sexta-feira, 16 de abril de 2010

Super-heróis: caricaturas ou sintomas?

Nesta quarta-feira (14), o psiquiatra Nei Guimarães Machado palestrou na Sociedade Sigmund Freud sobre os heróis dos quadrinhos à luz da psicopatologia.

Mesmo com somente uma dúzia de participantes, o encontro recordou, por momentos, a época em que o criador da psicanálise se reunia em Viena com discípulos interessados em conhecimentos novos e reveladores. Neste caso, o doutor trouxe uma proposta de fácil compreensão, cheia de arestas emotivas e útil para a discussão de aspectos mentais, sociológicos e artísticos.

O próprio Freud abordava todos os temas humanos de seu tempo, desde os mais teóricos - como a religião, a arte e a antropologia - até os mais cotidianos, como espetáculos, publicações de atualidades, tradições, anedotas e contos de fadas. Escreveu um par de livros sobre Moisés, um dos maiores heróis bíblicos. Se vivesse hoje, não teria deixado de analisar os super-heróis, os ídolos de moda e os personagens de filmes e telenovelas.

Fã dos quadrinhos que surgiram nos anos 40, Nei Machado mencionou uma dezena de figuras heroicas, passando pelas biografias deles, suas façanhas, inimigos e traços patológicos ou do desenvolvimento psíquico. Observou que os traumas de infância são decisivos na aparição de certos "heroísmos", as vinganças e até de patologias mentais.

A bipolaridade do Super-Homem (triste versão do ideal de Nietzsche) e a do Incrível Hulk (reedição do Médico e o Monstro) contrastam com a falta de superpoderes do esquizoide Fantasma.

O Capitão América teve um sentido político durante a Segunda Grande Guerra: no número 1 da revista - relatou o palestrante - "o marmanjo aparecia dando uma sova em Adolf Hitler", vilão da realidade, muito recordado como personificação de desajuste mental e social (imagens acima). Chaplin representou esse conflito, mais elegantemente, no filme "O Grande Ditador".

Sobre o Homem-Aranha, o dr. Machado escreveu em 2002 - quando saiu o primeiro filme - que se tratava de uma simbolização do despertar sexual da adolescência (leia o artigo). Por outro lado, Batman tem características depressivas, paranoides e homossexuais. A Mulher Maravilha representa a liberação da mulher nos anos 60, e assim por diante.

Os diversos super-heróis podem ter significados políticos - construídos com diversas características de anormalidade mental ou com superpoderes simbólicos (as cores americanas no uniforme do Super-Homem) - ou simplesmente psicológicos, com a idealização ou exagero de traços de personalidade ou de momentos do desenvolvimento humano. O mesmo pode ocorrer nos personagens dos contos, dos quadrinhos, da TV e do cinema.

O primeiro livro sobre o assunto foi "Psicanálise dos Contos de Fadas", de Bruno Bettelheim (Ed.Paz e Terra, São Paulo). Existe um livro mais amplo, com personagens modernos e alguns brasileiros (nenhum super-herói): "Fadas no Divã", de Mário e Diana Corso (Ed. Artmed, Porto Alegre).
Imagens da web (2-3) e F. A. Vidal (1)

3 comentários:

Anônimo disse...

Lamentei não ter ido a palestra do Dr.Nei Machado sobre os "heróis"das histórias em quadrinhos.Ele, meu velho amigo de muitos anos, é um excelente profissional. Pena que em nossa cidade os acontecimentos culturais do gênero, bem como certos pianistas e artistas em geral que se apresentam em nosso Conservatório, têm muito pouco público quase sempre, devido a pouca publicidade que é feita.Gostei demais do tema desenvolvidao por Nei, (caro que Freud não dispensaria dar uma olhada no Fantasma, no Lil Abner, no Batman. Apreciei os comentários feitos em torno da palestra, que deram o mote que motivou a palestra.Outra, não perderei.Rubens Amador.

Francisco Antônio Vidal disse...

As reuniões da Sigmund Freud são anunciadas no seu sítio da internet e aparecem também no Diário da Manhã.
http://www.scsfreud.com.br/eventos/reunioes.asp

Tear de Sentidos disse...

Ainda bem que ele não comentou sobre o meu herói Topo Gigio!!!! Rsrsr!
Mas fiquei curiosa: o que não diria a Psicanálise sobre o "inocente ratinho"???
Rsrsr! Ótima postagem, Francisco!
Seria bom divulgar aqui também, se me permite uma sugestão. Não sei ao certo, mas parece que o Dr. Nei não mora mais em Pelotas, logo, ocasiões como essas são raras.
Bj, Tê!