quinta-feira, 30 de abril de 2009

Pelotense citado em discurso da ABL

João Manuel dos Santos Cunha sempre diz que nunca criou nada e que inveja de coração os grandes criadores das artes, especialmente da literatura e do cinema. Até parece que ele despreza o pensamento crítico e a comparação de textos e gêneros, mas não é assim; na verdade, ele extravasa uma enorme paixão por esses focos de estudo, aos quais dedica todo seu tempo, há mais de 40 anos, e seguirá dedicando até o fim da vida, com entusiasmo crescente.

Quem o conhece por aqui sabe que ele é famoso em sua área, pelo menos no Estado, mas não suspeita que suas pesquisas chegaram a ouvidos da Academia Brasileira de Letras, a mesma de Machado de Assis e dos fardões renascentistas.
A tese de doutorado de João Manuel (UFRGS, 1996) foi citada pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos em sua posse na Academia, em julho de 2006. O título completo da tese de João Manuel (veja o currículo Lattes) é: A lição aproveitada - modernismo e cinema em "Amar, verbo intransitivo" (referência ao livro de Mário de Andrade, publicado em 1927).
A inclusão de Pereira dos Santos (esq.) entre os imortais das letras foi a maior homenagem que a ABL podia ter feito ao cinema - hoje com 80 anos, seu currículo inclui 27 filmes dirigidos e/ou produzidos desde 1949 até 2005. É o único acadêmico que não tem bibliografia; somente filmografia. Talvez seja o único caso no mundo - não fiz a pesquisa. Mas também devemos reconhecer que a Academia faz nele, ao mesmo tempo, uma saudação ao modernismo e ao nacionalismo e reconhece a equiparação dos gêneros artísticos e textuais. O próximo passo da ABL deverá ser mudar seu nome para Academia Brasileira de Textos.
No discurso de Pereira dos Santos, uma parte se refere à relação entre cinema e literatura, em que introduz ideias que João Manuel pesquisou e organizou - sendo sua tese somente um de tantos trabalhos. Transcrevo em azul o trecho alusivo, e deixo o link para o site da Academia, que traz informação completa sobre todos os acadêmicos desde 1897 (leia o discurso completo).
O professor João Manuel dos Santos Cunha, em sua tese de Doutorado, "Uma Lição Aprendida", faz um excelente resumo de todas as abordagens teóricas sobre o assunto. Demonstra exaustivamente que é mais do que consagrada a constatação de que o cinema influenciou as artes narrativas, em especial o romance. 
Em contrapartida, cita autores que apontam a influência da literatura no cinema, especialmente no cinema de vanguarda e nos filmes pós Nouvelle Vague [sem grifar e em minúsculas, no original], enquanto outros provam que a linguagem cinematográfica está presente na literatura, desde a Antigüidade clássica. 
João Manuel dos Santos Cunha registra em seu trabalho que o teórico francês Paul Léglise escreveu um "ensaio de análise fílmica do primeiro canto de Eneida", de Virgílio, e cita, a propósito, outro importante teórico da Sétima Arte, Henri Agel, que afirmou: "...existe um cinema em estado latente, presente desde sempre, e de forma especial, nas literaturas antigas".
Imagens da web.

Um comentário:

Teresinha Brandão disse...

Tive o privilégio de ser colega do prof. João Manuel na Ufpel! Sem dúvida, seu entusiasmo pela literatura e cinema são contagiantes! Não sabia da tal citação na Academia, sobretudo quando o citador é Nelson Pereira dos Santos. Parabéns, prof. õão Manuel! Um bj! Um bj à netinha Helena!
Teresinha Brandão