domingo, 14 de abril de 2013

Os mestres e a mística do Ginásio Pelotense

Segundo prédio do Ginásio Pelotense, utilizado desde 1903 até 1961 (foto anterior a 1912)

Colégio Municipal Pelotense foi fundado em 24 de outubro de 1902 pela Loja Maçônica Antunes Ribas, com o nome de Ginásio Pelotense. As aulas começaram em 1903, no casarão da rua Miguel Barcelos nº 563; ante o aumento das matrículas, a escola mudou-se, no mesmo ano, para o imponente palacete da Félix da Cunha nº 520 esquina Tiradentes, que já existia desde 1835 e segue de pé (hoje em uso pela UFPel). Municipalizado na década de 1920, o Pelotense recebeu denominação de Colégio em 1943. Permaneceu nesta sede por 58 anos, até 1961 (v. histórico escrito em 2001). 

O artigo Os professores como um diferencial competitivo, de Neves, Amaral e Tambara, realizou um mapeamento de professores do ensino privado em Pelotas no período 1875-1910 (Cadernos de História da Educação, vol. 11, nº 1, 2012, p. 165-188).

O ex-gato-pelado Rubens Amador não perdeu contato com sua turma do Ginásio egressa em 1946, e recorda os nomes dos professores que ajudaram a fazer a boa fama intelectual do Colégio. O texto abaixo compila recordações feitas por ele em artigos no Diário Popular, Diário da Manhã e Amigos de Pelotas. Veja outros dados históricos no post Figura do Gato-Pelado foi criada por Aldyr Schlee.


O Ginásio Pelotense que cursei
Um velho colega do então chamado “Gymnasio Pelotense” perguntou-me se eu não estava exagerando, quando lhe comentei, no café, que o nosso Pelotense era considerado uma das escolas de maior prestígio no País. Naquele tempo nós achávamos que só o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, famoso por seu corpo docente, se igualava ao velho Pelotense. Logo lhe perguntei se ele se lembrava dos nossos mestres naqueles distantes dias, e lhe refresquei a memória com um desfile de alguns dos professores que tivemos.

Nosso professor de Português era o grande Francisco de Paula Alves da Fonseca, inesquecível por sua didática. O nome Paula Alves é uma legenda no ensino do nosso idioma. Na matemática, seu irmão, o marcante professor Joaquim Alves da Fonseca, talento raro para ensinar. Ambos, exímios nas suas matérias.

Quem nos ensinava Francês era um parisiense, o Dr. Jules Delanoy, engenheiro civil. Até hoje lembro como nos fazia repetir exaustiva e frequentemente: “In” em francês faz “Am”; “O-U” em francês faz U; na terminação E-T, o T é sempre mudo. E assim por diante.
Pintura do palacete Ribas nos anos 40, de autor desconhecido
No Inglês tivemos o professor Adolfo Souza, que trabalhara por 18 anos na Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos. Era conhecido como Mister Souza, o brasileiro que falava inglês sem sotaque. Inclusive nosso professor de Educação Física era um suíço, chamado Roberto Müller. Outro estrangeiro era nosso professor de Canto Orfeônico, o maestro espanhol Valeriano Olivares, formado em Barcelona e autor de várias peças para piano.

No Latim, eram nossos mestres dois egressos da famosa Universidade de Coimbra: o Dr. Antônio Augusto Pinto, advogado português, que considerávamos homem da maior cultura, e, igualmente lusitano, Dr. Salvador Balreira, médico. No naipe brasileiro, o professor Felisberto Machado, que costumava falar em aula só em latim, explicando-nos os textos. O professor Machadinho, como o chamávamos, também era notável latinista.

Profissional de grande conhecimento técnico, o professor de Desenho, Dr. Benjamim Gastal, possuía curso em Seattle, nos Estados Unidos, aonde foi se aperfeiçoar na matéria, e lá esteve por um ano. Nos ensinou tudo sobre as colunas gregas, fazendo-nos desenhá-las. Nosso professor de Geografia era o Dr. João Mendonça, advogado, que tinha todos os mapas, com minúcias, em sua cabeça.

Havia ainda um mestre, professor Gregório Romeu Iruzun, advogado que servira na Marinha Mercante Britânica, na qual viajou pelo mundo, por vários anos. Nós o chamávamos carinhosamente de “Coringa”, porque, toda vez que faltava um professor, ele assumia seu lugar onde parara seu colega, na matéria que fosse: inglês, francês, história do Brasil ou universal, latim, ciências, geografia, português. Como poliglota que era, ensinou-nos que o habitante de Cádiz, na Espanha, é uma exceção; diz-se "gaditano".

Depois, no Curso Científico [Ensino Médio] encontrávamos, na matéria de Química, o Dr. Ceslau Maria Biezanko, cientista polonês que figura nos compêndios de entomologia por ter descoberto um inseto único, aqui no Rio Grande do Sul, que leva o nome científico de “Biezankóia Brasiliensis”, em homenagem a seu descobridor.
O Colégio Salis Goulart funcionou neste prédio por cerca de 40 anos.
Lembro ainda do Dr. Vicente Russomano, advogado, que lecionava História, homem de vasta cultura. Outro advogado que nos dava aulas de História era o Dr. Apody de Oliveira, grande conhecedor da matéria.

Em Ciências, dois então jovens, de vocações natas para o magistério, o doutor Francisco Louzada Alves da Fonseca e o doutor Afonso Motta da Costa, os mais recentemente falecidos desta lista de docentes de um período dourado da história do hoje Colégio Municipal Pelotense.

É com emoção e gratidão que evoco os nomes desses homens notáveis – médicos, advogados, engenheiros, músicos – que, embora fossem formados em áreas bem diversas, que não a pedagogia, achavam um tempo – dentro de suas profissões, que exerciam também – para serem professores por vocação, porque amavam a arte de ensinar.

O professor é como uma composição ferroviária: é preciso que passe, para que se tenha uma noção da sua grandeza! Com seus carismas e talentos intelectuais, esses mestres imprimiram ao nosso educandário uma marca registrada que se mantém viva até hoje! O que gera a mística em uma escola é sempre seu passado de glórias e a lembrança dos mestres inesquecíveis, por sua bondade e saber.

A mística do Pelotense atravessou os anos e, ainda hoje, continua viva naquela casa, atualmente na rua Marcílio Dias. Os professores de hoje por certo serão lembrados também, pelo amor com que ensinam aos seus alunos e por sua competência, quando o futuro chegar...Com isto desejo prestar homenagem aos professores e à direção de hoje, que receberam o bastão, no revezamento histórico do Pelotense e têm se saído tão bem.

Do Pelotense de que falo saíram grandes cabeças, conterrâneos que se destacaram nacionalmente pelos cargos importantes que exerceram, ou pelos livros reconhecidos que escreveram, nomes incorporados à história de uma Pelotas que sempre se destacou pela sua cultura. Esses vultos todos sintetizo no destacado nome do Dr. Mozart Victor Russomano, um antigo Gato Pelado, que teve como seus mestres no Velho Pelotense todos esses nomes que citei acima – segundo confirmou-me ele, em inesquecível conversa que entretivemos pouco antes de sua morte.

Os remanescentes da turma do Ginásio de 1946 já firmaram um pacto: o último, haverá de comparecer, de smoking, num derradeiro 24 de outubro, em um restaurante fino e – em silêncio – deverá beber uma taça de champagne relembrando em seu íntimo a cada um dos colegas que se foram, dos mestres e do Gymnasio Pelotense, sem dúvida o templo da mística, para nós.
Rubens Amador


O ex-gato-pelado José Duarte Bacchieri (1925-2005) passou a juventude em Pelotas, dos 9 aos 22 anos de idade. Começou sua carreira no Diário Popular e na Rádio Pelotense, foi vereador em nossa cidade (1952-1955), vindo a destacar-se em Porto Alegre como político, jornalista, empresário e historiador (v. uma biografia). No vídeo abaixo, trecho de entrevista com Flávio Alcaraz Gomes em 2004, em que menciona alguns dos professores do Ginásio Pelotense na década de 1940.


Fotos da web

Um comentário:

Anônimo disse...

Prezado Vidal:
Foi com muita alegria que me deparei com as uniões que fizeste de matérias minhas, que resultaram num texto maravilhoso.Coisa de Jornalista. Apreciei muito a matéria.
Tudo o que se refere ao meu "Ginásio", mexe comigo.
Gostaria de ser aquele "último", que referi num de meus trabalhos, quando só sobrar um "Gato Pelado" remanescente daqueles dias fulgurantes e inesqueciveis que lá vivemos, aprendendo com mestres notáveis. Iria de "smoking" num restaurante fino, e ergueria uma taça de champagne, em um brinde a todos que se foram. Pretendia com isto manter a nossa mística até o fim.
O trabalho que postaste está muito bom. Parecia-me que estava vendo o Bacchieri, que foi meu grande amigo, e de quem recebi sempre os melhores encômios.
Abraço, Rubens.