sábado, 21 de março de 2009

Rua Santa Cruz, início e fim

A rua Santa Cruz é uma das longitudinais de Pelotas mais antigas, mas sem grande relevância social, em relação a outras vias do centro da cidade. Estende-se das proximidades do canal São Gonçalo até uns 100m adiante da Avenida Bento Gonçalves.
Seu nome homenageia a Cruz onde morreu Jesus Cristo; pelo menos em nossa cidade, é o único nome "santo" de rua que não se refere a uma pessoa. O segundo nome oficial do Brasil foi Terra de Santa Cruz.
Historicamente, considera-se Centro toda a zona urbana mais alta, favorecida pela visão sobre o São Gonçalo e por estar a salvo de inundações; nesse setor desenvolveu-se a política e a cultura pelotense, a partir da fundação da Freguesia, em 1812.
Geograficamente, a rua Santa Cruz localiza-se ao longo da baixada ou declive desse território, como se metaforicamente surfasse na onda que cai em direção à chamada Várzea. Suas colegas paralelas ao longo da Baixada são a Gonçalves Chaves e a Almirante Barroso. Entre a Princesa Isabel e a Sete de Setembro (dir.), encontra-se bem no meio da onda.
A Santa Cruz sempre teve um caráter secundário; o único registro que encontrei em pesquisa rápida foi ter acontecido em 7 de setembro de 1911, no nº 56 da antiga numeração, a fundação do Grêmio Esportivo Brasil. Era a residência de um dos primeiros jogadores, Salustiano Brito (veja a referência).
A casa da família Nascimento pertence à Barão de Butuí, mas é mais familiar à Santa Cruz. Ela conserva de seus inícios o baixo muro de proteção; é hoje, em Pelotas, das poucas residências sem grades (esq.).
Até a primeira metade do século XX, o trecho entre Butuí e Princesa Isabel não existia; a quadra dos fundos da grande propriedade (do Asilo de Órfãs) foi separada, ficando depois para o INPS, e a rua foi aberta. Nos anos 70, a numeração foi alterada para incluir o trecho antes da Benjamin Constant, na época sem construções.
Não se pode dizer que a Santa Cruz tenha uma tradição artística ou cultural. A primeira sede do Colégio Santa Margarida foi num prédio alugado, na esquina com General Neto; isto ocorreu por uns anos, na segunda década do século XX, a julgar pelo artigo de Gladys Lange do Amaral (veja o texto). Bem mais recentemente, fundou-se o Espaço de Dança Laís Hallal (número 1300) e a locadora Arte&Vídeo abriu o Espaço Molière (número 2252).
Em 2008, muitas ruas receberam asfalto por cima dos antigos paralelepípedos, e a Santa Cruz entrou nesse plano de modernização rápida, desde a Gomes Carneiro até a Bento Gonçalves. Na foto à esquerda, a esquina com a Lobo da Costa.
Desde o asfaltamento, esta é uma via importante de escoamento de veículos da zona do Porto em direção ao norte. Quando se iniciava o asfaltamento, anunciou-se a ideia municipal de inverter o sentido do trânsito, para que a rua servisse de alternativa à Gonçalves Chaves para trazer o movimento do norte ao sul, mas até hoje não se fez essa inversão.
Fui buscar a primeira casa da Santa Cruz, e descobri que se tratava do número 441. Além dali, a rua está fechada por um portão gradeado (dir.), abrindo/fechando a possibilidade de casas com números mais baixos. Esses primeiros metros têm chão de terra, sendo as casas de material firme. A imagem é de uma vila antiga, ou da periferia de uma cidade pequena. Galinhas passeiam soltas, mas grades e cercas mostram que estamos numa cidade "moderna".
No extremo oposto, onde a rua termina, encontrei um calçamento com pedras irregulares, daquelas que impedem o carro de ir a mais de 20 km/h. O final está marcado por um muro de uma residência ou empresa (esq.), como se a rua tivesse invadido um espaço baldio até quase entrar em propriedade privada.
Em síntese, 3 quilômetros de sul a norte, com metade asfaltada e os extremos fechados sem saída, conservando tempos antigos.
Fotos 1 e 2: SkyscraperCity (Farrapo).

7 comentários:

Anônimo disse...

O nome da rua refere-se ao antigo cemitério da Santa Cruz, localizado entre as ruas Almirante Barroso e Avenida Bento Gonçalves, fechado em 1829 e transferido para os fundos da Matriz. O nome da localidade surge após a fundação de uma cruz missionária no ano de 1846.

Francisco Antônio Vidal disse...

Bem lembrado.
Mário Osório Magalhães conta que entre 1812 e 1818 houve um cemitério na Barroso com Bento Gonçalves (nomes atuais das ruas). Anos depois, já instalada a igreja da Freguesia, onde hoje é a Catedral, dois sacerdotes pregaram a Santa Missão e, como marco comemorativo, foi levantada uma cruz de madeira naquele descampado. Era tão grande que podia ser vista da igreja, e o nome pegou. Possivelmente, sugere ele, seja o único nome de rua em Pelotas que subsiste desde tão antigo, naquela tradição popular de batizar as ruas com nomes poéticos ou naturais, com vida própria, e não como homenagens póstumas (História e tradições da cidade de Pelotas, 5ª edição, p. 80-82).

Anônimo disse...

Poderíamos seguir o exemplo e iniciativa de nossos vizinhos riograndinos, que colocaram belas placas de azulejaria com os nomes originais nas principais esquinas das ruas do centro da cidade.

Apenas por curiosidade, essa Missão Popular de 1846, em Pelotas, foi pregada por dois sacerdotes jesuítas. Como se sabe, a Companhia de Jesus fora expulsa de Portugal e suas colônias em 1758, sendo a Ordem suprimida por decreto papal dois anos depois, sob pressão das cortes burbônicas da Europa. Restaurada a Companhia em 1814, por Pio VII, os primeiros jesuítas voltaram ao Brasil em 1843. Os dois padres que pregaram em Pelotas, portanto, muito provavelmente estavam entre esse grupo pioneiro. Na década de 1880, a instâncias do Vigário, Cônego Augusto Joaquim de Siqueira Canabarro, estabeleceram aqui uma Residência, passando a dar assistência espiritual nas capelanias dos hospitais e casas de caridade, para, em 1895, fundar o Ginásio Gonzaga - vendido, por sua vez, em 1926 aos Irmãos Lassalistas, e mantendo os jesuítas suas primitivas capelanias, com a residência que existe até hoje, à Rua Lobo da Costa, esquina Mal. Deodoro, belo prédio em péssimo estado de conservação, com seu característico mirante.

Juliano Freitas disse...

Olá, estou a procura das origens do Grêmio Esportivo Brasil e como descrito neste texto sabemos que sua fundação se deu no número 56 da Rua Santa Cruz, teria como saber exatamente qual era o número 56 desta rua em 1911? Este dado é importante pois estamos tentando "reviver" como toda essa paixão começou e comemorar o centenário em grande estilo!


Grato,
Juliano Freitas
jubafre@msn.com

Francisco Antônio Vidal disse...

A informação básica está no site do G.E. Brasil, mas não esclarece o ponto exato.
A numeração antiga começava na Benjamin, e o 400 estava entre Telles e Tiradentes. Logo, posso deduzir que o 56 ficasse entre Gomes Carneiro e Tamandaré.
Pode-se perguntar a moradores desse trecho, ou a velhos torcedores, ou consultar guias telefônicos dos anos 70.

Antonio Luiz disse...

Xavante Munhoso na área... Gol do Brasil!
Eu já conhecia um pouco a história da Rua Santa Cruz, graças a meus tempos de linotipista do Diário Popular de 1972 a 1987, quando tive o privilégio de compor matéria a este respeito brilhantemente escrita por Rubens Amador. (Perdoem-me se não foi o Amador quem escreveu, mas seja quem for, foi um belo trabalho.) Agora deparo-me novamente com este tema e vejo o quanto a história é importante na vida das pessoas. Estamos as portas do centenário do G. E. Brasil e o pioneirismo daqueles jovens ainda hoje movimenta nossa imaginação em busca de uma explicação para este fenômeno chamado Torcida Xavante.

Francisco Antônio Vidal disse...

Devo corrigir um detalhe: a numeração antiga não começava na Benjamin Constant, mas no mesmo ponto em que as casas começam (essa pequena quadra onde os números são da casa do 400). Está errada a dedução que fiz sobre estar o velho nº 56 após a Tamandaré.
Dei-me conta disso ao visitar de novo a rua e encontrar o antigo número 102 entre Benjamin e Conde de Porto Alegre (uma placa que não foi removida nos últimos 40 anos).
Portanto, o 56 estava nesse trecho que aparece na penúltima foto. Como os vizinhos são poucos, mais de um deve saber.

Em e-mail particular, Rubens Amador me disse que não foi ele o autor daquela matéria. Possivelmente tenha sido Mário Osório Magalhães.