
A tradição dos doces finos (dir.) tem sua origem vinculada ao cotidiano de lazer dos industriais do charque, de linhagem portuguesa, concentrando-se, sobretudo, na sede do município, no interior dos casarões e sobrados que esses empreendedores construíram.
No século XX, coincidindo com o fim do período áureo das charqueadas e por intermédio das recém surgidas confeitarias, esses doces e suas receitas se expandiram pela cidade, tornando-se, em alguns casos, fonte de renda de algumas famílias que antes se sustentavam do lucro saladeiril.
A produção dos doces coloniais (abaixo) está diretamente relacionada aos processos políticos decorrentes do fim da escravidão no país: a maioria dos charqueadores era proprietária de uma chácara no interior do município, com a finalidade de ocupar os escravos no período da entressafra; essas terras foram, após a Abolição da Escravatura, vendidas ou arrendadas, dando origem a algumas colônias, as quais receberam inúmeros contingentes de imigrantes europeus, tais como franceses, espanhóis, pomeranos, austríacos, italianos e alemães.

Estas duas tradições se disseminaram pelos mais diferentes espaços de sociabilidade de Pelotas, incorporando novos significados, desdobrando-se em novos ingredientes e adaptando-se ao paladar dos pelotenses.
Um exemplo da multiplicidade de forças criativas que perpetuam essas tradições é o encontro entre o sentido de amabilidade e celebração que o doce adquiriu na cidade e o culto à doçura, vivenciado pelas religiões afro-brasileiras, nas quais os doces são utilizados como oferendas aos orixás, presentes, demonstrações de carinho e desejo de tranquilidade e alegria.
Na FENADOCE, evento em que fica evidenciado o caráter criativo da manutenção desta tradição, concursos são feitos, doces são inventados e perpetuados, novos ingredientes são incorporados, novos sentidos e valores são atribuídos, processando a atualização dessa doçaria. Valorizam-se então, na região de Pelotas, suas doceiras, sua produção familiar, religiosidade, território, classe social, identidade étnica. Ressalta-se, enfim, a história de uma cidade que se consagra como Capital Nacional do Doce.
Foto 1: Vinícius Costa

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