
O tema interessava aos alunos do curso, que está iniciando sua terceira turma, e a todos os especialistas em literatura comparada ou em artes fílmicas: Literatura e Cinema, natureza e limites de uma relação intertextual e transemiótica.
João Manuel tem dedicado sua vida acadêmica - 42 anos de magistério - a pesquisar sobre as relações entre o cinema e a literatura e não deixa de mostrar todo o entusiasmo que sente, entregando a riqueza de seus conhecimentos e estimulando o intelecto dos ouvintes a que se leia mais sobre cada assunto e logo a discutir cada ponto exaustivamente.
Nesta ocasião, o ponto central do tema era a possibilidade de se traduzir textos literários ao gênero fílmico. Não é concebível transpor um livro ao cinema, pois os gêneros são diferentes; as linguagens impedem transcrever os conteúdos, mas é possível recriar ou "transcriar". Os textos escritos despertam nossa imagens mentais, enquanto os filmes já trazem imagens visuais feitas; no entanto, as imagens mentais seguem latentes à observação de um filme.

Não foi projetado nenhum vídeo, mas os exemplos foram abundantes. Como se já estivesse dentro de uma disciplina regular, o professor pediu que lêssemos o livro "Reparação", de Ian McEwan, e víssemos o filme inglês do mesmo nome - Atonement (2007), com a atriz Keira Nightley (esq.) - chamado em português "Desejo e Reparação". Este é um simples exemplo de como os tradutores recriam até no título de uma obra. Em uma próxima oportunidade, poderíamos fazer comparações entre gêneros e linguagens à base dessas obras.

Outra comparação a ser feita: entre o conto do gaúcho João Gilberto Noll "Alguma coisa urgentemente" (1980) e sua adaptação fílmica, "Nunca fomos tão felizes", dirigido por Murilo Salles (1984).
As duas horas desta verdadeira aula magna transcorreram rápido, em meio a exemplos, perguntas e comentários feitos em dois contextos paralelos: o diálogo vivo entre o mestre e quase uma centena de discípulos e a leitura formal de um texto de 16 páginas - versão adaptada para os alunos de Cinema de uma aula antes proferida por João Manuel sobre o mesmo tema.
A intenção era ler tudo em 50 minutos, mas após uma hora e meia, com tantos parênteses ilustrativos e algumas perguntas dos presentes, o professor só pôde chegar à página 6 e declarou a exposição terminada, passando então a um diálogo livre de perguntas e respostas.

Os livros de Schlee ainda não foram "transpostos" ao cinema, mas apareceu um filme com a mesma temática, "O Banheiro do Papa" (2007), que não menciona o livro nem o escritor em seus créditos. Verdade que Schlee teve a ideia primeiro, mas as duas obras não têm inspiração mútua, mas sim num mesmo fato da realidade, a partir do qual desenvolvem conteúdos, formas e processos diferenciados.
Imagens da web (2-4) e F.A.Vidal (1).
Um comentário:
Que saudade do meu professor favorito.
Tenho até medo de cometer erros no comentário.
Ele sempre me dava nota boa com a observação de que era pelo conteúdo.
Tenho esse livro do João e fico com muita pena de não ter o do Schelee, de quem também sou fã. Encontrei com João Manuel, pela última vez, pouco antes de vir morar no Rio de Janeiro.
Ele vinha de Porto Alegre e eu ia apresentar Pelotas para o marido. Sentei no chão do ônibus para vir batento papo com ele :)
João se você ler isso aqui mande um e-mail
ccarriconde@uol.com.br
Deixo um beijo para todos.
Postar um comentário