domingo, 3 de fevereiro de 2013

Arquiteto opinou sobre pórtico grego

Antes da construção do pórtico grego defronte à sede da Academia Pelotense de Letras, o arquiteto Pedro Luís Marasco da Cunha escreveu O Portal da Discórdiaem agosto de 2012, opinando sobre argumentos contra e favor da colocação do monumento dentro do Parque. 

Pedro Marasco da Cunha
Sem se referir ao sentido do pórtico (homenagear a tradição cultural pelotense), Marasco da Cunha assegura que as colunas gregas têm tudo a ver com a arquitetura da cidade, mas não com o Parque. O mais adequado ali seria um projeto paisagístico. Ao longo desta postagem, transcrição de seu artigo, veja imagens de alguns pórticos gregos de prédios em Pelotas, construídos no século XIX e XX. 

Em novembro, o pórtico da Academia foi inaugurado (v. o post Um pórtico polêmico). Em dezembro, Marasco se elegeu membro do ConCult para o período 2013-14. 


O modelo é o mesmo desta fachada de 1887
 (Asilo de Mendigos, defronte à Academia)
Refleti, relutei antes de escrever, porém não me contive e aqui estou dando a minha opinião e, espero, contribuição para o polêmico tema. Como arquiteto e envolvido na cultura pelotense, sinto-me habilitado para tal.

Desde 2007 os membros da Academia Pelotense de Letras (APL) tentam homenagear, presentear Pelotas com uma obra – conhecida como Portal Grego – em frente à sede da entidade, cuja construção já foi iniciada, suscitando controvérsias e, mais uma vez, contestada pelo Conselho Municipal de Cultura (Concult).

Ironicamente, em Pelotas, orgulhosa de seus valores culturais, há uma falta de sintonia entre uma academia de intelectuais e um órgão municipal, ambos voltados à preservação e divulgação do nosso bem maior – a cultura – e que, por isso mesmo, deveriam trabalhar em perfeita harmonia.

Existem, a meu ver, equívocos dos dois lados, tanto dos defensores como dos contestadores do questionado pórtico ou portal.

Similar pórtico protege a entrada
da antiga Escola Eliseu Maciel (1883)
A imprecisão já começa pelo nome, visto que não aparenta se tratar de um simples portal, mas de uma construção arquitetônica de consideráveis dimensões, inclusive com estrutura de micro-estacas de concreto armado. Construção contígua à sede da APL que, se não altera as características daquele tradicional prédio, pode comprometer o visual e ser um elemento fora do contexto, segundo o Concult.

A argumentação para a não aprovação da obra, justificada por critérios tais como: "inadequada aos padrões da cidade" ou "não pertinência de um modelo com referencial exógeno e sem conexão com o padrão de nosso patrimônio histórico", soa como sentença surreal, fruto de um conceito (talvez preconceito) ou gosto pessoal dos membros do Concult e em desacordo com as evidências da realidade pelotense.

É óbvio que uma decisão de um conselho municipal responsável pela cultura não pode, singelamente, basear-se no que os seus membros – por mais qualificados que sejam – entendem por "bom gosto" ou "mau gosto", atitude mais condizente com o júri do Programa do Faustão. Imaginem se nós, arquitetos, ficássemos dependendo do gosto pessoal dos encarregados da aprovação dos nossos projetos na prefeitura, quantas e quantas obras espalhadas pela cidade não seriam construídas! Estaríamos à mercê dos humores dos burocratas de plantão; coisa de regimes totalitários.

No prédio moderno, o imenso e solene portal se inspira na Grécia Antiga.
Desta incoerência arquitetônica os pelotenses não reclamam.
Basta uma simples observação de qualquer leigo nas fachadas dos nossos prédios históricos – neoclássicos ou neorrenascentistas – para se constatar a presença de cariátides, frontões, arcos, colunas jônicas, dóricas, coríntias..., enfim, referências greco-romanas, nas quais não só a arquitetura, mas toda a nossa cultura ocidental tem origem.

Casa de loja maçônica
mescla diversos elementos
Portanto, o argumento de que o portal possui referencial "exógeno", desconexo com o padrão de nosso patrimônio histórico é algo absurdamente falso, além de ser uma afronta aos membros da APL, homens e mulheres cultos, professores, historiadores, escritores e poetas com obras publicadas, que muito contribuem à cultura de Pelotas.

Não simpatizo com a construção do portal da Academia, no entanto jamais utilizaria uma justificativa baseada numa argumentação inverídica e insustentável. Outros motivos poderiam ser apresentados, como o excesso de construções numa área onde deveria prevalecer o verde – no caso, o Parque Dom Antônio Zattera, antiga Praça Júlio de Castilhos (nome que, aliás, deveria ter sido preservado).

Minha sugestão seria, ao invés da APL gastar R$ 20 mil em mais uma construção no Parque, um projeto paisagístico no local com árvores e bancos. Uma iniciativa bem menos custosa, simpática e ecológica, evitando toda essa polêmica em torno de um portal, considerado por alguns como um "presente grego" à Princesa do Sul.

Pedro Luis Marasco da Cunha

Pórtico da Academia Pelotense de Letras, após a inauguração em novembro de 2012

Fotos: Facebook (1) e F. A. Vidal (2-6)

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