
A jovens da paróquia, me vi traduzindo as tais expressões ao uso atual, explicando-lhes que se tratava de "português antigo". Eles ficaram surpresos ao perceber quanto tempo tinham aquelas peças de arte sacra. E eu me surpreendi ao ver nossa tendência a conservar as grafias do século XIX.
Em nota anterior falei do Conservadorismo Ortográfico e agora vou me referir à atualização.
Com as reformas ortográficas, o normal é que as pessoas se corrijam na medida de sua capacidade de aprender coisas novas e de se adaptar a normas impostas. Os mais jovens e flexíveis aprendem em dias, enquanto os mais conservadores levam anos ou décadas.
O sistema público atualiza os nomes das ruas e de instituições, como o Conservatório de Música (originalmente sem acentos gráficos). Mas algumas se resistem a mudar, em função dos significados que o povo lhes atribuiu, o que inclui seus nomes.

E qual a fronteira entre um nome comum e um próprio? O Club Commercial de Pelotas (dir.) hoje é simplesmente Clube Comercial. Não houve suficiente amor pelo clube como para conservar a antiga grafia? Será a atualização ortográfica tão custosa como a renovação de nossos sentimentos?

Quando foram criados, no século XIX, o Asilo de Mendigos, na rua Doutor Amarante (abaixo) e o Asilo de Órfãs, na Gonçalves Chaves (esq.) tinham Y e PH. Mas mesmo que o Acordo tenha reabilitado o cá, o ípsilon e o dáblio, ninguém pensaria em retomar a grafia Asylo, que se lê nas inscrições dos prédios até hoje.
Por motivos formais, os nomes das pessoas devem conservar-se como foram registrados, mas também eles terminam tendo que adaptar-se, para respeitar a ortografia vigente. Por tal motivo, Erico Verissimo ficou, em vida, sem os acentos das proparoxítonas (que na época não eram acentuadas).

Sem ir tão longe, a nossa rua Barão de Butuhy passou a Butuí, sem contemplações. E até o nome de nosso país, Brazil, rendeu-se às regras do século XX: como a letra Z só deveria teria determinados usos no meio das palavras, ficou Brasil e não se falou mais nisso.
Nosso idioma tem esse traço iconoclasta, de depredar aos poucos as jóias históricas, ao sabor das épocas. Mas essa tendência também é parte de nossa natureza: adaptar-se no meio social, segundo as necessidades. Respeitemos as convenções mutáveis, mas não percamos a memória, que se guarda nos documentos e nos museus.
Fotos de F. A. Vidal
3 comentários:
Interessante essa relação entre patrimônio histórico, nomes de prédios, ruas, etc., e a desgnação linguística. Já havias feito matéria sobre esse tema, Francisco, e concordo contigo: há nomes dessas obras que devem ser mantidos pois foram criados em contexto hitórico-social e cultural determinado.
No entanto, com esse debate, o que me veio à memória, não foi a manutenção ou não da grafia "antiga" ou "nova" desse patrimônio. Simplesmente a grafia ...
Vou relatar um caso de que fui "vítima", eh, eh, e, portanto, sou aquilo que se chama comumente de "argumento de autoridade" a fim de polemizar sobre o tema.
Há alguns anos, alugava uma sala para ministrar cursos em um edifício cujo nome era "Champs-Élysées". Pois é. Todo mês, quando ia pagar o aluguel, drigia-me ao funcionário da imobiliária para efetuar o pagamento e solicitar o recibo. Este, prontamente, em alto e bom som, dirigindo-se à colega, dizia: "Fulana, por favor, me traz daí o recibo da sala do 'Champis'!
Onde eu poderia enfiar minha cara?! Dói, não dói? A verdade é que, não sei como acontece em ouras cidades,mas, aqui, é costume _ talvez seja "chic"! _ nomear prédios com nomes estrangeiros: franceses, italianos,etc.
Para um povo que domina mal o idioma estrangeiro ensinado em geral nas escolas como o inglês, por exemplo ("The book is on the table?"), é difícil ter de "engolir" mais essa ...!
Bj, Tê!
O exemplo do Châmpis me leva às adaptações fonéticas de palavras estrangeiras (não ortográficas). No Rio, o Colégio do Sacre-Coeur é conhecido como "Sacrecré". Dali também nos vem a horrorosa palavra "brechó", corruptela de Belchior, antigo dono de uma casa de objetos usados. Não tenho exemplos análogos de Pelotas.
O Everest Executive Center (Princesa Isabel e Gonçalves Chaves ) ficou só como "Evereste" (e nem é o mais alto).
Esperemos que o espanhol fique chique.
Eh, eh! Boa, Francisco!
Ah, um link para o "etimologista" pelotense, pois gosta de etimologia: http://intervox.nce.ufrj.br/~edpaes/curiosa.htm
Curiosidades da Língua Portuguesa-Etimologia
O site apresenta, por meio de artigos, a curiosa origem das palavras da Língua Portuguesa.
Bj, Francisco!
Postar um comentário