
O relato tem um ponto de partida clássico, o retorno às origens após uma longa ausência. Além desse detalhe biográfico, Ramil coloca outros, como a figura admirável do irmão mais velho e o fato de viver rodeado de artistas. Mas o principal é que ele fala de sua cidade natal - o lugar físico e histórico - e de Satolep, a sua Pelotas inventada, lembrando trocadilhos da infância, quando ele e os amigos brincavam de inverter a ordem das palavras. Vítor, por exemplo, se chamava Rotiv Oguh Sevla Limar. Anos depois, criaria o Barão de Satolep, personagem tão intenso que teve que ser deixado de lado para que Vítor pudesse aparecer e falar.
Costumava ver minha alma quando criança, ao bafejar nas vidraças de junho para nelas escrever meu nome. Minha alma carregava meu nome. [...] Viajando pelo mundo, eu não a vira.

Eu tinha a sensação de já estar há muito tempo em Satolep, mas acabara de chegar. Era a minha segunda noite na cidade, a primeira em minha casa. O céu estava límpido, estrelado. A cerração de ontem parecia recordação de outro inverno.

À direita, uma das 27 imagens do livro, perante o lugar fotografado. Pelotas e Satolep coincidem bastante.
Refletir sobre a natureza de Pelotas... É o lugar mais úmido do mundo? A tradição leva a algum futuro? O que fazer com nossas ruínas? Na decadência há algo que sobreviva? Ramil não só tem boas respostas: ainda as reúne sob um novo paradigma, a Estética do Frio (Sul-melancolia-umidade-penumbra), e nos oferece a esperança da auto-estima, a do Patinho Feio que se descobre belo em sua re-visão.
O relato dá uma elegante explicação do anagrama de “Pelotas”. Eu pensava: será uma contraposição à estética tropical (frio versus calor)?

Há outra alusão interessante na foto de capa (esq.): é a mesma na contracapa, mas invertida. Observe-as bem e parecerão locais diferentes. Pelotas-Satolep?
O livro é da editora paulista Cosac Naify, com preço fixo de 39 reais. Vale como ficção, como documento histórico e como forma de autoconhecimento. Para conhecer e para amar Pelotas. Dá vontade de saboreá-lo na intimidade. Como um descobrimento psicanalítico.
Foto 1: Blog Roccana2. Foto 2 e 4: Cosac Naify. Foto 3: F.A.Vidal.
POST DATA (01-02-10): O vídeo abaixo, que promove o livro, foi feito por Eduardo Amaro da Silveira, pelotense residente em Lisboa. Sugerido por Teresinha Brandão em comentário do post "Cidade de Sombras".
Um comentário:
Francisco, sensacional a resenha da obra do Ramil, dá vontade de ler e reler - devorar - o livro! Ele está na minha cabeceira, li as primeiras páginas... mas depois de ler tua percepção psicanalítica da obra, tenho vontade de abandonar todos os meus afazeres e me deitar, de preferência em um quarto úmido e frio, a ler SATOLEP...
Abraços, Jana
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