
Lojas, bancos, escolas, cinemas, museus, consultórios, universidades, tudo pára. Por duas horas se realiza aquele narcisismo absoluto - próprio de um ato amoroso - enaltecido pela música de Roberto Carlos: pára o bairro e a cidade, nessa hora tão feliz, e é tanto o amor que pára até o país (ouça a música).
Em Pelotas, a Fenadoce adiantou seu período para não perder visitantes, sinalizando sua função lucrativa e o perigo econômico da Copa. Há quatro anos, a Feira do Doce havia coincidido com os jogos na Alemanha, mas terminou impondo-se a loucura mundial: o povo preferia torcer em casa, não nos telões da Feira.
O primeiro jogo da seleção brasileira na África do Sul foi nesta terça (15), às 15h30min. Como se esperava, o comércio fechou e as ruas esvaziaram. Antigamente se dizia de algo arrasador, que era "de fechar o comércio", como aqueles bandidos arruaceiros de faroeste. Mas aqui nada havia de sensacional ou extraordinário; somente mais um jogo da seleção. A vítima desse perigo arrasador seria o próprio comércio.

No Calçadão, a maioria das lojas fechou pelo resto do dia, enquanto a Renner e a Pompeia ficaram abertas e sem clientes. O museu mais importante de Pelotas, pertencente à UFPel, informou turno único das 8h às 14h (esq.), apesar de que o horário do Sistema Nacional de Museus inclui atendimento até em domingos.
O Banco do Brasil também planejou e informou abertamente seu horário especial, das 9h às 14h. Nos Correios, o atendimento foi anunciado até as 15h, e as agências fecharam.

Talvez respeitando o valor supremo da saúde, várias farmácias não fecharam e, cheias de funcionários verde-amarelos, colocaram televisores perto da calçada, para que os transeuntes também pudessem torcer. A maioria dos ambulantes da Floriano sumiu do mapa, restando dois com uma TV ligada. Nesta imagem, um grupo da farmácia (comércio estabelecido) vê o jogo num televisor, enquanto camelôs veem o futebol em outro (dir.). Tolerância e indiferença mútua, como ocorre no dia-a-dia.


A obsessão tem servido para fins diversos, como fugir do trabalho, faltar ao dentista, passear o cachorro (abaixo, a senhora com a camisa do Romário) e outras atividades igualmente solitárias. Cada um realiza seus fins pessoais, encoberto pelo egoísmo coletivo: aí está uma pequena definição de nossa tendência à corrupção. Um psicólogo diria: desaparição do superego construtivo, predomínio do prazer amoral.

Certo, é preferível enlouquecer pelo circo esportivo do que pela guerra contra o terrorismo (EUA), e por isso seguimos sendo o paraíso da festa, da gazeta e do oportunismo.
Devo acrescentar que neste texto acentuei o verbo "pára" - ao contrário do que manda o novo acordo ortográfico - justamente para evitar as confusões geradas pela falta do signo.
Fotos de F. A. Vidal
Fotos de F. A. Vidal
2 comentários:
"Um psicólogo diria: desaparição do superego construtivo, predomínio do prazer amoral." Interessante o comentário...
Ah, grata pela dica daquela música. Valeu!
Bj, Tê!
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