sábado, 7 de março de 2009

Atualização, ainda que tardia

Em nossa Catedral (antigamente Cathedral), algumas figuras da Via Sacra (esq.) trazem legendas pela grafia anterior a 1943 (Jesus cáe; Mãe afflicta).

A jovens da paróquia, me vi traduzindo as tais expressões ao uso atual, explicando-lhes que se tratava de "português antigo". Eles ficaram surpresos ao perceber quanto tempo tinham aquelas peças de arte sacra. E eu me surpreendi ao ver nossa tendência a conservar as grafias do século XIX.

Em nota anterior falei do Conservadorismo Ortográfico e agora vou me referir à atualização.

Com as reformas ortográficas, o normal é que as pessoas se corrijam na medida de sua capacidade de aprender coisas novas e de se adaptar a normas impostas. Os mais jovens e flexíveis aprendem em dias, enquanto os mais conservadores levam anos ou décadas.

O sistema público atualiza os nomes das ruas e de instituições, como o Conservatório de Música (originalmente sem acentos gráficos). Mas algumas se resistem a mudar, em função dos significados que o povo lhes atribuiu, o que inclui seus nomes.

O Jockey Club de Pelotas é um exemplo de como os termos ingleses entraram no Brasil sem a obrigação de se aportuguesar de imediato. Os substantivos comuns (como "football", "club" e "sport") terminaram se adaptando, mas os nomes próprios não.

E qual a fronteira entre um nome comum e um próprio? O Club Commercial de Pelotas (dir.) hoje é simplesmente Clube Comercial. Não houve suficiente amor pelo clube como para conservar a antiga grafia? Será a atualização ortográfica tão custosa como a renovação de nossos sentimentos?


Quando foram criados, no século XIX, o Asilo de Mendigos, na rua Doutor Amarante (abaixo) e o Asilo de Órfãs, na Gonçalves Chaves (esq.) tinham Y e PH. Mas mesmo que o Acordo tenha reabilitado o cá, o ípsilon e o dáblio, ninguém pensaria em retomar a grafia Asylo, que se lê nas inscrições dos prédios até hoje.

Por motivos formais, os nomes das pessoas devem conservar-se como foram registrados, mas também eles terminam tendo que adaptar-se, para respeitar a ortografia vigente. Por tal motivo, Erico Verissimo ficou, em vida, sem os acentos das proparoxítonas (que na época não eram acentuadas).

No entanto, uma vez que tais nomes passam aos livros de história e ao domínio público, a grafia já pode atualizar-se: Escola Érico Veríssimo, Colégio Rui Barbosa, Casa de Cultura Mário Quintana (os gaúchos ainda insistem na grafia original, Mario).

Sem ir tão longe, a nossa rua Barão de Butuhy passou a Butuí, sem contemplações. E até o nome de nosso país, Brazil, rendeu-se às regras do século XX: como a letra Z só deveria teria determinados usos no meio das palavras, ficou Brasil e não se falou mais nisso.

Nosso idioma tem esse traço iconoclasta, de depredar aos poucos as jóias históricas, ao sabor das épocas. Mas essa tendência também é parte de nossa natureza: adaptar-se no meio social, segundo as necessidades. Respeitemos as convenções mutáveis, mas não percamos a memória, que se guarda nos documentos e nos museus.
Fotos de F. A. Vidal

3 comentários:

tecersentidos disse...

Interessante essa relação entre patrimônio histórico, nomes de prédios, ruas, etc., e a desgnação linguística. Já havias feito matéria sobre esse tema, Francisco, e concordo contigo: há nomes dessas obras que devem ser mantidos pois foram criados em contexto hitórico-social e cultural determinado.
No entanto, com esse debate, o que me veio à memória, não foi a manutenção ou não da grafia "antiga" ou "nova" desse patrimônio. Simplesmente a grafia ...
Vou relatar um caso de que fui "vítima", eh, eh, e, portanto, sou aquilo que se chama comumente de "argumento de autoridade" a fim de polemizar sobre o tema.
Há alguns anos, alugava uma sala para ministrar cursos em um edifício cujo nome era "Champs-Élysées". Pois é. Todo mês, quando ia pagar o aluguel, drigia-me ao funcionário da imobiliária para efetuar o pagamento e solicitar o recibo. Este, prontamente, em alto e bom som, dirigindo-se à colega, dizia: "Fulana, por favor, me traz daí o recibo da sala do 'Champis'!
Onde eu poderia enfiar minha cara?! Dói, não dói? A verdade é que, não sei como acontece em ouras cidades,mas, aqui, é costume _ talvez seja "chic"! _ nomear prédios com nomes estrangeiros: franceses, italianos,etc.
Para um povo que domina mal o idioma estrangeiro ensinado em geral nas escolas como o inglês, por exemplo ("The book is on the table?"), é difícil ter de "engolir" mais essa ...!
Bj, Tê!

Francisco Antônio Vidal disse...

O exemplo do Châmpis me leva às adaptações fonéticas de palavras estrangeiras (não ortográficas). No Rio, o Colégio do Sacre-Coeur é conhecido como "Sacrecré". Dali também nos vem a horrorosa palavra "brechó", corruptela de Belchior, antigo dono de uma casa de objetos usados. Não tenho exemplos análogos de Pelotas.
O Everest Executive Center (Princesa Isabel e Gonçalves Chaves ) ficou só como "Evereste" (e nem é o mais alto).
Esperemos que o espanhol fique chique.

tecersentidos disse...

Eh, eh! Boa, Francisco!
Ah, um link para o "etimologista" pelotense, pois gosta de etimologia: http://intervox.nce.ufrj.br/~edpaes/curiosa.htm
Curiosidades da Língua Portuguesa-Etimologia
O site apresenta, por meio de artigos, a curiosa origem das palavras da Língua Portuguesa.
Bj, Francisco!