blogue:
O Frigorífico Anglo foi criado pelos britânicos na Segunda Guerra, aqui em Pelotas, com o principal objetivo de mandar carne enlatada para a Inglaterra, para os soldados no front. Em barcos afundados pelos nazistas, muitas vezes ia Corned Beef do Anglo, de Pelotas, e do Frigorífico Swift, da Argentina. Também era enviada carne congelada à Inglaterra e também à África.

Em Pelotas foi fundada uma colônia muito expressiva de ingleses, que moravam no início da rua Quinze de Novembro. A Casa chamava-se Clube dos Ingleses. Fui amigo de vários deles, falávamos em inglês e português, e com eles tomei muitos whiskies 12 anos, que recebiam constantemente de familiares da Europa. Saboreei muitas latas de corned beef, que ganhava de presente. O chefe do Clube dos Ingleses era o Mr. Allan, que usava monóculo, amigado e apaixonado por uma brasileira, bonita e gorda como ele.

Do time de ingleses que governava o Anglo, o gerente geral em Pelotas era o Mr. Cunningham. Havia o Mr. Kirby, o Mr. Tath, que era laboratorista e destilava o seu próprio gim, e o Mr. Grant, cujo filho hoje é Cônsul da Inglaterra na cidade de Rio Grande. Alguns brasileiros também desempenhavam altos cargos, como o Sr. Novaes (morava na Benjamin Constant, pai do hoje Coronel Novaes) e o Mr. Mendonça, filho de inglês com brasileira (de tradicional família em Pelotas), solteiro muito procurado pelas moças casadoiras de então, mas que acabou voltando para a Inglaterra.

Rubens Amador

Imagens: P. Momento (2), M. Ribeiro (3)

37 opinaram sobre esta notícia:

  1. Os nomes de famílias que o senhor cita no início do artigo, referenciados por Joaquim Moncks, são dados como pertencentes à colônia de irlandeses. Isso consta nos documentos da Associação Colonizadora de 1851. Inclusive, Yeats pode ser um sobrenome inglês, porém quando veio para nossa região era de procedência irlandesa. Sou historiador em Capão do Leão e entrevistei um descendente dos Yeats, que hoje reside em Candiota, e ele me forneceu várias informações a respeito, segundo ele transmitidas por seu avô.
    Parabéns pelo blog!

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  2. A presença de britânicos em Pelotas (ingleses e irlandeses), entre outras manifestações, propiciou a fundação de um "country club", o Clube Campestre; e a comunidade Anglicana, a conhecida "igreja cabeluda".

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  3. Um estudo sobre a colônia Dom Pedro II foi publicado por Marcos Hallal dos Anjos:
    http://gogobrazil.com/coloniadompedro.pdf

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  4. Pelo visto, então, o comentário do articulista está bem equivocado e a crítica sutil que ele apresenta a historiadores, despropositada. Apenas confundiu ingleses e irlandeses. Talvez "britânicos" pudesse ser uma expressão mais procedente.

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  5. O Dicionário realmente tem verbetes para franceses, italianos, portugueses, judeus, pomeranos e alemães, mas não para ingleses, nem irlandeses nem britânicos; é inegavelmente um vazio.
    Se essa fosse a "sutil crítica", tentei explicá-la no primeiro parágrafo com duas hipóteses. Se houver outra razão, o anônimo poderá dizê-la. O Dicionário pode não ser exaustivo, mas é um grande estudo sobre Pelotas, feito por uma boa e numerosa equipe.

    A menção aos 300 irlandeses está no Dicionário, e provém do estudo de Hallal dos Anjos, citado por mim acima.

    Quanto aos dados de J. Moncks, somente citei o que ele pesquisou; é mais provável que Joaquim Dias tenha razão, mas haveria que cotejar as fontes.

    Não são muitos os estudos sobre britânicos em Pelotas, sejam ingleses ou irlandeses. Tanto uns como outros, segundo o que há publicado, chegavam da Inglaterra. Não se sabe muito sobre a origem exata dessas famílias (cidades e linhagens), mas outros estudiosos poderão pesquisar. Aqui não se trata de diferenciar essas nações. "Britânicos" seria um excelente verbete para o Dicionário.

    O meu objetivo neste post foi buscar a presença somente de ingleses em Pelotas, apontando à presença do Frigorífico Anglo. Subjaz nisso uma crítica social aos capitalistas ingleses que apoiavam a Segunda Guerra.
    Este post também desemboca em outro, que sairá amanhã, sobre a Batalha do Rio da Prata, ocorrida em 1939, não muito longe de Pelotas.

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  6. Apenas como colaboração, transcrevo a seguir um trecho do livro "Dez anos no Brasil", do militar alemão Carl Seidler, que esteve na Freguesia de São Francisco de Paula (atual Pelotas) no distante ano de 1827: "[...] a esperança de avistar em breve as torres de São Francisco de Paula sob as cálidas nuvens do meio dia apagava com seu hálito encantador a desagradável impressão da passada noite. Em poucas horas alcancei meu objetivo; a bela cidadezinha estava diante de mim, como um faisão dourado na bandeja de prata do rei.
    Diante da casa dum negociante inglês apeei e, poucos minutos depois, do balcão da casa avistei de coração contente o lugar onde outrora vivera dias felizes. Já descrevi a região como extraordinariamente bela[...]".

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  7. Parece que havia estrangeiros desde o início da freguesia, o que implicava educação e certos luxos no ambiente da classe dominante.
    Mas esse militar alemão e o comerciante inglês seriam residentes e não colonos, como os grupos de famílias que chegavam buscando uma vida melhor.
    Se percebe na poesia desse texto o amor que o visitante sentia por esta terra, que chama de "cidadezinha" (nem Vila ainda era). Quais torres seriam as que menciona? Haveria casarões que não sobreviveram?

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  8. Suponho que seriam as torres da igreja matriz, atual Catedral. Foi inaugurada em 1813, mas como uma capela muito modesta, "ainda inacabada mas em estado de servir", como relata Vieira Pimenta. Em 1826 - um ano antes da visita de Seidler -, procedeu-se à primeira reforma, feita por fora da construção antiga, e o prédio foi acrescido de torres laterias.

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  9. Maria Fernanda Montagna27/06/11 18:50

    Gostei muito do blog e gostaria de salientar que, ainda no século XIX, por volta de 1820, alguns ingleses se radicaram em Pelotas.Caso da família Vaughan, cujo nome foi adulterado gradativamente(temos de lembrar que os documentos eram escritos à mão)para Wanghon,Wanglon e Wonglon.
    James Vaughan e Elisabeth Willis casaram-se em Hereford,na Inglaterra e batizaram o seu primeiro filho no Brasil, na Catedral São Francisco de Paula. Vale salientar que os padrinhos eram também ingleses: da família Brown.
    Pelo que sei, eles vieram para a cidade por volta de 1825 e eram negociantes.
    Encontra-se documentação no Bispado, em Pelotas.
    Creio que faltam, de fato, maiores estudos a esse respeito.
    A propósito, falo de alguns de meus antepassados: James e Elisabeth Vaughan - aqui denominados Diogo e Isabel, como era o costume da época.
    A colônia irlandesa, de fato, foi fundada depois e muitos colonos não permaneceram na cidade.
    Os ingleses não fundaram uma colônia, vieram para a cidade - o que facilita a assimilação e traz mais desafios aos estudiosos.

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  10. Parece provável que o negociante inglês aludido por Seidler em 1827 (comentário de Mário O. Magalhães) seja o James Vaughan que Maria F Montagna informa ter chegado a Pelotas em 1825.

    Desde o início a cidade recebeu imigrantes que se inseriram na cultura local com autonomia, sem formar "colônias" (comunidades com costumes próprios de suas nações, conservados durante longo tempo). Nesses casos as tradições se diluíram e a reconstrução histórica se fez bem mais difícil.

    Sobre os irlandeses no Capão do Leão, Joaquim Dias pesquisou ricos detalhes, em entrevista com um descendente (de sobrenome Yeats) que soube por seu avô o seguinte:
    - A colônia irlandesa se localizava entre os arroios Fragata e Padre Doutor.
    - Havia um cemitério "irlandês" próximo à colônia, pois desde o início muitas
    crianças de colo morreram (não soube dizer o porquê).
    - A colônia teve dificuldades financeiras pois, sendo a grande maioria protestante, a população católica de Pelotas boicotava os seus produtos.
    - A produção era transportada via fluvial e muitas embarcações eram atacadas por bandidos no Canal São Gonçalo.
    - Tentaram construir uma capela em honra a São Patrício (seriam então anglicanos), mas a intendência de Pelotas proibiu.
    - A maioria não se adaptou à região e tinha um ódio à população, sobretudo aos negros.
    - O que motivou sua vinda ao Brasil foi uma "grande fome" na Irlanda e a possibilidade de fazer fortuna.

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  11. Estas informações sobre os irlandeses tu vais gostar Vidal. Da fonte: MURRAY, Edmundo [sic].Brazil and Ireland.IN: Ireland and the Americas: Culture, Politics and History. Santa Barbara, CA, USA: Jim Byrne, Philip Coleman and Jason King Editors, 2006.
    Os irlandeses da Colônia D. Pedro II eram procedentes da baronia de Forth, Condado de Wexford, no sudeste da Irlanda. Lembra que te falei que aquela senhora centenária, que encontrei no interior do Capão do Leão e ele me disse que eles eram uns "ruivos que falavam uma língua que ninguém entendia?" Pois é, a baronia de Forth não falava irlandês ou inglês, mas um dialeto chamado "Yola", que se extinguiu no século XIX.

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  12. Sobre a colônia irlandesa, é imprescindível destacar o depoimento de Michael George Mulhall, jornalista irlandês que visitou Pelotas em 1871: "Uma pequena carroça, dirigida por uma velha com um manto na cabeça, passou por nós vinda da cidade. Apontando para ela, o carroceiro nos informou:
    —Essa mulher é uma conterrânea dos senhores.
    Era a sra. Carpenter, uma das sobreviventes da colônia, abandonada nesta terra estranha há quinze anos, por ser uma viúva com várias crianças pequenas. Teria perecido de fome, se não fosse seu trabalho constante, sua confiança na Providência Divina e a bondosa ajuda de muitas damas brasileiras. Ainda é pobre, mas conseguiu criar uma respeitável família. Lá vai ela na sua carroça puxada a burros com o dinheiro da manteiga que vendeu na cidade! Pouca atenção dá ao calor tropical do dia, mas vai pensando na sua família e na casinha de Monte Bonito.
    Há vinte anos que leva esta vida, com um grande desejo talvez de rever as colônias selvagens de Glengariff, onde nasceu; mas isso é impossível.
    Os colonos de Monte Bonito, que foram para Buenos Aires e tentaram criar ovelhas, tiveram, na sua grande maioria, mais sucesso, e são agora ricos estancieiros".
    Em relação aos ingleses, escreveu o mesmo autor: "
    Ainda não estávamos nem sequer uma hora no hotel e já havíamos recebido três ou quatro convites. Aceitando o primeiro, fomos jantar com o principal farmacêutico, um jovem brasileiro que estudou na Inglaterra e tem o seu diploma de farmácia, de uma universidade de Londres, pendurado em cima da lareira.
    Fala perfeitamente inglês, embora já esteja aqui há três anos, e nos informou que não há nenhum inglês na cidade, a não ser o sr. Stewart, um artista que está viajando por todo o Império de lápis na mão, fazendo pequenas paradas em cada cidade.

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  13. Glengariff ou Glengarriff (termo correto) é uma cidadela da Irlanda (800 hab.) localizada no outro extremo da baronia de Forth, isto é, no sudoeste da Irlanda. Talvez a Sra. Carpenter seja de lá. Só que há um detalhe, o termo "Glengarriff" designa também um tipo de floresta (vegetação) típica do litoral sul da Ilha da Irlanda. Neste caso, quando Mulhall se refere às "colônias selvagens de Glengarriff", ele pode estar se referindo genericamente. Tal como, denominamos "Pampa" uma vasta área de nosso estado.

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  14. Outro dadod interessante citado pelos estudos de Eduardo[sic] Murray é o fato do condado de Wexford e suas baronias (divisões administrativas presentes ainda hoje na Irlanda)terem sido fontes de emigrantes não só para o Brasil (Colônia Dom Pedro II, de Pelotas), como também para outras colônias no Uruguay e Argentina. Isso pode explicar porque este era o natural destino dos que fugiram da colônia, como explicitam os estudos de Marcos Hallal dos Anjos. Talvez por que nestes lugares, seja no Uruguay ou na Argentina, eles tivessem parentes ou amigos já lá estabelecidos - hipótese minha. Um dado curioso é que o "arregimentador" dos imigrantes irlandeses que vieram para Pelotas é indicado por Murray como o "Priest" (padre, reverendo?) Patrick Donovan, que aparece nos estudos de Hallal dos Anjos. Pois bem, Patrick Donovan já tinha feito o mesmo vezes antes. E realizado um trajeto que coincide com as informações históricas que dispomos. Ele reunia os grupos de irlandeses do Condado de Wexford e os levava para o porto de Liverpool (Inglaterra), dali onde saíam para a América.
    Irlandeses foram levados por Donovan até a localidade de "Santa Catalina", nas proximidades da cidade uruguaia de Soriano. Bem como houve uma leva de irlandeses até Fray Bentos, também Uruguay, onde houve a constituição de um bairro denominado "Barrio Anglio". Todos na mesma época, da fundação da Colônia D. Pedro II.

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  15. Tem outro estudo que confirma os dados e é do irlandês Hugh F. Ryan, cujo título é "Ancestral Voices" (1996) que foi editado pela Dublin Company. Ela cita trechos de documentos e diários de seus tataravós ou bisavós(great-grandparents) que falam de suas experiências como imgrantes na América do Sul, mais especificamente no Uruguay e que, novamente, coincide com as informações históricas disponíveis acerca da Colônia D. Pedro II e os estudos de Murray. O trajeto Condado de Wexford - Porto de Liverpool - América do Sul é confirmado. Além disso, ele informa que os irlandeses, em sua grande maioria, sabiam e dominavam a língua inglesa, porém conservavam os dialetos nativos próprios da língua irlandesa (gaélica), em seu quotidiano. Isso fez lembrar o fato que Murray cita os irlandeses de Pelotas falando o "Yola" - dialeto hoje extinto. Os relatos também confirmam os dados que me foram passados oralmente pelo tal Yates que conversei: vieram diante da possibilidade de fazer fortuna (aliás o que não é nenhuma novidade em se falando de imigrantes europeus na América!) e por causa dos problemas que lá enfrentavam. No estudo de Ryan o seu parente cita "a turbulent life" que encontrava-se na Irlanda da época.

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  16. Possuo a seguinte documentação sobre a colônia irlandesa:Do relatório do Presidente Pimenta Bueno, em 1º/10/1850:

    Colônia de D. Pedro 2º - Esta colônia teve seu nascimento por meio de uma associação que organizou-se nos últimos meses do ano próximo passado com a denominação de Sociedade Auxiliadora da Colonização Pelotas, onde tem sua sede.
    A sociedade, que é presidida pelo cidadão João Rodrigues Ribas, homem de fortuna, e digno de toda a confiança, enviou à Presidência seus primeiros estatutos em ofício de 30 de novembro último, e também a cópia de seu regimento interno. Comprou um terreno de 3.045 braças de frente junto à estrada que vai ter ao Capão do Leão, com extenso fundo que chega até o arroio de São Tomé terreno que dividiu em datas.
    Forma-se a mesma sociedade de 400 ações importantes em 40 contos; e já pediu sua incorporação ao governo em conformidade com a lei.
    Abriu correspondência para a Inglaterra para haver colonos, e já tem mais de 50 em seu território.
    Ela representou em 27 de maio último à Presidência, pedindo um empréstimo de 12 contos de réis em prestações mensais de 500$000, obrigando-se a devolvê-la dentro do sexto, sétimo e oitavo ano, por terças partes; sua representação ser-vos-á presente.
    --------------------------------------------
    Do relatório do presidente Sinimbu, em 6/10/1853:

    A Colônia de Pedro 2º, no município de Pelotas, foi uma empresa mal concebida, e por isso mesmo malograda. Fundada a 2 léguas daquela bela e populosa cidade, e somente separada por uma planície de facílimo transporte, à desventurada colônia não faltava nem mercado, nem via de comunicação; faltava-lhe, porém, a condição primária, que é a terra. Quaisquer que sejam as consequências da franqueza com que vos falo, elas não poderão impedir-me de dizer a verdade. Respeito as boas intenções dos fundadores, estou mesmo persuadido que foram movidos nessa empresa por um sentimento de nobre patriotismo; mas preciso é confessar que se de propósito procurassem o pior terreno para inutilizar os esforço de uma colônia agrícola, não o achariam mais apropriado que esse em que fundaram a colônia de Pedro 2º. Percorri-a de um lado a outro, e não encontrei plantação alguma mais que alguns miseráveis pões de couve, arrancados pela força do estrume à esterilidade da terra. A associação despendeu de seus fundos 24:000$000 e a Província 14:000$000; aquela está ainda endividada e os colonos reduzidos à maior miséria.
    --------------------------------------
    Do relatório do Presidente Joaquim Antão Fernandes Leão, em 18959:
    Colônia Pedro II – O seu estado é pouco lisonjeiro. A sua população que em o ano próximo passado se compunha de vinte e seis famílias com 137 indivíduos, está hoje reduzida a 16 famílias, ou 96 pessoas, havendo alguns emigrado para Montevidéu, outros para Buenos Aires, e poucos para as cidades de Pelotas e Jaguarão.
    Produção: Batatas: 1200 sacos
    Feijão: 100 sacos
    Manteiga 3000 libras
    Durante o ano passado, nasceram seis indivíduos e faleceram dois.

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  17. Creio que o texto do Prof. Mário Osório Magalhães não contradiz em nada os estudos de Murray e Ryan, bem como o fato de "Priest" Patrick Donovan ter sido uma espécie de "arregimentador" destes colonos na própria Irlanda. As informações são complementares e convergentes.

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  18. Os relatos do tal Yates que citei são verdadeiros, contudo, devemos, observar, óbvio, que fazem parte de uma experiência familiar individual transmitida oralmente. Quem me indicou o tal Yates foi um camarada que sequer sabia de irlandeses no Rio Grande do Sul e que ouviu da boca do próprio Yates estas informações que Vidal postou em 27/06, às 20;26 h.

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  19. Além disso, o tal Yates, bem como os "great-grandparents" de Ryan são categóricos em afirmar que os irlandeses saíram da Irlanda por causa de problemas sociais. Ora, o período coincide com a "Grande Fome na Irlanda" em meados do século XIX, veja a Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_fome_de_1845-1849_na_Irlanda
    O próprio artigo da Wiki cita o fato que muitos camponeses foram "despejados" de seus lotes arrendados e a questão de como isso estimulou e amigração em massa. Irlandeses, sobretudo os mais jovens, vinham à América com o propósito de serem bem sucedidos, não somente por questão de enriquecimento pessoal, mas também para que enviassem dinheiro aos parentes que ficaram na Irlanda.
    A Colônia D. Pedro II foi mal-sucedida do ponto de vista econômico e isso, de fato, determinou que houvesse fuga em massa dos colonos. Agora, o fato de eles terem procurado o Uruguay e a Argentina para migrarem novamente, pode estar relacionado à questão de já haver lá comunidades irlandesas estabelecidas.

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  20. Detalhe adicional, Hallal dos Anjos cita o fato de "um bom número de colonos eram artífices e não agricultores". Isso foi comum na imigração irlandesa em toda a América. Creio não se tratar de uma condicionante, porém diante dos problemas sociais na Irlanda da época, a opção da migração era vista como única opção para muitas famílias. Colônias irlandesas na Argentina também foram formadas por artífices e deram certo (Ver McKENNA. Demographic Profiles of the Irish Settlers in Argentina. Genealogical Society of Ireland, 1996).

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  21. Correção ao comentário anterior: McKENNA,Patrick.op.cit.,1996.

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  22. Sobre a aversão dos irlandeses (e porque não dizer da esmagadora maioria dos europeus do século XIX) aos negros, citada para mim por Yates. No site da "York Postal Historical Society" é possível ter acesso a alguns documentos originais em inglês e/ou transcrições de cartas e postais do Império Britânico do século XIX. Num deles o irlandês John James Murphy escreve a Martin Murphy descrevendo suas andanças pela América do Sul e descreve, em tom desdenhoso, à quantidade de negros que encontra ao desembarcar no Rio de Janeiro ( A carta data de 05 de Dezembro de 1863).

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  23. Uma das informações por mim postadas que, os irlandeses da Colônia Dom Pedro II são provenientes da Baronia de Forth, no Condado de Wexford, pode ser conferida no seguinte link:http://ics.leeds.ac.uk/papers/vp01.cfm?outfit=ids&folder=9&paper=22
    O artigo de Hilary Murphy, "When Wexford farmers emigrated to Brazil", in Journal of the Irish Family History Society (1986), pp. 443, cita isso explicitamente. Tentei baixá-lo da Internet, mas eles cobram em euro...hehehehe...

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  24. No artigo de Hallal dos Anjos há sobrenomes citados que sugerem uma ascendência inglesa, como é o caso explícíto de "Staford" (Stafford), cujos descendentes ainda podem ser encontrados em Pelotas e Capão do Leão. Pois bem, Stafford é um condado situado no centro-oeste da Inglaterra.
    A baronia de Forth, bem todo o Condado de Wexford, no sudeste da Irlanda recebeu migração massiva de ingleses durante o século XVII, principalmente do Oeste. Bem como de galeses. Por isso, talvez alguns sobrenomes listados por Hallal dos Anjos não indiquem necessariamente origens irlandesas/gaélico-hibernianas, porém ao fato da constante migração recíproca entre as duas ilhas.

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  25. No período 1841-1851,o Condado de Wexford sofreu com um declínio populacional intenso, seguindo-se por anos seguintes. É o que afirma FURLONG, Nicholas. History of County Wexford. Dublin, Ireland: Gill & MacMillian, 2003. p.116.
    Em 1841, a população do condado era de 202.033 hab., enquanto em 1851 será de 180.158 hab.
    A causa principal é a migração em razão da "Grande Fome". Dali sairam imigrantes para O Brasil, Argentina, Uruguay, Iowa, Canadá e Tasmânia.
    O trajeto incluía, necessariamente, a ida até os portos ingleses de Liverpool ou Southampton, sendo daí que partiam - outra convergência histórica.

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  26. O que há de curioso no relatório do Presidente Sinimbu de 1853, citado pelo Prof. Mário Osório Magalhães é que, atribui-se a uma das causas do insucesso da Colônia Pedro II, a questão das más condições do solo. Entretanto, o Volume 63 da "House of Commons papers", de 1861, diz justamente o contrário: a fertilidade do solo foi um atrativo aos colonos. Eles teriam sido dispersos pela má gestão da própria Sociedade Colonizadora e por "other causes". Talvez seja uma visão "britânica" da situação. Todavia, as condições de solo na região, já que cita-se que as datas tinham como fundos o Arroio São Thomé, são controversas ao longo do tempo. Na primeira metade do século XX, esta mesma região destacar-se-á como produtora de frutas cítricas e aspargo. Apenas mais um detalhe para o debate.
    Link: http://books.google.com.br/books?id=jtkSAAAAYAAJ&pg=PA477&dq=Irish+Colony+Pedro+II&hl=pt-BR&ei=Zm0LTqesB4HEgAfPg9WrAg&sa=X&oi=book_result&ct=book-thumbnail&resnum=1&ved=0CCwQ6wEwAA#v=onepage&q=Irish%20Colony%20Pedro%20II&f=false

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  27. minha tataravo era inglesa,sobrenome Revel,algum dado sobre este sobrenome?

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  28. Revel é palavra francesa. É possível que tenha relação com judeus franceses que migraram para a Inglaterra. Poderia pesquisar-se pelos nomes das pessoas dessa família, quando e onde viveram.

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  29. Muito interessante a manifestação de todos e esta recuperação dos dados da "colonia Inglesa" de Pelotas. Resta informar que meu pai Frank Percy Villiers Grantham, embora tenha tido a nacionalidade Britânica, nasceu em Rio Grande, já que meu avô era gerente da Western Telegraph na época. Ao deixar o Anglo, veio para Rio Grande, trabalhou na Rheigantz, Wigg e Lloyd Brasileiro criando a tradição de agentes maritimos na família, aonde me incluo. Richard J. Ruffier Grantham

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  30. Este post, atualmente um dos mais acessados do blogue, foi retirado ontem pelo Blogger, portal hospedeiro, por uma denúncia de suposta infração de direitos.
    Busquei a postagem entre os blogues denunciados, e não constava.
    Como editor, revisei o texto, decidi apagar uma palavra (alusiva à condição racial da companheira do Mr. Allan, penúltimo parágrafo) e recolocá-lo no ar.

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  31. Tratava-se de uma afrodescendente.

    Este texto é hoje o 5º mais acessado entre os 900 posts do blogue.

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  32. Ricardo Yates19/11/11 02:20

    Caro Francisco:
    Com prazer novamente nos encontramos . . .
    Nossa gente veio sim de Liverpool, arregimentados na Irlanda pelo Rev. Patrick Donuvon. A barcaça chamava-se "Irene". O Sinimbu, em suas justificativas, não foi de todo verdadeiro. . . O que de fato contribuiu para o "desmanche" da colonia foi o mesmo que ocorre agora. . . Promete-se "mundos e fundos" e joga-se pessoas e sonhos "ao Deus dará". Vejamos a situação dos colonos hoje acampados nos campos da Palma-Capão do Leão. . . A História se repete. . .
    Um fraterno abraço.
    Ricardo Yates

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    Respostas
    1. Meu avô era de Pelotas, descendente de Escoceses/Ingleses. Sobrenome "Legg". Ele nasceu em 1882.

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  33. Caro Vidal: Hoje,20.02.12, relendo as notas deorrentes de minhas linhas, só uma coisa eu rebato, com veêmencia.Nota que partiu de um "anônimo": Os ingleses fundaram o Country Clube (aqui até pode ser), e também a Catedral do Redentor...Essa não, porquanto quando o Clube dos Inglêses a que referi surgiu, há pelo menos quase um século a Catedral citada já existia. Rubens Amador.

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  34. Os comentários dos leitores decorrem do artigo inteiro, que fala da presença de ingleses desde o sèculo XIX (quando foi fundada aqui a Igreja do Redentor), enquanto o cronista Rubens Amador se refere só ao século XX (quando foi criado o Clube dos Ingleses).

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  35. Roderick Peter Clark19/03/12 16:43

    Sou proprietario da Charqueada Santa Rita em Pelotas e a primeira geracao de uma familia escocesa por parte do pai...o meu avo gales...era um dos diretores do Frigorifico Anglo em Barretos e passou muito tempo aqui em Pelotas...por mera coicidencia, o antigo dono da Charqueada o qual sou proprietario era o falecido Murray Cunningham diretor do Frigorifico Anglo...parabens pelo detalhado trabalho dos Britanicos em Pelotas...acho q sou um dos poucos que restam.

    Roderick P. Clark

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  36. Hoje, esta página é a 2ª mais visitada entre os 1015 posts publicados pelo blogue. Também a que já recebeu maior número de comentários.

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