terça-feira, 26 de maio de 2009

Parceria entre pintor e escritor

Há uma semana, o pintor e escritor Manoel Soares Magalhães criou dois blogues : um literário, no qual reedita seu livro mais recente, e um sobre sua pintura naïve, que comentei aqui antes (veja o post).
Jornalista formado nos anos 70, Manoel desenvolve posteriormente uma vocação literária, começando por reportagens e contos, passando por uma peça de teatro e chegando ao romance, onde já publicou três títulos e prepara o quarto.
Há poucos anos, inicia silenciosamente um caminho nas artes plásticas, autônomo em relação a academias artísticas e em aparente desconexão com a literatura. Nesse caminho, o da pintura, seus resultados se podem perceber como mais expressivos e sugestivos, mais complexos e de mais longo alcance (no tempo e no espaço).
Os dois blogues de Manoel não têm relação entre si, mas o segundo é o que mais promete em termos da construção de um novo discurso (autêntico e também criativo em relação ao nosso contexto artístico). Se Manoel já surpreendia por sua inquieta e inquietante multiplicidade, agora nos mostra seu talento integrador.
Neste blogue-folhetim, ele divulga em trechos seu romance "Vampiros", relatos sobre o submundo marginal de Pelotas, escritos num estilo que também pode considerar-se, literariamente, marginal.
Ao entrar no endereço acima, aparece este aviso:
"O blog que você está prestes a abrir possui conteúdo adequado somente para adultos".
Imagens eróticas? Não; somente uma linguagem meio forte, própria da marginalidade social. Como exemplo, veja as primeiras linhas do livro (post de 21 de maio):
Gosto de gatos. Até bem pouco tempo atrás havia um cagando e mijando em meu apartamento. Pinguço era seu nome. Enorme e preto, pelo luzidio, extremamente preguiçoso. Gostava de vodca, o danado!

Com esse longo nome (tipo jornalístico), o autor apresenta seu ateliê virtual de arte naïve. Cada imagem vem acompanhada de um breve texto. Imaginamos que ele terá sido feito pelo escritor, mas não; eles respeitam o espaço um do outro. Cada qual no seu blogue. Aparece aqui um terceiro personagem, que faz a conexão entre os dois que conhecíamos, ou acreditávamos conhecer.

Eis aí a versatilidade de Magalhães para assumir um novo gênero: mais do que a simples soma de literatura e pintura, percebemos por primeira vez uma voz central que representa Manoel como um todo e o faz nos dois idiomas: o visual e o verbal. Quem fala não é um crítico nem um publicista, mas o artista propriamente; sua voz não explica nem elogia o que vemos, mas testemunha o que a pessoa nunca havia dito. A seguir o que ele postou dia 21 de maio último:

A pescaria de Deus

Minha mãe costumava dizer que Deus é um pescador. Comentava isso ao pé do fogão a lenha, olhos dançarinos, velado sorriso nos lábios. Fala mansa, recomendava-me ficar atento a Ele, pois seu "anzol" a qualquer momento poderia desabar diante de nosso nariz, tentando-nos.

Eu ficava muito sério, imaginando o que o Senhor haveria de querer conosco, grandes pecadores que éramos - no dizer do padre Agostinho no alto do púlpito, olhar de fogo. Experimentando abalos no corpo, às vezes eu corria em direção ao campo aberto e ficava olhando as alturas na expectativa de ver o tal "anzol".

Jamais ele balançou à minha frente como minha mãe argumentara, mas, claro, "ele" existe e se nós permitirmos seremos, sim, fisgados pelo Senhor que está sempre disposto para uma "conversinha" a sós conosco.

Duas sugestões formais para aprimorar o texto: revisar melhor acentuação e ortografia, e recordar a diferença entre naïf (masculino) e naïve (feminino).
Imagens de M.S.Magalhães.

6 comentários:

Anônimo disse...

É um tipo de pintura diferente. Não conhecia. Mas linda! Com imensas possibilidades de interpretações. Vai de encontro, realmente, com o que tenho visto em Pelotas em termos de arte. É um jeito de pintar, ainda que simples, desafiador, pois nos leva a pensar acerca de tudo um pouco, notadamente sobre a história da cidade. Li que o autor trabalha para uma exposição trazendo de volta o tempo das charqueadas. Vidal, é no mínimo curioso trabalhar tema tão espinhoso para Pelotas expressando-se em estilo tão ingênuo. Será que ela vai conseguir? Espero que sim.

Anônimo disse...

Magalhães é um artista criativo, com característica de contumaz rebelde. Tudo que faz em termos de arte mexe e remexe com as pessoas. Assim é em sua marginal literatura e será nas artes plásticas. Pelotas tem de valorizar talentos como ele que subvertem valores, ainda que para isso tenham que se indispor e fazer frente ao status quo.

Anônimo disse...

Vidal, explica melhor este negócio de arte naif e naïve... Acho que artista naïf é naïf, independentemente de ser homem ou mulher. Já tenho visto catálogos sobre tal arte e eles são claros em denominar de naïfs ambos os sexos... Obrigada pela atenção. Quanto ao trabalho do artista, acho divino!!!! Quanta sensibilidade! Parabéns a ele!

Yolanda - Curitiba

Fernando disse...

O trabalho de Manoel é maravilhoso e os textos casam perfeitamente com as telas. Artista de primeira.
E, dando pitaco onde não fui chamado, o termo "Naïf" é mais usado, foi praticamente adotado para identificar esse tipo de pintura e de artista, seja homem ou mulher. Acho que é porque "arte" em francês é masculino, então diz-se "L'art naïf". Mesmo o MIAN é: Museu Internacional de Arte Naïf". Mas, pode-se, também, fazer a concordância correta mesmo que usemos uma palavra em português e outra em francês, como "pintura naïve" ou "arte naïve". Também sou pintor e minha primeira expo se chamou "Impressões naïves". Preferí fazer a concordância certa.
Parabens Manoel, sucesso e alegrias na vida e nas artes

Francisco Antônio Vidal disse...

Yolanda, no francês não há mistério; o feminino se faz com o E final, assim como em português é com A. Grand-grande, chaud-chaude. Há casos menos regulares: naïf-naïve, heureux-heureuse. E há formas sem flexão.
Quanto a chamar todos os artistas de naïf, fica por conta de como se chama esse tipo de arte. Em francês, "art" é masculino, e por isso "art naïf".
Por lógica não deveríamos dizer "artista ingênuo ou ingênua", pois sua arte é que é ingênua, não a pessoa. Mas em português passa despercebida essa mistura, e terminamos dizendo "artista naïf", por seu estilo, não pela pessoa.
O enredo está armado. Quem respeita a forma francesa "l'art naïf" cria discordância em português ao dizer "a arte naïf".
Como o Fernando acima bem sugere, eu prefiro a concordância certa no nosso idioma. Sejamos nacionalistas (como os franceses são); já aceitamos muito com usar essa palavra estrangeira. Pintura naïve, arte naïve, pintor naïf, pintora naïve.

Anônimo disse...

Na arte da escrita magalhães trouxe o cheiro das ruas aos seus livros. Poucos escritores fazem isso, preferindo optar pela "limpeza". É preciso coragem para mostrar a crueza do mundo. Já em sua pintura o artista revela-se "limpo" (ainda que continua fazendo críticas e denúncias). Magalhães, como disse alguém acima, é um sujeito desafiador, pois, tanto na escrita quanto na pintura vai ao seu limite, revelando mundos aparantemente antagônicos, mas que têm tudo a ver um com o outro.